HISTRIA DAS MULHERES NO ENSINO DE HISTRIA DO BRASIL ...

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  • HISTRIA DAS MULHERES NO ENSINO DE HISTRIA DO BRASIL: UMA

    ANLISE DAS ABORDAGENS DO LIVRO DIDTICO

    Angela Ribeiro Ferreira1

    Luis Fernando Cerri - Orientador2

    O presente texto apresenta algumas reflexes realizadas dentro da pesquisa

    de mestrado em Educao na UEPG. O principal objetivo dessa pesquisa analisar

    as representaes sobre as mulheres, suas histrias e seus papis sociais tais como

    aparecem em livros didticos de histria utilizados nas escolas pblicas do pas.

    Parte-se do pressuposto que essas representaes so alimentadas, entre outros

    elementos, a partir do conhecimento histrico produzido no Brasil na dcada de

    1990 sobre as mulheres. Objetiva-se, ainda identificar as caractersticas desse

    trabalho de mediao didtica, quando ocorre. Esse texto constri-se a partir da

    anlise de alguns livros didticos de sexta e oitava sries, que foram utilizados at

    2004 em escolas pblicas: Nova Histria Crtica de Mrio Schimidt, Editora Nova

    Gerao,1999; Histria e Vida Integrada de Nelson Piletti e Claudino Piletti, Editora

    tica, 2002; Histria de Jos Roberto Martins Ferreira, Editora FTD, 1999.

    Para atender s especificaes postas para esse texto, foram escolhidos dois

    perodos da histria do Brasil, comuns a todos os livros. O primeiro sobre a

    Escravido no Brasil e o segundo sobre a Era Vargas (1930-1945). A escolha no

    foi aleatria, mas deve-se ao fato de serem perodos que despertam a possibilidade

    de discutir temas que esto dentro das preocupaes atuais da educao. No

    ensino da cultura afro, que est previsto em lei, possvel analisar como o livro est

    abordando a mulher negra, o papel desempenhado por ela na colnia. Dentro da

    ANPUH XXIII SIMPSIO NACIONAL DE HISTRIA Londrina, 2005.

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  • histria das mulheres no Brasil, a dcada de 1930-40 representa um perodo de

    agitao do movimento feminista, discusses calorosas na imprensa sobre a

    emancipao da mulher e o voto feminino, temas estes pesquisados na

    historiografia brasileira recente, seja atravs de biografias, histria do movimento

    feminista, seja ainda na histria da educao para moas. So dois momentos

    histricos privilegiados para a discusso de questes sobre a histria das mulheres.

    Este trabalho est fundamentado em trs pressupostos. O primeiro a

    trajetria percorrida para a incorporao das mulheres nos estudos histricos, os

    tericos que influenciaram e os temas pesquisados. Em seguida a questo da

    produo, circulao e utilizao social do conhecimento; neste ponto est presente

    a discusso sobre mediao didtica e as demandas sociais de orientao no tempo

    atendidas, em parte, pelo conhecimento sobre as mulheres e sua histria. Por fim, a

    questo do conhecimento acadmico e a relao com o conhecimento escolar,

    tendo os livros didticos como veculo e documento privilegiado da mediao entre

    esses dois conhecimentos.

    A histria tradicional cedeu progressivamente espao a novas abordagens e

    objetos, contexto no qual se insere a histria das mulheres. Importante tambm para

    o pensamento marxista, efetivamente com a Nova Histria francesa, sobretudo

    nos anos 60, que a histria das mulheres comea a ganhar corpo. Esse movimento,

    obviamente, no ocorre isolado da forte retomada do movimento feminista, agora no

    contexto dos "novos movimentos sociais" 3 que marcaram as vrias revolues

    comportamentais da dcada. Com a Nova Histria vrias temticas como por

    exemplo, a infncia, a morte, a loucura, o clima, os odores, a sujeira e a limpeza, os

    gestos, o corpo (...), a feminilidade 4 passaram a ser vistas como possveis objetos

    da histria e as mulheres encaradas como sendo tambm sujeitos da histria.

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  • nessa proposta geral de uma nova histria que se podem incluir as

    concepes de Histria presentes nos Parmetros Curriculares Nacionais, que

    prevem um ensino de histria diferente dos mtodos tradicionais e essas

    mudanas em parte decorrem da ansiedade em diminuir distncias entre o que

    ensinado na escola fundamental e a produo acadmica, ou seja, entre o saber

    histrico escolar e as pesquisas e reflexes que acontecem no nvel do

    conhecimento acadmico. No foco de interesse dessa pesquisa, esse quadro de

    incentivo a mudanas est ligado preocupao de articular o trabalho da Histria

    na escola com discusses poltico-sociais e estudos acadmicos que tematizam a

    mulher.

    Essa preocupao est presente em Rsen quando diz que a apresentao

    historiogrfica dos resultados de pesquisa constitui uma transposio, no entanto,

    regra geral, ela no didtica, ou seja, intencionalmente redigida para ensinar

    histria mediante os processos de aprendizagem que formam a conscincia

    histrica. (p. 50, 2001).5

    Em alguns momentos da histria da educao brasileira algumas polticas

    pblicas rompem com os vnculos diretos entre o que se ensina na escola e a

    produo histrica especfica, estimulando a formao de docentes para reproduzir

    um saber desvinculado das discusses acadmicas, voltado prioritariamente para a

    legitimao de situaes poltico-sociais que dependem da passividade ou adeso

    acrtica dos cidados. Apesar desses momentos de predominncia oligrquica e / ou

    ditatorial, permanecem as lutas de professores / historiadores para aproximarem o

    ensino de Histria das questes, das abordagens e dos temas desenvolvidos pela

    pesquisa terica e cientfica, que tem uma dinmica de sintonia ainda que no

    imediata ou desprovida de problemas - com demandas sociais.

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  • Os Parmetros, como as demais estruturas curriculares em Histria no

    passado, propem que se deve ensinar uma Histria que forme cidados, sujeitos

    polticos ativos na sociedade. Mas ser que a Histria que est sendo ensinada e as

    polticas de escolha dos contedos permitem essa construo da cidadania? Para

    formar um cidado, um indivduo com plena conscincia histrica e social, que

    entenda e perceba a si prprio como sujeito histrico, imperativo, alm de um

    ensino de Histria que inclua todas as pessoas como sujeitos histricos, que se faa

    tambm uma reflexo sobre como, historicamente, essas subjetividades se

    constituram.

    Como democratizar a sociedade, colocando em pauta a questo dos direitos

    das mulheres, formar cidads que tenham conscincia do seu papel na sociedade,

    se na escola ela sempre estudou uma histria masculina, na qual os sujeitos so

    sempre homens? As mulheres nunca se viram como sujeito na Histria ensinada; j

    dizia Simone de Beauvoir, numa frase da dcada de 1950, bastante citada nos

    estudos sobre esse tema, que a mulher no nasce mulher, mas torna-se mulher

    conhecendo a sua histria.

    A educao escolar antigamente era apenas para a elite da populao e para

    tanto os contedos das disciplinas deveriam atender formao dessa elite, com

    exaltao de heris, a idia de pobres bandoleiros, e de que s uma pessoa rica e

    estudada pode chegar ao poder, governar. No entanto, a educao se universalizou,

    as classes populares passaram a ter acesso a escola e comearam a ser formadas

    a partir dos mesmos moldes desenvolvidos para educar a elite, isso no poderia,

    realmente, dar certo. Para formar o povo necessrio inclu-lo na histria e no

    educ-lo numa escola que refora e legitima a sua excluso da histria. As pessoas

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  • precisam estudar uma histria que as faa perceber-se parte do todo e no um mero

    figurante no processo histrico. 6

    Para o estudo dessa problemtica, parte-se do pressuposto da mediao

    didtica entre o saber histrico acadmico e o saber histrico escolar. Sabe-se que

    no ocorre apenas uma simplificao do saber produzido, mas, sobretudo uma

    reformulao do saber para atender aos objetivos que o ensino de histria, na

    educao fundamental, se prope.

    Partindo da idia compartilhada por Rsen, de que a histria surge de

    indagaes feitas no presente (necessidades individuais e sociais de orientao

    temporal) parte-se para outra idia, o conhecimento produzido voltando para a

    sociedade, para as necessidades sociais de conhecimento, nesse caso sobre a

    condio feminina.

    Considera-se, neste trabalho, que a anlise do livro didtico tem que partir da

    idia de que os contedos propostos tm que ser capazes de garantir a formao da

    conscincia histrica, e no analisar se o livro traz este ou outro assunto. Entretanto,

    quando o assunto em foco central para a formao da identidade, da cidadania e

    da conscincia histrica dos estudantes, ento a busca e anlise sobre a presena e

    a qualidade da abordagem de um determinado tema justificada. Entre esse tipo de

    tema est, sem dvida, a histria das mulheres.

    Visando entender um pouco melhor essas formas de tratar o tema, vejamos

    como so abordados nos livros. No primeiro tema, escravido, o livro Histria e Vida

    Integrada, trata, nos captulos quinze e dezesseis, do porque da vinda dos negros

    para o Brasil, como era feito o trfico, de onde vinham, o cotidiano de trabalho, os

    castigos, os conflitos culturais, as fugas como forma de resistncia. No decorrer do

    captulo faz referncia a mulheres para explicar a sociedade patriarcal brasileira.

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  • Mas em nenhum momento aborda os movimentos de revoltas e resistncia

    escravido, as crenas, os papis desempenhados pelas mulheres como parteiras,

    curandeiras, feiticeiras, a forma como a Igreja e a famlia reprimiam a sexualidade

    feminina associando-a a manifestaes do demnio.

    O livro Histria, nos captulos quinze e dezesseis, tambm s faz referncia a

    mulheres quando explica a sociedade patriarcal. E Nova Histria Crtica, nos

    captulos treze e quatorze, alm dos temas tradicionais, no item violncia para

    controlar os escravos trata sobre os abusos sexuais cometidos por senhores contra

    as escravas, os castigos encomendados pelas senhoras tradas, - cortar orelhas,

    mamilos, quebrar dentes. Nota-se que no h preocupao em ocultar ou

    secundarizar esse dado extremamente significativo da violncia inter-racial do

    perodo; percebe-se, nisso, uma preocupao de ajudar a erodir o mito da

    escravido leniente na Histria do Brasil. Entretanto, no se avana ainda para a

    considerao das mulheres negras como sujeitos da Histria.

    O segundo tema Era Vargas, no livro Nova Histria Crtica, o perodo escolhido

    para anlise aparece no captulo nove sob o ttulo: A Era do Populismo. As mulheres

    s no foram ignoradas por completo no captulo, porque em trs momentos

    (embora em textos complementares, definidos por cores diferentes e separados do

    corpo do texto principal por um quadro) figuram trs mulheres conhecidas da poca

    e associadas em sua histria a um homem. o caso da primeira mulher que

    aparece, Olga Benrio Prestes, o texto um resumo de sua vida, de como entrou

    para o partido comunista e como conheceu Luis Carlos Prestes. A foto vem com a

    legenda: Olga Benrio Prestes. Alem, judia, brasileira, internacionalista.

    A segunda mulher, tambm conhecida por estar ao lado de um poltico,

    Evita Pern, ela aparece numa foto ao lado do presidente argentino, o texto tem o

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  • ttulo de O Getlio argentino: Pern faz referncia forma como Evita contribuiu

    para a boa imagem do governo de Pern, sendo chamada de me dos

    descamisados.

    A terceira aparece na ltima pgina do captulo, nas reflexes crticas,

    espao de proposta de exerccio. So duas imagens, uma a capa da revista

    Cruzeiro com algumas mulheres na praia e a outra a foto de Pagu, com a seguinte

    legenda: a duplicidade da condio feminina dos anos 20 e 30. A mulher dona de

    casa desnudada na praia, consumida e consumidora, e a intelectual engajada (Pagu

    foi presa e torturada pela polcia getulista). Seria possvel ser as duas ao mesmo

    tempo? E hoje? Essa separao ainda existe? Qual dos sois modelos predomina?.

    Entretanto, os exerccios que seguem as imagens no dizem respeito a elas, no

    provocam discusses sobre a mulher. De um modo geral, permanece o esteretipo

    de que por trs de todo grande homem h uma grande mulher, sem referncia

    ao coletiva das mulheres na histria, como nos movimentos operrios e polticos,

    fora da rbita estrita de uma figura masculina. Embora fosse anacrnico inventar

    uma autonomia feminina ampla no mundo poltico da poca, o exemplo de Olga

    Benrio, no mnimo, seria capaz de demonstrar uma trajetria poltica feminina

    prpria, independente e anterior ao relacionamento com Prestes. A perda dessa

    oportunidade colabora com aquele esteretipo.

    O segundo livro, Histria e Vida Integrada, trabalha a Era Vargas no captulo

    seis, como no anterior, fala de vrios eventos polticos. Aparecem duas fotos, a

    primeira tirada durante uma homenagem a Getlio Vargas, a segunda numa

    condecorao de soldados, a mulher faz a entrega das medalhas, em ambas

    apenas registrada a presena delas e nada mais.

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  • A nica mulher identificada, em todo o captulo, Olga Benrio, como no

    outro livro, um pequeno resumo da sua vida com uma foto onde ela estava

    acompanhada, segundo a legenda, de um policial. O tema apresentado dentro de

    um quadro, separado do corpo do texto, a no ser por uma pequena diferena, antes

    do quadro os autores fazem referncia a Luis Carlos Prestes e Olga Benrio, falam

    da priso dos dois e da morte dela na Alemanha.

    Num outro quadro sobre o trabalho na Constituio de 1934, esto alguns

    itens que podem vir a suscitar discusses em sala de aula sobre o assunto:

    proibio de diferenas salariais entre os sexos na mesma funo; proibies de

    trabalho em indstrias insalubres para menores e mulheres; e, ainda, assistncia

    mdica gestante, descanso antes e depois do parto sem prejuzo do salrio.

    Aps essa breve anlise percebe-se que, muito pouco do que j foi produzido

    sobre as mulheres nesses perodos histricos, foi includo nos textos didticos. O

    pouco que aparece tem um espao secundrio. Onde esto as negras que

    trabalhavam no pequeno comrcio, alis, quase dominado por elas, as negras

    prostitutas e chefes de famlia? No segundo tema, onde esto as feministas da

    poca lutando pelo direito educao, ao trabalho e, a principal reivindicao desse

    momento, o voto feminino, que foi conquistado atravs da Constituio de 1934?

    Assuntos e mulheres no faltam para serem abordados e discutidos, entretanto a

    abordagem secundria e, por vezes, residual. De um modo geral, o aspecto

    poltico e econmico continua sendo a principal linha de explicao e articulao do

    contedo, ainda que algumas novidades sejam incorporadas. Ou seja, o pblico, o

    oficial e os grandes nomes da histria continuam com lugar assegurado, enquanto

    as mulheres, os pobres, as crianas, como no esto efetivamente presentes na

    vida pblica, continuam de fora, ou, no mximo entram como parte complementar,

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  • fora do texto principal, na maioria das vezes ganhando o status de peculiar e

    extico.

    Pode-se dizer que a representao de mulher apresentada de um papel

    social secundrio, pouco importante em relao aos eventos polticos que ocupam a

    maior parte dos espaos do texto didtico.

    No entanto, deve-se considerar que esses livros possibilitam um pequeno

    comeo na abordagem da mulher no material didtico de Histria, afinal os autores

    reconhecem a presena dessa discusso na historiografia, mesmo no escolhendo

    marcantemente o tema na definio dos contedos, apesar disso ser possvel. Os

    textos aparecem como informao complementar, para serem vistos rapidamente,

    ainda que o trabalho procure estar adequado ao nvel contemporneo da discusso

    sobre a mulher em geral, e sobre a mulher na Histria, em particular.

    Pode-se perceber, enfim, que a presso poltica e social dos movimentos de

    mulheres acaba por produzir a noo politicamente correta ou moderna da

    necessidade de introduzir a temtica feminina nos materiais didticos. Mas a forma

    pela qual essa apresentao ocorre indicia que a constituio da seqncia

    cannica de contedos, com razes no sculo XIX, compe um ncleo pouco

    permevel de informaes / conhecimentos, sobre a qual as modernizaes

    acabam por gerar apndices, e no uma transformao intrnseca ao modo de

    selecionar contedos e contar a Histria do Brasil.

    1 Mestranda em Educao pela Universidade Estadual de Ponta Grossa PR, professora da Rede Estadual de Ensino do Paran. E-mail: angerf@pop.com.br. 2 Professor do Departamento de Histria da Universidade Estadual de Ponta Grossa PR, E-mail: lfcerri@uepg.br. 3 HALL, Stuart. A identidade cultural na ps-modernidade. Porto Alegre: DP&A, 1998. 4 BURKE, Peter. A escrita da Histria: novas perspectivas. SP: UNESP, 1992, p. 11. 5 RSEN, Jrn. Razo Histrica: teoria da histria: fundamentos da cincia histrica. Braslia: UnB, 2001. 6 FONSECA, Selva Guimares. Didtica e Prtica de Ensino de Histria. Campinas, SP: Papirus, 2003.

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