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    HISTRIA E LITERATURA novas relaes para os novos tempos

    Jos DAssuno Barros

    RESUMOAs relaes entre Histria e Literatura so j antigas, e tm se intensificado nas dcadas recentes. O presente artigo pretende refletir sobre as possibilidades de interao entre Histria e Literatura, a comear pela mais recente Crise dos Referentes, particularmente nos aspectos envolvidos pela proximidade entre Histria e Fico e pelo Ceticismo historiogrfico relacionado s incertezas acerca do status cientfico do conhecimento histrico. So discutidos autores como Hayden White, com sua anlise do texto histrico como um discurso em forma de prosa, e Ricoeur, filsofo da histria que oferece a alternativa de conceber a Histria essencialmente como uma narrativa, mas sem rejeitar aspectos objetivos da produo do conhecimento histrico. A ltima parte do artigo considera outra questo: o que a Histria pode aprender da Literatura?

    Palavras-Chave: Historiografia; Narrativa; Literatura.

    ABSTRACTThe relations between History and Literature are ancient, and in recent times have been intensified. This article intents to reflect about the possible interactions between History and Literature, beginning with the Crisis of the Referents, particularly the aspects involved by the proximity between History and Fiction and by the historiography Skepticism related to the uncertainty about the scientific status of History. They are discussed authors as Hayden White, with his analysis of historic text as a discourse in prose form, and Ricoeur, philosopher of history which offer the alternative of conceive the History essentially as a narrative but without reject the objective aspects of production of historical knowledge. In the last part of the text, it is considered another question: what can the History learn from the Literature?

    Key-Words: Historiography; Narrative; Literature.

    Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), nos Cursos de Mestrado e Graduao em Histria, onde leciona disciplinas ligadas ao campo da Teoria e Metodologia da Histria. Professor colaborador do Mestrado em Histria Comparada da UFRJ. Doutor em Histria Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Entre suas publicaes mais recentes, destacam-se os livros O Campo da Histria (Petrpolis: Vozes, 2004), O Projeto de Pesquisa em Histria (Petrpolis: Vozes, 2005), Cidade e Histria (Petrpolis: Vozes, 2007) e A Construo Social da Cor (Petrpolis: Vozes, 2009).

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    A Historiografia tem conhecido muitas crises nas ltimas dcadas. Na verdade, no se trata de uma nica crise, relacionada a um s aspecto da historiografia. Apenas para mencionar alguns aspectos crticos, poderamos evocar os debates em torno da fragmentao das temticas historiogrficas (o que Franois Dosse, em ensaio de 1987, chamou de Histria em Migalhas), a crise dos grandes paradigmas explicativos (aqueles que Lyotard denominou no seu ensaio de 1979 de meta-narrativas), e as crises de manipulao da Histria pela poltica da qual nos deram fartos exemplos no ltimo sculo o Stalinismo e a historiografia revisionista que procurou amenizar a participao de grandes empresas alems no empreendimento poltico do Nazismo. Tambm assistimos, depois das benficas exploses de interdisciplinaridade desde a primeira metade do sculo XX, crises interdisciplinares relativas perda de um vocabulrio e de uma linguagem comum que possam unificar a Historiografia como um todo, e a multiplicao de especializaes historiogrficas dentro do prprio Campo da Histria no deixou de produzir tambm situaes de isolamento nas quais um tipo de historiador no parece compreender o outro. Todas estas crises, e outras mais, constituem um grande feixe de situaes crticas que tm sido confrontadas pela Histria desde o ltimo sculo. Nosso enfoque, todavia, com o objetivo de nos aproximarmos de um dos aspectos que pautam a relao entre Histria e Literatura, recair uma crise das dcadas recentes que tem sido no menos importante nos quadros da renovao historiogrfica: a Crise dos Referentes Histricos.

    A Crise dos Referentes ou seja, a idia de que a histria dificilmente poderia apreender algo de significativo ou mais preciso da realidade histrica vivida, e que, no limite, a historiografia constituiria

    Histria e Literatura sempre mantiveram relaes muito prximas, mais tnues ou demarcadas conforme a concepo historiogrfica ou o gnero de literatura; por vezes, tambm temos aqui relaes ambguas: onde termina a Histria e comea a Literatura? Onde termina a Literatura e penetramos, ainda que indelevelmente, na realidade histrica? As ambigidades so muitas e se interpenetram: a Histria, ainda que postule ser uma cincia, ainda assim um gnero literrio; a Literatura, ainda que postule ser uma Arte, est diretamente mergulhada na Histria: a histria que a constitui enquanto um gnero produzido pelo homem e incontornavelmente inserido na temporalidade; e ainda da Histria que a Literatura extrai boa parte de seus materiais seja da histria dos historiadores ou da histria vivida, mesmo que esta seja a histria annima, vivida diariamente atravs dos dramas pessoais que no se tornam pblicos. Poderamos seguir adiante enunciando os pontos de interpenetrao entre Histria e Literatura; seriam muitos.

    Neste artigo, procuraremos examinar dois momentos desta interpenetrao. O primeiro refere-se s crises relativamente recentes na quais, ao ser questionada a sua dimenso de cientificidade, a Histria produziu um setor historiogrfico que passou a insistir mais na aproximao entre Histria e Literatura; assumindo mais enfaticamente aquilo que estaremos denominando conscincia da narratividade histrica. A segunda questo, na parte final deste artigo, referir-se- aos dilogos entre a Historiografia profissional e a Literatura atravs do estilo, dos modos criativos que o historiador tem sua disposio para escrever seus textos.

    Crise do Discurso e Conscincia da Narratividade Histrica

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    fico veio a configurar um complexo mbito de polmicas nas dcadas recentes, de modo que ser oportuno problematizar aqui esta questo que, mais uma vez, aproxima Histria e Literatura de uma maneira que muitos vem com entusiasmo, e outros com apreenso.

    As entradas para esta crise historiogrfica ou para este nicho de complexidades, se quisermos examinar a questo de um outro ngulo podem ser buscadas em diversas contribuies intelectuais da segunda metade do sculo XX. A temtica do imbricamento entre Discurso, Poder e Saber j havia sido colocada, por exemplo, por Michel Foucault, nos anos 1960; mas nos anos 70 que surgiriam algumas obras decisivas para a aplicao das questes levantadas inicialmente por Foucault em relao Histria. Um definitivo artigo de Michel de Certeau intitulado A Operao Historiogrfica fora publicado em 1974. Um ano antes, Hayden White publicara a sua Meta-Histria (1973). No incio da dcada de 80, surgiria o impactante ensaio Tempo e Narrativa, de Paul Ricoeur (1983-1985), que deixaria traos no apenas na historiografia propriamente dita como tambm no pensamento sobre a historiografia, o que pode ser notado em obras como o ensaio publicado por Jacques Roncire em 1992 com o ttulo As palavras da Histria ensaio de potica do saber (1992). Todos estes textos, e outros mais, tm em comum o fato de trabalhar o reconhecimento da dimenso literria da Histria, bem como de subjetividades vrias que afetam o historiador no exerccio do seu trabalho. Assim, se a conscincia histrica j fora apontada em 1957 por Gadamer como um trao distintivo do homem contemporneo comum em relao a seus predecessores, j o historiador

    contemporneo havia desenvolvido algo ainda mais intenso: aquilo que poderemos entender como uma conscincia da subjetividade em vrios nveis, o que inclua este fator que poderemos chamar de uma conscincia da narratividade histrica.

    No apenas se contentando em dar a perceber que o homem contemporneo, do sculo XX em diante, havia assimilado irreversivelmente a plena conscincia da historicidade de todo presente e da relatividade de toda opinio, Hans-Georg Gadamer acrescentara ainda que a conscincia histrica era para o homem contemporneo (e se referia ao homem comum) um singular privilgio, e talvez um fardo. So estas as suas palavras na abertura da primeira de suas cinco conferncias de 1957, mais tarde agrupadas em livro sob o ttulo de O Problema da Conscincia Histrica (1998, p.17). Ao que parece, um fardo ainda maior, e cada vez mais pesado, teria de ser carregado pelo historiador de nossos dias. Convidados pela permanente acelerao do tempo a refletir cada vez mais sobre o seu prprio ofcio sobre o fazer ou o pensar da Histria os historiadores foram levados a descortinar cada vez mais as subjetividades que, nos vrios nveis da operao historiogrfica, acercam-se de seu trabalho.

    No incio do sculo XX, Benedetto Croce (1866-1952) afirmara em sua Teoria e Histria da Historiografia, publicada em 1920, que toda histria contempornea frase que foi emblematicamente retomada por Lucien Febvre nos Combates pela Histria, publicados em 1965. Com isso se queria dizer o que hoje soa bvio: cada Presente reconstri o seu passado de uma nova maneira, colocao que ainda tem motivado historiadores como Koselleck a repensar a cada

    A nova sensibilidade do homem ocidental com relao a uma acelerao do tempo seria um fenmeno tpico da segunda modernidade (KOSELLECK, 1998, p.289). Comeamos a perceber os primeiros escritos revelando este novo tipo de sensibilidade no sculo XIX, e desde ento eles comeam a aparecer cada vez mais.

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    mago, pois a narrativa na verdade um tipo especfico de narrativa que era a narrativa factual e poltica da historiografia metdica havia sido criticada veementemente na caminhada dos Annales para o seu triunfo institucional (e, ao usarmos esta imagem, estamos ainda construindo uma narrativa). Reconhecer esta narratividade da histria era algo que apontava simultaneamente para os d

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