Idéias antiescravistas da Ilustração na sociedade ... ?· Idéias antiescravistas da Ilustração…

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Idias antiescravistas da Ilustrao na sociedade escravista brasileira

Antonio Penalves Rocha Universidade de So Paulo

Rejeito o testemunho [sobre a condio dos escravos] dos que defendem a causa da

escravido, dos que propem ameniz-la pelas leis, quando vejo que eles tm ou esperam ter empregos dados pelos proprietrios, ou que

eles prprios tm escravos, ou que, enfim, foram protetores ou cmplices da tirania nas colnias.

(Condorcet)

A onda de mudanas que varreu o Ocidente a partir do incio dos Tempos Modernos no suprimiu as estruturas de antigas formas de organizao da produo, baseadas no emprego do trabalho forado. Mesmo no sculo XVIII, uma instituio multimilenar - a escravido - e outra multissecular - a servido - exibiam vigor, submetendo milhes de escravos negros nas colnias americanas e servos espalhados pela maior parte da Europa.

At meados desse mesmo sculo, essas instituies foram consideradas como partes constitutivas da natureza das sociedades. A partir da, no entanto, tornaram-se alvo de veementes ataques de alguns escritores da Ilustrao, que incorporavam inclusive crticas de grupos religiosos ingleses - quacres e evanglicos - escravido negra; neles se encontram as bases de um iderio que desempenhou um papel histrico relevante por ter fundamentado a repulsa do mundo contemporneo a qualquer espcie de trabalho forado, legitimando, conseqentemente, o estabelecimento universal das sociedades baseadas no emprego do trabalho livre.

Com efeito, a eficcia histrica desse iderio foi de tal ordem que movimentos abolicionistas e estadistas da Amrica e da Europa usaram seus princpios, nos sculos XVIII e XIX, para desmantelar as ltimas sociedades escravistas da histria, ou para eliminar os remanescentes do trabalho feudal. O combate simultneo escravido e servido deveu-se, a princpio, a uma identificao entre ambas as instituies no vocabulrio, pois, como demonstrou Jean Ehard, "o sculo XVIII nem sempre distinguia escravido e servido com clareza"1. isso que se v na afirmao de Adam Smith de que um tipo de escravido "ainda subsiste na Rssia, Polnia, Hungria, Bomia, Morvia, e outras partes da Alemanha. somente nas provncias do oeste e do sudoeste da Europa, que ela vem sendo gradualmente abolida"2, ou na censura de Raynal a Montesquieu, dado que este ltimo havia dito que cristianismo e escravido eram incompatveis: "na Alemanha catlica, na Bomia, na Polnia, pases muito catlicos, o povo ainda escravo"3. Mesmo na segunda dcada do sculo XIX, Henri Storch, um economista russo, num livro publicado em francs e comentado por J.-B. Say, referia-se "escravido de corvia" na Rssia, embora reconhecesse que havia diferena "entre um escravo russo e um negro vendido nas colnias"4.

H testemunhos de que este mesmo iderio, principalmente nos termos em que havia sido formulado na Ilustrao francesa, foi trazido para o Brasil - a segunda maior sociedade escravista da Amrica5 -, nas primeiras dcadas do sculo XIX, principalmente por estudantes brasileiros que tinham freqentado universidades europias, como as de Coimbra6, Montpelier, Edimburgo e Estrasburgo.

A presena de estudantes brasileiros nas universidades europias dos fins do sculo XVIII e incio do XIX e o transporte das idias ilustradas para o Brasil j receberam a ateno de historiadores como Maria Odila da Silva Dias e de Kenneth Maxwell7. Silva Dias analisou a aquisio de conhecimentos cientficos por estudantes brasileiros na Europa e suas observaes sobre o Brasil com as lentes das cincias da natureza; Maxwell mostrou de que forma estudantes brasileiros usaram idias polticas e sociais da Ilustrao para idealizar o imprio luso-brasileiro. Certamente esses dois historiadores no deram ateno ao transporte de idias antiescravistas da Ilustrao para a sociedade escravista brasileira porque examinaram outros objetos, embora Maxwell tenha colocado a escravido em cena ao lhe atribuir um papel relevante na redefinio da

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ordem que governava as relaes entre Portugal e Brasil. De resto, a questo do transporte das idias antiescravistas ainda no recebeu da historiografia brasileira a condio de objeto de anlise privilegiado.

A principal razo de ser deste trabalho a tentativa de elev-lo a essa condio. Para realizar tal empreitada, sero examinados os textos tidos como pioneiros8 da crtica escravido no Brasil, escritos entre os anos de 1817 e fins da dcada de 1820, e publicados na dcada de 1820, exceto um deles, que s veio a lume em 1851. H, decerto, uma defasagem temporal entre a Ilustrao e a data dessas publicaes o que, no entanto, no representa uma ameaa aos propsitos do exame, pois as idias antiescravistas dos princpios do sculo XIX no romperam com as do sculo anterior, mas desenvolveram-nas.

Os textos referidos so os seguintes: Memria sobre a necessidade de abolir a introduo de escravos africanos no Brasil, sobre os modos e condies com que esta abolio se deve fazer e sobre os meios de remediar a falta de braos que ela pode ocasionar (1821) de Joo Severiano Maciel da Costa; Memrias economo-polticas (1822) de Antonio Jos Gonalves Chaves; Representao Assemblia Geral Constituinte e Legislativa do Imprio do Brasil sobre a escravatura (1825) de Jos Bonifcio de Andrada e Silva e "Da Liberdade do Trabalho" (1851) de Jos da Silva Lisboa9.

Do mesmo modo que a transposio de algumas das idias da Ilustrao para o Brasil j foi bem examinada, tambm esses textos so familiares historiografia brasileira, tendo servido de fontes para a anlise da escravido brasileira do perodo em que foram escritos, ou para explicar aspectos das relaes entre a escravido e a constituio do Estado brasileiro, ou ainda para estudar o desenvolvimento do antiescravismo no Brasil10. Enfim, no h ineditismo algum no exame do processo de transposio de idias ilustradas para o Brasil nem tampouco no uso desses textos como documentos histricos.

Mas, est tudo para ser feito no que diz respeito relao entre essa transposio e essas fontes, sendo que ela guarda informaes sobre o perfil das primeiras crticas feitas escravido no Brasil. Ou seja, se estas fontes forem examinadas por outros mtodos e submetidas a outros questionamentos ser possvel dar os primeiros passos para conhecer algo que no foi observado at hoje na historiografia: a especificidade que as idias antiescravistas geradas pela Ilustrao europia adquiriram na sociedade escravista brasileira.

No que diz respeito difuso dessas idias nessa sociedade, h que se considerar que a populao brasileira dos princpios do sculo XIX era predominantemente iletrada, o que vale dizer que os letrados formavam uma minoria numericamente inexpressiva. Deste modo, no faria sentido algum tentar examinar a propagao das mesmas, que, de resto, no tiveram nenhum efeito prtico imediato e seus provveis leitores foram certamente outros poucos letrados.

Por outro lado, esses textos permitem compreender o ponto mximo que o antiescravismo pde alcanar, na poca, dentro dessa sociedade. Alm do mais, desde a Vinda da Famlia Real ao Brasil, os letrados passaram a participar dos quadros da burocracia governamental, posio esta que mantiveram depois da Independncia, isto , participavam do nico grupo capaz de promover mudanas institucionais na escravido; inversamente, os donos de escravos, em geral, estavam acomodados ordem escravista e empenhados em mant-la.

Para levar a cabo esse exame, sero inventariados, em primeiro lugar, os autores europeus citados nos textos dos brasileiros, o que permitir no s comprovar que fizeram parte do contexto do antiescravismo da Ilustrao, como tambm conhecer suas fontes doutrinrias; em seguida, sero apresentados os principais elementos da crtica dos brasileiros escravido e as medidas prticas que propuseram para combat-la. Estes dois ltimos itens fornecero dados que sero confrontados com as linhas gerais do antiescravismo da Ilustrao francesa, pois, como se sabe, Portugal e Brasil, dos fins do sculo XVIII e incio do XIX, estavam dentro da esfera de influncia da cultura letrada francesa, alm de os mais importantes textos ingleses que condenavam a escravido terem sido traduzidos, a partir dos fins da dcada de 1780, pela Sociedade dos Amigos dos Negros da Frana11. por esse caminho que se tentar apreender a especificidade das primeiras manifestaes antiescravistas no Brasil.

I - O ANTIESCRAVISMO DOS ILUSTRADOS NOS TEXTOS BRASILEIROS

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Nada se sabe sobre o aparecimento de um antiescravismo genuinamente brasileiro durante a segunda metade do sculo XVIII, perodo este das primeiras manifestaes de condenao da escravido principalmente na Frana, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Isso no impede, no entanto, supor que se houve alguma manifestao contra a escravido gerada internamente a sua difuso deve ter sido inexpressiva, pois, alm das limitaes impostas pela censura, a impresso tipogrfica era proibida no Brasil; no bastassem estas restries, Estado, Igreja e senhores estavam interessados em preservar a escravido, e se empenhavam em bloquear a expresso de idias que ameaassem a ordem vigente.

A Anlise sobre a Justia do Comrcio de Resgate de Escravos da Costa da Africa de Azeredo Coutinho, escrita nos ltimos anos do sculo XVIII e publicada em Londres e em Lisboa, respectivamente em 1798 e em 1808, participou dessa ordem ao defender a legitimidade do trfico negreiro e, portanto, da escravido. Por meio dela, Azeredo Coutinho, conhecedor das idias europias da poca12, reagiu energicamente condenao do trfico em nome do direito natural, tal como estava sendo feita por pensadores franceses desde a publicao, na Enciclopdia, dos artigos "Escravido" e "Trfico de negros", ambos escritos por de Jaucourt.

Ao contrrio de Azeredo Coutinho, os primeiros escritores brasileiros que criticaram a escravido observaram a sociedade escravista a partir de princpios elaborados em outro tipo de sociedade. Sendo assim, o arrolamento dos autores europeus citados pelos brasileiros poder evidenciar a ligao entre estes ltimos e o antiescravismo da Ilustrao. Este mesmo procedimento fornecer tambm pistas sobre o carter do antiescravismo dos brasileiros, dado que as citaes indicam as fontes de inspirao das concepes dos brasileiros sobre o assunto.

Antonio Jos Gonalves Chaves, cujo texto ocupa cronologicamente o primeiro lugar na srie13, citou Raynal e Adam Smith. Do primeiro, extraiu um trecho da sua "Histria poltica" (sic), no qual o padre francs associou o carter nacional do colonizador com o tratamento dado ao escravo nas colnias americanas. Para Raynal, "o portugus faz deles [escravos] instrumentos de seus deboches", e Gonalves Chaves recusou tal comentrio sob o argumento de que havia nele "parcialidade manifesta"14, pois so maltratados em qualquer nao. Alm de Raynal, Gonalves Chaves citou tambm "um Economista", que se reconhece facilmente como Adam Smith, por se tratar de uma conhecida passagem da Riqueza das Naes que contm uma das suas crticas escravido; de fato, para sustentar seu argumento de que o uso de escravos causava danos econmicos, reproduziu palavras do economista escocs, segundo as quais o escravo consome o mais que pode e trabalha o menos que pode15.

O eixo do texto de Gonalves Chaves apoiava-se, no entanto, num outro, escrito por um membro da Academia Real de Cincias de Lisboa, Francisco Soares Franco, que, em 1820, publicara o Ensaio sobre os Melhoramentos de Portugal e do Brazil em Lisboa. A doutrina contida no "Quarto Caderno" deste livro, dedicada a um exame intitulado "Da Populao, e Agricultura no Brazil"16, foi vivamente recomendada por Chaves, que reproduziu um longo trecho da mesma.

Maciel Severiano da Costa citou a Apologie de B. de las Casas de Grgoire; acusou Raynal, afirmando que "todo mundo sabe" dos seus "interesses" no trfico negreiro, e da sua ligao com empresas que dele participavam em Nantes e Marselha; recorreu a Montesquieu para confirmar a idia de que o trabalho livre pode ser aplicado em todos os setores da economia adotou a explicao dada por Page no seu Tratado de Economia Poltica e Comrcio das Colnias sobre o significado do plano ingls para acabar com o trfico; assegurou que Turgot, Steuart, Adam Smith, Herrenschwand, Bentham, e Ganilh, consideravam o trabalho "menor e menos lucrativo nas mos dos escravos", ao passo que Jean-Baptiste Say "pensa o contrrio"17.

Jos Bonifcio de Andrada e Silva citou apenas Pierre Poivre18, autor das Viagens de um Filsofo ou Observaes sobre os Costumes e as Artes dos Povos da frica e da sia, escrito em 1750 e publicado em 1768. Este livro de Poivre teve um papel importante na histria da Economia Poltica francesa, tanto que, como afirmou Weulersse, os fisiocratas o consideravam, pelo valor que atribuiu agricultura, um dos precursores da fisiocracia, ou ento como "um dos seus discpulos avant la lettre"19. Esse mesmo livro foi resenhado no primeiro artigo antiescravista escrito por Du Pont de Nemours no peridico oficial da Fisiocracia - as Efemrides do Cidado ou Biblioteca Racional das Cincias Morais e Polticas (t.VI, 1768); alm disso, Du Pont tambm publicou, em 1768, uma biografia intitulada Notice sur la vie de M. Poivre. A importncia de Poivre para os termos da condenao escravido feita pelos fisiocratas assumiu uma tal proporo que

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estes ltimos adotaram suas observaes sobre a baixa quantidade de cana-de-acar produzida pelos escravos e o alto custo dessa produo, posio esta compartilhada por Jos Bonifcio.

Afora a importncia que as opinies de Poivre sobre a escravido tiveram na histria do pensamento econmico, Seeber colocou um Discurso de sua autoria, provavelmente escrito em 1767, em primeiro lugar na lista dos textos franceses do sculo XVIII que apresentaram solues prticas para a questo da escravido. Poivre recomendava que, se "o mal est feito", deveria haver estrita observncia das leis, neste caso as leis do Code Noir, para reduzir os estragos causados pela escravido. Por isso mesmo, os senhores deveriam instruir seus escravos no cristianismo, encorajar os casamentos entre eles, aliment-los e vesti-los adequadamente e trat-los com humanidade; s assim, dizia Poivre, eles "sempre serviro bem seus senhores, durante a paz e durante a guerra (...) Seus filhos consideraro a casa do senhor como a casa paternal, e a ilha [a colnia] como sua ptria"20.

No artigo de Jos da Silva Lisboa, "Da Liberdade do Trabalho"21, apenas dois autores da Ilustrao so citados: Adam Smith e Montesquieu. O alicerce do artigo foi dado pela Riqueza das Naes, mais precisamente por um princpio formulado por Adam Smith, segundo o qual h um "esforo natural de cada homem para melhorar a sua prpria condio", sendo que os interesses pessoais coincidem com os coletivos. Para Silva Lisboa, era impossvel a realizao deste princpio numa sociedade que emprega o trabalho escravo, pois o escrav...