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  • :: Verinotio - Revista On-line de Educao e Cincias Humanas. N 5, Ano III, Outubro de 2006, periodicidade semestral ISSN 1981-061X.

    HISTRIA DA EDUCAO E HISTORIOGRAFIA:

    UMA DISCUSSO PRELIMINAR SOBRE SEUS RUMOS E PERCURSOS.

    Ronaldo Aurlio Gimenes Garcia*

    Resumo

    A histria da educao apresenta hoje uma amplitude muito grande de

    temas de estudo, no entanto essa historiografia perdeu a sua funo teleolgica, o

    que empobreceu a seu sentido poltico e social no interior das cincias da

    educao. necessrio retornar a sua funo, scio-poltica, sem contedo abrir

    mo da diversidade temtica conquistada. com essa perspectiva que

    procuramos reconstituir criticamente a trajetria recente da historiografia

    educacional brasileira.

    Palavras Chaves: Historiografia; Historiografia Brasileira; Histria da Educao; Crtica.

    Abstract

    The educations history presents nowadays a very big breadth of studys

    subject. However this historiography lost the teleology functions, which impoverish

    the political and social senses inside of the educations sciences. It is necessary to

    recapture the social political function without the conquered diversity subject. It is

    with this perspective that we look for reconstituting critically the career Brazilian

    Education Historiography.

    Key-words: Historiography: Brazilian Historiography: Educations History; Critically

    1

  • muito comum no meio escolar, ou mesmo em determinados cursos

    de pedagogia a viso de que a disciplina histria da educao preenche apenas

    um espao na grade curricular, sem apresentar contribuies significativas para a

    vida prtica. Parte dessa concepo tem ainda aquela idia que o positivismo no

    sculo XIX imprimiu a esta disciplina e que at hoje faz parte do senso comum.

    Trata-se da conceituao de histria como reproduo fiel do passado. Remetia-

    se ao que passou, construa o fato histrico a partir de documentos oficiais, que

    registraram os acontecimentos e descrevia em ordem cronolgica s pocas e

    perodos. Assim estava concludo o ofcio do historiador. Visto dessa forma esta

    concepo de histria da educao era justificvel.

    Fora da Europa, onde nasceu o positivismo de Augusto Comte, o

    Brasil foi um dos pases que mais influncias recebeu dessa corrente de

    pensamento. Para comprovar isso no precisamos ir muito longe, basta constatar

    que grande parte dos intelectuais republicanos do final do sculo XIX e incio do

    XX eram adeptos do iderio do pensador francs. Benjamin Constant, Jlio de

    Castilhos, Andr Rebouas, Quintino Bocaiva, Rui Barbosa e outros

    compartilharam idias positivistas. A clebre expresso Ordem e Progresso,

    presente no centro de nossa bandeira, era um dos exemplos mais notrios da

    forte influncia do positivismo no pas. O prprio projeto de educao desse

    perodo refletia isso.

    Nele se forjava um projeto poltico autoritrio: educar era obra de moldagem de um

    povo, matria informe e plasmvel, conforme os anseios de Ordem e progresso de

    um grupo que se auto-investia como elite com autoridade para promov-los

    (CARVALHO, 1984, p. 9).

    O positivismo aqui encontrou terras frteis para florescer, se

    misturando com os ideais autoritrios dos militares, com os interesses excludentes

    das elites agrrias, ou seja, com o forte carter conservador das classes

    dominantes. A histria era vista pelos discpulos de Comte como um

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  • conhecimento imparcial, cuja verdade estava nos documentos oficiais. Ao

    historiador no caberia interpretar a histria, apenas estabelecer os fatos

    relevantes numa determinada ordem cronolgica.

    Esta tendncia permaneceu ao longo de grande parte do sculo XX,

    convivendo com diversas outras correntes tericas como o Marxismo, a Escola

    dos Annales e a Nova Histria. Alm das contribuies e influncias da

    antropologia de Gilberto Freire e da Escola Histrica Alem presente na obra de

    Srgio Buarque de Holanda.

    Das referidas teorias do pensamento historiogrfico, a que mais

    influncias exerceu e ainda o faz a Escola Francesa. Aqui representada pelos

    Annales e mais recentemente pela Nova Histria e suas vertentes: mentalidades e

    histria do cotidiano. Com a fundao da Universidade de So Paulo em 1934 e a

    tentativa da elite paulista de aqui constituir um centro de excelncia do

    pensamento, que fizesse oposio ao corporativismo varguista, trouxe ao Brasil

    uma expedio de intelectuais europeus de diversas reas do conhecimento para

    ajudar na implantao daquele ideal.

    A maioria desses intelectuais era francesa, dentre eles Claude Levi-

    Strauss, Roger Bastide e Fernand Braudel. Esse ltimo juntamente com Lucien

    Febvre e Marc Bloch foram os fundadores da Escola dos Annales. Este era um

    grupo de pesquisadores interessados em reformular o pensamento historiogrfico

    com a introduo de novos temas da histria social e econmica. Era uma forma

    de oporem-se aos excessos da histria poltica e da valorizao do acontecimento,

    tudo isso estava sob forte influncia positivista. Era o chamado estudo que por

    aqui conhecemos como histria factual, destacando os heris nacionais, as datas

    comemorativas e os grandes feitos dos homens do poder. Braudel foi autor das

    diferentes temporalidades: o breve ou curto prprio dos acontecimentos; o de

    mdia durao ou conjuntural (pocas, perodos, contextos) e o de longa durao.

    Esta ltima seria prpria das transformaes lentas e das persistncias no tempo,

    como o caso das mentalidades e das culturas.

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  • A nova histria que surgiu na Frana nos anos de 1960 chegou mais

    recentemente no Brasil. Esta era na verdade uma herdeira direta da produo dos

    Annales. Seus temas e procedimentos metodolgicos eram desdobramentos

    tericos que foram inaugurados por Febvre e Bloch (CARRION, 1997). Se por um

    lado, os Annales trouxeram uma renovao temtica e metodolgica, inclusive

    com a ampliao do conceito de documento (REIS, 2000), como sendo qualquer

    vestgio humano, por outro deixou esquecidas as questes polticas. Com o intuito

    de diferenciar-se dos historiadores factuais (Nvoa apud REIS, 2000) os franceses

    negligenciaram a questo poltica. Dessa forma o discurso histrico adquire muito

    mais uma caracterstica de narrativa descomprometida do que de contestao e

    conflito intelectual.

    No campo da teoria marxista no Brasil, o pioneiro na rea da

    historiografia foi Caio Prado Jnior. Procurando utilizar os instrumentos da anlise

    Marxista na interpretao do Brasil, o historiador paulista construiu um modelo

    explicativo fortemente calado nas estruturas econmicas e polticas. Apesar das

    crticas dirigidas a sua obra, tido como ortodoxa e de forar os dados empricos no

    sentido de mold-los em funo do mtodo terico adotado, ela foi um esforo no

    sentido de utilizar a histria para compreender a realidade do presente. Buscava-

    se no passado, os elementos que ajudaram a compreender os problemas atuais.

    Dessa forma a disciplina passa tambm a ter uma funo social e um

    compromisso poltico com o presente. Algo que as demais correntes tericas, de

    certa forma, negligenciaram.

    A partir dos anos de 1980, em funo dos cursos de ps-graduao

    em histria e tambm da abertura poltica, novos centros de estudos surgiram com

    de temas de estudo diversificados. Esse foi o caso da linha de pesquisa sobre o

    trabalho na Universidade de Campinas. L foi reunida importante documentao

    sobre a histria do trabalho no Brasil. Alm disso, houve tambm uma renovao

    terico-metodolgica, desenvolvendo a discusso por aqui das obras de Eric

    Hobsbawm, E.P.Thompson, C.Hill e outros. Historiadores que se propuseram a

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  • repensar a aplicao do materialismo-histrico (De Decca, 2000) com outros

    elementos oriundos da antropologia como a cultura e suas inter-relaes.

    Segundo Elomar Tambara (2000) a histria da educao viveu uma

    multiplicidade de temas, e devido a isso no conseguiram articularem-se de

    maneira lgica e que permitisse a constituio de sries histricas explicativas de

    perodos mais amplos. Na verdade o que o referido autor reivindicava, o que

    hoje a historiografia geral tambm percebe, ou seja, a proliferao de estudos

    particularizados e multifacetados inibe o surgimento de grandes snteses que

    renam estes estudos de uma maneira razoavelmente articulada.

    Alm disso, outro problema que enfrenta a histria da educao,

    que a proliferao de temas diversos tem levado a um abandono do compromisso

    poltico do historiador da educao com a realidade social mais imediata. Pratica-

    se uma espcie de pesquisa pela pesquisa, como se isso fosse o suficiente:

    Outra forte interferncia na esfera terico-metodolgica da histria da Educao

    a ausncia de um carter teolgico na mesma. Entendo que apenas uma insero

    na contemporaneidade justifica a investigao histrica e, particularmente a

    Histria da Educao. No consigo entender a Histria da Educao pela Histria

    da Educao pura e simplesmente. O historiador um ser no mundo com

    compromissos que historicamente lhe so inerente. E esta vinculao com a

    realidade o que faz mergulhar no passado para melhor compreender o presente

    (TAMBARA, 2000, p. 81).

    Na maioria das vezes o pesquisador tem escolhido a realidade que

    melhor se encaixe no seu modelo terico-metodolgico, quando na verdade era o

    mundo real que deveria orientar a escolha de um mtodo ou outro, em funo das

    suas caractersticas.

    Grande parte desse novo comportamento no campo da pesquisa

    historiogrfica apontada por alguns autores (Lopes, 1997; Carrion, 1997) como a

    importao de modelos tericos estrangeiros, como a Nova Histria, em funo de

    modismos do mundo acadmico. So abordagens tericas de forte influncia da

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  • historiografia francesa que no possuem preocupaes de natureza teleolgica,

    nem mesmo de explicar as relaes de poder e o papel da ideologia dominante.

    Instrumentalizada para dotar as pessoas de uma viso abrangente e

    conscientizadora, a histria, sob o rtulo de nova histria, tambm se colocou a

    servio da nova ordem, retrocedendo de estudos abrangentes e politizados,

    mostrando o homem como agente das transformaes, para estudos incuos

    sobre o cotidiano do passado, tornando-se uma inofensiva viagem no tempo,

    acumulando informaes curiosas, atraentes, circunstancialmente teis e o que

    principal, vendvel para o grande mercado editorial. Com o seu tom saboroso,

    literrio, mesclando o informal e o acadmico e tangenciando o folclrico, a nova

    histria eximiu a cincia histrica de suas responsabilidades polticas (LOPEZ,

    1997, p. 13).

    Algumas tendncias no interior da chamada Nova Histria possuem

    uma conotao nitidamente neopositivista. Este o caso de Paul Veyne (1986),

    que define a histria como sendo um romance verdadeiro. A histria perde a

    condio de cincia, uma vez que para ser cientifico, o conhecimento dever ser

    verificado e sob determinadas condies chegar sempre aos mesmos resultados.

    Esse no o caso da histria e de outras da rea das humanidades, portanto

    trata-se, segundo os neopositivistas, de um outro ramo do saber no verificvel:

    Negadora da existncia de leis na histria ou de quaisquer determinaes mesmo

    em que em ltima instancia-questiona a prpria objetividade do conhecimento

    histrico, a existncia da verdade na histria, a totalidade do real, o progresso a

    evoluo. Especialista na histria do fragmento, das curiosidades, do que no

    muda, do no essencial, do subjetivo, do irracional, jogou no depsito das

    velharias os modos de produo, a luta de classes, as revolues (CARRION,

    1997, p. 41).

    No se pretende aqui ressuscitar velhos modelos tericos,

    carregados de ortodoxia e que sirva de explicao a todas as realidades, inclusive

    encaixando elementos empricos forosamente em determinados modelos, eleitos

    como apropriados pela ideologia que se quer afirmar. Por outro lado o

    conhecimento histrico, preocupado em descrever temas variados como mera

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  • constatao ou levantamento de fatores curiosos de uma poca, no satisfazem

    as necessidades de uma historiografia socialmente engajada na luta por uma

    educao de fato inclusiva e democrtica. Se por um lado a proliferao de

    temticas variadas, permitiu ao historiador ver o fenmeno educacional sob

    diferentes perspectivas, por outro, negligenciou em sua finalidade social e poltica.

    O ideal seria unir estas duas vertentes, analisando sob diversos prismas a histria

    da educao, sem abandonar o compromisso social que dela se espera.

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