Historias de terror para as criaNcas brasileiraspuc- ??A muitas faces doas muitas faces do Terror 35 Alguns autores viram no Halloween uma forma de atrair a curiosidade do pblico infantil para os contos

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    O terror conquista tambm as crianas. Na li-teratura infantil, os monstros, bruxas, fan-tasmas e casas mal-assombradas esto cada vez mais presentes, tanto no mbito internacional como no nacional.

    A insero dessas figuras mais imaginrias nas narrativas, entretanto, no arbitrria, segundo especialistas. De acordo com a autora do livro Histrias de terror para crianas, Fernanda Chazan Briones, a personificao dos medos em criaturas fantasiosas tem o objetivo de estimular a imagi-nao do pblico infantil e de deixar a histria de terror mais ldica. Ao contrrio dos adultos, e at mesmo dos jovens, as crianas no conse-guem lidar com cenas truculentas ou demasiado chocantes. Por isso, necessrio que haja uma cla-ra diviso entre o que se diz terror e o que se diz mistrio. Caso contrrio, no estaremos atiando a imaginao delas.

    No entanto, autores de livros infantis de terror frisam que no seguem necessariamente uma fr-mula na produo das suas histrias. A autora de Monstros e mundos misteriosos, Helosa Prieto, por exemplo, adiciona elementos de humorsticos nas narrativas. Essa incluso, segundo ela, uma ma-neira de cativar os pequenos leitores. No h fr-mulas para uma boa histria, seja ela de terror ou outros gneros. O mais importante que ela emo-cione e instigue primeiramente quem a escreve. No caso dos pequenos leitores, gosto de trabalhar na linha do terror, terror para rir, adicionando hu-mor ao suspense.

    Mas, para especialistas, os efeitos das histrias

    de terror no pblico infantil nem sempre so posi-tivos. De acordo com a professora do departamen-to de psicologia da PUC-Rio Sara Kislanov, o con-sumo exacerbado delas pode despertar, em casos extremos, sentimentos inesperados nas crianas, como a violncia. Em termos de mente humana, a criana tem modelos. Em alguns momentos do desenvolvimento, a criana vai por imitao. En-to, diante de uma violncia, ela vai ficar violen-ta. E at depois, na vida adulta, pode questionar isso. Se tiver um adulto ao lado explicando, acredi-to que a reao seja muito menos negativa e mais positiva.

    Historias de terror para as criaNcas brasileiras

    Os prs e contras para o pblico infantil na viso de especialistas

    AndressA PessAnhA e FernAndA PinA

    Escritora Fernanda Chazan Briones

    Nicolas leite

  • Julho/Dezembro 201634

    J a professora do curso de extenso Bruxas boas ou ms? O arqutipo da bruxa e sua repre-sentao na literatura infantil da PUC-Rio, Nanci Gonalves, aponta que a probabilidade desse tipo de narrativa tornar as crianas violentas nula. O que poderia, de fato, prejudicar o desenvolvimento do jovem leitor seria, de acordo com ela, o desin-teresse pela leitura: Os contos infantis de terror ajudam a criana a exteriorizar o desconhecido e a lidar com ele. Nesse sentido, os pais devem estar atentos com a falta de interesse pela leitura liter-ria, que nos acrescenta tanto.

    No Brasil, pequenos leitores j entraram no mundo dos contos de terror

    Guilherme, de trs anos, filho da cabeleireira Marinez Ferreira. A me comeou a ler histrias para ele desde os 11 meses de idade, e, atualmen-te, o apresentou s histrias de terror. Segundo Marinez, o filho no dormia com as luzes apaga-das porque achava que o quarto era rodeado por monstros: Depois que comeamos a ler histrias de terror, ele passou a se familiarizar com os perso-nagens, pois na histria o monstrinho tinha ma-me e papai, como ele, ou ento ele se sensibili-zava com o fato de ningum querer ser amigo do monstrinho s porque ele era diferente. Depois dis-so, ele entendeu que eles no eram seus inimigos e nem tudo o que diferente para ele deve assus-t-lo. E nenhuma luz precisa ficar acesa agora.

    Muitas mes brasileiras seguiram o caminho de Marinez e comearam a apresentar os livros para os filhos desde cedo. Isso se reflete na pesquisa de 2014 do Instituto Pr-Livro, Retratos da Leitura no Brasil, que mostra um crescimento expressivo na produo de livros voltados para criana nos lti-mos oito anos. Em 2007, cerca de trs mil ttulos foram publicados, somando mais de 14 milhes de exemplares. J em 2015, 7.800 ttulos foram lana-dos no mercado, chegando a mais de 37 milhes. Mas, comparada a de pases como Estados Unidos e Inglaterra, a produo de livros de terror infan-tis no Brasil ainda no tomada como referncia. Para a publicitria e responsvel pelo projeto All Hallows Read Brasil, Raquel Moritz, isso acontece porque, no Brasil, os adultos tm a percepo de que esse tipo de histria pode amedrontar o pbli-co infantil: s entrar numa livraria ou pesquisar na internet que voc quase no encontra livros de terror para crianas. A percepo que as pessoas tm de que isso vai assustar. Mas, se voc olhar l fora, em outros pases, tm milhares de produes literrias de terror voltadas ao pblico infantil.

    De acordo com os especialistas, o gnero de ter-ror ainda novo no mundo dos leitores mirins brasileiros e caminham a passos lentos para um desenvolvimento mais consolidado. Ainda assim, autores da literatura infantil em geral se rendem curiosidade das crianas e exploram cada vez mais o mistrio e o medo nos livros, mesmo que estes no sejam os principais assuntos.

    Helosa Prieto A oferta de literatura de terror para crianas ainda pequena no Brasil

    Priscila Nemeth aNdressa PessaNha

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    Alguns autores viram no Halloween uma forma de atrair a curiosidade do pblico infantil para os contos de terror. O escritor e roteirista britnico Neil Gaiman responsvel por obras infantis como, Garota luminada e Os lobos dentro das paredes aproveitou a relevncia da data para promover o projeto All Hallows Read. A ideia do britnico fazer com que na semana do dia das Bruxas, as pessoas presenteiem seus amigos e parentes com livros de terror, principalmente as crianas. Apaixonada pelo trabalho de Gaiman, Raquel Moritz se deparou com uma postagem do escritor britnico sobre o All Hallows Read e decidiu participar da iniciativa como leitora, dando um livro de terror para um amigo como presente de Halloween. A experincia positiva fez com que a publicitria e blogueira decidisse trazer o projeto para o Brasil. Com a aprovao da equipe de Gaiman, Raquel atua na verso brasileira desde 2015, divulgando a iniciativa por meio do blog Pipoca Musical: Achei que poderia proporcionar isso para mais pessoas e resolvi torn-lo um projeto

    do Pipoca Musical, com a devida autorizao. Entrei em contato com a equipe que administra o site oficial, perguntei se havia algum problema em traduzir o projeto para c e eles amaram a ideia de ver mais pases envolvidos. Ento, ainda em 2016, faremos a segunda edio do All Hallows Read no Brasil.Quanto ao impacto da vinda do projeto para o pblico infantil brasileiro, Raquel ressalta que difcil mensurar porque as crianas so tratadas de forma diferente no mercado literrio nacional. Ela explica que, ao contrrio de outros pases, que tm milhares de produes literrias de terror voltadas ao pblico infantil, com livros para crianas de trs, cinco e dez anos, no Brasil esse tipo de obra quase no encontrada: No exterior, eles enxergam os livros de terror como uma oportunidade de fazer a criana expandir a imaginao e trabalhar os prprios medos. J no Brasil, a percepo de que esse tipo de literatura v assustar a criana.Para tentar mudar esse cenrio, Raquel fez no ano passado uma

    seleo de livros de terror para crianas, adolescentes e adultos. Toda a produo foi documentada em vdeos no canal do YouTube da blogueira, que ficou feliz com o resultado: Pais gostaram das propostas e compraram para os filhos, professores querem trabalhar os livros em escolas e muito mais. Isso gratificante. Se mais crianas passaram a ler livros de terror, eu no sei, mas os adultos que compram para o pblico infantil tomaram conhecimento de que tem Clive Barker at para criana.

    All Hallows Read Brasil

    Raquel Moritz, responsvel pelo projeto All Hallows Read no Brasil

    site PiPoca musical

    All Hallows Read Brasil

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    Ecltica: Por que escolheu escrever esse gnero para crianas?Fernanda: Escolhi o tema graas a uma noite na praia com minha famlia. Meu sobrinho Daniel estava dormindo no mesmo quarto que eu e, de hora em hora, acordava no susto, com medo de zumbis. Ento, criei uma histria onde os zumbis, na verdade, queriam ser danarinos do Michael Jackson, mas eram incompreendidos por ns, humanos. E ento, ele riu. E no teve mais pesadelos naquela noite e nem na seguinte. Foi quando percebi que aliar o medo descontrao seria a chave para lidar com o imaginrio infantil. As crianas precisam ter coragem, e para ter coragem, precisam entender que as coisas no so to terrveis assim, como pensamos.

    E: O que te inspirou a escrever histrias de terror? F: Sem dvidas, a paixo que sinto pela literatura de terror misturada ao amor que sinto pelas crianas. Essa onda terror Disney sempre me cativou. Aquele terror que assusta, mas no fim acaba divertindo, sabe? Todas crianas deveriam ter contato com histrias que elevam o imaginrio e incentivam a coragem, ao mesmo tempo.

    E: Como foi a reao dos seus leitores em relao aos seus livros? Foi como esperava?F: Curiosamente, sim e no. Digo isso porque houve uma clara diviso entre meus leitores de acordo com sua faixa-etria. Tenho leitores que dizem sentir muito medo ao ler meu livro Histrias de terror para crianas, enquanto outros dizem que o leem antes de dormir numa boa. Crianas de seis a oito anos veem o livro como um conjunto de histrias que assustam; j os leitores mais velhos, entre nove a dez anos, devoram a leitura de uma s vez e logo chegam no final, sempre positivo. E essa rapidez os leva a concluir o raciocnio de maneira mais fcil. E logo o terror se mistura criatividade ldica, amenizando o que consideram assustador.

    E: Tem alguma histria curiosa por qual tenha passado com algum pequeno leitor ou leitora de contos de terror?F: Ah, so muitas! Fica difcil escolher uma s, mas vou tentar mesmo assim. Certa vez, uma mulher entrou em contato comigo via e-mail para agradecer o que eu havia feito pela filha. Segundo ela, a menina sentia muito medo noite, pois via coisas que no se pode ver. A famlia, ctica, levou a menina ao pediatra, ao psiclogo e at ao psiquiatra, que acabou receitando remdios em doses cavalares. Mas foi lendo meu livro que ela conseguiu perder o medo. A me disse que a filha j no dorme com a luz acesa, nem pede para deitar na cama dos pais no meio da madrugada. Ela parou de tomar remdios e hoje l meu livro todas as noites, antes de dormir. A menina, inclusive, gravou um vdeo para mim, dizendo que me amava e que gostaria de ser escritora quando crescesse, para fazer outras crianas felizes, como eu fao. Nem preciso dizer que me emocionei, n?!

    Fernanda Chazan BrionesA escritora paulistana Fernanda Chazan Briones, de 25 anos, formada em Literatura Hispanoamericana e teve seu primeiro livro publicado em Buenos Aires, em 2012: Na cidade da fria. Em 2014, lanou Histrias de terror para crianas, o primeiro livro de contos de terror infantil. A obra mexe com o imaginrio infantil ao retratar bruxas ambientalistas e vampiros que se alimentam de suco de groselha. Em agosto de 2016, lanou, em coautoria com a odontloga Brbara Cotrin, o livro As aventuras de Daniel - O vampiro que no tinha medo de dentista, que trata da odontopediatria com fantasia, com o objetivo de estimular a escovao bucal

    Capas dos livros de Fernanda Chazam Briones

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    Ecltica: Por que escolheu o tema terror para escrever para crianas? Heloisa: Na verdade, no escolhi esse tema especificamente. Gosto de fantasia e fico. Mas quando publiquei L vem histria, reservei um bloco especial para histrias de suspense. Os leitores adoraram, os pais polemizaram e acabou se tornando uma marca.

    E: O que te inspirou a escrever histrias de terror para crianas?H: Minha me gostava muito de me contar histrias assustadoras. E depois ramos muito delas. At hoje ela faz isso. a melhor narradora de histrias de suspense que j vi. O estilo dela me influenciou. Ela vai contando de mansinho, como se fosse bobagem e, de repente, voc percebe que est enredada numa trama complexa. Minha bisav paterna tambm gostava do tema. Ela sobreviveu gripe espanhola duas vezes, na Espanha e no Brasil. Dizia que sempre temos que ser humildes porque a morte coloca todo mundo no mesmo lugar. Ou seja, a histria de suspense, na verdade, conduz a uma reflexo sobre a

    condio humana, a finitude e a impermanncia.

    E: Como a interao dos leitores com as histrias de terror?H: Cada leitor um coautor diferente de cada texto que escrevo. No d para prever as reaes realmente. Em geral, o suspense diverte e aproxima no sentido de que d vontade de contar do livro para outra pessoa, como se fosse um compartilhamento de emoes. De vez em quando os leitores me perguntam detalhes que evito fornecer, seno o mistrio desaparece. Mesmo assim, geralmente, eles querem saber tudinho. E eu respondo que a histria acabou sozinha, que eu mesma no conheo o que no est ali explicitado.

    E: Voc possui mais de 70 obras publicadas, majoritariamente fico para o pblico infantil e juvenil, e o terror apareceu mais tarde. A abordagem desse gnero impactou, de alguma forma, sua carreira?H: Quando comecei com o tema, eu era a nica e tive que enfrentar

    crticas e polmica. Mas agora h vrios autores que escrevem sobre o tema muitssimo bem, como o Andr Vianco e Flvia Muniz. Por outro lado, na tradio oral, sempre surgiam as histrias de assombrao, as lendas urbanas, como a loira do banheiro. Ento, de certo modo, o gnero sempre teve muita fora. Machado de Assis tem um conto genial, A cartomante, que tem um toque de terror muito sutil. um texto instigante e primoroso.

    Heloisa PrietoA pesquisadora cultural e tradutora brasileira Heloisa Prieto comeou a escrever livros quando era professora do jardim de infncia da Escola da Vila, em So Paulo. Hoje, tem mais de 70 obras publicadas, entre contos sobre fadas, fantasia, mitos e lendas indgenas. Conquistou ainda dois prmios da Unio dos Escritores Brasileiros: um na categoria de Melhor Livro Infantil com A princesa que no queria aprender a ler e outro por Melhor Livro de Folclore com Mata. Heloisa tambm a criadora de L vem histria, que vendeu mais de 30 mil cpias e virou uma srie televisiva na TV Cultura. No gnero de terror, O livro dos medos e 1001 fantasmas esto entre os destaques da autora

    Para saber mais All Hallows Read Brasil: http://pipocamusical.com.br/all-hallows-read-brasil/https://pt.wikipedia.org/wiki/Terror_(g%C3%AAnero)

    Curso Bruxas boas ou ms? O arqutipo da bruxa e sua representao na literatura infantil: http://www.cce.puc-rio.br/sitecce/website/website.dll/folder?nCurso=bruxas-boas-ou-mas?&nInst=cce

    http://prolivro.org.br/home/images/2016/RetratosDaLeitura2016_LIVRO_EM_PDF_FINAL_COM_CAPA.pdf http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/18-dicas-leitura-quem-gosta-levar-sustos-738057.shtml http://super.abril.com.br/blogs/cultura/terror-tambem-e-coisa-de-crianca-neil-gaiman-reimagina-joao-e-maria-em-graphic-novel-sombria/

    http://www.letras.ufrj.br/linguisticaaplicada/site/dissert/ritachagas.pdf