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  • Revista Crtica Histrica Ano III, n 6, dezembro/2012 ISSN 2177-9961

    Historiografia da Guerra do Paraguai

    DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: Nova Histria da Guerra do Paraguai. So Paulo: Companhia das Letras, 2002.

    Andr Mendes Salles1

    Como j mencionamos em oportunidade anterior2, a Guerra do Paraguai uma

    temtica que tem gerado celeumas na historiografia brasileira (e no somente nesta). O

    professor Francisco Doratioto, que atua no Departamento de Histria da Universidade de

    Braslia, conhecido nacional e internacionalmente por pesquisar sobre a Guerra do Paraguai

    e as relaes internacionais entre o Brasil e os pases da Amrica Meridional.

    Maldita Guerra: Nova Histria da Guerra do Paraguai, livro publicado pela

    Companhia das Letras, fruto de anos de pesquisa do autor e considerado um referencial

    para o pesquisador que deseje se aventurar nas tumultuosas guas das Histrias referentes

    Guerra do Paraguai. Alguns pesquisadores, contudo, chegam a utilizar irrefletidamente o texto

    do professor Doratioto como um porto seguro, quase que como um ponto final nas altercaes

    produzidas sobre a historiografia do conflito.

    Destacamos aqui a contribuio que o professor Doratioto prestou a historiografia da

    Guerra do Paraguai, mas no podemos, sob o risco de incorrermos na mais pura ingenuidade,

    consider-la como a interpretao mestra que desvendou/iluminou a verdade (Como se algo

    desta natureza fosse possvel) sobre a Guerra do Paraguai.

    O prprio professor Doratioto, em momento anterior3, chegou a afirmar,

    inadvertidamente, que a dcada de 1990 trouxe uma nova luz sobre a Guerra do Paraguai,

    como se fosse possvel que a verdade tivesse finalmente chegado para iluminar os fatos

    obscuros relacionados a esta temtica.

    Doratioto considerado por alguns como o historiador responsvel por desmantelar a

    arraigada verso marxista4 sobre a Guerra do Paraguai, por desmenti-la, como se a

    1 Mestre em Histria pela Universidade Federal da Paraba (UFPB) e professor do Departamento de Educao da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). E-mail: andremendes.s@hotmail.com 2 SALLES, Andr Mendes. A Guerra Grande no ensino de Histria. In: SOARES Jr., Azemar dos Santos (org.). Retalhos de Histria: Culturas polticas e educao no Nordeste do Brasil. Joo Pessoa: Editora Universitria da UFPB, 2011, p. 131-146. 3 DORATIOTO, Francisco. Nova luz sobre a guerra do Paraguai. Revista Nossa Histria, Rio de Janeiro, n.13 Nov. de 2004, p.18-23.

    mailto:andremendes.s@hotmail.com

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    historiografia Revisionista de Pomer e Chiavenato5 fosse um engodo, como se no passasse

    de uma historiografia apaixonada, tendenciosa e mesmo falaciosa. O prprio Doratioto no

    poupou esforos para assim apresentar a historiografia revisionista.

    Doratioto, no intuito de desqualificar a historiografia revisionista, argumenta que esta

    segue uma perspectiva ideolgica e militante. Desta forma, fazemos alguns questionamentos:

    ser que somente a historiografia marxista possui essas caractersticas? Ser que somente essa

    corrente historiogrfica que engajada, apaixonada e tendenciosa? H perspectiva

    historiogrfica que no seja ela mesma ideolgica? A historiografia nacionalista de direita no

    militante e ideolgica? No seria a historiografia positivista, quela anterior a revisionista,

    engajada, preocupada em criar mitos e grandes personagens, em criar heris e viles? No

    seria a historiografia dita neo-revisionista, uma volta perspectiva nacionalista (um neo-

    nacionalismo?) e, portanto, tambm ela mesma engajada?

    Acreditamos que Francisco Doratioto restaura/revigora, em certo sentido, a

    historiografia nacionalista anterior ao revisionismo histrico de Pmer e Chiavenatto. Desta

    forma, o epteto de neo-nacionalista ou mesmo restauracionista, como denominou Maestri6,

    talvez se enquadre melhor para caracteriz-lo do que neo-revisionista.

    Em sua Maldita Guerra, Doratioto, j no primeiro pargrafo da introduo, diz:

    Entre 1740 e 1974, o planeta teve 13 bilhes de habitantes e assistiu a 366 guerras de grande dimenso, ao custo de 85 milhes de mortos. O resultado dessas guerras parece ter sido um premio agresso, pois em dois teros delas o agressor saiu-se vencedor e, quanto a durao, 67% terminaram em prazo inferior a quatro anos. A Guerra do Paraguai faz parte, portanto, da minoria, pois o agressor, o lado paraguaio, foi derrotado, e a luta se estendeu por cinco anos (p. 17) (Grifo nosso).

    Desta forma, Doratioto j deixa bem clara, desde o primeiro pargrafo de sua obra, a

    sua concepo acerca do conflito. O agressor, quer dizer, o causador da guerra, foi o governo

    do Paraguai, que invadiu o Brasil, tendo este, inevitavelmente, que retaliar. Portanto, assim

    entendido o conflito, o governo brasileiro, aquele atingido pela agresso da Repblica 4 Marthe, Marcelo. A Guerra das verses: Um historiador diz que a Guerra do Paraguai no foi bem do jeito que se tem ensinado na escola. Disponvel em: http://veja.abril.com.br/030402/p_122.html. Acessado em 01 de fev. de 2012.5 POMER, Len. A Guerra do Paraguai: a grande tragdia rio-platense. Traduo Yara Peres. So Paulo: Global, 1980; CHIAVENATTO, Jlio Jos. Genocdio Americano: a Guerra do Paraguai. 18 ed. So Paulo: Editora Brasiliense, 1983.6 MAESTRI, Mrio. A guerra contra o Paraguai: Histria e historiografia: da instaurao restaurao historiogrfica [1871-2002]. Nuevo Mundo Mundos Nuevos [en lnea], colquios, 2009, puesto en lnea el 27 mars 2009. Disponvel em: http://nuevomundo.org/index55579.html. Acessado em 20 jul. 2009.

    http://nuevomundo.org/index55579.html.%20Acessado%20em%2020%20jul.%202009

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    paraguaia, apenas defendeu-se do tirano megalmano que presidia aquele pas. Assim, o autor

    continua advogando em defesa brasileira:

    A gerao daqueles que lutaram na guerra, quer nos pases aliados, quer no Paraguai, no registrava de forma positiva o papel histrico de Solano Lpez. Havia certeza da sua responsabilidade, quer no desencadear da guerra, ao invadir o Mato Grosso, quer na destruio de seu pas, pelos erros na conduo das operaes militares e na deciso de sacrificar os paraguaios, mesmo quando caracterizada a derrota, em lugar de pr fim ao conflito (p. 19) (Grifos nossos).

    Alm de o autor assegurar a unanimidade em relao a percepo do papel histrico

    exercido por Solano Lpez entre aqueles que participaram da guerra, algo que, com toda

    certeza se constitui como improvvel e de difcil comprovao histrica, isenta o Imprio

    brasileiro de toda a responsabilidade de guerra. Sob uma perspectiva nacionalista, Doratioto

    aponta Lpez como o responsvel, no apenas pelo conflito, mas tambm, e talvez sobretudo,

    pela prpria destruio do Estado paraguaio e pela dizimao de sua populao.

    Na viso deste autor, os mortos em combate se constituram em uma minoria se

    comparados queles que pereceram devido fome, doenas ou exausto decorrente da

    marcha forada de civis para o interior, ordenada por Solano Lpez (p. 456). Para Doratioto,

    a apresentao deste governante como ambicioso, tirnico e quase desequilibrado pela

    historiografia tradicional no estava longe da realidade e pode at explicar certos momentos

    da guerra, mas no sua origem e dinmica. (p. 19).

    preciso ressaltar que Doratioto, apesar de pr em relevo os conflitos regionais

    relacionados ao processo de construo dos Estados platinos como principal motor da Guerra

    do Paraguai, retoma muitas das explicaes e argumentaes da historiografia tradicional,

    mormente quelas relacionadas figura de Solano Lpez.

    Outro fator a ser destacado que Doratioto, assim como fizeram os militares da

    historiografia tradicional, estabelece o evento do aprisionamento do navio Marqus de Olinda

    e a invaso Mato Grosso por foras paraguaias como o marco inicial do conflito. Ao assim

    proceder, Doratioto, automtica e contraditoriamente, desconsidera todos os conflitos

    anteriores relacionados Regio Platina como possveis geradores/provocadores da Guerra do

    Paraguai (como, por exemplo, as intervenes do Estado imperial brasileiro na Argentina e

    Uruguai).

    Torna-se importante destacar, contudo, que Doratioto trata em sua obra das

    intervenes brasileiras no Uruguai e na Argentina. Contudo, ao estabelecer as investidas

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    paraguaias ao Imprio brasileiro como incio do conflito, desconsidera, contraditoriamente,

    todos os acontecimentos anteriores relacionados/contextualizados Guerra do Paraguai.

    Em relao s intervenes do Imprio brasileiro nos Estados platinos, Doratioto

    afirma:

    Para viabilizar a interveno no Uruguai, a diplomacia imperial obteve o beneplcito do governo argentino. Ao promover a entrada de tropas brasileiras no Estado oriental em setembro de 1864, o governo imperial no esperava que o ato gerasse reao contrria significativa. Contudo, Solano Lpez reagiu invadindo o Mato Grosso, em de