ÍCARO ARÊBA PINTO TEORIA DO DIREITO DE KANT E SUA ... ?caro Arêba Pinto RA... · Kant é um jusnaturalista…

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  • CENTRO UNIVERSITRIO DE BRASLIA

    CARO ARBA PINTO

    TEORIA DO DIREITO DE KANT E SUA APLICAO AO DIREITO CONTRATUAL

    TENDO EM VISTA AS MUDANAS PROVOCADAS PELO DESENVOLVIMENTO

    DOS PRINCPIOS SOCIAIS MODERNOS.

    BRASLIA

    Outubro/2012

    CARO ARBA PINTO

  • CARO ARBA PINTO

    TEORIA DO DIREITO DE KANT E SUA APLICAO AO DIREITO CONTRATUAL

    TENDO EM VISTA AS MUDANAS PROVOCADAS PELO DESENVOLVIMENTO

    DOS PRINCPIOS SOCIAIS MODERNOS.

    Projeto de monografia apresentado para

    concluso do curso de direito do centro

    universitrio de Braslia.

    Orientador: Jos Rossini Campos do

    Couto Corra

    BRASLIA

    Outubro/2012

  • RESUMO

    O presente trabalho tem por objetivo investigar a possibilidade da Teoria do Direito de Kant ser aplicada ao moderno Direito Contratual. Indaga-se sobre esta possibilidade em funo da modificao trazida estrutura contratual pela criao dos princpios sociais dos contratos. O trabalho apresenta o contexto histrico do surgimento do Estado Liberal e desenvolve a Teoria do Direito de Immanuel Kant. No segundo captulo analisada a evoluo dos contratos a partir do estudo de Durkheim sobre o tema. Faz uma pontuao das principais formas contratuais que antecederam o contrato consensual e equitativo, modelos finais do instituto dos contratos. No terceiro captulo so apresentados os conceitos dos princpios clssicos do direito contratual e posteriormente feita uma comparao com a nova ideologia trazida ao sistema jurdico pelos princpios sociais; como o princpio da funo social dos contratos, da boa f objetiva e da equivalncia material. Por fim, aps o esclarecimento sob o aspecto filosfico do pensamento de Kant e o desenvolvimento dos princpios objeto deste trabalho, feita uma vinculao entre a teoria do direito de Immanuel Kant e os novos pensamentos da esfera do direito contratual. Busca responder desta forma a indagao sobre a possibilidade ou no de esta vinculao ser feita assim como aconteceu em relao poca dos princpios clssicos.

    Palavras-chave: Immanuel Kant. Contratos. Autonomia da Vontade. Princpio

    da Funo Social dos Contratos

    SUMRIO

  • INTRODUO...........................................................................................................5 CAPTULO 1...............................................................................................................7 1.1 Contexto histrico do surgimento do Estado Liberal...........................................7 1.1.1 Teorias do Jusnaturalismo................................................................................9 1.1.2 Teorias da Separao dos Poderes................................................................10 1.1.3 Teorias da Soberania Popular.........................................................................10 1.2 Do pensamento de Kant. A Metafsica dos Costumes.......................................11 1.2.1 O que liberdade para Kant............................................................................12 1.2.2 Razo prtica derivada da liberdade positiva..................................................13 1.2.3 Do imperativo Categrico................................................................................14 1.3Do Direito e da Doutrina do Direito......................................................................17 1.3.1 A justia para Kant..........................................................................................18 1.3.2A necessidade da coero ..............................................................................19 1.3.3 A posse............................................................................................................20 1.3.4 O contrato........................................................................................................21 CAPTULO 2. CONTRATOS....................................................................................23 2.0 Estudo sociolgico de Durkheim acerca da Evoluo histrica dos contratos...23 2.1 Uma definio simples do contrato.................................................................... 23 2.2 A origem da vinculao das vontades................................................................25 2.3 O Contrato consensual.......................................................................................28 2.4 As obrigaes bilaterais no contrato consensual................................................31 2.5 Questo do contrato de boa f............................................................................33 2.6 O Consentimento nos contratos..........................................................................34 2.7 O contrato equitativo...........................................................................................37 CAPTULO 3.............................................................................................................38 3.0 Negcios Jurdicos..............................................................................................38 3.1 Contratos.............................................................................................................39 3.2 Princpios dos contratos......................................................................................41 3.2.1 Autonomia da Vontade.....................................................................................41 3.2.2 Princpio da fora obrigatria dos contratos.....................................................43 3.2.3 Princpio da relatividade subjetiva dos efeitos do contrato...............................44 3.3 Dos princpios sociais dos Contratos...................................................................45 3.3.4 Princpio da funo social do contrato. Sua convergncia teoria de Kant.....46 3.3.5 Boa f objetiva..................................................................................................48 3.3.6 A boa f em relao ao pensamento de Kant...................................................50 3.3.7 Princpio da equivalncia Material.....................................................................51 Concluso...................................................................................................................53

  • 5

    INTRODUO

    O tema da monografia sobre a possibilidade ou no da aplicao

    da Teoria do Direito de Kant na teoria contratual moderna. Sabe-se que Kant foi um

    filsofo jusnaturalista que enfatizou enormemente a importncia da liberdade para o

    homem, chegando a considerar essa idia a prpria base de justia que deve

    regular o Estado. O que deve ser buscado e protegido para garantir a paz social, fim

    ltimo do Direito.

    Kant pensa no direito considerando profundamente a idia de justia

    e para isso estabelece toda uma linha de pensamento em que mostra como e

    porque a liberdade deve ser vista como o mais alto ideal a ser conservado pelo

    direito.

    Para que seja satisfatoriamente desenvolvido o tema, o captulo 1 ir

    tratar principalmente sobre a metafsica dos costumes desenvolvida por Kant, pois

    assim procedendo ser possvel desenvolver mais facilmente sua Teoria do Direito

    para depois analisar sua aplicao ou no aos princpios contratuais como hoje

    esto dispostos.

    A discusso que envolve a teoria contratual por si mesma apresenta

    um amplo campo de debates, j que, como disse Caio Mrio, o mundo atual o

    mundo dos contratos. Grande importncia tem estes negcios jurdicos na vida em

    sociedade, pois um dois meios mais eficazes de circulao de riquezas e

    consequentemente de evoluo social e jurdica tambm.

    Foi escolhido tratar antes dos princpios do que das espcies

    contratuais em si porque os princpios so regras gerais, abstratas, que esto

    desvinculados, de certa forma, de situaes concretas.

    Apesar dessa independncia dos princpios frente s

    particularidades, eles influenciam situaes especficas na medida em que

    determinam o que se deve buscar em cada caso dirio que se apresenta ao jurista.

    Por essa razo, ao tratar dos princpios ser possvel abranger todas as espcies

    contratuais sob um ponto de vista terico, semelhana das idias do filsofo a ser

    estudado neste trabalho, que preferiu criar uma teoria abstrata do Direito porque

    somente assim seria possvel analisa-lo livre das referncias de tempo ou local.

  • 6

    O captulo 2 ir trazer uma anlise da evoluo contratual feita do

    ponto de vista sociolgico, mostrando como o instituo se desenvolveu no passar dos

    anos para atingir a forma que hoje lhe peculiar.

    No captulo 3 ser feita a anlise dos princpios clssicos essncias

    teoria contratual e a mudana que provocou a incorporao dos chamados

    princpios sociais em nosso ordenamento jurdico. No decorrer desta anlise ser

    estudada ou no a possibilidade da Teoria do Direito de Kant continuar a ser

    aplicada aos contratos ou se as mudanas foram demasiadas significativas a ponto

    de se tornar incongruente sua anlise sob o ponto de vista do pensador que

    forneceu uma considervel base filosfica ao instituto contratual clssico.

    Ser usado para a realizao deste trabalho o mtodo de pesquisa

    bibliogrfico, com a leitura dos livros de Immanuel Kant, dos ensinamentos de Emil

    Durkheim, doutrinadores cveis e textos da lei para chegar ao resultado pretendido.

  • 7

    Captulo 1

    1.1 Contexto histrico do surgimento do Estado Liberal

    Kant um jusnaturalista cujo pensamento fornece as bases tericas

    jurdicas para o fundamento do prprio Estado Liberal, uma vez que ele teoriza a

    idia da justia como liberdade. Portanto, antes de apresentar o pensamento de

    Kant, ser necessrio situar, mesmo que de forma pontual, o contexto histrico no

    qual surgiu o Estado Liberal e o modelo contratual clssico para depois relacionar

    com o modelo do filsofo.

    O Estado Liberal, moderno, surgiu como uma reao ao modelo do

    Estado Absolutista, sendo como que uma anttese deste. O que caracteriza o Estado

    Absoluto justamente a sua soberania frente a todos os outros poderes, inclusive

    queles originrios da prpria sociedade, como as fontes do direito.

    A natureza do Estado Absoluto, do ponto de vista do direito, o no

    reconhecimento de nenhum outro ordenamento jurdico que no seja o estatal, seu

    poder absoluto j que o nico capaz de produzir o direito. Esta situao comea

    a surgir na passagem da Idade Mdia para a Idade Moderna.

    Na Idade Mdia existia uma pluralidade de ordenamentos jurdicos,

    cada um com sua autonomia, e justamente por essa caracterstica, pela falta de um

    poder unitrio, um critrio nico de avaliao jurdica, os limites dos poderes de cada

    um destes ordenamentos estavam encerrados em sua prpria estrutura. Um

    ordenamento encontra os limites de seu poder em outro ordenamento que era

    igualmente originrio e autnomo.

    Na passagem para a Idade Moderna, no entanto, quando surgem as

    grandes monarquias absolutistas, um processo de unificao passa a ocorrer. Todas

    as fontes de produo jurdicas e todos os ordenamentos superiores e inferiores ao

    Estado, passam a se reunir em um ordenamento nico, o estatal, cuja expresso a

    prpria vontade do prncipe. No existe, portanto, um poder superior vontade do

    prncipe, j que ela cria o prprio direito.

  • 8

    Nem mesmo o poder da igreja, com o desenvolvimento do

    absolutismo, poderia ser comparado com o poder do prncipe. Pois, de fato,

    juridicamente sua vontade no encontrava limites, mas at mesmo os limites

    religiosos e morais deixaram de oferecer obstculos, algo que o pensamento de

    Maquiavel justificou muito bem. Este filsofo considerava a poltica como uma

    categoria autnoma, independente da moral e da religio. Afirma ele que o soberano

    deve agir de acordo com os interesses do Estado, para a sua conservao.

    O maquiavelismo assim entendido chega a fazer parte da teoria da razo do Estado, que acompanhou a consolidao do Estado absoluto. Com a expresso razo de Estado deve ser entendido que o Estado tem suas prprias razes, que o indivduo desconhece1

    Ou seja, aquele que detm o poder soberano no est ligado nem

    s leis jurdicas nem morais, pois suas aes buscam apenas a preservao do

    Estado.

    Essa a moral que o prncipe segue; a virtude para ele so as

    aes que tendem conservao do Estado, e aquelas que levam sua destruio

    so vcios. Dessa forma foi justificado o Estado Absoluto, tanto jurdico como

    moralmente.

    neste contexto que surgem as teorias liberais, como uma resposta

    ao absolutismo.

    O nascimento do Estado Liberal tem como fases culminantes as

    duas revolues inglesas do sculo XVII e a Revoluo Francesa.Foi acompanhado

    por teorias polticas cujo propsito fundamental era o de encontrar um remdio

    contra o absolutismo do poder do prncipe.2

    As teorias polticas modernas voltaram-se, portanto, problemtica

    da imposio de limites ao poder do prncipe a fim de que ele no possa abusar do

    poder em suas mos.

    Podem-se dividir as teorias em trs grandes grupos que buscam de

    diferentes maneiras uma forma de limitar os poderes do prncipe. A teoria do

    1BOBBIO, Norberto. Direito e Estado no Pensamento de Emanuel Kant. 2 ed; traduo: Alfredo

    Fait. So Paulo: Mandarim, 2000..Pg .22 2 BOBBIO, Norberto. Direito e Estado no Pensamento de Emanuel Kant. 2 ed; traduo: Alfredo

    Fait. So Paulo: Mandarim, 2000., pg. 24

  • 9

    jusnaturalismo, a teoria da separao dos poderes e a teoria da soberania popular,

    ou democracia.

    1.1.1 Teorias dos Jusnaturalismo

    De acordo com o jusnaturalismo o Estado encontra um limite externo

    aos seus poderes; este limite a prpria natureza do homem. O indivduo tem um

    direito independente daquele emanado da vontade do prncipe, pois pertence sua

    prpria natureza, preexistente ao Estado e dele no depende. Esses direitos

    naturais so os prprios limites do poder do Estado, pois ele no pode viol-los, bem

    ao contrrio, deve preserv-los e garantir seu exerccio.

    Tratando-se de jusnaturalismo imprescindvel abordar de forma

    mais especfica o pensamento de John Locke, j que ele pode ser considerado

    como o primeiro a apresentar uma obra mais completa sobre a formulao do

    Estado Liberal.

    Para Locke a sociedade civil se constitui de uma maneira que

    confirme o estado de natureza. Algo muito diferente do que ocorre em Hobbes,

    segundo o qual o estado de natureza deve ser evitado e transcendido a fim de que o

    homem possa viver de uma forma satisfatria sem ser vtima da maldade dos outros

    homens.

    De acordo com o liberalista, o estado originrio sim um estado

    ideal que por si s deveria ser suficiente no fosse o fato de alguns seres humanos

    terem a possibilidade de transgredir as leis da natureza, deixando de agir

    racionalmente e assim ferindo os direitos naturais dos seus semelhantes. E j que

    nesta situao inexiste uma autoridade superior capaz de garantir os direitos de

    cada um de uma forma impessoal, a justia em causa prpria iria muito

    provavelmente provocar excessos quebrando assim o estado de paz que deveria

    estar presente naquele estado original

    Ante esta situao, o homem institui o estado civil meramente para

    conservar os seus direitos naturais. Portanto, o Estado deveria ter uma interferncia

    mnima na vida dos cidados.

  • 10

    Um ponto que torna o...