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    CONFERNCIAS DE PARIS

    Edmund Husserl

    Tradutores:Artur Moro e Antnio Fidalgo

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    Apresentao

    Ed. Husserl no apresenta aqui um manifesto da fenomenolo-gia, mas antes um panorama sinttico do seu trabalho filosfico atento desenvolvido.

    As Conferncias de Paris, pronunciadas na Sorbona, a conviteda Acadmie Franaise, a 23 e 25 de Fevereiro de 1929, expem,de facto, as linhas mestras da sua reflexo fenomenolgica. So,por um lado, um tributo a Descartes, que ajudou o autor a che-gar sua descoberta da transcendentalidade do ego; e, por outro,ofereceram-lhe a ocasio para assinalar as diferenas relativamenteao sistema cartesiano, que no seguiu at ao fim o mpeto inovadorque o inspirava e movia.

    Traduzem um radicalismo semelhante: nada mais nada menosdo que instaurar um comeo absoluto da filosofia, em vista da uni-dade universal das cincias. Palpita nelas um impulso, de certomodo, espiritual, pois se busca a plena responsabilidade do filoso-far na demanda de uma sabedoria universal, no abandono de todosos conhecimentos pressupostos e garantidos, na indagao das evi-dncias derradeiras, as quais serviro, depois, para a fundamenta-o do sistema de saberes e dos valores, alm da instituio e dopressuposto de uma comunidade notica de empenhamento verita-tivo.

    Por isso, os grandes temas husserlianos vo assomando, me-dida que o discurso avana: a epoch ou a suspenso da atitudenatural perante o mundo, a reduo fenomenolgica, a intenciona-

    lidade da conscincia, a relao com o mundo e o significado deste,a questo do solipsismo, o difcil problema da intersubjectividade emuitos outros. O texto presente uma espcie de corte transversalna obra de Husserl at ento realizada: vemos os temas, o seu es-foro por uni-los, os espinhosos problemas que surgem em virtudeda soluo proposta, as virtualidades que se insinuam... Estes e ou-

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    tros aspectos traam um perfil excepcional de um pensamento emaco, sempre aqum da promessa que o anima, mas lucidamentemergulhado numa inteno de rigor e de profunda honestidade in-telectual.

    Artur Moro

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    Conferncias de Paris(1929)

    Edmund Husserl

    Poder falar sobre a nova fenomenologia neste to venerando lu-gar da cincia francesa enche-me de alegria por razes especiais.Nenhum filsofo do passado teve, de facto, uma influncia to de-cisiva sobre o sentido da fenomenologia como o maior pensador deFrana, Ren Descartes. A ele deve ela venerar como seu verda-deiro patriarca. Foi de um modo muito directo, diga-se expressa-

    mente, que o estudo das meditaes cartesianas interveio na novaconfigurao da fenomenologia nascente e lhe deu a forma de sen-tido que agora tem e que quase lhe permite chamar-se um novocartesianismo, um cartesianismo do sculo XX.

    Neste contexto posso, partida, estar bem certo da vossa anun-cia ao associar-me aos motivos das Meditationes de prima philo-sophia s quais, como creio, cabe um significado eterno, e ao carac-terizar de seguida a remodelao e a nova formao em que emergea peculiaridade do mtodo e da problemtica fenomenolgicos.

    Todo o principiante na filosofia conhece o notvel percurso do

    pensamento das Meditaes. O seu objectivo , como recordamos,uma plena reforma da filosofia, inclusive a de todas as cincias.Pois estas so apenas membros subalternos de uma cincia univer-sal, a filosofia. S na unidade sistemtica desta podem elas chegar autntica racionalidade que, tal como at agora se desenvolve-ram, lhes falta. necessria uma reconstruo radical que satisfaa

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    2 Edmund Husserl

    a ideia da filosofia como unidade universal das cincias na unidadede uma fundamentao absolutamente racional. Esta exigncia dareconstruo realiza-se em Descartes numa filosofia de cunho sub-jectivo. Este giro subjectivo cumpre-se em dois estdios.

    Primeiro: Quem quiser seriamente tornar-se filsofo deve, umavez na vida, retirar-se para dentro de si mesmo e em si tentar o der-rube de todas as cincias existentes e a sua reconstruo. A filo-sofia um assunto inteiramente pessoal de quem filosofa. Trata-se

    da sua sapientia universalis, isto , do seu saber em busca do uni-versal mas de um saber cientfico genuno, pelo qual ele desdeincio e em cada passo se responsabiliza absolutamente em virtudedas suas razes absolutamente evidentes. S posso tornar-me ver-dadeiro filsofo pela minha livre deciso de querer viver para esteobjectivo. Se a tal me decidi, se, portanto, optei pelo comeo emabsoluta pobreza e pelo derrube, ento a primeira coisa a fazer ,decerto, reflectir como que poderei encontrar o comeo absolu-tamente seguro e o mtodo da progresso, sem qualquer apoio dacincia existente. As meditaes cartesianas no pretendem, pois,ser apenas um assunto privado do filsofo Descartes, mas o prot-tipo das meditaes necessrias a todo o principiante em geral dafilosofia.

    Se atendermos ao contedo das meditaes, hoje para ns toestranho, bem depressa se leva a cabo um retrocesso ao ego filo-sofante num segundo e mais profundo sentido. o conhecido re-trocesso, originador da epoch, ao ego das puras cogitationes. oego que a si se encontra como o nico ente apodicticamente certo,enquanto pe fora de vigncia a existncia do mundo, como nogarantida frente dvida possvel.

    Ora este ego realiza, antes de mais, um filosofar seriamente

    solipsista. Procura caminhos apodicticamente certos pelos quaislhe seja patente uma exterioridade objectiva na pura interioridade.Isto acontece em Descartes do modo que sabemos, ou seja, deduz-se primeiro a existncia e a veracitas de Deus; e, em seguida, porseu intermdio, a natureza objectiva, o dualismo das substncias,

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    Conferncias de Paris 3

    em suma, o terreno objectivo das cincias positivas e estas mesmas.Todos os modos de inferncia ocorrem luz de princpios que soimanentes, inatos ao ego.

    At aqui Descartes. Agora perguntamos: vale realmente a penarastrear de forma crtica o significado eterno destes pensamentos?So eles adequados para insuflar foras vivas ao nosso tempo?

    de ponderar, em todo o caso, que as cincias positivas, quedeveriam obter mediante estas meditaes uma fundamentao ab-

    solutamente racional, se tenham to pouco interessado por ela. Nanossa poca, e no obstante o desenvolvimento fulgurante dos trssculos, sentem-se decerto inibidas pela falta de claridade dos seusfundamentos. Mas no lhes ocorre na remodelao dos seus con-ceitos bsicos recorrer s meditaes cartesianas.

    Por outro lado, de monta que as meditaes tenham feitopoca na filosofia num sentido muito singular e, sem dvida, pre-cisamente devido sua retrocesso ao ego. Descartes inaugura, defacto, uma filosofia de tipo inteiramente novo. Esta, ao modificartodo o seu estilo, empreende uma viragem radical do objectivismoingnuo para um subjectivismo transcendental, que em tentativasnovas e, no entanto, sempre insuficientes, aspira a uma forma finalpura. No deveria, porventura, esta tendncia contnua trazer em sium sentido eterno, para ns uma tarefa ingente, a ns imposta pelaprpria histria, e na qual somos todos chamados a colaborar?

    A fragmentao da filosofia contempornea no seu af desnor-teado d-nos que pensar. No h que atribu-la ao facto de as forasprovenientes das Meditaes de Descartes terem perdido a sua vi-vacidade originria? No deveria o nico renascimento fecundo,que estas meditaes despertam, consistir no em retom-las, masem descobrir primeiro na retrocesso ao ego o sentido mais pro-

    fundo do seu radicalismo e os valores eternos que da brotam? Detodas as maneiras indica-se assim o caminho que levou fenome-nologia transcendental.

    Queremos agora percorrer em comum este caminho. de ummodo cartesiano que, enquanto filsofos radicalmente incipientes,

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    queremos meditar, decerto em reformulao crtica permanente dasvelhas meditaes cartesianas. O que nestas era simples situaoembrionria deve ser levado a franco desabrochamento.

    Comeamos, portanto, cada qual por si e em si, com a deci-so de pr fora de vigncia todas as cincias que previamente nosso dadas. O objectivo perseguido por Descartes, da fundamen-tao absoluta das cincias, no o deixamos fugir, mas, antes demais, nem sequer se deve pressupor como assero prvia a sua

    possibilidade. Contentamo-nos com a nossa insero no agir dascincias e com tirar da o ideal da cientificidade como aquilo aque a cincia aspira. De acordo com o seu intuito, nada deve va-ler como realmente cientfico que no seja fundamentado medianteplena evidncia, isto , que no tenha de se legitimar pelo retornos prprias coisas ou aos estados de coisas numa experincia e

    evidncia originrias. Assim guiados, tomamos como princpio,enquanto filsofos principiantes, s julgar em evidncia e exami-nar criticamente a prpria evidncia, e isto, claro est, tambm comevidncia. Tendo, de incio, posto as cincias fora de vigncia,encontramo-nos ento na vida pr-