humano demasiado humano

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cadernos Nietzsche

8, p. 55-88, 2000

Humano, demasiado humano, livro 1 Nice, primavera de 1886*Henry Burnett**

Resumo: O objetivo deste artigo examinar o prefcio de 1886 segunda edio de Humano, demasiado humano (livro 1), destacando sua importncia para uma interpretao ampla dos escritos de Nietzsche, demonstrando sua interligao com os demais prefcios a O Nascimento da Tragdia, Humano, demasiado humano (livro 2), Aurora e a Gaia Cincia, todos do ano de 86. Apresentar, ainda, uma sntese do comentrio de Marco Brusotti, escrito como introduo edio crtica italiana dos prefcios , no qual assegura que os prefcios constituem uma autobiografia filosfica de Nietzsche. Palavras-chave: moral solido pessimismo unidade

IQual o significado do ano de 1886 na interpretao do conjunto da obra de Nietzsche, justamente o ano em que so escritos novos prefcios s segundas edies de Humano, demasiado humano (livros 1 e 2), O Nascimento da Tragdia, Aurora e a Gaia Cincia? Sob que condies Nietzsche escreveu novas apresentaes para as obras mais importantes de seu perodo inicial de pro-

Dedico este artigo ao professor Ernani Chaves (UFPa), grande amigo e primeiro incentivador de minhas pesquisas sobre Nietzsche. ** Ps-graduando do Departamento de Filosofia da Unicamp.

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duo? Era preciso aproximar essas obras da fase madura, inaugurada pelo Zaratustra , ou elas j se mostravam interligadas? Se havia uma ntida interligao, qual a necessidade da reviso ou da aposio de novas idias? Minha busca justamente pelo fio-condutor que perpassa todos esses textos, demonstrando a relevncia de uma leitura atenta, basilar para uma ampla interpretao da obra; por que temas comuns aparecem repetidamente em alguns prefcios, tais como Romantismo, Cincia, Filosofia, Schopenhauer, Wagner, Esprito Livre, Cristianismo, Moral, Solido, Tarefa, Experincia, Sade e Doena? Confrontar esses textos, analisando todas as suas possveis extenses e esclarecendo o motivo pelo qual foram escritos, o ponto de partida de minha investigao.

IIMarco Brusotti considera os prefcios de 86 uma verdadeira autobiografia filosfica de Nietzsche (Brusotti 1, p. 9)(1). Segundo ele, havia um vetor, um motivo central, que teria condicionado Nietzsche: a difuso e a compreenso de Assim Falou Zaratustra (Brusotti 1, p. 12). Nietzsche precisava torn-lo compreensvel, da a pertinncia da hiptese de que os prefcios constituem, por motivos diversos, uma autobiografia filosfica. Os prefcios dariam ainda instrumental para o entendimento da sucesso dos seus escritos; o Zaratustra era o motor do seu derradeiro perodo de produo, o ponto a partir do qual seriam desenvolvidas suas teses mais determinantes, ou, por outros termos, sobre as quais ele mais se referiu no perodo do chamado ltimo Nietzsche. Tal obra representa uma espcie de fronteira com o perodo inicial e intermedirio, um momento mpar em que algo completamente distinto se apresentara a ele. No h dvida de que essa nova fase era ntida para o prprio Nietzsche. A compreenso do Zaratustra foi condicionada aos que tivessem vivenciado experincias anlo-

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gas s suas(2), s assim esse entendimento poderia ser buscado (Brusotti 1, p. 14). Destaca ainda a importncia dos prefcios como fundamental instrumento para uma interpretao ampla do conjunto dos escritos de Nietzsche (Brusotti 1, p. 17). Entretanto, esse teor autobiogrfico no teria surgido exatamente com os prefcios; desde o perodo intermedirio de sua produo isso j podia ser notado (ver nota 13); a intensificao desse teor ocorre altura do ano de 1886, na verdade, entre outras coisas, em funo de algumas questes fundamentais: a separao com Wagner e a crise profunda na qual entrara no perodo denominado in media vita. so algumas delas (Brusotti 1, p. 09). Com o Zaratustra, Nietzsche acredita ter atingido o primeiro pice de sua produo, sentindo a necessidade, por isso, de fazer a primeira grande parada, a primeira grande prestao de contas consigo mesmo. Aps seu novo editor Ernst Fritzsch ter retomado os direitos sobre sua obra das mos de Schmeitzner, Nietzsche escreve a ele, mencionando o projeto de redigir uma srie de prefcios retrospectivos e a posteriori, a fim de promover a difuso da nova edio de suas obras (Brusotti 1, p. 11). Em carta a Fritzsch de 07 de agosto de 86, diz: O senhor perceber que Humano, demasiado humano, Aurora e a Gaia Cincia foram acrescidos de prefcios: havia alguns motivos para que, na poca em que essas obras apareceram, eu me impusesse um silncio mortal acerca delas eu estava ainda muito prximo, muito dentro delas e sabia pouco do que acontecera comigo (KSB, 7, pp. 224-5). H que se notar, principalmente na correspondncia, que Nietzsche escreve os prefcios por motivos diversos. Em carta a Fritzsch de 16 de agosto de 86, l-se: Em anexo segue uma parte do manuscrito (prefcio e poema final), com o qual eu gostaria, da minha parte, de poder desencalhar os ainda 500 exemplares de Humano, demasiado humano. Eu observo, expressamente, que para isso, nenhum honorrio me devido; meu desejo dar-lhe conhecimento de que lhe sou grato pela corajosa confiana em mim depositada (KSB, 7, pp. 227-8).

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A estreita interconexo entre eles pode ser comprovada em funo de um fragmento pstumo de 1886, onde Nietzsche traa o plano de escrever sete prefcios. Um apndice a sete publicaes.(3) Na carta a Fritzsch, portanto imediatamente anterior ao incio da redao dos textos, afasta a idia de publicar os prefcios em um volume a parte, tal projeto teria sido mencionado ao editor em uma carta que, segundo Brusotti, estaria perdida. H vrias conjecturas nesse sentido, em funo do anterior Cinco Prefcios Para Cinco Livros No Escritos, conjunto de textos dedicados Cosima Wagner na passagem do natal de 1872-1873.(4) Se por um lado os prefcios seguem um mesmo plano orgnico e tm tantas similitudes, no se pode falar em uma obra propriamente dita.(5)

IIIHumano, demasiado humano (livro 1) a primeira obra que Nietzsche, em 1886, ir prefaciar na forma de uma reviso. Tomo a noo de reviso sempre de forma cautelosa, j que esses textos, em suas entrelinhas, encerram diversas outras possibilidades. Sob diversos aspectos, a redao desses prefcios pode ser considerada como um dos momentos definitivos e mais significativos da derradeira filosofia de Nietzsche; textos que vo alm de meros apostos s segundas edies das principais obras de seu perodo inicial, principalmente porque neles feita uma ampla autocrtica, com referncias aos principais temas enfocados na sucesso de seus escritos. Os prefcios constituem uma proposta de releitura, uma reinterpretao da obra (munindo agora seus intrpretes de certezas incontestveis sobre si prprio); principalmente porque j no possvel para Nietzsche comentar os livros a que esses textos remetem do mesmo ponto de vista sob o qual os escreveu. Nietzsche encontra-se mergulhado em sua derradeira fase,

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diante de novos e inditos problemas; como se os prefcios pudessem ser vistos (e assim o so) como um arremate de seu pensamento(6), o que os distancia, em maior ou menor grau, dos escritos anteriores. Nietzsche comea descrevendo uma impresso que, segundo ele, teria sido externada com bastante freqncia sobre seus escritos: (...) conteriam todos eles, disseram-me, laos e redes para pssaros incautos, e quase que um constante e despercebido incitamento inverso de estimativas habituais de valor e de hbitos estimados. Como? Tudo apenas humano-demasiado-humano? com esse suspiro que se sai de meus escritos, no sem uma espcie de reserva e mesmo desconfiana diante da moral (...) (MA/HH, Prefcio, 1). As armadilhas para os pssaros incautos referem-se, certamente, s prprias caractersticas de sua obra, ou seja, fachadas superficiais encobririam, aos leitores apressados, seu verdadeiro sentido. Seu estilo seria um selecionador de leitores. O que Nietzsche est afirmando que os modernos no ultrapassariam a superfcie dos seus textos. Por outro lado, ao caracterizar os escritos como incitadores de uma inverso (Umkehrung) de valores, Nietzsche estabelece um dos pressupostos de toda sua obra: haveria nela uma possibilidade, inerente, de transvalorao (Umwertung). Mistura-se, de incio, uma fina ironia: Nietzsche afirma que lhe foi externada a idia de que em todos os seus escritos poderia se perceber, pelo menos, um elemento comum, a partir do qual toda sua obra poderia ser lida e interpretada; no mesmo pargrafo atribui a si mesmo o mrito por tal caracterstica. Em se tratando de Nietzsche, convm interpretar de modo cuidadoso tal afirmao. Ele sabia que desde O Nascimento da Tragdia houve inmeras retaliaes a seus escritos, principalmente as que emergiram da prpria Alemanha, crticos que desmereceram suas teses e tornaram, por vezes, ridculas suas concluses. No por acaso que o filsofo tenta demonstrar segurana e, principalmente, uma unidade conceitual, ou seja, ele preten-

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de manifestar, no s nos prefcios mas em todos os escritos do perodo, coeso de pensamento. Claro que profundamente difcil interpretar esse desejo de unidade, principalmente quando se tem em mente o fato de que seu prprio pensamento se estrutura a partir de tenses; que a ambigidade, constatvel em vrias de suas teses, fruto mais de caractersticas prprias do que de contradies propriamente ditas; isso posto, fica claro que o desejo de unidade muito mais uma vontade do que a confirmao de uma particularidade de seu pensamento. Deve-se considerar, entretanto, que esse desejo nada tem a ver com a idia ou com a elaborao de um sistema, pelo menos nos

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