História Geral África Volume - 1 - Metodologia e Pré-História

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  • Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica

    HISTRIA GERAL DA FRICA IMetodologiae pr-histria da fricaEDITOR J. KI-ZERBO

    UNESCO Representao no BRASILMinistrio da Educao do BRASILUniversidade Federal de So Carlos

  • HISTRIA GERAL DA FRICA I

    Metodologia e pr histria da frica

    Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica

  • Coleo Histria Geral da frica da UNESCO

    Volume I Metodologia e pr-histria da frica (Editor J. Ki-Zerbo)

    Volume II frica antiga (Editor G. Mokhtar)

    Volume III frica do sculo VII ao XI (Editor M. El Fasi) (Editor Assistente I. Hrbek)

    Volume IV frica do sculo XII ao XVI (Editor D. T. Niane)

    Volume V frica do sculo XVI ao XVIII (Editor B. A. Ogot)

    Volume VI frica do sculo XIX dcada de 1880 (Editor J. F. A. Ajayi)

    Volume VII frica sob dominao colonial, 1880-1935 (Editor A. A. Boahen)

    Volume VIII frica desde 1935 (Editor A. A. Mazrui) (Editor Assistente C. Wondji)

    Os autores so responsveis pela escolha e apresentao dos fatos contidos neste livro, bem como pelas opinies nele expressas, que no so necessariamente as da UNESCO, nem comprometem a Organizao. As indicaes de nomes e apresentao do material ao longo deste livro no implicam a manifestao de qualquer opinio por parte da UNESCO a respeito da condio jurdica de qualquer pas, territrio, cidade, regio ou de suas autoridades, tampouco da delimitao de suas fronteiras ou limites.

  • Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica

    HISTRIA GERAL DA FRICA IMetodologia e pr histria da fricaEDITOR JOSEPH KIZERBO

    Organizaodas Naes Unidas

    para a Educao,a Cincia e a Cultura

  • Histria geral da frica, I: Metodologia e pr -histria da frica / editado por Joseph Ki -Zerbo. 2.ed. rev. Braslia : UNESCO, 2010.

    992 p.

    ISBN: 978-85-7652-123-5

    1. Histria 2. Pr histria 3. Historiografia 4. Mtodos histricos 5. Tradio oral 6. Histria africana 7. Culturas africanas 8. Arqueologia 9. Lnguas africanas 10. Artes africanas 11. Norte da frica 12. Leste da frica 13. Oeste da frica 14. Sul da frica 15. frica Central 16. frica I. Ki -Zerbo, Joseph II. UNESCO III. Brasil. Ministrio da Educao IV. Universidade Federal de So Carlos

    Esta verso em portugus fruto de uma parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil, a Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao do Brasil (Secad/MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).

    Ttulo original: General History of Africa, I: Methodology and African Prehistory. Paris: UNESCO; Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational Publishers Ltd., 1981. (Primeira edio publicada em ingls).

    UNESCO 2010 (verso em portugus com reviso ortogrfica e reviso tcnica)

    Coordenao geral da edio e atualizao: Valter Roberto SilvrioPreparao de texto: Eduardo Roque dos Reis FalcoReviso tcnica: Kabengele MunangaReviso e atualizao ortogrfica: Cibele Elisa Viegas AldrovandiProjeto grfico e diagramao: Marcia Marques / Casa de Ideias; Edson Fogaa e Paulo Selveira / UNESCO no Brasil

    Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura (UNESCO)Representao no BrasilSAUS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9 andar70070-912 Braslia DF BrasilTel.: (55 61) 2106-3500Fax: (55 61) 3322-4261Site: www.unesco.org/brasiliaE-mail: grupoeditorial@unesco.org.br

    Ministrio da Educao (MEC)Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (Secad/MEC) Esplanada dos Ministrios, Bl. L, 2 andar70047-900 Braslia DF BrasilTel.: (55 61) 2022-9217Fax: (55 61) 2022-9020Site: http://portal.mec.gov.br/index.html

    Universidade Federal de So Carlos (UFSCar)Rodovia Washington Luis, Km 233 SP 310Bairro Monjolinho13565-905 So Carlos SP BrasilTel.: (55 16) 3351-8111 (PABX)Fax: (55 16) 3361-2081Site: http://www2.ufscar.br/home/index.php

    Impresso no Brasil

    http://www.unesco.org/brasiliamailto:grupoeditorial@unesco.org.brhttp://portal.mec.gov.br/index.htmlhttp://www2.ufscar.br/home/index.php

  • VSUMRIO

    Apresentao ...................................................................................VIINota dos Tradutores .......................................................................... IXCronologia ....................................................................................... XILista de Figuras ............................................................................. XIIIPrefcio ..........................................................................................XXIApresentao do Projeto ..............................................................XXVIIIntroduo Geral ......................................................................... XXXI

    Captulo 1 A evoluo da historiografia da frica.................................... 1Captulo 2 Lugar da histria na sociedade africana ................................ 23Captulo 3 Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e

    contribuio histria em geral .......................................... 37Captulo 4 Fontes e tcnicas especficas da histria da frica

    Panorama Geral ................................................................... 59Captulo 5 As fontes escritas anteriores ao sculo XV ........................... 77Captulo 6 As fontes escritas a partir do sculo XV ............................ 105Captulo 7 A tradio oral e sua metodologia ..................................... 139Captulo 8 A tradio viva ................................................................... 167Captulo 9 A Arqueologia da frica e suas tcnicas. Processos de

    datao ............................................................................... 213

    SUMRIO

  • VI Metodologia e pr -histria da frica

    Captulo 10 Parte I: Histria e lingustica ............................................ 247 Parte II: Teorias relativas s raas e histria da frica.... 283Captulo 11 Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas .............. 295Captulo 12 Parte I: Classificao das lnguas da frica ....................... 317 Parte II: Mapa lingustico da frica ................................. 337Captulo 13 Geografia histrica: aspectos fsicos .................................. 345Captulo 14 Geografia histrica: aspectos econmicos ......................... 367Captulo 15 Os mtodos interdisciplinares utilizados nesta obra ......... 387Captulo 16 Parte I: Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais

    da frica ........................................................................... 401 Parte II: Quadro cronolgico das fases pluviais e glaciais

    da frica ........................................................................... 417Captulo 17 Parte I: A hominizao: problemas gerais ......................... 447 Parte II: A hominizao: problemas gerais ....................... 471Captulo 18 Os homens fsseis africanos ............................................. 491Captulo 19 A Pr -Histria da frica oriental .................................... 511Captulo 20 Pr -Histria da frica austral ........................................... 551Captulo 21 Parte I: Pr -Histria da frica central .............................. 591 Parte II: Pr - Histria da frica central .......................... 615Captulo 22 Pr -Histria da frica do norte ........................................ 637Captulo 23 Pr -Histria do Saara ....................................................... 657Captulo 24 Pr -Histria da frica ocidental ....................................... 685Captulo 25 Pr -Histria do vale do Nilo ............................................ 715Captulo 26 A arte pr -histrica africana ............................................. 743Captulo 27 Origens, desenvolvimento e expanso das tcnicas

    agrcolas............................................................................. 781Captulo 28 Descoberta e difuso dos metais e desenvolvimento dos

    sistemas sociais at o sculo V antes da Era Crist .......... 803

    Concluso Da natureza bruta humanidade liberada ......................... 833

    Membros do Comit Cientfico Internacional para a Redao de uma Histria Geral da frica ............................................................853Dados Biogrficos dos Autores do Volume I ......................................855Abreviaes e Listas de Peridicos ....................................................859Referncias Bibliogrficas ................................................................865ndice Remissivo ..............................................................................927

  • VIIAPRESENTAO

    Outra exigncia imperativa de que a histria (e a cultura) da frica devem pelo menos ser vistas de dentro, no sendo medidas por rguas de valores estranhos... Mas essas conexes tm que ser analisadas nos termos de trocas mtuas, e influncias multilaterais em que algo seja ouvido da contribuio africana para o desenvolvimento da espcie humana. J. Ki-Zerbo, Histria Geral da frica, vol. I, p. LII.

    A Representao da UNESCO no Brasil e o Ministrio da Educao tm a satis-fao de disponibilizar em portugus a Coleo da Histria Geral da frica. Em seus oito volumes, que cobrem desde a pr-histria do continente africano at sua histria recente, a Coleo apresenta um amplo panorama das civilizaes africanas. Com sua publicao em lngua portuguesa, cumpre-se o objetivo inicial da obra de colaborar para uma nova leitura e melhor compreenso das sociedades e culturas africanas, e demons-trar a importncia das contribuies da frica para a histria do mundo. Cumpre-se, tambm, o intuito de contribuir para uma disseminao, de forma ampla, e para uma viso equilibrada e objetiva do importante e valioso papel da frica para a humanidade, assim como para o estreitamento dos laos histricos existentes entre o Brasil e a frica.

    O acesso aos registros sobre a histria e cultura africanas contidos nesta Coleo se reveste de significativa importncia. Apesar de passados mais de 26 anos aps o lana-mento do seu primeiro volume, ainda hoje sua relevncia e singularidade so mundial-mente reconhecidas, especialmente por ser uma histria escrita ao longo de trinta anos por mais de 350 especialistas, sob a coordenao de um comit cientfico internacional constitudo por 39 intelectuais, dos quais dois teros africanos.

    A imensa riqueza cultural, simblica e tecnolgica subtrada da frica para o conti-nente americano criou condies para o desenvolvimento de sociedades onde elementos europeus, africanos, das populaes originrias e, posteriormente, de outras regies do mundo se combinassem de formas distintas e complexas. Apenas recentemente, tem-se considerado o papel civilizatrio que os negros vindos da frica desempenharam na formao da sociedade brasileira. Essa compreenso, no entanto, ainda est restrita aos altos estudos acadmicos e so poucas as fontes de acesso pblico para avaliar este complexo processo, considerando inclusive o ponto de vista do continente africano.

    APRESENTAO

  • VIII Metodologia e pr -histria da frica

    A publicao da Coleo da Histria Geral da frica em portugus tambm resul-tado do compromisso de ambas as instituies em combater todas as formas de desigual-dades, conforme estabelecido na Declarao Universal dos Direitos Humanos (1948), especialmente no sentido de contribuir para a preveno e eliminao de todas as formas de manifestao de discriminao tnica e racial, conforme estabelecido na Conveno Internacional sobre a Eliminao de todas as Formas de Discriminao Racial de 1965.

    Para o Brasil, que vem fortalecendo as relaes diplomticas, a cooperao econ-mica e o intercmbio cultural com aquele continente, essa iniciativa mais um passo importante para a consolidao da nova agenda poltica. A crescente aproximao com os pases da frica se reflete internamente na crescente valorizao do papel do negro na sociedade brasileira e na denncia das diversas formas de racismo. O enfrentamento da desigualdade entre brancos e negros no pas e a educao para as relaes tnicas e raciais ganhou maior relevncia com a Constituio de 1988. O reconhecimento da prtica do racismo como crime uma das expresses da deciso da sociedade brasileira de superar a herana persistente da escravido. Recentemente, o sistema educacional recebeu a responsabilidade de promover a valorizao da contribuio africana quando, por meio da alterao da Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB) e com a aprovao da Lei 10.639 de 2003, tornou-se obrigatrio o ensino da histria e da cultura africana e afro-brasileira no currculo da educao bsica.

    Essa Lei um marco histrico para a educao e a sociedade brasileira por criar, via currculo escolar, um espao de dilogo e de aprendizagem visando estimular o conheci-mento sobre a histria e cultura da frica e dos africanos, a histria e cultura dos negros no Brasil e as contribuies na formao da sociedade brasileira nas suas diferentes reas: social, econmica e poltica. Colabora, nessa direo, para dar acesso a negros e no negros a novas possibilidades educacionais pautadas nas diferenas socioculturais presentes na formao do pas. Mais ainda, contribui para o processo de conhecimento, reconhecimento e valorizao da diversidade tnica e racial brasileira.

    Nessa perspectiva, a UNESCO e o Ministrio da Educao acreditam que esta publica-o estimular o necessrio avano e aprofundamento de estudos, debates e pesquisas sobre a temtica, bem como a elaborao de materiais pedaggicos que subsidiem a formao inicial e continuada de professores e o seu trabalho junto aos alunos. Objetivam assim com esta edio em portugus da Histria Geral da frica contribuir para uma efetiva educao das relaes tnicas e raciais no pas, conforme orienta as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educao das Relaes tnico-Raciais e para o Ensino da Histria e Cultura Afro-brasileira e Africana aprovada em 2004 pelo Conselho Nacional de Educao.

    Boa leitura e sejam bem-vindos ao Continente Africano.

    Vincent Defourny Fernando Haddad

    Representante da UNESCO no Brasil Ministro de Estado da Educao do Brasil

  • IXNOTA DOS TRADUTORES

    NOTA DOS TRADUTORES

    A Conferncia de Durban ocorreu em 2001 em um contexto mundial dife-rente daquele que motivou as duas primeiras conferncias organizadas pela ONU sobre o tema da discriminao racial e do racismo: em 1978 e 1983 em Genebra, na Sua, o alvo da condenao era o apartheid.

    A conferncia de Durban em 2001 tratou de um amplo leque de temas, entre os quais vale destacar a avaliao dos avanos na luta contra o racismo, na luta contra a discriminao racial e as formas correlatas de discriminao; a avaliao dos obstculos que impedem esse avano em seus diversos contextos; bem como a sugesto de medidas de combate s expresses de racismo e intolerncias.

    Aps Durban, no caso brasileiro, um dos aspectos para o equacionamento da questo social na agenda do governo federal a implementao de polticas pblicas para a eliminao das desvantagens raciais, de que o grupo afrodescen-dente padece, e, ao mesmo tempo, a possibilidade de cumprir parte importante das recomendaes da conferncia para os Estados Nacionais e organismos internacionais.

    No que se refere educao, o diagnstico realizado em novembro de 2007, a partir de uma parceria entre a UNESCO do Brasil e a Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao (SECAD/MEC), constatou que existia um amplo consenso entre os diferentes participan-tes, que concordavam, no tocante a Lei 10.639-2003, em relao ao seu baixo grau de institucionalizao e sua desigual aplicao no territrio nacional. Entre

  • X Metodologia e pr -histria da frica

    os fatores assinalados para a explicao da pouca institucionalizao da lei estava a falta de materiais de referncia e didticos voltados Histria de frica.

    Por outra parte, no que diz respeito aos manuais e estudos disponveis sobre a Histria da frica, havia um certo consenso em afirmar que durante muito tempo, e ainda hoje, a maior parte deles apresenta uma imagem racializada e eurocntrica do continente africano, desfigurando e desumanizando especial-mente sua histria, uma histria quase inexistente para muitos at a chegada dos europeus e do colonialismo no sculo XIX.

    Rompendo com essa viso, a Histria Geral da frica publicada pela UNESCO uma obra coletiva cujo objetivo a melhor compreenso das sociedades e cul-turas africanas e demonstrar a importncia das contribuies da frica para a histria do mundo. Ela nasceu da demanda feita UNESCO pelas novas naes africanas recm-independentes, que viam a importncia de contar com uma his-tria da frica que oferecesse uma viso abrangente e completa do continente, para alm das leituras e compreenses convencionais. Em 1964, a UNESCO assumiu o compromisso da preparao e publicao da Histria Geral da frica. Uma das suas caractersticas mais relevantes que ela permite compreender a evoluo histrica dos povos africanos em sua relao com os outros povos. Contudo, at os dias de hoje, o uso da Histria Geral da frica tem se limitado sobretudo a um grupo restrito de historiadores e especialistas e tem sido menos usada pelos professores/as e estudantes. No caso brasileiro, um dos motivos desta limitao era a ausncia de uma traduo do conjunto dos volumes que compem a obra em lngua portuguesa.

    A Universidade Federal de So Carlos, por meio do Ncleo de Estudos Afrobrasileiros (NEAB/UFSCar) e seus parceiros, ao concluir o trabalho de traduo e atualizao ortogrfica do conjunto dos volumes, agradece o apoio da Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (SECAD), do Ministrio da Educao (MEC) e da UNESCO por terem propiciado as condies para que um conjunto cada vez maior de brasileiros possa conhecer e ter orgulho de compartilhar com outros povos do continente americano o legado do continente africano para nossa formao social e cultural.

  • XICronologia

    Na apresentao das datas da pr -histria convencionou -se adotar dois tipos de notao, com base nos seguintes critrios:

    Tomando como ponto de partida a poca atual, isto , datas B.P. (before present), tendo como referncia o ano de +1950; nesse caso, as datas so todas negativas em relao a +1950.

    Usando como referencial o incio da Era Crist; nesse caso, as datas so simplesmente precedidas dos sinais - ou +.

    No que diz respeito aos sculos, as menes antes de Cristo e depois de Cristo so substitudas por antes da Era Crist, da Era Crist.

    Exemplos:

    (i) 2300 B.P. = -350

    (ii) 2900 a.C. = -2900 1800 d.C. = +1800

    (iii) sculo V a.C. = sculo V antes da Era Crist sculo III d.C. = sculo III da Era Crist

    CRONOLOGIA

  • XIIILista de Figuras

    Figura 2.1 Estatueta em bronze representando o poder dinstico dos Songhai (Tera Nger). ......................................................................................................... 27

    Figura 4.1 Baixo -relevo do Museu de Abomey ..................................................................... 71Figura 5.1 Manuscrito rabe (verso) n. 2291, flio 103 Ibn Battuta (2a parte),

    referncia ao Mali ............................................................................................... 102Figura 6.1 Fac-smile de manuscrito bamum ...................................................................... 106Figura 6.2 Fac-smile do manuscrito vai intitulado An Early Vai Manuscript ................. 134Figura 8.1 Msico tukulor tocando o ardin ....................................................................... 179Figura 8.2 Cantor Mvet ...................................................................................................... 179Figura 8.3 Tocador de Valiha. O instrumento de madeira com cordas de ao ................. 194Figura 8.4 Griot hutu imitando o mwami cado ............................................................ 194Figura 9.1 Microfotografia de uma seco da fateixa de cobre pertencente ao barco

    de Quops em Gizeh .......................................................................................... 217Figura 9.2 Radiografia frontal do peito da Rainha Nedjemet, da 21a dinastia.

    Museu do Cairo .................................................................................................. 217Figura 9.3 Bloco de vitrificao mostrando a superfcie superior plana, as paredes

    laterais e uma parte do cadinho ainda aderente ao lado direito .......................... 227Figura 9.4 Base de uma das colunas de arenito do templo de Buhen. Nota -se o

    esboroamento da camada superficial devido eflorescncia ............................... 227Figura 10.1 Estela do rei serpente ....................................................................................... 271Figura 10.2 Rcade representando uma cabaa, smbolo de poder ....................................... 272Figura 10.3 Rcade dedicada a Dakodonu ........................................................................... 272Figura 10.4 Leo semeando o terror. ................................................................................... 272

    LISTA DE FIGURAS

  • XIV Metodologia e pr -histria da frica

    Figura 10.5 Pictogramas egpcios e nsibidi ......................................................................... 273Figura 10.6 Palette de Narmer ............................................................................................. 273Figura 10.7 Amostras de vrias escritas africanas antigas.................................................... 274Figura 10.8 Primeira pgina do principal captulo do Alcoro em vai ................................ 275Figura 10.9 Sistema grfico vai ........................................................................................... 276Figura 10.10 Sistema grfico mum ..................................................................................... 278Figura 10.11 Sistema pictogrfico ....................................................................................... 278Figura 10.12 Sistema ideogrfico e fontico -silbico .......................................................... 278Figura 11.1 Mulher haratina de Idls. Arglia................................................................... 302Figura 11.2 Marroquino ...................................................................................................... 302Figura 11.3 Mulher e criana argelinas ............................................................................... 302Figura 11.4 Voltense ............................................................................................................ 304Figura 11.5 Mulher sarakole, Mauritnia, grupo Soninke, da regio do rio ........................ 304Figura 11.6 Chefe nmade de Rkiz, Mauritnia ................................................................. 304Figura 11.7 Mulher peul bororo, Tahoura, Nger ................................................................ 306Figura 11.8 Criana tuaregue de Agads, Nger .................................................................. 306Figura 11.9 Mulher djerma songhay de Balayera, Nger ..................................................... 306Figura 11.10 Pigmeu twa, Ruanda ...................................................................................... 308Figura 11.11 Grupo San...................................................................................................... 308Figura 11.12 Pigmeu do Congo .......................................................................................... 308Figura 11.13 Mulheres zulu ................................................................................................ 311Figura 11.14 Mulher peul ................................................................................................... 313Figura 11.15 Mulher peul das proximidades de Garoua -Boulay, Camares ....................... 313Figura 11.16 Jovem peul do Mali ........................................................................................ 313Figura 12.1 Mapa diagramtico das lnguas da frica ........................................................ 338Figura 13.1 frica fsica ...................................................................................................... 347Figura 14.1 Os recursos minerais da frica ........................................................................ 385Figura 16.1 Grficos mostrando analogias entre istopos de oxignio (ou variaes

    de temperatura) e a intensidade do campo magntico da Terra, em um testemunho de fundo de mar, para os ltimos 450000 anos ............................ 418

    Figura 16.2 Grficos mostrando analogias entre temperaturas indicadas pela microfauna e a inclinao magntica para os ltimos 2 milhes de anos............................ 419

    Figura 16.3 Mapa das isotermas da gua de superfcie do oceano Atlntico em fevereiro, 18000 B.P. ........................................................................................................ 426

    Figura 16.4 e 16.5 Mapa mostrando diferenas na temperatura da gua de superfcie entre a poca atual a 17000 B.P. Figura 16.4: inverno. Figura 16.5: vero. ...... 427

    Figura 16.6 Evoluo relativa da razo pluviosidade/evaporao nos ltimos 12000 anos na bacia do Chade (13 18 de lat. N.) .......................................................... 433

    Figura 16.7 Variaes dos nveis lacustres nas bacias do Afar ............................................. 434Figura 16.8 Mapa das localidades fossilferas do Plio -Pleistoceno da frica oriental ........ 438

  • XVLista de Figuras

    Figura 16.9 Cronologia radiomtrica e paleomagntica do Plioceno/Pleistoceno da frica oriental, do sudoeste da Europa e do noroeste da Amrica .................. 439

    Figura 16.10 Cronologia e ritmo da evoluo das civilizaes durante o Pleistoceno, com relao evoluo dos homindeos ........................................................ 442

    Figura 16.11 Tendncias gerais do clima global para o ltimo milho de anos. ................. 443Figura 17.1 Reconstituio do meio ambiente do Faium h 40 milhes de anos.

    Desenhos de Bertoncini -Gaillard sob a direo de Yves Coppens .................. 450Figura 17.2 Depsitos eocnico e oligocnico do Faium, Egito .......................................... 450Figura 17.3 Os dados paleontolgicos ................................................................................. 454Figura 17.4 Garganta de Olduvai, Tanznia ....................................................................... 455Figura 17.5 Crnio de Australopithecus africanus. Da direita para a esquerda, perfil de

    criana (Taung, Botsuana) e de adulto (Sterkfontein, Transvaal) ..................... 455Figura 17.6 Garganta de Olduvai, Tanznia ....................................................................... 457Figura 17.7 Stio do Omo, Etipia ...................................................................................... 457Figura 17.8 Stio do Omo, Etipia ...................................................................................... 458Figura 17.9 Crnios de Australopithecus boisei, stio do Omo, Etipia ................................. 458Figura 17.10 Stio de Afar, Etipia ..................................................................................... 459Figura 17.11 Crnio de Cro -Magnoide de Afalu, Arglia.................................................. 459Figura 17.12 Canteiro de escavaes em Olduvai ............................................................... 461Figura 17.13 Crnios de Australopithecus robustus, direita, e Australopithecus gracilis,

    esquerda ...................................................................................................... 461Figura 17.14 Homo habilis ................................................................................................... 463Figura 17.15 Os stios de Siwalik no Norte do Paquisto, expedio D. Pilbeam .............. 465Figura 17.16 Reconstituio do crnio de Ramapithecus ..................................................... 465Figura 17.17 Esqueleto de Oreopithecus bambolii, com 12 milhes de anos, encontrado

    em Grossetto (Toscana) por Johannes Hrzeler, em 1958 ............................ 465Figura 17.18 Reconstituio do meio ambiente do Homo erectus de Chu -Ku -Tien

    (ou Sinantropo), China (400 mil anos) .......................................................... 466Figura 17.19 Homo erectus de Chu -Ku -Tien (reconstituio) .............................................. 466Figuras 17.20 e 17.21 Detalhe do solo olduvaiense (observam -se vrios objetos,

    entre os quais, poliedros e um grande osso de hipoptamo) .......................... 475Figura 17.22 Uma das mais antigas pedras lascadas do mundo .......................................... 479Figura 17.23 Uma das primeiras pedras lascadas do mundo ............................................... 479Figura 18.1 frica: alguns dos stios mais importantes de homindeos............................... 492Figura 18.2 Crnio de Homo habilis (KNM -ER 1470). Vista lateral. Koobi Fora,

    Qunia. ............................................................................................................. 499Figura 18.3 Crnio de Homo erectus (KNM -ER 3733). Vista lateral. Koobi Fora,

    Qunia ............................................................................................................. 499Figura 18.4 Crnio de Australopithecus boisei (OH5). Vista lateral. Garganta de

    Olduvai, Tanznia ............................................................................................ 503Figura 18.5 Mandbula de Australopithecus boisei (KNM -ER 729). Vista em face

    oclusiva. Koobi Fora, Qunia ........................................................................... 503

  • XVI Metodologia e pr -histria da frica

    Figura 18.6 Crnio de Australopithecus africanus (KNM -ER 1813). Vista lateral. Koobi Fora, Qunia. ......................................................................................... 505

    Figura 18.7 Mandbula de Australopithecus africanus (KNM -ER 992). Vista em face oclusiva. Koobi Fora, Qunia .................................................................... 505

    Figura 19.1 A pr -histria na frica Oriental (1974) ......................................................... 512Figura 19.2 frica oriental: principais jazidas da Idade da Pedra (1974) ............................ 523Figura 19.3 Garganta de Olduvai, Tanznia setentrional .................................................... 530Figura 19.4 Early Stone Age, primeira fase: utenslios olduvaienses tpicos

    (seixos lascados). ............................................................................................ 530Figura 19.5 Early Stone Age, segunda fase: instrumentos acheulenses tpicos

    (vista frontal e lateral). 1. pico; 2. machadinha; 3. biface ................................ 533Figura 19.6 Isimila, terras altas da Tanznia meridional. Vista da ravina erodida

    mostrando as camadas onde foram encontrados utenslios acheulenses ........... 535Figura 19.7 Concentrao de bifaces, machadinhas e outros utenslios acheulenses

    (a pequena colher de pedreiro no centro serve como escala) ............................ 535Figura 19.8 Middle Stone Age e utenslios de transio: o exemplo da direita uma

    ponta fina podendo ser encabada, talvez como ponta de lana ........................ 537Figura 19.9 Olorgesailie, no Rift Valley do Qunia. Escavaes em um stio de

    ocupao acheulense ......................................................................................... 537Figura 19.10 Late Stone Age: lmina com bordo de preenso retocado ( direita);

    segmento de crculo (no centro); raspador e micrlito ( esquerda), feitos de obsidiana no Rift Valley do Qunia .......................................................... 540

    Figura 19.11 Apis Rock (Nasera), Tanznia setentrional. As escavaes sob o abrigo, bem visvel, direita revelaram uma sucesso de ocupaes humanas da Idade da Pedra Recente ................................................................................. 540

    Figura 20.1 Localizao dos depsitos fauresmithienses e sangoenses na frica austral .... 554Figura 20.2 Depsitos de fsseis humanos do Pleistoceno Superior e alguns do

    Ps -Pleistoceno na frica austral .................................................................... 554Figura 20.3 Principais depsitos de fauna e fsseis humanos do fim do Plioceno ao

    incio do Pleistoceno na frica austral ............................................................. 556Figura 20.4 Localizao dos principais depsitos acheulenses na frica austral ................. 556Figura 20.5 Acheulense Inferior, Sterkfontein: biface, lasca cuboide e dois ncleos ........... 563Figura 20.6 Utenslios do Acheulense Superior, de Kalambo Falls, datados de mais de

    190000 anos B.P. ............................................................................................. 563Figura 20.7 Utenslios provenientes dos depsitos de Howiesonspoort .............................. 563Figura 20.8 Utenslios da Middle Stone Age, provenientes de Witkrans Cave ..................... 572Figura 20.9 Utenslios do Lupembiense Mdio, de Kalambo Falls ..................................... 572Figura 20.10 Distribuio de lminas e fragmentos de lminas utilizadas, com relao a

    estruturas de blocos de dolerito, no horizonte primrio em Orangia ............ 572Figura 20.11 Civilizao sangoense de Zimbabwe, variante do Zambeze .......................... 578Figura 20.12 Indstrias da Middle Stone Age, provenientes de Twin Rivers (Zmbia),

    datadas de 32000 a 22000 anos B.P. ............................................................. 578

  • XVIILista de Figuras

    Figura 20.13 Indstrias de Pietersburg e Bambata, provenientes da gruta das Lareiras (Cave of Hearths), no Transvaal, e da gruta de Bambata, em Zimbabwe. Instrumentos caractersticos das regies de arbustos espinhosos e do bushveld .......................................................................................................... 578

    Figura 20.14 De 1 a 12, utenslios em slex e calcednia, das indstrias wiltonienses da provncia do Cabo, na frica do Sul. De 13 a 20, utenslios das indstrias de Matopan (Wiltoniense de Zimbabwe ), provenientes da caverna de Amadzimba, Matopos Hills, em Zimbabwe ................................................. 580

    Figura 20.15 Utenslios de madeira provenientes de depsitos do Pleistoceno na frica austral ............................................................................................................ 580

    Figura 20.16 Lasca -enx em forma de crescente feita de slex negro, montada por meio de mstique sobre um cabo de chifre de rinoceronte, proveniente de uma caverna da baa de Plettenberg, no leste da provncia do Cabo ..................... 580

    Figura 21.1 Variaes climticas e indstrias pr -histricas da bacia do Zaire ................... 592Figura 21.2 Monumento megaltico da regio de Buar na Repblica Centro -Africana ..... 603Figura 21.3 Acheulense Superior. Repblica Centro -Africana, rio Ngoere, Alto Sanga ..... 603Figura 21.4 Vaso neoltico de fundo plano. Repblica Centro -Africana, Batalimo,

    Lobaye ............................................................................................................ 610Figura 21.5 Zonas de vegetao da frica Central ............................................................. 616Figura 21.6 Mapa da frica Central com os nomes dos lugares citados no texto .............. 619Figura 22.1 Evoluo da Pebble Culture para as formas do Acheulense .......................639Figura 22.2 Biface Acheulense o mais evoludo da jazida de Ternifine (Arglia

    ocidental).......................................................................................................... 641Figura 22.3 Machados de riolito do Acheulense encontrados no stio de Erg

    Tihodaine. ........................................................................................................ 643Figura 22.4 Ponta do Musteriense, El -Guettar (Tunsia) ................................................... 643Figura 22.5 Esferoides facetados de Ain Hanech ............................................................. 643Figura 22.6 Ateriense do Uede Djouf el -Djemel (Arglia oriental) ................................... 647Figura 22.7 Indstria do Capsiense tpico ........................................................................... 647Figura 22.8 Indstria de armaduras do Capsiense superior ................................................ 647Figura 22.9 Indstria do Capsiense superior ....................................................................... 647Figura 22.10 Neoltico de tradio capsiense do Damous el -Ahmar, Arglia oriental.

    M e moleta. Traos de carvo e ocre. Fragmentos de conchas de Helix ...... 654Figura 22.11 Pequena placa calcria gravada. Capsiense superior do Khanguet

    el -Mouhaad, Arglia oriental......................................................................... 654Figura 22.12 Ain Hanech, seixos com lascamento unifacial (chopper) ou bifacial

    (chopping tool) ................................................................................................ 655Figura 22.13 Pernio humano em forma de punhal Capsiense superior Mechta

    el -Arbi, Arglia oriental, escavaes feitas em 1952 ...................................... 655Figura 23.1 Principais stios de pinturas e gravuras rupestres saarianas .............................. 661Figura 23.2 Machado plano com entalhes, Gossolorum (Nger). .....................................661Figura 23.3 Machadinha de Ti -n -Assako (Mali). ............................................................... 661Figura 23.4 e 23.5 Seixos lascados (Pebble Culture), Aoulef (Saara argeliano) .................... 666

  • XVIII Metodologia e pr -histria da frica

    Figura 23.6 Biface do Paleoltico Inferior, Tachenghit (Saara argeliano). ........................... 666Figura 23.7 Machadinha do Paleoltico Inferior, Tachenghit (Saara argeliano) .................. 666Figura 23.8 Grande ponta dupla bifacial ateriense, Timimoum (Saara argeliano) .............. 670Figura 23.9 Pontas aterienses, Aoulef (Saara argeliano) ...................................................... 670Figura 23.10 Ponta dupla bifacial ateriense, Adrar Bous V (Nger) .................................... 670Figura 23.11 Cermica neoltica, Dhar Tichitt (Mauritnia) .............................................. 675Figura 23.12 Cermica de Akreijit, Mauritnia .................................................................. 675Figura 23.13 Pontas de flechas neolticas, In Guezzam (Nger).......................................... 681Figura 23.14 Machado com garganta neoltica, Adrar Bous (Nger). .................................. 681Figura 23.15 Machado polido neoltico, regio de Faya (Chade) ........................................ 681Figura 24.1 Zonas de vegetao da frica ocidental. ..................................................686Figura 24.2 Cermica do Cabo Manuel, Senegal ................................................................ 696Figura 24.3 Brunidor de osso, encontrado no stio neoltico do Cabo Manuel ................... 696Figura 24.4 M feita de rocha vulcnica, encontrada no stio neoltico de Ngor ............... 700Figura 24.5 Pendentes de pedra basalto do stio neoltico de Patte dOie .......................... 700Figura 24.6 Machados polidos de Bel Air em dolerito ..................................................... 704Figura 24.7 Cermica neoltica de Bel Air, do stio de Diakit, no Senegal .................... 704Figura 24.8 Vaso de fundo plano da Idade do Ferro ........................................................... 709Figura 24.9 Crculo megaltico, Tiekene Boussoura, Senegal: o tmulo do rei

    aparece em primeiro plano ............................................................................... 711Figura 24.10 Estatueta antropomrfica encontrada em Thiaroye, no Senegal .................... 711Figura 25.1 O Vale das Rainhas .......................................................................................... 720Figura 25.2 Pontas de dardos em slex de Mirgissa, Sudo ................................................. 720Figura 26.1 Rinoceronte, Blaka, Nger ................................................................................ 749Figura 26.2 Gazela, Blaka, Nger......................................................................................... 749Figura 26.3 Bovino, Tin Rharo, Mali .................................................................................. 749Figura 26.4 Elefante, In -Ekker, Saara argelino ................................................................... 749Figura 26.5 Pintura rupestre, Nambia ................................................................................ 754Figura 26.6 Pintura rupestre, Tibesti, Chade ...................................................................... 754Figura 26.7 Pista da Serpente, pintura rupestre ............................................................... 760Figura 26.8 Dama Branca, pintura rupestre ........................................................................ 760Figura 26.9 Detalhe de uma gravura rupestre, Alto Volta ................................................... 764Figura 26.10 Pintura rupestre, Nambia .............................................................................. 764Figura 26.11 Pinturas rupestres, planalto do Tassili nAjjer, Arglia ............................................. 766Figura 26.12 Cena ertica, Tassili ....................................................................................... 770Figura 26.13 Cena ertica, Tassili. ....................................................................................... 770Figura 27.1 Zoneamento ecolgico latitudinal .................................................................... 785Figura 27.2 Diferentes ecossistemas .................................................................................... 785Figura 27.3 Os beros agrcolas africanos ........................................................................... 791Figura 27.4 Mapa geoagrcola da frica ............................................................................. 791

  • XIXLista de Figuras

    Figura 27.5 Aspecto de urna queimada (aps a combusto) Futa Djalon: Pita, Timbi -Madina ................................................................................................. 794

    Figura 27.6 Terra lavrada com o Kadyendo pelos Diula de Oussouye (Casamance) antes do replantio do arroz ............................................................................... 794

    Figura 27.7 O Soung ou p entre os Seereer Gnominka, pescadores -rizicultores das ilhas da Petite Cte, no Senegal ....................................................................... 796

    Figura 27.8 Arrozais em solos hidromorfos sujeitos a cheias temporrias na estao das chuvas (rizicultura de impluvium), Casamance: aldeia bayoyy de Niassa ... 798

    Figura 27.9 Ilhas artificiais para a cultura do arroz em arrozais aquticos muito profundos onde o nvel da gua no baixa o suficiente .................................... 798

    Figura 28.1 Tmulo de Rekh mi -re em Tebas ..................................................................... 827Figura 28.2 Tmulo de Huy: parede leste (fachada sul) ...................................................... 827Figura 28.3 Navalha, Mirgissa, Sudo ................................................................................. 827Figura 28.4 Tmulo de Huy ................................................................................................ 829Figura 28.5 Esttua de cobre de Ppi I (Antigo Imprio) ................................................... 831Figura 29.1 Australopithecus boisei, jazidas do Omo ............................................................. 842Figura 29.2 Laboratrio destinado s pesquisas sobre o remanejo do delta do Senegal,

    Rosso-Bethio, Senegal ........................................................................................ 842

  • XXIPrefcio

    Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda espcie esconderam do mundo a real histria da frica. As sociedades africanas passavam por sociedades que no podiam ter histria. Apesar de importantes trabalhos efetuados desde as primeiras dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius, Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande nmero de especialistas no africanos, ligados a certos postulados, sustentavam que essas sociedades no podiam ser objeto de um estudo cientfico, notadamente por falta de fontes e documentos escritos.

    Se a Ilada e a Odisseia podiam ser devidamente consideradas como fontes essenciais da histria da Grcia antiga, em contrapartida, negava-se todo valor tradio oral africana, essa memria dos povos que fornece, em suas vidas, a trama de tantos acontecimentos marcantes. Ao escrever a histria de grande parte da frica, recorria-se somente a fontes externas frica, oferecendo uma viso no do que poderia ser o percurso dos povos africanos, mas daquilo que se pensava que ele deveria ser. Tomando frequentemente a Idade Mdia europeia como ponto de referncia, os modos de produo, as relaes sociais tanto quanto as instituies polticas no eram percebidos seno em referncia ao passado da Europa.

    Com efeito, havia uma recusa a considerar o povo africano como o criador de culturas originais que floresceram e se perpetuaram, atravs dos sculos, por

    PREFCIOpor M. Amadou Mahtar MBow,

    Diretor Geral da UNESCO (1974-1987)

  • XXII Metodologia e pr -histria da frica

    vias que lhes so prprias e que o historiador s pode apreender renunciando a certos preconceitos e renovando seu mtodo.

    Da mesma forma, o continente africano quase nunca era considerado como uma entidade histrica. Em contrrio, enfatizava-se tudo o que pudesse reforar a ideia de uma ciso que teria existido, desde sempre, entre uma frica branca e uma frica negra que se ignoravam reciprocamente. Apresentava-se frequentemente o Saara como um espao impenetrvel que tornaria impossveis misturas entre etnias e povos, bem como trocas de bens, crenas, hbitos e ideias entre as sociedades constitudas de um lado e de outro do deserto. Traavam-se fronteiras intransponveis entre as civilizaes do antigo Egito e da Nbia e aquelas dos povos subsaarianos.

    Certamente, a histria da frica norte-saariana esteve antes ligada quela da bacia mediterrnea, muito mais que a histria da frica subsaariana mas, nos dias atuais, amplamente reconhecido que as civilizaes do continente africano, pela sua variedade lingustica e cultural, formam em graus variados as vertentes histricas de um conjunto de povos e sociedades, unidos por laos seculares.

    Um outro fenmeno que grandes danos causou ao estudo objetivo do passado africano foi o aparecimento, com o trfico negreiro e a colonizao, de esteretipos raciais criadores de desprezo e incompreenso, to profundamente consolidados que corromperam inclusive os prprios conceitos da historiografia. Desde que foram empregadas as noes de brancos e negros, para nomear genericamente os colonizadores, considerados superiores, e os colonizados, os africanos foram levados a lutar contra uma dupla servido, econmica e psicolgica. Marcado pela pigmentao de sua pele, transformado em uma mercadoria entre outras, e destinado ao trabalho forado, o africano veio a simbolizar, na conscincia de seus dominadores, uma essncia racial imaginria e ilusoriamente inferior: a de negro. Este processo de falsa identificao depreciou a histria dos povos africanos no esprito de muitos, rebaixando-a a uma etno-histria, em cuja apreciao das realidades histricas e culturais no podia ser seno falseada.

    A situao evoluiu muito desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em particular, desde que os pases da frica, tendo alcanado sua independncia, comearam a participar ativamente da vida da comunidade internacional e dos intercmbios a ela inerentes. Historiadores, em nmero crescente, tm se esforado em abordar o estudo da frica com mais rigor, objetividade e abertura de esprito, empregando obviamente com as devidas precaues fontes africanas originais. No exerccio de seu direito iniciativa histrica, os prprios africanos sentiram profundamente a necessidade de restabelecer, em bases slidas, a historicidade de suas sociedades.

  • XXIIIPrefcio

    nesse contexto que emerge a importncia da Histria Geral da frica, em oito volumes, cuja publicao a Unesco comeou.

    Os especialistas de numerosos pases que se empenharam nessa obra, preocuparam-se, primeiramente, em estabelecer-lhe os fundamentos tericos e metodolgicos. Eles tiveram o cuidado em questionar as simplificaes abusivas criadas por uma concepo linear e limitativa da histria universal, bem como em restabelecer a verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel. Eles esforaram-se para extrair os dados histricos que permitissem melhor acompanhar a evoluo dos diferentes povos africanos em sua especificidade sociocultural.

    Nessa tarefa imensa, complexa e rdua em vista da diversidade de fontes e da disperso dos documentos, a UNESCO procedeu por etapas. A primeira fase (1965-1969) consistiu em trabalhos de documentao e de planificao da obra. Atividades operacionais foram conduzidas in loco, atravs de pesquisas de campo: campanhas de coleta da tradio oral, criao de centros regionais de documentao para a tradio oral, coleta de manuscritos inditos em rabe e ajami (lnguas africanas escritas em caracteres rabes), compilao de inventrios de arquivos e preparao de um Guia das fontes da histria da frica, publicado posteriormente, em nove volumes, a partir dos arquivos e bibliotecas dos pases da Europa. Por outro lado, foram organizados encontros, entre especialistas africanos e de outros continentes, durante os quais se discutiu questes metodolgicas e traou-se as grandes linhas do projeto, aps atencioso exame das fontes disponveis.

    Uma segunda etapa (1969 a 1971) foi consagrada ao detalhamento e articulao do conjunto da obra. Durante esse perodo, realizaram-se reunies internacionais de especialistas em Paris (1969) e Addis-Abeba (1970), com o propsito de examinar e detalhar os problemas relativos redao e publicao da obra: apresentao em oito volumes, edio principal em ingls, francs e rabe, assim como tradues para lnguas africanas, tais como o kiswahili, o hawsa, o peul, o yoruba ou o lingala. Igualmente esto previstas tradues para o alemo, russo, portugus, espanhol e chins1, alm de edies resumidas, destinadas a um pblico mais amplo, tanto africano quanto internacional.

    1 O volume I foi publicado em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahi-li, peul e portugus; o volume II, em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahili, peul e portugus; o volume III, em ingls, rabe, espanhol e francs; o volume IV, em ingls, rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o volume V, em ingls e rabe; o volume VI, em ingls, rabe e francs; o volume VII, em ingls, rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o VIII, em ingls e francs.

  • XXIV Metodologia e pr -histria da frica

    A terceira e ltima fase constituiu-se na redao e na publicao do trabalho. Ela comeou pela nomeao de um Comit Cientfico Internacional de trinta e nove membros, composto por africanos e no africanos, na respectiva proporo de dois teros e um tero, a quem incumbiu-se a responsabilidade intelectual pela obra.

    Interdisciplinar, o mtodo seguido caracterizou-se tanto pela pluralidade de abordagens tericas quanto de fontes. Dentre essas ltimas, preciso citar primeiramente a arqueologia, detentora de grande parte das chaves da histria das culturas e das civilizaes africanas. Graas a ela, admite-se, nos dias atuais, reconhecer que a frica foi, com toda probabilidade, o bero da humanidade, palco de uma das primeiras revolues tecnolgicas da histria, ocorrida no perodo Neoltico. A arqueologia igualmente mostrou que, na frica, especificamente no Egito, desenvolveu-se uma das antigas civilizaes mais brilhantes do mundo. Outra fonte digna de nota a tradio oral que, at recentemente desconhecida, aparece hoje como uma preciosa fonte para a reconstituio da histria da frica, permitindo seguir o percurso de seus diferentes povos no tempo e no espao, compreender, a partir de seu interior, a viso africana do mundo, e apreender os traos originais dos valores que fundam as culturas e as instituies do continente.

    Saber-se- reconhecer o mrito do Comit Cientfico Internacional encarregado dessa Histria geral da frica, de seu relator, bem como de seus coordenadores e autores dos diferentes volumes e captulos, por terem lanado uma luz original sobre o passado da frica, abraado em sua totalidade, evitando todo dogmatismo no estudo de questes essenciais, tais como: o trfico negreiro, essa sangria sem fim, responsvel por umas das deportaes mais cruis da histria dos povos e que despojou o continente de uma parte de suas foras vivas, no momento em que esse ltimo desempenhava um papel determinante no progresso econmico e comercial da Europa; a colonizao, com todas suas consequncias nos mbitos demogrfico, econmico, psicolgico e cultural; as relaes entre a frica ao sul do Saara e o mundo rabe; o processo de descolonizao e de construo nacional, mobilizador da razo e da paixo de pessoas ainda vivas e muitas vezes em plena atividade. Todas essas questes foram abordadas com grande preocupao quanto honestidade e ao rigor cientfico, o que constitui um mrito no desprezvel da presente obra. Ao fazer o balano de nossos conhecimentos sobre a frica, propondo diversas perspectivas sobre as culturas africanas e oferecendo uma nova leitura da histria, a Histria geral da frica tem a indiscutvel vantagem de destacar tanto as luzes quanto as sombras, sem dissimular as divergncias de opinio entre os estudiosos.

  • XXVPrefcio

    Ao demonstrar a insuficincia dos enfoques metodolgicos amide utilizados na pesquisa sobre a frica, essa nova publicao convida renovao e ao aprofundamento de uma dupla problemtica, da historiografia e da identidade cultural, unidas por laos de reciprocidade. Ela inaugura a via, como todo trabalho histrico de valor, para mltiplas novas pesquisas.

    assim que, em estreita colaborao com a UNESCO, o Comit Cientfico Internacional decidiu empreender estudos complementares com o intuito de aprofundar algumas questes que permitiro uma viso mais clara sobre certos aspectos do passado da frica. Esses trabalhos, publicados na coleo UNESCO Histria geral da frica: estudos e documentos, viro a constituir, de modo til, um suplemento presente obra2. Igualmente, tal esforo desdobrar-se- na elaborao de publicaes versando sobre a histria nacional ou sub-regional.

    Essa Histria geral da frica coloca simultaneamente em foco a unidade histrica da frica e suas relaes com os outros continentes, especialmente com as Amricas e o Caribe. Por muito tempo, as expresses da criatividade dos afrodescendentes nas Amricas haviam sido isoladas por certos historiadores em um agregado heterclito de africanismos; essa viso, obviamente, no corresponde quela dos autores da presente obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados para a Amrica, o fato tocante ao marronage [fuga ou clandestinidade] poltico e cultural, a participao constante e massiva dos afrodescendentes nas lutas da primeira independncia americana, bem como nos movimentos nacionais de libertao, esses fatos so justamente apreciados pelo que eles realmente foram: vigorosas afirmaes de identidade que contriburam para forjar o conceito universal de humanidade. hoje evidente que a herana africana marcou, em maior ou menor grau, segundo as regies, as maneiras de sentir, pensar, sonhar e agir de certas naes do hemisfrio ocidental. Do sul dos Estados Unidos ao norte do Brasil, passando pelo Caribe e pela costa do Pacfico, as contribuies culturais herdadas da frica so visveis por toda parte; em certos casos, inclusive, elas constituem os fundamentos essenciais da identidade cultural de alguns dos elementos mais importantes da populao.

    2 Doze nmeros dessa srie foram publicados; eles tratam respectivamente sobre: n. 1 O povoamento do Egito antigo e a decodificao da escrita merotica; n. 2 O trfico negreiro do sculo XV ao sculo XIX; n. 3 Relaes histricas atravs do Oceano ndico; n. 4 A historiografia da frica Meridional; n. 5 A descolonizao da frica: frica Meridional e Chifre da frica [Nordeste da frica]; n. 6 Etnonmias e toponmias; n. 7 As relaes histricas e socioculturais entre a frica e o mundo rabe; n. 8 A metodologia da histria da frica contempornea; n. 9 O processo de educao e a historiografia na frica; n. 10 A frica e a Segunda Guerra Mundial; n. 11 Lbia Antiqua; n. 12 O papel dos movimentos estudantis africanos na evoluo poltica e social da frica de 1900 a 1975.

  • XXVI Metodologia e pr -histria da frica

    Igualmente, essa obra faz aparecerem nitidamente as relaes da frica com o sul da sia atravs do Oceano ndico, alm de evidenciar as contribuies africanas junto a outras civilizaes em seu jogo de trocas mtuas.

    Estou convencido de que os esforos dos povos da frica para conquistar ou reforar sua independncia, assegurar seu desenvolvimento e consolidar suas especificidades culturais devem enraizar-se em uma conscincia histrica renovada, intensamente vivida e assumida de gerao em gerao.

    Minha formao pessoal, a experincia adquirida como professor e, desde os primrdios da independncia, como presidente da primeira comisso criada com vistas reforma dos programas de ensino de histria e de geografia de certos pases da frica Ocidental e Central, ensinaram-me o quanto era necessrio, para a educao da juventude e para a informao do pblico, uma obra de histria elaborada por pesquisadores que conhecessem desde o seu interior os problemas e as esperanas da frica, pensadores capazes de considerar o continente em sua totalidade.

    Por todas essas razes, a UNESCO zelar para que essa Histria Geral da frica seja amplamente difundida, em numerosos idiomas, e constitua base da elaborao de livros infantis, manuais escolares e emisses televisivas ou radiofnicas. Dessa forma, jovens, escolares, estudantes e adultos, da frica e de outras partes, podero ter uma melhor viso do passado do continente africano e dos fatores que o explicam, alm de lhes oferecer uma compreenso mais precisa acerca de seu patrimnio cultural e de sua contribuio ao progresso geral da humanidade. Essa obra dever ento contribuir para favorecer a cooperao internacional e reforar a solidariedade entre os povos em suas aspiraes por justia, progresso e paz. Pelo menos, esse o voto que manifesto muito sinceramente.

    Resta-me ainda expressar minha profunda gratido aos membros do Comit Cientfico Internacional, ao redator, aos coordenadores dos diferentes volumes, aos autores e a todos aqueles que colaboraram para a realizao desta prodigiosa empreitada. O trabalho por eles efetuado e a contribuio por eles trazida mostram, com clareza, o quanto homens vindos de diversos horizontes, conquanto animados por uma mesma vontade e igual entusiasmo a servio da verdade de todos os homens, podem fazer, no quadro internacional oferecido pela UNESCO, para lograr xito em um projeto de tamanho valor cientfico e cultural. Meu reconhecimento igualmente estende-se s organizaes e aos governos que, graas a suas generosas doaes, permitiram UNESCO publicar essa obra em diferentes lnguas e assegurar-lhe a difuso universal que ela merece, em prol da comunidade internacional em sua totalidade.

  • XXVIIApresentao do Projeto

    A Conferncia Geral da UNESCO, em sua dcima sexta sesso, solicitou ao Diretor -geral que empreendesse a redao de uma Histria Geral da frica. Esse considervel trabalho foi confiado a um Comit Cientfico Internacional criado pelo Conselho Executivo em 1970.

    Segundo os termos dos estatutos adotados pelo Conselho Executivo da UNESCO, em 1971, esse Comit compe -se de trinta e nove membros responsveis (dentre os quais dois teros africanos e um tero de no africanos), nomeados pelo Diretor -geral da UNESCO por um perodo correspondente durao do mandato do Comit.

    A primeira tarefa do Comit consistiu em definir as principais caractersticas da obra. Ele definiu -as em sua primeira sesso, nos seguintes termos:

    Em que pese visar a maior qualidade cientfica possvel, a Histria Geral da frica no busca a exausto e se pretende uma obra de sntese que evitar o dogmatismo. Sob muitos aspectos, ela constitui uma exposio dos problemas indicadores do atual estdio dos conhecimentos e das grandes correntes de pensamento e pesquisa, no hesitando em assinalar, em tais circunstncias, as divergncias de opinio. Ela assim preparar o caminho para posteriores publicaes.

    A frica aqui considerada como um todo. O objetivo mostrar as relaes histricas entre as diferentes partes do continente, muito amide

    APRESENTAO DO PROJETOpelo Professor Bethwell Allan Ogot

    Presidente do Comit Cientfico Internacional para a redao de uma Histria Geral da frica

  • XXVIII Metodologia e pr -histria da frica

    subdividido, nas obras publicadas at o momento. Os laos histricos da frica com os outros continentes recebem a ateno merecida e so analisados sob o ngulo dos intercmbios mtuos e das influncias multilaterais, de forma a fazer ressurgir, oportunamente, a contribuio da frica para o desenvolvimento da humanidade.

    A Histria Geral da frica consiste, antes de tudo, em uma histria das ideias e das civilizaes, das sociedades e das instituies. Ela fundamenta -se sobre uma grande diversidade de fontes, aqui compreendidas a tradio oral e a expresso artstica.

    A Histria Geral da frica aqui essencialmente examinada de seu interior. Obra erudita, ela tambm , em larga medida, o fiel reflexo da maneira atravs da qual os autores africanos veem sua prpria civilizao. Embora elaborada em mbito internacional e recorrendo a todos os dados cientficos atuais, a Histria ser igualmente um elemento capital para o reconhecimento do patrimnio cultural africano, evidenciando os fatores que contribuem para a unidade do continente. Essa vontade de examinar os fatos de seu interior constitui o ineditismo da obra e poder, alm de suas qualidades cientficas, conferir -lhe um grande valor de atualidade. Ao evidenciar a verdadeira face da frica, a Histria poderia, em uma poca dominada por rivalidades econmicas e tcnicas, propor uma concepo particular dos valores humanos.

    O Comit decidiu apresentar a obra, dedicada ao estudo de mais de 3 milhes de anos de histria da frica, em oito volumes, cada qual compreendendo aproximadamente oitocentas pginas de texto com ilustraes (fotos, mapas e desenhos tracejados).

    Para cada volume designou -se um coordenador principal, assistido, quando necessrio, por um ou dois codiretores assistentes.

    Os coordenadores dos volumes so escolhidos, tanto entre os membros do Comit quanto fora dele, em meio a especialistas externos ao organismo, todos eleitos por esse ltimo, pela maioria de dois teros. Eles se encarregam da elaborao dos volumes, em conformidade com as decises e segundo os planos decididos pelo Comit. So eles os responsveis, no plano cientfico, perante o Comit ou, entre duas sesses do Comit, perante o Conselho Executivo, pelo contedo dos volumes, pela redao final dos textos ou ilustraes e, de uma maneira geral, por todos os aspectos cientficos e tcnicos da Histria. o Conselho Executivo quem aprova, em ltima instncia, o original definitivo. Uma vez considerado pronto para a edio, o texto remetido ao Diretor -Geral

  • XXIXApresentao do Projeto

    da UNESCO. A responsabilidade pela obra cabe, dessa forma, ao Comit ou, entre duas sesses do Comit, ao Conselho Executivo.

    Cada volume compreende por volta de 30 captulos. Cada qual redigido por um autor principal, assistido por um ou dois colaboradores, caso necessrio.

    Os autores so escolhidos pelo Comit em funo de seu curriculum vitae. A preferncia concedida aos autores africanos, sob reserva de sua adequao aos ttulos requeridos. Alm disso, o Comit zela, tanto quanto possvel, para que todas as regies da frica, bem como outras regies que tenham mantido relaes histricas ou culturais com o continente, estejam de forma equitativa representadas no quadro dos autores.

    Aps aprovao pelo coordenador do volume, os textos dos diferentes captulos so enviados a todos os membros do Comit para submisso sua crtica.

    Ademais e finalmente, o texto do coordenador do volume submetido ao exame de um comit de leitura, designado no seio do Comit Cientfico Internacional, em funo de suas competncias; cabe a esse comit realizar uma profunda anlise tanto do contedo quanto da forma dos captulos.

    Ao Conselho Executivo cabe aprovar, em ltima instncia, os originais.Tal procedimento, aparentemente longo e complexo, revelou -se necessrio,

    pois permite assegurar o mximo de rigor cientfico Histria Geral da frica. Com efeito, houve ocasies nas quais o Conselho Executivo rejeitou originais, solicitou reestruturaes importantes ou, inclusive, confiou a redao de um captulo a um novo autor. Eventualmente, especialistas de uma questo ou perodo especfico da histria foram consultados para a finalizao definitiva de um volume.

    Primeiramente, uma edio principal da obra em ingls, francs e rabe ser publicada, posteriormente haver uma edio em forma de brochura, nesses mesmos idiomas.

    Uma verso resumida em ingls e francs servir como base para a traduo em lnguas africanas. O Comit Cientfico Internacional determinou quais os idiomas africanos para os quais sero realizadas as primeiras tradues: o kiswahili e o haussa.

    Tanto quanto possvel, pretende -se igualmente assegurar a publicao da Histria Geral da frica em vrios idiomas de grande difuso internacional (dentre outros: alemo, chins, italiano, japons, portugus, russo, etc.).

    Trata -se, portanto, como se pode constatar, de uma empreitada gigantesca que constitui um ingente desafio para os historiadores da frica e para a comunidade cientfica em geral, bem como para a UNESCO que lhe oferece

  • XXX Metodologia e pr -histria da frica

    sua chancela. Com efeito, pode -se facilmente imaginar a complexidade de uma tarefa tal qual a redao de uma histria da frica, que cobre no espao todo um continente e, no tempo, os quatro ltimos milhes de anos, respeitando, todavia, as mais elevadas normas cientficas e convocando, como necessrio, estudiosos pertencentes a todo um leque de pases, culturas, ideologias e tradies histricas. Trata -se de um empreendimento continental, internacional e interdisciplinar, de grande envergadura.

    Em concluso, obrigo -me a sublinhar a importncia dessa obra para a frica e para todo o mundo. No momento em que os povos da frica lutam para se unir e para, em conjunto, melhor forjar seus respectivos destinos, um conhecimento adequado sobre o passado da frica, uma tomada de conscincia no tocante aos elos que unem os Africanos entre si e a frica aos demais continentes, tudo isso deveria facilitar, em grande medida, a compreenso mtua entre os povos da Terra e, alm disso, propiciar sobretudo o conhecimento de um patrimnio cultural cuja riqueza consiste em um bem de toda a Humanidade.

    Bethwell Allan OgotEm 8 de agosto de 1979

    Presidente do Comit Cientf ico Internacional para a redao de uma Histria Geral da frica

  • XXXIIntroduo Geral

    A frica*1tem uma histria. J foi o tempo em que nos mapas -mndi e portulanos, sobre grandes espaos, representando esse continente ento marginal e servil, havia uma frase lapidar que resumia o conhecimento dos sbios a respeito dele e que, no fundo, soava tambm como um libi: Ibi sunt leones. A existem lees. Depois dos lees, foram descobertas as minas, grandes fontes de lucro, e as tribos indgenas que eram suas proprietrias, mas que foram incorporadas s minas como propriedades das naes colonizadoras.

    * Nota do coordenador do volume: A palavra FRICA possui at o presente momento uma origem difcil de elucidar. Foi imposta a partir dos romanos sob a forma AFRICA, que sucedeu ao termo de origem grega ou egpcia Lybia, pas dos Lebu ou Lubin do Gnesis. Aps ter designado o litoral norte -africano, a palavra frica passou a aplicar -se ao conjunto do continente, desde o fim do sculo I antes da Era Crist.

    Mas qual a origem primeira do nome? Comeando pelas mais plausveis, pode -se dar as seguintes verses: A palavra frica teria vindo do nome de um povo (berbere) situado ao sul de Cartago: os Afrig. De onde

    Afriga ou Africa para designar a regio dos Afrig. Uma outra etimologia da palavra frica retirada de dois termos fencios, um dos quais significa espiga,

    smbolo da fertilidade dessa regio, e o outro, Pharikia, regio das frutas. A palavra frica seria derivada do latim aprica (ensolarado) ou do grego aprik (isento de frio). Outra origem poderia ser a raiz fencia faraga, que exprime a ideia de separao, de dispora. Enfatizemos

    que essa mesma raiz encontrada em certas lnguas africanas (bambara). Em snscrito e hindi, a raiz apara ou africa designa o que, no plano geogrfico, est situado depois, ou

    seja, o Ocidente. A frica um continente ocidental. Uma tradio histrica retomada por Leo, o Africano, diz que um chefe iemenita chamado Africus teria

    invadido a frica do Norte no segundo milnio antes da Era Crist e fundado uma cidade chamada Afrikyah. Mas mais provvel que o termo rabe Afriqiyah seja a transliterao rabe da palavra frica.

    Chegou -se mesmo a dizer que Afer era neto de Abrao e companheiro de Hrcules!

    INTRODUO GERALJoseph Ki Zerbo

  • XXXII Metodologia e pr -histria da frica

    Mais tarde, depois das tribos indgenas, chegou a vez dos povos impacientes com opresso, cujos pulsos j batiam no ritmo febril das lutas pela liberdade. Com efeito, a histria da frica, como a de toda a humanidade, a histria de uma tomada de conscincia. Nesse sentido, a histria da frica deve ser reescrita. E isso porque, at o presente momento, ela foi mascarada, camuflada, desfigurada, mutilada. Pela fora das circunstncias, ou seja, pela ignorncia e pelo interesse. Abatido por vrios sculos de opresso, esse continente presenciou geraes de viajantes, de traficantes de escravos, de exploradores, de missionrios, de procnsules, de sbios de todo tipo, que acabaram por fixar sua imagem no cenrio da misria, da barbrie, da irresponsabilidade e do caos. Essa imagem foi projetada e extrapolada ao infinito ao longo do tempo, passando a justificar tanto o presente quanto o futuro.

    No se trata aqui de construir uma histria -revanche, que relanaria a histria colonialista como um bumerangue contra seus autores, mas de mudar a perspectiva e ressuscitar imagens esquecidas ou perdidas. Torna -se necessrio retornar cincia, a fim de que seja possvel criar em todos uma conscincia autntica. preciso reconstruir o cenrio verdadeiro. tempo de modificar o discurso. Se so esses os objetivos e o porqu desta iniciativa, o como ou seja, a metodologia , como sempre, muito mais penoso. justamente esse um dos objetivos desse primeiro volume da Histria Geral da frica, elaborada sob o patrocnio da UNESCO.

    I. PORQU?

    Trata -se de uma iniciativa cientfica. As sombras e obscuridades que cercam o passado desse continente constituem um desafio apaixonante para a curiosidade humana. A histria da frica pouco conhecida. Quantas genealogias mal feitas! Quantas estruturas esboadas com pontilhados impressionistas ou mesmo encobertas por espessa neblina! Quantas sequncias que parecem absurdas porque o trecho precedente do filme foi cortado! Esse filme desarticulado e parcelado, que no seno a imagem de nossa ignorncia, ns o transformamos, por uma formao deplorvel ou viciosa, na imagem real da histria da frica tal como efetivamente se desenrolou. Nesse contexto, no de causar espanto o lugar infinitamente pequeno e secundrio que foi dedicado histria africana em todas as histrias da humanidade ou das civilizaes.

    Porm, h algumas dcadas, milhares de pesquisadores, muitos de grande ou mesmo de excepcional mrito, vm procurando resgatar pores inteiras da

  • XXXIIIIntroduo Geral

    antiga fisionomia da frica. A cada ano aparecem dezenas de novas publicaes cuja tica cada vez mais positiva. Descobertas africanas, por vezes espetaculares, questionam o significado de certas fases da histria da humanidade em seu conjunto.

    Mas essa mesma proliferao comporta certos perigos: risco de cacofonia pela profuso de pesquisas desordenadas ou sem coordenao efetiva; discusses inteis entre escolas que tendem a dar mais importncia aos pesquisadores que ao objeto das pesquisas, etc. Por essas razes, e pela honra da cincia, tornava -se importante que uma tomada de posio acima de qualquer suspeita fosse levada a cabo por equipes de pesquisadores africanos e no -africanos, sob os auspcios da UNESCO e sob a autoridade de um conselho cientfico internacional e de coordenadores africanos. O nmero e a qualidade dos pesquisadores mobilizados para esta nova grande descoberta da frica denotam uma admirvel experincia de cooperao internacional. Mais que qualquer outra disciplina, a histria uma cincia humana, pois ela sai bem quente da forja ruidosa e tumultuada dos povos. Modelada realmente pelo homem nos canteiros da vida, construda mentalmente pelo homem nos laboratrios, bibliotecas e stios de escavaes, a histria igualmente feita para o homem, para o povo, para aclarar e motivar sua conscincia.

    Para os africanos, a histria da frica no um espelho de Narciso, nem um pretexto sutil para se abstrair das tarefas da atualidade. Essa diverso alienadora poderia comprometer os objetivos cientficos do projeto. Em contrapartida, a ignorncia de seu prprio passado, ou seja, de uma grande parte de si mesmo, no seria ainda mais alienadora? Todos os males que acometem a frica hoje, assim como todas as venturas que a se revelam, resultam de inumerveis foras impulsionadas pela histria. E da mesma forma que a reconstituio do desenvolvimento de uma doena a primeira etapa de um projeto racional de diagnstico e teraputica, a primeira tarefa de anlise global do continente africano histrica. A menos que optssemos pela inconscincia e pela alienao, no poderamos viver sem memria ou com a memria do outro. Ora, a histria a memria dos povos. Esse retorno a si mesmo pode, alis, revestir -se do valor de uma catarse libertadora, como acontece com o processo de submerso em si prprio efetivado pela psicanlise, que, ao revelar as bases dos entraves de nossa personalidade, desata de uma s vez os complexos que atrelam nossa conscincia s razes profundas do subconsciente. Mas para no substituir um mito por outro, preciso que a verdade histrica, matriz da conscincia desalienada e autntica, seja rigorosamente examinada e fundada sobre provas.

  • XXXIV Metodologia e pr -histria da frica

    II. COMO?

    Passemos agora problemtica questo do como, ou seja, da metodologia. Neste campo, como em outros, necessrio evitar tanto a singularizao excessiva da frica quanto a tendncia a alinh -la demasiadamente segundo normas estrangeiras. De acordo com alguns, seria preciso esperar que fossem encontrados os mesmos tipos de documentos existentes na Europa, a mesma panplia de peas escritas ou epigrfica, para que fosse possvel falar numa verdadeira histria da frica. Para estes, em resumo, os problemas do historiador so sempre os mesmos, dos trpicos aos plos. Torna -se necessrio reafirmar claramente que no se trata de amordaar a razo sob pretexto de que falta substncia a ser -lhe fornecida. No se deveria considerar a razo como tropicalizada pelo fato de ser exercida nos trpicos. A razo, soberana, no conhece o imprio da geografia. Suas normas e seus procedimentos fundamentais, em particular a aplicao do princpio da causalidade, so os mesmos em toda parte. Mas, justamente por no ser cega, a razo deve apreender diferentemente realidades distintas, para que essa apreenso seja sempre muito firme e precisa. Assim, os princpios da crtica interna e externa se aplicaro segundo uma estratgia mental diferente para o canto pico Sundiata Fasa2, para a capitular De Villis ou para as circulares enviadas aos prefeitos de Napoleo. Os mtodos e tcnicas sero diferentes. Alis, essa estratgia no ser exatamente a mesma em todas as partes da frica; nesse sentido, o vale do Nilo e a fachada do Mediterrneo se encontram, para reconstruo histrica, numa situao menos original em relao Europa do que a frica subsaariana.

    Na verdade, as dificuldades especficas da histria da frica podem ser constatadas j na observao das realidades da geografia fsica desse continente. Continente solitrio, se que existe algum, a frica parece dar as costas para o resto do Velho Mundo, ao qual se encontra ligada apenas pelo frgil cordo umbilical do istmo de Suez. No sentido oposto, ela mergulha integralmente sua massa compacta na direo das guas austrais, rodeada por macios costeiros, que os rios foram atravs de desfiladeiros heroicos que constituem, por sua vez, obstculos penetrao. A nica passagem importante entre o Saara e os montes abissnios encontra -se obstruda pelos imensos pntanos de Bahr el -Ghazal. Ventos e correntes martimas extremamente violentos montam guarda do Cabo Branco ao Cabo Verde. Entretanto, no interior do continente, trs

    2 Elogio a Sundiata, em lngua malinke. Fundador do Imprio do Mali no sculo XIII, Sundiata um dos heris mais populares da histria africana.

  • XXXVIntroduo Geral

    desertos encarregam -se de agravar o isolamento exterior por uma diviso interna. Ao sul, o Calaari. Ao centro, o deserto verde da floresta equatorial, temvel refgio no qual o homem lutar para se impor. Ao norte, o Saara, campeo dos desertos, imenso filtro continental, oceano fulvo dos ergs e regs que, com a franja montanhosa da cordilheira dos Atlas, dissocia o destino da zona mediterrnea do restante do continente. Sobretudo durante a pr -histria, essas potncias ecolgicas, mesmo sem serem muralhas estanques, pesaram muito no destino africano em todos os aspectos. Deram tambm um valor singular a todas essas seteiras naturais que desempenharam o papel de passarelas na explorao do territrio africano, levada a efeito pelas populaes que a habitavam h milhes de anos atrs. Citemos apenas a gigantesca fenda meridiana do Rift Valley, que se estende do centro da frica ao Iraque, passando atravs do molhe etiopiano. No sentido mais transversal, a curva dos vales do Sanga, do Ubangui e do Zaire deve ter constitudo igualmente um corredor privilegiado. No por acaso que os primeiros reinados da frica negra tenham se desenvolvido nessas regies das terras abertas, estes sahels3 que eram beneficiados simultaneamente por uma permeabilidade interna, por uma certa abertura para o exterior e por contatos com as zonas africanas vizinhas, dotadas de recursos diferentes e complementares. Essas regies abertas, que experimentaram um ritmo de evoluo mais rpido, constituem a prova a contrario de que o isolamento foi um dos fatores -chave da lentido do progresso da frica em determinados setores4. As civilizaes repousam sobre a terra, escreve F. Braudel. E acrescenta: A civilizao filha do nmero. Ora, a prpria vastido desse continente, com uma populao diluda e, portanto, facilmente itinerante, em meio a uma natureza ao mesmo tempo generosa (frutas, minerais, etc.) e cruel (endemias, epidemias)5, impediu que fosse atingido o limiar de concentrao demogrfica que tem sido quase sempre uma das precondies das mudanas qualitativas importantes no domnio econmico, social e poltico. Alm disso, a severa puno demogrfica da escravido desde os tempos imemoriais e, sobretudo, aps o comrcio negreiro do sculo XV ao XX, contribuiu muito para privar a frica do tnus humano e da estabilidade necessrios a toda criao eminente, mesmo que seja no plano tecnolgico. A natureza e os homens, a geografia e a histria no foram benevolentes com a

    3 Do rabe sahil: margem. Aqui, margem do deserto, considerado como um oceano. 4 O fator climtico no deve ser negligenciado. O professor Thurstan Shaw destacou o fato de que certos

    cereais adaptados ao clima mediterrneo (chuvas de inverno) no puderam ser cultivados no vale do Nger, porque ao sul do paralelo 18, latitude norte, e em virtude da barreira da frente intertropical, sua aclimatao era impossvel. Cf. J. A. H. XII 1, 1971, p. 143 -153.

    5 Sobre esse assunto ver J. FORD, 1971.

  • XXXVI Metodologia e pr -histria da frica

    frica. indispensvel retornar a essas condies fundamentais do processo evolutivo, para que seja possvel colocar os problemas em termos objetivos e no sob a forma de mitos aberrantes como a inferioridade racial, o tribalismo congnito e a pretensa passividade histrica dos africanos. Todas essas abordagens subjetivas e irracionais apenas mascaram uma ignorncia voluntria.

    A. As fontes difceis

    No que concerne ao continente africano, preciso reconhecer que o manuseio das fontes particularmente difcil. Trs fontes principais constituem os pilares do conhecimento histrico: os documentos escritos, a arqueologia e a tradio oral. Essas trs fontes so apoiadas pela lingustica e pela antropologia, que permitem matizar e aprofundar a interpretao dos dados, por vezes excessivamente brutos e estreis sem essa abordagem mais ntima. Estaramos errados, entretanto, em estabelecer a priori uma hierarquia peremptria e definitiva entre essas diferentes fontes.

    1. As fontes escritasQuando no so raras, tais fontes se encontram mal distribudas no tempo e

    no espao. Os sculos mais obscuros da histria africana so justamente aqueles que no se beneficiam do saber claro e preciso que emana dos testemunhos escritos, por exemplo, os sculos imediatamente anteriores e posteriores ao nascimento de Cristo (a frica do Norte uma exceo). No entanto, mesmo quando esse testemunho existe, sua interpretao implica frequentemente ambiguidades e dificuldades. Nesse sentido, a partir de uma releitura das viagens de Ibn Battuta e de um novo exame das diversas grafias dos topnimos empregados por este autor e por alUmari, certos historiadores so levados a contestar que Niani, situada s margens do rio Sankarani, tivesse sido a capital do antigo Mali6. Do ponto de vista quantitativo, massas considerveis de materiais escritos de carter arquivstico ou narrativo permanecem ainda inexploradas, como provam os recentes inventrios parciais dos manuscritos inditos relativos histria da frica negra exumados de bibliotecas do Marrocos7, da Arglia e da Europa.

    6 Cf. HUNWICK, J. O. 1973, p. 195 -208. O autor corre o risco do argumento a silentio: Se Ibn Battuta tivesse atravessado o Nger ou o Senegal, teria feito referncia a isso.

    7 Cf. UNESCO, Coletnea seletiva de textos em rabe proveniente dos arquivos marroquinos, pelo professor Mohammed Ibraim EL KEITANI, SCH/VS/894.

  • XXXVIIIntroduo Geral

    Tambm nas bibliotecas particulares de grandes eruditos sudaneses, encontradas em cidades da curva do Nger8, h manuscritos inditos cujos ttulos permitem entrever files analticos novos e promissores. A UNESCO estabeleceu em Tombuctu o Centro Ahmed Baba para promover a coleta desses documentos. Nos fundos de arquivos existentes no Ir, no Iraque, na Armnia, na ndia e na China, sem falar das Amricas, muitos fragmentos da histria da frica esto espera da perspiccia inventiva do pesquisador. Nos arquivos do primeiro--ministro de Istambul, por exemplo, onde esto classificados os registros dos decretos do Conselho de Estado Imperial Otomano, uma correspondncia indita datada de maio de 1577, enviada pelo sulto Murad III ao Mai Idriss Alaoma e ao bei de Tnis, projetam nova luz sobre a diplomacia do Kanem Bornu daquela poca e tambm sobre a situao do Fezzan9.

    Um trabalho ativo de coleta vem sendo realizado com xito pelos institutos de estudos africanos e centros de pesquisas histricas nas regies africanas que foram penetradas pela cultura islmica. Por outro lado, novos guias editados pelo Conselho Internacional dos Arquivos, sob os auspcios da UNESCO, propem--se a orientar os pesquisadores na floresta de documentos espalhados em todas as partes do mundo ocidental.

    Apenas um grande esforo de edies e reedies judiciosas, de traduo e difuso na frica permitir, pelo efeito multiplicador desses novos fluxos conjugados, transpor um novo limiar qualitativo e crtico sobre a viso do passado africano. Por outro lado, quase to importante quanto a grande quantidade de documentos novos ser a atitude dos pesquisadores ao examin -los. assim que numerosos textos explorados desde o sculo XIX ou mesmo depois, mas ainda no perodo colonial, reclamam imperiosamente uma releitura expurgada de qualquer preconceito anacrnico e marcada por uma viso endgena. Assim sendo, as fontes escritas a partir das escrituras subsaarianas (vai, bamum, ajami) no devem ser negligenciadas.

    2. A arqueologiaOs testemunhos mudos revelados pela arqueologia so em geral mais

    eloquentes ainda do que os testemunhos oficiais dos autores de certas crnicas. A arqueologia, por suas prestigiosas descobertas, j deu uma contribuio valiosa histria africana, sobretudo quando no h crnica oral ou escrita

    8 Cf. tudes Maliennes, I. S. H. M., n. 3, set. 1972.9 MARTIN, B. G. 1969, p. 15 -27.

  • XXXVIII Metodologia e pr -histria da frica

    disponvel (como o caso de milhares de anos do passado africano). Apenas objetos -testemunho, enterrados com aqueles a quem testemunham, velam sob o pesado sudrio de terra por um passado sem rosto e sem voz. Alguns deles so particularmente significativos como indicadores e medidas da civilizao: objetos de ferro e a tecnologia envolvida em sua fabricao, cermicas com suas tcnicas de produo e estilos, peas de vidro, escrituras e estilos grficos, tcnicas de navegao, pesca e tecelagem, produtos alimentcios, e tambm estruturas geomorfolgicas, hidrulicas e vegetais ligadas evoluo do clima... A linguagem dos achados arqueolgicos possui, por sua prpria natureza, algo de objetivo e irrecusvel. Assim, o estudo da tipologia das cermicas e dos objetos de osso e metal encontrados na regio ngero -chadiana do Saara demonstra a ligao entre os povos pr -islmicos (Sao) da bacia chadiana e as reas culturais que se estendem at o Nilo e o deserto lbio. Estatuetas de argila cozida com talabartes cruzados, ornatos corporais das estatuetas, formas de vasos e braceletes, arpes e ossos, cabeas ou pontas de flechas e facas de arremesso ressuscitam assim, graas a seus parentescos, as solidariedades vivas de pocas antigas10, para alm desta paisagem contempornea massacrada pela solido e pela inrcia. Diante disso, a localizao, a classificao e a proteo dos stios arqueolgicos africanos se impem como prioridade de grande urgncia, antes que predadores ou profanos irresponsveis e turistas sem objetivos cientficos os pilhem e os desorganizem, despojando -os, dessa maneira, de qualquer valor histrico srio. Mas a explorao destes stios por projetos prioritrios de escavao em grande escala s poder desenvolver -se no contexto de programas interafricanos sustentados por poderosa cooperao internacional.

    3. A tradio oralParalelamente s duas primeiras fontes da histria africana (documentos

    escritos e arqueologia), a tradio oral aparece como repositrio e o vetor do capital de criaes socioculturais acumuladas pelos povos ditos sem escrita: um verdadeiro museu vivo. A histria falada constitui um fio de Ariadne muito frgil para reconstituir os corredores obscuros do labirinto do tempo. Seus guardies so os velhos de cabelos brancos, voz cansada e memria um pouco obscura, rotulados s vezes de teimosos e meticulosos (veilliesse oblige!): ancestrais em potencial... So como as derradeiras ilhotas de uma paisagem outrora imponente, ligada em todos os seus elementos por uma ordem precisa

    10 Cf. HUARD, P. 1969, p. 179 -224.

  • XXXIXIntroduo Geral

    e que hoje se apresenta erodida, cortada e devastada pelas ondas mordazes do modernismo. Fsseis em sursis!

    Cada vez que um deles desaparece, uma fibra do fio de Ariadne que se rompe, literalmente um fragmento da paisagem que se toma subterrneo. Indubitavelmente, a tradio oral a fonte histrica mais ntima, mais suculenta e melhor nutrida pela seiva da autenticidade. A boca do velho cheira mal diz um provrbio africano mas ela profere coisas boas e salutares. Por mais til que seja, o que escrito se congela e se desseca. A escrita decanta, disseca, esquematiza e petrifica: a letra mata. A tradio reveste de carne e de cores, irriga de sangue o esqueleto do passado. Apresenta sob as trs dimenses aquilo que muito frequentemente esmagado sobre a superfcie bidimensional de uma folha de papel. A alegria da me de Sundiata, transtornada pela cura sbita de seu filho, ecoa ainda no timbre pico e quente dos griots do Mali (animadores pblicos; ver captulo 8). claro que muitos obstculos devem ser ultrapassados para que se possa peneirar criteriosamente o material da tradio oral e separar o bom gro dos fatos, da palha das palavras -armadilha falsas janelas abertas para a simetria , do brilho e das lantejoulas de frmulas que constituem apenas a embalagem circunstancial de uma mensagem vinda de longe.

    Costuma -se dizer que a tradio no inspira confiana porque ela funcional; como se toda mensagem humana no fosse funcional por definio, incluindo -se nessa funcionalidade os documentos de arquivos que, por sua prpria inrcia e sob sua aparente neutralidade objetiva, escondem tantas mentiras por omisso e revestem o erro de respeitabilidade. Certamente, a tradio pica em particular uma recriao paramtica do passado. Uma espcie de psicodrama que revela comunidade suas razes e o corpo de valores que sustenta sua personalidade: um vitico encantado para singrar o rio do tempo em direo ao reino dos ancestrais. por isto que a palavra pica no coincide exatamente com a palavra histrica: cavalga -a atravs de projees anacrnicas a montante e a jusante do tempo real, com interpenetraes que se assemelham s perturbaes do relevo em arqueologia. E os escritos, escaparo eles prprios a essas intruses enigmticas? Aqui, como em toda parte, preciso procurar a palavra fssil -guia, tentar encontrar a pedra de toque que identifica o metal puro e rejeita a ganga e a escria.

    Certamente, no discurso pico, a fragilidade do encadeamento cronolgico constitui seu verdadeiro calcanhar de Aquiles; as sequncias temporais subvertidas criam um quebra -cabea onde a imagem do passado no nos chega de modo claro e estvel como num espelho de boa qualidade, mas como um reflexo fugaz que dana sobre a agitao da gua. A durao mdia dos reinados

  • XL Metodologia e pr -histria da frica

    ou das geraes constitui um domnio extremamente controvertido no qual as extrapolaes feitas a partir de perodos recentes so muito pouco seguras, em razo das mutaes demogrficas e polticas. Por vezes, um dinasta excepcional e carismtico polariza sobre si os feitos mais notveis de seus predecessores e sucessores que, assim, so literalmente eclipsados. o que acontece com certos dinastas de Ruanda, como Da Monzon, rei de Segu (incio do sculo XIX), a quem os griots atribuem toda a grande conquista desse reino.

    Por outro lado, o texto literrio oral retirado de seu contexto como peixe fora da gua: morre e se decompe. Isolada, a tradio assemelha -se a essas mscaras africanas arrebatadas da comunho dos fiis para serem expostas curiosidade dos no iniciados. Perde sua carga de sentido e de vida. Por sua prpria existncia e por ser sempre retomada por novas testemunhas que se encarregam de sua transmisso, a tradio adapta -se s expectativas de novos auditrios adaptao essa que se refere primordialmente apresentao da mensagem, mas que no deixa intacto o contedo. E no vemos tambm mercadores ou mercenrios da tradio que servem vontade verses de textos escritos reinjetados na prpria tradio?!

    Enfim, o prprio contedo da mensagem permanece frequentemente hermtico, esotrico mesmo. Para o africano, a palavra pesada. Ela fortemente ambgua, podendo fazer e desfazer, sendo capaz de acarretar malefcios. por isso que sua articulao no se d de modo aberto e direto. A palavra envolvida por apologias, aluses, subentendidos e provrbios claro -escuros para as pessoas comuns, mas luminosos para aqueles que se encontram munidos das antenas da sabedoria. Na frica, a palavra no desperdiada. Quanto mais se est em posio de autoridade, menos se fala em pblico. Mas quando se diz a algum: Voc comeu o sapo e jogou a cabea fora, a pessoa compreende que est sendo acusada de se furtar a uma parte de suas responsabilidades11. Esse hermetismo das meias -palavras indica, ao mesmo tempo, o valor inestimvel e os limites da tradio oral, uma vez que sua riqueza praticamente impossvel de ser transferida integralmente de uma lngua para outra, sobretudo quando esta outra se encontra estrutural e sociologicamente distante. A tradio acomoda -se muito pouco traduo. Desenraizada, ela perde sua seiva e sua autenticidade, pois a lngua a morada do ser. Alis, muitos dos erros que so imputados tradio so provenientes de intrpretes incompetentes ou inescrupulosos.

    11 Cf. AGUESSY, H. 1972, p. 269 -297.

  • XLIIntroduo Geral

    Seja como for, a validade da tradio oral est amplamente provada nos dias atuais. Ela largamente comprovada pelo confronto com as fontes arqueolgicas ou escriturais, como no caso do stio de Kumbi Saleh, dos vestgios do lago Kisale, ou mesmo dos acontecimentos do sculo XVI transmitidos pelos Shona, cuja conformidade com os documentos escritos por viajantes portugueses daquela poca foi verificada por D. P. Abraham.

    Em suma, o discurso da tradio, seja ela pica, prosaica, didtica ou tica, pode ser histrico sob um trplice ponto de vista. Em primeiro lugar, ele revelador do conjunto de usos e valores que animam um povo e que condicionam seus atos futuros pela representao dos arqutipos do passado. Fazendo isso, a epopeia no s reflete, mas tambm cria a histria. Quando Da Monzon tratado de senhor das guas e dos homens, expressa -se com isso o carter absoluto de seu poder. Contudo, essas mesmas narrativas mostram -no consultando incessantemente seus guerreiros, seus griots, suas mulheres12. O senso de honra e de reputao explode na famosa rplica do canto do arco em louvor a Sundiata (Sundiata Fasa): Saya Kaoussa malo y13. Esse valor tambm se exprime muito bem no episdio da luta de Bakary Dian contra os Peul do Kournari. Ressentido, o bravo Bakary retirara -se para sua aldeia, Dongorongo; diante das splicas de seu povo para que retomasse o comando das tropas de Segu, cedeu apenas quando foi tocado na corda sensvel do orgulho e da glria: As velhas palavras trocadas, esquece -as. o teu nome agora que precisa ser considerado; pois se vem ao mundo para construir um nome. Se nasces, cresces e morres sem ter um nome, vieste por nada, partiste por nada. Bakary, ento, exclama: Griots de Segu, j que vs vistes, no ser impossvel. Farei o que me pedis, por meu renome. No o farei por Da Monzon. No o farei por ningum em Segu. F -lo -ei somente por minha reputao. Mesmo depois de minha morte, isso ser acrescentado ao meu nome.

    Encontramos um trao similar de civilizao e lei, quando Silamaka diz: Tendes sorte que me seja proibido matar mensageiros.

    Em suma, a recomposio do passado est longe de ser integralmente imaginria. Encontram -se a fragmentos de lembranas, files de histria que frequentemente so mais prosaicos que os ornamentos coloridos da imaginao pica: Foi assim que surgiu essa instituio de pastores coletivos nas aldeias bambara. Se eras escolhido e feito pastor, tornavas -te Peul pblico. Os Peul pblicos guardavam os rebanhos do rei. Eram homens de etnias diferentes, e

    12 Cf. KESTELOOT, L. Tomos 1, 3 e 4. 13 A morte vale mais do que a desonra.

  • XLII Metodologia e pr -histria da frica

    seu pastor chefe chamava -se Bonke. Ou ainda Nessa poca no se usavam babuchas, mas chinelas de couro de boi curtido, com um cordo na parte da frente (em torno do dedo grande do p) e um outro no calcanhar. Enfim, a narrativa pica salpicada de aluses a tcnicas, a objetos que no so essenciais ao desenvolvimento da ao, mas que do indcios sobre o modo de vida. Ele (Da Monzon) convocou, seus sessenta remadores Somono, trinta homens na proa e trinta na popa. A piroga estava ricamente decorada. As escadas so preparadas e colocadas contra a muralha. Os caadores de Segu sobem de surpresa e infiltram -se na cidade (...). Os cavaleiros de Segu lanam flechas flamejantes. As casas da aldeia pegam fogo. Saran, a mulher apaixonada por Da Monzon, vai umedecer a plvora dos fuzis dos guerreiros de Kore... por um diagnstico rigoroso que s vezes se vale da anlise psicanaltica e neste caso considera as prprias psicoses do pblico ou dos transmissores da tradio que o historiador pode atingir a medula substantiva da realidade histrica.

    Por conseguinte, a multiplicidade de verses transmitidas por cls adversrios, por exemplo, pelos griots -clientes de cada nobre protetor (horon, dyatigui), longe de constituir uma desvantagem, representa uma garantia suplementar para a crtica histrica. E a conformidade das narrativas, como no caso dos griots bambara e peul, que pertencem a campos inimigos, d um realce particular qualidade desse testemunho. A histria falada, por sua prpria polignese, comporta elementos de autocensura, como mostra o caso dos Gouro, entre os quais a tradio esotrica liberal e integracionista, transmitida pelas linhagens, coexiste com a tradio esotrica oligrquica e meticulosa da sociedade secreta. Na verdade, no se trata de uma propriedade privada, mas de um bem indiviso pelo qual respondem diversos grupos da comunidade.

    O essencial proceder crtica interna desses documentos atravs do conhecimento ntimo do gnero literrio em questo, sua temtica e suas tcnicas, seus cdigos e esteretipos, as frmulas de execuo, as digresses convencionais, a lngua em evoluo, o pblico e o que ele espera dos transmissores da tradio. E sobretudo a casta destes ltimos, suas regras de conduta, sua formao, seus ideais, suas escolas. Sabe -se que no Mali e na Guin, por exemplo em Keyla, Kita, Niagassola, Niani, etc. , existem h sculos verdadeiras escolas de iniciao.

    Essa tradio rgida, institucionalizada e formal geralmente melhor estruturada e sustentada pela msica de corte que se integra a ela, que a esconde em partes didticas e artsticas. Alguns dos instrumentos utilizados, como o Sosso Balla (balafo de Sumauro Kante), so em si mesmos, por sua antiguidade, monumentos dignos de uma investigao de tipo arqueolgico. Mas as correspondncias entre tipos de instrumento e tipos de msica, de

  • XLIIIIntroduo Geral

    cantos e de danas constituem um mundo minuciosamente regulado, no qual as anomalias e as adies posteriores so facilmente detectadas. Cada gnero literrio oral possui, assim, um instrumento especfico em cada regio cultural: o balla (xilofone) ou o bolon (harpa -alade) para a epopeia mandinga; o bendr dos Mossi (grande tambor redondo de uma s face, feito com uma cabaa e tocado com as mos nuas) para a exaltao, muitas vezes silenciosa, dos nomes de guerra (zabyouya) dos soberanos; o mvet (harpa -ctara) para os poetas msicos dos Fang em suas Nibelungen tropicais. Veculos da histria falada, esses instrumentos so venerados e sagrados. Com efeito, incorporam -se ao artista, e seu lugar to importante na mensagem que, graas s lnguas tonais, a msica torna -se diretamente inteligvel, transformando -se o instrumento na voz do artista sem que este tenha necessidade de articular uma s palavra. O trplice ritmo tonal, de intensidade e de durao, faz -se ento msica significante, nessa espcie de semntico -melodismo de que falava Marcel Jousse. Na verdade, a msica encontra -se de tal modo integrada tradio que algumas narrativas somente podem ser transmitidas sob a forma cantada. A prpria cano popular, que exprime a vontade geral de forma satrica e que permaneceu vigorosa mesmo com as lutas eleitorais do sculo XX, um gnero precioso, que contrabalana e completa as afirmaes dos documentos oficiais.

    O que se diz aqui sobre a msica vale tambm para outras formas de expresso, como as artes plsticas, cujas produes so, por vezes, a expresso direta de personagens, de acontecimentos ou de culturas histricas, como nos reinos de Abomey e do Benin (baixos -relevos) ou na nao Kuba (esculturas).

    Em poucas palavras, a tradio oral no apenas uma fonte que se aceita por falta de outra melhor e qual nos resignamos por desespero de causa. uma fonte integral, cuja metodologia j se encontra bem estabelecida e que confere histria do continente africano uma notvel originalidade.

    4. A lingustica A histria da frica tem na lingustica no apenas uma cincia auxiliar, mas

    uma disciplina autnoma, que, no entanto, a conduz diretamente ao mago de seu prprio objeto... Percebe -se bem isso no caso da Nbia, que se encontra amortalhada no duplo silncio opaco das runas de Mero e da escrita merotica no decifrada porque a lngua permanece desconhecida14. claro que h muito

    14 A UNESCO organizou em 1974, no Cairo, um simpsio cientfico internacional para a decifrao dessa lngua africana.

  • XLIV Metodologia e pr -histria da frica

    a ser feito nesse campo, comeando pela catalogao cientfica das lnguas. Na verdade, no necessrio sacrificar a abordagem descritiva abordagem comparatista e sinttica com pretenses tipolgicas e genticas. por meio de uma anlise ingrata e minuciosa do fato lingustico, com seu significante de consoantes, vogais e tons, com suas latitudes combinatrias em esquemas sintagmticos, com seu significado vivido pelos falantes de uma determinada comunidade15, que se pode fazer extrapolaes retroativas, operao que muitas vezes se torna difcil pela falta de conhecimento histrico profundo dessas lnguas. De modo que elas s podem ser comparadas a partir de seu extrato contemporneo pelo mtodo sincrnico, base indispensvel para toda sntese diacrnica e gentica. A tarefa rdua, e compreensvel que duelos de erudio aconteam em algumas reas, particularmente no que diz respeito lngua bantu. Malcolm Guthrie, por exemplo, sustenta a teoria da autognese, enquanto Joseph Greenberg defende com veemncia a tese de que as lnguas bantu devem ser colocadas num contexto continental mais amplo. Isto se justifica, diz Greenberg, pelo fato de as semelhanas existentes no serem analogias acidentais resultantes de influncias externas, mas derivarem de um parentesco gentico intrnseco, expresso em centenas de lnguas desde o wolof at o baka (Repblica do Sudo) pelas similitudes dos pronomes, do vocabulrio de base e das caractersticas gramaticais, como o sistema de classes nominais. Para o historiador, todos esses debates no so meros exerccios acadmicos. Um autor que se baseie, por exemplo, na distribuio dos grupos de palavras anlogas que designam o carneiro na frica central na orla da floresta constatar que esses grupos homogneos no ultrapassam a franja vegetal, mas distribuem -se paralelamente a ela. Isto sugere uma distribuio dos rebanhos de acordo com os paralelos dos dois bitopos contguos da savana e da floresta, ao passo que, mais a leste, o padro lingustico se ordena claramente em faixas meridianas da frica oriental para a frica austral, o que supe um caminho de introduo perpendicular primeira, e ilustra a contrario o papel inibidor da floresta na transmisso das tcnicas16. Esse papel, no entanto, no idntico para todas as tcnicas. Em suma, os estudos lingusticos demonstram que as rotas e os caminhos das migraes, assim como a difuso de culturas materiais e espirituais, so marcados pela distribuio de palavras aparentadas. Da a importncia da anlise lingustica diacrnica e da glotocronologia para o historiador que deseja compreender a dinmica e o sentido da evoluo.

    15 Cf. HOUIS, M. 1971, p. 45. 16 Cf. EHRET, C. 1963, p. 213 -221.

  • XLVIntroduo Geral

    J. Greenberg, por exemplo, trouxe luz as contribuies do kanuri ao haussa em relao a termos culturais e a termos da tcnica militar, contribuies essas que valorizam a influncia do imprio de Bornu no desenvolvimento dos reinos haussa. Em particular, os ttulos das dinastias de Bornu, incluindo termos kanuri como kaygamma, magira, etc., conheceram uma notvel difuso at o corao do Camares e da Nigria. O estudo sistemtico dos topnimos e antropnimos pode tambm fornecer indicaes bastante precisas, contanto que essa nomenclatura seja revista segundo uma abordagem endgena, pois um grande nmero de nomes foi deformado pela pronncia ou redao exticas de no -africanos ou de africanos que atuavam como intrpretes ou escribas. A caa palavra correta, mesmo quando esta foi congelada pela escrita h sculos atrs, uma das tarefas mais complexas da crtica histrica da frica.

    Tomemos um exemplo: a palavra Gaoga utilizada por Leo, o Africano, para designar um reino do Sudo tem sido frequentemente assimilada a Gao. Mas a anlise desse topnimo a partir do teda e do kanuri permite localizar tambm um reino chamado Gaoga entre o Uadai (Chade), o Darfur (Sudo) e o Fertit (Repblica Centro -Africana)17. Quanto referncia ao Imen para designar o pas de origem de numerosas dinastias sudanesas, um reexame srio desse problema tem sido feito desde H. R. Palmer. No se deveria interpretar a palavra Yemen no mais segundo as evocaes religiosas dos cronistas muulmanos orientados em direo Arabia Felix, e sim em referncia ao antigo pas de Yam (da Yamem)?18

    Tambm o exame do lxico swahili, recheado de termos de origem rabe, e do lxico das regies da costa oriental malgaxe (Antemoro, Antalaotra, Anosy), banhada por influncias rabes, revela -se uma fonte rica de ensinamentos para o historiador.

    De qualquer maneira, a lingustica, que j prestou um bom servio histria da frica, deve desvencilhar -se de incio do desprezo etnocentrista que marcou a lingustica africana elaborada por A. W. Schlegel e Auguste Schleicher, segundo a qual as lnguas da famlia indo -europeia esto no topo da evoluo, e as lnguas dos negros, no ponto mais baixo da escala, apresentando estas, entretanto, o interesse de segundo alguns revelar um estado prximo ao estado original da linguagem, em que as lnguas no teriam gramtica, o discurso

    17 Cf. KALAK, P. 1972, p. 529 -548.18 Cf. MOHAMMADOU, A. e ELDRIDGE. 1971, p. 130 -155.

  • XLVI Metodologia e pr -histria da frica

    seria uma sequncia de monosslabos e o lxico estaria restrito a um inventrio elementar19.

    5. A antropologia e a etnologia O mesmo comentrio aplica -se a fortiori antropologia e etnologia. Na

    verdade, o discurso etnolgico20 tem sido, por fora das circunstncias, um discurso com premissas explicitamente discriminatrias e concluses implicitamente polticas, havendo entre ambas um exerccio cientfico forosamente ambguo. Seu principal pressuposto era muitas vezes a evoluo linear: frente da caravana da humanidade ia a Europa, pioneira da civilizao, e atrs os povos primitivos da Oceania, Amaznia e frica. Como se pode ser ndio, negro, papua, rabe? O outro, atrasado, brbaro, selvagem em diversos graus, sempre diferente, e por essa razo torna -se objeto de interesse do pesquisador ou de cobia do traficante. A etnologia recebeu, assim, procurao geral para ser o ministrio da curiosidade europeia diante dos nossos nativos. Apreciadora dos estados miserveis, da nudez e do folclore, a viso etnolgica era muitas vezes sdica, lbrica e, na melhor das hipteses, um pouco paternalista. Salvo excees, as dissertaes e os relatrios resultantes justificavam o status quo e contribuam para o desenvolvimento do subdesenvolvimento21. O evolucionismo Darwin, apesar de seus grandes mritos, o difusionismo de sentido nico, que tem visto muitas vezes a frica como o escoadouro passivo das invenes de outros lugares, o funcionalismo de Malinowski e de Radcliffe -Brown, enfim, que negava toda dimenso histrica s sociedades primitivas, todas essas escolas se adaptavam naturalmente situao colonial na qual proliferavam como num terreno frtil22. Suas abordagens, muito pobres afinal para a compreenso das sociedades exticas, desqualificavam -se ainda mais pelo fato de as sociedades pelas quais tinham maior interesse serem exatamente as mais inslitas, isto , os prottipos de uma humanidade instalada no elementar. Tais prottipos, contudo,

    19 Cf. HOUIS, M. 1971, p. 2720 O termo etnia, atribudo aos chamados povos sem escrita, foi sempre marcado pelo preconceito racista:

    Idlatra ou tnico, escrevia Clment Marot desde o sculo XVI. A etnografia a coleta descritiva dos documentos. A etnologia a sntese comparativa.

    21 Cf. COPANS, J. 1971, p. 45: A ideologia colonial e a etnologia decorrem de uma mesma configurao, e existe entre essas duas ordens de fenmenos um jogo que condiciona o desenvolvimento de ambas.

    22 Cf. RUFFIE, J. 1977, p. 429: O pseudodarwinismo cultural que inspira o pensamento antropolgico do sculo XIX legitima o colonialismo que, assim, no se caracteriza como produto de uma certa conjuntura poltica, mas de estrutura biolgica; em resumo, um caso particular de competio natural. A antropologia do sculo XIX justifica a Europa imperialista.

  • XLVIIIntroduo Geral

    constituam apenas microrganismos, com um papel histrico no desprezvel por vezes mesmo notvel mas na maioria dos casos marginal em relao aos conjuntos sociopolticos mais poderosos e melhor engajados no curso da histria.

    Desse modo, toda a frica foi simbolizada por imagens que os prprios africanos podiam considerar estranhas, exatamente como se a Europa fosse definida no comeo do sculo XX pelos costumes mesa e pelas formas de moradia ou pelo nvel tcnico das comunidades do interior da Bretanha, do Cantal ou da Sardenha. Alm disso, o mtodo etnolgico baseado na entrevista individual, marcado com o selo de uma experincia subjetiva total porque intensa, mas total apenas no nvel do microcosmo, desemboca em concluses objetivas muito frgeis para que possam ser extrapoladas.

    Enfim, por uma dialtica implacvel, o prprio objeto da etnologia, sob a influncia colonial, desvanecia -se pouco a pouco. Os indgenas primitivos, que viviam da coleta e da caa, e mesmo do canibalismo, transformavam -se aos poucos em subproletrios dos centros perifricos de um sistema mundial de produo cujos plos esto situados no hemisfrio norte. A ao colonial consumia e aniquilava seu prprio objeto. Por isso, aqueles que haviam sido incumbidos do papel de objetos, os africanos, decidiram iniciar, eles prprios, um discurso autnomo na qualidade de sujeitos da histria, pretendendo mesmo que, em certos aspectos, os mais primitivos no so exatamente os que se imagina... Ao mesmo tempo, pioneiros como Frobenius, Delafosse, Palmer, Evans Pritchard, que, sem preconceitos haviam trabalhado na descoberta de um fio histrico e de estruturas originais nas sociedades africanas com ou sem Estado, continuavam seus esforos, retomados e aperfeioados por outros pesquisadores contemporneos. Estes acreditam que se podem atingir resultados objetivos aplicando os mesmos instrumentos intelectuais das cincias humanas, mas adaptando -os matria africana. Derrubam assim, de uma s vez, as abordagens errneas baseadas na diferena congnita e substantiva dos nativos ou em seu primitivismo na rota da civilizao. Basta reconhecer que se o ser dos africanos o mesmo o do Homo sapiens seu ser -no -mundo diferente. A partir da novos instrumentos podem ser aperfeioados para apreender sua evoluo singular.

    Ao mesmo tempo, a abordagem marxista, com a condio de no ser dogmtica, e a abordagem estruturalista de Lvi -Strauss contribuem tambm com observaes vlidas, mas opostas, sobre a evoluo dos povos ditos sem escrita. O mtodo marxista, essencialmente histrico e para o qual a histria a conscincia coletiva em ao, insiste muito mais nas foras produtivas e nas

  • XLVIII Metodologia e pr -histria da frica

    relaes de produo, na prxis e nas normas; o mtodo estruturalista, por sua vez, quer desvendar os mecanismos inconscientes, mas lgicos, os conjuntos coerentes que sustentam e enquadram a ao dos espritos e das sociedades. Bebendo nessas novas fontes, a antropologia ser, esperamos, algo mais que uma Fnix que, em defesa da causa, haja renascido das cinzas de um certo tipo de etnologia23.

    A antropologia deve criticar seu prprio procedimento, insistir tanto nas normas quanto nas prticas, no confundir as relaes sociais, decifrveis pela experincia, e as estruturas que as sustentam. Ela enriquecer assim, umas atravs das outras, as normas, estruturas e opinies, por meio da ampla utilizao das tcnicas quantitativas e coletivas de pesquisa, racionalizando e objetivando o discurso. No apenas as interaes dos fatores globais, mas tambm a sntese histrica, interessam particularmente antropologia. Por exemplo, pode -se constatar uma correspondncia entre a existncia de rotas comerciais com monoplio real de certas mercadorias e as formas polticas centralizadas (em Gana e no Mali antigos, no Imprio Ashanti do sculo XVIII, no Reino Lunda do Zaire, etc.). Enquanto isso contraprova decisiva em oposio aos Ngonde e aos Zulu, povos de lnguas e costumes idnticos (os Nyakusa e os Xhosa), mas que viviam margem dessas rotas, no atingiram uma fase monrquica24. A partir disso, podemos tentar inferir uma espcie de lei de antropologia ou de sociologia poltica. Por outro lado, as estruturas de parentesco podem acarretar um grande nmero de consequncias sobre a evoluo histrica. Assim, quando dois grupos de lnguas diferentes se encontram, a forma de unio conjugal entre esses grupos geralmente decide qual ser a lngua dominante, pois a lngua materna s poder impor -se se as mulheres forem tomadas como esposas e no como escravas ou concubinas. Assim, certos grupos Nguni conservaram sua lngua de origem, enquanto outros, que desposaram mulheres sotho, perderam sua lngua em favor da lngua sotho. tambm o caso dos pastores peul vindos de Macina e de Futa Djalon, que tomaram suas esposas entre os Mandinga e criaram a provncia de Uassulu: eles so peul apenas pelo nome e por certos traos fsicos, j que perderam sua lngua de origem em favor do malinke ou do bambara.

    23 A sociologia seria uma cincia intra -social para o mundo moderno, enquanto a antropologia se caracterizaria por uma abordagem comparativa (inter -social). Mas isso no significa ressuscitar categorias contestveis como a diferena, com seu cortejo de etno -histria, etno -arquelogia, etno -matemtica...?

    24 Cf. THOMPSON, L. 1969, p. 72 -73.

  • XLIXIntroduo Geral

    Dessa forma, as principais fontes da histria da frica mencionadas acima, no podem ser classificadas a priori de acordo com uma escala de valores que privilegie permanentemente uma ou outra. Toma -se necessrio julgar caso por caso. Na verdade, no se trata de testemunhos de tipos radicalmente diferentes. Todas correspondem definio de signos que nos chegam do passado e que, enquanto veculos de mensagens, no so inteiramente neutros, mas carregados de intenes francas ou ocultas. Todas necessitam ento da crtica metodolgica. Cada categoria de fonte pode conduzir s demais: a tradio oral, por exemplo, tem levado muitas vezes a depsitos arqueolgicos e pode at auxiliar na comparao de certos documentos escritos. Assim, o grande Ibn Khaldun escreve, na Histria dos Berberes, sobre Sundiata: Seu filho Mana Ueli o sucedeu. Mana em sua lngua escrita significa sulto e Ueli o equivalente de Ali. Todavia os transmissores da tradio ainda hoje explicam que Mansa Ule significa o rei de pele clara.

    B. Os quatro grandes princpios

    Quatro princpios devem nortear a pesquisa, se se quer levar adiante a frente pioneira da historiografia da frica.

    1 Primeiramente, a interdisciplinaridade, cuja importncia tal que chega quase a constituir por si s uma fonte especfica. Assim, a sociologia poltica aplicada tradio oral no Reino de Segu enriqueceu consideravelmente uma viso que, sem isso, limitar -se -ia s linhas esquelticas de uma rvore genealgica marcada por alguns feitos estereotipados. A complexidade, a interpenetrao de estruturas s vezes modeladas sobre hegemonias antigas (o modelo mali, por exemplo) aparecem, assim, em sua realidade concreta e viva. Da mesma forma, no caso dos pases do delta do Nger, as tradies orais permitem completar o conjunto de fatores de desenvolvimento, demasiadamente reduzidos s influncias do comrcio negreiro e do leo de palmeira; as relaes endgenas anteriores no sentido norte -sul e leste -oeste at Lagos e a regio de Ijebu so atestadas pela tradio oral, que apia e enriquece admiravelmente as aluses de Pacheco Pereira no Esmeraldo25.

    E foi exatamente um elemento de antropologia cultural (o texto de iniciao dos pastores peul26) que permitiu a certos pr -historiadores interpretar

    25 Cf. ALAGOA, L. 1973. 26 Cf. HAMPAT B e DIETERLEN, G. 1961.

  • L Metodologia e pr -histria da frica

    corretamente os enigmas dos afrescos do Tassili: animais sem patas do quadro chamado O Boi e a Hidra, o mgico U de Ouan Derbaouen, etc.

    Assim, decorridos mais de 10 mil anos, os ritos de hoje permitem identificar as cinco irms mticas dos sete filhos do ancestral Kikala nas cinco maravilhosas danarinas dos afrescos de Jabbaren.

    A expanso dos Bantu, atestada pelas fontes concordantes da lingustica, da tradio oral, da arqueologia e da antropologia, bem como pelas primeiras fontes escritas em rabe, portugus, ingls e pelos africnderes, torna -se uma realidade palpvel susceptvel de ser ordenada numa sntese cujas arestas se mostram mais ntidas no encontro desses diferentes planos. Do mesmo modo, os argumentos lingusticos juntam -se aos da tecnologia para sugerir uma difuso dos gongos reais e sinos cerimoniais geminados a partir da frica ocidental em direo ao baixo Zaire, ao Shaba e a Zmbia. Mas as provas arqueolgicas trariam, evidentemente, uma confirmao inestimvel para tal fato. Essa combinao de fontes impe -se ainda mais quando se trata de minorar as dificuldades relativas cronologia. No sempre que dispomos de datas determinadas pelo carbono 14. E quando existem, estas devem ser interpretadas e confrontadas com dados de outras fontes, como a metalurgia ou a cermica (materiais e estilos). E no sempre que podemos contar, como ao norte do Chade27, com enormes quantidades de fragmentos de cermicas que permitem construir uma tipologia representada numa escala cronolgica de seis nveis. Uma excelente demonstrao desta conjugao de todas as fontes disponveis a que permite estabelecer uma tipologia diacrnica dos estilos pictricos e cermicos e confront -los para extrair uma srie cronolgica que se estende por oito milnios, sendo o todo sustentado pelas sondagens estratigrficas e confirmado pelas dataes de carbono 14 e pelo estudo da flora, da fauna, do habitat e da tradio oral28.

    s vezes, o mapa dos eclipses datados e visveis em regies especficas permite comprovaes excepcionais quando tais acontecimentos so relacionados com o reinado deste ou daquele dinasta. Em geral, porm, a cronologia no acessvel sem a mobilizao de vrias fontes, ainda mais porque a durao mdia das geraes ou dos reinados susceptvel de variaes, a natureza da relao entre os soberanos que se sucedem nem sempre precisa, o sentido da palavra filho pode no ser biolgico, mas sociolgico, s vezes trs ou quatro nomes ou nomes

    27 Cf. COPPENS, Y. 1960, p. 129 e ss. 28 BAILLOUD, A. 1961, p. 51 e ss.

  • LIIntroduo Geral

    fortes so atribudos ao mesmo rei, ou ainda porque, como entre os Bemba, a lista dos candidatos chefia incorpora -se lista dos chefes.

    Sem minimizar a importncia da cronologia, espinha dorsal da matria histrica, e sem renunciar aos esforos para assent -la sobre bases rigorosas, ser preciso, no entanto, sucumbir psicose da preciso a qualquer preo, que corre ento o risco de ser uma falsa preciso? Por que obstinar -se em escrever 1086 para a queda de Kumbi Saleh em vez de dizer no fim do sculo XI? Nem todas as datas tm, alis, a mesma importncia. O grau de preciso requerido em cada caso no o mesmo, nem todas as datas devem ser erigidas em esttua.

    Por outro lado, importante reintegrar todo o fluxo do processo histrico no contexto do tempo africano, que no alrgico articulao do acontecimento numa sequncia de fatos que originam uns aos outros por antecedncia e causalidade. De fato, os africanos tm uma ideia do tempo baseada no princpio da causalidade. Este ltimo, contudo, aplicado de acordo com normas originais, em que o contgio do mito impregna e deforma o processo lgico; em que o nvel econmico elementar no cria a necessidade do tempo demarcado, matria -prima do lucro; em que o ritmo dos trabalhos e dos dias um metrnomo suficiente para a atividade humana; em que calendrios, que no so nem abstratos nem universalistas, so subordinados aos fenmenos naturais (lunaes, sol, seca), aos movimentos dos animais e das pessoas. Cada hora definida por atos concretos. Em Burundi, por exemplo, pas essencialmente rural, o tempo marcado pela vida pastoril e agrcola: Amakana (hora da ordenha: 7 horas); Maturuka (sada dos rebanhos: 8 horas); Kuasase (quando o sol se alastra: 9 horas); Kumusase (quando o sol se espalha sobre as colinas: 10 horas); etc. Em outros lugares, os nomes das crianas so funes do dia do nascimento, do acontecimento que o precedeu ou sucedeu. Os muulmanos na frica do Norte acham muito natural chamar suas crianas pelo nome do ms em que nasceram: Ramdane, Chabane, Mulud.

    Essa concepo do tempo histrica em muitos aspectos. Nas sociedades africanas gerontocrticas, a noo de anterioridade no tempo ainda mais carregada de sentido que em outros lugares, pois nela esto baseados os direitos sociais, como o uso da palavra em pblico, a participao numa dana reservada, o acesso a certas iguarias, o casamento, o respeito de outrem, etc. Alm disso, a primogenitura no , na maioria das vezes, um direito exclusivo na sucesso real; o nmero dos pretendentes (tios, irmos, filhos) sempre grande e a idade levada em conta no contexto de uma competio bastante aberta. Decorre da uma preocupao ainda maior com a cronologia. Mas no h necessidade de saber que algum nasceu em determinado ano: o essencial provar que nasceu

  • LII Metodologia e pr -histria da frica

    antes de determinada pessoa. As referncias a uma cronologia absoluta impem--se apenas no caso de sociedades mais amplas e mais annimas.

    Essa concepo do tempo social no esttica, pois no contexto da filosofia africana pandinamista do universo, cada um deve aumentar incessantemente sua forma vital, que eminentemente social, o que inclui a ideia de progresso dentro e atravs da comunidade. Como diz Bakary Dian: Mesmo depois de minha morte, isso ser acrescentado ao meu nome. Em algumas lnguas, a mesma palavra (bogna em barambara, por exemplo) designa o dom material, a honra, o crescimento.

    A contagem das estaes do ano muitas vezes baseada na observao astronmica, podendo abranger uma srie de constelaes, como a Ursa Maior; entre os Komo (alto Zaire), as Pliades, que so comparadas a um cesto de machetes, anunciam a hora de afiar tais instrumentos para o arroteamento dos campos. Em caso de necessidade, essa concepo do tempo mais matemtica. Como exemplo, podemos citar os entalhes em madeiras especiais conservadas como arquivos nas grutas da regio dos Dogon ou o depsito anual de uma pepita de ouro num pote de estanho na capela dos tronos no reino de Bono Mansu, ou de uma pedra num jarro, na cabana dos reis na regio mandinga; sem contar, evidentemente, as importantes realizaes nesse campo do Egito faranico e dos reinos muulmanos (almada, por exemplo). Se pensarmos na dificuldade em converter uma sequncia de duraes numa sucesso de datas e ainda na necessidade de encontrar um ponto fixo de referncia, verificaremos que este ltimo , na maior parte do tempo, fornecido por um fato externo datado, como o ataque ashanti contra Bono Mansu. Na verdade, somente a utilizao da escrita e o acesso s religies universalistas que dispem de um calendrio dependente de um terminus a quo preciso, assim como a entrada no universo do lucro e da acumulao monetria, remodelaram a concepo tradicional do tempo. Em sua poca, porm, tal concepo respondia adequadamente s necessidades das sociedades em questo.

    2 Outra exigncia imperativa que essa histria seja enf im vista do interior, a partir do plo africano, e no medida permanentemente por padres de valores estrangeiros; a conscincia de si mesmo e o direito diferena so pr -requisitos indispensveis constituio de uma personalidade coletiva autnoma. Certamente, a opo e a tica de auto -exame no consistem em abolir artificialmente as conexes histricas da frica com os outros continentes do Velho e do Novo Mundo. Mas tais conexes sero analisadas em termos de intercmbios recprocos e de influncias multilaterais, nas quais as contribuies positivas da frica para o desenvolvimento da humanidade no deixaro de

  • LIIIIntroduo Geral

    aparecer. A atitude histrica africana no ser ento uma atitude vingativa nem de auto -satisfao, mas um exerccio vital da memria coletiva que varre o campo do passado para reconhecer suas prprias razes. Aps tantas vises exteriores que tm modelado a marca registrada da frica a partir de interesses externos (at nos filmes contemporneos), tempo de resgatar a viso interior de identidade, de autenticidade, de conscientizao: volta repatriadora, como diz Jacques Berque para designar esse retorno s razes. Ao considerar o valor da palavra e do nome na frica, ao pensar que atribuir nome a uma pessoa quase apoderar -se dela a tal ponto que os personagens venerados (pai, esposo, soberano) so designados por perfrases e cognomes , compreenderemos por que toda a srie de vocbulos ou conceitos, todo o arsenal de esteretipos e de esquemas mentais relativos histria da frica situam -se no contexto da mais sutil alienao. preciso aqui uma verdadeira revoluo copernicana, que seja primeiramente semntica e que, sem negar as exigncias da cincia universal, recupere toda a corrente histrica desse continente, em novos moldes29.

    Como observava J. Mackenzie j em 1887, referindo -se aos Tsuana (Botsuana), quantos povos da frica so conhecidos por nomes que eles prprios ou quaisquer outras populaes africanas jamais utilizaram! Esses povos passaram pelas pias batismais da colonizao e saram consagrados alienao. A nica sada real escrever cada vez mais livros de histria da frica em lnguas africanas, o que pressupe outras reformas de estrutura... Quantos livros de histria da frica dedicam generosamente um dcimo de suas pginas histria pr -colonial, sob o pretexto de que mal conhecida! Assim, damos um salto sobre sculos obscuros e vamos diretamente a algum explorador famoso ou procnsul, demiurgo providencial e deus ex machina, a partir do qual comea a verdadeira histria, ficando o passado africano confinado a uma espcie de pr -histria desonrosa. Certamente, no se trata de negar as influncias externas, que agem como fermento acelerador ou detonador. A introduo no sculo XVI das armas de fogo no Sudo central, por exemplo, favoreceu a infantaria formada por escravos, em prejuzo dos cavaleiros feudais. Tal mutao repercutiu na estrutura do poder atravs do Sudo central, tendo o kacella ou kaigamma, de origem servil, suplantado junto ao soberano o ministro nobre Cirema. Mas as explicaes mecnicas a partir de influncias externas (inclusive no caso

    29 Ver a esse respeito a interessante demonstrao de I. A. AKINJOGBIN, 1967. A partir da comparao entre o sistema do ebi (famlia ampliada), que seria a fonte da autoridade de Oyo sobre as famlias, e o sistema daomeano de adaptao ao trfico de escravos pela monarquia autoritria exercida sobre os indivduos, o autor explica a disparidade entre os dois regimes. Ver tambm VERHAEGEN, B. 1974, p. 156: O fato bruto um mito. A linguagem que o designa implicitamente uma teoria do fato.

  • LIV Metodologia e pr -histria da frica

    dos apoios de cabea!) e as correspondncias automticas entre os influxos exteriores e os movimentos da histria da frica devem ser banidas em favor de uma anlise mais profunda, a fim de revelar as contradies e os dinamismos endgenos30.

    3 Alm disso, essa histria obrigatoriamente a histria dos povos africanos em seu conjunto, considerada como uma totalidade que engloba a massa continental propriamente dita e as ilhas vizinhas como Madagascar, segundo a definio da carta da OUA. claro que a histria da frica integra o setor mediterrneo numa unidade consagrada por muitos laos milenares, s vezes sangrentos, verdade, mas na maioria dos casos mutuamente enriquecedores. Tais laos fazem da frica, de um lado e do outro da dobradia do Saara, os dois batentes de uma mesma porta, as duas faces de uma mesma moeda.

    necessariamente uma histria dos povos, pois na frica mesmo o despotismo de certas dinastias tem sido sempre atenuado pela distncia, pela ausncia de meios tcnicos que agravem o peso da centralizao, pela perenidade das democracias aldes, de tal modo que em todos os nveis, da base ao topo, o conselho reunido pela e para a discusso constitui o crebro do corpo poltico. uma histria dos povos porque, com exceo de algumas dcadas contemporneas, no foi moldada de acordo com as fronteiras fixadas pela colonizao, pelo simples motivo de que a posio territorial dos povos africanos ultrapassa em toda parte as fronteiras herdadas da partilha colonial. Assim, para tomar um exemplo entre mil, os Senufo ocupam uma rea correspondente a parte do Mali, da Costa do Marfim e do Alto Volta. No contexto geral do continente, tero maior destaque os fatores comuns resultantes de origens comuns e de intercmbios inter -regionais milenares de homens, mercadorias, tcnicas, ideias, em suma, de bens materiais e espirituais. Apesar dos obstculos impostos pela natureza e do baixo nvel tcnico, tem havido desde a Pr -Histria uma certa solidariedade continental entre o vale do Nilo e o Sudo, at a floresta da Guin; entre esse mesmo vale e a frica oriental, incluindo, entre outros acontecimentos, a disperso dos Luo; entre o Sudo e a frica central pela dispora dos Bantu; entre fachada atlntica e a costa oriental pelo comrcio transcontinental atravs do Shaba.

    Os fenmenos migratrios ocorridos em grande escala no espao e no tempo no devem ser entendidos como uma imensa onda humana atrada pelo vazio ou

    30 Cf. LAW, R. C. C. 1971. Para o autor, o declnio de Oyo provocado pelas tenses intestinas entre categorias sociais subalternas: escravos, intendentes do alafin (rei) nas provncias, representantes das provncias na corte, triunviratos de eunucos reais (do centro, da direita e da esquerda).

  • LVIntroduo Geral

    deixando o vazio atrs de si. Mesmo a saga torrencial de Chaka, o mfcane, no pode ser interpretada unicamente nesses termos. O movimento de grupos Mossi (Alto Volta) em direo ao norte, a partir do Dagomba e do Mamprusi (Gana), foi realizado por bandos de cavaleiros que, de etapa em etapa, foram ocupando as vrias regies; no entanto, s podiam concretizar tal ocupao amalgamando -se aos autctones, tomando esposas nativas. Os privilgios judiciais que eles prprios se outorgavam provocaram rapidamente a proliferao de suas escarificaes faciais (uma espcie de carteira de identidade), enquanto a lngua, bem como as instituies dos recm -chegados, prevaleceram a ponto de eliminar as dos outros povos. Outros costumes, como os ligados aos cultos agrrios ou os que regiam os direitos de estabelecimento, continuavam a ser de competncia dos chefes locais, ao mesmo tempo em que se instauravam relaes de parentesco de brincadeira com certos povos encontrados pelo caminho. O grande conquistador mossi Ubri, alis, j era ele prprio um mestio. Esse esboo de processo por osmose deve substituir quase sempre o cenrio romntico e simplista da invaso niilista e devastadora, como foi longa e erradamente representada a irrupo dos Beni Hilal na frica do Norte.

    Os excessos da antropologia fsica, com seus preconceitos racistas, so hoje rejeitados por todos os autores srios. Mas os Hamitas e outras raas morenas, inventadas em defesa da causa, no cessaram de povoar as miragens e os fantasmas de espritos ditos cientficos.

    Tais categorias, declara J. Hiemaux31 num texto importante:

    No podem ser admitidas como unidades biolgicas de estudo. Os Peul no constituem um grupo biolgico, mas sim cultural. Os Peul do sul de Camares, por exemplo, tm seus parentes biolgicos mais prximos nos Haya da Tanznia. Quanto proximidade biolgica entre os Mouros e os Warsingali da Somlia, ela deriva tanto da hereditariedade quanto do bitopo similar que os condiciona: a estepe rida.

    H vrios milnios, os dados propriamente biolgicos, constantemente subvertidos pela seleo ou pela oscilao gentica, no do nenhuma referncia slida para a classificao, nem sobre o grupo sanguneo, nem sobre a frequncia do gene Hbs, que determina uma hemoglobina anormal e que, associado a um gene normal, refora a resistncia malria. Isto ilustra o papel importantssimo da adaptao ao meio natural. A estatura mais elevada e a bacia mais larga, por exemplo, coincidem com as zonas de maior seca e de calor mais intenso. Neste caso, a morfologia do crnio mais estreito e mais alto (dolicocefalia) uma

    31 HIERNAUX, J. 1970, p. 53 e ss.

  • LVI Metodologia e pr -histria da frica

    adaptao que permite uma menor absoro de calor. O vocbulo tribo ser tanto quanto possvel banido desta obra, exceto no caso de certas regies da frica do Norte32, em razo de suas conotaes pejorativas e das diversas ideias falsas que o sustentam. Por mais que se destaque que a tribo essencialmente uma unidade cultural e, s vezes, poltica, alguns continuam a v -la como um estoque biologicamente distinto e destacam os horrores das guerras tribais, cujo saldo muitas vezes se limitava a algumas dezenas de mortos ou menos que isso; esquecem, porm, todos os intercmbios positivos que ligaram os povos africanos no plano biolgico, tecnolgico, cultural, religioso, sociopoltico, etc., e que do aos empreendimentos africanos um indiscutvel ar de famlia.

    4 Alm do mais, esta histria dever evitar ser excessivamente fatual, pois com isso correria o risco de destacar em demasia as influncias e os fatores externos. Certamente, o estabelecimento de fatos -chave uma tarefa primordial, indispensvel at, para definir o perfil original da evoluo da frica. Mas sero tratadas com especial interesse as civilizaes, as instituies, as estruturas: tcnicas agrrias e de metalurgia, artes e artesanato, circuitos comerciais, formas de conceber e organizar o poder, cultos e modos de pensamento filosfico ou religioso, tcnicas de modernizao, o problema das naes e pr -naes, etc. Esta opo metodolgica requer, com mais vigor ainda, a abordagem interdisciplinar.

    Finalmente, por que esse retorno s fontes africanas? Enquanto a busca desse passado pode ser, para os estrangeiros, uma simples curiosidade, um exerccio intelectual altamente estimulante para a mente desejosa de decifrar o enigma da Esfinge, o sentido real dessa iniciativa deve ultrapassar tais objetivos puramente individuais, pois a histria da frica necessria compreenso da histria universal, da qual muitas passagens permanecero enigmas obscuros enquanto o horizonte do continente africano no tiver sido iluminado. Alm disso, no plano metodolgico, a execuo da histria da frica de acordo com as normas estabelecidas neste volume pode confirmar a estratgia dos adeptos da histria total, apreendida em todos os seus estratos e em todas as suas dimenses, por todo o arsenal de instrumentos de investigao disponveis. Dessa forma, a histria torna -se essa disciplina sinfnica em que a palavra dada simultaneamente a todos os ramos do conhecimento; em que a conjuno singular das vozes se

    32 O termo rabe Khabbylia designa um grupo de pessoas ligadas geneologicamente a um ancestral comum e que vivem num territrio delimitado. Como a filiao genealgica tem grande importncia entre os povos semticos (rabes, berberes), la Khabbylia (que corresponde em portugus ao termo tribo) desempenhou, e por vezes desempenha, um papel que no pode ficar esquecido por silncio na histria de inmeros pases norte -africanos. A fim de preservar toda sua conotao histrica e sociocultural, o vocbulo Khabbylia ser mantido em sua grafia original.

  • LVIIIntroduo Geral

    transforma de acordo com o assunto ou com os momentos da pesquisa, para ajustar -se s exigncias do discurso. Mas essa reconstruo pstuma do edifcio h pouco construdo com pedras vivas importante, sobretudo, para os africanos, que tm nisso um interesse carnal e que penetram nesse domnio aps sculos ou dcadas de frustrao, como um exilado que descobre os contornos ao mesmo tempo velhos e novos, porque secretamente antecipados, da almejada paisagem da ptria. Viver sem histria ser uma runa ou trazer consigo as razes de outros. renunciar possibilidade de ser raiz para outros que vm depois. aceitar, na mar da evoluo humana, o papel annimo de plncton ou de protozorio. preciso que o homem de Estado africano se interesse pela histria como uma parte essencial do patrimnio nacional que deve dirigir, ainda mais porque pela histria que ele poder ter acesso ao conhecimento dos outros pases africanos na tica da unidade africana.

    Mas esta histria ainda mais necessria aos prprios povos para os quais ela constitui um direito fundamental. Os Estados africanos devem organizar equipes para salvar, antes que seja tarde demais, o maior nmero possvel de vestgios histricos. Devem -se construir museus e promulgar leis para a proteo dos stios e dos objetos. Devem ser concedidas bolsas de estudo, em particular para a formao de arquelogos. Os programas e cursos devem sofrer profundas modificaes, a partir de uma perspectiva africana. A histria uma fonte na qual poderemos no apenas ver e reconhecer nossa prpria imagem, mas tambm beber e recuperar nossas foras, para prosseguir adiante na caravana do progresso humano. Se tal a finalidade desta Histria Geral da frica, essa laboriosa e enfadonha busca, sobrecarregada de exerccios penosos, certamente se revelar fecunda e rica em inspirao multiforme. Pois em algum lugar sob as cinzas mortas do passado existem sempre brasas impregnadas da luz da ressurreio.

  • C A P T U L O 1

    1A evoluo da historiografia da frica

    Os primeiros trabalhos sobre a histria da frica so to antigos quanto o incio da histria escrita. Os historiadores do velho mundo mediterrnico e os da civilizao islmica medieval tomaram como quadro de referncia o conjunto do mundo conhecido, que compreendia uma considervel poro da frica. A frica ao norte do Saara era parte integrante dessas duas civilizaes e seu passado constitua um dos centros de interesse dos historiadores, do mesmo modo que o passado da Europa meridional ou o do Oriente Prximo. A histria do norte da frica continuou a ser parte essencial dos estudos histricos at a expanso do Imprio Otomano, no sculo XVI.

    Aps a expedio de Napoleo Bonaparte ao Egito em 1798, o norte da frica tornou -se novamente um campo de estudos que os historiadores no podiam negligenciar. Com a expanso do poder colonial europeu nessa parte da frica aps a conquista de Argel pelos franceses em 1830 e a ocupao do Egito pelos britnicos em 1882 um ponto de vista europeu colonialista passou a dominar os trabalhos sobre a histria da poro norte da frica. No entanto, a partir de 1930, o movimento modernizador no Isl, o desenvolvimento da instruo de estilo europeu nas colnias da frica do Norte e o nascimento dos movimentos nacionalistas norte -africanos comearam a combinar -se para dar origem a escolas autctones de histria que produziam obras no apenas em rabe, mas tambm em francs e ingls, restabelecendo assim o equilbrio nos estudos histricos dessa regio do continente.

    A evoluo da historiografia da fricaJ. D. Fage

  • 2 Metodologia e pr -histria da frica

    Assim sendo, o presente captulo preocupar -se - sobretudo com a historiografia da frica ocidental, central, oriental e meridional. Ainda que nem os historiadores clssicos nem os historiadores islmicos medievais tenham considerado a frica tropical como destituda de interesse, seus horizontes estavam limitados pela escassez de contatos que podiam estabelecer com ela, seja atravs do Saara em direo Etipia ou o Bilad al Suden, seja ao longo da costa do mar Vermelho e do oceano ndico, at os limites que a navegao de mones permitia atingir.

    As informaes fornecidas pelos antigos autores no que se refere mais particularmente frica ocidental eram raras e espordicas. Herdoto, Maneto, Plnio, o Velho, Estrabo e alguns outros descrevem apenas umas poucas viagens atravs do Saara, ou breves incurses martimas ao longo da costa Atlntica, sendo a autenticidade de alguns desses relatos objeto de animadas discusses entre especialistas. As informaes clssicas a respeito do mar Vermelho e do oceano ndico tm um fundamento mais slido, pois certo que os mercadores mediterrnicos, ou ao menos os alexandrinos, comerciavam nessas costas. O Priplo do Mar da Eritreia (mais ou menos no ano +100) e as obras de Cludio Ptolomeu (por volta do ano +150, embora a verso que chegou at ns parea referir -se sobretudo ao ano +400, aproximadamente) e de Cosmas Indicopleustes (+647) constituem ainda as principais fontes da histria antiga da frica oriental.

    Os autores rabes eram mais bem informados, uma vez que em sua poca a utilizao do camelo pelos povos do Saara havia facilitado o estabelecimento de um comrcio regular com a frica ocidental e a instalao de negociantes norte--africanos nas principais cidades do Sudo ocidental. Por outro lado, o comrcio com a parte ocidental do oceano ndico tinha se desenvolvido a tal ponto que um nmero considervel de mercadores da Arbia e do Oriente Prximo se instalara ao longo da costa oriental da frica. Assim, as obras de homens como al -Masudi (que morreu por volta de +950), al -Bakri (1029 -1094), al -Idrisi (1154), Yakut (cerca de 1200), Abul -Fida (1273 -1331), alUmari (1301 -1349), Ibn Battuta (1304 -1369) e Hassan Ibn Mohammad al -Wuzzan (conhecido na Europa pelo nome de Leo, o Africano, 1494 -1552 aproximadamente) so de grande importncia para a reconstruo da histria da frica, em particular a do Sudo ocidental e central, durante o perodo compreendido entre os sculos IX e XV.

    No entanto, por mais teis que sejam essas obras para os historiadores modernos, pairam dvidas de que possamos incluir algum desses autores ou de seus predecessores clssicos entre os principais historiadores da frica. O essencial da contribuio de cada um deles consiste numa descrio das regies da frica a partir das informaes que puderam recolher na poca em que

  • 3A evoluo da historiografia da frica

    escreveram. No existe nenhum estudo sistemtico sobre as mudanas ocorridas ao longo do tempo e que constituem o verdadeiro objetivo do historiador. Alis, tal descrio nem chega a ser realmente sincrnica, pois se verdade que uma parte das informaes pode ser contempornea, outras delas, embora pudessem ainda ser consideradas verdadeiras na poca em que o autor vivia, muitas vezes poderiam ser provenientes de relatos mais antigos. Alm disso, essas obras apresentam o inconveniente de que, em geral, no h nenhum meio de avaliar a autoridade da informao, de saber, por exemplo, se o autor a obteve por sua observao pessoal ou a partir da observao direta de um contemporneo, ou se ele simplesmente relata rumores correntes na poca ou a opinio de autores antigos. Leo, o Africano, constitui um exemplo interessante desse problema. Assim como Ibn Battuta, ele prprio viajou pela frica, mas, ao contrrio deste, no se pode afirmar com certeza que todas as informaes que ele nos fornece tenham provindo de suas observaes pessoais.

    Talvez fosse til relembrar aqui que o termo histria no deixa de ser ambguo. Atualmente, pode ser definido como um relato metdico dos acontecimentos de um determinado perodo, mas pode tambm ter o sentido mais antigo de descrio sistemtica de fenmenos naturais. essencialmente nessa acepo que ele empregado no ttulo em ingls da obra de Leo, o Africano (Leo Africanus, A Geographical History of Africa; em francs, Description de l Afrique), significado que s permanece hoje na ultrapassada expresso histria natural (que, alis, era o ttulo da obra de Plnio).

    Entre os primeiros historiadores da frica, porm, encontra -se um muito importante, um grande historiador no sentido amplo do termo: referimo -nos a Ibn Khaldun (1332 -1406) que, se fosse mais conhecido pelos especialistas ocidentais, poderia legitimamente roubar de Herdoto o ttulo de pai da histria. Ibn Khaldun era um norte -africano nascido em Tnis. Uma parte de sua obra consagrada frica1 e s suas relaes com os outros povos do Mediterrneo e do Oriente Prximo. Da compreenso dessas relaes ele induziu uma concepo que faz da histria um fenmeno cclico, no qual os nmades das estepes e dos desertos conquistam as terras arveis dos povos sedentrios e a estabelecem vastos reinos, que, depois de cerca de trs geraes, perdem sua vitalidade e se tornam vtimas de novas invases de nmades. Trata -se, sem dvida, de um bom modelo para grande parte da histria do

    1 As principais explicaes sobre a frica encontram -se na mais importante obra desse autor, a Muqqadima (traduo francesa de Vincent MONTEIL), e no fragmento de sua histria traduzido por DE SLANE sob o ttulo Histoire des Berbres.

  • 4 Metodologia e pr -histria da frica

    norte da frica e um importante historiador, Marc Bloch2, utilizou -o para sua brilhante explicao da histria da Europa no incio da Idade Mdia. Ora, Ibn Khaldun distingue -se de seus contemporneos no somente por ter concebido uma filosofia da histria, mas tambm e talvez principalmente por no ter, como os demais, atribudo o mesmo peso e o mesmo valor a todo fragmento de informao que pudesse encontrar sobre o passado; acreditava que era preciso aproximar -se da verdade passo a passo, atravs da crtica e da comparao.

    Ibn Khaldun , realmente, um historiador muito moderno e a ele que devemos o que se pode considerar quase como histria da frica tropical, em sentido moderno. Na qualidade de norte -africano e tambm pelo fato de ter trabalhado, a despeito da novidade de sua filosofia e de seu mtodo, no quadro das antigas tradies mediterrneas e islmicas, ele no deixou de se preocupar com o que ocorria no outro lado do Saara. Assim, um dos captulos de sua obra3 uma histria do Imprio do Mali, que na poca em que ele viveu atingia seu auge. Esse captulo parcialmente fundamentado na tradio oral da poca e, por esta razo, permanece at hoje como uma das bases essenciais da histria desse grande Estado africano.

    Nenhum Estado vasto e poderoso como o Mali, nem mesmo os Estados de menor importncia como os primeiros reinados haussa ou as cidades independentes da costa oriental da frica, podiam manter sua identidade ou sua integridade sem uma tradio reconhecida relativa sua fundao e ao seu desenvolvimento. Quando o Isl atravessou o Saara e se expandiu ao longo da costa oriental trazendo consigo a escrita rabe, os negros africanos passaram a utilizar textos escritos ao lado dos documentos orais de que j dispunham para conservar sua histria.

    Os mais elaborados dentre esses primeiros exemplos de obras de histria atualmente conhecidos so provavelmente o Tarikh al Sudan e o Tarikh el Fattash, ambos escritos em Tombuctu, principalmente no sculo XVII4. Nos dois casos, os autores fazem um relato dos acontecimentos de sua poca e do perodo imediatamente anterior, com muitos detalhes e sem omitir a anlise e a interpretao. Mas antecedendo esses relatos crticos h tambm uma evocao das tradies orais relativas a perodos mais antigos. Dessa forma, o

    2 Ver sobretudo BLOCH, M. 1939, p. 91.3 Na traduo de M. G. DE SLANE, intitulada Histoire des Berbres (1925 -1956), este captulo figura no

    volume 2, p. 105 -16.4 O Tarikh al Sudan foi traduzido para o francs e comentado por O. HOUDAS (1900); o Tarikh

    el Fattash, por O. HOUDAS e M. DELAFOSSE (1913).

  • 5A evoluo da historiografia da frica

    resultado no somente uma histria do Imprio Songhai, de sua conquista e dominao pelos marroquinos, mas tambm uma tentativa de determinar o que era importante na histria pregressa da regio, sobretudo nos antigos imprios de Gana e do Mali. Em funo disso, importante distinguir os Tarikh de Tombuctu de outras obras histricas escritas em rabe pelos africanos, tais como as conhecidas pelos nomes de Crnica de Kano e Crnica de Kilwa5. Estes ltimos nos oferecem somente anotaes diretas, por escrito, de tradies que at ento eram, sem dvida alguma, transmitidas oralmente. Embora uma verso da Crnica de Kilwa parea ter sido utilizada pelo historiador portugus de Barros no sculo XVI, no h nada que prove que a Crnica de Kano tenha existido antes do incio do sculo XIX.

    interessante notar que as crnicas dessa natureza escritas em rabe no se limitam necessariamente s regies da frica que foram inteiramente islamizadas. Assim, o centro da atual Gana produziu sua Crnica de Gonja (Kitab al Ghunja) no sculo XVIII e as recentes pesquisas de especialistas como Ivor Wilks revelaram centenas de exemplos de manuscritos rabes provenientes dessa regio e de regies vizinhas6. Por outro lado, preciso no esquecer que uma parte da frica tropical a atual Etipia possua sua prpria lngua semtica, inicialmente o gueze e mais tarde o amrico, na qual uma tradio literria foi preservada e desenvolvida durante quase 2 mil anos. Sem dvida nenhuma, essa tradio produziu obras histricas j no sculo XIV, das quais um exemplo a Histria das Guerras, de Amda Syn7. As obras histricas escritas em outras lnguas africanas como o haussa e o swahili, distintas das escritas em rabe clssico importado mas utilizando sua escrita, s apareceram no sculo XIX.

    No sculo XV os europeus comearam a entrar em contato com as regies costeiras da frica tropical, fato que desencadeou a produo de obras literrias que constituem preciosas fontes de estudo para os historiadores modernos. Quatro regies da frica tropical foram objeto de particular ateno: a costa da Guin na frica ocidental; a regio do Baixo Zaire e de Angola; o vale do Zambeze e as terras altas vizinhas; e, por fim, a Etipia. Nessas regies, durante os sculos XVI e XVII, houve uma considervel penetrao em direo ao interior. Mas, como no caso dos escritores antigos, clssicos, ou rabes, o

    5 Pode -se encontrar uma traduo inglesa da Crnica de Kano em H. R. PALMER, 1928, vol. 3, p. 92 -132, e da Crnica de Kilwa em G. S. P. FREEMAN -GRENVILLE, 1962, p. 34 -49.

    6 Sobre a Crnica de Gonja e a coleo de manuscritos rabes na atual Gana, ver Nehemin LEVTZION, 1968, p. 27 -32 sobretudo; Ivor WILKS, 1963, p. 409 -17; e Thomas HODGKIN, 1966, p. 442 -60.

    7 Existem vrias tradues dessa obra, sobretudo uma (em francs) de J. PERRUCHON no Journal Asiatique, 1889.

  • 6 Metodologia e pr -histria da frica

    resultado no foi sempre, e em geral no de forma imediata, a produo de obras de histria da frica.

    A costa da Guin foi a primeira regio da frica tropical descoberta pelos europeus; ela foi o tema de toda uma srie de obras a partir de 1460, aproximadamente (Cadamosto), at o incio do sculo XVIII (Barbot e Bosman). Uma boa parte desse material de grande valor histrico, porque fornece testemunhos diretos e datados, graas aos quais podem -se situar vrias outras relaes de carter histrico. H tambm nessas obras abundante material histrico (entendido como no -contemporneo), sobretudo em Dapper (1688), que, ao contrrio da maioria dos demais autores, no era um observador direto, mas apenas um compilador de relatos alheios. Porm, o objetivo essencial de todos esses autores era mais descrever a situao contempornea do que fazer histria. E somente agora, depois que uma boa parte da histria da frica ocidental foi reconstituda, que podemos avaliar corretamente muitas das afirmaes que eles fizeram8.

    Nas outras regies que despertaram o interesse dos europeus nos sculos XVI e XVII a situao era um pouco diferente. Isso talvez se deva ao fato de terem sido o campo de atividade dos primeiros esforos missionrios, ao passo que o principal motor das atividades europeias na Guin foi sempre o comrcio. Enquanto os africanos forneciam as mercadorias que os europeus desejavam comprar, como era em geral o caso da Guin, os negociantes no se sentiam impelidos a mudar a sociedade africana; eles se contentavam em observ -la. Os missionrios, ao contrrio, sentiam -se obrigados a tentar alterar o que encontravam e, nessas condies, um certo grau de conhecimento da histria da frica poderia ser -lhes til. Na Etipia, as bases j existiam. Podia--se aprender o gueez e aperfeioar seu estudo, bem como utilizar as crnicas e outros escritos nessa lngua. Obras histricas sobre a Etipia foram elaboradas por dois eminentes pioneiros entre os missionrios, Pedro Paez (morto em 1622) e Manoel de Almeida (1569 -1646), e uma histria completa foi escrita por um dos primeiros orientalistas da Europa, Hiob Ludolf (1634 -1704)9. No baixo vale do Congo e em Angola, assim como no vale do Zambeze e em suas imediaes, os interesses comerciais eram provavelmente mais fortes que os

    8 The Voyages of Cadamosto, comentadas por G. R. CRONE, 1937; John BARBOT, 1732; William BOSMAN, edio comentada, 1967.

    9 Em C. BECCARI, Rerum Aethiopicarum Scriptores Occidentales lnediti (Roma, 1905 -1917), a obra de Paez se encontra nos volumes 2 e 3 e a de Almeida, nos volumes 5 e 7; existe uma traduo parcial em ingls da obra de ALMEIDA em C. F. BECKINGHAM e G. W. B. HUNTINGFORD, Some Records of Ethiopia, 1593 -1646 (1954). A Historia Aethiopica de LUDOLF foi publicada em Frankfurt, em 1681.

  • 7A evoluo da historiografia da frica

    da evangelizao. Ocorre porm que, em seu conjunto, a sociedade africana tradicional no estava disposta a fornecer aos europeus o que eles desejavam, a no ser que sofresse presses considerveis. O resultado que ela foi obrigada a mudar de modo to drstico que mesmo os ensaios descritivos dificilmente podiam deixar de ser em parte histricos. De fato, importantes elementos de histria podem ser encontrados em livros de autores como Pigafetta e Lopez (1591) e Cavazzi (1687). Em 1681, Cadornega publica uma Histria das Guerras Angolanas10.

    A partir do sculo XVIII, parece que a frica tropical recebeu dos historiadores europeus a ateno que merecia. Era possvel, por exemplo, utilizar como fontes histricas os autores mais antigos, sobretudo os descritivos como Leo, o Africano, e Dapper , de maneira que as histrias e geografias universais da poca, como The Universal History, publicada na Inglaterra entre 1736 e 1765, podiam consagrar um nmero aprecivel de pginas frica11. Houve tambm ensaios monogrficos, como o caso da Histria de Angola, de Silva Correin (cerca de 1792), da Some Historical account of Guinea, de Benezet (1772) e das duas histrias do Daom: Memrias do Reino de Bossa Ahade, de Norris (1789) e History of Dahomey, de Dalzel ( 1793). Mas uma advertncia se faz necessria aqui. O livro de Silva Correin s foi publicado neste sculo12. E a razo pela qual as trs obras mencionadas acima foram publicadas naquela poca deve -se ao fato de que, no fim do sculo XVIII, comeava a acirrar -se a controvrsia em torno do trfico de escravos, que tinha sido o principal elemento das relaes entre a Europa e a frica tropical havia pelo menos 150 anos. Dalzel e Norris, ambos recorrendo sua experincia no comrcio de escravos no Daom, assim como Benezet, desempenharam o papel de historiadores, mas seus trabalhos tinham como objetivo fornecer argumentos a favor ou contra a abolio do trfico negreiro.

    Se no fosse por isso, no se tem como certo que esses livros tivessem encontrado compradores, pois nessa poca a principal tendncia da cultura europeia comeava a considerar de forma cada vez mais desfavorvel as sociedades no -europeias e a declarar que elas no possuam uma histria digna de ser estudada. Essa mentalidade resultava sobretudo da convergncia

    10 CADORNEGA, A. de Oliveira. Historia General das Guerras Angolanas. Comentada por M. DELGADO e A. CUNHA (Lisboa, 1940 -1942).

    11 A edio in folio da Universal History compreende 23 volumes, dos quais 16 so consagrados histria moderna, contendo estes ltimos dois volumes sobre a frica.

    12 Lisboa, 1937.

  • 8 Metodologia e pr -histria da frica

    de correntes de pensamento oriundas do Renascimento, do Iluminismo e da crescente revoluo cientfica e industrial. O resultado foi que, baseando -se no que era considerado uma herana greco -romana nica, os intelectuais europeus convenceram -se de que os objetivos, os conhecimentos, o poder e a riqueza de sua sociedade eram to preponderantes que a civilizao europeia deveria prevalecer sobre todas as demais. Consequentemente, sua histria constitua a chave de todo conhecimento, e a histria das outras sociedades no tinha nenhuma importncia. Esta atitude era adotada sobretudo em relao frica. De fato, nessa poca os europeus s conheciam a frica e os africanos sob o ngulo do comrcio de escravos, num momento em que o prprio trfico era causador de um caos social cada vez mais grave em numerosas partes do continente.

    Hegel (1770 -1831) definiu explicitamente essa posio em sua Filosofia da Histria, que contm afirmaes como as que seguem: A frica no um continente histrico; ela no demonstra nem mudana nem desenvolvimento. Os povos negros so incapazes de se desenvolver e de receber uma educao. Eles sempre foram tal como os vemos hoje. interessante notar que, j em 1793, o responsvel pela publicao do livro de Dalzel julgara necessrio justificar o surgimento de uma histria do Daom. Assumindo claramente a mesma posio de Hegel, ele declarava:

    Para chegar a um justo conhecimento da natureza humana, absolutamente necessrio preparar o caminho atravs da histria das naes menos civilizadas () (No h nenhum outro) meio de julgar o valor da cultura, na avaliao da felicidade humana, a no ser atravs de comparaes deste tipo13.

    Ainda que a influncia direta de Hegel na elaborao da histria da frica tenha sido fraca, a opinio que ele representava foi aceita pela ortodoxia histrica do sculo XIX. Essa opinio anacrnica e destituda de fundamento ainda hoje no deixa de ter adeptos. Um professor de Histria Moderna na Universidade de Oxford, por exemplo, teria declarado:

    Pode ser que, no futuro, haja uma histria da frica para ser ensinada. No presente, porm, ela no existe; o que existe a histria dos europeus na frica. O resto so trevas e as trevas no constituem tema de histria. Compreendam -me bem. Eu no nego que tenham existido homens mesmo em pases obscuros e sculos obscuros, nem que eles tenham tido uma vida poltica e uma cultura interessantes para os

    13 DALZEL, Archibald. The History of Dahomey (1793) p.v.

  • 9A evoluo da historiografia da frica

    socilogos e os antroplogos; mas creio que a histria essencialmente uma forma de movimento e mesmo de movimento intencional. No se trata simplesmente de uma fantasmagoria de formas e de costumes em transformao, de batalhas e conquistas, de dinastias e de usurpaes, de estruturas sociais e de desintegrao social.

    Ele argumentava que a histria, ou melhor, o estudo da histria, tem uma finalidade. Ns a estudamos () a fim de descobrir como chegamos ao ponto em que estamos. O mundo atual, prosseguia ele, est a tal ponto dominado pelas ideias, tcnicas e valores da Europa ocidental que, pelo menos nos cinco ltimos sculos, na medida em que a histria do mundo tem importncia, somente a histria da Europa que conta. Por conseguinte, no podemos nos permitir divertirmo -nos com o movimento sem interesse de tribos brbaras nos confins pitorescos do mundo, mas que no exerceram nenhuma influncia em outras regies14.

    Por ironia do destino, foi durante a vida de Hegel que os europeus empreenderam a explorao real, moderna e cientfica da frica e comearam assim a lanar os fundamentos de uma avaliao racional da histria e das realizaes das sociedades africanas. Essa explorao era ligada, em parte, reao contra a escravido e o trfico de escravos, e, em parte, competio pelos mercados africanos.

    Alguns dos primeiros europeus eram impelidos por um desejo sincero de aprender tudo o que pudessem a respeito do passado dos povos africanos e recolhiam todo o material que encontravam: documentos escritos, quando os havia, ou ainda tradies orais e testemunhos que descobriam sobre os traos do passado. A literatura produzida pelos exploradores imensa. Alguns desses trabalhos contm histria no melhor sentido do termo, e em sua totalidade, tal literatura constitui um material de grande valor para os historiadores. Uma pequena lista dos principais ttulos poderia incluir Travels to Discoverer the Sources of the Nile de James Bruce (1790); os captulos especificamente histricos dos relatos de visitas a Kumasi, capital de Ashanti, de T. E. Bowdich (Mission from Cape Coast to Ashantee, 1819) e de Joseph Dupuis (Journal of a Residence in Ashantee, 1824); Reisen und Entdeckungen in Nord und Zentral Afrika (1857--1858) de Heinrich Barth; Documents sur l Histoire, la Gographie et le Commerce de l Afrique Oriental de M. Guillain (1856); e Saara und Sudan de Gustav Nachtigal (1879 -1889).

    14 Estas citaes foram extradas das notas de abertura do primeiro ensaio de uma srie de cursos proferidos pelo professor Hugh TREVOR -HOPER intitulada The Rise of Christian Europe (A Ascenso da Europa Crist). Ver The Listener, 28 -11 -1963, p. 871.

  • 10 Metodologia e pr -histria da frica

    A carreira de Nachtigal prosseguiu numa fase inteiramente nova da histria da frica: aquela em que os europeus haviam iniciado a conquista do continente e o domnio de suas populaes. Como essas tentativas pareciam necessitar de uma justificativa moral, as consideraes hegelianas foram reforadas pela aplicao dos princpios de Darwin. O resultado sintomtico disso tudo foi o aparecimento de uma nova cincia, a Antropologia, que um mtodo no--histrico de estudar e avaliar as culturas e as sociedades dos povos primitivos, os que no possuam uma histria digna de ser estudada, aqueles que eram inferiores aos europeus e que podiam ser diferenciados destes pela pigmentao de sua pele.

    interessante citar aqui o caso de Richard Burton (1821 -1890), um dos grandes viajantes europeus na frica durante o sculo XIX. Trata -se de um esprito curioso, cultivado, sempre atento e um orientalista eminente. Ele foi, em 1863, um dos fundadores da London Anthropological Society (que tornar--se -ia mais tarde o Royal Anthropological Institute). Entretanto, de modo bem mais acentuado que Nachtigal, sua carreira marca o fim da explorao cientfica e imparcial da frica, que havia comeado com James Bruce. Encontramos, por exemplo, em sua Mission to Gelele, King of Dahomey ( 1864), uma notvel digresso sobre o lugar do negro na natureza (e no, como se pode notar, o lugar do negro na histria). Pode -se ler a frases como esta: O negro puro se coloca na famlia humana abaixo das duas grandes raas, rabe e ariana (a maioria dos seus contemporneos teria classificado estas duas ltimas em ordem inversa) e o negro, coletivamente, no progredir alm de um determinado ponto, que no merecer considerao; mentalmente ele permanecer uma criana15. Foi em vo que certos intelectuais africanos, como James Africanus Horton, responderam a essas colocaes, polemizando com os membros influentes da London Anthropological Society.

    As coisas ficaram ainda mais difceis para o estudo da histria da frica aps o aparecimento, nessa poca e em particular na Alemanha, de uma nova concepo sobre o trabalho do historiador, que passava a ser encarado mais como uma atividade cientfica fundada sobre a anlise rigorosa de fontes originais do que como uma atividade ligada literatura ou filosofia. evidente que, para a histria da Europa, essas fontes eram sobretudo fontes escritas, e nesse domnio a frica parecia especialmente deficiente. Tal concepo foi exposta de forma muito precisa pelo professor A. P. Newton, em 1923, numa

    15 0p. cit., edio de 1893, v. 2, p. 131 e 135.

  • 11A evoluo da historiografia da frica

    conferncia diante da Royal African Society de Londres, sobre A frica e a pesquisa histrica. Segundo ele, a frica no possua nenhuma histria antes da chegada dos europeus. A histria comea quando o homem se pe a escrever. Assim, o passado da frica antes do incio do imperialismo europeu s podia ser reconstitudo a partir de testemunhos dos restos materiais, da linguagem e dos costumes primitivos, coisas que no diziam respeito aos historiadores, e sim aos arquelogos, aos linguistas e aos antroplogos16.

    De fato, o prprio Newton encontrava -se um pouco margem do papel de historiador tal como era concebido na poca. Durante grande parte do sculo XIX alguns dos mais eminentes historiadores britnicos, como James Stephen (1789 -1859), Herman Merivale (1806 -1874), J. A. Froude (1818 -1894) e J. R. Seeley (1834 -1895)17, haviam demonstrado muito interesse pelas atividades dos europeus (ou pelo menos de seus compatriotas) no resto do mundo. Mas o sucessor de Seeley no cargo de Regius Professor de Histria Moderna em Cambridge foi Lord Acton (1834 -1902), que havia se graduado na Alemanha. Acton comeara imediatamente a preparar The Cambridge Modern History, cujos catorze volumes apareceram entre 1902 e 1910. Essa obra to centrada na Europa que chega a ignorar quase totalmente at mesmo as atividades dos prprios europeus pelo mundo. Em consequncia, a histria colonial foi geralmente deixada a cargo de homens como Sir Charles Lucas (ou, na Frana, Gabriel Hanotaux)18 que, como Stephen, Merivale e Froude, j haviam se encarregado ativamente dos assuntos coloniais.

    Entretanto, com o tempo, a histria colonial ou imperial se fez aceitar, mesmo permanecendo margem da profisso. The New Cambridge Modern History, que comeara a aparecer em 1957 sob a direo de Sir George Clark, traz alguns captulos sobre a frica, a sia e a Amrica em seus doze volumes e, por outro lado, a coleo de histria de Cambridge havia sido enriquecida nessa poca com a srie The Cambridge History of the British Empire (1929 -1959), da qual

    16 Africa and historical research, J. A. S., 22 (1922 -1923).17 STEPHEN foi funcionrio no Colonial Office de 1825 a 1847 e professor de Histria Moderna em

    Cambridge de 1849 a 1859; MERIVALE foi professor de Economia Poltica em Oxford antes de suceder STEPHEN na qualidade de Permanent Under -Secretary do Colonial Office (1847 -1859); FROUDE passou a maior parte de sua vida em Oxford e foi professor de Histria Moderna em 1892--1894, mas na dcada de 1870 serviu como emissrio do Colonial Secretary na frica do Sul; SEELEY foi professor de Histria Moderna em Cambridge de 1869 a 1895.

    18 LUCAS foi funcionrio no British Colonial Office de 1877 a 1911, tendo atingido o grau de Assis-tant Under -Secretary; ele obteve depois um posto no All Souls College, em Oxford. HANOTAUX (1853 -1944) seguiu duas carreiras: como poltico e homem de Estado desempenhou, na dcada de 1890, importante papel nas relaes coloniais e exteriores da Frana; como historiador, foi eleito para a Academia Francesa.

  • 12 Metodologia e pr -histria da frica

    Newton foi um dos diretores fundadores. Mas basta um exame superficial desse trabalho para perceber que a histria colonial, mesmo no que se refere frica, muito diferente da histria da frica.

    Dos oito volumes dessa obra, quatro so consagrados ao Canad, Austrlia, Nova Zelndia e ndia Britnica. Restam ento trs volumes gerais, nitidamente orientados para a poltica imperial (de 68 captulos, somente quatro referem -se diretamente s relaes da Inglaterra com a frica) e um volume consagrado frica do Sul, o nico lugar da frica subsaariana no qual os colonos europeus realmente se estabeleceram. A quase totalidade desse volume (o maior dos oito) dedicada aos intrincados negcios desses colonos europeus desde sua chegada em 1652. Os povos africanos, que constituem a maioria da populao, so relegados a um captulo introdutrio (e essencialmente no--histrico) redigido por um antroplogo social, e a dois captulos que, embora escritos pelos dois historiadores sul -africanos mais lcidos de sua gerao, C. W. de Kiewiet e W. M. MacMillan, os consideram, por necessidade, sob a perspectiva de sua reao presena europeia. Em outros lugares, a histria da frica aparecia muito timidamente em colees mais ou menos monumentais, como por exemplo, Peuples et Civilizations, Histria Geral, 20 volumes, Paris, 1927 -52; G. Glotz, editor, Histoire Gnrale, organizada por G. Glotz, 10 volumes, Paris, 1925 -1938; Propylen Weltgeschichte, 10 volumes, Berlim, 1929--1933; Historia Mundi, ein Handbuch der Weltgeschichte in 10 Bnden, Bern, 1952 ff; V semirnaja Istoriya (World History), 10 volumes, Moscou, 1955 ff. O italiano C. Conti Rossini publicou em Roma, em 1928, uma importante Storia d Etiopia.

    Os historiadores coloniais profissionais estavam, assim como os historiadores profissionais em geral, apegados concepo de que os povos africanos ao sul do Saara no possuam uma histria suscetvel ou digna de ser estudada. Como vimos, Newton considerava essa histria como domnio exclusivo dos arquelogos, linguistas e antroplogos. Mas se verdade que os arquelogos, assim como os historiadores, por fora de sua profisso se interessam pelo passado do homem e de suas sociedades, eles estavam quase to desinteressados quanto os historiadores em dedicar -se a descobrir e elucidar a histria da sociedade humana na frica subsaariana. Concorriam para isso duas razes principais. Em primeiro lugar, uma das correntes mais importantes da Arqueologia, cincia ento em desenvolvimento, professava que, assim como a Histria, ela deveria orientar -se essencialmente pelas fontes escritas. Consagrava -se a problemas como encontrar o local exato da antiga cidade de Troia ou detectar fatos ainda desconhecidos atravs de fontes

  • 13A evoluo da historiografia da frica

    literrias relativas s antigas sociedades da Grcia, de Roma ou do Egito, cujos principais monumentos haviam sido fontes de especulaes durante sculos. A Arqueologia era e s vezes ainda estreitamente ligada ao ramo da Histria conhecido pelo nome de Histria Antiga. Em geral, ela se preocupava mais em procurar e decifrar antigas inscries do que em encontrar outras relquias. S muito raramente por exemplo em Axum e Zimbabwe e em torno desses stios admitia -se que a frica subsaariana possua monumentos suficientemente importantes para atrair a ateno dessa escola de arqueologia. Em segundo lugar, uma outra atividade essencial da pesquisa arqueolgica se concentrava nas origens do homem, tendo como consequncia uma perspectiva mais geolgica do que histrica de seu passado. verdade que, em funo de especialistas como L. S. B. Leakey e Raymond Dart, uma parte substancial dessa pesquisa acabou finalmente por se concentrar na frica oriental e do sul. Mas esses homens buscavam um passado longnquo demais, no qual no se podia afirmar que existissem sociedades; alm disso, habitualmente havia um abismo entre as conjeturas sobre os fsseis que esses pesquisadores descobriam e as populaes modernas cujo passado os historiadores desejavam estudar.

    Enquanto a maioria dos arquelogos e dos historiadores considerava a frica subsaariana, at os anos 50, aproximadamente, no digna de sua ateno, a imensa variedade de tipos fsicos, de sociedades e de lnguas desse continente despertava o interesse dos antroplogos e linguistas medida que suas disciplinas comeavam a desenvolver -se. Foi possvel a uns e outros permanecerem durante muito tempo encerrados em seus gabinetes de trabalho. Mas homens como Burton e S. W. Koelle (Polyglotte Africana, 1854) em boa hora demonstraram o valor da pesquisa de campo, e os antroplogos, em particular, tornaram -se os pioneiros desse trabalho na frica. Mas, ao contrrio dos historiadores e dos arquelogos, nem os antroplogos nem os linguistas sentiam -se obrigados a descobrir o que ocorrera no passado. Na frica, eles encontraram uma abundncia de fatos simplesmente espera de descrio, classificao e anlise, o que representava uma imensa tarefa. Frequentemente eles s se interessavam pelo passado na medida em que tentavam reconstruir uma histria que parecia -lhes estar na origem dos dados recolhidos e seria capaz de explic -los.

    No entanto, nem sempre eles percebiam o quanto essas reconstrues eram especulativas e hipotticas. Um exemplo clssico o do antroplogo C. G. Seligman que, na obra Races of Africa, publicada em 1930, escrevia sem rodeios: As civilizaes da frica so as civilizaes dos camitas, e sua histria, os anais

  • 14 Metodologia e pr -histria da frica

    desses povos e de sua interao com duas outras raas africanas, a negra e a bosqumana19.

    Inferimos dessa afirmao que essas duas outras raas africanas so inferiores e que todo o progresso que tenham conseguido seria resultante da influncia camtica que sofreram de forma mais ou menos intensa. Em outro trecho dessa mesma obra, ele fala da chegada, vaga aps vaga, de pastores camitas que estavam melhor armados e eram ao mesmo tempo mais inteligentes que os cultivadores negros atrasados sobre os quais exerciam influncia20. Mas, na realidade, no h nenhuma prova histrica que sustente as afirmaes de que as civilizaes da frica so as civilizaes dos camitas, ou que os progressos histricos verificados na frica subsaariana se devam apenas ou principalmente a eles. O prprio livro no apresenta nenhuma evidncia histrica, e muitas das hipteses sobre as quais ele se apia sabe -se agora no terem nenhum fundamento. J. H. Greenberg, por exemplo, demonstrou de uma vez por todas que os termos camita e camtico no tm nenhum sentido, a no ser, e na melhor das hipteses, como categorias da classificao lingustica21.

    certo que no existe, necessariamente, uma correlao entre a lngua falada por uma populao e sua origem racial ou sua cultura. Assim, Greenberg pode citar, entre outros, este maravilhoso exemplo: os cultivadores haussa, que falam uma lngua camtica, esto sob a dominao dos pastores fulani que falam () uma lngua nger -congolesa (isto , uma lngua negra)22. Ele refuta igualmente a base camtica que sustentava grande parte da reconstruo feita por Seligman da histria cultural dos negros em outras partes da frica, sobretudo das populaes de lngua bantu.

    Escolhemos particularmente Seligman porque ele se situava entre as personalidades mais destacadas de sua profisso na Gr -Bretanha (foi um dos primeiros a empreender srias pesquisas de campo na frica) e porque seu livro tornou -se, de certa forma, um modelo, vrias vezes reeditado. Ainda em 1966 ele era divulgado como um clssico em seu gnero. Mas essa adoo do mito da superioridade dos povos de pele clara sobre os de pele escura era somente uma parte dos preconceitos correntes na Europa no fim do sculo XIX e no incio do sculo XX. Os europeus acreditavam que sua pretensa superioridade

    19 0p. cit., ed. de 1930, p. 96; ed. de 1966, p. 61. 20 0p. cit., ed. de 1930, p. 158; ed. de 1966, p. 101. 21 GREENBERG, J. H., 1953 e 1963. De fato, GREENBERG, como a maioria dos linguistas modernos,

    evita empregar o termo camtico; eles classificam as lnguas outrora denominadas camticas, ao lado das lnguas semticas e outras, num grupo mais amplo, o afro -asitico ou eritreu, e no reconhecem o subgrupo camtico de modo especfico.

    22 GREENBERG, J. H., 1963, p. 30.

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    sobre os negros africanos estava confirmada por sua conquista colonial. Em consequncia disso, em muitas partes da frica, especialmente no cinturo sudans e na regio dos grandes lagos, eles estavam convictos de que apenas davam continuidade a um processo de civilizao que outros invasores de pele clara, chamados genericamente de camitas, haviam comeado antes deles.23 O mesmo tema reaparece ao longo de muitas outras obras do perodo que vai de 1890 a 1940, aproximadamente, e que contm uma quantidade bem maior de elementos srios de histria do que os encontrados no pequeno manual de Seligman. Em sua maioria, essas obras foram escritas por homens e mulheres que tinham participado pessoalmente da conquista ou da colonizao e que no eram nem antroplogos, nem linguistas, nem historiadores profissionais. Tratava -se sim de amadores no melhor sentido da palavra, que se interessavam sinceramente pelas sociedades exticas que haviam descoberto, e que desejavam obter mais informaes a seu respeito e partilhar seus conhecimentos com outras pessoas. Sir Harry Johnston e Maurice Delafosse, por exemplo, trouxeram contribuies notveis para a lingustica africana (assim como para outros ramos do conhecimento). Mas o primeiro denominou seu grande estudo geral de A History of the Colonization of Africa by Alien Races (1899, obra revista e ampliada em 1913), e, nas sees histricas do magistral estudo de Delafosse sobre o Sudo ocidental, Haut Sngal Niger (1912), o tema geral aparece quando ele invoca uma migrao judaico -sria para fundar a antiga Gana. Flora Shaw (A Tropical Dependency, 1906) era fascinada pela contribuio dos muulmanos histria da frica. Margery Perham, amiga e bigrafa de Lord Lugard, refere -se com propriedade ao movimento majestoso da histria desde as primeiras conquistas rabes da frica s de Goldie e de Lugard24. Um excelente historiador amador, Yves Urvoy (Histoire des Populations du Soudan Central, 1936 e Histoire du Bornou, 1949), equivoca -se completamente a respeito do significado das interaes entre os nmades do Saara e os negros sedentrios que ele descreve com preciso; ao mesmo tempo, Sir Richmond Palmer (Sudanese Memoirs, 1928 e The Bornu Sahara and Sudan, 1936), arquelogo inspirado, procura sempre as origens da ao dos povos nigerianos em lugares to distantes quanto Trpoli ou o Imen.

    23 interessante notar que a edio atualmente revisada, a quarta, de Races of Africa (1966) contm na pgina 61 uma frase importante que no se encontra na edio original de 1930. Os camitas so a definidos como europeus, ou seja, pertencentes mesma grande raa da humanidade a que pertencem os homens brancos!

    24 PERHAM, Margery. Lugard, the Years of Authority. 1960, p. 234.

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    No entanto, aps Seligman, os antroplogos sociais britnicos conseguiram de certa forma escapar influncia do mito camtico. Sua formao, a partir desse momento, foi dominada pela influncia de B. Malinowski e A. R. Radcliffe--Brown, que se opunham decididamente a qualquer espcie de histria fundada em conjeturas. De fato, o mtodo estritamente funcionalista adotado pelos antroplogos britnicos entre 1930 e 1950 para o estudo das sociedades africanas tendia a desencorajar qualquer interesse histrico, mesmo quando, graas a seu trabalho de campo, eles se encontravam numa situao excepcionalmente favorvel para obter dados histricos. Porm, no continente europeu (e tambm na Amrica do Norte, ainda que poucos antroplogos americanos tenham trabalhado na frica antes dos anos 50) subsistia uma tradio mais antiga de etnografia que, entre outras caractersticas, dava tanto peso cultura material quanto estrutura social.

    Isso gerou uma grande quantidade de trabalhos de importncia histrica, como por exemplo The King of Ganda, de Tor Irstam (1944), ou The trade of Guinea, de Lar Sundstrom (1965). Entretanto, duas obras merecem destaque especial; Vlkerkunde von Afrika, de Hermann Baumann (1940) e Geschichte Afrikas de Diedrich Westermann (1952). A primeira era um estudo enciclopdico dos povos e civilizaes da frica que valorizava bastante as partes conhecidas de sua histria e at hoje no foi superado como manual de um s volume. O livro mais recente, Africa: its Peoples and their Culture History (1959), escrito pelo antroplogo americano G. P. Murdock, fica prejudicado na comparao por faltar ao seu autor experincia direta da frica, o que lhe teria permitido avaliar corretamente os materiais de que dispunha, e por ele ter fornecido alguns esquemas hipotticos to excntricos em seu gnero quanto os de Seligman, embora menos perniciosos25. Quanto a Westermann, ele era sobretudo um linguista. Sua obra sobre a classificao das lnguas da frica , em muitos aspectos, a precursora da de Greenberg; alm disso, ele contribuiu com uma seo lingustica para o livro de Baumann. Mas sua Geschichte, infelizmente deformada pela teoria camtica, tambm uma compilao muito valiosa das tradies orais africanas tais como se apresentavam em sua poca.

    A estes trabalhos pode -se talvez acrescentar o de H. A. Wieschoff, The Zimbabwe Monomotapa Culture (1943), ainda que seja s para apresentar seu mestre, Leo Frobenius. Frobenius era etnlogo e antroplogo cultural, mas era tambm um arquelogo disfarado de historiador. Durante seu perodo

    25 Ver meu resumo sobre o assunto no artigo Anthropology, botany and history. In: J. A. H., n. 2, 1961, 299 -309.

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    de atividade, que corresponde aproximadamente s quatro primeiras dcadas do sculo XX, ele foi quase com certeza o mais produtivo dos historiadores da frica. Ele empreendeu inmeros trabalhos de campo em quase todas as partes do continente africano e apresentou seus resultados numa srie regular de publicaes (pouco lidas atualmente). Escrevia em alemo, lngua que se tornou pouco importante para a frica e os africanistas. Somente uma pequena parte de suas obras foi traduzida, e seu sentido geralmente difcil de recuperar, porque elas esto repletas de teorias mticas relativas Atlntida, influncia etrusca sobre a cultura africana, etc.

    Aos olhos dos historiadores, arquelogos e antroplogos atuais, de formao bastante rigorosa, Frobenius parece um autodidata original cujos trabalhos so desvalorizados no apenas por suas interpretaes um tanto ousadas, mas tambm por seu mtodo de trabalho rpido, sumrio e s vezes destrutivo. Contudo, ele chegou a alguns resultados que anteciparam claramente os obtidos por pesquisadores que trabalharam com maior rigor cientfico e que surgiram depois dele, e a outros difceis ou mesmo impossveis de obter nas condies atuais. Parece que ele possua um talento instintivo para ganhar a confiana dos informantes e descobrir dados histricos. Os historiadores modernos deveriam procurar esses dados nas obras de Frobenius e reavali -los em funo dos conhecimentos atuais, liberando -os das interpretaes fantasiosas acrescentadas por ele26.

    As singularidades de um gnio autodidata como Frobenius, que buscava inspirao em si mesmo, contriburam para reforar a opinio dos historiadores profissionais de que a histria da frica no constitua um campo aceitvel para sua profisso e desviar assim a ateno de muitos trabalhos srios realizados durante o perodo colonial. O crescimento do interesse dos europeus pela frica havia proporcionado aos africanos grande variedade de culturas escritas, que lhes permitia exprimir seu interesse por sua prpria histria. Foi esse o caso principalmente da frica ocidental, onde o contato com os europeus havia sido mais longo e mais constante, e onde sobretudo nas regies que se tornaram colnias britnicas uma demanda pela instruo europeia j existia desde o

    26 impossvel num artigo desta dimenso fazer justia grandeza da produo de FROBENIUS. Sua ltima obra de sntese foi Kulturgeschichte Afrikas (Viena, 1933) e sua obra mais notvel foi, provavelmente, a coleo em 12 volumes Atlantis: Volksmrchen und Wolksdichtungen Afrikas (Iena, 1921 -1928). Mas cabe tambm mencionar os livros que relatam cada uma de suas expedies, por exemplo, para os Ioruba e Mosso: Und Afrika Sprach (Berlim -Charlottenburg, 1912 -1913). Ver a bibliografia completa em Freda KRETSCHMAR, Leo Frobenius (1968). Certos artigos recentes em ingls (por exemplo Dr. K. M. ITA. Frobenius in West African History. J. A. H. XIII, 4 (1972) e obras citadas neste artigo sugerem um renascimento do interesse pela obra de FROBENIUS.

  • 18 Metodologia e pr -histria da frica

    incio do sculo XIX. Assim como os eruditos islamizados de Tombuctu se puseram rapidamente a escrever seus tarikh em rabe ou na lngua ajami, no fim do sculo XIX tambm os africanos que haviam aprendido a ler o alfabeto latino sentiram necessidade de deixar por escrito o que eles conheciam da histria de seus povos, para evitar que estes fossem completamente tragados pelos europeus e sua histria.

    Entre os primeiros clssicos desse gnero, escritos por africanos que como os autores dos tarikh antes deles haviam exercido uma atividade na religio da cultura importada e dela haviam extrado seus nomes, pode -se citar A History of the Gold Coast and Asante de Carl Christian Reindorf (1895) e History of the Yorubas de Samuel Johnson (terminada em 1897 mas publicada somente em 1921). Trata -se de duas obras de histria bastante srias; at hoje ningum pode empreender um trabalho sobre a histria dos Ioruba sem consultar Johnson. Mas talvez fosse inevitvel que a ensaios histricos desta ordem se incorporassem as obras dos primeiros protonacionalistas, desde J. A. B. Horton (1835 -1883) e E. W. Blyden (1832 -1912) a J. M. Sarbah (1864 -1910), J. E. Casely -Hayford (1866 -1930) e J. B. Danquah (1895 -1965), que abordaram muitas questes histricas mas, na maioria das vezes, com o propsito de fazer propaganda. provvel que J. W. de Graft -Johnson (Towards Nationhood in West Africa, 1928; Historical Geography of the Gold Coast, 1929) e E. J. P. Brown (A Gold Coast and Asiante Reader, 1929) pertenam s duas categorias. Depois deles, porm, pode -se observar em certos ensaios uma tendncia a glorificar o passado africano no intuito de combater o mito da superioridade cultural europeia, como por exemplo em J. O. Lucas, The Religion of Yoruba (1949) e J. W. de Graft--Johnson, African Glory (1954). Alguns autores europeus demonstraram uma tendncia anloga. o caso, por exemplo, de Eva L. R. Meyerowitz, que, em seus livros sobre os Akan, tenta outorgar -lhes gloriosos ancestrais mediterrnicos, comparveis aos que Lucas buscava para os Ioruba27.

    Por outro lado, numa escala mais reduzida, muitos africanos continuaram a registrar as tradies histricas locais de modo srio e confivel. Os contatos com os missionrios cristos parecem ter desempenhado um papel significativo. Assim, floresceu em Uganda uma escola importante de historiadores locais desde a poca de A. Kagwa (cuja primeira obra foi publicada em 1906); ao mesmo tempo, R. C. C. Law anotou, para a regio ioruba, 22 historiadores que

    27 The Sacred State of the Akan (1951); The Akan Traditions of Origin (1952); The Akan of Ghana; their Ancient Beliefs (1958).

  • 19A evoluo da historiografia da frica

    haviam publicado trabalhos antes de 194028, em geral (como alis os autores ugandenses) em lnguas nativas. Dentre as das obras desse tipo, uma tornou -se merecidamente clebre: A Short History of Benin de J. U. Egharevba, reeditada diversas vezes desde sua primeira publicao em 1934.

    Por outro lado, certos colonizadores, espritos inteligentes e curiosos, tentavam descobrir e registrar a histria daqueles a quem tinham vindo governar. Para eles, a histria africana geralmente apresentava um valor prtico. Os europeus podiam ser melhores administradores se possussem algum conhecimento sobre o passado dos povos que eles haviam colonizado. Alm do mais, seria til ensinar um pouco de histria da frica nas escolas, cada vez mais numerosas, fundadas por eles e seus compatriotas missionrios, ainda que fosse apenas para servir como introduo ao ensino, mais importante, da histria da Inglaterra ou da Frana. Isso possibilitaria aos africanos obter os school certif icates e os baccalaurats e ser recrutados depois como preciosos auxiliares pseudo -europeus.

    Flora Shaw, Harry Johnson, Maurice Delafosse, Yves Urvoy e Richmond Palmer j foram mencionados anteriormente. Mas h tambm outros que escreveram sobre a frica obras histricas relativamente isentas de preconceitos culturais, ainda que s vezes tenham escolhido (eles ou seus editores) ttulos bizarros. Entre esses autores podemos citar: Ruth Fisher, Twilight Tales of the Black Baganda (1912); C. H. Stigand, The Land of Zing (1913); Sir Francis Fuller, A Vanished Dynasty: Ashanti (1921), exatamente na tradio de Bowdich e Dupuis; E. W. Bouill, Caravans of the Old Sahara (1933); numerosas obras eruditas de Charles Monteil (por exemplo, Les Empires du Mali, 1929) ou de Louis Tauxier (por exemplo, Histoire des Bambara, 1942). Parece que os franceses foram mais bem sucedidos que os ingleses na elaborao de uma histria realmente africana. Alguns dos mais slidos trabalhos britnicos por exemplo, History of the Gold Coast and Ashanti (1915) de W. W. Claridge ou History of the Gambia (1940) de Sir John Gray (exceo feita a alguns de seus artigos mais recentes sobre a frica oriental) possuam uma forte tendncia eurocntrica. conveniente notar tambm que, quando de seu retorno Frana, alguns administradores franceses (como Delafosse, Georges Hardy, Henry Labouret29) elaboraram breves histrias gerais a respeito de todo o continente ou do conjunto da frica subsaariana.

    28 LAW, R. C. C. Early Historical Writing Among the Yoruba (to c. 1940). 29 DELAFOSSE, Maurice. Les Noirs de l Afrique (Paris, 1921); HARDY, Georges. Vue Gnral de l Histoire

    dAfrique (Paris, 1937); LABOURET, Henry. Histoire des Noirs dAfrique (Paris, 1946).

  • 20 Metodologia e pr -histria da frica

    Isso se explica, em parte, pelo fato de que a administrao colonial francesa tendia a desenvolver estruturas mais rgidas para a formao e a pesquisa do que a administrao britnica. Pode -se citar a instituio (em 1917) do Comit dEtudes Historique et Scientifique de lAOF* e de seu Bulletin, que levaram criao do Institut Franais dAfrique Noire, sediado em Dacar (1938), ao seu Bulletin e srie Mmoires que editou; a partir da, surgiram obras como o magistral Tableau Gographique de l Ouest Africain au Moyen Age (1961) de Raymond Mauny. Apesar disso, os historiadores do perodo colonial permaneceram amadores, marginalizados da principal corrente historiogrfica. Isto ocorreu tanto na Frana quanto na Gr -Bretanha, pois, embora homens como Delafosse e Labouret tivessem obtido cargos universitrios quando retornaram Frana, fizeram -no como professores de lnguas africanas ou de administrao colonial, e no como historiadores clssicos.

    A partir de 1947, a Socit Africaine de Culture e sua revista Prsence Africaine empenharam -se na promoo de uma histria da frica descolonizada. Ao mesmo tempo, uma gerao de intelectuais africanos que havia dominado as tcnicas europeias de investigao histrica comeou a definir seu prprio enfoque em relao ao passado africano e a buscar nele as fontes de uma identidade cultural negada pelo colonialismo. Esses intelectuais refinaram e ampliaram as tcnicas da metodologia histrica desembaraando -a, ao mesmo tempo, de uma srie de mitos e preconceitos subjetivos. A esse propsito devemos mencionar o simpsio organizado pela UNESCO no Cairo em 1974, que permitiu a pesquisadores africanos e no -africanos confrontar livremente seus pontos de vista sobre o problema do povoamento do antigo Egito.

    Em 1948, aparecia a obra History of the Gold Coast de W. E. F. Ward. No mesmo ano, a Universidade de Londres criava o cargo de lecturer em Histria da frica na School of Oriental and African Studies, confiado ao Dr. Roland Oliver. a partir dessa mesma data que a Gr -Bretanha empreende um programa de desenvolvimento das universidades nos territrios que dela dependiam: fundao de estabelecimentos universitrios na Costa do Ouro e na Nigria; elevao do Gordon College de Cartum e do Makerere College de Kampala categoria de universidades. Nas colnias francesas e belgas, desenrolava -se um processo semelhante. Em 1950 era criada a Escola Superior de Letras de Dacar que, sete anos mais tarde, adquiriria o estatuto de universidade francesa. Lovanium, a primeira universidade do Congo (mais tarde Zaire), comeou a funcionar em 1954.

    * AOF Afrique Occidentale Franaise (N. do T.).

  • 21A evoluo da historiografia da frica

    Do ponto de vista da historiografia africana, a multiplicao das novas universidades a partir de 1948 foi seguramente mais significativa que a existncia dos raros estabelecimentos criados antes, mas que vegetavam por falta de recursos, tais como o Liberia College de Monrvia e do Fourah Bay College de Serra Leoa, fundados respectivamente em 1864 e 1876.

    Por outro lado, as nove universidades que existiam na frica do Sul em 1940 eram prejudicadas pela poltica segregacionista do regime de Pretria: tanto a pesquisa histrica quanto o ensino eram eurocentristas, e a histria da frica no passava da histria dos imigrantes brancos.

    Todas as novas universidades, ao contrrio, organizaram logo departamentos de histria, o que, pela primeira vez, levou um nmero considervel de historiadores profissionais a trabalhar na frica. Era inevitvel, no incio, que a maioria desses historiadores fosse proveniente de universidades no -africanas. Mas a africanizao sobreveio rapidamente. O primeiro diretor africano de um departamento de histria, o professor K. O. Dike, foi nomeado em 1956, em Ibad. Formaram -se muitos estudantes africanos. Os professores africanos que se tornaram historiadores profissionais sentiram necessidade de ampliar a parte reservada histria da frica em seus programas e, quando essa histria fosse pouco conhecida, de inclu -la em suas pesquisas.

    A partir de 1948, a historiografia da frica vai progressivamente se assemelhando de qualquer outra parte do mundo. E evidente que ela possui problemas especficos, como a escassez relativa de fontes escritas para os perodos antigos e a consequente necessidade de lanar mo de outras fontes como a tradio oral, a lingustica ou a arqueologia. Mas, embora a historiografia africana tenha trazido importantes contribuies no que diz respeito ao uso e interpretao dessas fontes, ela no se distingue fundamentalmente da historiografia de certos pases da Amrica Latina, da sia e da Europa que enfrentam problemas anlogos. Alis, o conhecimento da provenincia dos materiais no essencial para o historiador, cuja tarefa fundamental consiste em fazer deles uma utilizao crtica e comparativa, de modo a criar uma descrio inteligente e significativa do passado. O importante que, nos ltimos 25 anos, equipes de universitrios africanos vm se dedicando ao ofcio de historiador. O estudo da histria africana constitui hoje uma atividade bem estabelecida, a cargo de especialistas de alto nvel. Seu desenvolvimento ulterior ser assegurado pelos intercmbios interafricanos e pelas relaes entre as universidades da frica e as de outras partes do mundo. Mas preciso ressaltar que esta evoluo positiva teria sido impossvel sem o processo de libertao da frica do jugo colonial: o levante armado de Madagscar em 1947, a independncia do Marrocos em 1955,

  • 22 Metodologia e pr -histria da frica

    a heroica luta do povo argelino e as guerras de libertao em todas as colnias da frica contriburam enormemente para esse processo j que criaram, para os povos africanos, a possibilidade de retomar o contato com sua prpria histria e de controlar a sua organizao. Compreendendo desde logo esta necessidade, a UNESCO promoveu ou facilitou a realizao de encontros entre especialistas. Acertadamente, colocou como pr -requisito a coleta sistemtica de tradies orais. Respondendo aos desejos dos intelectuais e dos Estados Africanos essa entidade lanou, a partir de 1966, a ideia da elaborao de uma Histria Geral da frica. A execuo desse importante projeto foi iniciada sob os seus auspcios, em 1969.

  • C A P T U L O 2

    23Lugar da histria na sociedade africana

    O homem um animal histrico. O homem africano no escapa a esta definio. Como em toda parte, ele faz sua histria e tem uma concepo dessa histria. No plano dos fatos, as obras e as provas de sua capacidade criativa esto a sob nossos olhos, em forma de prticas agrrias, receitas de cozinha, medicamentos da farmacopeia, direitos consuetudinrios, organizaes polticas, produes artsticas, celebraes religiosas e refinados cdigos de etiqueta. Desde o aparecimento dos primeiros homens, os africanos criaram ao longo de milnios uma sociedade autnoma que unicamente pela sua vitalidade testemunha do gnio histrico de seus autores. Essa histria engendrada na prtica foi, enquanto projeto humano, concebida a priori. Ela tambm refletida e interiorizada a posteriori pelos indivduos e pelas coletividades. Torna -se, portanto, um padro de pensamento e de vida: um modelo.

    Mas sendo a conscincia histrica um reflexo de cada sociedade, e mesmo de cada fase significativa na evoluo de cada sociedade, compreender -se - que a concepo que os africanos possuem de sua prpria histria e da histria em geral seja marcada por seu singular desenvolvimento. O simples fato do isolamento das sociedades suficiente para condicionar estreitamente a viso histrica. Assim, o rei dos Mossi (Alto Volta) intitulava -se Mogho -Naba, ou seja, rei do mundo, o que ilustra bem a influncia das limitaes tcnicas e materiais sobre a viso que se tem das realidades socio polticas. Desse modo, pode -se constatar

    Lugar da histria na sociedade africanaBoubou Hama e J. Ki Zerbo

  • 24 Metodologia e pr -histria da frica

    que o tempo africano , s vezes, um tempo mtico e social, mas tambm que os africanos tm conscincia de serem os agentes de sua prpria histria. Enfim, veremos que este tempo africano um tempo realmente histrico.

    Tempo mtico e tempo social

    Num primeiro contato com a frica, e mesmo a partir da leitura de numerosas obras etnolgicas, tem -se a impresso de que os africanos estavam imersos e, como que afogados no tempo mtico, vasto oceano sem margens nem marcos, enquanto os outros povos percorriam a avenida da histria, imenso eixo balizado pelas etapas do progresso. De fato, o mito, representao fantstica do passado, em geral domina o pensamento dos africanos na sua concepo do desenrolar da vida dos povos. Isso a tal ponto que, s vezes, a escolha e o sentido dos acontecimentos reais deviam obedecer a um modelo mtico que predeterminava at os gestos mais prosaicos do soberano ou do povo. Sob forma de costumes vindos de tempos imemoriais, o mito governava a Histria, encarregando -se, por outro lado, de justific -la. Num tal contexto, aparecem duas caractersticas surpreendentes do pensamento histrico: sua intemporalidade e sua dimenso essencialmente social.

    Nesta situao o tempo no a durao capaz de dar ritmo a um destino individual; o ritmo respiratrio da coletividade. No se trata de um rio que corre num sentido nico a partir de uma fonte conhecida at uma foz conhecida. Nos pases tecnicamente desenvolvidos, os prprios cristos estabelecem uma ntida demarcao entre o fim dos tempos e a eternidade. Isto talvez porque o Evangelho ope nitidamente este mundo transitrio ao mundo futuro, mas tambm porque, por esta viso distorcida e por outras razes, o tempo humano praticamente laicizado. Ora, em geral o tempo africano tradicional engloba e integra a eternidade em todos os sentidos. As geraes passadas no esto perdidas para o tempo presente. sua maneira, elas permanecem sempre contemporneas e to influentes, se no mais, quanto o eram durante a poca em que viviam. Assim sendo, a causalidade atua em todas as direes: o passado sobre o presente e o presente sobre o futuro, no apenas pela interpretao dos fatos e o peso dos acontecimentos passados, mas por uma irrupo direta que pode se exercer em todos os sentidos. Quando o imperador do Mali, Kankou Moussa (1312 -1332), enviou um embaixador ao rei do Yatenga para pedir -lhe que se convertesse ao islamismo, o chefe Mossi respondeu que antes de tomar qualquer deciso ele precisava consultar seus ancestrais. Percebe -se aqui como o passado, atravs do

  • 25Lugar da histria na sociedade africana

    culto, est diretamente ligado ao presente, constituindo -se os ancestrais agentes diretos e privilegiados dos negcios que ocorrem sculos depois deles. Da mesma forma, na corte de numerosos reis, funcionrios intrpretes de sonhos exerciam um peso considervel sobre a ao poltica projetada. Esses exegetas do sonho eram, em suma, ministros do futuro. Cita -se o caso do rei ruands Mazimpaka Yuhi III (fim do sculo XVII) que viu em sonho homens de tez clara vindos do leste. Armou -se ento de arcos e flechas mas, antes de lanar as flechas contra eles, guarneceu -as com bananas maduras. A interpretao desta atitude ambgua, ao mesmo tempo agressiva e acolhedora, introduziu uma imagem privilegiada na conscincia coletiva dos ruandeses e talvez contribua para explicar a atitude pouco combativa desse povo, tradicionalmente aguerrido, face s colunas alems do sculo XIX, semelhantes aos plidos rostos avistados durante o sonho real dois sculos antes. Nesse tempo suspenso, a ao do presente possvel mesmo sobre o que considerado passado mas que permanece, de fato, contemporneo. O sangue dos sacrifcios de hoje reconforta os ancestrais de ontem. E at agora, os africanos ainda exortam seus prximos a no negligenciarem as oferendas em nome dos parentes falecidos, pois os que nada recebem constituem a classe pobre desse mundo paralelo dos mortos e so obrigados a viver do auxlio dos privilegiados, que so objeto de generosos sacrifcios feitos em seu nome.

    De uma forma ainda mais profunda, certas cosmogonias atribuem a um tempo mtico os progressos obtidos num tempo histrico, que no sendo recebido como tal por cada indivduo, substitudo pela memria histrica do grupo. E o caso da lenda Gikuyu que explica o advento da tcnica de fundio do ferro. Mogai (Deus) havia distribudo os animais entre os homens e as mulheres. Mas estas foram to cruis com seus animais que eles escaparam e tornaram -se selvagens. Os homens ento intercederam junto a Mogai em favor de suas mulheres, dizendo: Em tua honra, ns queremos sacrificar um carneiro; mas no pretendemos faz -lo com uma faca de madeira, para no incorrer nos mesmos riscos que nossas mulheres. Mogai felicitou -os por sua sabedoria e, para dot -los de armas mais eficazes, ensinou -lhes a receita da fundio do ferro.

    Essa concepo mtica e coletiva era tal que o tempo tornava -se um atributo da soberania dos lderes. O rei Shilluk era o depositrio mortal de um poder imortal, j que totalizava em si prprio o tempo mtico (encarnando o heri fundador) e o tempo social considerado como fonte da vitalidade do grupo. Do mesmo modo, entre os Bafulero (Zaire oriental), os Bunyoro (Uganda) e os Mossi (Alto Volta), o chefe o sustentculo do tempo coletivo: O Mwami est presente: o povo vive. O Mwami est ausente: o povo morre. A morte do rei constitui uma ruptura do tempo que paralisa as atividades, a ordem social, toda

  • 26 Metodologia e pr -histria da frica

    expresso de vida, desde o riso at a agricultura e a unio sexual dos animais e das pessoas. O interregno constitui um parnteses no tempo. Apenas o advento de um novo rei recria o tempo social que se reanima novamente. Tudo onipresente nesse tempo intemporal do pensamento animista, no qual a parte representa e pode significar o todo; como os cabelos e unhas que se impede de carem nas mos dos inimigos por medo de que estes tenham poder sobre a pessoa.

    De fato, preciso atingir uma concepo geral do mundo para entender a viso e o significado profundo do tempo entre os africanos. Veremos ento que no pensamento tradicional, o tempo perceptvel pelos sentidos no passa de um aspecto de um outro tempo vivido por outras dimenses da pessoa. Quando vem a noite e o homem se estende sobre sua esteira ou sua cama para dormir, o momento que seu duplo escolhe para partir, para percorrer o caminho seguido pelo homem durante o dia, frequentar os lugares que ele frequentou e refazer os gestos e os trabalhos que ele realizou conscientemente durante a vida diurna. no curso dessas peregrinaes que o duplo se choca com as foras do Bem e do Mal, com os bons gnios e com os feiticeiros devoradores de duplos ou cerko (em lngua songhai e zarma). no duplo que reside a personalidade de cada um. O songhai diz que o bya (duplo) de um homem pesado ou leve, querendo significar que sua personalidade forte ou frgil: os amuletos tm como finalidade proteger e reforar o duplo. E o ideal chegar a confundir -se com o prprio duplo, a fundir -se nele at formar uma s entidade, que ascende assim a um grau de sabedoria e de fora sobre -humano. Somente o grande iniciado, o mestre (kortkonyn, zimaa) atinge esse estado em que o tempo e o espao no constituem mais obstculos. Era esse o caso de SI, o ancestral epnimo da dinastia: Assustador o pai dos SI, o pai dos troves. Quando ele est com uma crie, ento que mastiga cascalhos; quando est com conjuntivite, nesse momento que, resplandecente, acende o fogo. Com seus grandes passos, ele percorre a terra. Ele est em toda parte e em parte alguma.

    O tempo social, a histria, vivida assim pelo grupo, acumula um poder que a maior parte do tempo simbolizado e concretizado num objeto transmitido pelo patriarca, chefe do cl ou rei ao seu sucessor. Pode tratar -se de uma bola de ouro conservada num tobal (tambor de guerra) associado a elementos extrados do corpo do leo, do elefante ou da pantera. Esse objeto pode estar fechado numa caixa ou numa arca, como as insgnias reais (tibo) do rei mossi Entre os Songhai -Zarma, uma haste de ferro afiada numa das extremidades. J entre os Sorko do antigo Imprio de Gao, um dolo em forma de um grande peixe provido de uma argola na boca. Entre os ferreiros, uma forja mtica que s vezes, durante a noite, torna -se rubra para expressar sua clera. A transferncia desses

  • 27Lugar da histria na sociedade africana

    figura 2.1 Estatueta em bronze representando o poder dinstico dos Songhai (Tera Nger), Col. A. Salifou.

  • 28 Metodologia e pr -histria da frica

    objetos que constitua a devoluo jurdica do poder. O caso mais interessante o dos Sonianke, descendentes de Sonni Ali, que possuem correntes de ouro, prata ou cobre, cada elo das quais representando um ancestral, e o conjunto simbolizando a descendncia dinstica at Sonni, o Grande. No decorrer de cerimnias mgicas, estas correntes magnficas so regurgitadas diante de um pblico embasbacado. No momento de morrer, o patriarca sonianke regurgita a corrente pela ltima vez, fazendo com que o escolhido para seu sucessor engula -a pela outra extremidade. Ele morre logo aps ter passado sua corrente quele que deve substitu -lo. Esse testamento vivo ilustra com eloquncia a fora da concepo africana do tempo mtico e do tempo social. Poder -se -ia pensar que uma tal viso do processo histrico seria esttica e estril, na medida em que, ao colocar a perfeio do arqutipo no passado, na origem dos tempos, parece indicar como ideal para o conjunto das geraes a repetio estereotipada dos gestos e da gesta do ancestral. O mito no seria, assim, o motor de uma histria imvel? Ficar claro mais adiante que no podemos nos ater unicamente a esse enfoque do pensamento histrico entre os africanos.

    Por outro lado, o enfoque mtico preciso reconhec -lo est na origem da histria de todos os povos. Toda histria originalmente uma histria sagrada. Do mesmo modo, esse enfoque acompanha o desenvolvimento histrico, reaparecendo de tempos em tempos sob formas maravilhosas ou monstruosas. Entre elas est o mito nacionalista, que faz com que um determinado chefe de Estado contemporneo se dirija ao seu pas como a uma pessoa viva, e o mito da raa, sob o regime nazista, concretizado por rituais cujas origens remontam a um passado longnquo, que condenou milhes de pessoas ao holocausto.

    Os africanos tm conscincia de ser os agentes de sua histria?

    Certamente, durante alguns sculos o homem africano teve razes de sobra para no desenvolver uma conscincia responsvel. Excessivas imposies exteriores e alienantes domesticaram -no a tal ponto que mesmo quando ele vivia longe da costa onde se dava o aprisionamento de escravos e da rea de influncia do comandante branco, ele guardava num canto qualquer de sua alma a marca aniquiladora da escravido.

    Do mesmo modo, no perodo pr -colonial, numerosas sociedades africanas elementares, quase fechadas, do a impresso de que seus membros s tinham conscincia de estar fazendo histria numa escala e numa medida bastante

  • 29Lugar da histria na sociedade africana

    limitadas, em geral na dimenso da grande famlia e no quadro de uma hierarquia consuetudinria gerontocrtica, rigorosa e pesada. Entretanto, mesmo (e quem sabe sobretudo) nesse nvel, o sentimento da auto -regulao da comunidade, da autonomia, era vivo e poderoso. O campons lobi e kabye na sua aldeia, quando senhor da casa1, acreditava ter amplo controle de seu prprio destino. A melhor prova disso que nessas regies de anarquia poltica, onde o poder era a coisa mais bem distribuda do mundo, que os invasores e em particular os colonizadores tiveram maior dificuldade em se impor. O apego liberdade atestava aqui o gosto pela iniciativa e o repdio pela alienao.

    Em compensao, nas sociedades fortemente estruturadas a concepo africana de chefe d a este ltimo um espao exorbitante na histria dos povos dos quais ele literalmente encarna o projeto coletivo. Assim, no de admirar que a tradio relembre toda a histria original dos Malinke no Elogio a Sundiata. O mesmo acontece com Sonni Ali entre os Songhai da curva do Nger. Isto no significa, em absoluto, um condicionamento ideolgico que destri o esprito crtico, ainda que, nas sociedades em que o nico canal de informaes a via oral, as autoridades que controlam uma slida rede de griots praticamente monopolizem a difuso da verdade oficial. Mas os griots no constituam um corpo monoltico e nacionalizado.

    Por outro lado, a histria mais recente da frica pr -colonial demonstra que a posio dedicada aos lderes africanos nas representaes mentais das pessoas provavelmente no superestimada. o caso, por exemplo, de Chaka, que realmente forjou a nao Zulu na tormenta dos combates. O que os testemunhos escritos e orais permitem perceber da atuao de Chaka deve ter -se reproduzido vrias vezes durante o desenvolvimento histrico africano. Diz -se que a constituio dos cls mande remonta a Sundiata; e a ao de Osei Tutu ou a de Anokye na formao da nao Ashanti parece corresponder ideia de nao que os Ashanti tm at hoje. Tanto mais que a ideia de um lder que atua como motor da histria quase nunca se reduz a um esquema simplista, creditando a um s homem todo o desenvolvimento humano. Geralmente trata--se de um grupo dinmico, celebrado como tal. Os companheiros dos chefes no so esquecidos, mesmo os de condio inferior (griots, porta -vozes, servos). Eles frequentemente entram para a histria como heris.

    A mesma observao vale para as mulheres que, ao contrrio do que se tem dito e repetido saciedade, ocupam na conscincia histrica africana uma posio

    1 A expresso bambara so tigui, equivalente, numa escala inferior, a dougou tigui (chefe de aldeia), dyamanitigui (chefe de canto) e kele tigui (general em chefe), mostra bem a fora dessa autoridade.

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    sem dvida mais importante que em qualquer outro lugar. Nas sociedades de regime matrilinear isto facilmente compreensvel. Em Uanzarba, perto de Tera (Nger), onde a sucesso na chefia era matrilinear, durante o perodo colonial os franceses, no intuito de reunir os habitantes dessa aldeia aos de outras aldeias songhai, haviam nomeado um homem para comandar essa aglomerao. Mas os Sonianke2 no deixaram de conservar sua kassey (sacerdotisa), que continua at hoje a assumir a responsabilidade do poder espiritual. Tambm em outros lugares as mulheres so vistas como protagonistas na evoluo histrica dos povos. Filhas, irms, esposas e mes de reis, como essa admirvel Luedji, que foi tudo isso sucessivamente e mereceu o ttulo de Swana Mulunda (me do povo Lunda), ocupavam posies que lhes permitiam influir nos acontecimentos. A clebre Amina, que, na regio haussa, no sculo XV, conquistou para Zaria tantas terras e aldeias que ainda levam o seu nome, apenas um exemplo, entre milhares, da ideia de autoridade histrica que as mulheres impuseram s sociedades africanas. Esta ideia permanece viva at hoje na frica, na atuao das mulheres na guerra da Arglia e nos partidos polticos durante a luta nacionalista pela independncia ao sul do Saara. claro que a mulher africana utilizada tambm como objeto de prazer e de decorao, como nos sugerem as que so mostradas envoltas em tecidos de exportao ao redor do rei do Daom ao presidir uma festa tradicional. Mas do mesmo espetculo participavam as amazonas, ponta de lana das tropas reais contra Oyo e os invasores colonialistas na batalha de Cana (1892). Pela sua participao no trabalho da terra, no artesanato e no comrcio, pela sua ascendncia sobre os filhos, sejam eles prncipes ou plebeus, por sua vitalidade cultural, as mulheres africanas sempre foram consideradas personagens eminentes da histria dos povos. Houve e ainda h batalhas para ou pelas mulheres. Porque as prprias mulheres muitas vezes desempenharam o papel de traidoras ou sedutoras. Como no caso da irm de Sundiata ou das mulheres enviadas pelo rei de Segu Da Monzon s bases inimigas. Apesar de sofrer uma segregao aparente nas reunies pblicas, todos sabem na frica que a mulher est onipresente na evoluo. A mulher a vida. E tambm a promessa de expanso da vida. E atravs dela que os diferentes cls consagram suas alianas. Pouco loquaz em pblico, ela faz e desfaz os acontecimentos no sigilo de seu lar. E a opinio pblica formula este ponto de vista no provrbio: As mulheres podem tudo comprometer, elas podem tudo arranjar.

    2 Neste cl, o poder se transmite pelo leite, ainda que se admita que o lao de sangue contribua para refor -lo. Entre os Cerko, porm, unicamente atravs do leite que o poder transmitido.

  • 31Lugar da histria na sociedade africana

    Em suma, tudo se passa como se na frica a permanncia das estruturas elementares das comunidades de base atravs do movimento histrico tivesse conferido a todo processo um carter popular bastante notvel. A frgil envergadura das sociedades tornou a histria uma questo que diz respeito a todos. Apesar da mediocridade tcnica dos meios de comunicao (ainda que o tan -t assegurasse a telecomunicao de aldeia para aldeia), a estreita amplitude do espao histrico media -se pela apreenso mental de cada um. Da a inspirao democrtica incontestvel que anima a concepo africana da histria na maioria dos casos! Cada um tinha o sentimento de poder, em ltima instncia, subtrair -se ditadura, mesmo que fosse atravs da secesso, para refugiar -se no espao disponvel. O prprio Chaka passou por essa experincia no fim de sua carreira. Este sentimento de fazer a histria mesmo na escala microcsmica da aldeia, assim como a sensao de ser somente uma molcula na corrente histrica criada pelo rei visto como demiurgo, so muito importantes para o historiador. Porque constituem em si mesmos fatos histricos e porque contribuem por sua vez para criar a histria.

    O tempo africano um tempo histrico

    O tempo africano pode ser considerado um tempo histrico? Alguns afirmam que no, sustentando que o africano s concebe o mundo como uma reedio estereotipada do passado. Ele no passaria ento de um incorrigvel discpulo do passado repetindo a todo mundo: Foi assim que os ancestrais fizeram, para justificar todas as suas aes e seus gestos. Se fosse assim, Ibn Battuta s teria encontrado no lugar do Imprio do Mali comunidades pr -histricas vivendo em abrigos cavados nas rochas e homens vestidos com peles de animais. O prprio carter social da concepo africana da histria lhe d uma dimenso histrica incontestvel, porque a histria a vida crescente do grupo. Ora, deste ponto de vista pode -se dizer que para o africano o tempo dinmico. Nem na concepo tradicional, nem na viso islmica que influenciar a frica, o homem prisioneiro de um processo esttico ou de um retorno cclico. Evidentemente, na ausncia da ideia do tempo matemtico e fsico contabilizado pela adio de unidades homogneas e medido por instrumentos confeccionados para esse fim, o tempo permanece um elemento vivido e social. Nesse contexto, porm, no se trata de um elemento neutro e indiferente. Na concepo global do mundo, entre os africanos, o tempo o lugar onde o homem pode, sem cessar, lutar pelo desenvolvimento de sua energia vital. Tal a dimenso principal

  • 32 Metodologia e pr -histria da frica

    do animismo3 africano em que o tempo o campo fechado e o mercado no qual se confrontam ou negociam as foras que habitam o mundo. Defender -se contra qualquer diminuio de seu ser, desenvolver a sade, a forma fsica, a extenso de seus campos, a grandeza de seus rebanhos, o nmero de filhos, de mulheres, de aldeias, este o ideal dos indivduos e das coletividades. E essa concepo incontestavelmente dinmica. Os cls Cerko e Sonianke (Nger) so antagonistas. O primeiro, que representa o passado e tenta reinar sobre a noite, ataca a sociedade. O segundo, ao contrrio, o mestre do dia; representa o presente e defende a sociedade. Esse simbolismo eloquente em si. Mas vejamos uma estrofe significativa da invocao mgica entre os Songhai:

    No da minha boca da boca de A Que o deu a B Que o deu a C Que o deu a D Que o deu a E Que o deu a F Que o deu a mim Que o meu esteja melhor na minha boca Que na dos ancestrais.

    Existe assim no africano uma vontade constante de invocar o passado, que constitui para ele uma justificao. Mas esta invocao no significa o imobilismo e no contradiz a lei geral da acumulao das foras e do progresso. Da a frase: Que o meu esteja melhor na minha boca que na dos ancestrais.

    O poder na frica negra se expressa em geral por uma palavra que significa a fora4. Esta sinonmia assinala a importncia que os povos africanos outorgam fora e mesmo violncia no desenrolar da histria. Mas no se trata simplesmente da fora material bruta. Trata -se da energia vital que rene uma polivalncia de foras, que vo da integridade fsica sorte e integridade moral. O valor tico considerado, na verdade, como uma condio sine qua non do exerccio benfico do poder. A sabedoria popular testemunha dessa ideia e em numerosos contos coloca em cena chefes despticos que so punidos no final, extraindo assim literalmente desse fato a moral da histria. O Tarikh

    3 O animismo, ou ainda melhor, a religio tradicional africana, caracteriza -se pelo culto devotado a Deus e s foras dos espritos intermedirios.

    4 Fanga (em bambara), panga (em more), pan (em samo).

  • 33Lugar da histria na sociedade africana

    al Sudan e o Tarikh el Fattash no poupam elogios aos mritos de al -Hajj Askiya Muhammad. verdade que havia interesses materiais em jogo. Mas sistematicamente as virtudes desse prncipe so relacionadas sua fortuna. Bello Muhammad pensa da mesma forma e convida Yacouba Baoutchi a meditar sobre a histria do Imprio Songhai: foi graas sua justia que Askiya Muhammad no apenas manteve como tambm reforou a herana de Sonni Ali. E foi quando os filhos de Askiya se afastaram da justia do Isl que seu imprio se desarticulou, dividindo -se em mltiplos principados impotentes.

    Para o filho de Usman dan Fodio, o mesmo princpio vale para seu prprio governo:

    Olhe para o passado, para todos aqueles que comandaram antes de ns Havia antes de ns dinastias milenares no territrio haussa. Nelas, muitos povos tinham adquirido grandes poderes que desmoronaram porque estavam distanciados de sua base fundada na justia, de seus costumes e tradies, alterados pela injustia. Quanto a ns, nossa fora, para que seja duradoura, deve ser a fora da verdade e a do isla-mismo. Para ns, o fato de ter matado Yunfa, destrudo a obra de Nafata, de Abarchi e de Bawa Zangorzo5 pode impressionar as geraes atuais mesmo fora da influncia do Isl. Mas as que viro depois de ns, no mais percebero isso: elas julgar -nos--o pelo valor das organizaes que lhes tivermos deixado, pela fora permanente do islamismo que tivermos estabelecido, pela verdade e justia que tivermos sabido impor ao Estado.

    Esta viso elevada do papel da tica na histria no provm somente das convices islmicas do lder de Socoto. Nos meios animistas tambm existe a ideia de que a ordem das foras csmicas pode ser alterada por procedimentos imorais e que o desequilbrio resultante s pode ser prejudicial ao seu autor. Esta viso do mundo em que os valores e exigncias ticas so parte integrante da prpria organizao do mundo pode parecer mtica. Mas ela exercia uma influncia objetiva sobre o comportamento dos homens e particularmente sobre diversos lderes polticos da frica. Nesse sentido, pode -se dizer que se a histria , em geral, justificao do passado, ela tambm exortao do futuro. Nos sistemas pr -estatais, a autoridade moral que afianava ou corrigia eventualmente a conduta dos negcios pblicos era assumida por sociedades especializadas, s vezes secretas, tal como o lo do povo Senoufo ou o poro da Alta Guin. Essas sociedades constituam muitas vezes poderes paralelos encarregados de desempenhar o papel de recurso parte do sistema estabelecido. Mas elas

    5 Prncipes do Gobir.

  • 34 Metodologia e pr -histria da frica

    acabavam s vezes substituindo clandestinamente o poder constitudo. Elas apareciam assim s pessoas como centros ocultos de deciso, que confiscavam ao povo o controle de sua prpria histria. Nesse tipo de sociedade, a organizao em classes etrias uma estrutura de primeira importncia no encaminhamento da histria do povo. Essa estrutura, na medida em que est estabelecida a partir de uma periodicidade conhecida, permite reconstituir a histria dos povos at o sculo XVIII. Mas desempenhava tambm uma funo especfica na vida das sociedades. De fato, mesmo nas coletividades rurais que desconheciam maiores inovaes tcnicas e eram, consequentemente, bastante estveis, os conflitos de geraes no estavam ausentes. Era necessrio ento assumi -los, por assim dizer, ordenando o fluxo das geraes e estruturando as relaes entre elas para evitar que degenerassem em conflitos violentos resultantes de bruscas mutaes. A gerao engajada na ao delega um de seus membros gerao de jovens que a sucede. O papel desse adulto no o de aplacar a impacincia dos jovens, mas de canalizar a fria irrefletida que poderia ser nefasta ao conjunto da coletividade ou que, na melhor das hipteses, prepararia mal os interessados para assumir suas responsabilidades pblicas6.

    A conscincia do tempo passado era muito viva entre os africanos. No entanto, esse tempo que tem um grande peso sobre o presente no anula o dinamismo deste, como testemunham numerosos provrbios. A concepo do tempo tal como a detectamos nas sociedades africanas no , com certeza, inerente ou consubstancial a uma espcie de natureza africana. a marca de um estgio no desenvolvimento econmico e social. Prova disso so as diferenas flagrantes que notamos ainda hoje entre o tempo -dinheiro dos habitantes das cidades e o tempo tal como apreendido pelos habitantes do campo. O essencial que a ideia de desenvolvimento a partir das origens (a serem pesquisadas) esteja presente. Mesmo sob a forma de contos e de lendas, ou de resqucios de mitos, trata -se de um esforo para racionalizar o desenvolvimento social. s vezes, tm -se verificado esforos ainda mais positivos no sentido de iniciar o clculo do tempo histrico. Este pode estar relacionado com o espao, como quando se fala em dar um passo, para qualificar uma durao mnima. Pode estar relacionado tambm vida biolgica, como o tempo de uma inspirao ou de uma expirao. Mas est frequentemente relacionado a fatores exteriores ao indivduo, como por exemplo, os fenmenos csmicos, climticos e sociais, sobretudo quando

    6 Por exemplo, entre os Alladian de Moosu (perto de Abidjan) a organizao por geraes (em nmero de cinco, cada uma reinando nove anos) permanece em vigor inclusive para tarefas de tipo moderno: construo, festa de formatura ou de promoo

  • 35Lugar da histria na sociedade africana

    eles so recorrentes. Na savana sudanesa, entre os adeptos das religies africanas tradicionais, geralmente conta -se a idade pelo nmero das estaes chuvosas. Para indicar que um homem idoso, fala -se do nmero de estaes das chuvas que ele viveu ou, atravs de uma imagem, que ele bebeu muita gua.

    Tambm foram elaborados alguns sistemas de clculo mais aperfeioados7. Mas o passo decisivo nesse campo s ser dado pela utilizao da escrita. Ainda que a existncia de uma classe letrada absolutamente no garanta a tomada de conscincia de uma histria coletiva por parte de todo povo, ela ao menos permite estabelecer pontos de referncia que organizam o curso do fluxo histrico.

    Por outro lado, a introduo das religies monotestas baseadas num determinado processo histrico contribuiu para fornecer uma outra representao do passado coletivo, modelos que apareciam geralmente nas entrelinhas das narrativas. Por exemplo, sob a forma de ligaes arbitrrias das dinastias s fontes islmicas cujos valores e ideais serviro aos profetas negros para modificar o curso dos acontecimentos em seu pas de origem.

    Mas a grande reviravolta na concepo africana do tempo se opera sobretudo pela entrada desse continente no universo do lucro e da acumulao monetria. S agora o sentido do tempo individual e coletivo se transforma pela assimilao dos esquemas mentais em vigor nos pases que influenciam os africanos econmica e culturalmente. Descobrem ento que, em geral, o dinheiro que faz a histria. O homem africano, to prximo de sua histria que tinha a impresso de forj -la ele prprio em suas microssociedades, enfrenta agora, ao mesmo tempo, o risco de uma gigantesca alienao e a oportunidade de ser co autor do progresso global.

    7 Ivor WILKS mostra, assim, ao criticar o livro de D. P. HENIGE, The cronology of Oral Tradition: Quest for a Chimera, que os Akan (Fanti, Ashanti) dispunham de um sistema de calendrio complexo, com semana de sete dias, ms de seis semanas e ano de nove meses, ajustado periodicamente ao ciclo solar segundo um mtodo ainda no completamente esclarecido. Era ento possvel no esquema do calendrio Akan referir -se, por exemplo, ao 18o dia do quarto ms do terceiro ano do reinado de Ashantihene Osei Bonsu. Mtodo de datao ainda corrente nos pases europeus no sculo XVIII e mesmo no sculo XIX. Cf. WILKS, I. 1975, p. 279 e segs.

  • C A P T U L O 3

    37Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio histria em geral

    O objetivo deste volume e dos ulteriores tornar conhecido o passado da frica tal como visto pelos africanos. Trata -se de uma perspectiva justa provavelmente a nica forma de levar a termo um esforo internacional; tambm a mais aceita pelos historiadores da frica, tanto na prpria frica quanto no ultramar. Para os africanos, o conhecimento do passado de suas prprias sociedades representa uma tomada de conscincia indispensvel ao estabelecimento de sua identidade em um mundo diverso e em mutao. Ao mesmo tempo, longe de ser considerada uma custosa fantasia, que pode ser posta de lado at que estejam sob controle os elementos prioritrios do desenvolvimento, a histria da frica revelou -se nos ltimos decnios um elemento essencial do desenvolvimento africano. por esta razo que, na frica e em outros lugares, a primeira preocupao dos historiadores foi ultrapassar os vestgios da histria colonial e reatar os laos com a experincia histrica dos povos africanos. Outros captulos e outros volumes trataro desses reencontros, da histria enquanto tradio viva e desabrochar constante, do papel dos conhecimentos histricos na elaborao de novos sistemas de educao para servir frica independente. Este captulo tratar do significado no exterior, da histria da frica inicialmente aos olhos da comunidade internacional dos historiadores e em seguida para o conjunto do grande pblico cultivado.

    O fato de a histria da frica ter sido deploravelmente negligenciada at os anos 50 apenas um dos sintomas no domnio dos estudos histricos

    Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio

    histria em geral P. D. Curtin

  • 38 Metodologia e pr -histria da frica

    de um fenmeno mais amplo. A frica no a nica regio a possuir uma herana intelectual da poca colonial que deve ser transcendida. No sculo XIX, os europeus conquistaram e subjugaram a maior parte da sia, enquanto na Amrica tropical o subdesenvolvimento e a dominao exercida pelos povos de origem europeia sobre as populaes afro -americanas e indgenas reproduziram as condies do colonialismo nas prprias reas onde as convenes do direito internacional apontavam um grupo de Estados independentes. No sculo XIX e no incio do sculo XX, a marca do regime colonial sobre os conhecimentos histricos falseia as perspectivas em favor de uma concepo eurocntrica da histria do mundo, elaborada na poca da hegemonia europeia. A partir da, tal concepo difundida por toda parte graas aos sistemas educacionais institudos pelos europeus no mundo colonial. Mesmo nas regies onde jamais se verificara a dominao europeia, os conhecimentos europeus, inclusive os aspectos da historiografia eurocntrica, impem -se por sua modernidade.

    Hoje, essa viso eurocntrica do mundo praticamente desapareceu das melhores obras histricas recentes; mas ela ainda predomina em numerosos historiadores e no grande pblico tanto ocidental quanto no ocidental1. Esta persistncia deve -se ao fato de que, em geral, aprendia -se histria na escola, no havendo mais ocasies para rever os conhecimentos adquiridos. Os prprios historiadores especializados na pesquisa sentem dificuldades em se manter a par das descobertas estranhas a seu campo de atividade. Comparados s ltimas pesquisas, os manuais esto de dez a vinte anos atrasados, enquanto as obras de histria geral conservam frequentemente os preconceitos antiquados de um saber em desuso. Nenhuma interpretao nova, nenhum elemento novo adquire sem luta direito cidadania.

    A despeito dos prazos que separam a descoberta de sua difuso, os estudos de histria atravessam, em seu conjunto, uma dupla revoluo. Iniciada logo aps a Segunda Guerra Mundial, tal revoluo ainda no acabou. Trata -se, por um lado, da transformao da histria, partindo da crnica para chegar a uma cincia social que trate da evoluo das sociedades humanas; por outro, da substituio dos preconceitos nacionais por uma viso mais ampla.

    Em favor destas novas tendncias, chegaram contribuies de todos os lados: da prpria Europa; de historiadores da nova escola na frica, na sia e na Amrica Latina; dos europeus de ultramar da Amrica do Norte e da Oceania.

    1 O termo Ocidente empregado neste captulo para designar as regies do mundo culturalmente europeias ou cuja cultura deriva sobretudo da cultura europeia; ele engloba portanto, alm da prpria Europa, as Amricas, a Unio Sovitica, a Austrlia e a Nova Zelndia.

  • 39Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio histria em geral

    Seus esforos para ampliar o quadro da histria voltam -se ao mesmo tempo para os povos e regies at ento negligenciados, assim como para certos aspectos da experincia humana antes ocultos sob concepes tradicionais e estreitas da histria poltica e militar. Nesse contexto, o simples advento da histria africana j constitui em si uma preciosa contribuio. Mas isso poderia simplesmente acabar criando mais uma histria particularista, vlida em si e capaz de colaborar com o desenvolvimento da frica, mas no de trazer histria do mundo uma contribuio mais eloquente.

    No h dvida de que o chauvinismo foi um dos traos mais profundamente marcantes da antiga tradio histrica. Na primeira metade do sculo XX, os bons historiadores mal comeavam a se desfazer da antiga tendncia em considerar a histria como propriedade quase privada. Dentro desse esprito, a histria de uma dada sociedade s tinha valor em si; no exterior, perdia toda significao. No melhor dos casos, o interesse manifestado pelos estrangeiros no passava de indiscrio; no pior, tratava -se de espionagem acadmica. Esta insistncia em se apropriar da histria particularmente marcante na tradio europeia do incio do sculo XX. As autoridades responsveis pela educao tendem a considerar a histria como uma histria nacional, no como uma histria geral da Europa e menos ainda como uma viso do processo histrico mundial. Mito confesso, a histria servia para forjar o orgulho nacional e a ideia de sacrifcio pela ptria. Lord Macaulay escreveu que ela era ao mesmo tempo um relato e um instrumento de educao poltica e moral2. Esperava--se que inculcasse o patriotismo e no que inspirasse perspectivas justas sobre o desenvolvimento da humanidade. Tal ponto de vista prevalece ainda na maioria dos sistemas educativos.

    Alguns historiadores fizeram objees uns em nome da cincia, outros em nome do internacionalismo , mas a maioria deles considerou normais os preconceitos nacionalistas, por mais indesejveis que fossem. Na Frana, possvel chegar agregao* de histria possuindo apenas conhecimentos rudimentares sobre a Europa situada alm das fronteiras francesas sem falar da sia, da frica ou da Amrica. Em vrias universidades inglesas, pode -se obter um diploma em humanidades, com meno honrosa, tendo por base apenas a histria inglesa. O emprego da palavra ingls (english) em lugar de britnico (british) intencional. O estudante ingls tem toda a probabilidade de saber

    2 MACAULAY, Thomas Babington, 1835 e 1971.* Admisso sob concurso ao ttulo de agrg (agregado), que torna as pessoas aptas a serem titulares de

    uma cadeira de professor de colgio ou de certas faculdades.

  • 40 Metodologia e pr -histria da frica

    mais sobre a histria de Roma que sobre a do Pas de Gales, da Esccia ou da Irlanda antes do sculo XVIII. Levando em conta as variantes ideolgicas, o problema praticamente o mesmo na Europa Oriental. Somente os pases europeus de menor importncia os do grupo do Benelux ou da Escandinvia parecem ter mais facilidade em considerar a Europa como um todo.

    Da mesma forma, o mtodo norte -americano, fundado (como seus homlogos europeus) na histria da civilizao, sempre etnocntrico. O problema que ele coloca Como nos tornamos aquilo que somos? e no Como a humanidade se tornou o que vemos hoje?.

    medida que rejeitavam as tendncias eurocntricas de sua prpria histria nacional, cabia aos historiadores de cada continente a tarefa de avanar em direo a uma histria do mundo verdica, na qual a frica, a sia e a Amrica Latina tivessem um papel aceitvel no plano internacional. Essa tendncia manifestava -se particularmente nos historiadores cujos trabalhos tratavam de culturas diferentes das suas e nos historiadores africanos que se propunham a escrever sobre a sia ou a Amrica Latina, nos europeus e nos norte -americanos que comeavam a interpretar a histria da frica ou da sia em proveito dos povos desses continentes, esforando -se para ultrapassar os preconceitos eurocentristas.

    No mbito desse esforo geral, o papel dos historiadores da frica na prpria frica e fora dela assumia particular importncia, provavelmente pelo fato de a histria africana ter sido mais negligenciada que a das regies no europeias equivalentes e porque os mitos racistas a desfiguraram ainda mais que a estas ltimas. Em razo de seu carter multiforme, o racismo , como se sabe, um dos flagelos mais difceis de extirpar. Teorizado sob diversas formas desde o sculo XVI, ele se encarnou na histria de modo agudo, chegando ao genocdio em certos perodos: trfico de negros, Segunda Guerra Mundial. Sobrevive ainda como um desafio monstruoso na frica do Sul e em outras regies, apesar dos trabalhos da UNESCO3 e de outras instituies para demonstrar sua natureza irracional. Mas a cura dos preconceitos demorada, pois o racismo se espalhou de forma difusa e imanente nos manuais escolares, nos filmes e programas de rdio e televiso facciosos, e na presena de dados psquicos mais ou menos conscientes trazidos s vezes pela educao religiosa e com mais frequncia ainda pela ignorncia e pelo obscurantismo. Nessa batalha, o ensino cientfico da histria dos povos constitui a arma estratgica decisiva. A partir do momento

    3 Cf. captulo 10, notas sobre Raas e histria na frica.

  • 41Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio histria em geral

    em que o racismo pseudocientfico ocidental do sculo XIX estabeleceu uma escala de valores levando em conta as diferenas fsicas, sendo a mais evidente dessas diferenas a cor da pele, os africanos situaram -se automaticamente na base dessa escala, por serem os que mais se diferenciavam dos europeus, que automaticamente outorgaram a si mesmos o nvel mais alto. Os racistas no cessavam de proclamar que a histria da frica no tinha importncia nem valor: os africanos no poderiam ser os autores de uma civilizao digna desse nome e por isso no havia entre eles nada de admirvel que no houvesse sido copiado de outros povos. assim que os africanos se tornaram objeto e jamais sujeito da histria. Eram considerados aptos a recolher as influncias estrangeiras sem dar em troca a mnima contribuio ao mundo.

    O racismo pseudocientfico exerceu sua influncia mxima no incio do sculo XX. Aps 1920, tal influncia declinou entre os especialistas em cincias sociais e naturais, e aps 1945, virtualmente desapareceu dos meios cientficos respeitveis. Mas a herana desse racismo perpetuou -se. Ao nvel dos conhecimentos do homem comum, o racismo alimentava -se de um recrudescimento das tenses sociais urbanas que coincidiam com o aparecimento, nas cidades ocidentais, de um nmero cada vez maior de imigrantes de origem africana ou asitica. Ele se apoiava na lembrana, ainda viva na populao, das lies aprendidas na escola; para os escolares de 1910 poca em que o racismo pseudocientfico constitua a doutrina oficial da biologia a hora da retirada s deveria soar aps 1960. Bem mais insidiosa ainda foi a sobrevivncia das concluses fundadas nas alegaes racistas, depois que estas perderam sentido. O postulado a histria da frica no oferece interesse porque os africanos so uma raa inferior tornou -se insustentvel, mas certos intelectuais ocidentais se recordavam vagamente de que a frica no tem passado, ainda que houvessem esquecido a razo.

    Sob esta ou outra forma, a herana do racismo no cessava de consolidar um chauvinismo cultural que considerava a civilizao ocidental como a nica verdadeira civilizao. No fim dos anos 60, sob o simples ttulo Civilizao, a BBC apresentou uma longa srie de programas consagrados exclusivamente herana cultural da Europa Ocidental. Sem dvida, de tempos em tempos outras sociedades eram consideradas civilizadas; mas em meados do sculo, o grau de alfabetizao determinava a linha de demarcao entre a civilizao e o resto. Em grande parte iletradas na poca pr -colonial, as sociedades africanas eram rebaixadas categoria de primitivas. No entanto, a maior parte da frica era, de fato, letrada, no sentido de que uma classe de escribas sabia ler e escrever mas no, certamente, no sentido de uma alfabetizao macia, que por toda parte havia sido um fenmeno ps -industrial. A Etipia possua sua antiga escrita em

  • 42 Metodologia e pr -histria da frica

    gueze. Toda a frica islmica a frica do Norte, o Saara, a franja setentrional da regio sudanesa, do Senegal ao Mar Vermelho, e as cidades costeiras da costa oriental at o estreito de Moambique havia utilizado a escrita rabe. Antes mesmo da poca colonial, o rabe havia penetrado aqui e ali na floresta tropical atravs dos mercadores diula, enquanto o portugus, o ingls e o francs escritos serviam normalmente como lnguas comerciais ao longo das costas ocidentais. Apesar disso, o chauvinismo cultural, acompanhado pela ignorncia, conduzia as autoridades ocidentais a estabelecerem no limite do deserto a demarcao entre a alfabetizao e o analfabetismo. Reforava -se assim a desastrosa tendncia em separar a histria da frica do Norte da histria do conjunto do continente.

    Entretanto, a excluso dos no civilizados do reino da histria era apenas uma das facetas de um elemento bem mais importante da tradio histrica ocidental. As prprias massas ocidentais eram atingidas por esta excluso, sem dvida no em vista de manifestas prevenes de classe, mas simplesmente em consequncia do carter didtico da histria, uma vez que a apologia dos homens clebres era capaz de propor modelos a serem imitados. No entanto, no por acaso que esses modelos eram em geral escolhidos entre os ricos e poderosos, enquanto que a histria se tornava o relato dos fatos e gestos de uma pequena elite. Os tipos de comportamento que afetavam o conjunto da sociedade eram minimizados ou ignorados. A histria das ideias no era a histria do que as pessoas pensavam: era a histria dos grandes desgnios. A histria econmica no era a histria da economia ou dos comportamentos econmicos: era a histria de determinadas polticas econmicas governamentais importantes, de certas firmas privadas, de determinadas inovaes na vida econmica. Se os historiadores europeus se desinteressaram to completamente por um amplo setor de sua prpria sociedade, como poderiam interessar -se por outras sociedades ou por outras culturas?

    At aqui, as duas tendncias revolucionrias que se manifestam no interior dos recentes estudos histricos seguiram cursos estreitamente paralelos simplesmente porque a histria eurocntrica e a histria das elites se alimentavam nas mesmas fontes. Lentamente, porm, ir estabelecer -se a aliana potencial entre os que trabalham para ampliar o campo de estudo da sociedade ocidental e os que se dedicam a dar um impulso maior s pesquisas histricas para alm do mundo ocidental. No incio, os dois grupos avanaram guardando certa distncia um do outro. A principal preocupao dos historiadores da frica era desmentir a afirmao segundo a qual a frica no possua passado ou s possua um passado sem interesse. No primeiro caso, o mais simples era, para usar uma expresso popular, pegar o touro a unha. Aos que pretendiam que o continente africano no possua nenhum passado, os especialistas da frica podiam opor a existncia de

  • 43Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio histria em geral

    reinados e de vastos imprios cuja histria poltica se assemelhava da Europa nos seus primrdios. As prevenes elitistas do pblico ocidental (como tambm do pblico africano educado moda ocidental) podiam servir de meio de ao para demonstrar, em ltima anlise, a importncia da histria africana. Tratava -se de um tmido incio. Era suficiente para resgatar os aspectos do passado da frica que se assemelhavam ao do Ocidente, sem ratificar os mal--entendidos suscitados pelas divergncias de cultura. Poucos historiadores estavam convencidos, at a, de que os imprios so em geral instituies duras e cruis, e no necessariamente um ndice de progresso poltico. Poucos se prontificavam a reconhecer, por exemplo, que uma das grandes realizaes da frica fora provavelmente a sociedade sem Estado, fundada mais sobre a cooperao do que sobre a opresso, e que o Estado africano se havia organizado de maneira a realmente apresentar autonomias locais.

    Essa tendncia a aceitar certas particularidades da historiografia clssica como primeiro passo para uma descolonizao da histria africana comumente encontrada no estudo do perodo colonial, nas reas onde j existia uma histria colonial oficial, que tendia a acentuar as atividades europeias e a ignorar a parte africana. Pior ainda, tal histria mostrava os africanos como brbaros pusilnimes ou desorientados. Seguia -se que da Europa tinham vindo seres superiores que haviam feito o que os prprios africanos no teriam condies de fazer. Mesmo no seu mais alto grau de objetividade, a histria colonial s outorgou aos africanos papis secundrios no palco da histria.

    Sem modificar em nada os papis, o primeiro esforo para corrigir essa interpretao limita -se a modificar os julgamentos de valor. De heris a servio da civilizao em marcha, os desbravadores, governadores das colnias, oficiais do exrcito, tornam -se cruis exploradores. O africano aparece como vtima inocente, a quem se atribuem apenas atitudes passivas. sempre a um punhado de europeus que a frica e sua histria devem o que so. (Sem dvida, os europeus desempenharam s vezes os principais papis durante o perodo colonial, mas todas as revises fundadas em novas pesquisas em nvel local permitem minimizar a influncia europeia tal como foi vista na histria colonial publicada antes de 1960).

    Um segundo passo em direo descolonizao da histria do perodo colonial se d paralelamente vaga de movimentos nacionalistas pela independncia. Eis que os africanos desempenham um papel na histria: necessrio traz -lo luz do dia. Os especialistas em cincia poltica que escreveram no perodo dos movimentos de independncia derrubaram as

  • 44 Metodologia e pr -histria da frica

    barreiras4. Pouco depois, sobretudo durante os anos 60, os estudiosos comearam a retroceder o tempo, buscando as razes da resistncia e dos movimentos de protesto no incio da poca colonial e, mais longe ainda, nas primeiras tentativas de resistncia ao jugo europeu5. Estes trabalhos sobre os movimentos de resistncia e de protesto constituem uma importante contribuio para corrigir os desvios da histria colonial, mas ainda estamos longe de considerar a histria da frica com objetividade.

    No ltimo estgio, a descolonizao da histria africana da poca colonial dever derivar de uma fuso da revolta contra o eurocentrismo e do movimento antielitista. A revoluo behaviorista j comeou a influenciar a historiografia africana. Trata -se de uma influncia ainda recente e limitada, restando muito a ser publicado. Certos historiadores, porm, comearam a buscar um mtodo comum interdisciplinar que lhes permita iniciar o estudo da histria da agricultura ou da urbanizao a fim de se utilizarem das outras cincias sociais. Outros comeam a se interessar por pequenas reas isoladas, na esperana de que tais estudos de microcosmos revelem a trama da evoluo de estruturas econmicas e sociais mais importantes e mais complexas6. A pesquisa modela arrojadamente seu caminho no domnio dos problemas peculiares histria econmica e religiosa, mas a verdadeira descolonizao da histria africana est apenas no incio.

    Os progressos da histria analtica que tambm a histria de campo baseada em investigaes e questes colocadas nos prprios locais de pesquisa, e no somente a consulta aos arquivos constituem um importante passo nessa direo. A independncia em relao aos arquivos se mostra to essencial para o perodo colonial quanto para o perodo pr -colonial, cuja documentao relativamente rara. O problema da histria colonial sempre foi que, ao contrrio do que se passou e se passa na Europa ou nos Estados Unidos, os arquivos foram criados e alimentados por estrangeiros. Os escritos incorporam necessariamente os preconceitos de seus autores, seus sentimentos sobre eles mesmos, sobre aqueles a quem governavam e sobre seus respectivos papis. o caso da histria da poltica interna da Europa ou dos Estados Unidos, na qual o preconceito apenas pr -governamental. No mundo colonial, o historiador corre o risco de chegar a resultados desastrosos, se negligenciar, por pouco que

    4 Consultar, por exemplo, HODGKIN, T. 1956; APTER, D. 1955; COLEMAN, J. S. 1958; JULIEN, C. A. 1952.

    5 Ver, por exemplo, SHEPPERSON, G. e PRICE, T. 1958; RANGER, Y. O. 1967; ILIFFE, J. 1969; ROTHBERG, R. e MAZRUI, A. A. 1970; PERSON, Y. 1968.

    6 Ver HILL, P. 1963.

  • 45Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio histria em geral

    seja, a possibilidade de levar em conta outro ponto de vista, que ele pode obter atravs de testemunhos orais de pessoas que viveram sob o domnio colonial.

    provvel que, no que se refere a tcnicas recentes, os historiadores da frica estejam atrasados em relao e outros colegas; no entanto, quanto utilizao das tradies orais da poca pr -colonial, mais ainda que da colonial, eles realizaram um trabalho pioneiro. Esse trabalho divide -se em dois perodos. Entre 1890 e 1914, uma gerao de administradores letrados, ento a servio das potncias coloniais, comeou a assegurar a conservao das tradies orais de importncia histrica. O segundo perodo remonta ao incio dos anos 60. O decnio 1950 -1960 terminou com a opinio formulada em 1959 por G. P. Murdock; segundo ele, era impossvel confiar nas tradies orais indgenas7. A dcada seguinte abriu -se com a publicao de Jan Vansina, Oral tradition. A study in historical methodology. Ela indicava quais os controles e as crticas necessrios para a utilizao cientfica das tradies orais. Os trabalhos histricos recentes, baseados na tradio oral, geralmente utilizada em conjunto com outras fontes de documentao, podem ser considerados um sucesso notvel8. O seminrio de Dacar organizado em 1961 pelo International African Institute sobre o tema O historiador na frica tropical e o de Dar -es -Salam, em 1965, sobre o tema Novas perspectivas sobre a histria africana acentuaram vigorosamente a necessidade de novos enfoques, sublinhando o papel insubstituvel da tradio oral como fonte da histria africana assim como todo o partido que o historiador pode tirar da lingustica e da arqueologia informada pela tradio oral.

    Graas a seus trabalhos sobre a poca pr -colonial, os historiadores da frica j influenciaram as outras cincias sociais. Tal influncia se faz sentir em diversos planos. Acima de tudo, foram eles que impuseram o reconhecimento do fato de que a frica tradicional no permaneceu esttica. Economistas, especialistas em cincias polticas, socilogos, todos tendem a estudar a modernizao referindo--se aos critrios antes e depois: antes, aplicado sociedade tradicional, considerada como virtualmente sem mudanas; depois, ao processo de modernizao, que implicou uma transformao dinmica da imagem anterior. Observadores da evoluo, os historiadores estavam espera das mudanas que no cessam de ocorrer nas sociedades humanas. Suas pesquisas dos ltimos

    7 MURDOCK, G. P. 1959, p. 43.8 Ver, por exemplo, VANSINA, J. 1973; KENT, R. K. 1970; COHEN, D. W. 1972; o estudo de E. J.

    ALAGOA, resumido em parte no seu captulo The Niger Delta States and their Neighbours, 1609--1900. In: History of West Africa, de J. F. A. AJAYI e M. CROWDER, 2 v. (Londres, 1971), I: 269 -303; A. ROBERTS, 1968. Nairbi; NIANE, D. T., 1960. Prsence Africaine.

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    decnios provaram que, na frica pr -colonial, instituies, costumes, modos de vida, religies e economias mudaram to rapidamente quanto em outras sociedades, entre as revolues agrcola e industrial. O ritmo no to rpido quanto o ritmo ps -industrial, que no deixa de afetar a frica de hoje, mas o imobilismo do passado tradicional no ocorreu em parte alguma.

    Foi aos antroplogos que a utilizao de uma base, de um ponto de partida tradicionais, colocou os problemas mais srios. Desde os anos 20, a maioria dos antroplogos de lngua inglesa trabalhou a partir de um modelo de sociedade que permite destacar o papel desempenhado por cada um dos elementos constitutivos para manter o conjunto das atividades do todo. Eles reconheciam que as sociedades africanas que puderam examinar haviam mudado muito desde o incio do regime colonial, fato que consideravam prejudicial a sua demonstrao. A seus olhos, era conveniente restabelecer o quadro, concentrando -se num nico perodo, tomado ao acaso no passado imediatamente anterior conquista europeia. Eles sustentavam que era possvel descobrir a natureza dessa sociedade tradicional destacando os dados das observaes atuais e abstraindo tudo o que se assemelhasse a influncia exterior. O resultado foi o presente antropolgico.

    Tal enfoque funcionalista deve muito a Bronislaw Malinowski, que dominou a antropologia britnica na segunda e na terceira dcada deste sculo. Ele contribuiu de modo significativo para a compreenso do funcionamento das sociedades primitivas, e os funcionalistas conseguiram outros importantes progressos graas a um mtodo que no se limitava ao questionamento de informantes, mas valia -se sobretudo da observao participante e da explorao cuidadosa e prolongada do local de pesquisa. No entanto, toda medalha tem seu reverso. Os antroplogos partiram em busca de sociedades primitivas, de ilhotas culturais, subvertendo as ideias ocidentais sobre a civilizao africana. Disto resultaram graves lacunas na documentao relativa s sociedades africanas maiores e mais complexas e, consequentemente, uma nova contribuio ao mito de uma frica primitiva. Seu esforo para abstrair o presente antropolgico do presente real contribuiu para reforar a convico de que na frica a mudana vinha obrigatoriamente do exterior, desde que suas hipteses pareciam negar qualquer evoluo s sociedades africanas at a chegada dos europeus. Seu esforo para imobilizar a sociedade -testemunha, a fim de descrever seu funcionamento bsico, os levou geralmente a esquecer que esta sociedade que, para fins de anlise, estavam tratando como esttica, no o era na realidade. Acima de tudo, tal esforo iria impedi -los de se interrogarem sobre as razes e os meios desta evoluo, o que acabaria por revelar um outro aspecto da sociedade examinada.

  • 47Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio histria em geral

    Sem dvida, o funcionalismo teria, apesar de tudo, seguido seu curso sem o impacto da disciplina histrica. Ele sofreu a influncia dos estudos sobre a aculturao dos anos 40 e 50, enquanto Claude Lvi -Strauss e seus discpulos tomavam uma outra direo nos decnios do ps -guerra. No que se refere antropologia poltica e a certos aspectos da antropologia social, porm, os trabalhos dos historiadores do perodo pr -colonial aclararam a dinmica da evoluo e contriburam para dar um novo impulso antropologia.

    O estudo das religies e das organizaes religiosas africanas modificou -se sob a influncia das recentes pesquisas histricas. Os primeiros pesquisadores da religio africana eram, em sua maioria, ou antroplogos em busca de um conjunto esttico de crenas e prticas, ou missionrios que aceitavam o conceito de um presente antropolgico ao estudar as religies que esperavam suplantar. Eles reconheciam o dinamismo inegvel do Isl, cuja difuso durante o perodo colonial foi ainda mais rpida que a do cristianismo. Todavia, os estudos mais importantes sobre o Isl foram patrocinados pelo governo francs, na frica do norte e na frica ocidental, com o objetivo de pr em xeque uma eventual dissidncia. O tema desses estudos era menos a evoluo no interior da religio que as organizaes religiosas e seus chefes. Nas ltimas dcadas, diversos fatores e no apenas o trabalho dos historiadores contriburam para dar um novo impulso ao estudo da evoluo religiosa. Os especialistas das misses se interessaram pelo progresso das novas religies africanas, fundadas sobre bases parcialmente crists, assim como pelas igrejas independentes que se desligavam das misses europeias. Os antroplogos apaixonados pela aculturao voltavam--se para trabalhos similares e, curiosos acima de tudo sobre o papel da religio nas rebelies coloniais e nos movimentos de protesto, os historiadores traziam tambm uma contribuio positiva. Com referncia ao perodo pr -colonial, eles foram levados a reconhecer igualmente a importncia evidente e capital da reforma religiosa no conjunto do mundo islmico. Disso resultou uma tomada de conscincia mais aguda da evoluo das religies no crists e no muulmanas, embora os especialistas das diversas cincias sociais tenham apenas comeado a estudar as particularidades dessa evoluo to sistematicamente como elas o merecem. Desse ponto de vista, deve -se destacar o interesse recente pelas religies animistas, bem como por suas associaes, frequentemente secretas, que tm um papel histrico muitas vezes admirvel.

    Enquanto que, para os especialistas das diversas cincias sociais, parece possvel estudar em conjunto e eficientemente a religio africana, atravs de uma ampla troca de ideias e de mtodos, os trabalhos sobre as economias africanas permanecem totalmente isolados. Da mesma forma que os historiadores da

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    religio, os especialistas em economia demonstraram, nos ltimos anos, que os diferentes tipos de economia no paravam de evoluir e que essa evoluo respondia tanto a estmulos de ordem interna quanto a influncias de ultramar. No entanto, os economistas, particularmente os especialistas em desenvolvimento econmico, prosseguem seus trabalhos sem considerar a cultura econmica que tentam dominar. No s tendem a ignorar o mecanismo da evoluo em curso, mas muitos deles do pouca ateno aos modelos estticos dos antroplogos economistas.

    Assim, por exemplo, para justificar a teoria do desenvolvimento econmico, convinha assegurar ser a frica, em grande medida, formada por economias de subsistncia, nas quais cada unidade familiar produz a quase totalidade dos bens e servios de que necessita. Esse ponto de vista foi defendido principalmente por Hla Myint em meados da dcada de 60, ao mesmo tempo que a teoria do desenvolvimento econmico vent for surplus, baseada na liberao dos recursos e dos meios de produo insuficientemente empregados9. Na realidade, nenhuma comunidade da frica pr -colonial supria inteiramente suas prprias necessidades sem se dedicar a algum comrcio; e eram numerosas as sociedades africanas que possuam complexas redes de produo e exportao dirigidas s necessidades de seus vizinhos. Na orla do Saara, numerosas tribos pastoris obtinham a metade, se no mais, de seu consumo anual de calorias, trocando os produtos de sua criao por cereais. Outras produziam e vendiam regularmente os excedentes agrcolas, o que lhes permitia adquirir certos gneros exticos sal, gado, manteiga de Galam, noz de cola, tmaras. O erro que se dissimula sob o quadro de uma economia africana esttica , se bem entendido, o mito eterno da frica primitiva, erro reforado pela tendncia dos antroplogos em escolher as comunidades mais simples e sua antiga propenso a abstrair o tempo em suas concepes.

    Os economistas e antroplogos que estudaram a economia africana in loco ressaltaram, evidentemente, a importncia do comrcio na frica pr -colonial. Alguns notaram que as economias africanas evoluram rapidamente antes da chegada macia dos europeus. Todavia, distanciando -se da linha de pensamento ortodoxo, um grupo sublinhou mais as diferenas que as semelhanas entre as culturas econmicas. Os membros desse grupo s vezes denominados substantivistas, em razo de sua insistncia em estudar a natureza substantiva da produo e do consumo e tambm de seu esforo para relacionar a forma como o homem satisfaz suas necessidades materiais ao quadro mais amplo de

    9 MYINT, H. 1964

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    uma sociedade particular, e no a uma teoria oficial tentaram provar que a teoria econmica no aplicvel ao domnio de suas pesquisas10. Como resultado, estabeleceu -se um verdadeiro abismo entre os economistas do desenvolvimento, que, trabalhando sob a inspirao de teorias macroeconmicas, prestam pouca ateno s realidades econmicas do momento, e os substantivistas, que desprezam as teorias contrrias. At agora, os especialistas em histria da economia no preencheram o abismo, assim como no exerceram sobre as ideias relativas frica uma influncia comparvel que os historiadores tiveram sobre a antropologia ou sobre o estudo das religies.

    A histria africana caminhou a largos passos, especialmente ns ltimos anos, para lanar mtodos novos e cobrir zonas no suficientemente exploradas. Mas ela no tirou proveito suficiente dos novos caminhos abertos em outros lugares. Ela no respondeu to rapidamente quanto outras disciplinas ao desafio da revoluo behaviorista, nem aproveitou as possibilidades admirveis da histria quantitativa, tanto em matria poltica quanto no domnio da econometria.

    No curso das exploraes sobre o passado da frica, realizadas com impulso cada vez maior, a irradiao da nova histria africana foi obra de um grupo de historiadores profissionais que fizeram dessa histria o objeto principal de seu ensino e de seus escritos. Se, no mundo ocidental, o conhecimento da histria da frica foi to menosprezado, mesmo em relao historiografia da sia ou da Amrica Latina, porque era obra de historiadores amadores, pessoas que tinham outras atividades profissionais, mas no uma posio estabelecida no mundo universitrio, e que portanto no tinham possibilidade de influenciar os meios historiogrficos em nenhum pas ocidental. Alguns trabalhos de pesquisa sobre a frica eram realizados nos institutos da Escandinvia ou da Europa central e oriental, desde antes da Segunda Guerra Mundial. Mas eles permaneciam marginais no programa geral do ensino superior e, desse modo, no contribuam para a formao de historiadores. As nicas excees so representadas pela egiptologia e por certos aspectos do passado da frica do norte na poca romana. Para o restante, antes de 1950 contam -se poucos profissionais entre os historiadores da frica. H administradores coloniais e missionrios; h tambm clrigos e religiosos africanos, que empregam uma das lnguas internacionais Carl Christian Reindorf, da Costa do Ouro; Samuel Johnson, para os Ioruba; ou o xeque Moussa Kamara, do Senegal, cujo Zuhur ul Basatin fi Tarikh is Sawadin no est ainda inteiramente publicado e apenas comea a ser

    10 Para um resumo apropriado da posio, ver DALTON, G. 1968.

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    consultado por outros historiadores11. Certos antroplogos voltaram -se tambm para temas histricos; mas na frica, antes de 1950, nenhuma universidade propunha ainda um programa satisfatrio de especializao em histria africana em nvel de graduao. Em 1950, no houve nenhum historiador profissional que se dedicasse exclusivamente a escrever a histria africana e a ensin -la. Vinte anos depois, cerca de quinhentos historiadores com doutorado ou qualificao equivalente elegeram a histria da frica como atividade principal.

    A rapidez com que essa evoluo ocorreu surpreendente. Retrospectivamente, ela pode ser muito bem explicada. Na frica, na Europa, na Amrica do Norte e em cada continente por diferentes razes a conjuntura poltica, intelectual e universitria revelou -se particularmente favorvel ao aparecimento de uma pliade de historiadores profissionais cujo trabalho se orientava para a frica. Nesse continente, a partir do fim dos anos 40, a necessidade era maior medida que se podia prever um movimento cada vez mais acelerado em direo independncia, ao menos para a maior parte da frica do norte e do oeste. Depois de 1950, a fundao de novas universidades criava a necessidade de uma histria renovada da frica, considerada de um ponto de vista africano em princpio ao nvel da universidade e, passando pelos estabelecimentos de formao pedaggica, atingindo a escola em geral. Entre os pioneiros desse enorme esforo de reeducao, devemos citar K. Onwuka Dike, o primeiro de uma nova gerao de historiadores africanos a ultrapassar as etapas de uma formao pedaggica normal feita na Universidade de Londres. Historiadores estrangeiros aderem ao movimento: J. D. Fage, da Universidade de Gana (Costa do Ouro, na poca); J. D. Hargreaves, de Forah Bay, em Serra Leoa; Christopher Wrigley e Cyril Ehrlich, no Makerere College.

    Na frica de fala francesa delineou -se progressivamente um movimento paralelo. Nos antigos territrios franceses, as universidades continuaram, muito tempo depois da Independncia dos respectivos pases, a depender do sistema francs. Em consequncia, conservaram as tradies histricas francesas. Todavia, alguns pioneiros se orientavam para uma histria da frica. Neste sentido, notveis contribuies foram oferecidas por Amadou Mahtar MBow, no Senegal; por Joseph Ki -Zerbo, no Alto Volta; pelo padre Engelbert Mveng, em Camares. Desde o incio dos anos 50, os historiadores vindos do exterior e estabelecidos na frica de lngua francesa, que teriam um papel dominante nas universidades, dedicaram -se pesquisa. Desde ento, Jan Vansina, que iria contribuir para o ensino da histria africana na universidade de Lovanium,

    11 JOHNSON, S. 1921; REINDORF, C. 1899; KAMARA, M. 1970.

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    trabalhava nas instituies de pesquisa do governo belga no Congo e em Ruanda. No IFAN*, em Dacar, Raymond Mauny, futuro professor de histria africana na Sorbonne, dedicava -se pesquisa sobre a frica ocidental. Yves Person, ainda administrador colonial, comeava as investigaes que originariam em 1968 sua tese sobre Samori e lhe permitiriam contribuir para a introduo da histria da frica nas universidades de Abidjan e Dacar. Presena Africana, atravs de sua revista e dos dois grandes congressos de Escritores e Artistas Negros, realizados em Paris e Roma em 1956 e 1959, impulsionava vigorosamente tal processo.

    Todas essas atividades caminhavam simultaneamente ao desenvolvimento, na prpria frica, de estudos histricos africanos. Neste reencontro da histria da frica com a histria do mundo, o momento capital aquele em que progride nos outros continentes o estudo da histria africana progressos paralelos no tempo aos da histria da frica nas universidades africanas. Em 1950, Roland Oliver comeou a ensinar histria africana na escola de estudos orientais e africanos da Universidade de Londres. Na Unio Sovitica, D. A. Olderogge e seus colegas do Instituto Etnogrfico de Leningrado inauguravam um programa sistemtico de pesquisas que culminou, algum tempo depois, com a publicao de toda a documentao conhecida sobre a frica subsaariana do sculo XI em diante, nas lnguas da Europa oriental, com traduo e notas em russo12. Durante esse mesmo decnio, foi criada na Sorbonne a primeira cadeira de Histria Africana; logo havia duas, a do antigo governador das colnias, Hubert Deschamps, e a de Raymond Mauny. Por seu lado, Henri Brunschwig assumia a direo das pesquisas sobre a histria africana na Ecole Pratique des Hautes Etudes, enquanto Robert Cornevin publicava a primeira edio de seu resumo da Histria da frica, vrias vezes revista e completada desde ento.

    Para alm da Europa e da frica, os progressos eram mais lentos; na prpria Europa, a histria africana s foi admitida inicialmente nos cursos universitrios dos pases colonizadores. Nas Amricas, onde uma grande parte da populao de origem africana, poderamos esperar manifestaes de interesse. No entanto, por mais importantes que fossem os vestgios culturais africanos, nem o Brasil nem as Carabas deram a ateno merecida ao assunto. No Haiti, alguns intelectuais demonstraram solicitude com relao cultura local baseada num africanismo datado dos primeiros trabalhos do Doutor Price -Mars (1920). Em Cuba, sentia--se forte influncia da cultura afro -cubana entre certas personalidades do mundo

    * Institut Fondamental dAfrique Noire (N. do T.).

    12 KUBBEL, L. E. e MATVEEV, V. V. 1960 e 1965.

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    das letras, entre outras, Nicolas Guillen. Todavia, tal como no Brasil, a simpatia manifestada pela cultura afro -americana no suscitou interesse pela frica nem por sua histria. Nas Antilhas britnicas, a descolonizao, inclusive a descolonizao da histria local, beneficiou -se de maior prioridade; no entanto, mesmo depois de 1960, o pan -africanismo poltico no teve ressonncia histrica entre os intelectuais das Antilhas.

    O interesse era ainda menor nos Estados Unidos antes de 1960; o pouco que existia estava concentrado sobre a frica do norte. De acordo com uma pesquisa recente, foram apresentadas at 1960, inclusive, 74 teses de doutorado relativas histria africana. Trata -se de um nmero surpreendente, mas enganador. A maioria dessas teses refere -se frica do norte e obra de historiadores especializados em histria ou arqueologia clssicas, na histria da frica do norte e do Oriente Mdio, ou ainda o mais frequente na colonizao ultramarina europeia. S o acaso, ou quase, permitiu que os temas de tese se referissem frica. Dos que haviam escolhido como tema a histria colonial, poucos se tornaram verdadeiros especialistas em frica. Entre os pioneiros, encontra -se Harry R. Rudin, em Yale. Desde os anos 30, ele havia publicado ensaios sobre a histria da colonizao alem na frica; depois de 1950, seu interesse pela frica no parou de crescer. Os afro -americanos formavam um grupo ainda mais importante. W. E. B. Dubois interessara -se pela frica desde o incio de sua carreira, embora s tenha podido dedicar -se a esse estudo quando se aposentou e emigrou para Gana. Bem antes dele, em 1916, Carter G. Woodson havia fundado The Journal of Negro History. Na verdade a publicao era mais afro -americana do que africana, mas a histria africana figurava oficialmente na sua ptica, e podiam -se encontrar nele, de tempos em tempos, artigos sobre o passado da frica. Entretanto, o verdadeiro apstolo da histria da frica foi William Lo Hansberry, da Universidade de Howard, que desenvolveu uma campanha solitria pela incluso da histria da frica no programa de ensino das universidades americanas e estando ainda em vigor a segregao especialmente dos colgios com grande maioria negra nos Estados do sul.

    Assim, em graus diversos, as condies que assegurariam a difuso da histria africana fora da frica existiam antes de 1960. Prxima a esta data, a conquista da independncia na frica do norte e na frica tropical assegurou, no resto do mundo, um renovado interesse pelo continente, alm de ter suscitado a curiosidade popular curiosidade voltada mais para o passado que para o presente ou o futuro da frica. Entretanto, em vrios lugares os progressos da histria africana eram decepcionantes. Apesar da importncia poltica dada unidade africana, era imperceptvel o avano das universidades e dos estudantes

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    da frica do norte em direo a uma concepo mais continental do estudo de seu prprio passado. O Magreb aderia fortemente ao mundo mediterrneo, ao mundo muulmano, ao mundo intelectual de lngua francesa, cujo centro ainda era Paris. Esses trs mundos eram suficientes para mobilizar toda a ateno do pblico letrado. Diversas vezes, os porta -vozes oficiais egpcios ressaltaram ser o Egito to africano quanto rabe e muulmano, mas os estudos histricos no Egito eram frutos sobretudo do esprito de parquia, enquanto a barragem de Assu e os trabalhos das equipes arqueolgicas internacionais na Nbia chamavam a ateno para o Nilo Superior.

    Esprito de parquia era tambm e mais ainda a caracterstica dos estudos histricos na frica do Sul. O controle poltico exercido pela populao de origem europeia na Repblica da frica do Sul no diminua. Nas universidades, a histria africana passava mais ou menos despercebida: a histria era a da Europa e da minoria europeia da frica do Sul. Com The Oxford History of South Africa (1969 -1971) a ptica se ampliou a ponto de incluir a maioria africana, mas um dos autores, o historiador Leonard Thompson, no lecionava mais na frica do Sul; e ainda que apaixonada pela histria, a outra, Monica Wilson, era uma antroploga. Em Zimbabwe, por volta de 1960, havia a tendncia incluso de um apanhado geral da histria africana nos estudos de histria, mas a declarao unilateral de independncia da minoria branca em relao Gr--Bretanha alteraria o curso das coisas. Fato curioso, Zimbabwe produziu uma porcentagem mais elevada de estudantes de histria da frica do que a frica do Sul. No entanto, a maioria teve de prosseguir o exerccio de sua profisso no exlio.

    A frica tropical foi o primeiro centro de estudo da histria da frica no continente africano e l se realizaram os progressos mais notveis na primeira dcada aps a Independncia. A histria africana j fazia parte do programa de ensino das universidades dessa regio, mas tratava -se agora de encontrar um equilbrio apropriado entre a histria local, regional, africana e mundial. Resumindo, tratava -se de descolonizar o conjunto do programa de histria e no apenas de lhe adicionar um componente africano. Foi na frica de lngua inglesa que ocorreram as maiores mudanas: as rgidas normas institudas pelos europeus abrandaram -se mais rapidamente nesses pases que nos de lngua francesa. O ensino da histria da Gr -Bretanha e de seu imprio cedeu lugar a outros temas: a histria do Imprio Britnico tendeu a desaparecer completamente e a da Gr -Bretanha a se fundir com a da Europa. No que se refere ao ensino da histria da Europa, a nova corrente que se esboou tendeu a subordinar as diferentes histrias nacionais ao estudo dos grandes temas que transcendem as fronteiras, como a urbanizao ou a

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    Revoluo Industrial. Ao mesmo tempo, os historiadores comearam a se interessar tambm pela histria de outras regies a do mundo islmico ao norte, insistindo particularmente na sua influncia ao sul do Saara; a da Amrica Latina ou do Sudeste Asitico, porque elas poderiam recuperar certos aspectos da experincia africana; a do Leste Asitico, onde o crescimento econmico do Japo constitua um exemplo do qual a frica poderia tirar ensinamentos. O impacto da histria africana proporcionou assim uma reorientao geral, no sentido de uma concepo do mundo e de seu passado, verdadeiramente afrocntrica sem se interessar exclusivamente pela frica e pelos africanos, como a velha tradio europeia se interessava apenas pelos europeus, mas no quadro de uma Weltanschauung da qual a frica, e no a Europa, constitui o ponto de partida.

    Esse objetivo no foi ainda completamente atingido, mesmo nas mais avanadas universidades de lngua inglesa. Ser necessrio um certo tempo para formar uma gerao de historiadores africanos inovadores que explorem novos caminhos, escolhidos por eles mesmos. As universidades de lngua francesa esto um decnio atrasadas: em Abidjan, Dacar e Lubumbashi (herdeira de Lovanium no domnio da histria), as mais antigas universidades de lngua francesa, s a partir do incio da dcada de 70 que o corpo de professores de histria passou a ser composto majoritariamente por africanos, ao passo que essa evoluo havia ocorrido desde o incio dos anos 60 nas mais antigas universidades de lngua inglesa. Agora que os historiadores africanos possuem seu lugar nas universidades de lngua francesa, pode -se prever um reajustamento semelhante das concepes da histria mundial. Mas j a partir de 1963 se realizou a reforma dos programas de histria nas escolas secundrias dos pases de lngua francesa. Ela seria imediatamente seguida pela reforma dos programas dos estudos histricos universitrios, de acordo com o programa do CAMES (Conselho Africano e Malgaxe para o Ensino Superior).

    O impacto da histria africana sobre a pesquisa e o ensino de histria na Europa ocidental est ligado antiga relao colonial. Essa uma das razes pelas quais a Frana e a Inglaterra constituram os principais centros europeus de estudo da histria africana.

    Todavia, tambm em outros lugares se registraram progressos no ensino da histria africana, em particular na Tchecoslovquia e na Polnia, assim como na Unio Sovitica, onde ela sistematicamente ensinada na Universidade Patrice Lumumba, de Moscou, cuja misso especfica consiste em formar estudantes africanos. Em outros lugares, especialistas solitrios prosseguem pesquisas em diferentes centros universitrios, sendo que isso ocorre de forma mais sistemtica nos institutos de pesquisa que seguem a tradio alem de organizao universitria. Os pesquisadores que se dedicam frica esto,

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    portanto, um pouco isolados, o que poderia contribuir para explicar por que os estudos histricos continuam a no ceder nenhum lugar frica em numerosas universidades europeias, exceto na Inglaterra e na Frana.

    Tambm nestes pases a tradio geral dos estudos histricos se inspira num esprito de campanrio, mas a formao de administradores coloniais teve a um peso particular. A partir de 1955 aproximadamente, comeou o processo de repatriao desses administradores, e muitos deles iniciaram uma nova carreira de historiadores dos pases onde haviam exercido suas funes. Esse foi o caso da Frana, principalmente, como demonstra o exemplo dos professores Deschamps e Person. Para esse pas, assim como para a Inglaterra, a criao e o crescimento de novas universidades africanas, que datam dos anos 50, abriram a possibilidade de empregos na frica. Jovens historiadores escolheram temas africanos para sua aprendizagem de pesquisa ou comearam a se interessar pela histria africana quando foram lecionar na frica. Em seguida, nos anos 60 e 70, esses historiadores estrangeiros foram progressivamente substitudos por africanos e voltaram a lecionar na ex -metrpole, muitas vezes depois de terem passado oito ou dez anos na frica. Nem todos voltaram a ensinar a histria africana, mas o nmero total dos que o fizeram significativo. O nmero dos historiadores vindos das universidades africanas que entraram nas universidades britnicas entre 1965 e 1975 situa -se provavelmente entre sessenta e setenta, o que representa em torno de 8 a 10% dos historiadores que passaram a trabalhar nas universidades britnicas nesse perodo. Em 1974, trs cadeiras de Histria Moderna (expresso que designava tradicionalmente a histria da Gr -Bretanha moderna) estavam ocupadas por historiadores cujos principais trabalhos de pesquisa tinham sido dedicados frica. ainda muito cedo para determinar a influncia que tal retorno da frica ter sobre as tradies histricas britnicas em geral, mas provavelmente ser considervel.

    Na Frana, observa -se um fenmeno semelhante, ainda que os nmeros correspondentes sejam um pouco mais baixos e que os professores vindos da frica constituam uma porcentagem menor do recrutamento para o ensino universitrio. Uma nova gerao de historiadores comeou a se interessar pela frica. Em Paris, tanto nas diferentes universidades quanto no Centro de Estudos Africanos, que interuniversitrio, um certo nmero de especialistas em histria, sociologia e arqueologia trabalharam muito tempo nas universidades africanas, com as quais continuam mantendo estreitas relaes. A situao semelhante em Aix, Bordeaux e Lyon. Paralelamente, as universidades britnicas e francesas asseguraram a formao de historiadores africanos encarregados de substituir os

  • 56 Metodologia e pr -histria da frica

    estrangeiros que voltavam para a Europa13. Nesse sentido, instituies como a School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres e seces esparsas da Sorbonne e das grandes escolas em Paris, tiveram um papel especial. Na SOAS, por exemplo, 58% dos que obtiveram doutorado entre 1963 e 1973 comearam lecionando na frica; menos de 20% do total eram britnicos e somente 13% tiveram seu primeiro cargo numa universidade britnica14. Isso diminuiu em parte o impacto direto da SOAS instituio que congrega o mais importante grupo de historiadores da frica j reunido no mundo por uma universidade sobre a educao britnica. Sua influncia indireta, porm, foi considervel. Alm da SOAS, as universidades de Birminghan, Sussex e Edimburgo reservaram entre seus programas um papel especial histria africana; e pelo menos outras oito dispem de um especialista em histria africana que leciona regularmente essa matria a estudantes de graduao.

    Esse nvel particular de desenvolvimento na Gr -Bretanha talvez fosse previsvel, levando em conta os interesses colonialistas e neocolonialistas deste pas em relao s estruturas universitrias africanas. Em compensao, o enorme crescimento da pesquisa sobre a histria da frica na Amrica do Norte durante os anos 60 era completamente inesperado, j que os historiadores dos Estados Unidos pareciam no tratar equitativamente nem a histria dos afro -americanos de sua prpria sociedade. A numerosa minoria de descendentes de africanos presente nos Estados Unidos desde suas origens no havia suscitado um interesse notvel pela frica, mesmo entre a maior parte dos afro -americanos. De resto, o impulso repentino dos estudos sobre a histria africana pode ser observado tanto no Canad como nos Estados Unidos, embora o Canad no tenha governado uma parte da frica, como a Gr -Bretanha, nem conte entre seus habitantes com uma minoria afro -americana importante, como ocorre com os Estados Unidos.

    Antes de 1960, a histria da frica mal era ensinada na Amrica do Norte. Em torno de 1959, pouco depois de sua fundao, o African Studies Association s contava com 21 membros, residentes nos Estados Unidos ou no Canad, que poderiam ser considerados historiadores. Entre esses, menos da metade ocupava cargos universitrios que os obrigassem a consagrar o tempo disponvel histria da frica. Por outro lado, o Primeiro Congresso Internacional de Africanistas

    13 Agradeo ao professor J. F. Ade AJAYI, da Universidade de Lagos, e aos professores J. D. FAGE e Roland OLIVER, pelas informaes que me forneceram a respeito do impacto da histria africana sobre a histria em geral na Europa e na frica, respectivamente. No entanto, deve ser atribudo a mim qualquer erro fatual ou de avaliao que este texto porventura apresente.

    14 OLIVER, R. African Studies in London, 1963 -1973. (Comunicao no publicada distribuda no Terceiro Congresso Internacional de Africanistas, Adis Abeba, dezembro de 1973).

  • 57Tendncias recentes das pesquisas histricas africanas e contribuio histria em geral

    reuniu em Acra, em 1962, cerca de oitocentos participantes, diante dos quais o presidente Kwame Nkrumah, no discurso inaugural, descreveu em linhas gerais as responsabilidades da disciplina histrica para com a nova frica. A partir da deu -se a avalanche. Em 1970, o nmero de norte -americanos especializados em histria ou arqueologia africanas aproximava -se de 350. Alguns eram historiadores que haviam iniciado sua carreira numa outra disciplina qualquer, antes de mudar de opinio; a maioria, porm, era constituda por jovens estudantes que acabavam de sair do secundrio. Entre 1960 e 1972, as escolas americanas forneceram mais de 300 doutores PhD em histria africana. Entre eles, h jovens africanos que pretendem retornar. Alguns so europeus, mas a grande maioria formada por norte -americanos. A proporo de afro e euro -americanos igual desses grupos no conjunto da populao: cerca de 10% nos Estados Unidos e bem menos no Canad.

    Dessa forma, no quadro dos estudos histricos, duas tendncias contraditrias impulsionaram a difuso da histria da frica na Amrica do Norte. Das ideias da comunidade afro -americana nasceu a slida convico de que a frica era propriedade dos povos africanos e de seus descendentes estabelecidos em outros continentes, exatamente como na Europa as histrias nacionais tinham -se tornado propriedade de cada nao europeia. Nesse sentido, a diferena implcita entre os objetivos da histria da frica para os africanos e da histria da frica no contexto da histria mundial se manifestava com clareza. Diferena, porm, no significa conflito. As duas histrias no so incompatveis, ainda que tenham optado por acentuar diferentes aspectos do passado.

    Em consequncia disso, a tendncia ao etnocentrismo em histria foi mais seriamente abalada na Amrica do Norte do que em outros lugares. Em inmeras escolas, a velha histria do mundo, que no passava na realidade de uma histria da civilizao ocidental, deu lugar nos anos 60 a novas tendncias mais autnticas de situar a histria numa perspectiva mundial, em que a frica foi colocada em relao de igualdade com outras grandes zonas culturais, como o sul ou o leste da sia. Numerosos departamentos de histria de universidades norte -americanas comearam a passar da antiga diviso entre histria americana e europeia a uma diviso da histria em trs ramificaes, sendo que a terceira a do Terceiro Mundo se tornava igual s duas outras.

    Essa evoluo ainda no est terminada, mas, paralelamente difuso da histria africana na Gr -Bretanha e na Frana e reorientao do programa de ensino de histria nas universidades africanas, ela marca uma etapa no caminho que assegurar histria africana seu pleno impacto sobre a histria em geral. A longo prazo, o xito depender dos esforos conjuntos de especialistas africanos ao escreverem a histria de suas prprias sociedades, dos de historiadores no

  • 58 Metodologia e pr -histria da frica

    africanos que interpretam a histria africana para outras sociedades e de uma ampliao das cincias sociais internacionais at o ponto em que os especialistas em outras disciplinas sejam obrigados a levar em considerao os dados africanos antes de arriscarem qualquer generalizao sobre a vida das sociedades humanas.

  • C A P T U L O 4

    59Fontes e tcnicas especficas da histria da frica Panorama Geral

    As regras gerais da crtica histrica, que fazem da histria uma tcnica do documento, e o esprito histrico, que pede o estudo da sociedade humana em sua caminhada atravs dos tempos, so aquisies fundamentais utilizveis por todos os historiadores, em qualquer pas. O esquecimento desse postulado manteve durante muito tempo os povos africanos fora do campo dos historiadores ocidentais, para quem a Europa era, em si mesma, toda a histria. Na realidade, o que estava subjacente e no se manifestava claramente, era a crena persistente na inexistncia de uma histria na frica, dada a ausncia de textos e de uma arqueologia monumental.

    Portanto, parece claro que o primeiro trabalho histrico se confunde com o estabelecimento de fontes. Essa tarefa est ligada a um problema terico essencial, ou seja, o exame dos procedimentos tcnicos do trabalho histrico.

    Sustentados por uma nova e profunda necessidade de conhecer e compreender ligada ao advento da era ps -colonial, os pesquisadores fundaram definitivamente a histria africana, embora a construo de uma metodologia histrica ainda prossiga. Setores imensos de documentao foram revelados, permitindo aos pesquisadores formularem novas questes. Quanto mais os fundamentos da histria africana se tornam conhecidos, mais essa histria se diversifica e se constri de diferentes formas, de modo inesperado. H cerca de quinze anos produziu -se uma profunda transformao dos instrumentos de trabalho e hoje

    Fontes e tcnicas especficas da histria da frica Panorama Geral

    T. Obenga

  • 60 Metodologia e pr -histria da frica

    se admite de bom grado a existncia de fontes utilizadas mais particularmente para a histria africana: geologia e paleontologia, pr -histria e arqueologia, paleobotnica, palinologia, medidas de radiatividade de istopos capazes de fornecer dados cronolgicos absolutos, geografia fsica, observao e anlise etno -sociolgicas, tradio oral, lingustica histrica ou comparada, documentos escritos europeus, rabes, hindus e chineses, documentos econmicos ou demogrficos que podem ser processados eletronicamente.

    A variedade das fontes da histria africana permanece extraordinria. Dessa forma, devem -se buscar de forma sistemtica novas relaes intelectuais que estabeleam ligaes imprevistas entre setores anteriormente distintos. A utilizao cruzada de fontes aparece como uma inovao qualitativa. Uma certa profundidade temporal s pode ser assegurada pela interveno simultnea de diversos tipos de fontes, pois um fato isolado permanece, por assim dizer, margem do movimento de conjunto. A integrao global dos mtodos e o cruzamento das fontes constituem desde j uma eficaz contribuio da frica cincia e mesmo conscincia historiogrfica contempornea.

    A curiosidade do historiador deve seguir vrias trajetrias ao mesmo tempo. Seu trabalho no se limita a estabelecer fontes. Trata -se de se apropriar, atravs de uma slida cultura pluridimensional, do passado humano. Porque a histria uma viso do homem atual sobre a totalidade dos tempos.

    A maioria dessas fontes e tcnicas especficas da histria africana extradas das cincias matemticas, da fsica dos tomos, da geologia, das cincias naturais, das cincias humanas e sociais, esto amplamente descritas no presente volume. Desse modo, insistiremos aqui nos aspectos e problemas no desenvolvidos em outras partes.

    Sem dvida, o fato metodolgico mais decisivo desses ltimos anos foi a interveno das cincias fsicas modernas no estudo do passado humano, com as medidas de radiatividade dos istopos, que asseguram a apreenso cronolgica do passado at os primeiros tempos do aparecimento do Homo sapiens (teste do carbono 14) e das pocas anteriores a 1 milho de anos (mtodo do potssio -argnio).

    Atualmente, esses mtodos de datao absoluta abreviam de modo considervel as discusses no campo da paleontologia humana e da pr histria1. Na frica, os homindeos mais antigos datam de -5.300.000 anos pelo mtodo K/Ar. Essa a idade de um fragmento de maxilar inferior com um molar intacto de um

    1 BIRDSELL, J. B. 1972, p. 299.

  • 61Fontes e tcnicas especficas da histria da frica Panorama Geral

    homindeo encontrado pelo professor Bryan Patterson, em 1971, em Lothagam no Qunia. Por outro lado, os dentes de homindeos encontrados nas camadas villafranchianas do vale do Omo, na Etipia meridional, pelas equipes francesas (Camille Arambourg, Yves Coppens) e americana (F. Clark -Howell) tm 2 a 4 milhes de anos. O nvel do Zinjanthropus (nvel I) do clebre depsito de Olduvai, na Tanznia, data de 1.750.000 anos, sempre atravs do mtodo do potssio -argnio.

    Assim, graas ao istopo potssio -argnio, a gnese humana do leste africano, a mais antiga de todas no estgio atual dos conhecimentos, constitui a gnese humana propriamente dita, tanto mais que o monofiletismo uma tese cada vez mais amplamente admitida hoje na paleontologia geral. Em consequncia, os restos fsseis africanos conhecidos atualmente fornecem elementos decisivos para responder a esta questo primordial das origens humanas, colocada de mil maneiras ao longo da histria da humanidade: Onde nasceu o homem? H quanto tempo?.

    As velhas ideias estereotipadas, que colocavam a frica praticamente margem do Imprio de Clio, esto agora completamente modificadas. Os fatos, postos em evidncia atravs de vrias fontes e mtodos desde a paleontologia humana at a fsica nuclear mostram claramente, ao contrrio, toda a profundidade da histria africana, cujas origens se confundem precisamente com as prprias origens da humanidade.

    As informaes obtidas de outras fontes as cincias da Terra, por exemplo iluminam igualmente a histria da frica, independentemente de qualquer documento escrito. A vida e a histria da populao da bacia lacustre do Chade, por exemplo, seriam dificilmente compreensveis sem a interveno da geografia fsica. conveniente ressaltar o valor metodolgico desse enfoque.

    Com efeito, a vida e os homens no se distribuem ao acaso na bacia do lago Chade, que apresenta de forma esquemtica o seguinte quadro hipsomtrico: uma plancie central de acumulao situada entre 185 e 300 m de altitude; em torno, um anel bastante descontnuo de velhos planaltos desgastados, cuja peneplanizao foi s vezes camuflada por atividades vulcnicas recentes; unindo esses planaltos de, em mdia, 1000 m de altitude, e as zonas baixas de acumulao, h encostas geralmente ngremes afetadas por uma eroso ativa num clima mido. precisamente a zona de solos detrticos bastante leves que recebe a chuva a que apresenta a maior densidade demogrfica, ou seja, de 6 a 15 hab/km2. Sob o clima do Sahel ocorre ainda boa densidade nos aluvies fertilizados pelas infiltraes ou inundaes do Chade. Nos altos planaltos do leste e do sul, Darfur e Adamaua, de onde descem os tributrios do lago, a populao reduz -se a 1 hab/km2. No

  • 62 Metodologia e pr -histria da frica

    norte, j saariano, a densidade diminui ainda mais. O aspecto humano da bacia , por consequncia, estreitamente ligado a um problema de geografia fsica, de geomorfologia, que condiciona o desenvolvimento humano.

    Dessa forma, a civilizao recuou diante do deserto. Ela retrocedeu at o limite da rea em que o milho -mido e o sorgo podem ser cultivados sem irrigao, na latitude aproximada do Neo -Chade (as culturas irrigadas de legumes, tabaco, trigo duro, so feitas s margens do Logone e do Chari). Agricultores, pastores e pescadores vivem na zona meridional, onde as guas flvio -lacustres fecundam as terras, tornam verdes os pastos, atraem periodicamente uma multido de pescadores. Ao contrrio, a eroso nas zonas desrticas setentrionais torna o solo instvel e a vegetao precria, caracterizada por arbustos espinhosos xerfilos.

    Mas tais estruturas geomorfolgicas condicionaram ainda outras atividades humanas. Por exemplo, as invases dos conquistadores expulsaram vrias vezes os agricultores autctones dos planaltos salubres e das plancies frteis, fazendo--os recuar para as zonas (inclinaes ou cumes) imprprias para a criao de gado. Desse modo, os Fulb empurraram os Bum e os Duru para os terrenos menos frteis da Adamaua, e os Kiroi do norte de Camares para os terrenos granticos do macio montanhoso do Mandara. Ora, o trabalho nas terras dos declives outrora submersos certamente rude e ingrato para estes povos; mas o que melhor corresponde a suas ferramentas precrias. Por fim, a presena peridica ou permanente de reas palustres na zona de aluvio cria condies para a existncia de imensa quantidade de mosquitos (Anopheles gambiae). Existem, por outro lado, focos da mosca ts -ts (Glossina palpalis) s margens do Logone e do Chari, nas formaes higrfilas baixas de Salix e Mimosa asperata que cercam os depsitos recentes. A malria e a doena do sono, transmitidas por tais insetos, transformam essas reas em locais extremamente adversos.

    Em resumo, para ter uma viso concreta da vida humana na bacia do Chade, que conheceu antes vrias flutuaes quaternrias devidas a alteraes de clima, o historiador deve necessariamente valer -se de uma srie de fontes e tcnicas particulares, extradas das cincias da Terra e das cincias da vida, j que a atual distribuio das populaes, seus movimentos migratrios passados, suas atividades agrcolas, pastoris, etc., so estreitamente condicionadas pelo meio ambiente.

    O caso da bacia lacustre do Chade apenas um exemplo entre outros. Todas as vezes que a curiosidade cientfica se libertou de certos esquemas restritivos, os resultados foram igualmente esclarecedores. Entre os Nyangatom ou Bumi do vale do Omo, prximos dos Turkana do noroeste do Qunia, existe uma diferena imunolgica notvel manifesta nos exames de sangue dos homens testados

  • 63Fontes e tcnicas especficas da histria da frica Panorama Geral

    (300 indivduos em 1971 e 359 em 1972). Tal diferena no era observvel entre os sexos, mas entre as aldeias (que renem de 20 a 300 habitantes). Essas aldeias, cuja populao vive de criao, agricultura, coleta, caa e pesca, obedecem a uma organizao clnica rgida, acentuada por uma distribuio em setores territoriais. Mas no existe nessa sociedade nenhum chefe acima do membro mais velho. Desse modo, as diferenas originrias da organizao social territorial dos Nyangatom projetam -se na sorologia: o mapa das reaes dos soros aos antgenos arbovirais reproduz exatamente a distribuio territorial das populaes testadas2.

    Esse exemplo de colaborao dinmica entre o parasitlogo e o antroplogo pode ser de grande utilidade para o historiador. importante que ele saiba da existncia desse material documental, que pode revelar -se pertinente na anlise de comportamentos sexuais e no estudo do crescimento demogrfico dos Nyangatom.

    O problema heurstico e epistemolgico fundamental permanece sempre o mesmo: na frica, o historiador deve estar absolutamente atento a todos os tipos de procedimentos de anlise, para articular seu prprio discurso, fundamentando--se num vasto conjunto de conhecimentos.

    Esta abertura de esprito particularmente necessria quando se estudam perodos antigos, sobre os quais no se dispe nem de documentos escritos nem mesmo de tradies orais diretas. Sabemos, por exemplo, que a base da agricultura para os homens do Neoltico era o trigo, a cevada e o milhete, na sia, na Europa e na frica, e o milho, na Amrica. Mas como identificar os sistemas agrcolas iniciais, que surgiram h tanto tempo? O que permitiria distinguir uma populao de predadores sedentrios de uma de agricultores? Como e quando a domesticao das plantas se difundiu nos diversos continentes? Quanto a isso, a tradio oral e a mitologia prestam apenas uma pequena ajuda. Unicamente a arqueologia e os mtodos paleobotnicos podem dar uma resposta vlida a tais questes importantes, relativas a essa inestimvel herana neoltica que a agricultura.

    A pelcula externa do plen muito resistente ao tempo num solo favorvel, no cido. A paleopalinologia fornece uma anlise microscpica de tais vestgios botnicos. Os gros de plen fsseis podem ser recolhidos dissolvendo progressivamente uma amostra de terra com o emprego de cidos quentes (cido fluordrico ou clordrico), que eliminam o silcio e o calcrio sem atacar o plen,

    2 Trabalhos de Franois RODHAIN, entomologista, e de Serge TORNAY, etnlogo, membros da misso francesa do Omo, dirigida por M. Yves COPPENS (1971, 1972).

  • 64 Metodologia e pr -histria da frica

    e em seguida os hmus orgnicos (potssio). O resduo, centrifugado e colorido, ento colocado em gelatina, restando ao operador apenas reconhecer e contar cada gro para construir uma tabela de porcen tagem. Esta fornece o perfil polnico do sedimento estudado. Dessa forma, pode -se detectar a presena da agricultura num stio, precisar a evoluo da paisagem, diagnosticar o clima atravs das variaes da vegetao e determinar a eventual ao do homem e dos animais sobre a cobertura vegetal.

    Tais anlises permitiram revelar atividades de domesticao de plantas alimentcias na frica, atividades essas centralizadas em vrios pontos e difundidas por diversas regies. O sorgo (inicialmente domesticado na savana que se estende do lago Chade fronteira entre o Sudo e a Etipia), o milho -mido, o arroz africano, a voandzeia, a ervilha forrageira, o dendezeiro (domesticado na orla das florestas), o f inger millet, o quiabo e o inhame africano eram as principais plantas cultivadas na poca.

    As plantas americanas foram introduzidas h relativamente pouco tempo, como atestam desta vez certas fontes escritas. A mandioca, por exemplo, hoje o alimento bsico de vrios povos da frica central, penetrou o reino do Kongo pela costa atlntica s depois do sculo XVI. Com efeito, entre as plantas cultivadas no planalto de Mbanza Congo, capital do reino, a Relao de Pigafetta -Lopez (1591) menciona apenas o luko, isto , a Eleusine coracana, cuja semente originria das margens do Nilo, na regio em que este rio desemboca no segundo lago3; o masa ma Kongo, uma gramnea que uma espcie de sorgo; o milho, masangu ou ainda masa ma Mputu, que o menos apreciado e com o qual se alimentam os porcos4; o arroz, loso, que tambm no tem muito valor5; enfim, a bananeira, dikondo, e o dendezeiro, ba.

    Fato menos conhecido, as plantas africanas tambm se difundiriam para fora do continente. certo que algumas espcies africanas se expandiram para a ndia, por exemplo, e para outras regies asiticas, embora em poca tardia. Com efeito, as duas espcies de milho -mido (milhete e f inger millet) so comprovadas arqueologicamente na ndia por volta do ano 1000 antes da Era Crist. O sorgo s seria conhecido nessa regio posteriormente, porque o snscrito no possui uma palavra para design -lo.

    3 PIGALETTA -LOPEZ. 1591, p. 40: Venendo sementa dal fiume Nilo, in quella parte dove empie il secondo lago.

    4 PIGAFETTA -LOPEZ. ibid.: Ed il maiz che il pi vile de tutti, che dassi porci.5 PIGAFETTA -LOPEZ. ibid.: il roso e in pocco prezzo.

  • 65Fontes e tcnicas especficas da histria da frica Panorama Geral

    Na ausncia de qualquer documento escrito ou tradio oral, essas informaes da arqueologia e da paleobotnica podem informar o historiador sobre a srie de etapas que fizeram nossos ancestrais neolticos passarem de uma economia de coleta a uma economia de produo. Alm disso, esses fatos evidenciam por si mesmos um fluxo de relaes entre as civilizaes neolticas, e no um difusionismo.

    Restos de ces, porcos, carneiros e cabras sugerem que a domesticao de animais comeou, nos centros neolticos do Oriente Prximo, mais ou menos na mesma poca que a cultura das plantas, entre 9000 e 8000 antes da Era Crist. A partir disso, foi proposta uma cronologia terica da domesticao dos diferentes grupos de animais. De incio, os necrfagos, como o co; em seguida, os animais nmades, como a rena; a cabra e o carneiro; e por fim os animais para os quais se impe uma vida sedentria: o gado grosso e os porcos. Os animais que podem servir de meio de transporte, como o cavalo, o asno e a lhama, teriam sido domesticados em ltimo lugar. Esta cronologia geral, porm, no se refere sempre frica.

    O cavalo, que, como o boi e o asno, desempenhou um papel de motor da histria atravs dos tempos, s aparece na frica, precisamente no Egito, no fim da invaso dos hicsos, cerca de 1600 antes da Era Crist; como atestam fontes iconogrficas e da Sagrada Escritura. Por volta do sculo XIII antes da Era Crist, ele foi transmitido, como animal de guerra, aos lbios e mais tarde, no incio do primeiro milnio, aos nbios. Com exceo das reas atingidas pela civilizao romana, o resto da frica s utilizaria amplamente o cavalo a partir das conquistas rabes na Idade Mdia. Dois cavalos selados e arreados, ladeados por dois carneiros, faziam parte dos emblemas do rei do Mali, de acordo com o relato do escritor Ibn Battuta (1304 -1377).

    Quanto ao dromedrio, o camelo de uma corcova, sua chegada civilizao africana tambm no tardia. Esse animal aparece de forma suficientemente clara numa pintura rupestre, no Saara chadiano, no sculo III antes da Era Crist. Os homens de Cambises o introduziram em 525 antes da Era Crist no Egito, onde ele desempenharia importante papel nas comunicaes entre o Nilo e o mar Vermelho. Sua penetrao no Saara Ocidental ocorreu mais tarde. De fato, o camelo, que essencialmente um animal do deserto, onde substitui com frequncia o boi e o asno, foi difundido no Magreb ao que parece pelas tropas romanas de origem sria. Os berberes, refratrios paz romana e a sua forma de organizar a posse da terra, emanciparam -se graas ao camelo. Ele permitiu--lhes estabelecerem -se alm do limes, nas estepes e nos desertos. Os negros

  • 66 Metodologia e pr -histria da frica

    sedentrios dos osis foram imediatamente repelidos para o sul ou reduzidos escravido.

    Tendo em vista tudo o que foi exposto acima, chega -se a uma concluso que constitui um avano metodolgico decisivo: um vasto material documental, rico e variado, pode ser obtido a partir das fontes e tcnicas baseadas nas cincias exatas e nas cincias naturais. O historiador se v obrigado a desenvolver esforos de investigao por vezes audaciosos. Todos os caminhos que se abrem esto doravante entrelaados. O conceito de cincias auxiliares perde cada vez mais terreno nesta nova metodologia, exceto se entendermos por cincias auxiliares da histria, as tcnicas fundamentais da pesquisa histrica, originrias de qualquer campo cientfico e que, de resto, no foram ainda totalmente descobertas. De agora em diante, as tcnicas de investigao so parte da prtica histrica e fazem com que a histria se incline de forma concreta para o lado da cincia.

    Dessa forma, a histria se beneficia das conquistas das cincias da Terra e das cincias da vida. Todavia, seu aparato de pesquisa e de crtica se enriquece sobretudo com a contribuio das outras cincias humanas e sociais: egiptologia, lingustica, tradio oral, cincias econmicas e polticas.

    At hoje a egiptologia permanece uma fonte insuficientemente utilizada pela histria da frica. conveniente, portanto, insistir no assunto. A egiptologia compreende a arqueologia histrica e a decifrao dos textos. Nos dois casos, o conhecimento da lngua egpcia um pr -requisito indispensvel. Esse idioma, que permaneceu vivo durante cerca de 5000 anos (se levarmos em considerao o copta), apresenta -se materialmente sob trs escritas distintas:

    Escrita hieroglf ica, cujos signos se dividem em duas grandes classes: os ideogramas ou signos -palavras (por exemplo, o desenho de um cesto de vime para designar a palavra cesto, cujos principais componentes fonticos so nb) e os fonogramas ou signos -sons (por exemplo, o desenho de um cesto, do qual s se retm o valor fontico nb e que serve para escrever outras palavras diferentes de cesto mas que tm o mesmo valor fontico: nb, senhor; nb, tudo). Os fonogramas, por sua vez, classificam -se em: trilteros, signos que combinam trs consoantes; bilteros, signos que combinam duas consoantes; unilteros, signos que contm uma s vogal ou consoante: trata -se, nesse caso, do alfabeto fontico egpcio.

    Escrita hiertica, ou seja, a escrita cursiva dos hierglifos, que apareceu em torno da III dinastia ( -2778 a -2423); sempre orientada da direita para a esquerda e traada com um clamo sobre folhas de papiro ou fragmentos de

  • 67Fontes e tcnicas especficas da histria da frica Panorama Geral

    cermica e de calcrio. Teve uma durao to longa quanto a dos hierglifos (o texto hieroglfico mais recente data de +394).

    Escrita demtica, uma simplificao da escrita hiertica, surgiu em torno da XXV dinastia ( -751 a -656), deixando de ser usada no sculo V. No plano estrito dos grafemas, reconhece -se uma origem comum entre a escrita demtica egpcia e a escrita merotica nbia (que veicula uma lngua ainda no decifrada).

    Considerando apenas esse nvel do sistema grfico egpcio, j se colocam interessantes questes metodolgicas. Isso porque, atravs de uma tal conveno grfica, dotada de fisionomia prpria, o historiador que se torna um pouco decifrador capta por assim dizer a conscincia e a vontade dos homens de outrora, j que o ato material de escrever traduz sempre um valor profundamente humano. Com efeito, decifrar dialogar, graas a um esforo constante de rigor e de objetividade. Alm disso, a diversidade, as complicaes e as simplificaes sucessivas do sistema grfico egpcio constituem em si mesmas parte da histria: a histria das decifraes, uma das fontes essenciais de toda historicidade. Assim, com o sistema grfico egpcio a frica toma um lugar importante nos estudos gerais sobre a escrita, vista como um sistema de signos e de intercomunicao humana6.

    O problema da difuso da escrita egpcia na frica negra amplia ainda mais o aparato metodolgico do historiador, abrindo perspectivas totalmente novas pesquisa histrica africana. Os fatos que se seguem referem -se a esse aspecto. Os gicandi constituem um sistema ideogrfico utilizado outrora pelos Kikuyu do Qunia. Os pictogramas desse sistema oferecem notveis analogias com os pictogramas egpcios. Tambm a semelhana estrutural entre os pictogramas nsibidi do territrio dos Efik (sudeste da Nigria) e os pictogramas egpcios foi reconhecida e assinalada desde 1912 por um especialista britnico, P. Amaury - Talbot. Muitos dos hierglifos egpcios apresentam ainda um parentesco escritural claro com os signos da escrita mende do sul de Serra Leoa. Fenmeno semelhante ocorre com a maioria dos signos da escrita loma do norte da Libria. Existe ainda uma indubitvel conexo causal entre os hierglifos egpcios e vrios signos da escrita vai das proximidades de Monrvia (Libria). A escrita dos Bamun de Camares, que inclui mais de dois sistemas grficos, tambm oferece analogias admirveis, externas verdade, com os hierglifos do vale do Nilo. Como no Egito, os hierglifos dogon, bambara e bozo podem ser decompostos

    6 DORLHOFER, E. 1959.

  • 68 Metodologia e pr -histria da frica

    e, portanto, analisados. Mas o fato mais significativo que estes signos do oeste africano fazem com que as coisas e os seres escritos com sua ajuda tomem conscincia de si mesmos, concepo tpica do poder transcendente da escrita, que encontramos literalmente no Egito, na grafia de certos textos relativos ao destino depois da morte.

    Assim, permanece grande a possibilidade de ver nascer e se desenvolver uma epigrafia e uma paleografia absolutamente desconhecidas at aqui e cujo objeto ser o estudo rigoroso das relaes mtuas entre as famlias escriturais da frica negra. O historiador tiraria proveito disso, j que, atravs da histria da escrita e das decifraes surge a histria dos homens responsveis por essas grafias. O exame dos sistemas grficos em si mesmo uma fonte preciosa da histria. O historiador, porm, que nunca deve perder o sentido do tempo, no pode esperar revelaes antigas dessas escritas em geral recentes. Sua importncia revela sobretudo a estranha profundidade temporal do impacto egpcio. Aparentemente desaparecida desde 394 da Era Crist, a escrita egpcia nos apresenta, sem descontinuidade, diversos ressurgimentos, do sculo XVII ao sculo XIX. A ruptura entre a antiguidade e o passado recente da frica no passa portanto de uma iluso de nossa ignorncia; uma via subterrnea une de facto esses dois plos.

    Conhecer a escrita egpcia, decifrar os textos, ter acesso direto lngua faranica. recomendvel que o historiador recorra sempre que possvel aos textos originais, pois as tradues, mesmo as melhores, raramente so irrepreensveis. O historiador que conhece a lngua egpcia pode assim ler diretamente os numerosos e variados textos do Egito antigo: estelas funerrias, inscries monumentais, atas administrativas, hinos religiosos, obras filosficas, tratados de medicina e matemtica, composies literrias (romances, contos e fbulas).

    Uma srie de textos mostra claramente que a barreira que se supunha existir entre o Egito faranico e as demais regies africanas vizinhas em pocas remotas no est de acordo com a materialidade dos fatos.

    Pode -se mencionar neste sentido a carta que Neferkar (Ppi II), fara da VI dinastia, enviou por volta de 2370 antes da Era Crist a Herkhouf, chefe de uma expedio econmica feita s regies meridionais afastadas a Terra do Fim do Mundo, como diz o texto referindo -se provavelmente regio dos grandes lagos africanos. Um pigmeu havia sido trazido dessa longnqua expedio, que foi a quarta de uma srie. Um outro texto egpcio, O Conto do Nufrago, datado do sculo XX antes da Era Crist (no princpio da XII dinastia) fornece informaes precisas e muito interessantes sobre a vida dos marinheiros dessa

  • 69Fontes e tcnicas especficas da histria da frica Panorama Geral

    poca, a navegao no mar Vermelho, as relaes econmicas entre a costa oriental africana e o vale do Nilo. A rainha Hatshepsut, que ocupou o trono egpcio durante 21 anos (1504 -1483), organizou vrias expedies comerciais, entre as quais se destaca a do ano 9 de seu reinado, que se dirigiu regio de Punt (costa somaliana); essa expedio representada nos esplndidos baixos--relevos de Deir el -Bahari, no Alto Egito.

    Existe a uma nova linha de pesquisa, que no pode deixar indiferente o historiador da frica. possvel avaliar a importncia de introduzir o ensino do egpcio antigo nas universidades africanas. Tal ensino deve contribuir sobremaneira para o estudo vivo do patrimnio cultural africano em toda a sua profundidade espacial e temporal.

    Em relao ao parentesco lingustico do egpcio antigo, afirma o relatrio final do importante simpsio internacional sobre O Povoamento do Egito Antigo e a Decifrao da Escrita Merotica (Cairo, 28 de janeiro 3 de fevereiro de 1974): O egpcio no pode ser isolado do seu contexto africano e o semtico no d conta de seu surgimento; legtimo portanto encontrar seus pais ou primos na frica (relatrio final, p. 29, 5).

    Em termos claros, a lngua faranica no uma lngua semtica. Convm, por conseguinte, abandonar a orientao que atribui ao antigo egpcio parentesco com o camito -semtico ou o afro -asitico, seguida por certos autores que, em geral, no so nem estudiosos do semtico nem egiptlogos.

    O problema fundamental consiste em aproximar, atravs de tcnicas lingusticas apropriadas, o antigo egpcio e as lnguas atuais da frica negra, para reconstituir, na medida do possvel, formas anteriores comuns a partir de correspondncias e comparaes morfolgicas, lexicolgicas e fonticas. Uma tarefa gigantesca espera o linguista. Tambm o historiador dever estar preparado para uma radical mudana de perspectiva quando for desvendada uma macroestrutura cultural comum entre o Egito faranico e o resto da frica negra. Essa relao , no sentido matemtico dos termos, uma evidncia intuitiva que espera uma demonstrao formal. Mas aqui, mais do que em outros lugares, o historiador e o linguista so obrigados a trabalhar juntos. Isso porque a lingustica uma fonte histrica, particularmente na frica, onde as numerosas lnguas se imbricam.

    Trata -se sobretudo da lingustica comparativa ou histrica. O mtodo empregado comparativo e indutivo, pois o objetivo da comparao reconstruir, isto , procurar o ponto de convergncia de todas as lnguas comparadas. Este ponto de convergncia ser chamado de lngua comum pr -dialetal. Mas preciso ser muito prudente. O bantu comum, por exemplo, reconstrudo a

  • 70 Metodologia e pr -histria da frica

    partir do estudo cuidadoso de diversas lnguas hoje encontradas, no nem uma lngua antiga nem uma lngua real, recuperada em todos os seus componentes. O termo bantu comum ou proto -bantu designa apenas o sistema constitudo pelos elementos comuns s lnguas bantu conhecidas; tais elementos remontam a uma poca em que essas lnguas eram quase idnticas. O mesmo ocorre com o indo -europeu, por exemplo. No nvel estrito da realidade, a arqueologia lingustica , no limite, uma pura iluso, porque, da poca mais antiga, pr--histrica, em que se falava a lngua comum recuperada, no subsiste nenhum trao histrico ou lingustico.

    O interesse da lingustica histrica reside menos em reencontrar uma lngua comum pr -dialetal do que em detectar, por assim dizer, a amplitude lingustica total de diversas lnguas aparentemente estranhas umas s outras. Muito raramente uma lngua se encerra num espao claramente definido. Na maioria das vezes, ela ultrapassa sua prpria rea, mantendo com outras lnguas mais ou menos distantes relaes s vezes imperceptveis primeira vista. O grande problema subjacente , evidentemente, o do deslocamento das populaes. Uma comunidade lingustica no se confunde forosamente com uma unidade racial. No entanto, ela fornece informaes pertinentes sobre uma unidade essencial, na verdade a nica: a unidade cultural bsica que existe entre os povos linguisticamente unidos, mesmo que tais povos tenham s vezes origens muito diversas e sistemas polticos completamente diferentes. A famlia Nger -Congo, por exemplo, embora no tenha sido ainda bem estabelecida, aponta a existncia de laos socio culturais muito antigos entre os povos do oeste atlntico, os povos Mande, Gur e Kwa, os povos situados entre o Benue e o Congo (Zaire ), os povos do Adamaua oriental e os Bantu, da frica central, oriental e meridional.

    A lingustica histrica portanto uma fonte preciosa da histria africana, assim como a tradio oral, que foi durante muito tempo desprezada. Ora, s vezes a tradio oral constitui a nica fonte imediatamente disponvel. o caso, por exemplo, dos Mbochi do Congo. A histria de suas diferentes chefias s pode ser reconstituda, no espao e no tempo (um tempo relativamente curto, verdade), com a ajuda da tradio oral. Esta pode tambm resolver uma questo onde o documento escrito permanece impotente. Os cronistas (Delaporte, 1753; Droyat, 1776) so unnimes em afirmar que os reis de Loango (frica central ocidental) eram sepultados em dois cemitrios distintos: em Lubu e Luandjili. Quando e por que ocorreu uma tal distino? A esse respeito, os documentos escritos at hoje conhecidos permanecem mudos. S a tradio oral dos Vili atuais permite explicar essa dualidade. De acordo com ela, foi uma querela

  • 71Fontes e tcnicas especficas da histria da frica Panorama Geral

    figura 4.1 Baixo -relevo do Museu de Abomey (Foto Nubia).

    extremamente violenta entre a corte de Maloango e os habitantes de Luandjili, uma rica provncia do reino, que levou o rei e os prncipes da poca a mudarem o lugar da sepultura. O cemitrio de Luandjili foi ento abandonado em favor do de Lubu. Neste caso, a tradio oral presta uma contribuio valiosa ao documento escrito. Na frica existem inmeros casos em que a tradio oral orienta, por assim dizer, a escavao arqueolgica, esclarecendo paralelamente a crnica escrita. Durante as escavaes de Tegdaoust, cidade do reino de Gana

  • 72 Metodologia e pr -histria da frica

    (Sudo ocidental), conduzidas no fim de 1960 pelos professores J. Devisse, D. e S. Robert, ento na Universidade de Dacar, os pesquisadores exploraram simultnea e combinadamente as tradies locais, as crnicas rabes medievais e as tcnicas propriamente arqueolgicas. Assim, um perodo mal conhecido da histria africana (do sculo VII ao XIII) pde ser restitudo memria dos homens, graas evidentemente prpria arqueologia, mas tambm, em parte, tradio local e aos documentos escritos.

    Esses exemplos, que poderamos multiplicar, mostram que na frica, mais do que em outros lugares, a tradio oral parte integrante da base documental do historiador, que desse modo se amplia. A histria africana no pode mais ser feita como no passado, quando a tradio oral que uma manifestao do tempo era afastada da investigao histrica.

    No foi ainda suficientemente destacado um ponto importantssimo: de um lado, a maneira como a tradio oral apresenta o tempo, e de outro, a maneira como ela apresenta os acontecimentos atravs do tempo. De que modo o griot apresenta a histria? Essa a questo decisiva. O griot africano quase nunca trabalha com uma trama cronolgica. Ele no apresenta a sequncia dos acontecimentos humanos com suas aceleraes ou seus pontos de ruptura. O que ele diz e reconstitui merece ser escutado em perspectiva e no pode ser de outra forma. O griot s se interessa pelo homem apreendido em sua existncia, como condutor de valores e agindo na natureza de modo intemporal. por isso que ele no se dispe a fazer a sntese dos diversos momentos da histria que relata. Trata cada momento em si mesmo, com um sentido prprio, sem relaes precisas com outros momentos. Os momentos dos fatos relatados so descontnuos. Trata -se, a rigor, da histria absoluta. Essa histria que apresenta sem datas e de modo global, estgios de evoluo, simplesmente a histria estrutural. Os afloramentos e as emergncias temporais denominadas em outros lugares ciclo (ideia de crculo), perodo (ideia de espao de tempo), poca (ideia de parada ou de momento marcado por algum acontecimento importante), idade (ideia de durao, de passagem do tempo), srie (ideia de sequncia, de sucesso), momento (ideia de instante, de circunstncia, de tempo presente), etc., so praticamente deixadas de lado pelo griot africano, enquanto expresses possveis de seu discurso. claro que ele no ignora nem o tempo csmico (estaes, anos, etc.) nem o passado humano, j que o que ele relata , de fato, passado. Mas lhe bastante difcil esboar um modelo do tempo. Ele oferece de uma s vez toda a plenitude de um tempo.

    Ainda no domnio das cincias humanas e sociais, a contribuio dos socilogos e cientistas polticos permite redefinir o saber histrico e cultural.

  • 73Fontes e tcnicas especficas da histria da frica Panorama Geral

    Com efeito, os conceitos de reino, nao, Estado, imprio, democracia, feudalismo, partido poltico, etc., utilizados em outros lugares certamente de maneira adequada, nem sempre so automaticamente aplicveis realidade africana.

    O que se deve entender, exatamente, por reino do Kongo, por exemplo? O prprio povo usa a expresso nsi a Kongo, literalmente, o pas (nsi) dos Kongo. Temos ento um grupo tnico (os Kongo), uma regio (nsi) e a conscincia que tal grupo tem de habitar essa regio, que assim se torna o pas (nsi) do grupo tnico em questo. Os limites ou fronteiras so bastante fluidos, pois so funo da disperso dos cls e subgrupos da etnia considerada. A palavra reino corresponde aqui a um territrio habitado exclusivamente por homens e mulheres pertencentes a uma mesma etnia. A homogeneidade tnica, lingustica e cultural essencial. O rei (mfumu) na realidade o mais velho (mfumu), o tio materno (mfumu) de todas as famlias (nzo) e de todos os cls matrilineares (makanda) que reconhecem ancestrais fundadores comuns (bankulu mpangu). Quando se examina a realidade mais de perto, o reino do Kongo resume--se, em definitivo, a uma vasta chefia, isto , a um sistema de governo que engloba pequenas chefias locais. O rei o mais velho dos ancios, o tio materno mais idoso entre os vivos; por isso um ntinu, chefe supremo. A expresso reino do Kongo no designa, portanto, um Estado governado por um rei, no sentido ocidental. Alm do mais, esse sentido ocidental (reino de Lus XIV, por exemplo) um sentido esprio, tardio, inadequado, em suma, um caso particular de passagem do Estado a Estado nacional atravs da monarquia absoluta.

    Ao contrrio, o reino de Danxome (atual Benin) aproxima -se mais do tipo de monarquia absoluta, desastrosamente encarnada, na Frana, pelos reinados de Henrique IV a Lus XVI. Existe, com efeito, um territrio principal e permanente, que, como assinala o professor M. Gll, possui uma administrao central: o rei e seus ministros e os delegados dos ministros. O rei a prpria essncia do poder. Ele detm todos os atributos de autoridade e comando. Tem direito de vida e morte sobre seus sditos, os anato, pessoas do povo, entre as quais o rei, senhor e proprietrio de todas as riquezas (dokunno), escolhia e recrutava os glesi, isto , os agricultores que ele destinava aos seus domnios ou oferecia como presente aos prncipes e chefes. O poder central era exercido nas aldeias e regies pelos chefes, em nome do rei. O reino de Danxome apresenta--se portanto como uma organizao estatal fortemente centralizada, na qual se insere o sistema de descentralizao administrativa constitudo pela chefia. Existe assim um poder central que controla um povo (os Danxomenu) atravs

  • 74 Metodologia e pr -histria da frica

    das chefias. No curso da histria e ao acaso das conquistas, pases anexados se uniro ao antigo ncleo tnico, ao territrio permanente.

    Houve ento, num dado momento, um processo de conquista e aculturao--assimilao entre os povos aparentados e vizinhos (Fon, Mahi, Alada, Savi, Juda, etc.). O reino torna -se, a partir da, um Estado pluritnico, estruturado e centralizado graas a uma forte organizao administrativa e militar, e tambm a uma economia dirigida e dinmica. s vsperas da penetrao colonial, o reino de Danxome constitua um verdadeiro Estado -Nao, onde o dilogo e a palavra, a adeso das populaes (atravs das chefias), eram um princpio de governo.

    A palavra reino no tem portanto a mesma acepo em toda a frica. Nesse sentido, os dois exemplos dados, do Kongo e de Danxome, so bastante elucidativos. necessrio, por conseguinte, que o historiador seja bastante cuidadoso ao empregar esse termo. Deve -se notar ainda que, enquanto no Kongo a chefia corresponde a um sistema de governo, no antigo reino de Danxome (Abomey), ela um modo de descentralizao administrativa.

    Quanto ao termo feudalismo, no campo de observao constitudo pela Europa ocidental (no entendida apenas em seus limites geogrficos), pode--se compreend -lo no sentido dos medievalistas com tendncia jurdica: o feudalismo o que se refere ao feudo (surgido em torno dos sculos X -XI) e o conjunto de relaes (lealdade, homenagem e obrigaes) que liga o vassalo ao senhor, proprietrio do domnio. Os camponeses, que no fazem parte da camada superior da sociedade, no so considerados nesta acepo da palavra.

    Os marxistas, ao contrrio, do um sentido mais amplo ao vocbulo feudalismo: um modo de produo caracterizado pela explorao econmica das classes inferiores (os servos) pelas classes dirigentes (os senhores feudais). Os servos esto ligados gleba e dependem do senhor. Este no pode mais matar o servo, mas pode vend -lo (propriedade limitada ao trabalhador). A servido substitui a escravido, mas muitos aspectos da condio desta ltima esto ainda presentes. Os servos, ou os camponeses, no esto associados gesto dos negcios pblicos e tambm no assumem funes administrativas. Do ponto de vista da evoluo das sociedades europeias, o regime feudal uma etapa intermediria no processo de formao da economia capitalista. No entanto, muitos marxistas ainda misturam a noo poltica de feudalismo e a noo socio econmica de senhoria, que, graas a Marx, os historiadores aprenderam a distinguir desde 1847.

    Seja qual for o sentido em que o termo empregado, pode -se dizer que os regimes medievais europeus se assemelham aos da frica negra pr -colonial? S os estudos sociais comparativos (ainda bastante raros) podero fornecer

  • 75Fontes e tcnicas especficas da histria da frica Panorama Geral

    respostas adequadas a esta questo e estabelecer as distines necessrias. O carter feudal da organizao dos Bariba (Daom) j foi assinalado, sobretudo como hiptese de trabalho. O estgio pouco avanado das pesquisas sobre a questo do feudalismo na frica negra exige do historiador uma prudncia maior. E parece que as tendncias feudais apresentadas pelas sociedades da frica negra no devem ser definidas em relao a direitos reais devidos atribuio de um feudo, mas sobretudo em relao a uma forma de organizao poltica baseada num sistema de relaes sociais e econmicas particulares.

    Dessa forma, as anlises dos socilogos e cientistas polticos podem constituir fontes explorveis pelo historiador. Os arquivos do historiador, na frica, variam enormemente em funo dos materiais e perodos histricos, e tambm da curiosidade do prprio historiador.

    Na frica, as sries documentais so estabelecidas pelos mais diversos tipos de cincias exatas, naturais, humanas e sociais. O relato histrico renovou -se completamente, na medida em que a metodologia consiste em empregar vrias fontes e tcnicas particulares ao mesmo tempo e de modo cruzado. Informaes fornecidas pela tradio oral, os raros manuscritos rabes, as escavaes arqueolgicas e o mtodo do carbono residual ou carbono 14 reintroduziram definitivamente o legendrio povo Sao (Chade, Camares, Nigria) na histria autntica da frica. A colina de Mdaga, na Repblica do Chade, foi ocupada por um longo perodo durante cerca de 2500 anos, do sculo V antes da Era Crist metade do sculo XIX da Era Crist. Sem a explorao global e cruzada de fontes to diversas, teria sido totalmente impossvel chegar a concluses de tal modo pertinentes e inesperadas.

    As noes clssicas da crtica histrica, tais como cincias auxiliares, escolha de fontes, materiais histricos nobres, etc., so doravante abolidas da pesquisa histrica africana, o que assinala uma importante etapa na historiografia contempornea.

    A prtica da histria na frica torna -se um permanente dilogo interdisciplinar. Novos horizontes se esboam graas a um esforo terico indito. A noo de fontes cruzadas exuma, por assim dizer, do subsolo da metodologia geral, uma nova maneira de escrever a histria. A elaborao e a articulao da histria da frica podem, consequentemente, desempenhar um papel exemplar e pioneiro na associao de outras disciplinas investigao histrica.

  • C A P T U L O 5

    77As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    A noo de fonte escrita to ampla que chega a se tornar ambgua. Se entendemos como escrito tudo o que serve para registrar a voz e o som, seremos forados ento a incluir no testemunho escrito as inscries gravadas na pedra, disco, moeda em suma, toda mensagem que fixa a linguagem e o pensamento, independentemente de seu suporte1. Isto nos levaria a aludir neste captulo numismtica, epigrafia e outras cincias auxiliares que, a rigor, se tornaram independentes da esfera do texto escrito. Portanto, restringiremos nossa investigao ao que traado ou impresso em signos convencionais sobre qualquer tipo de suporte: papiro, pergaminho, osso, papel. Trata -se, j, de um imenso campo de pesquisas e de reflexes: primeiramente, porque cobre um perodo que comea com a inveno da escrita e termina no limiar dos Tempos Modernos (sculo XV); depois, porque abrange um continente inteiro, com diversas civilizaes justapostas e sucessivas; e, por fim, porque as fontes so de lnguas, tradies culturais e tipos diferentes.

    Examinaremos os problemas gerais suscitados por essas fontes (anlises por perodos, regies, tipos), antes de estabelecer um inventrio crtico.

    1 DAIN, A. 1961, p. 449.

    As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    H. Djait

  • 78 Metodologia e pr -histria da frica

    Problemas gerais

    No existe at o momento, nenhum estudo do conjunto das fontes escritas da histria da frica. Por razes de especializao cronolgica ou regional, os raros estudos realizados tm sido associados a campos especficos da pesquisa cientfica. Assim, o Egito faranico domnio do egiptlogo, o Egito ptolomaico e romano, do classicista, o Egito muulmano do islamista: trs perodos, trs especialidades, das quais apenas uma se origina do que especificamente egpcio; as outras duas navegam em rbitas mais vastas (o mundo clssico, o Isl). O mesmo acontece com o Magreb, ainda que o especialista em civilizao pnica seja ao mesmo tempo um orientalista e um classicista, e que o estudioso da civilizao berbere seja marginal e inclassificvel. O domnio da frica negra, tambm variado, abrange diferentes lnguas e especialidades: h fontes clssicas, rabes e fontes propriamente africanas. Mas, embora encontremos a mesma trilogia do norte do Saara, aqui ela no tem nem a mesma amplido nem significao anloga. Existe uma imensa rea onde, antes do sculo XV, inexiste fonte escrita; ocorre tambm que determinada fonte rabe, de segunda ordem para o Magreb, por exemplo, adquire importncia capital para a bacia do Nger. O historiador da frica negra, ao examinar um documento escrito em rabe, no o faz da mesma maneira que o historiador do Magreb, ou que o historiador do Isl em geral.

    Tais limitaes e interferncias traduzem a estrutura objetiva da histria da frica, e tambm a orientao da cincia histrica moderna desde o sculo XIX. um fato que o Egito foi integrado ao mundo helenstico, ao Imprio Romano, a Bizncio e que, convertido ao Isl, se tornou um foco radiante. Tambm um fato que os Clssicos consideraram a histria da frica como ilustrao da histria de Roma e que uma determinada frica estava profundamente envolvida no destino da civilizao romana. Mas no se pode esquecer que mesmo o historiador moderno da frica romana romanista em primeiro lugar e africanista em segundo, e que o aspecto islmico excludo de seu campo epistemolgico.

    Assim, apreender a histria da frica como um todo e considerar, nessa perspectiva, suas fontes escritas, continua a ser tarefa delicada e particularmente difcil.

    O problema da periodizao Como se justificaria, no estudo das fontes escritas, uma cesura localizada no

    incio do sculo XV? Seria porque a massa documentria de que dispomos, no obstante as disparidades culturais e temporais, guardasse uma certa unidade

  • 79As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    estrutural interna? Ou seria pelo desenvolvimento da prpria histria geral, que, amalgamando Antiguidade e Idade Mdia num nico longo perodo, as separaria de uma Idade Moderna nitidamente diferente de tudo que a precedeu? Na verdade, os dois argumentos se sustentam e se completam: as fontes antigas e medievais caracterizam -se por sua escrita literria; so testemunhos conscientes em sua maioria, sejam anais, crnicas, viagens ou geografias. J a partir do sculo XV, tornam -se abundantes as fontes arquivsticas, que so testemunhos inconscientes. Por outro lado, se at ento a predominncia era de textos clssicos e rabes, a partir do sculo XV as fontes rabes esgotam -se, e passamos a encontrar evidncias de diferentes origens: o documento europeu (italiano, portugus, etc.) e, para a frica negra, o documento autctone. Mas essa mudana de natureza e de procedncia das fontes traduz tambm uma mutao no destino histrico real da frica. O sculo XV o sculo da expanso europeia2, os portugueses chegam s costas da frica negra em 1434; vinte anos antes (1415), j haviam se estabelecido em Sebta (Ceuta)3. No que diz respeito orla mediterrnica e islmica da frica (Magreb, Egito), entretanto, a ruptura entre duas idades histricas j aparece no sculo XIV, quando essa regio sentia os efeitos da lenta expanso do Ocidente assim como a ao de foras internas de decomposio. Mas o sculo XV foi decisivo porque esgotou as fontes extremo--orientais do comrcio muulmano, determinando, assim, o fim de seu papel intercontinental. Da em diante, o Isl afro -mediterrnico caminha rapidamente para a decadncia. O terminus ad quem do sculo XV , assim, amplamente justificado desde que no o interpretemos muito rigidamente; poderia, talvez, encontrar melhor justificao se o deslocssemos para o incio do sculo XVI.

    Isto posto, dividiremos a poca em estudo em trs perodos principais, levando em considerao a dupla necessidade de diversidade e de unidade:

    a Antiguidade at o Isl: Antigo Imprio at +622; a primeira Idade Islmica: de +622 at a metade do sculo XI (1050); a segunda Idade Islmica: do sculo XI ao sculo XV.

    Aqui, a noo de Antiguidade certamente no se compara que vigora na histria do Ocidente, na medida em que s se identifica parcialmente com a Antiguidade clssica; o perodo no se encerra com as invases brbaras, mas

    2 R. MAUNY prope a data de 1434, que a data da expanso martima portuguesa pela frica negra: Le problme des sources de l histoire de l Afrique noire jusqu la colonization europenne. In: XII Congresso Internacional das Cincias Histricas. Viena, 29 ago./5 set. 1965. II, Relatrios, Histria dos continentes, p. 178. V. tambm: MAUNY, R. 1961, p. 18.

    3 LAROUI, A. 1970, p. 218.

  • 80 Metodologia e pr -histria da frica

    com o sbito aparecimento do Isl. Precisamente pela profundidade e alcance de seu impacto, o Isl representa uma ruptura com o passado que poderamos chamar antigo, pr -histrico ou proto -histrico, conforme a regio. Tambm fato que, desde a poca helenstica, a maior parte de nossas fontes antigas so escritas em grego e latim.

    Se, pela estrutura de nossa documentao, assim como pelo movimento histrico global, o sculo VII, sculo do aparecimento do Isl e das fontes rabes, deve ser considerado o incio de uma nova idade, o prprio perodo islmico deveria, ento, ser dividido em duas subidades: a primeira, da conquista at a metade do sculo XI, e, a segunda, do sculo XI, at o sculo XV. Na histria da frica ao norte do Saara, a primeira fase corresponde organizao da regio segundo o modelo islmico e sua ligao com um imprio multicontinental (Califado omada, abssida, fatmida). Em compensao, a segunda fase testemunha do ressurgimento de princpios de organizao autctone, ao mesmo tempo que, do ponto de vista da civilizao, se opera uma profunda transformao. Em relao ao Magreb, a metade do sculo XI a poca da formao do Imprio Almorvida, da autonomia reconquistada pelos Zridas, e da consequente invaso hilaliana. No Egito, a cesura poltica situa -se um sculo mais tarde, com os Aibidas; mas nessa poca que os grandes centros de atividade do comrcio transportam -se do golfo Prsico para o mar Vermelho e que, progressivamente, se estabelece um quadro de intercmbios, em escala mundial, cujo alcance considervel.

    Ao sul do Saara, tambm no decorrer do sculo XI que se desenvolvem relaes permanentes com o Isl, especialmente no plano comercial e religioso.

    A natureza do material documentrio altera -se. Quantitativamente, torna--se abundante e variado; qualitativamente, quanto mais avanamos no tempo, maior o nmero de fontes inconscientes (documentos de arquivos, pareceres jurdicos) encontradas na frica mediterrnica, e mais precisas as informaes relativas frica negra.

    reas etnoculturais e tipos de fontes A classificao das fontes por perodos histricos no basta por si s.

    Convm levarmos em conta a articulao da frica em reas etnoculturais, cuja caracterizao resulta de uma conjugao de fatores, e a prpria tipologia das fontes disponveis, que se coloca alm dos perodos histricos e das diferenciaes espaciais.

  • 81As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    reas etnoculturais Ao examinar o primeiro ponto, seramos tentados desde logo a fazer uma

    distino elementar entre a frica ao norte do Saara frica branca, arabeizada e islamizada, profundamente tocada pelas civilizaes mediterrnicas e por isso mesmo desafricanizada e a frica ao sul do Saara, negra, plenamente africana, dotada de uma irredutvel especificidade etno -histrica. Na verdade, sem negar a importncia dessa distino, um exame histrico mais aprofundado revela linhas de diviso mais complexas e menos ntidas. O Sudo senegals e nigeriano, por exemplo, viveu em simbiose com o Magreb rabe -berbere e, do ponto de vista das fontes, est muito mais prximo do Magreb que do mundo bantu. Acontece o mesmo com o Sudo niltico em relao ao Egito, e com o chifre oriental da frica em relao ao sul da Arbia. Assim somos tentados a opor uma frica mediterrnica, desrtica e de savana, incluindo o Magreb, o Egito, os dois Sudes, a Etipia, o chifre da frica e a costa oriental at Zanzibar, a uma outra frica animista, tropical e equatorial bacia do Congo, costa guineense, rea do Zambeze -Limpopo, regio interlacustre e, finalmente, a frica do Sul. E verdade que essa segunda diferenciao se justifica, em grande parte, pelo critrio de abertura para o mundo exterior e, nesse caso, pela importncia da penetrao islmica. Esse fato de civilizao confirmado pelo estado das fontes escritas, que opem uma frica bem servida de documentos com gradaes norte -sul a uma frica completamente desprovida deles, ao menos no perodo em estudo. Mas a dupla considerao da abertura para o exterior e do estado das fontes escritas corre o risco de permitir julgamentos de valor e de ocultar sob o vu da obscuridade quase metade da frica (central e meridional). Muitos historiadores j chamaram a ateno para o risco do recurso s fontes rabes, que poderia fazer crer, pela nfase dada zona sudanesa, que tenha sido esta regio o nico centro de uma civilizao e de um Estado organizados4. Voltaremos a esse ponto mais tarde. Contudo, reconheamos desde j que, se h relao entre o estado de uma civilizao e o estado das fontes, essa relao jamais poderia explicar completamente o movimento da histria real. O historiador objetivo no tem o direito de fazer julgamentos de valor com base nos documentos de que dispe, mas tambm no deve negligenciar seu potencial informativo sob pretexto de que podem induzi -lo a erro.

    Se uma histria geral, que abrange a totalidade do perodo histrico, apoiando--se em todos os documentos disponveis pode atribuir tanta importncia

    4 HRBEK, I. 1965, v. V, p. 311.

  • 82 Metodologia e pr -histria da frica

    bacia do Zaire quanto do Nger ou ao Egito, um estudo que se limite s fontes escritas at o sculo XV no poderia faz -lo. Considerando todas estas observaes, podemos operar a seguinte estruturao regional:

    a) Egito, Cirenaica, Sudo niltico; b) Magreb, incluindo a franja norte do Saara, as zonas do extremo ocidente, a

    Tripolitnia e o Fezzan; c) Sudo ocidental, no sentido amplo, isto , at o lago Chade em direo a

    leste e incluindo o sul do Saara; d) Etipia, Eritreia, chifre oriental e costa oriental; e) O resto da frica, ou seja, o golfo da Guin, a frica central e o sul da

    frica.

    Essa classificao tem a vantagem de no opor duas fricas; estrutura o continente segundo afinidades geo -histricas orientadas dentro de uma perspectiva africana, mas leva tambm em considerao o carter particular das fontes escritas de que dispomos. Em termos de fontes escritas, a frica central e meridional, por mais rica em civilizao que possa ser, faz pobre figura em comparao com a menor frao das outras unidades regionais (Fezzan ou Eritreia, por exemplo). Por outro lado, no h dvida de que, alm da solidariedade geral que aproxima as fontes da frica conhecida, h uma solidariedade especfica e mais ntida em nossa informao sobre cada uma das zonas delimitadas acima. Um inventrio detalhado deveria, ento, passar em revista os textos, simultaneamente por perodos e por regies, mas reconhecendo previamente que, atravs das reas, e em menor grau, atravs dos perodos histricos, essas fontes se resumem apenas a algumas lnguas, a certos tipos limitados, no provm sempre da rea de que tratam, nem so sempre contemporneas do que descrevem.

    Tipologia das fontes escritas a) So inmeras as lnguas em que foram escritos os documentos que

    chegaram at ns, mas nem todas tm a mesma importncia. As mais utilizadas, aquelas em que foi veiculada a maior quantidade de informao so: o egpcio antigo, o berbere, as lnguas etopes, o copta, o swahili, o haussa, o fulfulde. As lnguas mais prolficas so as de origem no -africana: grego, latim, rabe (ainda que acolhido como lngua nacional por inmeros povos africanos). Se classificarmos os documentos numa ordem hierrquica que leve em conta ao mesmo tempo a quantidade e a qualidade da informao, obteremos a seguinte

  • 83As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    lista aproximativa: rabe, grego, latim, egpcio antigo (hiertico e demtico), copta, hebraico, aramaico, etope, italiano, swahili, persa, chins, etc.

    Em termos cronolgicos, nossas primeiras fontes escritas so os papiros hierticos egpcios datando do Novo Imprio, mas cuja primeira redao remontaria ao incio do Mdio Imprio (incio do segundo milnio), em particular, o papiro conhecido sob o ttulo de Ensinamentos para o rei Merikare5. Seguem--se os papiros e os ostraka do Novo Imprio, tambm em egpcio hiertico; as fontes gregas, que remontam ao sculo VII antes da Era Crist e prosseguem, sem interrupo, at poca mais recente, que coincide, aproximadamente, com a expanso do Isl (sculo VII da Era Crist); as fontes em hebraico (Bblia) e em aramaico ( Judeus de Elefantina), que datam da 26a dinastia; os textos demticos, da poca ptolomaica; a literatura latina, a literatura copta (em lngua egpcia, mas empregando o alfabeto grego enriquecido com algumas letras), que tm incio no sculo III da Era Crist; fontes em rabe, chins6, talvez persa, italiano, e, mais tarde, em lngua etope, na qual o mais antigo documento escrito remonta ao sculo XIII7.

    b) Classificadas por gneros, as fontes de que dispomos dividem -se em fontes narrativas e em fontes arquivsticas, umas conscientemente consignadas com o objetivo de deixar um testemunho, outras participando do movimento normal da existncia humana. No caso da frica, com exceo do Egito, mas incluindo o Magreb, as fontes narrativas so representadas quase que exclusivamente pelos documentos escritos at o sculo XII; cobrem, portanto, no s a Antiguidade como tambm a primeira Idade Islmica. A partir do sculo XII, o documento arquivstico, embora raro, comea a aparecer no Magreb (peas almoadas, fatwas ou pareceres jurdicos da poca hafssida). No Egito, os documentos arquivsticos tornam -se mais abundantes sob os Aibidas e os Mamelucos (sculos XII--XV), enquanto os manuscritos dos mosteiros etopes renem, em apndice, documentos oficiais. Mas esse tipo de texto praticamente inexiste no resto da frica, durante a poca aqui considerada8. Nosso perodo caracterizado

    5 GOLENISCHEFF. Les papyrus hiratiques, n. 1115, 1116A e 1116B de l Ermitage imprial SaintPtersbourg, 1913; o n. 1116A foi traduzido por GARDINER. In: Journal of Egyptian archaeology. Londres, 1914, p. 22 e segs. Cf. a esse respeito DRIOTON, E. e VANDIER, J. 1962, p. 226.

    6 Existe um texto chins datado da segunda metade do sculo XI, mas o essencial das fontes chinesas, ainda a ser explorado, diz respeito ao sculo XV e costa do leste africano. Pode -se notar tambm os seguintes trabalhos: DUYVENDAK, J. J. L. 1949; HIRTH, F. 1909 -1910; FILESI, T. 1962; LIBRA 1963; WHEATLEY, P. 1964.

    7 SELASSI, S. H. 1967, p. 13.8 Dispomos de mahrams, cartas -patente emitidas pelos reis do Bornu e que datariam do fim do sculo XI:

    o de Umm Jilmi e o da famlia Masbarma. Cf. MAUNY, R. 1961 e PALMER, H. 1928, t. III, p. 3.

  • 84 Metodologia e pr -histria da frica

  • 85As fontes escritas anteriores ao sculo XV

  • 86 Metodologia e pr -histria da frica

    pela preponderncia contnua das fontes narrativas, pelo aparecimento ou crescimento relativo das fontes arquivsticas a partir do sculo XII na frica mediterrnica, pela quase ausncia dela, na frica negra, mas, de maneira geral, pelo aumento substancial de nosso acervo de documentos a partir do sculo XI, culminando nos sculos XII -XIV.

    Os tipos de fontes podem ser enumerados do seguinte modo:

    Fontes narrativas

    crnicas e anais; obras de geografia, relatos de viagens, obras de naturalistas; obras jurdicas e religiosas, como tratados de direito cannico, livros santos

    ou hagiografias; obras propriamente literrias.

    Fontes arquivsticas

    documentos particulares: cartas familiares, correspondncia comercial, etc.; documentos oficiais oriundos do Estado ou de seus representantes:

    correspondncia oficial, decretos, cartas -patente, textos legislativos e fiscais; documentos jurdico -religiosos.

    Devemos observar que as fontes narrativas comeam no sculo VIII antes da Era Crist, com Homero, e compreendem um nmero considervel de obras -primas do esprito e do saber humanos. Entre os autores, encontramos grandes nomes, que, embora, em sua maioria, no tratem especificamente da frica, concedem -lhe um lugar mais ou menos importante dentro de uma perspectiva mais ampla. Entre esses nomes figuram: Herdoto, Polbio, Plnio, o Velho, Ptolomeu, Procpio, Khwarizmi, Masudi, Jahiz, Ibn Khaldun. A documentao arquivstica a mais antiga do mundo: se os papiros de Ravena so os mais antigos registros arquivsticos conservados na Europa, datando do incio do sculo VI da Era Crist, os papiros do Novo Imprio egpcio lhes so anteriores em vinte sculos. verdade que, na primeira Idade Islmica, esse tipo de testemunho no ultrapassou os limites do Egito, tendo conhecido uma expanso relativamente pequena at o fim de nosso perodo, o que talvez se possa explicar pelo fato de a civilizao islmica medieval ter praticamente ignorado o princpio da conservao de documentos de Estado. Dos sculos XIV e XV, o perodo mais rico em peas de arquivos, o que chega at ns so sobretudo

  • 87As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    obras enciclopdicas. somente na poca moderna, otomana e europeia, que se constituem os depsitos de arquivos propriamente ditos.

    Inventrio por perodos

    A Antiguidade pr islmica (das origens a 622) Esse perodo, em relao ao que o segue, caracterizado pela predominncia

    das fontes arqueolgicas e, em geral, no -literrias. Entretanto, ainda que secundrios, os documentos escritos nos fornecem por vezes informaes muito importantes; ademais, vo se tornando mais numerosos e precisos medida que avanamos no tempo. Do ponto de vista da diviso regional, devemos notar que esto totalmente ausentes na frica ocidental e central.

    Egito, Nbia, frica oriental a) As fontes escritas referentes ao Egito at o primeiro milnio so exclusivamente

    egpcias; trata -se dos papiros hierticos e dos ostraka, cuja origem no remonta alm do Novo Imprio, mas que podem, como dissemos, conter informaes mais antigas9. Papirus e ostrakon designam o suporte: no primeiro caso, trata -se de uma planta; no segundo, de uma lmina de calcrio. Os signos hierticos distinguem -se dos signos hieroglficos por sua aparncia cursiva, prestando -se melhor ao trao que ao entalhe. Os papiros e ostraka, numerosos na 19a e 20a dinastias do Novo Imprio ou perodo ramessita (1314 -1085 antes da Era Crist), referem -se tanto vida administrativa, como vida privada; encontramos relatrios administrativos e judicirios, registros de contabilidade, cartas particulares e tambm contos e romances. Os papiros jurdicos10 e os papiros literrios11 tm sido objeto de cuidadosos estudos e, desde o sculo XIX, vm sendo publicados.

    9 DRIOTON, E. e VANDIER, J. 1962, p. 7 -9; YOYOTTE, J. LEgypte ancienne. In: Histoire universalle. Col. Pliade.

    10 Entre os documentos jurdicos, temos o papiro Abbott, os papiros Amherst e Mayer, igualmente o de Turim... nos quais se baseia nosso conhecimento dos reinados de Ramss IX, X e XI. So publicados: cf. Select Papyri in the hieratic character from the collections of the British Museum. Londres, 1860; NEWBERRY. The Amherst Papyri. Londres, 1899; PEET. The Mayer Papyri. Londres, 1920; PEET. The great tombsrobberies of the Twentieth Egyptian Dynasty. 2 v., Oxford, 1930.

    11 A coleo do British Museum rica em papiros literrios. Encontramos, por exemplo, o conto da Verdade e da Mentira, o de Horus e de Seth. G. POSENER, grande especialista no assunto, elaborou uma lista quase completa das obras literrias egpcias e chegou a 85 ttulos: Revue dEgyptologie VI. 1951, p. 27 -48. G. POSENER publicou, ainda, stracos: Catalogue des ostraka hiratiques littraires de Deir el Medineh, Cairo, 1934 -1936.

  • 88 Metodologia e pr -histria da frica

    Nossos conhecimentos a respeito da Nbia e do pas de Punt baseiam--se unicamente em material arqueolgico e epigrfico (desenhos murais em particular), no se tendo encontrado fontes escritas at o presente momento.

    b) No primeiro milnio antes da Era Crist, especialmente a partir do sculo VI, diversifica -se e se altera a contribuio de nossas fontes. Os documentos narrativos somam -se aos documentos arquivsticos e, em certos momentos, substituem -nos. Um exemplo o Livro dos Reis, fragmento do Antigo Testamento, que nos d informaes preciosas sobre o advento da 22a dinastia (cerca de -950) e continua a ser de grande utilidade para todo o perodo seguinte, isto , at o domnio persa ( -525). O Livro dos Reis recebeu uma primeira redao antes da destruio de Jerusalm, ou seja, antes de -58612, e foi retocado durante o exlio, mas reproduz tradies que remontam ao incio do primeiro milnio antes da Era Crist. Outras fontes estrangeiras, gregas sobretudo, trazem dados sobre o baixo perodo a partir da primeira dinastia Sata (sculo VIII antes da Era Crist): Menandro, Aristodemo, Filocoro, Herdoto. Do ponto de vista arquivstico, os papiros deste perodo aparecem escritos em grego ou em demtico escrita ainda mais cursiva que o hiertico. No sculo -V, os papiros dos Judeus de Elefantina so nossa principal fonte, enquanto, nos sculos -IV e -III, aparece a crnica demtica.

    c) O perodo que se estende do estabelecimento dos Ptolomeus no Egito (fim do sculo IV antes da Era Crist) at a conquista rabe (639) cobre um milnio que se caracteriza pela abundncia de fontes gregas e pela emergncia da zona etope -eritreia em nosso campo de conhecimento. Polbio, Estrabo, Diodoro, Plnio, o Velho falam -nos dessa regio com uma preciso relativa, que no exclui a ignorncia ou a ingenuidade. O naturalista romano nos d em sua Histria natural numerosas informaes sobre o mundo etope, em particular no que diz respeito aos produtos do comrcio e aos circuitos de troca. obra de compilao, certamente de valor desigual, mas rica em detalhes.

    A informao de que dispomos torna -se mais precisa no meio milnio que se segue ao aparecimento do Cristianismo. O Egito, como sabemos, passa a ser, no sculo II, o foco principal da cultura helenstica, sendo muito natural que tenha produzido historiadores, gegrafos, filsofos e padres da Igreja. Integrado politicamente ao Imprio Romano, depois Bizantino, o Egito era objeto de inmeros escritos latinos ou gregos externos, de ordem narrativa ou arquivstica (Cdigo de Teodsio, por exemplo, ou Novellae de Justiniano). Notemos tambm

    12 LODS, A. Les Prophtes dIsral et les dbuts du judasme. Paris, 1950, p. 7; DRIOTON e VANDIER, op. cit. pas.; DORESSE, 1971, t. 1, p. 47 -61.

  • 89As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    que a corrente papirolgica no se esgota. Dessa massa documentria interna e externa emergem algumas obras de especial importncia: a Geografia de Ptolomeu (140 aproximadamente)13; o Priplo do Mar da Eritreia14, obra annima que calculamos ter sido composta em cerca de 230 (datada anteriormente do sculo I); a Topograf ia Crist15 de Cosmas Indicopleustes (535 aproximadamente). Esses escritos representam a base de nossa informao sobre a Etipia e o chifre oriental da frica. No conjunto, esta breve exposio aponta dois descompassos: o das fontes escritas em relao aos outros tipos de documentos, e o do nosso conhecimento do Egito em relao ao nosso conhecimento da Nbia e do mundo eritreu.

    O Magreb antigo A histria escrita do Magreb antigo nasceu do encontro de Cartago com

    Roma. Isso significa que no dispomos de nenhum documento importante anterior ao segundo sculo antes da Era Crist: apenas indicaes esparsas na obra de Herdoto, evidentemente, e nas obras de outros historiadores gregos. O perodo autenticamente pnico depende da arqueologia e da epigrafia. Alm disso, a histria de Cartago, tanto anterior quanto posterior a Anbal o confronto com Roma e o curto perodo de sobrevivncia que se seguiu no deve quase nada s fontes pnicas escritas. Sabe -se hoje que o Priplo de Hano (em grego), cuja descrio se estende s costas norte -ocidentais da frica, falso e no pode ter sido escrito antes do sculo I. Restam os trabalhos agronmicos atribudos a Mago, dos quais apenas alguns trechos foram conservados por autores latinos. Entre as fontes autctones, seria necessrio mencionar as notas de Juba II, que Plnio, o Velho, compilou em sua Histria Natural.

    O essencial, se no a totalidade, de nossas fontes escritas relativas histria do Magreb antigo fases cartaginesa, romana, vndala e bizantina constitudo pelas

    13 Sobre os gegrafos clssicos e ps -clssicos que trataram da frica, ver a obra fundamental de Yusuf KAMEL: Monumenta cartographica Africae et Aegypti, Cairo e Leyde, 1926 a 1951, 16 vol. Convm que esse trabalho seja reeditado com um aparato crtico novo e importante.

    14 Editado por MLLER. Geographi Graeci minores. Paris, 1853, t. I. Reeditado por Hjalmar FRISK em Gteborg em 1927. Essa importante obra vem sendo editada desde o sculo XVI, em 1533, e depois em 1577.

    15 COSMAS um viajante que visitou a Etipia e a ilha de Socotra. Sua obra figura na Patrologie grecque, de MIGNE, t. 88, coleo que deve necessariamente ser consultada no que se refere Antiguidade, ao lado da Patrologie Latine, do mesmo MIGNE. A obra de COSMAS recebeu excelente edio em trs tomos das Editions du Cerf, Paris, 1968 -1970. Assinalemos a importncia, para nosso conhecimento da cristianizao da Etipia, da Historia Ecclesiastica, de RUFINO. In: Patrologie grecque, de MIGNE, com traduo latina.

  • 90 Metodologia e pr -histria da frica

    obras dos historiadores e gegrafos clssicos, isto , aqueles que escreviam em grego ou latim. Em geral, esses autores no so africanos, mas medida que a frica se romaniza, surgem escritores autctones, especialmente entre os padres da Igreja.

    a) No perodo que se estende de -200 a +100 e que corresponde ao apogeu e queda de Cartago, organizao da provncia romana da frica sob a Repblica e o principado, temos por fontes uma grande quantidade de documentos conhecidos, escritos em latim e grego: Polbio ( -200 a -120), nossa fonte principal; Estrabo; Diodoro da Siclia; Salstio ( -87 a -35); Tito Lvio; pio; Plnio; Tcito; Plutarco (sculo +I) e Ptolomeu (sculo +II), sem contar os numerosos escritores menores16.

    Seria muito til que se reunissem os escritos dispersos relativos frica do Norte. At agora foram coligidos apenas os documentos referentes ao Marrocos17. Assim sendo, o pesquisador v -se obrigado a examinar sistematicamente as grandes colees clssicas, em que a erudio europeia do sculo XIX utilizou todos os seus recursos de crtica e de formidvel labor: Bibliotheca Teubneriana, The Loeb Classical Library (texto e traduo inglesa), Collection G. Bud (texto e traduo francesa), Collection des Universits de France, Scriptorum classicorum Bibliotheca Oxoniensis. Seria conveniente acrescentar a essas fontes narrativas, outras mais diretas, constitudas pelos textos do direito romano, embora sejam estes de origem epigrfica18.

    As obras escritas dos analistas, cronistas e gegrafos greco -latinos no tm valor uniforme em todo o subperodo considerado. Alguns tendem a compilar as informaes de seus predecessores, outros nos trazem informaes originais preciosas e s vezes at mesmo um testemunho direto. Polbio, por exemplo, viveu na intimidade dos Cipio e provavelmente assistiu ao stio de Cartago em -146; o Bellum Jugurthinum, de Salstio, um documento de primeira ordem sobre os reinos berberes; o Bellum Civile, de Csar, a obra de um ator da Histria.

    A figura e a obra de Polbio dominam esse perodo. Polbio , como j foi dito19, o filho da poca e da cultura helensticas. Nasceu em -200 aproximadamente, isto , no momento em que ocorre o encontro de Roma, na exploso de seu imperialismo, com o mundo mediterrnico e, mais especificamente, com o

    16 Citemos: ARISTTELES (Poltica), CSAR (Bellum Civile e Bellum Ajricum), EUTRPIO, JUSTINO, ORSIO. H mais de trinta fontes textuais apenas para a histria de Anbal.

    17 ROGET, M. Le Maroc chez les auteurs anciens. 1924.18 GIRARD, P. P. Textes de droit romain. 6.a ed., 1937.19 Cambridge Ancient History, v. VIII: Rome and the Mediterranean.

  • 91As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    mundo helenstico. Prisioneiro e exilado em Roma, aprendeu as duras lies do exlio, esse mestre violento do historiador e do filsofo. A proteo dos Cipio amenizou sua estada, mas lhe valeu, sobretudo, para a aquisio de vasto conhecimento da histria de Roma e de Cartago. Aps 16 anos de cativeiro, retornou ptria, a Grcia, mas no demorou a deix -la novamente para percorrer o mundo. Conta -se que durante sua estada na frica, Cipio Emiliano ofereceu -lhe uma frota para que pudesse explorar a costa atlntica do continente. Em outras palavras, estamos diante de um homem de audcia, experincia e incansvel curiosidade. Polbio no apenas nossa principal fonte para tudo que se refere ao duelo pnico -romano; de um ponto de vista mais amplo, um observador de primeira ordem da frica e do Egito de seu tempo. Se os 40 livros que compem as Pragmateia tivessem chegado at ns, talvez nossos conhecimentos fossem muito mais completos; talvez tivssemos informaes precisas preciso que falta em toda parte sobre a prpria frica negra. Assim mesmo, os seis livros que se conservaram destacam -se das demais fontes pela qualidade da informao e inteligncia da observao.

    b) Aps o sculo I e durante os quatro sculos em que se enraza ao mximo a organizao imperial na frica, entrando, posteriormente, numa crise prolongada, as fontes literrias tornam -se raras. H um vazio quase total no sculo II e os sculos III e IV so marcados pela predominncia de escritos cristos, especialmente os de Cipriano e Agostinho. H obras gerais, que ultrapassam o quadro africano para colocar os grandes problemas religiosos e que no participam do discurso histrico direto, mas h tambm obras polmicas e de circunstncia, mais comprometidas com os acontecimentos. O que sabemos a respeito do movimento donatista baseia -se nos ataques do maior de seus adversrios, Santo Agostinho (354 -430), e, por isso mesmo, as precaues mais srias mostram -se necessrias.

    Do mesmo modo, no que se refere s fontes escritas relativas ao perodo imperial, a patrologia apresenta -se como o principal instrumento de nosso conhecimento, embora seja muito parcial. O pesquisador ter, tambm nesse caso, acesso a grandes colees:

    o Corpus de Berlim em grego (apenas o texto); o Corpus de Viena em latim (apenas o texto).

    Esses monumentos da erudio alem tm seus equivalentes na erudio francesa, com os dois Corpus de Migne:

    a Patrologia grega (texto e traduo latina); a Patrologia latina (apenas o texto latino).

  • 92 Metodologia e pr -histria da frica

    O intermdio vndalo, a reconquista bizantina e a presena bizantina durante mais de um sculo, levaram um nmero maior de escritores a registrar os acontecimentos. Os documentos chamados menores so abundantes; aparecem as fontes arquivsticas (correspondncia, textos legislativos). Alm do mais, temos a sorte de contar com um observador fecundo e talentoso: Procpio (sculo VI), que , sem dvida alguma, nossa fonte fundamental com seu De Bello Vandalico. Recorreremos Coleo Bizantina de Bonn e, secundariamente, aos Fragmenta historicorum graecorum, para os textos gregos. Os numerosos textos latinos encontram -se na Patrologia latina (as obras de So Fulgncio apresentam certo interesse para o conhecimento do perodo vndalo), ou nas Monumenta Germanica historica, autores antiquissimi20, outro monumento da erudio alem, que reagrupa as crnicas menores do perodo bizantino: Cassiodoro, Prspero Tiro, e sobretudo Victor de Vita e Coripo. Estes dois autores merecem a maior ateno o primeiro para o perodo vndalo, o segundo para o perodo bizantino , pois penetram no interior do continente, fazendo emergir da obscuridade essa frica por tanto tempo esquecida21. Em sua obra clssica sobre a frica bizantina, Charles Diehl mostrou como se podia utilizar conjuntamente o material arqueolgico e textual para se obter a mais completa representao da realidade histrica. Utilizou o maior nmero possvel de fontes escritas: primeiramente Procpio, depois Coripo, mas tambm Agathias, Cassiodoro, Jorge de Chipre22, as cartas do Papa Gregrio Magno e documentos jurdicos, tais como as Novellae e o Cdigo Justiniano, to teis no estudo da vida econmica e social.

    Parece pouco provvel que se possa enriquecer, com novas descobertas, a lista estabelecida de nossos documentos escritos. Em compensao, pode--se explor -los melhor, estudando -os com maior profundidade, aplicando--lhes uma crtica rigorosa, confrontando -os com um material arqueolgico e epigrfico ainda inesgotado, sobretudo utilizando -os com mais honestidade e objetividade23.

    20 Nas Monumenta, de Mommsen, t. 9/1 -2 (1892) 11 (1894) e 13 (1898), encontram -se o texto de Victor de Vita no t. 3 -1 (1879), editado por C. HOLM, e o texto de Coripo no t. 3 -2 (1879), editado por J. PARTSCH.

    21 Sobre a frica vndala e bizantina, dispomos de duas obras modernas fundamentais, que fornecem detalhes das fontes utilizveis: C. COURTOIS, 1955, e C. DIEHL, 1959. Para o alto perodo, a Histoire ancienne de lAfrique du Nord, de S. GSELL, que, embora envelhecida, ainda deve ser consultada.

    22 Descriptio orbis romani. ed. Gelzer.23 Sobre as distores advindas de uma leitura parcial dos textos, a crtica da historiografia ocidental apre-

    sentada por Abdallah LAROUI to pertinente quanto bem -informada (1970).

  • 93As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    A frica saariana e ocidental A rigor, no dispomos de nenhum documento digno de confiana sobre a

    frica negra ocidental. Admitindo com Mauny24 que os antigos cartagineses, gregos, romanos no ultrapassaram o cabo Juby e a latitude das ilhas Canrias, o que mais que provvel, somos levados a concluir que as informaes transmitidas por suas obras referem -se ao extremo sul marroquino. Certamente alcanam a fronteira do mundo negro, mas no o penetram.

    O Priplo de Hano falso, se no inteiramente, ao menos em grande parte25. um documento composto, em que se misturam dados tomados de emprstimo de Herdoto, Polbio, Possidnio e do Pseudo -Sila, e que deve datar do sculo I. As obras desses autores so mais dignas de crdito. Herdoto fala -nos sobre o comrcio mudo que os cartagineses praticavam no sul do Marrocos. O continuador do Pseudo Sila (sculo -IV) nos d, por sua vez, informaes preciosas sobre as relaes entre cartagineses e lbico--berberes. Mas novamente Polbio que se revela a fonte mais confivel. Os fragmentos de seu texto, interpolados em Plnio, o Velho, oferecem -nos os primeiros topnimos identificveis da Antiguidade; mas, tambm nesse caso, sua informao interrompe -se no cabo Juby. Seria necessrio complet -la, no que se refere ao arquiplago das Canrias, com as notas de Juba II recolhidas por Plnio, Estrabo, Diodoro da Siclia. Os outros histpriadores -gegrafos do sculo I antes e depois da Era Crist apenas compilaram os autores anteriores, salvo alguns detalhes. Finalmente, no sculo lI, Ptolomeu, retomando todos seus predecessores, baseando -se principalmente em Posidnio e Marino de Tiro, consigna em sua Geograf ia a evoluo mxima dos conhecimentos relativos aos contornos da frica na Antiguidade26. O mapa da Lbia Interior, do gegrafo alexandrino, tornou acessveis as informaes recolhidas pelo exrcito romano, na ocasio de suas expedies punitivas alm do limes at o Fezzan: a de Balbo em -19, a de Flaco em +70, a de Materno em +86 (que penetrou mais profundamente no deserto lbio)27. Nomes de povos e regies sobreviveram Antiguidade: Mauritnia, Lbia, Garamantes, Getulos, Nmidas, Hesprides e at mesmo Nger, empregado por Ptolomeu, e retomado por Leo, o Africano, e depois pelos europeus modernos. Essa uma das contribuies de nossos textos

    24 MAUNY, R. 1970, p. 87 -111.25 Id., p. 98; TAUXIER, L. 1882, p. 15 -37; GERMAIN, G. 1957, p. 205 -48. 26 KAMEL, Y. Monumenta, op. cit., t. II, Fasc. I, p. 116 e segs.; MAUNY, R. LOuest africain chez

    Ptolme, nas Actes de la IIe Confrence Internationale des Africanistes de l Ouest. Bissau, 1947. 27 MARINO DE TIRO, uma das fontes de PTOLOMEU, divulgou -o; cf. KAMEL, Y. t. I, 1926, p. 73.

  • 94 Metodologia e pr -histria da frica

    que, por outro lado, nos fornecem, mais do que dados reais, a representao que a Antiguidade fazia da frica. As poucas indicaes existentes referem -se ao deserto da Lbia e s costas do Saara Ocidental; em todos esses textos, a frica negra ocidental permanece marginalizada.

    A primeira idade islmica (622 1050 aproximadamente)

    A conquista rabe e o estabelecimento do califado tiveram por consequncia a unificao de domnios poltico -culturais anteriormente dissociados (Imprio Sassnida, Imprio Bizantino), o alargamento do horizonte geogrfico do homem, o remanejamento das correntes de intercmbio, a penetrao de povos at ento desconhecidos. No , portanto, surpreendente que, pela primeira vez, tenhamos informaes mais precisas sobre o mundo negro, tanto do leste como do oeste. Mas enquanto o Egito e o Magreb estavam integrados no corpo do Imprio e depois da comunidade islmica, o mundo negro simplesmente fazia parte de sua esfera de influncia; da uma informao parcelar, desconexa, s vezes mtica, mas ainda assim preciosa.

    Se excluirmos as fontes arquivsticas, cuja tradio continua no Egito (papiros coptas e gregos de Afrodite, papiros rabes do Faium e de Ashmunayn28, enfim, no sculo X, algumas peas de arquivos fatmidas) e que concernem especificamente a esse pas, a maior parte de nossas fontes, narrativas no sentido amplo ou indireto, comum a toda a frica. uma caracterstica evidente nas obras geogrficas e que pode ser percebida em vrios textos jurdicos. Portanto, parece mais cmodo proceder, nesse caso, a um inventrio por gnero, destacando, todavia, a sucesso cronolgica e sem perder de vista a estrutura regional.

    As crnicasa) No dispomos de nenhuma crnica anterior ao sculo IX. Mas foi no sculo

    VIII que se elaborou a informao oral, tendo como centro incontestvel o Egito, com exceo da costa oriental da frica, em ligao comercial direta com o Iraque meridional. Por outro lado, o carter excntrico do Egito, do Magreb e a fortiori do Sudo fez com que, mesmo no sculo IX, sculo da exploso da historiografia

    28 So importantes os trabalhos de GROHMANN: Arabie papyri in the Egyptian Library. 5 v., 1934--1959; Einfhrung und Chrestomathie der Arabischen Papyrus kinde. Praga, 1955. Os papiros gregos e coptas foram estudados por H. BELL. Para os registros fatmidas: SHAYYAL, Majm at al -Wath iq al -Ftimiyya, Cairo, 1958.

  • 95As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    rabe, lhe fosse reservado um pequeno lugar nas grandes tarikh29 (al-Tabari, al -Dinawari, al -Baladhori dos Ansab al Ashraf ) focalizadas no Oriente. Deve--se fazer exceo a uma crnica at recentemente quase desconhecida: a tarikh de Khalifa b. Khayyat30. Esse livro no constitui apenas a mais antiga obra de anais rabes (Khalifa morreu em 240 H.); conservou tambm materiais antigos negligenciados por al-Tabari; a destacar, principalmente, suas indicaes sobre a conquista do Magreb. Enquanto a tradio medinense deixou na obscuridade a conquista do Egito e do Magreb, dos Maghazi dos quais apenas os traos mais evidentes so referidos, de modo conciso, nos Futuh al Buldan de Baladhori, um jurista egpcio dedica -se exclusivamente ao assunto, numa obra que constitui o documento mais importante do sculo IX. Os Futuh Misr wa l Maghrib31, de IbnAbd al -Hakam, semelhantes a uma crnica ou a uma obra de maghazi, so na realidade uma coletnea de tradies jurdicas que distorcem a informao histrica.32

    b) Aps um sculo de silncio33 (850-950), surge uma obra fundamental que parece no ter sido explorada em todas as suas dimenses: o Kitab Wulat Misr wa Qudhatuha, de Kindi (morto em 961). Essa obra biogrfica, que no uma crnica, embora possa ser tratada como tal, no apenas encerra dados precisos e de primeira mo sobre o Egito, mas tambm devido aos primeiros laos dessa provncia com o Magreb se revela uma das fontes mais seguras para o conhecimento do Magreb no sculo VIII34. O sculo X o sculo ismailiano do Isl e do Isl africano principalmente: consultar -se -o, assim, os escritos

    29 Todavia, importante assinalar que um dos primeiros historigrafos rabes, UMAR B. SHABBA nos legou o mais antigo testemunho rabe relativo aos Negros, texto reproduzido por AL -TABARI, Tarikh, t. VII, p. 609 -614. Trata -se da revolta dos Sudan, em Medina, em 145 H. /+762, atestando uma forte presena africana no alto perodo. Esse texto no foi comentado at agora.

    30 Editado em Najaf, em 1965, por UMARI com prefcio de A. S. al -ALI, 344 p.31 Editado por TORREY em 1922, traduzido parcialmente por GATEAU, reeditado no Cairo por AMIR

    em 1961. Sobre as precaues que devem ser tomadas para sua utilizao: R. BRUNSCHWIG, Ibn Abd al Hakam et la conqute de lAfrique du Nord par les Arabes, Annales de l Institut dEtudes orientales dAlger, VI, 1942 -1947, estudo hipercrtico que no nos parece prejudicar a contribuio desse texto, fundamental para o Egito, til para a Ifrikya, importante para o mundo negro (eventuais contatos de Uqba com o Fezzan negados por BRUNSCHWIG num outro artigo; o famoso tratado chamado Baqt com os nbios).

    32 No h muita coisa para se extrair de um compilador tardio, UBAYD ALLAH B. SALIH, descoberto e magnificado por E. LVI -PROVENAL, cf. Arabica, 1954, p. 35 -42, como uma nova fonte da conquista do Magreb. E. LVI -PROVENAL seguido em seu julgamento por MAUNY, in: Tableau, op. cit., p. 34, cuja anlise das fontes rabes, cuidadosa e exaustiva, no se preocupa muito com a crtica rigorosa.

    33 Com exceo de algumas crnicas annimas interessantes como al -Iman wa -s -Siyasa, Cairo, 1904, do pseudo -Ibn QUTAYBA e o annimo Akhbar MADJMUA, Madri, 1867.

    34 Editado por R. GUEST em 1912 e reeditado em Beirute em 1959.

  • 96 Metodologia e pr -histria da frica

    xiitas, como a Sirat al Hajib Ja far, mas sobretudo a Iftitah ad Da wa do Cadi al -NuMan, obra fundamental, sem muitas datas, mas rica em informaes sobre o incio do movimento fatmida35.

    c) A primeira metade do sculo XI presenciou a redao do famoso Tarikh, de al -Raqiq (morto em 1028), fonte fundamental. A obra considerada perdida, mas o essencial foi retomado por compiladores, como Ibn al -Idhari. Recentemente, um fragmento dedicado alta poca ifriqiyana, descoberto pelo marroquino Mannuni, foi editado em Tnis (1968) por M. Kaabi, sem que, com segurana, possamos atribu -la a Raqiq36.

    Em todas essas crnicas, o lugar reservado frica negra mnimo. Alm disso, elas exigem do historiador uma crtica rigorosa, uma confrontao constante dos dados, entre si e com os de outra origem. O historiador do Magreb e do Egito, principalmente, no pode parar nesse ponto: um conhecimento profundo do Oriente absolutamente necessrio. A utilizao dessas fontes deve, ento, ser completada com a utilizao em profundidade das crnicas orientais clssicas.

    Fontes geogrficas So importantes e numerosas a partir do sculo IX. Quer pertenam ao

    gnero cartogrfico do Surat al -Ardh, ilustrado por al -Khwarizmi, geografia administrativa, categoria dos itinerrios e pases (Masalik) ou simplesmente de viagem mais ou menos romanceada, os documentos geogrficos escritos em rabe ilustram um desejo de apreenso da totalidade do oekumene. Assim, no de surpreender que a frica negra esteja representada nessas fontes e que sejam elas elemento fundamental do nosso conhecimento dessa frica. A coletnea exaustiva compilada por Kubbel e Matveev37, que se interrompe no sculo XII, mostra que, dos 40 autores que falaram da frica negra, 21 so gegrafos, e seus textos so os mais ricos em contedo. Mas no poderamos tirar real proveito dessas fontes sem um trabalho crtico preliminar. O historiador da frica negra deve recolocar as obras geogrficas rabes dentro de seu contexto cultural prprio. Em que medida, por exemplo, tal descrio corresponde realidade e em que medida no reflexo dos temas repetidos do Adab com seus diversos componentes?38 Qual a parte da

    35 Publicado em Tnis por M. DACHRAOUI, e em Beirute.36 M. TALBI negou declaradamente a autoria a al -RAQIQ, in: Cahiers de Tunisie, XIX, 1917, p. 19 e segs.,

    sem, entretanto, chegar verdadeiramente a convencer. A incerteza, portanto, subsiste.37 KUBBEL, L. E. e MATVEEV, v. V, 1960 e 1965. Ver tambm CUOQ, J. 1975.38 MIQUEL, A., 1967 e 1975.

  • 97As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    herana grega, da herana iraniana, da prpria tradio rabe a da compilao, a da observao concreta? Mas, por outro lado, deve -se exercer a crtica dos textos a partir do interior, isto , com um conhecimento aprofundado da histria da frica, tomando -se cuidado para no ler essa histria apenas em fontes essencialmente geogrficas. Mas inadmissvel o ponto de vista estritamente ideolgico daqueles que, por islamofobia39, preocupao mal colocada de um africanismo introvertido, recusam o exame aprofundado dessas fontes40.

    Da pliade de gegrafos que, da metade do sculo IX a meados do sculo XI, concederam um lugar frica quase todos esto nesse caso , somente alguns transmitem uma informao original e sria: Ibn Khordadhbeh, Yakub (morto em 897), al -Masudi (965), Ibn Hawkal (977), al -Biruni41. Yakub viajou pelo Egito e Magreb, deixando -nos um relatrio substancial desses pases. Tanto na sua Tarikh como em seus Buldan42, encontram -se inmeras informaes relativas ao mundo negro: sobre a Etipia, o Sudo, a Nbia, os Bejja, os Zendj. No Sudo, menciona os Zghawa do Kanem e descreve seu habitat; ao descrever o importante reino de Gana trata do problema do ouro, assim como, ao falar do Fezzan, refere -se ao problema dos escravos. So ainda mais detalhados os Masalik43, de Ibn Hawkal, que visitou a Nbia e talvez o Sudo ocidental; sua descrio vale, sobretudo, pela ideia que d das relaes comerciais entre o Magreb e o Sudo. Quase todos os outros gegrafos do sculo X fazem observaes sobre a frica negra: Ibn al -Fakih sobre Gana e Kuki; o viajante Buzurg Ibn Shariyan sobre a costa oriental e os Zendj; e Muhallabi, que conservou em seu tratado fragmentos de Uswani. Finalmente, o Campos de Ouro de al -Masudi (965) rico em informaes sobre os Zendj e a costa oriental. Desde cedo, esses

    39 Ver sobre esse assunto a posio bastante crtica de L. FROBENIUS e a de J. ROUCH: Contribution l histoire des Songhay. Dacar, 1953. Que denuncia, sobretudo, a deformao ideolgica das crnicas sudanesas.

    40 verdade que esses textos se aplicam sobretudo ao cinturo sudans e que, por esse motivo, uma leitura unilateral das fontes rabes, sem o auxlio da arqueologia, pode falsear a perspectiva. Mas no se pode dizer que faltava objetividade aos autores rabes. Quanto a lastimar o carter fragmentrio e desordenado de seus escritos, significaria abandonar o ponto de vista do historiador para adotar o do historiador da literatura. Encontraremos julgamentos variados em N. LEVTZION. Ser til tambm referirmo -nos comunicao de I. HRBEK no XII Congresso internacional das cincias histricas em Viena (Atas, p. 311 e segs.). Ver tambm T. LEWICKI: Perspectives nouvelles sur l histoire africaine, relatrio do Congresso de Dar -es -Salam, 1971, e Arabic external sources for the History of Africa to the South of the Sahara, Wroclaw -Warszawa -Krakow, 1969.

    41 Ver Correio da Unesco, jun. 1974.42 Editado na Bibliotheca Geographorum arabicorum, t. 7, de GOEJE, como a maioria dos gegrafos rabes.

    A traduo de G. WIST, sob o ttulo de Livre des Pays, til, mas nem sempre precisa.43 Kitab al -Masalik wa -l -Mamalik, B. G. A. II; KUBBEL, L. E. e MATVEEV, V. V. II, p. 33 e segs.

  • 98 Metodologia e pr -histria da frica

    textos chamaram a ateno dos especialistas africanistas e orientalistas, como Delafosse, Cerulli44, Kramers45 e Mauny46.

    Fontes jurdicas e religiosas Os tratados de direito e as viagens hagiogrficas de Tabakat, desde a

    Mudawwana de Sahnun at os tratados caridjitas constituem rico manancial de informaes sobre o Magreb; alguns so utilizveis para a regio saariana de contato com a frica negra. A crnica sobre os ims rustmidas de Taher, de Ibn al -Saghir (incio do sculo X)47, permite -nos afirmar a existncia, a partir do fim do sculo VIII, de relaes comerciais entre o principado ibadita e Gao. Permite -nos, tambm, completada por compilaes posteriores, tais como as Siyar de al -Wisyani, identificar a ocorrncia desse comrcio em toda a orla saariana da frica do Norte. Mas essas fontes hagiogrficas s fornecem informaes de maneira alusiva; devem ser lidas de acordo com uma problemtica prefixada e constantemente comparadas com outros tipos de fontes. No autorizam, em nossa opinio, construes e dedues ousadas, como a que prope Lewicki.

    A segunda idade islmica (1050 1450)

    O que caracteriza esse longo perodo a riqueza, a qualidade e a variedade de nossa informao. As fontes arquivsticas, sempre secundrias em relao aos documentos literrios escritos, so, contudo, importantes: documentos da Geniza, cartas almorvidas e almoadas, registros de Waqf, fatwas, documentos italianos, peas oficiais intercaladas nas grandes compilaes. Os cronistas produzem obras de primeira ordem, que valem tanto pela observao dos fatos a eles contemporneos como pela reproduo de antigas fontes perdidas. Finalmente, no que se refere frica negra, nosso conhecimento atinge seu ponto mximo, enquanto com os manuscritos etopes surgem novos documentos africanos.

    44 Documenti arabi per la storia dell Ethiopia, 1931.45 Djughrafiya, Enciclopdia do Isl; LErythre dcrite dans une source arabe du Xe sicle, Atti dei XIX Congresso

    degli Orientalisti, Roma, 1938.46 O primeiro captulo de seu Tableau um inventrio sistemtico das fontes geogrficas.47 Publicada nas Actes du XIVe Congrs international des orientalistes (3a parte), 1908, e estudada por T.

    LEWICKI, 1971, v. 13, p. 119 e segs.

  • 99As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    Fontes arquivsticas Valem unicamente para o Egito e o Magreb. a) Dispomos atualmente dos documentos da Geniza do Cairo, que cobrem

    toda a poca em considerao; a maior parte, entretanto, do perodo fatmida, e apenas alguns pertencem aos sculos mamelucos. Esses documentos constituem um bricabraque de papis de famlia, de correspondncia comercial, que refletem as preocupaes da comunidade judaica do Egito e outros lugares. A utilizao dos documentos escritos em lngua rabe e em caracteres hebraicos no -datados exige um certo nmero de precaues tcnicas. Mas, mesmo como so, eles representam um manancial inesgotvel de informaes48.

    Pode -se classificar na mesma categoria a dos arquivos particulares os registros de Waqf, numerosos para a poca mameluca, conservados pelo Cartrio do Cairo49, assim, talvez, como os fatwas da poca hafssida.

    b) Por outro lado, os documentos europeus relativos ao Egito e ao Magreb, datados dos sculos XII, XIII e XIV, pertencem em parte ao domnio privado e em parte ao domnio pblico. So mantidos nos arquivos pblicos e privados de Veneza, Gnova, Pisa, Barcelona e consistem de tratados, contratos, cartas, em geral referentes a relaes comerciais. Apenas alguns foram publicados por Amari e Mas -Latrie50. Oferecem, no conjunto, uma massa documentria capaz de ampliar o campo da investigao no domnio da histria econmica e social.

    c) No temos, propriamente dito, arquivos de Estado relativos a essa poca. Mas foram conservadas e publicadas peas oficiais almorvidas e almadas, que lanaram uma nova luz sobre a ideologia e as instituies produzidas pelos dois movimentos imperiais51. Comeamos, comenta Laroui, a ver o almoadismo de dentro: j no impossvel escrever uma histria religiosa e poltica da

    48 So importantes os trabalhos de S. D. GOITEIN, artigo Geniza in: E. I. 2.a ed.; The Cairo Geniza as source for mediterranean social history; Journal of the American Oriental Society, 1960. S. D. GOITEN comeou a publicar um estudo muito importante sobre as fontes da Geniza: A Mediterranean society: the jewish communities of lhe Arab world as portrayed in the Documents of the Cairo Geniza, v. I, Economics Foundations, Berkeley -Los Angeles, 1967. S. SHAKED, A tentative bibliography of Geniza documents. Paris -La Haye, 1964; H. RABIE, 1972, p. 1 -3. Um grande nmero desses documentos encontra -se no British Museum e em Cambridge.

    49 RABIE, H. 1972, p. 6 -8 e 200.50 AMARI, I diplomi arabi dei R. Archivio Fiorentino, Florence, 1863; MAS -LATRIE, Traits de paix et de

    commerce et documents divers concernant les relations des Chrtiens avec les Arabes dAfrique septentrionale au Moyen ge. Paris, 1866, suplemento 1872.

    51 Lettres officielles almohavides, editadas por H. MUNIS e A. M. MAKKI; trente sept lettres officielles almohades, editadas e traduzidas por E. LEVI -PROVENAL, Rabat, 1941; Al -Baydaq, Documents indits dhistoire almohade, ed. e trad. francesa por E. LEVI -PROVENAL, Paris, 1928.

  • 100 Metodologia e pr -histria da frica

    dinastia52. De poca mais antiga encontramos no Egito enciclopdias histrico--jurdicas que renem inmeros documentos oficiais: a descrio detalhada que nos oferecem das estruturas fiscais e institucionais do Egito provm, em geral, de uma consulta prvia a documentos pblicos. Nesse gnero meio arquivstico, meio de crnica, podemos classificar os Qawanin al Dawawin de Mammati (poca aibida), o Minhadj de Makhzum, Subh -al -sha al -Kalkashandi (sculo XIV), e as inmeras obras de al -Makrizi, dentre as quais, os valiosos Khitat (sculo XV)53. Al -Makrizi uma fonte preciosa no s para toda a histria do Egito islmico, mas tambm para a histria da Nbia, do Sudo e da Etipia54.

    Fontes narrativas a) Crnicas: aps um sculo de silncio o sculo XII, no decorrer do qual

    encontramos quase apenas o annimo al Istibsar e obras menores , os sculos XIII e XIV nos oferecem uma safra de crnicas, ricas em todo ponto de vista, desde o Kamil, de Ibn al -Athir, at o Kitab al Ibar, de Ibn Khalduri, passando por Ibn al -Idhari, al -Nuwairi, Ibn Abi Zar, al -Dhahabi. Testemunhas de seu tempo, esses homens realizaram tambm um esforo de sntese dos acontecimentos dos sculos anteriores. Nuwairi to importante para os Mamelucos como para a conquista do Magreb55; Ibn Idhari, tanto para a histria almoada como para todo o passado da Ifrikya; e o conhecimento de Ibn Khaldun, enfim, sobre o mundo berbere o faz autoridade suprema em matria de histria da frica.

    b) Geografia: os tratados de geografia aparecem em abundncia nesses quatro sculos. Seu valor varia conforme o autor e conforme a regio descrita. Dois gegrafos destacam -se da maioria pela amplitude e qualidade de sua observao: al -Bakri (1068), no sculo XI, e alUmari (morto em 1342) no sculo XIV. Enquanto obra to notria como a de Idrisi discutvel e discutida, podemos obter informaes originais em obras geogrficas menos conhecidas: a de Ibn

    52 LAROUI, A. 1970, p. 162.53 RABIE, H. 1972, p. 10 -20.54 Seu Kitab al Ilman nos d uma relao dos reinos muulmanos da Etipia, emprestada, verdade, de

    UMARI. Um trecho foi publicado em Leyde em 1790 sob o ttulo de Historia regum islamicorum in Abyssinia.

    55 Mas esse fragmento conserva -se, ainda, em manuscrito na Biblioteca Nacional do Cairo. Assinalemos que IBN SHADDAD, autor de uma histria, agora perdida, de Kairuan, considerado uma das fontes principais de IBN AL -ATHIR e de NUWAIRI. Recentemente, foi editada obra annima, o Kitab al Uyun, em Damasco, por M. Saidi, com informaes interessantes sobre o Magreb.

  • 101As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    Said, por exemplo, to interessante para o Sudo56. Os Masalik e Namalik57, de Bakri, representam o apogeu de nosso conhecimento geogrfico do Magreb e do Sudo. O prprio Bakri no viajou nessas regies, mas utilizou inteligentemente as notas de al -Warraq, hoje perdidas, assim como informaes de mercadores e viajantes.

    O Livro de Roger de al -Idrisi (1154), no prelo na Itlia, toma emprestado muita coisa de seus predecessores. Confusa quando trata da Etipia, sua descrio torna -se mais precisa para a frica ocidental. Mas, aqui e ali, aparece uma observao original, s vezes preciosa.

    A Geografia de Ibn Said al -Gharnata (antes de 1288) utiliza -se de Idrisi em sua descrio da Etipia, embora traga, tambm, informaes novas. Mas seu interesse principal deve -se descrio que faz do Sudo, amplamente baseada nos documentos escritos por um viajante do sculo XII: Ibn Fatima. A obra capital do sculo XIV para o historiador da frica negra a de alUmari: Masalik al Absar58. Testemunho de um observador de primeira ordem, ela nossa principal fonte para o estudo do reino do Mali, em sua organizao interna e em suas relaes com o Egito e o Isl. Mas tambm o relatrio rabe mais rico que temos sobre os Estados muulmanos da Abissnia no sculo XIV. A obra de alUmari apresenta, alm do interesse de sua descrio, o problema do aparecimento do Estado no Sudo e o da islamizao, como fazia, trs sculos antes, al -Bakri relativamente ao problema do grande comrcio de ouro. Este ltimo autor evoca a profundeza dos laos entre o Magreb e o Sudo; o primeiro sugere o deslocamento desses laos para o Egito.

    A obra de Umari completada por outra, de um observador direto da realidade sudanesa e magrebiana: Ibn Battuta.

    Mas os gegrafos menores e autores de narrativas de viagens so numerosos e devem, de qualquer modo, ser consultados. Citemos: al -Zuhri (sculo XII), Yakut, al -Dimashki (sculo XIV), a geografia dita Mozhaferiana, Ibn Jubayr, al -Baghdadi, Abdari, Tijani, al -Balawi, al -Himyari.

    c) Fontes de inspirao religiosa e literria: as fontes religiosas provm de vrios horizontes. Notemos as obras de Tabakat e de hagigrafos sunitas, caridjitas, marabticos e mesmo cristos (originrios da comunidade copta). Citemos

    56 Para uma relao completa dos gegrafos, ver L. KUBBEL e V. V. MATVEV, juntamente com o primeiro captulo de R. MAUNY, 1961; pela nota de T. LEWICKI, 1971; e a introduo da tese de A. MIQUEL, 1967.

    57 Publicado e traduzido por DE SLANE sob o ttulo Description de l Afrique septentrionale, Paris, 1911.58 Parcialmente traduzido por M. GAUDEFROY -DEMOMBYNES sob o ttulo: LAfrique moins l Egypte,

    Paris, 1927.

  • 102 Metodologia e pr -histria da frica

    figura 5.1 Manuscrito rabe (verso) n. 2291, flio 103 Ibn Battuta (2a parte), referncia ao Mali (Fot. Bibl. Nac. Paris).

  • 103As fontes escritas anteriores ao sculo XV

    tambm os manuscritos das igrejas etopes que reproduzem documentos oficiais em suas margens. Todos esses documentos mostram -se teis no apenas para o conhecimento da evoluo da sensibilidade religiosa e do mundo religioso, mas tambm para o conhecimento do mundo social. Obras como o Riyah de Malik, ou os Madarik de Iyadh so ricas em observaes sociolgicas, encontrveis no decorrer da exposio. As fontes caridjitas, como sabemos, so importantes para toda a regio saariana do Magreb, zona de contato com os Negros. Al -Wisyani, Darjini, Abu Zakariya e mesmo um autor tardio como al -Shammakhi so seus principais representantes. Enfim, toda a massa de material em lngua rabe ou em copta, produzida no Egito medieval pela Igreja local, traz esclarecimentos sobre as relaes entre as igrejas e entre a hierarquia eclesistica e o Estado59. So numerosas as fontes propriamente literrias sobre esse perodo; referem -se quase que exclusivamente ao Magreb e ao Egito. Ainda nessa categoria os Ras al Ain, de al -Qahi al Fadhil, e especialmente o grande dicionrio de Safadi, al Wafibi l Wafayat, ocupam um lugar parte.

    Portanto, no que diz respeito segunda Idade Islmica, nossa documentao abundante, variada e em geral de boa qualidade, em contraste com o perodo precedente. Na frica propriamente islmica, esses escritos trazem muitos esclarecimentos sobre o funcionamento das instituies e sobre as tendncias profundas da histria. J no se contentam em traar apenas um simples quadro poltico. No que concerne frica negra, o sculo XIV o perodo do apogeu de nosso conhecimento. Espera -se, no entanto, que documentos europeus e autctones nos permitam aprofundar esse conhecimento, e ampli -lo de forma a abranger regies que at o momento se mantm na obscuridade.

    Concluso

    No seria exato pensar que o estado das fontes escritas do continente africano antes do sculo XV seja de extrema pobreza, mas a verdade que, no conjunto, a frica menos provida que a Europa e a sia. Todavia, enquanto em uma grande parte do continente no existem fontes escritas, nas regies restantes o conhecimento histrico possvel e baseia -se no caso do Egito numa documentao excepcionalmente rica. Isso significa que uma explorao rigorosa

    59 Patrologie orientale, coleo essencial. Entre as obras que nos dizem respeito, citemos as de SEVERO DE ALEXANDRIA (sculo I) e de IBN MUFRAH (sculo XI), interessantes para a Etipia; Kitab Siyar al Aba al Batariqa. Cf. tambm MIGUEL, o Srio, ed. trad. Chabot, 3 v., 1899 -1910.

  • 104 Metodologia e pr -histria da frica

    e atenta desses textos ainda pode contribuir muito, embora no se possam esperar grandes descobertas. preciso que nos dediquemos com urgncia a todo um trabalho de crtica textual, de reedio, de confrontao e de traduo, j iniciado por alguns pioneiros e que deve ser continuado.

    Por outro lado, ainda que nossas fontes tenham sido redigidas no quadro de culturas universais, cujo ponto focal se situa fora da frica culturas clssicas, cultura islmica tm a vantagem de ser em sua maioria comuns a todos podendo ser lidas numa perspectiva africana, mantidas as devidas ressalvas quando diante de qualquer pressuposto ideolgico. Isso particularmente verdadeiro para o caso das fontes rabes, que continuam sendo a base essencial de nosso conhecimento. Sua exterioridade relativa ou absoluta em relao a seu objeto no diminui em nada seu valor, a no ser pela distncia. No obstante devam ser reconhecidas as diferenas socio culturais, fato que essas fontes valorizam uma certa solidariedade de comunicao africana, qual, at agora, islamistas e africanistas nem sempre tm se mostrado sensveis.

  • C A P T U L O 6

    105As fontes escritas a partir do sculo XV

    Paralelamente a profundas mudanas em todo o mundo, e, em especial, na frica, no final do sculo XV e princpio do sculo XVI, ocorreram transformaes no carter, provenincia e volume das fontes escritas para a histria da frica. Observa -se, em relao ao perodo precedente, um certo nmero de novas tendncias na produo desse material, algumas referentes a todo o continente, outras, a apenas algumas partes em geral, frica ao sul do Saara.

    Inicialmente, ao lado do contnuo crescimento de todos os tipos de fontes narrativas (narrativas de viajantes, descries, crnicas, etc.), surgem numerosos materiais de carter primrio, como correspondncias e relatrios oficiais, comerciais ou missionrios, escrituras legais e outros documentos arquivsticos, raramente encontrados antes desse perodo. Se, por um lado, a abundncia crescente desse material oferece ao historiador um auxlio muito maior, por outro torna muito mais difcil uma viso de conjunto.

    Pode -se observar, tambm, uma ntida diminuio no volume das fontes narrativas rabes para a frica ao sul do Saara. No obstante, surge nesse perodo a literatura histrica escrita em rabe por autctones, e somente a partir dessa poca que se faz ouvir a voz de autnticos africanos falando de sua prpria histria. Os mais antigos e mais conhecidos exemplos dessa historiografia local

    As fontes escritas a partir do sculo XV

    I. Hrbek

  • 106 Metodologia e pr -histria da frica

    provm do cinturo sudans e da costa africana oriental; em outras partes da frica tropical, s mais tarde que essa evoluo se far notar.

    Nos ltimos duzentos anos, os africanos tambm comearam a escrever em suas prprias lnguas, usando primeiramente o alfabeto rabe (por exemplo, em kiswahili, haussa, fulfulde, kanembu, diula, malgaxe, etc.) e mais tarde o latino. Mas tambm existem materiais histricos (e outros) em escrita de origem genuinamente africana, como os alfabetos bamum e vai.

    Uma terceira tendncia, resultante da anterior, o aparecimento de uma literatura em ingls (e, em menor grau, em outras lnguas europeias) feita pelos africanos, escravos libertados ou seus descendentes na Amrica, conscientes de seu passado africano.

    figura 6.1 Fac-smile de manuscrito bamum (Museu do IFAN).

  • 107As fontes escritas a partir do sculo XV

    Finalmente temos as narrativas em vrias lnguas europeias, que aos poucos vo ocupando o espao das fontes rabes. A quantidade de obras dessa natureza aumenta progressivamente e, nos sculos XIX e XX, atinge um tal volume que s os livros de referncia bibliogrfica poderiam ser contados s dezenas.

    Apesar de todas as mudanas, houve, evidentemente, uma continuidade na historiografia de algumas regies da frica, especialmente na do Egito, Magreb e Etipia. Nesses pases, os cronistas e bigrafos mantiveram viva a tradio herdada do perodo anterior. Enquanto no Egito e, em parte, na Etipia observou -se um certo declnio na qualidade e mesmo quantidade desses trabalhos, o Magreb e, em particular, o Marrocos continuaram a produzir competentes estudiosos que contriburam grandemente para a histria de seus pases.

    As reas geogrficas cobertas por fontes escritas tambm vo registrar uma evoluo. Enquanto, at o sculo XVI, as margens do Sahel sudans e uma estreita faixa da costa oriental africana formavam os limites do conhecimento geogrfico, e, portanto, histrico, a nova poca viria gradualmente acrescentar a esse espao novas regies antes no mencionadas por aquele tipo de fontes. A quantidade e a qualidade dessas fontes variam bastante, evidentemente, de uma regio para outra e de um sculo para outro, tornando a classificao por lngua, carter, propsito e origem dos documentos ainda mais complexa.

    De modo geral, registrou -se uma expanso da costa para o interior. O movimento foi bastante lento, s ganhando acelerao no fim do sculo XVIII. A costa africana e seu interior imediato, j no sculo XV, haviam sido descritos pelos portugueses, de modo sumrio. Nos sculos seguintes as fontes escritas, j ento em vrias lnguas, comearam a registrar informes mais detalhados e abundantes sobre as populaes costeiras. Os europeus penetraram no interior somente em algumas regies (no Senegal e na Gmbia, no delta do Nger e no Benin, no Reino do Congo, e pelo Zambeze, at o Imprio de Monomotapa), trazendo, assim, essas reas para o horizonte das fontes escritas. Ao mesmo tempo, algumas partes da frica, at ento praticamente inexploradas, tornaram--se mais conhecidas, como, por exemplo, a costa sudoeste africana e Madagscar.

    Um territrio muito maior era coberto por fontes escritas em rabe. A escola historiogrfica sudanesa, medida que ia obtendo informaes sobre regies at ento desconhecidas, estendia -se a outros pases, sobretudo em direo ao sul, de modo que no sculo XIX toda a regio entre o Saara e a floresta e, em alguns pontos, at a costa podia -se considerar coberta por fontes escritas locais. J, no interior, vastas regies tiveram que esperar at o sculo XIX pela produo das primeiras narrativas escritas dignas de confiana.

  • 108 Metodologia e pr -histria da frica

    Mesmo nas regies costeiras pode -se constatar grandes diferenas no que diz respeito informao histrica: em geral, a costa atlntica mais bem provida de documentos escritos que a costa oriental, e tambm a quantidade de material disponvel para o antigo Congo, a Senegmbia, a costa entre o cabo Palmas e o delta do Nger muito maior que para a Libria, Camares, Gabo ou Nambia, por exemplo. A situao difere tambm quanto aos perodos: h muito mais informao escrita para a costa oriental, Benin ou Etipia nos sculos XVI e XVII que no XVIII, e, para o Saara, mais na primeira metade que na segunda metade do sculo XIX.

    Devido a essa distribuio irregular dos materiais em relao tanto a espao, tempo e carter, quanto a sua origem e lngua, prefervel examin--los sob diferentes critrios ao invs de adotar um nico procedimento. Consequentemente, ns os apresentaremos, em alguns casos, de acordo com as regies geogrficas, em outros, de acordo com suas origens e carter.

    frica do Norte e Etipia

    frica do Norte Os materiais para a frica do Norte de lngua rabe, como os de outras partes

    do continente, passaram por algumas profundas mudanas em comparao com o perodo anterior, o mesmo no ocorrendo, no entanto, com as narrativas histricas locais, que continuaram, como anteriormente, a relatar os principais acontecimentos da maneira tradicional. Nenhuma figura comparvel aos grandes historiadores rabes da Idade Mdia surgiu entre os cronistas e compiladores dessa poca, e a abordagem crtica do historiador, preconizada por Ibn Khaldun, no foi seguida por seus sucessores. A historiografia rabe moderna s vai aparecer no sculo XX.

    As mudanas que se fazem sentir dizem respeito principalmente a dois tipos de fontes: os documentos arquivsticos de diversas origens e os escritos europeus. Somente a partir do incio do sculo XVI, os materiais primrios, tanto em rabe como em turco, comeam a aparecer em maior abundncia. Os arquivos otomanos so comparveis em volume e importncia aos mais ricos da Europa, mas, quela poca, raramente eram utilizados e estudados por historiadores dessa parte da frica. do mesmo perodo que remontam os arquivos secundrios dos pases que faziam parte do Imprio Otomano (Egito, Tripolitnia, Tunsia e Arglia)1. Um caso

    1 DENY, J. 1930; MANTRAN, R. 1965; LE TOURNEAU, R. 1954.

  • 109As fontes escritas a partir do sculo XV

    especial o do Marrocos, que sempre conservou sua independncia, e seus arquivos preservaram um rico material histrico2. Os documentos so principalmente de arquivos governamentais, administrativos e jurdicos; os materiais relativos ao comrcio, produo, vida social e cultural so menos numerosos, pelo menos os de antes do sculo XIX. Isto se deve, em parte, falta de arquivos particulares que forneam informaes valiosas para a histria econmica e social da Europa. Para alguns pases e perodos esta lacuna pode ser preenchida: por exemplo, o material sobre o Marrocos, encontrado em muitos pases europeus, foi coligido e publicado no trabalho monumental de Henri de Castries3. A compilao de colees similares, ou ao menos o arrolamento dos documentos relativos aos demais pases da frica do Norte est entre as tarefas mais urgentes do futuro prximo.

    Examinando, agora, as fontes narrativas em rabe, pode -se constatar uma retrao constante na quantidade e na qualidade dos escritos histricos na frica do Norte, com exceo apenas do Marrocos, onde as escolas tradicionais de cronistas continuaram a produzir histrias detalhadas das duas dinastias xerifinas at a poca atual. Pode -se citar como exemplo a Masul de Mokhtar Soussi, em vinte volumes, e a Histoire de Tetouan, em vias de publicao4. Da corrente ininterrupta de historiadores podemos indicar apenas alguns nomes entre os mais destacados. A dinastia Sdida encontrou um excelente historiador em al -Ufrani (morto em c. 1738)5, que cobriu os anos 1511 -1670; o perodo seguinte (1631--1812) foi descrito detalhadamente pelo maior historiador marroquino desde a Idade Mdia, al -Zay (morto em 1833)6, enquanto al -Nasiri al -Slawi (morto em 1897) escreveu uma histria geral de seu pas com nfase especial no sculo XIX, combinando os mtodos tradicional e moderno, usando, entre outros, documentos de arquivos. Ele o autor tambm de uma obra geogrfica bastante rica em informaes sobre a vida social e econmica7. A essas obras estritamente histricas devem ser acrescentadas as narrativas de viajantes, em sua maioria peregrinos, que descreveram no apenas o Marrocos, mas tambm outros pases rabes at a Arbia. As duas melhores narrativas desse tipo so as escritas por al -Ayyashi de Sijilmasa (morto em 1679) e Ahmad el -Darci de Tamgruti nas proximidades

    2 MEKNASI, A. 1953; AYACHE, G. 1961. 3 Les Sources indites de l histoire du Maroc, 24 v., Paris, 1905 -1951.4 LVI -PROVENAL, E. 1922; MOKHTAR SOUSSI, Masul, 20 v. publicados; DAOUD, Histoire de

    Tetouan.5 Ed. e trad. por O. HOUDAS, Paris, 1889.6 HOUDAS, Paris, 1886.7 Ed. no Cairo, em 1894, em 4 v. Muitas tradues parciais em francs e espanhol.

  • 110 Metodologia e pr -histria da frica

    do Saara (morto em 1738)8; outros textos interessantes so o relatrio de el - Tamghruti, embaixador marroquino junto corte otomana em 1589 -15919, e a Rihla de Ibn Othman, embaixador do Marrocos junto corte de Madri.

    Nos pases entre o Marrocos e o Egito as crnicas locais no eram to abundantes, nem tinham a mesma qualidade. No que diz respeito Arglia, h histrias annimas em rabe e em turco, de Aru e Khayruddin Barbarossa10, e uma histria militar que vai at 1775, de Mohammed el -Tilimsani11. A histria da Tunsia pode ser reconstituda graas a uma srie de anais, desde el -Zarkachi (at 1525)12 at Maddish el -Safakusi (morto em 1818)13. Uma histria de Trpoli foi escrita por Mohammed Ghalboun (1739)14. As crnicas e biografias ibaditas, como a de al -Shammakhi (morto em 1524), merecem ateno especial, j que fornecem muitas informaes valiosas sobre o Saara e o Sudo15.

    Biografias ou dicionrios biogrficos, gerais ou especficos, na maior parte consagrados a pessoas proeminentes (eruditos, advogados, prncipes, msticos, escritores, etc.), geralmente combinam materiais biogrficos com narrativas histricas, esclarecendo muitos aspectos da histria cultural e social. Obras desse gnero proliferaram em todos os pases rabes, especialmente no Marrocos. Mesmo algumas poesias, s vezes em dialetos vernculos, podem servir como fontes histricas, como, por exemplo, os poemas satricos do egpcio el -Sijazi (morto em 1719), em que ele descreve os principais acontecimentos de sua poca16.

    No que se refere histria do Egito otomano, deve -se recorrer a crnicas, em grande parte ainda inditas e inexploradas. O Egito produziu, nesse perodo, apenas dois grandes historiadores um no incio do domnio turco, o outro exatamente no fim: Ibn Iyas (morto em 1524) fez um registro dirio da histria de sua poca, oferecendo, assim, uma riqueza de detalhes raramente encontrada em outras obras17; el -Jabarti (morto em 1822) o cronista dos ltimos dias do domnio otomano, da ocupao napolenica e da ascenso de Mohammed

    8 Ambas traduzidas por S. BERBRUGGER, Paris, 1846. 9 Traduzido por H. de CASTRIES, Paris, 1929.10 Editado por NURUDDIN, Argel, 1934. 11 Traduzido por A. ROUSSEAU, Argel, 1841. 12 Traduzido por E. PAGNA, Constantina, S.d. 13 Publicado em Tnis, 1903.14 Publicado por Ettore ROSSI, Bolonha, 1936. H tambm algumas crnicas turcas da Tripolitnia.15 LEWICKI, T. 1961.16 Mencionado por EL -JABARTI.17 WIET, G. Journal dun bourgeois du Caire.

  • 111As fontes escritas a partir do sculo XV

    Ali, cobrindo, portanto, um perodo crucial da histria do Egito18. Embora muitas crnicas e outras obras histricas de todos os pases rabes tenham sido publicadas, a grande maioria encontra -se ainda em manuscritos espalhados por muitas bibliotecas tanto dentro como fora de seu pas de origem, espera de estudo e publicao.

    Nesse perodo as narrativas de viajantes europeus ganham importncia crescente. Embora o preconceito anti -islmico de seus autores raramente permita relatrios verdadeiramente objetivos, elas trazem muitas reflexes e observaes interessantes no encontradas em outros documentos, j que os escritores locais consideravam muitos aspectos da vida banais e desprovidos de interesse. incontvel o nmero de europeus viajantes, embaixadores, cnsules, mercadores e mesmo prisioneiros (entre eles Miguel de Cervantes) que deixaram reminiscncias e relatrios mais ou menos detalhados dos pases do Magreb, que visitaram; o mesmo aconteceu, talvez at com maior intensidade, no caso do Egito, que atraa muitos visitantes por sua importncia comercial e a proximidade da Terra Santa19. De interesse particular a obra monumental Description de l Egypte (24 volumes, Paris, 1821 -1824), compilada pela comisso cientfica da expedio de Napoleo Bonaparte, fonte inesgotvel de todo tipo de informao sobre o Egito s vsperas de uma nova poca.

    No sculo XIX, as fontes para a histria da frica do Norte so to abundantes quanto para qualquer pas europeu. As crnicas locais e narrativas de viajantes assumem um lugar secundrio em relao s fontes mais objetivas arquivos, estatsticas, jornais e outros testemunhos diretos ou indiretos , permitindo aos historiadores empregar os mtodos e abordagens clssicos elaborados para uma histria amplamente documentada, como a da Europa.

    Duas regies de lngua rabe, Mauritnia e Sudo oriental, merecem um tratamento especial devido sua situao particular, nos limites do mundo rabe. Uma caracterstica comum das fontes nesses dois pases a predominncia de biografias, genealogias e poesia, sobre os anais histricos propriamente ditos, pelo menos at o final do sculo XVIII. Em relao Mauritnia, vrias genealogias e biografias foram publicadas por Ismal Hamet20, a que se acrescentam poemas e outros materiais folclricos recolhidos por Ren Basset e mais recentemente por H. T. Norris21. Um exame intensivo de novos materiais foi realizado com

    18 Muitas edies; uma traduo no muito digna de confiana de Chefik MANSOUR, Cairo, 1886 -1896.19 CARRE, J. M. Cairo, 1932.20 Chroniques de la Mauritaine sngalaise, Paris, 1911.21 BASSET, R. 1909 -1940; NORRIS, H. T. 1968.

  • 112 Metodologia e pr -histria da frica

    sucesso pelo estudioso da Mauritnia Mukhtar Wuld Hamidun. A primeira obra propriamente histrica remonta ao incio deste sculo: al Wasil, de Ahmad al -Shinqiti, que uma enciclopdia da histria e da cultura mouriscas do passado e do presente22. Existe um grande nmero de crnicas locais manuscritas, de maior ou menor valor, no estilo das crnicas breves de Nema, Oualata e Shinqiti23. As fontes rabes da Mauritnia so de especial interesse e importncia, porque em muitos casos cobrem no somente a Mauritnia propriamente dita, mas tambm todos os pases limtrofes do Sudo ocidental. Devido s estreitas relaes que existiram no passado entre a Mauritnia e o Marrocos, as bibliotecas e arquivos marroquinos devem conter certamente um precioso material histrico para o primeiro pas. Alm das fontes rabes, h tambm a literatura narrativa europeia, que se inicia no sculo XV nas regies costeiras, e no fim do sculo XVII nas regies fluviais. A partir do sculo seguinte, encontramos correspondncia diplomtica e comercial, tanto em rabe como em lnguas europeias.

    A historiografia local no Sudo oriental parece ter comeado somente nos ltimos anos do Sultanato Funj, isto , no incio do sculo XIX, quando a tradio oral foi registrada por escrito no texto chamado Crnica de Funj, do qual existem vrias verses24. So fontes valiosas as genealogias de vrios grupos rabes25, assim como o grande dicionrio biogrfico de estudiosos sudaneses, o Tebaqat, escrito por Wad Dayfallah, que constitui um rico manancial de informaes sobre a vida social, cultural e religiosa do Reino Funj26. O mais antigo visitante estrangeiro conhecido foi o viajante judeu David Reubeni (em 1523). At o sculo XIX h apenas um pequeno nmero de obras valiosas, mas entre elas se encontram as narrativas de observadores particularmente lcidos, como James Bruce (em 1773), W. G. Browne (1792 -1798) e el -Tounsy (1803), sendo os dois ltimos os primeiros a visitar Darfur27. Na primeira metade do sculo XIX, o Sudo foi, de toda a frica tropical, a regio mais visitada por viajantes. Suas narrativas so inumerveis e de variada qualidade enquanto fontes histricas. At a dcada de 1830, no existe nenhuma fonte escrita para as regies do alto vale do Nilo (ao sul da latitude 12), mas a parte norte fartamente coberta por documentos arquivsticos do Egito (arquivos do Cairo) e,

    22 AL -SHINQITI, A. AlWasit fi tarajim udaba Shinqit, Cairo, 1910, e muitas edies novas. Trad. francesa parcial, St. Louis, 1953.

    23 MARTY, P. 1927; NORRIS. In: BIFAN, 1962; MONTEIL, V. In: BIFAN, 1965, n. 3 -4.24 Estudado por M. SHIBEIKA. In: Tarkh Mulk al Sudan, Khartum, 1947.25 Recolhidas por H. A. MACMICHAEL. In: History of the Arabs in the Sudan, II, Cambridge, 1922,

    juntamente com outros documentos histricos.26 A edio comentada mais atualizada de Yusuf FADL HASAN, Khartum, 1971. 27 BRUCE, J., 1790; BROWNE, W. G., 1806; EL -TOUNSY, Omar, 1845.

  • 113As fontes escritas a partir do sculo XV

    em menor nmero, europeus. So de extrema importncia para os ltimos vinte anos do sculo XIX os registros do Mahdiyya, que consistem em cerca de 80 mil documentos rabes, conservados, em sua maioria, em Cartum.

    Etipia A situao da Etipia anloga da frica do Norte no que respeita s fontes

    escritas. Como nos pases daquela regio da frica, na Etipia o historiador tem sua disposio uma grande variedade de documentos, tanto internos como externos. Pode at empregar material de fontes opostas, para alguns perodos cruciais, caso, por exemplo, da invaso muulmana de Ahmed Gran, na primeira metade do sculo XVI, coberta, do ponto de vista etope, pela Crnica Real (em gueze) do Imperador Lebna Dengel, e, da viso muulmana, pela detalhada crnica escrita em 1543 pelo escriba de Gran, Arab Faqih, sem mencionar os registros portugueses de testemunhas oculares28.

    A redao das Crnicas Reais iniciou -se no sculo XIII, e h, relativas a quase todos os reinos, mesmo durante o perodo de declnio, uma ou mais crnicas detalhadas, que registram os principais eventos da poca29. Essa tradio perdurou por todo o sculo XIX e uma boa parte do sculo XX, como testemunha a Crnica Amrica do Imperador Menelik II30. Vrias obras da literatura etope, de diferentes gneros, podem fornecer precioso material histrico, como, por exemplo, as hagiografias, as polmicas religiosas, a poesia, as lendas, as histrias dos mosteiros, etc. Um documento nico a Histria dos Galla do Monge Bahrey (1593), testemunha ocular da invaso galla da Etipia31. Um sculo mais tarde, Hiob Ludolf, o iniciador dos estudos etopes na Europa, compila, a partir de informaes fornecidas por um especialista etope, uma das primeiras histrias gerais do pas32.

    Sendo o nico pas cristo que restou na frica, a Etipia naturalmente despertou muito mais interesse na Europa que as demais partes do continente, isso j desde o sculo XV. No de surpreender o grande nmero de estrangeiros viajantes, missionrios, diplomatas, soldados, mercadores ou aventureiros que visitaram esse pas e dele deixaram registro. So no apenas portugueses,

    28 ARAB FAQIH, 1897 -1901; CASTANHOSO, M. 1548; trad. inglesa, Cambridge, 1902. 29 Cf. PANKHURST, R. 1966; BLUNDEL, H. W. 1923. 30 Escrito por Gabr SELASSI e traduzido para o francs, Paris, 1930 -1931.31 Cf. BECKINGHAM, C. F. e HUNTINGFORD, G. W. B., 1954. Alm da histria de BAHREY, esse

    livro contm trechos da History of High Ethiopia, de ALMEIDA, 1660.32 LUDOLF, Hiob, 1681; traduo inglesa, 1682 -1684.

  • 114 Metodologia e pr -histria da frica

    franceses, italianos e ingleses, mas tambm muitas pessoas de vrios outros pases russos, tchecos, suecos, armnios e georgianos33. Ocasionalmente surgem registros turcos ou rabes, que, de diversos modos, complementam as outras fontes34.

    Da segunda metade do sculo XIX em diante, so os documentos de arquivos, de todas as grandes potncias europeias como tambm os de Adis Abeba e mesmo os de Cartum que vo fornecer os principais materiais histricos. A importncia de um estudo minucioso dos documentos amricos originais para uma interpretao correta da histria foi demonstrada recentemente pela brilhante anlise do tratado de Wichale (1889) feita por Sven Rubenson35.

    frica do Sul

    Em comparao com outras partes do continente (com exceo dos pases de lngua rabe e da Etipia), a frica do Sul oferece, para o perodo em estudo, uma quantidade muito maior de interessantes materiais escritos, na forma de arquivos e de narrativas. A falta de fontes de origem genuinamente africana anteriores ao sculo XIX representa uma certa desvantagem, no obstante muitas narrativas europeias preservarem fragmentos de tradies orais dos povos locais. As informaes mais antigas provm de marinheiros portugueses ou holandeses cujos navios naufragaram na costa sudeste no decorrer dos sculos XVI e XVII36. Com o estabelecimento da colnia holandesa no Cabo (1652), a produo de materiais torna -se mais rica e mais variada: consiste, por um lado, em documentos oficiais, mantidos atualmente sobretudo em arquivos da prpria frica do Sul, mas tambm em Londres e Haia, parcialmente publicados ou difundidos por outros meios, mas em sua grande maioria inditos37; por

    33 Cf. a monumental coleo de BECCARI. Rerum Aethiopicarum Scriptores occidentales inediti a seculo XVI ad XX curante. 15 v., Roma, 1903 -1911. Mas muitos registros anteriormente desconhecidos foram descobertos depois de BECCARI e esto espera de publicao e estudo.

    34 Por exemplo, o famoso viajante turco Evliya CHELEBI (morto em 1679), cuja obra Siyasat name (Livro de viagens) contm em seu dcimo volume descries do Egito, Etipia e Sudo. O embaixador iemenita al -Khaymi al -Kawkabani deixou (em 1647) um relato vivo de sua misso junto ao Imperador Faslidas, para cujo reino no h nenhuma crnica etope. Publicado por F. E. PEISER em dois volumes, Berlim, 1894 e 1898.

    35 RUBENSON, Sven. The Protectorate Paragraph of the Wichale Treaty. JAH 5, n. 2, 1964; e discusso com C. GIGLIO, JAH 6, n. 2, 1965 e 7, n. 3, 1966.

    36 Cf. THEAL, G. M. 1898 -1903, e BOXER, C. R. 1959.37 Trechos de dirios oficiais e outros documentos relativos a povos de fala san, khoi e bantu encontram -se

    em MOODIE, D. 1960; v. tambm THEAL, G. M. 1897 -1905

  • 115As fontes escritas a partir do sculo XV

    outro, em documentos narrativos representados por livros e artigos escritos por brancos viajantes, comerciantes, oficiais, missionrios e colonizadores, todos eles observadores diretos das sociedades africanas. Durante muito tempo, entretanto, seu horizonte geogrfico permaneceu bastante restrito, e foi s na segunda metade do sculo XVIII que comearam a penetrar realmente o interior das terras. Assim, natural que as primeiras narrativas tratem dos Khoi do Cabo (hoje desaparecidos). A primeira descrio detalhada desse povo, depois de alguns registros do sculo XVII38, a de Peter Kolb (1705 -1712)39. Durante o perodo holands, muitos europeus visitaram a colnia do Cabo, mas muito raramente chegaram a demonstrar mais que um ligeiro interesse pelos africanos ou a aventurar -se para o interior. Um grande nmero de seus relatrios foi reunido por Godee -Molsbergen e LHonor -Naber, e muitos relatos menos conhecidos tm sido regularmente publicados, desde a dcada de 1920, pela Sociedade Van Riebeeck da Cidade do Cabo40. Um retrato mais detalhado das sociedades africanas pode ser obtido nos arquivos de missionrios41 ou nos registros de alguns observadores experientes do fim do sculo XVIII e incio do XIX, como Sparrman, Levaillant, Alberti, John Barrow e Lichtenstein42. Um lugar de honra pertence a John Philips, cuja vida e trabalho foram dedicados defesa dos direitos africanos, sendo, por isso, sua obra, reveladora de aspectos raramente encontrados em relatos mais conformistas43.

    Com a expanso comercial, missionria e colonial no sculo XIX, material mais rico e em maior quantidade sobre os grupos tnicos africanos mais afastados tornou -se acessvel. Embora a Nambia fosse esporadicamente visitada no fim do sculo XVIII44, somente a partir de 1830 que comeam as descries mais detalhadas da vida dos San, Nama e Herero, quando ento os missionrios iniciaram suas atividades45 e a regio tornou -se alvo de pesquisadores, como J. Alexander, F. Galton, J. Tindall e outros46.

    38 SHAPERS, 1668; TEN RHYNE, W. 1686 e GREVEBROEK, G. 1695, Cidade do Cabo, 1933. 39 KOLB, P. 1719.40 GODEE -MOLSBERGEN, E. C. 1916 -1932; LHONOR -NABER, S. L. 1931.41 Cf., por exemplo, MLLER, D. K. 1923. 42 SPARRMAN, A. 1785; LEVAILLANT, F. 1790; ALBERTI, L. 1811; BARROW, J. 1801 -1806;

    LICHTENSTEIN, H. 1811. 43 PHILIPS, J. 1828.44 WAITS, A. D. 1926.45 A obra clssica de H. VEDDER, South West Africa in Early Times, Oxford, 1938, foi compilada

    principalmente de relatrios de missionrios alemes.46 ALEXANDER, Sir James, 1836, 1967; GALTON, G. 1853; Journal of Joseph Tindall 1839 1855, Cidade

    do Cabo, 1959.

  • 116 Metodologia e pr -histria da frica

    Situao anloga observada nas reas ao norte do rio Orange: os relatrios dos primeiros comerciantes e caadores do lugar a uma quantidade cada vez maior de trabalhos escritos por pesquisadores e missionrios, melhor capacitados para a observao devido sua maior experincia e conhecimento das lnguas africanas. Podemos citar, por exemplo, Robert Moffat, E. Casalis, T. Arbousset e outros, sendo, o mais conhecido, evidentemente, David Livingstone47. Vrios documentos (arquivos, correspondncia, contratos e atas oficiais, etc.) da histria antiga do Lesoto foram coletados por G. M. Theal48. Uma caracterstica positiva desse perodo o surgimento de documentos que expressam pontos de vista africanos, como as cartas escritas por Moshesh e outros lderes africanos.

    Diversamente da costa, o interior de Natal e da Zululndia tornou--se conhecido por forasteiros somente nas primeiras dcadas do sculo XIX. Os primeiros observadores, como N. Isaac ou N. F. Fynn49, em geral eram inexperientes, raramente precisos e careciam de objetividade quando tratavam dos no -brancos. J os registros das tradies orais dos Zulu foram feitos relativamente cedo, na dcada de 1880, embora s fossem publicados mais tarde, por A. T. Bryant, cujo livro deve, todavia, ser utilizado com cautela50.

    Como para outras partes da frica, a quantidade de materiais escritos por europeus aumentou enormemente no decorrer do sculo XIX, e no cabe aqui examinar, com mais detalhe todos os seus tipos e autores. Mais interessantes so os registros das reaes dos primeiros africanos letrados ou de alguns chefes tradicionais, encontrados em correspondncias, jornais, queixas, dirios, contratos ou, j mais tarde, nas primeiras tentativas de redao da histria de seu prprio povo.

    Alm da volumosa correspondncia entre governantes africanos Moshesh, Dingaan, Cetwayo, Mzilikazi, Lobenguela, Witbooi, os chefes Grqua e muitos outros e as autoridades coloniais, encontramos documentos tais como as Leis

    47 MOFFAT, R. 1842 e 1945; CASALIS, E., Les Bassutos, Paris, 1859; ed. inglesa, Londres, 1861; T. ARBOUSSET, Relation dun voyage d exploration, Paris, 1842; ed. inglesa; Cidade do Cabo, 1846; LIVINGSTONE, D. 1957.

    48 THEAL, G. M., Basutoland Records, 3 v., Cidade do Cabo, 1883 (v. 4 e 5 manuscritos, no publicados, nos Arquivos da Cidade do Cabo).

    49 ISAAC, N. 1836; FYNN, N. F. 1950. 50 BRYANT, A. T. 1929. V. tambm sua A History of the Zulu, primeiramente publicada como uma srie de

    artigos em 1911 -1913 e depois como livro, na Cidade do Cabo, 1964. Cf. tambm BIRD, J. The Annals of Natal, 1495 -1845, 2 v., Pietermaritsburg, 1888.

  • 117As fontes escritas a partir do sculo XV

    Ancestrais (Vaderlike Wete) da Comunidade Rehoboth do ano de 1874, ou o Dirio de Henrik Witbooi51, ambos escritos em africner. H numerosas peties e queixas de africanos mantidas nos arquivos da frica do Sul ou em Londres, assim como muitos estudos, levantamentos cadastrais e estatsticos feitos com base na informao oral africana.

    Graas ao aparecimento de jornais nas lnguas vernculas, podemos acompanhar as ideias dos antigos representantes de uma sociedade em mudana. No semanrio Isidigimi (publicado entre 1870 e 1880) apareceu a primeira crtica poltica europeia e seu impacto negativo na vida africana, escrita pelos primeiros protonacionalistas, como Tiyo Soga (morto em 1871) ou G. Chamzashe (morto em 1896), assim como a compilao das tradies histricas dos Xhosa, por W. W. Gqoba (morto em 1888). Outro porta -voz da opinio africana, desde 1884, foi Ibn Zabantsundu (A Voz do Povo Negro), que por muitos anos teve como editor John T. Jabawu (morto em 1921). Imediatamente aps a Primeira Guerra Mundial, havia onze jornais em lnguas africanas sendo publicados, mas nem todos defendendo a causa dos africanos. Uma das grandes figuras da poca foi Ngoki (morto em 1924), que, aps haver participado ativamente na guerra zulu de 1879, publicou (nos Estados Unidos) suas reminiscncias, assim como muitos artigos sobre a vida na frica do Sul52. As primeiras histrias escritas pelos prprios africanos s vo aparecer no sculo XX53, inaugurando, assim, uma nova poca na historiografia sul--africana. Com efeito, a histria dessa parte do continente foi por muito tempo enfocada do ponto de vista da comunidade branca, que tendia a tratar a histria dos povos africanos como algo insignificante e sem importncia. A luta atualmente em curso na frica do Sul em todos os domnios da atividade humana requer tambm uma nova atitude na abordagem das fontes. Uma ateno especial deve ser dispensada aos testemunhos escritos da rdua luta dos africanos por seus direitos54. S uma pesquisa baseada em todos estes testemunhos e material dar condies para se escrever uma histria verdica da frica do Sul.

    51 As leis foram preservadas em Rehoboth e Windhoek; o Dirio de WITBOOI foi publicado na Cidade do Cabo em 1929.

    52 Cf. TURNER, L. D. 1955.53 Cf. PLAATJE, S. T. 1916 e 1930; MOLEMA, S. M. 1920; SOGA, J. H., The South Eastern Bantu, 1930;

    idem, Ama Xoza: Life and Customs, Johannesburg, 1930; SOGA, T. B. Lovedale, 1936.54 Cf. PLAATJE, S. T. 1916 e 1930; MOLEMA, S. M. 1920; SOGA, J. H. The South Eastern Bantu, 1930;

    idem, Ama Xoza: Life and Customs, Johannesburg, 1930; SOGA, T. B. Lovedale, 1936.

  • 118 Metodologia e pr -histria da frica

    Fontes narrativas externas

    Se o perodo entre os sculos IX e XV chega a ser chamado era das fontes rabes devido predominncia de material nessa lngua, o perodo em estudo marcado por um ntido declnio nesse aspecto. As razes para essa mudana esto ligadas ao desenvolvimento poltico e cultural geral do mundo islmico, que sero discutidas mais apropriadamente num volume posterior. Isso, no entanto, no significa que no haja fontes rabes, mas que seu nmero e qualidade, com algumas excees, no podem ser comparados nem com o perodo anterior nem com fontes de outras origens.

    Em rabe e em outras lnguas orientais

    Embora o trabalho de Leo, o Africano (conhecido originalmente como al -Hasan al -Wuzzan el -Zayyati), tenha sido escrito em italiano, tem procedncia na tradio geogrfica rabe; alm disso, as viagens de Leo, o Africano, no Sudo ocidental e central no incio do sculo XVI foram realizadas antes de sua converso ao cristianismo e retiro na Itlia, consequentemente como rabe e muulmano. O trabalho no est isento de erros, tanto geogrficos como histricos; todavia foi que supriu a Europa por quase trs sculos com seu nico verdadeiro conhecimento do interior da frica55.

    Uma fonte de particular interesse representada pelas obras sobre navegao de Ahmad Ibn Majid (incio do sculo XVI), o piloto que conduziu Vasco da Gama do Malindi at a ndia. Entre seus numerosos livros sobre teoria e prtica da navegao, o que trata da costa leste da frica o mais importante, j que contm, alm de uma vasta quantidade de material topogrfico e um mapa das rotas martimas, opinies categricas sobre os portugueses no oceano ndico56. Alguns detalhes originais sobre a frica oriental e o Zanj so encontrados na Crnica da Fortaleza de Aden, escrita por Abu Makhrama (morto em 1540)57. H uma crnica mais recente, que trata da mesma regio, de Salil Ibn Raziq (morto

    55 Publicado primeiramente em Roma, 1550; a melhor traduo moderna de Jean -Lon, o Africano, Description de l Afrique, de A. EPAULARD, com anotaes de A. EPAULARD, T. MONOD, H. LHOTE e R. MAUNY, 2 v., Paris, 1956.

    56 SHUMOVSKIY, T. A. Tri neizvestnye lotsli Akhmada ibn Majida (Trs livros desconhecidos de pilotagem, de A. Ibn M.), Moscou, 1937.

    57 Publicado por LOFGREN, O. Arabische Texte zur Kenntnis des Stadt Aden im Mittelalter, 3 v., Leipzig--Upsala, 1936 -1950.

  • 119As fontes escritas a partir do sculo XV

    em 1873), intitulada Histria dos Imanes e Sayyds de Om, qual foi incorporado um trabalho anterior, escrito na dcada de 1720, por Sirhan Ibn Sirhan de Om58.

    O sculo XVIII no deixou nenhuma fonte rabe externa de grande valor para a histria da frica ao sul do Saara; e somente no incio do sculo seguinte que vamos assistir a um certo reflorescimento nesse domnio. El -Tounsy (morto em 1857), j citado, descreveu sua visita a Uadai na primeira crnica dedicada quele reino, e redigiu tambm um valioso relatrio sobre Darfur59. Algumas dcadas antes, e do outro lado do cinturo sudans, o marroquino Abd es -Salam Shabayni registrou informaes sobre Tombuctu e a regio de Macina, antes da ascenso dos Dina60.

    A histria do Imprio Songhai, sua queda e o posterior desenvolvimento do vale do Nger foram registrados no s pelos cronistas sudaneses mas tambm por alguns dos historiadores marroquinos acima mencionados. Recentemente muitas fontes at ento desconhecidas sobre as relaes entre o Magreb e o Sudo foram descobertas em bibliotecas marroquinas e aguardam publicao e estudo por parte dos historiadores da frica. Deve haver tambm material muito valioso, em rabe e turco, disperso pelos outros pases norte -africanos e na prpria Turquia, e de cuja existncia temos, at o presente momento, informaes extremamente escassas. Essa situao oferece perspectivas interessantes para o historiador, e a localizao, organizao e traduo desse material esto entre as tarefas mais urgentes para o futuro.

    Os materiais em outras lnguas orientais so ainda mais escassos que em rabe, o que, todavia, no significa que no possamos descobrir novos materiais, menos ou mais importantes, por exemplo em persa ou em certas lnguas hindus. At agora, a principal fonte ainda o viajante turco Evliya Chelebi, que visitou o Egito e parte do Sudo e da Etipia; no entanto seu conhecimento de outras regies da frica s se fez indiretamente61. O mesmo acontece com seu compatriota o Almirante Sidi Ali, que copiou e traduziu do rabe trechos do livro de Ahmad Ibn Majid, Al Muhit, sobre o oceano ndico, acrescentando--lhes apenas alguns detalhes62. No incio do sculo XIX, um estudioso de Azerbaijani, Zain el -Abidin Shirvani, visitou a Somlia, a Etipia, o Sudo

    58 Trad. por BADGER, G. P. Londres, 1871. 59 Voyage ao Ouaday. Trad. por Dr. PERRON, Paris, 1851.60 Publicado por JACKSON, J. G. An Account of Timbuctoo and Housa, Territories in the Interior of Africa,

    Londres, 1820 (reeditado em 1967).61 CHELEBI, E. Seychatname, Istambul, 1938. 62 BITTNER, M. 1897.

  • 120 Metodologia e pr -histria da frica

    oriental e o Magreb, descrevendo suas viagens num livro intitulado Bustanu s Seyahe (O Jardim das Viagens)63. Parece que existia um ntido interesse pela frica, especialmente pela Etipia, na Transcaucsia e especialmente entre os armnios. No fim do sculo XVII, dois padres armnios, Astvacatur Timbuk e Avatik Bagdasarian, empreenderam uma viagem pela frica, da qual mais tarde deixaram descrio, comeando na Etipia e continuando atravs da Nbia, Darfur, lago Chade e Tecrur at o Marrocos64. Em 1821, Warga, um armnio de Astrakhan, cruzou o Saara partindo do norte, visitou Tombuctu e chegou Costa do Ouro, onde escreveu, em ingls, sua narrativa, breve mas rica em informaes65. Outros materiais relativos frica em armnio ou georgiano existem nas bibliotecas e arquivos nas respectivas repblicas soviticas66.

    Em lnguas europeias O enorme volume da literatura europeia sobre a frica tropical, desde o incio

    do sculo XVI, torna impossvel uma enumerao at mesmo dos trabalhos ou autores mais importantes. No entanto, um estudo do carter geral e uma avaliao dessa literatura como fonte para a histria da frica serviro melhor ao propsito deste captulo que um arrolamento interminvel de nomes e ttulos.

    J falamos das alteraes nos limites geogrficos: no incio do sculo XVI toda a linha costeira do Senegal at o cabo Guardafui era conhecida dos portugueses, que, no fim do mesmo sculo, penetraram no interior, no antigo Congo, Angola e ao longo do Zambeze. Os dois sculos seguintes acrescentaram muito pouco ao conhecimento europeu: houve algumas tentativas espordicas de cruzar o Saara; contatos mais duradouros foram estabelecidos ao longo do Senegal e Gmbia, e um viajante foi do Zambeze at Kilwa parando no lago Malau. Por outro lado, as informaes sobre os povos costeiros, especialmente na frica ocidental, tornaram -se mais detalhadas e variadas. A explorao sistemtica do

    63 Cf. KHANYHOV, M., in: Mlange Asiatique, S. Petersburgo, 1859. Os trechos relativos frica oriental esto sendo preparados para uma traduo de V. P. SMIRNOVA em Leningrado.

    64 KHALATYANC, G. Armyanskiv pamyatnik XVII v. o. geograffi Abssinii i Severnoy Afrique voobchetche (Memria Armnia do sculo XVII sobre a Geografia da Etipia e da frica do Norte em Geral), in: Zemlevedenye, v. 1 -2, Moscou, 1899.

    65 Cf. CURTIN, P. D. 1967, (dir. de publ.) Africa Remembered, Madison, 1967. p. 170 -89: WILKS, I. Wargee of Astrakhan. V. tambm OLDEROGGE, D. A., Astrakhanec v Tombuktu v 1821 g. (Um homem de Astrakan em Tombuktu em 1821), Africana/Afrikanskiy etnografitcheskiy sbornik, VIII, Leningrado, 1971.

    66 Uma srie de documentos sobre a histria das relaes entre a Etipia e a Armnia, dos tempos antigos at o sculo XIX, est sendo publicada pelo Instituto de Estudos Orientais da RSS da Armnia, Erevan.

  • 121As fontes escritas a partir do sculo XV

    interior africano iniciou -se somente no fim do sculo XVIII, terminando com a diviso do continente entre as potncias coloniais.

    Em termos de representao nacional, pode -se dizer que os autores do sculo XVI eram predominantemente portugueses; os do XVII, holandeses, franceses e ingleses; os do XVIII, principalmente ingleses e franceses, e os do XIX, ingleses, alemes e franceses. Outras naes europeias foram, evidentemente, representadas no decorrer de todos esses sculos, como, por exemplo, os italianos no Congo no sculo XVII e no Sudo oriental no XIX, ou os dinamarqueses na Costa dos Escravos e na Costa do Ouro nos sculos XVIII e XIX. E h, entre os autores de livros de viagens e descries (mas especialmente no ltimo sculo), pessoas da Espanha, Rssia, Blgica, Hungria, Sucia, Noruega, Tchecoslovquia, Polnia, Sua, Estados Unidos, Brasil, e por vezes at um grego, romeno ou malts. Felizmente, a maioria dos livros escritos em lnguas menos conhecidas tem sido traduzida para lnguas mais acessveis.

    Ao avaliar os materiais europeus, devemos levar em considerao no tanto a nacionalidade dos autores, mas, sim, a mudana de atitudes dos europeus em relao aos africanos e suas sociedades em geral. Seria simplista afirmar que os escritores portugueses estavam mais inclinados a observar com preconceitos cristos os povos que descreviam, do que os ingleses, por exemplo; ou que os holandeses estavam mais propensos observao objetiva do que os escritores de outras naes. Evidentemente, h diferena entre um cronista portugus do sculo XVI, cuja abordagem estava impregnada dos valores medievais, e um estudioso ou mdico holands do fim do sculo XVII, produto de uma cultura j mais racional. A quantidade e variedade dos materiais nossa disposio no nos permitem nenhuma generalizao apressada; somente a anlise individual de cada um, de acordo com seus mritos, que leve em considerao, evidentemente, sua data e o assunto tratado, nos permitiria formalizar um julgamento. Deve--se tambm evitar a falcia de que, com o tempo, houve uma melhora gradual na objetividade das narrativas e de que, quanto mais nos aproximamos da atualidade, mais cientficas se tornam as observaes sobre a realidade africana, o que equivaleria a admitir, aprioristicamente, que uma narrativa de um viajante do sculo XIX tem, simplesmente por isso, uma credibilidade maior que uma narrativa escrita trs sculos antes. Burton e Stanley, enquanto observadores, eram prisioneiros da ideia, apresentada como cientificamente provada, da superioridade dos homens brancos, do mesmo modo que os autores portugueses eram prisioneiros da pretensa superioridade de sua f crist. O perodo do comrcio de escravos no era, em geral, favorvel a narrativas objetivas sobre os africanos, mas as necessidades prticas do comrcio exigiam um estudo

  • 122 Metodologia e pr -histria da frica

    minucioso das atividades econmicas e sistemas de governo na frica, de modo que temos, j nessa poca, uma srie de fontes muito valiosas.

    Livros sobre a frica e os africanos foram escritos por missionrios, comerciantes, funcionrios pblicos, oficiais da marinha e do exrcito, cnsules, exploradores, viajantes, colonizadores e, alguns, por aventureiros e prisioneiros de guerra. Cada qual tinha seus prprios interesses; assim sendo, os propsitos e abordagens variam consideravelmente. As narrativas de viajantes, tpicas de um certo gnero literrio, estavam preocupadas com um mundo desconhecido, extico e estranho e deviam responder s exigncias gerais de seus leitores. Essa inclinao pelo extico e pela aventura, ornamentada por opinies mais ou menos fantsticas sobre os povos africanos, ou descrevendo com complacncia os inmeros perigos encontrados pelo heroico viajante, persistiu at o sculo XIX67.

    Os missionrios dispensavam alguma ateno s religies africanas, mas em sua maioria careciam da habilidade e boa vontade para compreend -las, e estavam preocupados principalmente em expor seus erros e barbarismo; por outro lado, eles conheciam as lnguas locais, estando, portanto, numa posio melhor que os outros para apreender a estrutura social. s vezes demonstravam interesse pela histria, passando ento a coletar as tradies orais locais.

    No sculo XIX, a maior parte da literatura narrativa provm dos exploradores, que, de acordo com a tendncia da poca, tinham sua ateno voltada principalmente para a soluo de grandes problemas geogrficos, de modo que sua contribuio serviu mais para a geografia fsica que para o conhecimento da sociedade africana. A maioria deles estava mais interessada nas vias navegveis do que nas vias da cultura68. E muitos, sendo cientistas naturais, careciam de senso histrico ou acreditavam no mito da ausncia de histria africana. Existem, evidentemente, excees a essa regra, sendo a mais famosa a de Heinrich Barth.

    Por outro lado, surgiram, j no decorrer do sculo XVIII, certas histrias de Estados ou povos africanos, como The History of Dahomy (Londres, 1793), de Archibald Dalzel, que, num exame minucioso, revela -se como um panfleto antiabolicionista.

    Depois de mostrar algumas deficincias das fontes narrativas europeias, podemos agora examinar seus aspectos mais positivos. Acima de tudo, elas nos fornecem a estrutura cronolgica to necessria na histria da frica, onde a datao um dos pontos mais fracos da tradio oral. Mesmo uma nica data, dada por um viajante ou outro autor, por exemplo, de seu encontro com

    67 Cf. agora ROTHBERG, R. 1971. 68 MAZRUI, A. A. 1969.

  • 123As fontes escritas a partir do sculo XV

    alguma personalidade africana, pode constituir um ponto de partida para toda a cronologia de um povo e s vezes at para mais de um. O simples fato de estarem registradas por escrito no significa, entretanto, que todas as datas devam estar corretas. H casos em que autores europeus, relatando boatos ou tentando calcular um intervalo de tempo de acordo com fontes no -controlveis, cometeram erros mais ou menos graves. Mas os europeus tinham, em geral, sua disposio, uma medida do tempo tecnicamente mais desenvolvida.

    A literatura narrativa de importncia primordial como fonte da histria econmica: rotas comerciais, principais mercados, mercadorias e preos, agricultura e artesanato, recursos naturais, tudo isso podia e era observado e descrito sem preconceitos. Com efeito, os europeus necessitavam, em seu prprio favor, de narrativas to objetivas quanto possvel sobre esses assuntos. verdade que os recursos naturais ou possibilidades econmicas de algumas regies foram pintados com cores muito brilhantes, a fim de se fazerem realar os mritos do explorador. Mas o historiador est acostumado a esses exageros e os leva em considerao.

    O que os europeus mais bem registraram foram suas observaes dos aspectos exteriores das sociedades africanas, dos chamados usos e costumes; os documentos fornecem descries ricas, precisas e requintadas de vrias cerimnias, vestimentas, comportamentos, estratgias e tticas de guerra, tcnicas de produo, etc., no obstante, s vezes, a descrio ser acompanhada por eptetos como brbaro, primitivo, absurdo, ridculo e outros termos pejorativos, o que, por si s, no significa muito; trata -se somente de um julgamento em funo dos hbitos culturais do observador. Muito mais grave a total falta de compreenso da estrutura interna das sociedades africanas, da complicada rede de relaes sociais, da ramificao das obrigaes mtuas, das razes mais profundas para determinados comportamentos. Em suma, os autores eram incapazes de descobrir as motivaes profundas das atividades africanas.

    Apesar de tudo, a redao da histria da frica seria quase impossvel sem o material fornecido pelas fontes narrativas europeias. Elas podem ter suas deficincias: ignorar muitos detalhes, ou trat -los de um ponto de vista preconceituoso, parcial, ou, ainda, interpret -los incorretamente. Mas estes so riscos normais, inerentes a toda historiografia, e no razo para se rejeitar esse amplo e extremamente importante conjunto de informaes. Ao contrrio, h uma necessidade urgente de se reeditar o maior nmero possvel de narrativas desse tipo, e de public -las com comentrios e notas apropriados, tornando possvel, assim, sua avaliao e reinterpretao luz da nova historiografia da frica.

  • 124 Metodologia e pr -histria da frica

    Fontes narrativas internas

    Durante o perodo que estamos estudando, ocorreu um novo fenmeno, de consequncias capitais: o aparecimento e desenvolvimento de uma literatura histrica escrita por africanos da regio ao sul do Saara. O meio de expresso no era, inicialmente, nenhuma das lnguas africanas locais, mas, sim, o rabe cujo papel no mundo islmico pode ser comparado ao que o latim representou na Idade Mdia europeia, isto , o meio de comunicao entre os povos cultos , e, mais tarde, tambm algumas das lnguas europeias.

    A tradio historiogrfica parece ter comeado ao mesmo tempo no cinturo sudans e na costa africana oriental, precisamente nas duas grandes regies cobertas at essa poca pelas fontes rabes externas e nas quais o Isl exerceu uma prolongada influncia. As mais antigas crnicas existentes datam do incio do sculo XVI, embora relatem eventos dos perodos anteriores. A primeira, o Tarikh al Fattash, obra de trs geraes da famlia Kati de Djenn, cobre a histria do Songhai e dos pases vizinhos at a conquista marroquina em 1591. Mais extenso e mais rico em detalhes o Tarikh al Sudan, escrito pelo historiador de Tombuctu, El -Saadi, e que cobre em parte o mesmo perodo, continuando, porm, at 1655. Ambas so obras de grandes estudiosos, com um vasto campo de interesses e um conhecimento profundo dos acontecimentos seus contemporneos. Mais significativo ainda o fato de, pela primeira vez, podermos ouvir a voz de africanos autnticos, mesmo sabendo serem os autores francamente partidrios do Isl e observarem os acontecimentos desse ponto de vista. No sculo XVIII tem origem uma histria annima, mas muito detalhada, dos paxs marroquinos de Tombuctu, entre 1591 e 1751, contendo tambm material til dos pases e povos vizinhos69. Outro tipo de fonte representado pelo dicionrio biogrfico dos intelectuais do Sudo ocidental, compilado pelo famoso estudioso Ahmed Baba, de Tombuctu (morto em 1627)70. mesma regio do Imprio Songhai que pertence o Tarikh Say, crnica rabe de Ibn Adwar, escrita, segundo dizem, em 1410. Se fosse autntica, seria o mais antigo documento existente escrito na frica ocidental. Contudo, parece ser, mais propriamente, uma verso tardia da tradio oral71.

    69 Tarikh al Fattach. Trad. e comentado por O. HOUDAS e M. DELAFOSSE, Paris, 1913 (reed. 1964); Tarikh al Sudan, trad. e comentado por O. HOUDAS, Paris, 1900 (reed. 1964); Tadhkirat es nisyan, trad. e anotado por O. HOUDAS, Paris, 1899 (reed. 1964).

    70 Publicado em Fez, 1899, e no Cairo, 1912. 71 Cf. MONTEIL, V. BIFAN 28, 1966, p. 675.

  • 125As fontes escritas a partir do sculo XV

    De Tombuctu e Djenn a tradio da crnica escrita expandiu -se para outras reas, especialmente para o sul e oeste, na regio situada entre o Sahel e a floresta tropical, e, em alguns casos, at mais ao sul ainda. Intelectuais muulmanos comearam a registrar por escrito, a partir da metade do sculo XVIII ou at antes disso, crnicas locais, genealogias de cls, biografias concisas e livros religiosos. O exemplo mais notvel Kitab Gonja, escrito depois de 1752, que uma histria do Reino Gonja, baseada, em parte, em tradies orais72. H muitas crnicas de menor importncia, e de se esperar que outras surjam em outros lugares, nessa regio sob influncia das comunidades diula ou haussa, ou de ambas. A maior parte desses trabalhos est escrita em rabe. Muitas crnicas tambm foram escritas em ajami, isto , em lnguas locais, mas com caracteres rabes.

    A situao anloga nas regies de fala fulfulde, sobretudo em Futa Toro e Futa Djalon. Na prpria Guin, assim como em Dacar e nas bibliotecas em Paris, h muitas crnicas daquelas regies em rabe ou em fulfulde (ou em ambas), a maioria datando dos sculos XVIII e XIX. Os materiais de Futa Djalon s recentemente foram publicados e examinados em obras cientficas, Quanto a esse aspecto, pode -se fazer referncia coleo de Gilbert Vieillard, mantida na biblioteca do IFAN em Dacar73. J para Futa Toro a situao outra: as Crnicas dos Futa Senegaleses de Sir -Abbas Soh, um autor do sculo XVIII, tornaram -se acessveis j h meio sculo74. Outro antigo trabalho, um dicionrio biogrfico de Muhammad el -Bartayili chamado Fath el Sahkur (c. 1805), est sendo preparado para publicao por John O. Hunwick; uma histria mais moderna dos Futa Toro, escrita em 1921 por Xeque Kamara Musa de Ganguel e intitulada Zuhur al Basatin (Flores dos Jardins), ainda no foi publicada75.

    No norte da Nigria tambm, crnicas e outras fontes em rabe surgiram em data relativamente recente. O imame Ibn Fartuwa (fim do sculo XVI) deixou um relato fascinante e detalhado da vida e da poca de Mai Idris e de suas guerras76. De perodo mais recente so as vrias listas de governantes e crnicas do Bornu. Uma fonte excepcional representada pelos chamados mahrams, registros de privilgios concedidos por governantes a famlias de notveis religiosos, atravs dos quais podemos perceber tambm condies econmicas

    72 V. sobre esses e outros assuntos WILKS, I. 1963, e HODGKIN, T. 1966. 73 SOW, A. I. 1968; DIALLO, T. 1968. 74 Trad. por M. DELAFOSSE e H. GADEN, Paris, 1913.75 Mantida na biblioteca do IFAN, Dacar; cf. MONTEIL, V. 1965, p. 540.76 Editado por H. R. PALMER, Kano, 1930; trad. in: Sudanese Memoirs I, Lagos, 1928, e in: History of the

    first twelve years of Ma Idriss Alaoma, Lagos, 1929.

  • 126 Metodologia e pr -histria da frica

    e sociais77. No resta muita coisa do material histrico pr jehad na regio haussa, embora o nvel de instruo, especialmente entre os lderes religiosos fulani, fosse relativamente alto78; mas alguns poemas na lngua haussa ou em kanuri (Bornu) contm comentrios sobre acontecimentos da poca79.

    O incio do sculo XIX presenciou um renascimento da literatura rabe no Sudo central e ocidental; alm dos trabalhos naquela lngua, um nmero cada vez maior de livros foi escrito em lnguas locais, como haussa, fulfulde, kanuri, mandara, kotoco, etc., utilizando caracteres rabes. Os mais produtivos foram os lderes dos jehad fulani, no norte da Nigria, apesar de grande parte de sua produo literria tratar de assuntos religiosos, e somente algumas obras poderem ser consideradas verdadeiras crnicas80; toda essa literatura, em rabe ou numa das lnguas africanas, ajuda a construir um quadro mais coerente da vida social e intelectual nessa regio. As crnicas das cidades haussa (Kano, Katsina, Abuja, etc.), embora originrias do fim do sculo XIX, baseiam -se de certa medida em documentos mais antigos ou na tradio oral81. Um desenvolvimento similar ocorreu mais a leste, em Baguirmi, Kotoco, Mandara e Uadai. Algumas crnicas ou listas de reis j foram publicadas, mas muitas outras ainda esto em manuscritos e espera -se descobrir outras mais, em colees particulares82.

    Uma crnica rimada em fulfulde descreve a vida e as atividades do grande reformador tukulor al -HadjdjUmar83, autor de um trabalho religioso, Rimah Hizb el Rahim (Lanas do Partido do Deus Misericordioso), que contm tambm muitas aluses histricas s condies de vida no Sudo ocidental84.

    77 Recolhido por H. R. PALMER, nas suas Sudanese Memoirs, 3 v., Lagos, 1928 e em The Bornu, Sahara and the Sudan, Londres, 1936; cf. tambm Y. URVOY, Chroniques du Bornu, Journ. Socit des Africainistes, II, 1941.

    78 HISKETT, M. 1957, p. 550 -558; BIVAR, A. D. H. e HRSKETT, M. 1962, p. 104 -48. 79 Cf. PATTERSON, J. R. 1926. 80 BELLO MUHAMMAD, Infaqu l maysur, editado por C. E. J. WHITING, Londres, 1951; trad.

    inglesa da parfrase haussa de E. J. ARNETT, The Rise of the Sokoto Fulani, Kano, 1922; Abdullahi DAN FODIO, Tazyin al waraqat, trad. e coment. por M. HISKETT, Londres, 1963; HAJJI SACID, History of Sokoto, trad. por C. E. J. WHITING, Kano, s.d.; tambm uma traduo francesa de O. Houdas, Tadhkirat annisyan, Paris, 1899.

    81 The Kano Chronicle. Trad. por H. R. PALMER, in: Sudanese Memoirs III, 1928; sobre Katsina cf. op. cit., p. 74 -91; sobre Abuja, v. MALLAMS HASSAN e SHUAIBU, A Chronicle of Abuja, trad. do haussa por P. L. HEATH, Ibadan, 1952.

    82 Cf. H. R. PALMER, 1928; vrias obras de J. P. LEBOEUF e M. RODINSON em tudes camerounaises, 1938, 1951, 1955 e BIFAN, 1952 e 1956; M. A. TUBIANA sobre Uadai, in: Cahiers dtudes africaines 2, 1960.

    83 RYAM, M. A. La vie dEl Hadj Omar Qasida en Poular. Trad. por H. CAHEN, Paris, 1935. 84 Kitab Rimah Hizb al Rahim, Cairo, 1927; nova ed. e trad. est sendo preparada por J. R. WILLIS.

  • 127As fontes escritas a partir do sculo XV

    A costa africana oriental pode ser comparada com o Sudo quanto ao nmero de suas crnicas. H crnicas de muitas cidades, escritas em rabe ou em kiswahili (em escrita rabe), que fornecem listas de reis e narrativas da vida poltica. Somente a crnica de Kilwa realmente antiga. Foi composta em 1530 aproximadamente e chegou at ns em duas verses diferentes, uma transmitida por de Barros, e a outra copiada em Zanzibar em 187785. As crnicas, na sua maioria, s foram compiladas recentemente, embora algumas remontem segunda metade do sculo XVIII. Muitas delas se concentram em acontecimentos anteriores chegada dos portugueses. Constituem, de certa forma, registros de tradies orais e devem ser tratadas e avaliadas como tais86. Um nmero considervel de manuscritos ainda pertence a colees particulares. Desde 1965, mais de 30 mil pginas de manuscritos swahili (e rabes tambm) foram descobertas, e de se esperar que, quando toda a costa tiver sido completamente explorada, encontremos materiais que venham esclarecer muitos aspectos desconhecidos da histria da frica oriental87. Alm das crnicas das cidades, outros gneros literrios podem ser utilizados com proveito pelos historiadores, como, por exemplo, a poesia swahili, notadamente o poema al Inkishaf i (composto na segunda dcada do sculo XIX), que descreve a ascenso e o declnio de Pate88.

    A produo literria dos africanos em lnguas europeias tem incio dois sculos mais tarde que a redao em rabe. Como era de se esperar, os primeiros exemplares foram produzidos por indivduos da costa ocidental, onde os contatos com o mundo exterior eram mais intensos que em qualquer outro ponto.

    Apesar dos nomes de Jacobus Captain (1717 -1747), A. William Amo (c. 1703 -c. 1753) e Philip Quaque (1741 -1816), todos de origem fanti, no deverem ser esquecidos como os pioneiros da literatura africana em lngua europeia, sua contribuio para a historiografia da frica foi insignificante. Incomparavelmente mais importantes como fontes histricas so os trabalhos dos escravos libertados, da segunda metade do sculo XVIII: Ignatius Sancho (1729 -1780), Ottobah Cugoano (c. 1745 -1800) e Oloduah Equiano (Gustavus Vasa; c. 1745 -1810?). Todos os trs estavam especialmente interessados na abolio do comrcio de escravos, e seus livros, embora polmicos, fornecem muito material biogrfico

    85 Analisado por FREEMAN -GRENVILLE, G. S. P. The Medieval History of the Coast of Tanganyika, Oxford, 1962.

    86 Sobre as crnicas rabes e swahili em geral, cf. FREEMAN -GRENVILLE, G. S. P., 1962; PRINS, A. H. J. 1958; ALLEN, J. W. T. 1959, p. 224 -27.

    87 A mais importante descoberta desse tipo nos ltimos anos foi a de Kitab al Zanj (Livro dos Zanj), que trata da histria da Somlia do sul e do Qunia do norte; cf. CERULLI, E. 1957.

    88 Cf. HARRIES, L. 1962.

  • 128 Metodologia e pr -histria da frica

    sobre a situao dos africanos, tanto na frica como na Europa89. Do mesmo perodo provm um documento nico, o dirio de Antera Duke, um dos principais comerciantes de Calabar, escrito em pidgin English local e que cobre um longo perodo; embora um pouco breve, esse dirio nos fornece importantes dados sobre a vida cotidiana num dos mais importantes portos negreiros90.

    Em Madagscar, o grande rei merina Radama I (1810 -1828) mantinha uma espcie de dirio em escrita rabe (sura -be). Em 1850, aproximadamente, dois outros aristocratas merina, Raombana e Rahaniraka, escreveram, no alfabeto latino, relatos que ajudam a reconstruir uma imagem mais completa da vida cotidiana dos Merina no sculo XIX91.

    Durante o sculo XIX muitos africanos ou afro -americanos participaram de viagens de explorao ou publicaram reflexes sobre a vida africana, s vezes em combinao com polmicas de diversa natureza. Samuel Crowther, um ioruba, educado em Serra Leoa e na Gr -Bretanha, tomou parte das expedies do Nger de 1841 e 1853, deixando descrio de suas viagens92. Thomas B. Freeman, nascido na Inglaterra, de origem mestia, viajou muito na frica ocidental e descreveu os povos da costa e do interior com simpatia e inspirao93. Dois afro -americanos, Robert Campbel e Martin R. Delany, foram para a Nigria na dcada de 1850 em busca de rea adequada para uma possvel colnia de afro -americanos94. Um liberiano, Benjamin Anderson, descreveu, com muitos detalhes e observao precisa, sua viagem no alto vale do Nger95. Dois eminentes lderes africanos, Edward W. Blyden e James Africanus B. Horton, pertencem a uma classe particular. Alguns dos livros, papeis e artigos de Blyden constituem, por si s, uma fonte histrica; outros j tm um carter de interpretao histrica, mas, mesmo assim, so indispensveis para qualquer pesquisa que trate do surgimento da conscincia africana96. O mesmo se pode dizer do trabalho de Horton, com a diferena de que suas

    89 SANCHO, I. 1781; CUGOANO, O. 1787; The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, or Gustavus Vasa, the African, Londres, 1798.

    90 FORDE, D. 1956. Os manuscritos originais foram destrudos na Esccia pelos bombardeios durante a ltima guerra, mas foram preservadas cpias de alguns trechos de 1785 -1787.

    91 BERTHIER, H., 1933; Manuscrito de Raombana e Rahaniraka, Bull. de l Acadmie Malgache, 19, 1937, p. 49 -76.

    92 Cf. Journals of the Rev. J. J. Schn and Mr. Crowtlher, Londres, 1842; CROWTHER, S. 1855.93 FREEMAN, T. B. 1844.94 CAMPBEL, R. 1861; DELANY, M. R. 1861.95 ANDERSON, B. 1870.96 Sobre BLYDEN, cf. LYNCH. H. R. 1967.

  • 129As fontes escritas a partir do sculo XV

    observaes tendiam a ser mais precisas quando tratava das sociedades com as quais manteve mais estreito contato97.

    Esses dois homens pertencem j a uma fase de transio com o grupo de africanos que comearam a escrever a histria de seus prprios pases ou povos. Uma primeira tentativa, embora com maior nfase na etnografia, foi feita pelo Ab. Boilat, um mulato de St. Louis, em seus Esquisses Sngalaises98. Um interesse maior pela historiografia baseada principalmente na tradio oral pode -se observar nas regies da frica sob domnio britnico, mas somente no fim do sculo XIX. C. C. Reindorf, um ga, publicou em 1895, em Basle, sua History of the Gold Coast and Asanle e considerado o primeiro historiador moderno de origem africana. Com ele e Samuel Johnson cuja History of the Yorubas contempornea do livro de Reindorf, mas s foi publicada em 1921 inicia -se a cadeia ininterrupta de historiadores africanos, a princpio amadores (na maioria missionrios), mais tarde, profissionais. Suas ideias e suas obras so abordadas no captulo dedicado ao desenvolvimento da historiografia da frica.

    Todas essas fontes narrativas, escritas em rabe ou nas diversas lnguas africanas e europeias, formam um vasto e rico conjunto de materiais histricos. Elas no cobrem, evidentemente, todos os aspectos do processo histrico e possuem um carter regional, oferecendo, em alguns casos, apenas uma imagem fragmentria. As fontes escritas por muulmanos demonstram, em geral, um pronunciado ponto de vista islmico, que aparece claramente quando abordam sociedades no -muulmanas. Os autores de fontes narrativas em lnguas europeias eram ao mesmo tempo polemistas em campanha contra o comrcio de escravos ou em favor da igualdade, e, portanto, com uma certa tendncia parcialidade. Mas trata -se de limitaes normais de todas as fontes narrativas, e, cientes delas, devemos, ainda assim, reconhecer que possuem uma vantagem decisiva: so vozes dos africanos, que nos revelam uma outra face da histria. que esteve sufocada pela torrente de opinies estrangeiras.

    Fontes arquivsticas particulares, relatrios confidenciais e outros testemunhos

    Fontes particulares so, essencialmente, os documentos escritos que resultam da necessidade de registrar vrias atividades humanas e que, originalmente,

    97 HORTON, J. A. B. 1863; Letters on the Political Conditions of lhe Gold Coast ..., Londres, 1870.98 Paris, 1833.

  • 130 Metodologia e pr -histria da frica

    no eram destinados ao pblico, mas apenas a um pequeno grupo de pessoas interessadas. Compreendem, assim, principalmente, a correspondncia oficial e particular, relatrios confidenciais de vrias transaes, registros comerciais, estatsticas, documentos particulares de diversos tipos, tratados e acordos, dirios de bordo, etc. Esse material a matria -prima do historiador, j que oferece ao contrrio das fontes narrativas, feitas com um propsito bem definido um testemunho objetivo, isento, em princpio, de quaisquer segundas intenes visando um vasto pblico ou a posterioridade. Esse material encontrado principalmente em arquivos e bibliotecas estatais ou particulares.

    A antiga ideia de que no h fontes escritas particulares suficientes para a histria da frica j no tem fundamento. Existem no apenas colees extremamente ricas de documentos nas antigas metrpoles assim como extenso material na prpria frica, produzidos nos perodos pr -colonial e colonial, por instituies particulares ou ligadas aos Estados europeus, mas tambm colees de material particular originrias dos prprios africanos, escritas em lnguas europeias ou em rabe. Enquanto, anteriormente, esses documentos eram considerados raridades, encontradas somente em alguns lugares muito especiais, est claro agora que existe uma grande quantidade de fontes escritas de origem africana em vrias partes do continente e tambm nos arquivos europeus e asiticos.

    Observemos, primeiramente, o material escrito em rabe. Para o perodo anterior ao sculo XIX, foram descobertos at agora somente exemplares isolados de correspondncia, local e internacional, provenientes, sobretudo, da frica ocidental. H cartas do sulto o otomano ao Mai Idris do Bornu (em 1578), descobertas em arquivos turcos, e alguma correspondncia do sulto do Marrocos ao Askiya de Songhai e ao Kanta de Kebbi, tambm do fim do sculo XVI. O rabe era utilizado como lngua diplomtica no apenas pelas cortes islamizadas do Sudo, mas tambm por governantes no -muulmanos. O caso mais conhecido o dos Asantehenes, que utilizaram os servios de escribas muulmanos, que escreviam em rabe, para redigir sua correspondncia com seus vizinhos do norte, assim como com os europeus da regio costeira. Algumas dessas cartas foram encontradas na Biblioteca Real em Copenhague. A chancelaria rabe de Kumasi funcionou durante grande parte da segunda metade do sculo XIX, e o rabe tambm era utilizado para manter registros de decises administrativas e judiciais, transaes financeiras, etc. No outro lado da frica tem -se como exemplo o tratado, escrito em rabe, entre o comerciante de escravos francs, Morice, e o sulto de Kilwa, no ano de 1776.

    O sculo XIX presenciou um aumento considervel da correspondncia em rabe em todo o continente. Com o estabelecimento de Estados centralizados no Sudo houve um desenvolvimento das atividades administrativas e diplomticas, tendo

  • 131As fontes escritas a partir do sculo XV

    sido descoberto um abundante material desse tipo, principalmente no sultanato de Socotoe em seus emirados dependentes, de Guandu a Adamaua, no Estado de Macina ou no Estado de Liptako e no Imprio de Bornu. Todos os governantes muulmanos de grandes ou pequenos Estados mantinham correspondncia intensa entre si e com as potncias coloniais em desenvolvimento. Em muitos arquivos dos pases da frica ocidental (e em alguns da Europa), encontram -se milhares de documentos em rabe de personalidades como al -HadjdjUmar, Ahmadu Seku, Ma -Ba, Lat Dyor, Mahmadu Lamine, Samory, al -Bakkai, Rabih e muitos outros lderes e chefes de menor envergadura. As administraes coloniais em Serra Leoa, Guin, Nigria e Costa do Ouro tambm mantinham sua correspondncia com eles em rabe. Existem cartas trocadas entre o pax otomano de Trpoli e os xeques bornu, entre o sulto do Darfur e o Egito, entre Tombuctu e o Marrocos. O mesmo ocorreu com a frica oriental; parece, entretanto, que os arquivos de Zanzibar no so to ricos em documentos rabes, como poderia se esperar de uma cidade com to grandes interesses comerciais e polticos. Deve haver, evidentemente, um vasto nmero de documentos, com diversidade de contedo, em colees particulares; a reunio e catalogao de todos eles no ser uma tarefa fcil, mas indispensvel no futuro prximo.

    Muitos textos foram escritos na escrita vai, que foi inventada em 1833, aproximadamente, por Momolu Duwela Bukele, e expandiu -se muito rpidamente entre o povo Vai, de modo que, no fim do sculo, quase todos a conheciam e empregavam correntemente, na correspondncia particular e oficial, na manuteno das contas e tambm na redao de leis costumeiras, provrbios, contos e fbulas. Muitos povos vizinhos, como os Mende, os Toma (Loma), os Gerze (Kpele) e os Basa, adotaram e adaptaram a escrita vai, empregando -a com propsitos semelhantes99.

    No incio do sculo XX o Sulto Njoya de Bamum (Camares) inventou para a lngua bamum uma escrita especial, que ele reformou quatro vezes durante sua vida; mas, contrariamente escrita vai, utilizada geralmente pela maioria do povo, o conhecimento da escrita bamum permanecia restrito a um pequeno grupo da corte do sulto. Todavia, Njoya comps um grande volume sobre a histria e costumes de seu povo nessa escrita, um livro no qual ele continuou a trabalhar durante muitos anos e que constitui um verdadeiro manancial de informaes valiosas sobre o passado100.

    99 Cf. DALBY, D. A. 1967, p. 1-51.100 Histoire et coutumes des Bamum, rdigs sous la direction du Sultan Njoya. Trad. por P. Henri MARTIN,

    Paris, 1952. O original mantido no palcio do sulto em Fumbam.

  • 132 Metodologia e pr -histria da frica

    Devemos acrescentar os textos em nsibidi101 do Cross River Valley (sudeste da Nigria), que consistem em inscries em santurios e formas especiais de linguagem, utilizadas entre os membros de algumas sociedades secretas.

    O material nas lnguas europeias abrange o perodo do sculo XVI at hoje. Escrito numa dzia de lnguas, imensamente abundante e est disperso pelo mundo inteiro em centenas de lugares diferentes, arquivos, bibliotecas e colees particulares. Essa situao torna sua utilizao pelos historiadores bastante difcil, especialmente em casos onde no h guias nem catlogos disposio. Foi por essa razo que o Conselho Internacional de Arquivos, sob os auspcios e com o apoio moral e financeiro da UNESCO, comeou a preparar uma srie de guias para as fontes da histria da frica. O principal objetivo era satisfazer as necessidades dos estudantes de histria da frica facilitando o acesso a todo o corpo de fontes existentes. Como a pesquisa histrica havia estado por muito tempo concentrada num nmero limitado de bibliotecas de arquivos que mantm registros do perodo colonial, era importante chamar a ateno tambm para a existncia de um extenso e muito disperso conjunto de fontes, at agora no exploradas. Os guias so dedicados inicialmente aos arquivos pblicos e particulares, mas levam igualmente em considerao o material de interesse histrico conservado em bibliotecas e museus. A srie deve compreender doze volumes, com informaes sobre fontes arquivsticas que tratam da frica ao sul do Saara e mantidas nos pases da Europa ocidental e nos Estados Unidos. At agora os seguintes volumes j foram publicados:

    Volume I Repblica Federal da Alemanha (1970); Volume 2 Espanha (1971); Volume 3 Frana I (1971); Volume 4 Frana II (1976); Volume 5 Itlia (1973); Volume 6 Itlia (1974); Volume 8 Escandinvia (1971); e Volume 9 Holanda (1978). O Volume 7 (Vaticano) esperado para um futuro prximo. Os volumes abrangendo a Blgica, o Reino Unido e os Estados Unidos aparecero separadamente, mas seguiro o mesmo mtodo de apresentao102. Como foi muito apropriadamente dito por Joseph Ki -Zerbo em sua Introduo para a srie, na batalha para a redescoberta do passado africano, o guia das fontes da histria da frica constitui uma nova arma estratgica e ttica103.

    101 Cf. DAYRELL, 1910 -1911 ; MAC-GREGOR, 1909, p. 215, 217, 219. 102 Os volumes dos Estados Unidos e do Reino Unido apresentam listas de documentos relativos a todo o

    continente.103 Quellen zur Geschichte Afrikas sdlich der Sahara in den Archiven der Bundesrepublik Deutschland (Guio das

    fontes da histria da frica), v. I, Zug, Sua, 1970. Prefcio, p. vii.

  • 133As fontes escritas a partir do sculo XV

    Alm desse importante projeto, j h alguns outros guias de fontes, preparados principalmente por regies ou de acordo com critrios especiais. Entre os mais completos, constam os cinco guias da histria da frica ocidental, publicados em 1962 -1973, que cobrem os arquivos de Portugal, Itlia, Blgica, Holanda, Frana e Reino Unido104.

    Mais ambiciosas e de certa forma mais vantajosas so as edies de documentos arquivsticos in extenso ou como catlogos. At agora esse tipo de apresentao tem sido usado principalmente para o material em arquivos portugueses. Sem considerar o trabalho de Paiva Manso no fim do sculo XIX105, h agora duas importantes colees de documentos de missionrios, provenientes de arquivos portugueses e alguns outros, um de A. da Silva Rego106, e outro de A. Brasio107. Alguns anos atrs, foi iniciada uma coleta monumental, preparada pelos esforos combinados dos arquivos portugueses e do Zimbabwe, na qual todos os documentos portugueses relativos ao sudeste da frica sero publicados no original com uma traduo inglesa108.

    H tambm colees restritas no que se refere ao tempo, alcance e objeto. Essa categoria representada, por um lado, pelos British Parliamentary Papers e vrios Livros Azuis e Brancos, principalmente do perodo colonial, e, por outro lado, por selees recentes mais cientficas109, como o trabalho de J. Cuvelier e L. Jadin sobre os documentos do Vaticano para a histria do antigo Congo110, ou a seleo de C. W. Newbury sobre a poltica britnica na frica ocidental e o estudo documentrio de G. E. Metcalfe sobre as relaes entre a Gr--Bretanha e Gana111. mesma categoria pertence a grande coleo de material arquivstico sobre a poltica italiana em relao Etipia e pases vizinhos, em vias de publicao por C. Giglio112. Muitas outras colees desse tipo em vrios arquivos europeus tornaram acessveis documentos para alguns aspectos da histria colonial. Mas seu ponto fraco reside precisamente em seu carter

    104 CARSON, P. 1962; RYDER, A. F. C. 1965; GRAY, R. e CHAMBERS, D. 1965; CARSON, P. 1968.105 MANSO, P. 1877.106 SILVA REGO, A. da. 1949 -1958. 107 BRASIO, A. 1952. 108 The Historical Documents of East and Central Africa, Lisboa -Salisbury, a partir de 1965. Compreender

    aproximadamente 20 volumes.109 Guides to Materials for West African History in European Archives, publicados pela Universidade de Londres

    na Athlone Press, a partir de 1962. Cf. nota 104.110 CUVELIER, J. e JADIN, L. 1954.111 NEWBURY, C. W. 1965; METCALFE, G. E. 1964.112 GIGLIO, C. LItalia in Africa, Serie Storica, v. I, 1958.

  • 134 Metodologia e pr -histria da frica

    figura 6.2 Fac-smile do manuscrito vai intitulado An Early Vai Manuscript (por Svende E. Holsoe, publicado pelo International African Institute).

  • 135As fontes escritas a partir do sculo XV

    seletivo, porque cada compilador segue, ao escolher o material, regras prprias, subjetivas, enquanto o pesquisador que examina uma questo necessita de todas as informaes e de uma documentao completa.

    Em cada Estado independente da frica existe agora arquivos governamentais que tambm mantm material herdado da administrao colonial anterior. Apesar de alguns pases terem publicado guias ou catlogos, a maioria dos arquivos na frica ainda est em processo de classificao sistemtica e descrio113. A publicao de uma srie de guias de todos os arquivos africanos pblicos e particulares, como os que esto sendo publicados para os arquivos da Europa, , no momento atual, uma necessidade urgente.

    Os arquivos governamentais da frica, comparados aos das antigas metrpoles, tm suas vantagens e tambm seus inconvenientes. Com algumas excees, a manuteno de registros detalhados s teve incio na frica, na dcada de 1880, e h muitas lacunas nesse material, que devem ser compensadas por outras fontes, sendo as mais importantes os registros dos missionrios e comerciantes e os documentos particulares, e, evidentemente, os arquivos em capitais europeias.

    Por outro lado, as vantagens dos arquivos criados na frica sobre os das antigas capitais metropolitanas so numerosas: a diferena marcante reside no fato de guardarem materiais e registros que tm relao mais direta com a situao local, enquanto os arquivos coloniais da Europa contm, principalmente, documentos sobre a poltica do colonizador. Os arquivos africanos geralmente conservam registros do perodo pr -colonial, como relatrios dos primeiros exploradores, informaes colhidas por comerciantes, funcionrios pblicos e missionrios no interior, relatrios que no eram considerados dignos de ser enviados para a Europa, mas que so de extrema importncia para a histria local. Conservam, ainda, um nmero muito maior de documentos produzidos por africanos que os arquivos da Europa. Em geral, apesar da quantidade de material duplicado em arquivos da Europa e da frica, qualquer pesquisador que trabalhe somente com fontes de antigos arquivos metropolitanos tender a escrever uma histria dos interesses europeus na frica e no a histria dos africanos. Por outro lado, a utilizao exclusiva dos arquivos mantidos na frica no pode fornecer um quadro completo, j que muitos registros e documentos esto faltando ou so incompletos.

    113 Para um estudo da situao s vsperas da independncia. v. P. D. CURTIN, 1960, p. 129 -47.

  • 136 Metodologia e pr -histria da frica

    Para concluir, devemos mencionar alguns outros tipos de documentos, da mesma categoria. Inicialmente trataremos dos mapas e outros materiais cartogrficos. Embora, a partir do sculo XVI, o nmero de mapas impressos da frica tenha aumentado a cada ano, muitos ainda se mantm em forma de manuscritos, em vrios arquivos e bibliotecas da Europa, alguns magnificamente decorados e coloridos. Nesses mapas, podemos encontrar frequentemente nomes de localidades que hoje no existem mais ou que so conhecidas por outras denominaes, mas que so mencionados em outras fontes, orais ou escritas. Por exemplo, muitos povos Bantu orientais tm tradies que falam da migrao de uma rea chamada Shungwaya; atualmente no se conhece nenhuma localidade com esse nome, mas em alguns dos mapas antigos, por exemplo, o de van Linschotten (1596) ou o de William H. J. Blaeu ( 1662) e outros mais, Shungwaya aparece com vrias grafias, primeiro como cidade, mais tarde como regio no distante da costa. Os mapas antigos fornecem tambm dados sobre a distribuio de grupos tnicos, sobre as fronteiras dos Estados e provncias, sobre os vrios nomes dos rios, montanhas e outros aspectos topogrficos. Em resumo, oferecem um material toponmico muito til, que por sua vez fornecem valiosas informaes histricas. Um exemplo prtico de como utilizar o material cartogrfico com propsitos histricos foi demonstrado por W. G. L. Randles em sua South East Africa in the Sixteenth Century114. A importncia desse material j foi reconhecida, e o historiador tem sua disposio a grande obra de Yusuf Kamel, Monumenta Cartographica Africae et Aegypti, que contm tambm muitos textos narrativos no original e em traduo, mas interrompe -se, cronologicamente, precisamente no sculo XVI115. Devemos, portanto, endossar o apelo de Joseph Ki -Zerbo de publicao de uma coletnea de todos os mapas antigos da frica em um atlas .com textos comentados116. Um primeiro passo nesse sentido foi dado com a recente publicao, em Leipzig, de quase cem mapas, mas sem comentrios suficientes e reproduzindo apenas material j impresso117.

    Outra categoria de material encontrado nas fontes escritas so os dados lingusticas. J que se reservou um captulo especial neste volume para o estudo da lingustica como cincia histrica associada, deixaremos de lado as questes metodolgicas e restringiremos nossa discusso a indicaes sobre o tipo de fontes

    114 RANDLES, W. G. L. 1958. 115 Cairo, 1926 -1951. 116 Cf. nota 103 acima.117 Afrika auf Karten des 1218. Jahrhunderts (Mapas da frica do sculo XII ao XVIII). Leipzig, 1968.

  • 137As fontes escritas a partir do sculo XV

    em que se podem encontrar dados lingusticos. A partir dos primeiros contatos com a frica, os viajantes europeus passaram a acrescentar, como atitude de bom -tom, s suas narrativas de viagens e outros relatrios, listas mais ou menos longas de palavras nas lnguas locais. Os mais antigos vocabulrios datam do sculo XV, e, at o sculo XIX, raramente encontramos um livro sobre a frica sem esse suplemento, s vezes at acompanhado por uma breve gramtica. Embora a ortografia quase nunca seja sistemtica, no difcil identificar as palavras e lnguas. A publicao mais notvel desse tipo a grande coletnea publicada por Koelle, de vocabulrios de 160 lnguas aproximadamente118. Curtin, Vansina e Hair119 demonstraram que o valor da obra mais que lingustico. Especialmente favorecido nesse aspecto o antigo Reino do Congo: trabalhos que tratam do Kicongo tm sido publicados desde o sculo XVII uma gramtica de Brusciotto (1659) e um dicionrio de de Gheel (morto em 1652)120. Alm dessas obras impressas, existem outras em vrias bibliotecas e arquivos (Vaticano, British Museum, Besanon, etc.). Seu valor documental para os historiadores maior que o das listas de palavras, pois so mais completas, permitindo um estudo diacrnico da nomenclatura social e cultural121.

    Fontes escritas, narrativas e arquivsticas, nas lnguas africanas, orientais ou europias, representam um conjunto imensamente rico de material para a histria da frica. Embora abundantes, os documentos de todo tipo, registros, livros e relatrios conhecidos constituem, muito provavelmente, apenas um fragmento do material existente. Dentro e fora da frica devem existir inmeros lugares que ainda no foram explorados do ponto de vista de fontes possveis da histria daquele continente. Essas regies inexploradas constituem verdadeiros espaos em branco no mapa do nosso conhecimento das fontes da histria africana. Quanto mais cedo eles desaparecerem, mais rico ser o quadro que podemos traar do passado africano.

    118 KOELLE, S. W. 1854, reed. GRAZ, 1963.119 CURTIN, P. D. e VANSINA, J.1964; HAIR, P. E. H. 1965. 120 Regulae quaedam pro difficillimi Congenius idiomatis faciliori captu ad Grammatica normam, redactae A. F.

    Hyacintho Brusciotto, Roma, 1659; WING, J. van, e PENDERS, C. Le plus ancien dictionnaire Bantu. Vocabularium P. Georgii Gelensis, Louvain, 1928.

    121 A gramtica de Brusciotto foi estudada com esses objetivos por D. A. OLDEROGGE, no seu instrutivo artigo Sistema rodstva Bakongo v. XVII (Sistema de parentesco Bakongo no sculo XVII), in: Afrikanskiy etnograficheskiy sbornik III, Moscou, 1959.

  • C A P T U L O 7

    139A tradio oral e sua metodologia

    As civilizaes africanas, no Saara e ao sul do deserto, eram em grande parte civilizaes da palavra falada, mesmo onde existia a escrita; como na frica ocidental a partir do sculo XVI, pois muito poucas pessoas sabiam escrever, ficando a escrita muitas vezes relegada a um plano secundrio em relao s preocupaes essenciais da sociedade. Seria um erro reduzir a civilizao da palavra falada simplesmente a uma negativa, ausncia do escrever, e perpetuar o desdm inato dos letrados pelos iletrados, que encontramos em tantos ditados, como no provrbio chins: A tinta mais fraca prefervel mais forte palavra. Isso demonstraria uma total ignorncia da natureza dessas civilizaes orais. Como disse um estudante iniciado em uma tradio esotrica: O poder da palavra terrvel. Ela nos une, e a revelao do segredo nos destri (atravs da destruio da identidade da sociedade, pois a palavra destri o segredo comum).

    A civilizao oral

    Um estudioso que trabalha com tradies orais deve compenetrar -se da atitude de uma civilizao oral em relao ao discurso, atitude essa, totalmente diferente da de uma civilizao onde a escrita registrou todas as mensagens importantes. Uma sociedade oral reconhece a fala no apenas como um meio de comunicao diria, mas tambm como um meio de

    A tradio oral e sua metodologia J. Vansina

  • 140 Metodologia e pr -histria da frica

    preservao da sabedoria dos ancestrais, venerada no que poderamos chamar elocues -chave, isto , a tradio oral. A tradio pode ser definida, de fato, como um testemunho transmitido verbalmente de uma gerao para outra. Quase em toda parte, a palavra tem um poder misterioso, pois palavras criam coisas. Isso, pelo menos, o que prevalece na maioria das civilizaes africanas. Os Dogon sem dvida expressaram esse nominalismo da forma mais evidente; nos rituais constatamos em toda parte que o nome a coisa, e que dizer fazer.

    A oralidade uma atitude diante da realidade e no a ausncia de uma habilidade. As tradies desconcertam o historiador contemporneo imerso em to grande nmero de evidncias escritas, vendo -se obrigado, por isso, a desenvolver tcnicas de leitura rpida pelo simples fato de bastar compreenso a repetio dos mesmos dados em diversas mensagens. As tradies requerem um retorno contnuo fonte. Fu Kiau, do Zaire, diz, com razo que ingenuidade ler um texto oral uma ou duas vezes e supor que j o compreendemos. Ele deve ser escutado, decorado, digerido internamente, como um poema, e cuidadosamente examinado para que se possam apreender seus muitos significados ao menos no caso de se tratar de uma elocuo importante. O historiador deve, portanto, aprender a trabalhar mais lentamente, refletir, para embrenhar -se numa representao coletiva, j que o corpus da tradio a memria coletiva de uma sociedade que se explica a si mesma. Muitos estudiosos africanos, como Amadou Hampt -Ba ou Boubou Hama muito eloquentemente tm expressado esse mesmo -raciocnio. O historiador deve iniciar -se, primeiramente, nos modos de pensar da sociedade oral, antes de interpretar suas tradies.

    A natureza da tradio oral

    A tradio oral foi definida como um testemunho transmitido oralmente de uma gerao a outra. Suas caractersticas particulares so o verbalismo e sua maneira de transmisso, na qual difere das fontes escritas. Devido sua complexidade, no fcil encontrar uma definio para tradio oral que d conta de todos os seus aspectos. Um documento escrito um objeto: um manuscrito. Mas um documento oral pode ser definido de diversas maneiras, pois um indivduo pode interromper seu testemunho, corrigir -se, recomear, etc. Uma definio um pouco arbitrria de um testemunho poderia, portanto, ser: todas as declaraes feitas por uma pessoa sobre uma mesma sequncia de acontecimentos passados, contanto que a pessoa no tenha adquirido novas informaes entre as diversas

  • 141A tradio oral e sua metodologia

    declaraes. Porque, nesse ltimo caso, a transmisso seria alterada e estaramos diante de uma nova tradio.

    Algumas pessoas, em particular especialistas como os griots, conhecem tradies relativas a toda uma srie de diferentes eventos. Houve casos de uma pessoa recitar duas tradies diferentes para relatar o mesmo processo histrico. Informantes de Ruanda relataram duas verses de uma tradio sobre os Tutsi e os Hutu: uma, segundo a qual, o primeiro Tutsi caiu do cu e encontrou o Hutu na terra; e outra, segundo a qual Tutsi e Hutu eram irmos. Duas tradies completamente diferentes, um mesmo informante e um mesmo assunto! por isso que se inclui uma mesma sequncia de acontecimentos na definio de um testemunho. Enfim, todos conhecem o caso do informante local que conta uma histria compsita, elaborada a partir das diferentes tradies que ele conhece.

    Uma tradio uma mensagem transmitida de uma gerao para a seguinte. Mas nem toda informao verbal uma tradio. Inicialmente, distinguimos o testemunho ocular, que de grande valor, por se tratar de uma imediata, no transmitida, de modo que os riscos de distoro do contedo so mnimos. Alis, toda tradio oral legtima deveria, na realidade, fundar -se no relato de um testemunho ocular. O boato deve ser excludo, pois, embora certamente transmita uma mensagem, resultado, por definio, do ouvir dizer. Ao fim, ele se torna to distorcido que s pode ter valor como expresso da reao popular diante de um determinado acontecimento, podendo, no entanto, tambm dar origem a uma tradio, quando repetido por geraes posteriores. Resta, por fim, a tradio propriamente dita, que transmite evidncias para as geraes futuras.

    A origem das tradies pode, portanto, repousar num testemunho ocular, num boato ou numa nova criao baseada em diferentes textos orais existentes, combinados e adaptados para criar uma nova mensagem. Mas somemte as tradies baseadas em narrativas de testemunhos oculares so realmente vlidas, o que os historiadores do Isl compreenderam muito bem. Desenvolveram uma complicada tcnica para determinar o valor dos diferentes Hadiths, ou tradies que se pretendiam palavras do Profeta, recolhidas por seus companheiros. Com o tempo, o nmero de Hadiths tornou -se muito grande, e foi necessrio eliminar aqueles para os quais a cadeia de informantes (Isnad) que ligava o erudito que as havia registrado por escrito a um dos companheiros do Profeta no podia ser estabelecida. Para cada ligao, o cronista islmico determinava critrios de probabilidade e credibilidade idnticos aos empregados na crtica histrica atual. Poderia a testemunha intermediria conhecer a tradio? Poderia compreend--la? Era seu interesse distorc -la? Poderia t -la transmitido? E, se fosse o caso, quando, como e onde?

  • 142 Metodologia e pr -histria da frica

    Notaremos que a definio de tradies apresentada aqui no implica nenhuma limitao, a no ser o verbalismo e a transmisso oral. Inclui, portanto, no apenas depoimentos como as crnicas orais de um reino ou as genealogias de uma sociedade segmentria, que conscientemente pretenderam descrever acontecimentos passados, mas tambm toda uma literatura oral que fornecer detalhes sobre o passado, muito valiosos por se tratar de testemunhos inconscientes, e, alm do mais, fonte importante para a histria das ideias, dos valores e da habilidade oral.

    As tradies so tambm obras literrias e deveriam ser estudadas como tal, assim como necessrio estudar o meio social que as cria e transmite e a viso de mundo que sustenta o contedo de qualquer expresso de uma determinada cultura. por isso que nas sees seguintes trataremos respectivamente da crtica literria e da questo do ambiente social e cultural, antes de passarmos ao problema cronolgico e avaliao geral das tradies.

    A tradio como obra literria

    Numa sociedade oral, a maioria das obras literrias so tradies, e todas as tradies conscientes so elocues orais. Como em todas elocues, a forma e os critrios literrios influenciam o contedo da mensagem. Essa a principal razo das tradies serem colocadas no quadro geral de um estudo de estruturas literrias e serem avaliadas criticamente como tal.

    Um primeiro problema o da forma da mensagem. H quatro formas bsicas, resultantes de uma combinao prtica de dois conjuntos de princpios. Em alguns casos, as palavras so decoradas, em outros, a escolha entregue ao artista. Em alguns casos, uma srie de regras formais especiais so sobrepostas gramtica da lngua comum, em outros, no existe tal sistema de convenes.

    Formas fundamentais das tradies orais

    contedo

    fixo livre (escolha de palavras)

    formaestabelecida poema epopeialivre frmula narrativa

  • 143A tradio oral e sua metodologia

    O termo poema apenas um rtulo para todo o material decorado e dotado de uma estrutura especfica, incluindo canes. O termo frmula um rtulo que frequentem ente inclui provrbios, charadas, oraes, genealogias, isto , tudo que decorado, mas que no est sujeito a regras de composio, a no ser s da gramtica corrente. Em ambos os casos, as tradies compreendem no s a mensagem, mas tambm as prprias palavras que lhe servem de veculo. Teoricamente, portanto, um arqutipo original pode ser reconstrudo, exatamente como no caso das fontes escritas. Podem -se construir argumentos histricos sobre as palavras e no apenas sobre o sentido geral da mensagem. Todavia, acontece muitas vezes com as frmulas, e menos com os poemas, ser impossvel reconstruir arqutipos devido ao grande nmero de interpolaes. Por exemplo, quando se reconhece que o lema de um cl o produto de uma srie de emprstimos de outros lemas, sem que se possa identificar aquilo que constitua o enunciado original e especfico. Pode -se muito bem compreender por que as frmulas se prestam to facilmente interpolao. Na realidade, no existe nenhuma regra formal que impea esse processo.

    As fontes fixas so, em princpio, as mais valiosas, pois sua transmisso mais precisa. Na prtica, raras so as que tm o propsito consciente de transmitir informaes histricas. Alm disso, nesse caso que encontramos arcasmos por vezes inexplicados. Nas lnguas bantu, seu significado pode ser descoberto, pois grande a probabilidade de uma lngua vizinha ter conservado uma palavra com a mesma raiz que o arcasmo em questo. Em outros casos, devemos nos conformar com o comentrio do informante, que pode repetir um comentrio tradicional ou invent -lo. Infelizmente, esse tipo de registro oral vem carregado de aluses poticas, imagens ocultas, jogo de palavras com mltiplos significados. No s impossvel compreender qualquer coisa dessa elocuo hermtica sem um comentrio, mas tambm, muitas vezes, s o autor conhece todos os aspectos do seu significado. Mas ele no transmite tudo no comentrio explicativo, de qualidade varivel, que acompanha a transmisso do poema. Essa peculiaridade bastante comum, especialmente no que se refere aos poemas ou canes panegricos da frica meridional (Tsuana, Sotho), oriental (a regio lacustre), central (Luba, Congo) ou ocidental (Ijo).

    A denominao epopeia significa que o artista pode escolher suas prprias palavras dentro de um conjunto estabelecido de regras formais, como as rimas, os padres tonais, o nmero de slabas, etc. Esse caso especfico no deve ser confundido com as peas literrias longas, de estilo heroico, como as narrativas de Sundiata, Mwindo (Zaire) e muitas outras. No gnero de que tratamos, a tradio inclui a mensagem e a estrutura formal, nada mais. Muitas vezes,

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    entretanto, encontramos versos caractersticos, que servem para preencher espao ou que simplesmente lembram ao artista o quadro ou a estrutura formal. Alguns desses versos provavelmente datam da criao da epopeia. Tais epopeias existem na frica? Acreditamos que sim e que algumas formas poticas, de Ruanda especialmente, assim como as canes -fbulas dos Fang (Camares--Gabo), pertencem a essa categoria. Devemos notar que no se pode reconstruir um verdadeiro arqutipo para esses poemas picos porque a escolha das palavras deixada ao artista. Todavia, preciso salientar que os requisitos da forma so tais que, provavelmente, todas as verses de uma epopeia baseiam -se num nico original, o que frequentemente demonstrado pelo estudo das variantes.

    A ltima categoria a das narrativas, que compreendem a maioria das mensagens histricas conscientes. Nesse caso, a liberdade deixada ao artista permite numerosas combinaes, muitas remodelaes, reajustes dos episdios, ampliao das descries, desenvolvimentos, etc. Torna -se, ento, difcil reconstruir um arqutipo. O artista completamente livre, mas somente do ponto de vista literrio: o seu meio social pode, s vezes, impor -lhe uma fidelidade rgida s fontes. Apesar dessas dificuldades, possvel descobrir a origem hbrida de uma tradio, pela coleta de todas as suas variantes, inclusive das que no so consideradas histricas, e recorrendo -se s variantes originrias dos povos vizinhos. Assim, pode -se, por vezes, passar imperceptivelmente do mundo da histria para o pas das maravilhas; por outro lado, eliminam -se as verses orais que no so baseadas em narrativas de testemunho ocular. Essa abordagem crtica essencial.

    Toda literatura oral tem sua prpria diviso em gneros literrios. O historiador no s tentar apreender o significado desses gneros para a cultura que est estudando, mas tambm colher ao menos uma amostra representativa de cada um, pois em todos eles pode -se esperar encontrar informaes histricas, alm do que, as tradies que o interessam particularmente so mais fceis de se compreender quando analisadas no contexto geral. J a prpria classificao interna fornece indicaes valiosas. Assim, podemos descobrir se os transmissores de uma obra literria fazem distino, por exemplo, entre as narrativas histricas e as de outros tipos.

    Os gneros literrios tambm esto sujeitos a convenes literrias, cujo conhecimento fundamental para se compreender o verdadeiro sentido da obra. A questo nesse caso no mais de regras formais, mas de escolha de termos, expresses, prefixos pouco usuais, vrios tipos de licena potica. Uma ateno maior deve ser dada s palavras ou expresses que possuem mltiplas reverberaes. Alm disso, os termos -chave, intimamente ligados estrutura

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    social, concepo do mundo, e praticamente intraduzveis, exigem que se faa uma interpretao luz do contexto literrio no qual aparecem.

    impossvel coligir tudo. O historiador v -se obrigado, portanto, a levar em considerao requisitos prticos e dever se dar por satisfeito uma vez obtida uma amostra representativa de cada gnero literrio.

    Somente atravs da catalogao dos vrios tipos de narrativa pertencentes ao grupo tnico em estudo, ou a outros grupos, possvel discernir no s imagens ou expresses favoritas, mas tambm os episdios estereotipados, como nas narrativas que se poderia classificar como lendas migratrias (Wandersagen). Por exemplo, uma narrativa luba das margens do lago Tanganica conta como um chefe livrou -se de outro, convidando -o a sentar -se num tapete sob o qual havia sido cavado um poo contendo estacas com pontas afiadas. O chefe sentou--se e morreu. O mesmo quadro pode ser encontrado dos grandes lagos at o oceano, e tambm entre os Peul do Liptako (Alto Volta), os Haussa (Nigria) e os Mossi de Yatenga (Alto Volta). A importncia desses episdios -clichs bvia. Infelizmente, no possumos nenhum livro de referncias til que trate deles, embora H. Baumann mencione muitos temas -clichs que ocorrem em narrativas sobre as origens de diversos povos1. J tempo de se estabelecerem catlogos prticos para a pesquisa desses esteretipos. Os chamados ndices de motivos populares (Folk Motiv Index) so de difcil manuseio, e confusos, pois se baseiam em caractersticas de menor importncia, escolhidas arbitrariamente, enquanto, nas narrativas africanas, o episdio representa uma unidade natural em um catlogo.

    Uma vez encontrado um clich desse tipo, no correto rejeitar toda a tradio, ou mesmo a parte que contm essa sequncia de eventos, como destituda de valor. Devemos, sim, explicar por que o clich foi utilizado. No caso mencionado, ele simplesmente explica que um chefe elimina outro e acrescenta uma descrio de como isso foi feito, que fictcia mas agrada aos ouvintes. Com mais frequncia, perceberemos que esse tipo de clich constri explicaes e comentrios para dados que podem ser perfeitamente legtimos.

    A crtica literria levar em considerao no apenas os significados literal e pretendido de uma tradio, mas tambm as restries impostas, para a expresso da mensagem, por requisitos formais e estilsticos. Avaliar o efeito da distoro esttica, muito frequente. Afinal, mesmo as mensagens do passado no devem ser enfadonhas demais! neste ponto que a observao das representaes sociais

    1 BAUMANN, H. 1936.

  • 146 Metodologia e pr -histria da frica

    relativas tradio de fundamental importncia. Dizemos representao em lugar de reproduo, porque na maioria dos casos est em jogo um elemento esttico. Se os critrios estticos prevalecerem sobre a fidelidade da reproduo, ocorrer uma forte distoro esttica, refletindo o gosto do pblico e a arte da pessoa que transmite a tradio. Mesmo em outros casos, encontramos arranjos de textos que chegam a vestir as tradies de contedo histrico especfico com o uniforme dos padres artsticos correntes. Por exemplo, nas narrativas, uma srie de episdios que levam a um clmax formam a trama principal, enquanto outros constituem repeties paralelas sofisticadas e outros, ainda, representam apenas transies de uma etapa da narrativa para outra. Como regra geral, pode -se admitir que, quanto mais uma narrativa se conforma ao modelo -padro de excelncia e quanto mais admirada pelo pblico, mais distorcida. Numa srie de variantes, pode -se, s vezes, discernir a variante correta pelo fato de ir contra esses padres, assim como uma variante que contradiz a funo social de uma tradio tem mais probabilidade de ser verdadeira que as outras. No devemos esquecer, entretanto, que nem todos os artistas da palavra so excelentes. H os de pouco talento, e suas variantes sero sempre sofrveis. Mas a atitude do pblico, como o cenrio de uma representao, no exclusivamente um fato artstico. acima de tudo um fato social, e isso nos obriga a considerar a tradio em seu meio social.

    Contexto social da tradio

    Tudo que uma sociedade considera importante para o perfeito funcionamento de suas instituies, para uma correta compreenso dos vrios status sociais e seus respectivos papis, para os direitos e obrigaes de cada um, tudo cuidadosamente transmitido. Numa sociedade oral isso feito pela tradio, enquanto numa sociedade que adota a escrita, somente as memrias menos importantes so deixadas tradio. esse fato que levou durante muito tempo os historiadores, que vinham de sociedades letradas, a acreditar erroneamente que as tradies eram um tipo de conto de fadas, cano de ninar ou brincadeira de criana.

    Toda instituio social, e tambm todo grupo social, tem uma identidade prpria que traz consigo, um passado inscrito nas representaes coletivas de uma tradio, que o explica e o justifica. Por isso, toda tradio ter sua superfcie social, utilizando a expresso empregada por H. Moniot. Sem superfcie social, a tradio no seria mais transmitida e, sem funo, perderia a razo de existncia e seria abandonada pela instituio que a sustenta.

  • 147A tradio oral e sua metodologia

    Poderamos ser tentados a seguir alguns estudiosos que acreditavam poder dizer a priori qual a natureza ou perfil do corpus de tradies histricas de uma determinada sociedade, a partir da classificao das coletividades em tipos como Estados, sociedades sem Estado, etc. Embora seja verdade que as diversas sociedades africanas possam ser, grosso modo, classificadas de acordo com tais modelos, fcil demonstrar que essas tipologias podem se estender ao infinito, pois cada sociedade diferente, e os critrios utilizados so arbitrrios e limitados. No existem dois Estados idnticos ou mesmo semelhantes nos detalhes. H imensas diferenas entre as linhas -mestras da organizao das sociedades Massai (Qunia - Tanznia), Embu (Qunia), Meru (Qunia) e Galla (Qunia - Etipia), embora todas elas possam ser classificadas como sociedades baseadas em classes etrias e estejam situadas na mesma regio da frica. Se se desejasse examinar um caso de uma sociedade dita simples, sem Estado, composta de pequenos grupos estruturados por mltiplas linhagens, poder--se -ia pensar que os Gouro (Costa do Marfim) constitussem bom exemplo. Esperando encontrar um perfil de tradies contendo somente histrias de linhagens e genealogias e realmente o encontramos , deparamo -nos tambm com uma histria esotrica transmitida por uma sociedade secreta. Tomemos o caso dos Tonga do Zmbia: encontramos novamente a histria da linhagem, mas tambm histrias de centros rituais animados pelos fazedores de chuva. No h uma nica sociedade desse tipo que no apresente uma instituio importante inesperada. Entre os Estados, o caso extremo , certamente, o do reino dos Bateke (Tio), em que a tradio real no remonta a mais do que duas geraes, embora os reinos devam ter tradies muito antigas. Podemos ir mais longe no tempo coligindo as tradies dos smbolos mgicos dos nobres do que seguindo as tradies relativas ao smbolo real! Generalizaes apressadas sobre o valor das tradies seriam absolutamente despropositadas. O perfil de um determinado corpus de tradies s pode ser determinado a posteriori.

    evidente que as funes preenchidas pelas tradies tendem a distorc--las. impossvel estabelecer uma lista completa dessas funes, em parte porque uma tradio pode assumir diversas funes e pode desempenhar um papel mais ou menos preciso ou difuso em relao a elas. Mas principalmente porque a palavra funo por si s confusa. utilizada com frequncia para descrever tudo o que serve para fortalecer ou manter a instituio da qual depende. Como a relao no tangvel, a imaginao pode produzir uma lista infinita de funes a preencher, no sendo possvel nenhuma escolha. Entretanto, no difcil distinguir certos propsitos precisos, manifestos ou latentes, assumidos por algumas tradies. H, por exemplo, as cartas mticas,

  • 148 Metodologia e pr -histria da frica

    as histrias das dinastias, genealogias, listas de reis, que podem ser consideradas como verdadeiras constituies no -escritas. Podemos ampliar essa categoria pela incluso de todas as tradies que tratam dos assuntos pblicos legais, por exemplo, as que mantm os direitos pblicos sobre a propriedade. Trata--se, geralmente, de tradies oficiais, uma vez que aspiram a uma legitimidade universal para a sociedade. As tradies particulares, associadas a grupos ou instituies incorporados a outros grupos, no sero to bem conservadas, pois tm menor importncia, embora, em geral, estejam mais prximas da verdade que as demais tradies. Todavia, convm destacar que as tradies particulares so oficiais para o grupo que as transmite. Assim, uma histria de famlia particular em comparao histria de todo um Estado, e o que ela diz sobre o Estado est menos sujeito a controle do Estado que uma tradio pblica oficial. Mas dentro da prpria famlia, a tradio particular torna -se oficial. Em tudo o que diz respeito famlia, ela deve, portanto, ser tratada como tal. Compreende -se, assim, por que to importante utilizar histrias familiares ou locais para esclarecer questes de histria poltica geral. Seu testemunho est menos sujeito a distoro e pode oferecer uma verificao efetiva das asseres feitas pelas tradies oficiais. Por outro lado, como dizem respeito somente a subgrupos, a profundidade e o cuidado com que so transmitidas so, de modo geral, pouco satisfatrios, como atestam as inmeras variantes.

    Entre outras funes comuns, podemos mencionar sucintamente a religiosa e a litrgica (como realizar um ritual), as funes jurdicas particulares (precedentes), as estticas, didticas e histricas, a funo do comentrio de um registro oral esotrico e a que os antroplogos chamam de funo mtica. As funes e o gnero literrio considerados em conjunto podem constituir para o historiador uma tipologia vlida, que lhe permitir fazer uma avaliao geral das provveis distores que suas fontes podem ter sofrido, fornecendo -lhe indicaes relativas transmisso. Para tomar apenas os tipos que so obtidos por esse processo de seleo, podemos distinguir os nomes, os ttulos, os slogans ou lemas, frmulas rituais, frmulas didticas (provrbios), listas de topnimos, de antropnimos, genealogias, etc. Do ponto de vista da forma bsica, podemos classificar todos esses casos como frmulas. Poemas histricos, panegricos, litrgicos ou cerimoniais, religiosos, pessoais (lricos e outros), canes de todos os tipos (canes de ninar, de trabalho, caa e canoagem, etc.) so poemas, tambm do mesmo ponto de vista. A epopeia como forma bsica representada por certos poemas que no correspondem ao que o termo normalmente conota. Por ltimo, a narrativa inclui a narrativa geral, histrica ou outras, narrativas locais, familiares, picas, etiolgicas, estticas e memrias pessoais. Devemos tambm

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    incluir aqui precedentes legais que raramente so transmitidos pela tradio oral, comentrios sobre registros orais e as notas ocasionais, que so essencialmente respostas curtas a perguntas do tipo: Como comeamos a cultivar milho?, De onde veio a mscara de dana?, etc.

    Dessa lista pode -se imediatamente observar o que pode ser a ao deformadora de uma instituio em cada um desses tipos. Mas ainda preciso demonstrar que essa ao realmente ocorreu ou que a probabilidade de distoro muito grande. Geralmente, possvel mostrar que uma tradio vlida porque no sofreu as distores esperadas. Por exemplo, um povo diz que mais novo que outro, uma crnica real admite uma derrota, uma frmula particular que deveria explicar a geografia fsica e humana de um pas no se conforma mais realidade. Em todos esses casos a anlise comprova a validade da tradio, pois esta resistiu ao processo nivelador.

    Em seu trabalho sobre o fenmeno da escrita (capacidade de ler e escrever), Goody e Watt afirmam que uma sociedade oral tende, constante e automaticamente, homeostase, que apaga da memria coletiva da a expresso amnsia estrutural qualquer contradio entre a tradio e sua superfcie social. Mas os casos mencionados acima mostram que essa homeostase s parcial. No se pode negar, portanto, o valor histrico das tradies unicamente por desempenharem certas funes. Segue -se, ainda, que cada tradio deve ser submetida a estrita crtica sociolgica. No mesmo trabalho, esses autores afirmam que a cultura de uma sociedade verbal homogeneizada, isto , que o contedo, em termos de conhecimento, do crebro de cada adulto aproximadamente o mesmo. Isso no totalmente verdadeiro. Especialistas artesos, polticos, legistas e religiosos sabem muitas coisas que seus contemporneos do mesmo grupo tnico desconhecem. Cada grupo tnico tem seus pensadores. Entre os Kuba (Zaire), por exemplo, encontramos trs homens que, com base num mesmo sistema de smbolos, haviam estabelecido trs filosofias diferentes, e supomos que o mesmo se d entre os Dogon. Quanto s tradies, observamos que em muitos grupos h tradies esotricas secretas, que so privilgio de um grupo restrito, e tradies exotricas pblicas. Por exemplo, a famlia real ashanti sabia a histria secreta de sua origem, enquanto o grande pblico conhecia somente a verso oficial. Em Ruanda, somente os especialistas biiru conheciam os rituais da realeza, e, mesmo assim, eles s os conheciam na sua totalidade quando estavam todos juntos, j que cada grupo de biiru tinha conhecimento apenas de uma parte deles. Em quase todos os rituais de entronizao na frica encontramos prticas e tradies secretas. Isso significaria que a tradio esotrica necessariamente mais acurada que a tradio exotrica? Depende do contexto. Afinal, as tradies

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    esotricas tambm podem ser distorcidas por razes imperativas, que sero ainda mais imperativas se o colgio que possui o segredo foi um grupo -chave da sociedade. Devemos ressaltar que, empiricamente, conhecemos at agora muito poucas tradies esotricas, e porque a antiga ordem em que tm suas razes no desapareceu por completo. As que conhecemos provm de sociedades que tm sofrido importantes transformaes, e muitas tradies sem dvida desaparecero sem deixar registro. Todavia, a partir de fragmentos que possumos, podemos afirmar que certas tradies ogboni da nao Ioruba tm sido to distorcidas que no mais constituem mensagens vlidas no que diz respeito s origens do ogboni, enquanto as tradies biiru, por exemplo, parecem ter maior validade. Isso se deve no ao carter esotrico, mas ao propsito dessas tradies: as primeiras legitimam um poder forte detido por um pequeno grupo de homens, enquanto as segundas so apenas a memorizao de um ritual prtico.

    Cada tradio tem sua prpria superfcie social. Para encontrar as tradies e analisar a qualidade de sua transmisso, o historiador deve, portanto, conhecer, o mais detalhadamente possvel, o tipo de sociedade que est estudando. Deve examinar todas as suas instituies para isolar as tradies, e tambm esmiuar todos os gneros literrios para obter informaes histricas. o grupo dirigente de uma sociedade que retm a posse das tradies oficiais, e sua transmisso geralmente realizada por especialistas, que utilizam meios mnemotcnicos (geralmente canes) para reter os textos. s vezes h o controle de colegas em ensaios privados ou na representao pblica associada a uma cerimnia importante. Os especialistas, entretanto, nem sempre esto ligados ao poder. o caso dos genealogistas, dos tamborileiros de chefes ou de reis, dos guardas de tmulos2 e dos pregadores de religies nacionais. Mas h tambm especialistas em outros nveis. Entre os Xhosa (frica do Sul), h mulheres especializadas na arte de representar histrias engraadas, ntsomi. H tambm outros que sabem faz -la, mas no se especializam nisso. Estes geralmente tomam parte em espetculos populares. Alguns celebrantes de ritos religiosos tambm so especialistas em tradies orais: os guardas dos mhondoro shona (Zimbabwe) conhecem a histria dos espritos confiados sua guarda. Alguns, como os griots, so trovadores que renem tradies em todos os nveis e representam os textos convencionados, diante de uma audincia apropriada, em certas ocasies casamento, morte, festa na residncia de um chefe, etc. raro no haver especializao, mesmo no nvel da histria da terra ou da famlia. Sempre h

    2 Em alguns pases, essas pessoas fazem parte da classe governante; o caso, por exemplo, do Bend naba (chefe dos tambores) dos Mossi.

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    indivduos socialmente superiores (os abashinga ntabe do Burundi para questes de terra, por exemplo) ou de maior aptido encarregados da memorizao e transmisso das tradies. Enfim, uma ltima categoria de pessoas bem--informadas (para as quais dificilmente podemos aplicar o termo especialista) constituda por indivduos que vivem perto de lugares histricos importantes. Nesse caso, o fato de se viver exatamente no local, por exemplo, onde uma batalha foi travada, atua como meio mnemotcnico no registro da tradio.

    Um exame da superfcie social torna possvel, portanto, descobrir tradies existentes, coloc -las em seu contexto, achar especialistas responsveis por elas e estudar as transmisses. Esse exame tambm torna possvel descobrir indicaes valiosas sobre a frequncia e a forma das prprias representaes. A frequncia um indicador da fidelidade da transmisso. Entre os Dogon (Mali), o ritual do Sigi transmitido somente uma vez a cada sessenta anos aproximadamente. Isso favorece o esquecimento; so muito raros os que j viram dois Sigi e apreenderam o suficiente na primeira representao para serem capazes de dirigir a segunda. Somente as pessoas com 75 anos, pelo menos, podem faz--lo. Podemos supor que o contedo do Sigi e a informao fornecida variaro mais radicalmente que uma forma de tradio como a de um festival no sul da Nigria que repetido todo ano. Mas, por outro lado, uma frequncia elevada de representaes no significa necessariamente uma fidelidade acentuada na transmisso. Isso vai depender da sociedade em questo. Se a sociedade necessita de uma fidelidade estrita, a frequncia ajudar a mant -la. o caso das frmulas mgicas, como, por exemplo, certas frmulas para exorcizar a bruxaria. Explica--se, assim, por que algumas frmulas mboon (Zaire) para fazer parar a chuva situam -se num contexto geogrfico to arcaico que nenhum dos elementos mencionados pode ser encontrado na regio Mboon atual. Por outro lado, se a sociedade no atribui nenhuma importncia fidelidade da transmisso, a grande frequncia da representao altera a transmisso mais rapidamente do que uma frequncia menor. Temos, por exemplo, o caso das canes moda e especialmente das narrativas populares mais apreciadas. Tudo isso pode e, de fato, deve ser verificado pelo estudo das variantes coletadas. Seu nmero um reflexo direto da fidelidade da transmisso.

    Ao que parece, as alteraes tendem invariavelmente a aumentar a homeostase entre a instituio e a tradio que a acompanha; nesse ponto Goody e Watt tm certa razo. Se as variantes existem e mostram uma tendncia bem definida, podemos deduzir que as menos conformistas em relao aos objetivos e funes da instituio so as mais vlidas. Alm disso, possvel, por vezes, mostrar que uma tradio no vlida, seja em caso de ausncia de variantes, quando a

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    tradio tornou -se um clich do tipo: Viemos todos de X, X correspondendo perfeitamente s necessidades da sociedade; seja quando, como na narrativa popular, as variantes so to divergentes que quase impossvel reconhecer o que constitui uma tradio e a separa das outras. Nesse caso, torna -se evidente que a maioria das verses so elaboraes mais ou menos recentes, que tm por base outras narrativas populares. Nesses dois casos extremos, entretanto, preciso poder demonstrar que a ausncia de variantes realmente corresponde a uma forte motivao da sociedade, assim como a proliferao de variantes corresponde a consideraes estticas ou a uma necessidade de divertimento que suplanta qualquer outra considerao. Ou, ento, deve -se poder demonstrar que os postulados inconscientes da civilizao homogeneizaram a tradio de maneira tal que esta se tornou um clich sem variantes. precisamente essa influncia da civilizao que deve ser examinada agora, feita a crtica sociolgica.

    Estrutura mental da tradio

    Por estrutura mental entendemos as representaes coletivas inconscientes de uma civilizao, que influenciam todas as suas formas de expresso e ao mesmo tempo constituem sua concepo do mundo. Essa estrutura mental varia de uma sociedade para outra. A nvel superficial, relativamente fcil descobrir parte dessa estrutura, atravs da aplicao de tcnicas clssicas da crtica literria ao contedo de todo o corpus de tradies e da comparao desse corpus com outras manifestaes, sobretudo as simblicas, da civilizao. A tradio sempre idealiza; especialmente no caso de poemas e narrativas. Ela cria esteretipos populares. Toda histria tende a tornar -se paradigmtica e, consequentemente, mtica, seja o seu contedo verdadeiro ou no. Assim, encontramos modelos de comportamentos ideais e de valores. Nas tradies de reis, os personagens tornam -se estereotipados, como num western, e, portanto, facilmente identificveis. Um rei o mgico, um outro governante o justo, outra pessoa o guerreiro. Mas isso distorce a informao; algumas guerras, por exemplo, so atribudas ao rei guerreiro, quando as campanhas foram de fato conduzidas por outrem. Alm disso, todos os reis possuem, em comum, caractersticas que refletem uma noo idealizada da realeza. Tambm no difcil encontrar esteretipos de diferentes personagens, especialmente de lderes, em outras sociedades. o caso do heri cultural, frequentemente encontrado, que transforma o caos numa sociedade bem ordenada. A noo estereotipada de caos , no caso, a descrio de um mundo literalmente s avessas. Encontramos

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    tambm mais de um esteretipo do heri fundador. Entre os Igala (Nigria), alguns fundadores so caadores, outros so descendentes de reis. Os primeiros representam um status adquirido, os ltimos, um status hereditrio (atribudo). Na tentativa de explicar por que h dois tipos de status, sugeriu -se que o primeiro esteretipo oculta a ascenso ao poder de novos grupos e que os dois esteretipos refletem duas situaes histricas bastante diferentes.

    Uma explicao verdadeiramente satisfatria deveria, entretanto, revelar o sistema completo de valores e ideais relacionados a status e papis sociais, que constituem a prpria base de toda ao social e de todo sistema global. Isso s foi possvel recentemente, quando McGaffey descobriu que os Kongo (Zaire, Repblica Popular do Congo) possuem um sistema estereotipado simples de quatro status ideais feiticeiro, adivinho, chefe, profeta que so complementares. fcil descobrir um valor geral positivo ou negativo: a apreciao da generosidade, a rejeio da inveja como sinal de feitiaria, ou o papel do destino so todos valores imediatamente observveis nas tradies do golfo de Benin e da regio interlacustre. Mas os valores so descobertos um por um e no como sistema coerente que compreende todas as representaes coletivas, pois valores e ideais descrevem somente as normas para um comportamento ideal ou por vezes cinicamente realista, que devem guiar o comportamento real e os papis esperados de cada um. Os papis esto relacionados s posies sociais, e estas s instituies, e o conjunto constitui a sociedade. Teoricamente, portanto, preciso desmontar uma sociedade para encontrar seus modelos de ao, seus ideais e valores. Em geral, o historiador faz isso inconscientemente e de modo superficial. Evita as armadilhas evidentes, mas involuntariamente tende a adotar as premissas impostas pelo sistema como um todo. No consegue separar suas fontes do meio que as envolve. Falamos por experincia prpria, aps ter passado dezoito anos tentando detectar relaes desse tipo na distoro das tradies de origem kuba (Zaire).

    Entre as representaes coletivas que mais influenciam a tradio, notaremos sobretudo uma srie de categorias de base que precedem a experincia dos sentidos. So as do tempo, do espao, da verdade histrica, da causalidade. H outras de menor importncia como, por exemplo, a diviso do espectro em cores. Todo povo divide o tempo em unidades, baseando -se em atividades humanas ligadas ecologia ou em atividades sociais peridicas (tempo estrutural). As duas formas de tempo so utilizadas em toda parte. O dia separado da noite; dividido em partes que correspondem ao trabalho ou refeies, e as atividades so relacionadas com a altura do sol, a voz de certos animais (para dividir as horas da noite), etc. Os meses (lunares), as estaes e o ano so geralmente definidos pelo

  • 154 Metodologia e pr -histria da frica

    ambiente e as atividades que dele dependem, mas, alm disso, deve -se cont -los em unidades de tempo estrutural. Mesmo nesse caso, a semana determinada por um ritmo social, como, por exemplo, a periodicidade dos mercados, que tambm associada, em muitos casos, a uma periodicidade religiosa.

    Perodos mais longos que o ano so contados pela iniciao a um culto, a um grupo de idade, por reinos ou geraes. A histria das famlias pode ser estabelecida com base nos nascimentos, que constituem um calendrio biolgico. Fazem -se referncias a acontecimentos excepcionais, como grandes fomes, grandes deflagraes de doena animal, ou epidemias, cometas, pragas de gafanhotos, mas esse calendrio de catstrofes forosamente vago e irregular. primeira vista, esse tipo de computao parece ser de pouca utilidade para a cronologia, enquanto os acontecimentos recorrentes parecem possibilitar a converso da cronologia relativa em cronologia absoluta, uma vez conhecida a frequncia das genealogias, grupos de idade, reinos, etc. Voltaremos a esse assunto posteriormente.

    A profundidade temporal mxima alcanada pela memria social depende diretamente da instituio que est ligada tradio. Cada instituio tem sua prpria profundidade temporal. A histria da famlia no remonta um passado muito distante porque esta conta apenas trs geraes, e porque, de modo geral, h pouco interesse em lembrar acontecimentos anteriores. Portanto, as instituies que englobam maior nmero de pessoas se prestam melhor a nos fazer mergulhar mais fundo no tempo. Isso se verifica para o cl, a linhagem mxima de descendncia, o grupo de idade do tipo massai e a realeza. Na savana sudanesa, as tradies dos reinos e imprios de Tecrur, Gana e Mali, retomadas por autores rabes e sudaneses, remontam ao sculo XI. s vezes, entretanto, todas as instituies so limitadas pela mesma concepo da profundidade do tempo como, por exemplo, entre os Bateke (Repblica Popular do Congo), onde tudo remetido gerao do pai ou do av. Tudo, inclusive a histria da famlia real, dividido entre par e mpar, o mpar pertencendo ao tempo dos pais, e o par, ao dos avs.

    Esse exemplo mostra que a noo da forma do tempo muito importante. Na regio interlacustre, h casos em que o tempo visto como um ciclo. Mas, como os ciclos se sucedem, o conceito vai dar numa espiral. Numa outra perspectiva, para as mesmas sociedades, distinguem -se eras, principalmente a era do caos e a era histrica. Para outras, como entre os Bateke, o tempo no linear: oscila entre geraes alternadas. As consequncias sobre o modo como se apresentam as tradies so evidentes.

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    J no to bvio que a noo de espao seja de interesse nesse contexto. Mas h uma tendncia geral a situar a origem de um povo num lugar ou direo de prestgio: direo sagrada ou profana de acordo com o pensamento de que o homem evolui do sagrado para o profano ou vice -versa. Cada povo imps um sistema de direes sua geografia. So geralmente os rios que do o eixo das direes cardinais. A maioria das sociedades ento fixa a direo de suas aldeias, s vezes de seus campos (Kukuya, Repblica Popular do Congo), segundo esse sistema de eixos, que utilizam tambm para orientar seus tmulos. As consequncias so s vezes inesperadas. Um espao ordenado segundo um nico eixo que faz parte do relevo muda com a disposio relativa dos elementos do relevo. Aqui, a jusante a oeste, ali, a norte; aqui, ir em direo ao cume ir para leste, ali, para oeste. No s observamos que as migraes podem vir de direes privilegiadas, como o caso dos Kuba (Zaire) ou dos Kaguru (Tanznia), e que a narrativa correspondente mais uma cosmologia que uma histria, como tambm chegamos a encontrar variaes nos pontos de origem dependendo dos acidentes do relevo geogrfico. Somente as sociedades que se baseiam nos movimentos do sol para determinar o eixo do espao podem dar informao exata a respeito dos movimentos migratrios gerais; esses povos infelizmente so uma minoria, exceto talvez na frica ocidental, onde a maioria refere -se ao leste como seu lugar de origem.

    A noo de causa est implcita em toda tradio oral. Geralmente, apresentada na forma de causa imediata e separada para cada fenmeno. Cada coisa tem uma origem, que se situa diretamente no incio dos tempos. Pode -se compreender melhor o que a causalidade examinando -se as causas atribudas ao mal. Muito frequentemente elas tm relao direta com a feitiaria, os ancestrais, etc., e a relao imediata. Resulta desse tipo de causalidade que a mudana percebida sobretudo em alguns campos claramente definidos, como a guerra, sucesso real, etc., em que os esteretipos intervm. Para terminar, salientamos que esse esboo da noo de causa muito sumrio e deve ser complementado por noes de causa mais complexas mas paralelas a estas e que afetam somente instituies sociais menores.

    Quanto verdade histrica, est sempre estreitamente ligada fidelidade do registro oral transmitido. Assim, ela pode ser ou o consenso dos governantes (Idoma, Nigria), ou a constatao de que a tradio est em conformidade com o que disse a gerao anterior.

    As categorias cognitivas combinam -se e unem -se a expresses simblicas de valor, para produzir um registro que os antroplogos qualificam de mito. As tradies mais sujeitas a uma reestruturao mtica so as que descrevem

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    a origem e, consequentemente, a essncia, a razo de ser de um povo. Assim, um grande nmero de complexas narrativas kuba, que tratam da origem desse povo e descrevem migraes em canoas, pde finalmente ser explicado com a descoberta de um conceito latente de migrao: para o povo Kuba, a migrao se faz em canoas, da jusante (sagrado) para o montante (profano). Da mesma forma se explicaram nomes de migraes e de regies de origem apresentados em termos de cosmogonia. Na narrativa kuba a correlao no estava clara, mas em muitos outros grupos tnicos, aparece explicitamente. assim que muitos etnlogos, seguindo infelizmente o exemplo de Beidelman, estruturalistas ou socilogos funcionalistas terminaram por negar qualquer valor s tradies narrativas porque, dizem eles, so a expresso das estruturas cognitivas do mundo, que sustentam todo o pensamento a priori, como categorias imperativas. O mesmo julgamento deveria ento ser aplicado ao texto que voc est lendo ou ao do prprio Beidelman Obviamente, esses antroplogos exageram. Alm disso, muitas de suas interpretaes parecem hipotticas. O historiador deve lembrar que, para cada caso particular, preciso especificar as razes que se tem para rejeitar ou questionar uma tradio. S se pode rejeitar uma tradio quando a probabilidade de uma criao de significado puramente simblico realmente forte e se possa provar. Pois, em geral, as tradies refletem tanto um mito, no sentido antropolgico do termo, como informaes histricas. Nessas circunstncias, os manuais de histria so textos de mitologia, j que todo esteretipo que se origina de um sistema de valores e interesses no s uma mensagem mtica, mas tambm um cdigo secreto histrico espera de decifrao.

    A cronologia

    Sem cronologia, no h histria, pois no se pode distinguir o que precede do que sucede. A tradio oral sempre apresenta uma cronologia relativa, expressa em listas ou em geraes. Em geral, essa cronologia permite situar todo o conjunto de tradies da regio em estudo no quadro da genealogia ou da lista de reis ou de grupos de idade que abrange a mais ampla rea geogrfica, mas no permite estabelecer a sequncia relativa aos acontecimentos exteriores quela regio particular. Grandes movimentos histricos e mesmo certas evolues locais passam despercebidos ou restam duvidosos, porque a unidade disponvel para a cronologia geograficamente muito restrita. A genealogia familiar vlida apenas para determinada famlia e para a aldeia ou aldeias que ela habita.

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    A cronologia dos Embu (Qunia) , por exemplo, baseada em grupos de idade que cobrem apenas uma diminuta rea territorial, na qual os jovens so iniciados ao mesmo tempo. As cronologias relativas devem, portanto, ser associadas e, se possvel, convertidas em cronologias absolutas. Mas antes h um outro problema a ser resolvido: o de se assegurar que as informaes utilizadas correspondem a uma realidade no distorcida pelo tempo.

    Torna -se cada vez mais claro que a cronologia oral est sujeita a processos de distoro concomitantes e que agem em sentidos opostos: s vezes encurtam e s vezes prolongam a verdadeira durao dos acontecimentos passados. H tambm uma tendncia a regularizar as genealogias, as sucesses e a sequncia de grupos de idade, para conform -las s normas ideais da sociedade no momento. Do contrrio, os dados forneceriam precedentes para litgios de todo tipo. O processo homeosttico bastante real. Em certos casos especiais, como em Ruanda, por exemplo, a tarefa de gerir a tradio recai sobre um complexo grupo de especialistas, cujas afirmaes tm sido corroboradas por escavaes arqueolgicas.

    Etnlogos mostraram que as sociedades chamadas segmentrias tendem a eliminar ancestrais inteis, isto , os que no deixaram descendentes que ainda vivam e constituam um grupo separado. Isso explica por que a profundidade genealgica de cada grupo numa determinada sociedade tende a permanecer constante. Somente os ancestrais teis so utilizados para explicar o presente. Isso leva, por vezes, a uma grande condensao da profundidade genealgica. Alm do mais, acidentes demogrficos s vezes reduzem um ramo de descendentes a um nmero to pequeno, em comparao com outros ramos descendentes dos irmos e irms do fundador do primeiro ramo, que este no pode mais existir paralelamente aos grandes grupos vizinhos, sendo ento absorvido por um deles. A genealogia ser reajustada, e o fundador do grupo pequeno substitudo pelo do grupo maior (que o absorve). A genealogia , assim, simplificada. A identidade de um grupo tnico em geral expressa por um nico ancestral colocado na origem de uma genealogia. o primeiro homem, um heri fundador, etc. Ser o pai ou a me do primeiro ancestral til. Desse modo, a lacuna entre a origem e a histria consciente fica escamoteada. A operao de todo esse processo infelizmente levou, muitas vezes, a uma situao em que praticamente impossvel remontar, com segurana, a mais do que umas poucas geraes.

    Acreditava -se que muitas sociedades africanas, e especialmente as monarquias, tivessem escapado a esse processo. No havia razo para que a lista de sucesso dos reis estivesse incorreta, que sua genealogia fosse duvidosa, exceto que, algumas vezes, era falsificada quando uma dinastia substitua outra e se apoderava da

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    genealogia da precedente a fim de se legitimar. O nmero de reis e geraes continuava aparentemente correto. Estudos recentes, mais detalhados, mostram que essa posio no se justifica inteiramente. Os processos de condensao, alongamento e regularizao podem afetar as tradies dinsticas tanto quanto as outras. Em listas de reis, por exemplo, os nomes de usurpadores, isto , dos que so considerados usurpadores naquele momento, ou em qualquer poca aps seu reinado, so s vezes omitidos, assim como os de muitos reis que no passaram por todas as cerimnias de iniciao que, em geral, so muito longas. O reinado de um rei que abdica e em seguida retorna ao poder s vezes contado como um nico governo. Tudo isso encurta o processo histrico.

    Onde a sucesso patrilinear e primogenitiva, como na regio interlacustre, a tendncia regularizao dos fatos resultou num surpreendente nmero de sucesses regulares isto , o filho sucedendo ao pai , que ultrapassa de muito a mdia, e mesmo os recordes observados em outras partes do mundo. Esse processo de regularizao produziu uma genealogia tpica, retilnea, desde os mais antigos tempos at o sculo XIX aproximadamente, quando se tornou arborescente. O resultado o alongamento da dinastia pelo aumento do nmero de geraes, uma vez que os colaterais so apresentados como pais e filhos. A confuso entre homnimos e entre nome de reino ou ttulo e nome pessoal, assim como outros detalhes desse tipo, pode estender ou encurtar a lista. Como, durante os tempos coloniais, especialmente em regies sob administrao indireta, era forte a presso para alongar as dinastias (pois as sociedades europeias como muitas africanas tm um grande respeito pela antiguidade), empregaram -se todos os meios possveis. mesmo ambguos, com aquela finalidade. Todos os nomes foram, ento, utilizados; ciclos de nomes reais foram desdobrados, se necessrio, ou agrupados; podaram -se os ramos colaterais a fim de alongar -se o tronco.

    Por ltimo, e sempre no caso dos reinos, encontram -se comumente lacunas entre o heri fundador, que pertence cosmogonia, e o primeiro rei histrico til. Somente uma investigao muito cuidadosa pode determinar se nesses casos particulares os processos descritos realmente ocorreram. A esse respeito, a presena de irregularidades na sucesso e nas genealogias a melhor garantia de autenticidade, pois denota uma resistncia ao nivelamento homeosttico.

    Sociedades de classes de idade ainda no foram submetidas a esse tipo de exame sistemtico. Alguns casos mostram que os processos de regularizao intervm para organizar os ciclos ou para reduzir a confuso produzida pelos homnimos. Mas os diferentes tipos de sucesso de classes de idade ainda tm que ser estudados. No podemos generalizar, exceto para dizer que o problema

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    suscitado anlogo ao das genealogias, porque tambm aqui a gerao a unidade.

    Um estudo estatstico completo, que forneceu grande parte das informaes acima mencionadas, constatou que a durao mdia de uma gerao dinstica est entre 26 e 32 anos. A amostra era principalmente patrilinear, mas as dinastias matrilineares no se agrupam, por exemplo, no segmento inferior da distribuio estatstica, e a informao, portanto, seria vlida para elas tambm. A durao mdia dos reinados varia tanto com o sistema de sucesso que nenhuma informao genrica de valor pode ser fornecida. Mesmo no caso de tipos idnticos de sucesso, so encontradas divergncias considerveis entre diferentes dinastias.

    Com base nas informaes acima expostas, pode -se converter uma cronologia relativa de geraes em cronologia absoluta, a menos que a distoro genealgica seja tal que torne o exerccio intil. Primeiramente, calcula -se a mdia entre a primeira referncia cronolgica absoluta fornecida por uma data escrita e o presente e projeta -se essa mdia no passado caso ela se situe entre 26 e 32 anos. No entanto, mdias so apenas mdias. Sua probabilidade aumenta com o nmero de geraes envolvidas, e o clculo s fornece datas razoveis para os incios de sequncias ou, quando muito, uma vez por sculo. Qualquer preciso maior cria um erro. De todo modo, datas absolutas calculadas dessa maneira devem ser precedidas por uma sigla para indicar o fato. Assim, T 1635 para a fundao do Reino Kuba indicaria que a data foi calculada com base em genealogias e listas de reis.

    O mesmo procedimento pode ser aplicado para determinar a durao mdia de um reinado. Mostrou -se por que essa mdia menos vlida que a mdia das geraes. Uma das razes que, ao se projetar a mdia no passado, pressupe--se que no houve mudana nos sistemas de sucesso. Ora, estes podem ter mudado ao longo dos anos. Certamente sofreram mudanas desde a fundao da dinastia, porque fundar inovar, e as sucesses sem dvida levaram algum tempo para se normalizarem. Alm disso, devemos considerar as mudanas que podem ter ocorrido na esperana de vida. J que a margem de erro maior, ser particularmente til dispor de datas absolutas, determinadas por documentos escritos ou por outros meios que remontem a um passado longnquo.

    Todavia, continuando no campo da cronologia relativa, possvel tentar coordenar diferentes sequncias vizinhas, separadas e relacionadas, pelo estudo dos sincronismos. Uma batalha entre dois reis citados fornece um sincronismo. Torna possvel harmonizar as duas cronologias relativas em questo, e combin--las em uma. Demonstrou -se empiricamente que sincronismos entre mais

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    de trs unidades isoladas no mais so vlidos. Pode -se mostrar que A e B viveram na mesma poca, ou que A e C viveram na mesma poca, porque ambos conheceram B. Portanto, A = B = C, mas no podemos ir alm disso. O fato dos encontros de A e C com B poderem ter ocorrido em qualquer poca durante a vida ativa de B explica por que A = C o limite. Estudos sobre a cronologia do antigo Oriente Mdio provaram empiricamente esse ponto. No entanto, utilizando prudentemente os sincronismos, podemos reconstruir campos nicos razoavelmente grandes com uma cronologia relativa comum.

    Aps o exame dos dados genealgicos, pode -se obter uma data absoluta se a tradio mencionar um eclipse do sol. Se h mais de uma data possvel para o eclipse, deve -se mostrar qual a mais provvel. Podemos proceder do mesmo modo com outros fenmenos astronmicos ou climticos extraordinrios que tenham causado catstrofes. A certeza menor nesse caso do que no dos eclipses solares, porque h, por exemplo, mais fomes na frica oriental que eclipses do sol. Com exceo dos eclipses solares, outras informaes desse tipo so teis principalmente para os ltimos dois sculos, ainda que poucos povos tenham preservado a memria de eclipses muito mais antigos.

    Avaliao das tradies orais

    Uma vez submetidas a minuciosa crtica, literria e sociolgica, podemos atribuir s fontes um grau de probabilidade. Essa apreciao no pode ser quantificada, mas no , por isso, menos real. A veracidade de uma tradio ser mais facilmente constatada se a informao que contm puder ser comparada com a informao fornecida por outras tradies independentes ou por outras fontes. Duas fontes independentes concordantes transformam uma probabilidade em algo mais prximo da certeza. Mas deve -se comprovar a independncia das fontes. Infelizmente, contudo, tem -se constatado uma tendncia muito grande em acreditar na pureza e estanquidade inequvocas da transmisso de um grupo tnico para outro. Na prtica, caravanas de comerciantes, como as dos Imbangala de Angola, ou talvez as dos Diula e dos Haussa, podem ter levado consigo fragmentos de histria, que foram incorporados histria local por encontrar terreno apropriado. No incio do perodo colonial estabeleceram -se vnculos entre representantes de diferentes grupos, que trocaram informaes a respeito de suas tradies. Esse notadamente o caso nas regies sob administrao indireta, onde interesses de ordem prtica encorajavam especialmente os reinos a produzirem suas histrias. Alm disso, todas essas histrias foram influenciadas

  • 161A tradio oral e sua metodologia

    pelos primeiros modelos escritos por africanos, como o livro de Johnson sobre o Reino Oyo (Nigria) ou o de Kaggwa (Uganda) para Buganda. Deu -se uma contaminao geral de todas as histrias tardiamente colocadas em forma escrita no pas Ioruba e na regio interlacustre de fala inglesa, com tentativas de sincronizao visando forar as listas dinsticas a se igualarem, em extenso, s dos modelos. Esses dois exemplos mostram o quanto se deve ser prudente ao afirmar que as tradies so realmente independentes. Deve -se pesquisar os arquivos, estudar os contatos pr -coloniais e ponderar tudo cuidadosamente, antes de se fazer qualquer julgamento.

    A comparao com dados escritos ou arqueolgicos pode fornecer a confirmao de independncia desejada. Mas, ainda neste caso, preciso que a independncia seja comprovada. O fato de autctones atriburem tradicionalmente um stio visvel aos primeiros habitantes do pas, devido presena no local de traos de ocupao humana muito diferentes dos deixados pelos habitantes atuais, no significa que se possa automaticamente fazer a mesma atribuio. As fontes no so independentes pois o stio atribudo a essas populaes por um processo lgico e apriorstico! um caso de iconatrofia. Essa constatao d origem a interessantes especulaes, especialmente no que diz respeito aos chamados vestgios de Tellem do pas Dogon (Mali) assim como aos stios Sirikwa (Qunia), para citar somente dois exemplos bem conhecidos. Contudo, os casos famosos dos stios de Kumbi Saleh (Mauritnia) e do lago Kisale (Zaire) mostram que a arqueologia pode, s vezes, fornecer provas surpreendentes da validade de uma tradio oral.

    Geralmente, estabelecer uma concordncia entre fonte oral e escrita fica difcil porque tratam de coisas diferentes. Um estrangeiro que escreve sobre um pas habitualmente se restringe a fatos econmicos e polticos, muitas vezes ainda mal compreendidos. A fonte oral voltada para o interior menciona os estrangeiros apenas de passagem; quando o faz. Assim sendo, em muitos casos as duas fontes no tm nada em comum, ainda que se refiram ao mesmo perodo. Casos de concordncia, cronolgica principalmente, so encontrados em locais onde os estrangeiros se estabeleceram por tempo suficientemente longo para se interessarem pela poltica local e entend -la. Tem -se um exemplo disso no vale do Senegal a partir do sculo XVIII.

    Em caso de contradio entre fontes orais, deve -se escolher a mais provvel. A prtica, muito difundida, de tentar encontrar um acordo no faz sentido. Uma contradio flagrante entre uma fonte oral e uma fonte arqueolgica se resolve em favor da ltima, se esta for um dado imediato, isto , se a fonte for um objeto e no uma inferncia, pois neste caso a probabilidade da fonte

  • 162 Metodologia e pr -histria da frica

    oral pode ser maior. Um conflito entre uma fonte escrita e uma oral se resolve exatamente como se se tratasse de duas fontes orais. Devemos ter em mente que a informao quantitativa escrita, de modo geral, mais digna de confiana, mas que a informao oral relativa aos motivos geralmente mais precisa que a das fontes escritas. Por fim, cabe ao historiador tentar estabelecer o que mais provvel. Num caso extremo, se dispomos de apenas uma fonte oral, cujas provveis deformaes pudemos demonstrar, devemos interpret -la tendo em conta as deformaes e utiliz -la.

    Enfim, acontece frequentemente de o historiador no se sentir satisfeito com as informaes orais de que dispe. Pode registrar o seu descrdito em relao validade das informaes, mas, na falta de algo melhor, obrigado a utiliz -las, enquanto outras fontes no forem descobertas.

    Coletnea e publicao

    Conclui -se de tudo que foi dito acima que todos os elementos que permitam aplicar a crtica histrica s tradies devem ser reunidos em campo. Isso implica num bom conhecimento da cultura, sociedade e lngua ou lnguas envolvidas. O historiador pode adquirir esse conhecimento ou solicitar a ajuda de especialistas. Mas, mesmo nesse caso, ele deve realmente absorver todas as informaes oferecidas pelo etnlogo, pelo linguista e pelo tradutor que o esto ajudando. Por ltimo, preciso adotar uma atitude sistemtica diante das fontes, das quais devem ser recolhidas todas as variantes. Tudo isso implica numa longa permanncia em campo, que ser tanto mais demorada quanto menor for a familiaridade do historiador com a cultura em questo. Devemos destacar que o conhecimento instintivo de algum que estuda a histria de sua prpria sociedade no suficiente. A reflexo sociolgica indispensvel. O historiador deve redescobrir sua prpria cultura. A experincia lingustica mostrou que, s vezes, mesmo sendo um nativo do pas, o historiador no compreende facilmente certos registros, como os poemas panegricos, ou encontra dificuldade porque as pessoas falam um dialeto diferente do seu. Alm do mais, aconselhvel que ao menos parte das transcries feitas em seu dialeto materno seja examinada por um linguista, para se assegurar que a transcrio comporta todos os sinais necessrios compreenso da narrativa, incluindo -se a, por exemplo, os tons.

    A coleta das tradies requer, portanto, muito tempo, pacincia e reflexo. Depois de um perodo inicial de experincia, preciso estabelecer um plano

  • 163A tradio oral e sua metodologia

    racional de trabalho, que leve em considerao as caractersticas particulares de cada caso. De qualquer forma, devemos visitar os stios associados aos processos histricos em estudo. s vezes, ser necessrio utilizar uma amostragem de fontes populares, mas uma amostra no pode ser utilizada casualmente. Devemos estudar, numa rea restrita, quais as regras que determinam o nascimento de variantes e estabelecer, a partir delas, os princpios da amostragem a serem adotados. Coletar uma vasta quantidade de material de forma indiscriminada no pode produzir o mesmo resultado, ainda que se possa trabalhar mais rapidamente. O pesquisador deve ter cuidado ao estudar a transmisso. cada vez mais comum encontrar informantes que adquiriram seu conhecimento a partir de trabalhos publicados sobre a histria da regio: livros escolares, jornais ou publicaes cientficas; assim como podem t -lo adquirido em conferncias transmitidas pelo rdio ou pela televiso. O problema acentuar -se -, inevitavelmente, com a ampliao da pesquisa.

    Hoje em dia percebe -se que existe uma contaminao mais sutil. Alguns manuscritos, s vezes muito velhos, e especialmente relatrios dos primeiros tempos da administrao colonial foram tomados pela tradio como verdades ancestrais. Fontes arquivsticas devem, portanto, ser cuidadosamente examinadas, assim como a possvel influncia de trabalhos cientficos, livros escolares, transmisses de rdio, etc. Pois, se o fato verificado em campo, pode--se frequentemente corrigir esses dados insidiosos buscando -se outras verses e explicando -se aos informantes que o livro ou o rdio no esto necessriamente certos no que diz respeito quele assunto. Mas, uma vez longe do campo, ser tarde demais.

    preciso estruturar a pesquisa de acordo com uma ntida tomada de conscincia histrica. No possvel recolher todas as tradies; tentar faz -lo s nos levaria a uma massa confusa de informaes. necessrio primeiramente saber quais os problemas histricos que se quer estudar e ento procurar as fontes correspondentes. Ao eleger um objeto de estudo, o pesquisador deve, evidentemente, ter interiorizado a cultura em questo. Ele pode, ento, como acontece frequentemente, voltar seu interesse para a histria poltica. Mas pode tambm optar por questes da histria social, econmica, religiosa, cultural ou artstica, etc. Para cada caso, a estratgia utilizada na coleta da tradio ser diferente. A maior deficincia das pesquisas que se fazem atualmente a falta de conscincia histrica. H uma forte tendncia em se deixar guiar pelo que se encontra.

    Falta de pacincia outro perigo. Reputa -se, por vezes, necessrio dar conta o mais depressa possvel de uma grande parte do trabalho. Nessas circunstncias,

  • 164 Metodologia e pr -histria da frica

    as fontes coletadas so difceis de se avaliar; apresentam -se discrepantes e incompletas; faltam variantes; h pouca informao sobre a transformao de uma fonte, sua representao, sua transmisso. O trabalho malfeito. Uma consequncia particularmente nefasta a impresso criada entre outros pesquisadores de que essa rea j foi estudada, o que diminui a probabilidade de se fazer uma pesquisa melhor no futuro. No se deve esquecer que as tradies orais desaparecem, embora felizmente com menos rapidez do que se costuma pensar. A urgncia da tarefa no razo para atamanc -la. Pode -se replicar, como tem ocorrido, que o que advogamos aqui utopia, perfeccionismo, coisa impossvel. Contudo, o nico modo de se fazer um bom trabalho com os meios disponveis num determinado lapso de tempo. No h atalhos. Se acreditamos que, em alguns casos, todo esse trabalho produz somente uma safra muito pobre para a histria, no percebemos que contribui para enriquecer, ao mesmo tempo, o conhecimento geral da lngua, da literatura, do pensamento coletivo e das estruturas sociais da civilizao estudada.

    A menos que seja publicado, o trabalho no estar completo, por no se encontrar disponvel para a comunidade dos estudiosos. Deve -se ter em vista pelo menos uma classificao das fontes investigadas, com introduo, notas e ndice, que constitua um arquivo aberto a todos. Muitas vezes, o trabalho combinado com a publicao de um estudo baseado, em parte ou completamente, nesse corpus. Nenhum editor publicaria todo o material, variantes inclusive, e a interpretao dos dados. Alm disso, uma sntese no comporta uma vasta massa de documentos em bruto. Assim, cada trabalho dever explicar como as tradies foram coletadas e fornecer uma breve lista de fontes e informantes, que possibilitar ao leitor formar uma opinio sobre a qualidade da coleta e compreender por que o autor escolheu uma determinada fonte em vez de outra. Pela mesma razo, cada fonte oral deve ser citada separadamente no trabalho. O trabalho que diz A tradio conta que faz uma generalizao perigosa.

    Resta um tipo especializado de publicao: as edies de textos. Neste caso, seguimos as mesmas normas utilizadas na publicao de manuscritos. Na prtica, isso geralmente conduz a uma colaborao entre vrios especialistas. Nem todo pesquisador , ao mesmo tempo, historiador, linguista e etnlogo. De fato, as melhores edies de textos disponveis at agora so quase todas trabalhos interdisciplinares de colaboradores, dos quais ao menos um linguista. A edio de textos uma tarefa rdua e ingrata, o que explica por que h to poucos publicados. Entretanto, seu nmero vem aumentando, graas colaborao de especialistas em literatura oral africana.

  • 165A tradio oral e sua metodologia

    Concluso

    Atualmente a coleta de tradies orais est se processando em todos os pases africanos. A massa de dados recolhidos refere -se principalmente ao sculo XIX e somente uma das fontes para a reconstruo histrica, sendo a outra principal fonte para esse perodo os documentos histricos. H cinco ou seis trabalhos, a cada ano, apresentando estudos baseados quase inteiramente em tradies. Tipologicamente, eles tratam, sobretudo, da histria poltica e da histria dos reinos, e, no que diz respeito geografia, esto concentrados principalmente na frica oriental, central e equatorial, onde as tradies, frequentemente, so as nicas fontes. As cronologias remontam raramente alm de 1700; se anteriores a essa data, tornam -se duvidosas. Entretanto, o conhecimento cada vez mais aprofundado da natureza das tradies permite avaliar melhor as que foram recolhidas em pocas anteriores. Assim, a explorao das tradies registradas por Cavazzi no sculo XVII s se tornou possvel aps o estudo em campo realizado em 1970!

    Alm das tradies recentes, existe um vasto corpo de informaes literrias, como as narrativas picas, e de dados cosmognicos, que podem ocultar informaes histricas s vezes relativas a pocas bastante remotas. A epopeia de Sundiata um exemplo. A tradio, por si mesma, no permite estabelecer datas. Por exemplo, a memria deformada relativa a certos stios histricos na regio interlacustre conservou uma lembrana que data dos primeiros sculos, ou mesmo de antes da Era Crist. Mas a fonte oral nada diz quanto data. Somente a arqueologia foi capaz de solucionar o problema. Assim tambm as tradies de Cavazzi, s quais acabamos de nos referir, parecem conter um sedimento histrico que do maior interesse para o passado dos povos de Angola. H referncias sucintas a dinastias que se sucederam, a formas de governo que se seguiram; em resumo, sumarizam, para a regio do Alto Cuango, mudanas socio polticas que podem datar de vrios sculos ou at de um milnio antes de 1500. Mas no h nenhuma data como ponto de referncia para essa perspectiva.

    Existe uma ltima armadilha a ser notada. Muito frequentemente a coleta de tradies ainda parece superficial, e sua interpretao muito literal, muito colada cultura em questo. Esse fenmeno vem reforar a imagem de uma frica cuja histria consiste apenas em origens e migraes, o que, sabemos, no verdade. Mas devemos admitir que essa a imagem refletida pelas tradies que procuram estabelecer uma identidade. A superficialidade da interpretao e a coleta pouco sistemtica de material, alm do mais, do margem maioria

  • 166 Metodologia e pr -histria da frica

    das crticas dirigidas contra a utilizao das tradies orais, especialmente entre os etnlogos.

    A experincia prtica provou que o valor maior das tradies reside em sua explicao das mudanas histricas no interior de uma civilizao. Isso to verdadeiro que, como se pode comprovar em quase toda a parte, apesar da abundncia de fontes escritas relativas ao perodo colonial, temos de recorrer constantemente aos testemunhos oculares ou tradio para complet -las, a fim de tornar inteligvel a evoluo do povo. Mas constatamos tambm que as tradies so geralmente enganadoras no que diz respeito cronologia, e aos dados quantitativos. Alm disso, qualquer mudana inconsciente, porque lenta demais uma mutao associada a uma ideologia religiosa, por exemplo escapa memria da sociedade. Podemos encontrar apenas indicaes fragmentrias de mudanas nos registros que no tratam explicitamente da histria e, ainda assim, atravs de um complicado exerccio de interpretao. Isso mostra que a tradio oral no uma panaceia para todos os males. Mas na prtica, ela se revela uma fonte de primeira ordem para os ltimos sculos. Para um perodo anterior, seu papel se reduz, tornando -se mais uma cincia auxiliar da arqueologia. Em relao s fontes lingusticas e etnogrficas, ainda no foi suficientemente explorada, embora em princpio esses trs tipos de fontes devessem, em conjunto, trazer importante contribuio ao nosso conhecimento da frica antiga, assim como faz a arqueologia.

    As tradies tm comprovado seu valor insubstituvel. No mais necessrio convencer os estudiosos de que as tradies podem ser fontes teis de informao. Todo historiador est ciente disso. O que devemos fazer agora melhorar nossas tcnicas de modo a extrair das fontes toda a sua riqueza potencial. Essa a tarefa que nos espera.

  • C A P T U L O 8

    167A tradio viva

    A escrita uma coisa, e o saber, outra. A escrita a fotografia do saber, mas no o saber em si. O saber uma luz que existe no homem. A herana de tudo aquilo que nossos ancestrais vieram a conhecer e que se encontra latente em tudo o que nos transmitiram, assim como o baob j existe em potencial em sua semente.

    Tierno Bokar1

    Quando falamos de tradio em relao histria africana, referimo -nos tradio oral, e nenhuma tentativa de penetrar a histria e o esprito dos povos africanos ter validade a menos que se apie nessa herana de conhecimentos de toda espcie, pacientemente transmitidos de boca a ouvido, de mestre a discpulo, ao longo dos sculos. Essa herana ainda no se perdeu e reside na memria da ltima gerao de grandes depositrios, de quem se pode dizer so a memria viva da frica.

    Entre as naes modernas, onde a escrita tem precedncia sobre a oralidade, onde o livro constitui o principal veculo da herana cultural, durante muito tempo julgou -se que povos sem escrita eram povos sem cultura. Felizmente, esse conceito infundado comeou a desmoronar aps as duas ltimas guerras,

    1 Tierno Bokar Salif, falecido em 1940, passou toda a sua vida em Bandiagara (Mali). Grande Mestre da ordem muulmana de Tijaniyya, foi igualmente tradicionalista em assuntos africanos. Cf. HAMPAT B, A. e CARDAIRE, M. 1957.

    A tradio viva A. Hampat B

  • 168 Metodologia e pr -histria da frica

    graas ao notvel trabalho realizado por alguns dos grandes etnlogos do mundo inteiro. Hoje, a ao inovadora e corajosa da UNESCO levanta ainda um pouco mais o vu que cobre os tesouros do conhecimento transmitidos pela tradio oral, tesouros que pertencem ao patrimnio cultural de toda a humanidade.

    Para alguns estudiosos, o problema todo se resume em saber se possvel conceder oralidade a mesma confiana que se concede escrita quando se trata do testemunho de fatos passados. No meu entender, no esta a maneira correta de se colocar o problema. O testemunho, seja escrito ou oral, no fim no mais que testemunho humano, e vale o que vale o homem.

    No faz a oralidade nascer a escrita, tanto no decorrer dos sculos como no prprio indivduo? Os primeiros arquivos ou bibliotecas do mundo foram o crebro dos homens. Antes de colocar seus pensamentos no papel, o escritor ou o estudioso mantm um dilogo secreto consigo mesmo. Antes de escrever um relato, o homem recorda os fatos tal como lhe foram narrados ou, no caso de experincia prpria, tal como ele mesmo os narra.

    Nada prova a priori que a escrita resulta em um relato da realidade mais fidedigno do que o testemunho oral transmitido de gerao a gerao. As crnicas das guerras modernas servem para mostrar que, como se diz (na frica), cada partido ou nao enxerga o meio -dia da porta de sua casa atravs do prisma das paixes, da mentalidade particular, dos interesses ou, ainda; da avidez em justificar um ponto de vista. Alm disso, os prprios documentos escritos nem sempre se mantiveram livres de falsificaes ou alteraes, intencionais ou no, ao passarem sucessivamente pelas mos dos copistas fenmeno que originou, entre outras, as controvrsias sobre as Sagradas Escrituras.

    O que se encontra por detrs do testemunho, portanto, o prprio valor do homem que faz o testemunho, o valor da cadeia de transmisso da qual ele faz parte, a fidedignidade das memrias individual e coletiva e o valor atribudo verdade em uma determinada sociedade. Em suma: a ligao entre o homem e a palavra.

    E, pois, nas sociedades orais que no apenas a funo da memria mais desenvolvida, mas tambm a ligao entre o homem e a Palavra mais forte. L onde no existe a escrita, o homem est ligado palavra que profere. Est comprometido por ela. Ele a palavra, e a palavra encerra um testemunho daquilo que ele . A prpria coeso da sociedade repousa no valor e no respeito pela palavra. Em compensao, ao mesmo tempo que se difunde, vemos que a escrita pouca a pouco vai substituindo a palavra falada, tornando -se a nica prova e o nico recurso; vemos a assinatura tornar -se o nico compromisso reconhecido, enquanto. o laa sagrado e profundo que unia o homem palavra desaparece progressivamente para dar lugar a ttulos universitrios convencionais.

  • 169A tradio viva

    Nas tradies africanas pela menos nas que conheo e que dizem respeita a toda a regio de savana ao sul do Saara , a palavra falada se empossava, alm de um valor moral fundamental, de um carter sagrado vinculado sua origem divina e s foras ocultas nela depositadas. Agente mgico por excelncia, grande vetor de foras etreas, no era utilizada sem prudncia.

    Inmeros fatores religiosas, mgicos ou sociais concorrem, por conseguinte, para preservar a fidelidade da transmisso oral. Pareceu -nos indispensvel fazer ao leitor uma breve explanao sobre esses fatores, a fim de melhor situar a tradio oral africana em seu contexto e esclarec -la, por assim dizer, a partir do seu interior.

    Se formulssemos a seguinte pergunta a um verdadeiro tradicionalista* africano: O que tradio oral?, por certo ele se sentiria muito embaraado. Talvez respondesse simplesmente, aps longo silncio: o conhecimento total.

    O que, pois, abrange a expresso tradio oral? Que realidades veicula, que conhecimentos transmite, que cincias ensina e quem so os transmissores?

    Contrariamente ao que alguns possam pensar, a tradio oral africana, com efeito, no se limita a histrias e lendas, ou mesmo a relatos mitolgicos ou histricos, e os griots esto longe de ser seus nicos guardies e transmissores qualificados.

    A tradio oral a grande escala da vida, e dela recupera e relaciona todos os aspectos. Pode parecer catica queles que no lhe descortinam o segredo e desconcertar a mentalidade cartesiana acostumada a separar tudo em categorias bem definidas. Dentro da tradio oral, na verdade, o espiritual e o material no esto dissociados. Ao passar do esotrico para o exotrico, a tradio oral consegue colocar -se ao alcance dos homens, falar -lhes de acordo com o entendimento humano, revelar -se de acordo com as aptides humanas. Ela ao mesmo tempo religio, conhecimento, cincia natural, iniciao arte, histria, divertimento e recreao, uma vez que todo pormenor sempre nos permite remontar Unidade primordial.

    Fundada na iniciao e na experincia, a tradio oral conduz o homem sua totalidade e, em virtude disso, pode -se dizer que contribuiu para criar um tipo de homem particular, para esculpir a alma africana.

    Uma vez que se liga ao comportamento cotidiano da homem e da comunidade, a cultura africana no , portanto, algo abstrato que possa ser isolado da vida. Ela envolve uma viso particular do mundo, ou, melhor dizendo, uma presena particular no mundo um mundo concebido como um Todo onde todas as coisas se religam e interagem.

    A tradio oral baseia -se em uma certa concepo da homem, do seu lugar e do seu papel no seio do universo. Para situ -la melhor na contexto global, antes

  • 170 Metodologia e pr -histria da frica

    de estud -la em seus vrias aspectos devemos, portanto, retomar ao prprio mistrio da criao do homem e da instaurao primordial da Palavra: o mistrio tal como ela o revela e do qual emana.

    A origem divina da Palavra

    Como no posso discorrer com autenticidade sobre quaisquer tradies que no tenha vivido ou estudado pessoalmente em particular as relativas aos pases da floresta tirarei os exemplos em que me apio das tradies da savana ao sul da Saara (que antigamente era chamada de Bafur e que constitua as regies de savana da antiga frica ocidental francesa).

    A tradio bambara do Komo2 ensina que a Palavra, Kuma, uma fora fundamental que emana do prprio Ser Supremo, Maa Ngala, criador de todas as coisas. Ela o instrumento da criao: Aquilo que Maa Ngala diz, !, proclama o chantre do deus Komo.

    O mito da criao do universo e do homem, ensinado pelo mestre iniciador do Komo (que sempre um ferreiro) aos jovens circuncidados, revela -nos que quando Maa Ngala sentiu falta de um interlocutor, criou o Primeiro Homem: Maa.

    Antigamente a histria da gnese costumava ser ensinada durante os 63 dias de retiro imposto aos circuncidados aos 21 anos de idade; em seguida, passavam mais 21 anos estudando -a cada vez mais profundamente.

    Na orla do bosque sagrado, onde Komo vivia, o primeiro circuncidado entoava ritmadamente as seguintes palavras:

    Maa Ngala! Maa Ngala! Quem Maa Ngala? Onde est Maa Ngala?

    O chantre do Komo respondia:

    Maa Ngala a Fora infinita. Ningum pode situ -lo no tempo e no espao. Ele Dombali (Incognoscvel) Dambali (Incriado Infinito).

    Ento, aps a iniciao, comeava a narrao da gnese primordial:

    No havia nada, seno um Ser.

    2 Uma das grandes escolas de iniciao do Mande (Mali).

  • 171A tradio viva

    Este Ser era um Vazio vivo, a incubar potencialmente as existncias possveis. O Tempo infinito era a moradia desse Ser -Um. O Ser -Um chamou -se de Maa Ngala. Ento ele criou Fan, Um Ovo maravilhoso com nove divises No qual introduziu os nove estados fundamentais da existncia. Quando o Ovo primordial chocou, dele nasceram vinte seres fabulosos que constituram a totalidade do universo, a soma total das foras existentes do conhecimento possvel. Mas, ai!, nenhuma dessas vinte primeiras criaturas revelou -se apta a tornar -se o interlocutor (kuma nyon) que Maa Ngala havia desejado para si. Assim, ele tomou de uma parcela de cada uma dessas vinte criaturas existentes e misturou -as; ento, insuflando na mistura uma centelha de seu prprio hlito gneo, criou um novo Ser, o Homem, a quem deu uma parte de seu prprio nome: Maa. E assim esse novo ser, atravs de seu nome e da centelha divina nele introduzida, continha algo do prprio Maa Ngala.

    Sntese de tudo o que existe, receptculo por excelncia da Fora suprema e confluncia de todas as foras existentes, Maa, o Homem, recebeu de herana uma parte do poder criador divino, o dom da Mente e da Palavra.

    Maa Ngala ensinou a Maa, seu interlocutor, as leis segundo as quais todos os elementos do cosmo foram formados e continuam a existir. Ele o intitulou guardio do Universo e o encarregou de zelar pela conservao da Harmonia universal. Por isso penoso ser Maa.

    Iniciado por seu criador, mais tarde Maa transmitiu a seus descendentes tudo o que havia aprendido, e esse foi o incio da grande cadeia de transmisso oral iniciatria da qual a ordem do Komo (como as ordens do Nama, do Kore, etc., no Mali) diz -se continuadora.

    Tendo Maa Ngala criado seu interlocutor, Maa, falava com ele e, ao mesmo tempo, dotava -o da capacidade de responder. Teve incio o dilogo entre Maa Ngala, criador de todas as coisas, e Maa, simbiose de todas as coisas.

    Como provinham de Maa Ngala para o homem, as palavras eram divinas porque ainda no haviam entrado em contato com a materialidade. Aps o contato com a corporeidade, perderam um pouco de sua divindade, mas se carregaram de sacralidade. Assim, sacralizada pela Palavra divina, por sua vez a corporeidade emitiu vibraes sagradas que estabeleceram a comunicao com Maa Ngala.

  • 172 Metodologia e pr -histria da frica

    A tradio africana, portanto, concebe a fala como um dom de Deus. Ela ao mesmo tempo divina no sentido descendente e sagrada no sentido ascendente.

    A fala humana como poder de criao

    Maa Ngala, como se ensina, depositou em Maa as trs potencialidades do poder, do querer e do saber, contidas nos vinte elementos dos quais ele foi composto. Mas todas essas foras, das quais herdeiro, permanecem silenciadas dentro dele. Ficam em estado de repouso at o instante em que a fala venha coloc -las em movimento. Vivificadas pela Palavra divina, essas foras comeam a vibrar. Numa primeira fase, tornam -se pensamento; numa segunda, som; e, numa terceira, fala. A fala , portanto, considerada como a materializao, ou a exteriorizao, das vibraes das foras.

    Assinalemos, entretanto, que, neste nvel, os termos falar e escutar referem -se a realidades muito mais amplas do que as que normalmente lhes atribumos. De fato, diz -se que: Quando Maa Ngala fala, pode -se ver, ouvir, cheirar, saborear e tocar a sua fala. Trata -se de uma percepo total, de um conhecimento no qual o ser se envolve na totalidade.

    Do mesmo modo, sendo a fala a exteriorizao das vibraes das foras, toda manifestao de uma s fora, seja qual for a forma que assuma, deve ser considerada como sua fala. por isso que no universo tudo fala: tudo fala que ganhou corpo e forma.

    Em fulfulde, a palavra que designa fala (haala) deriva da raiz verbal hal, cuja ideia dar fora e, por extenso, materializar. A tradio peul ensina que Gueno, o Ser Supremo, conferiu fora a Kiikala, o primeiro homem, falando com ele. Foi a conversa com Deus que fez Kiikala forte, dizem os Silatigui (ou mestres iniciados peul).

    Se a fala fora, porque ela cria uma ligao de vaivm (yaa warta, em fulfulde) que gera movimento e ritmo, e, portanto, vida e ao. Este movimento de vaivm simbolizado pelos ps do tecelo que sobem e descem, como veremos adiante ao falarmos sobre os ofcios tradicionais. (Com efeito, o simbolismo do ofcio do tecelo baseia -se inteiramente na fala criativa em ao).

    imagem da fala de Maa Ngala, da qual um eco, a fala humana coloca em movimento foras latentes, que so ativadas e suscitadas por ela como um homem que se levanta e se volta ao ouvir seu nome.

  • 173A tradio viva

    A fala pode criar a paz, assim como pode destru -la. como o fogo. Uma nica palavra imprudente pode desencadear uma guerra, do mesmo modo que um graveto em chamas pode provocar um grande incndio. Diz o adgio malins: O que que coloca uma coisa nas devidas condies (ou seja, a arranja, a dispe favoravelmente)? A fala. O que que estraga uma coisa? A fala. O que que mantm uma coisa em seu estado? A fala.

    A tradio, pois, confere a Kuma, a Palavra, no s um poder criador, mas tambm a dupla funo de conservar e destruir. Por essa razo a fala, por excelncia, o grande agente ativo da magia africana.

    A fala, agente ativo da magia

    Deve -se ter em mente que, de maneira geral, todas as tradies africanas postulam uma viso religiosa do mundo. O universo visvel concebido e sentido como o sinal, a concretizao ou o envoltrio de um universo invisvel e vivo, constitudo de foras em perptuo movimento. No interior dessa vasta unidade csmica, tudo se liga, tudo solidrio, e o comportamento do homem em relao a si mesmo e em relao ao mundo que o cerca (mundo mineral, vegetal, animal e a sociedade humana) ser objeto de uma regulamentao ritual muito precisa cuja forma pode variar segundo as etnias ou regies.

    A violao das leis sagradas causaria uma perturbao no equilbrio das foras que se manifestaria em distrbios de diversos tipos. Por isso a ao mgica, ou seja, a manipulao das foras, geralmente almejava restaurar o equilbrio perturbado e restabelecer a harmonia, da qual o Homem, como vimos, havia sido designado guardio por seu Criador.

    Na Europa, a palavra magia sempre tomada no mau sentido, enquanto que na frica designa unicamente o controle das foras, em si uma coisa neutra que pode se tornar benfica ou malfica conforme a direo que se lhe d. Como se diz: Nem a magia nem o destino so maus em si. A utilizao que deles fazemos os torna bons ou maus.

    A magia boa, a dos iniciados e dos mestres do conhecimento, visa purificar os homens, os animais e os objetos a fim de repor as foras em ordem. E aqui decisiva a fora da fala.

    Assim como a fala divina de Maa Ngala animou as foras csmicas que dormiam, estticas, em Maa, assim tambm a fala humana anima, coloca em movimento e suscita as foras que esto estticas nas coisas. Mas para que a fala produza um efeito total, as palavras devem ser entoadas ritmicamente, porque o

  • 174 Metodologia e pr -histria da frica

    movimento precisa de ritmo, estando ele prprio fundamentado no segredo dos nmeros. A fala deve reproduzir o vaivm que a essncia do ritmo.

    Nas canes rituais e nas frmulas encantatrias, a fala , portanto, a materializao da cadncia. E se considerada como tendo o poder de agir sobre os espritos, porque sua harmonia cria movimentos, movimentos que geram foras, foras que agem sobre os espritos que so, por sua vez, as potncias da ao.

    Na tradio africana, a fala, que tira do sagrado o seu poder criador e operativo, encontra -se em relao direta com a conservao ou com a ruptura da harmonia no homem e no mundo que o cerca.

    Por esse motivo a maior parte das sociedades orais tradicionais considera a mentira uma verdadeira lepra moral. Na frica tradicional, aquele que falta palavra mata sua pessoa civil, religiosa e oculta. Ele se separa de si mesmo e da sociedade. Seria prefervel que morresse, tanto para si prprio como para os seus.

    O chantre do Komo Dibi de Kulikoro, no Mali, cantou em um de seus poemas rituais:

    A fala divinamente exata, convm ser exato para com ela. A lngua que falsifica a palavra vicia o sangue daquele que mente.

    O sangue simboliza aqui a fora vital interior, cuja harmonia perturbada pela mentira. Aquele que corrompe sua palavra, corrompe a si prprio, diz o adgio. Quando algum pensa uma coisa e diz outra, separa -se de si mesmo. Rompe a unidade sagrada, reflexo da unidade csmica, criando desarmonia dentro e ao redor de si.

    Agora podemos compreender melhor em que contexto mgico -religioso e social se situa o respeito pela palavra nas sociedades de tradio oral, especialmente quando se trata de transmitir as palavras herdadas de ancestrais ou de pessoas idosas. O que a frica tradicional mais preza a herana ancestral. O apego religioso ao patrimnio transmitido exprime -se em frases como: Aprendi com meu Mestre, Aprendi com meu pai, Foi o que suguei no seio de minha me.

    Os tradicionalistas

    Os grandes depositrios da herana oral so os chamados tradicionalistas. Memria viva da frica, eles so suas melhores testemunhas. Quem so esses mestres?

  • 175A tradio viva

    Em bambara, chamam -nos de Doma ou Soma, os Conhecedores, ou Donikeba, fazedores de conhecimento; em fulani, segundo a regio, de Silatigui, Gando ou Tchiorinke, palavras que possuem o mesmo sentido de Conhecedor. Podem ser Mestres iniciados (e iniciadores) de um ramo tradicional especfico (iniciaes do ferreiro, do tecelo, do caador, do pescador, etc.) ou possuir o conhecimento total da tradio em todos os seus aspectos. Assim, existem Domas que conhecem a cincia dos ferreiros, dos pastores, dos teceles, assim como das grandes escolas de iniciao da savana por exemplo, no Mali, o Komo, o Kore, o Nama, o Do, o Diarrawara, o Nya, o Nyaworole, etc.

    Mas no nos iludamos: a tradio africana no corta a vida em fatias e raramente o Conhecedor um especialista. Na maioria das vezes, um generalizador. Por exemplo, um mesmo velho conhecer no apenas a cincia das plantas (as propriedades boas ou ms de cada planta), mas tambm a cincia das terras (as propriedades agrcolas ou medicinais dos diferentes tipos de solo), a cincia das guas, astronomia, cosmogonia, psicologia, etc. Trata -se de uma cincia da vida cujos conhecimentos sempre podem favorecer uma utilizao prtica. E quando falamos de cincias iniciatrias ou ocultas, termos que podem confundir o leitor racionalista, trata -se sempre, para a frica tradicional, de uma cincia eminentemente prtica que consiste em saber como entrar em relao apropriada com as foras que sustentam o mundo visvel e que podem ser colocadas a servio da vida.

    Guardio dos segredos da Gnese csmica e das cincias da vida, o tradicionalista, geralmente dotado de uma memria prodigiosa, normalmente tambm o arquivista de fatos passados transmitidos pela tradio, ou de fatos contemporneos.

    Uma histria que se quer essencialmente africana dever necessariamente, portanto, apoiar -se no testemunho insubstituvel de africanos qualificados. No se pode pentear uma pessoa quando ela est ausente, diz o adgio.

    Os grandes Doma, os de conhecimento total, eram conhecidos e venerados, e as pessoas vinham de longe para recorrer ao seu conhecimento e sua sabedoria.

    Ardo Dembo, que me iniciou nas coisas fulani, era um Doma peul (um Silatigui). Hoje falecido. Ali Essa, outro Silatigui peul, ainda vive.

    Danfo Sine, que frequentava a casa de meu pai, na minha infncia, era um Doma quase universal. No somente era um grande Mestre iniciado do Komo, mas tambm possua todos os outros conhecimentos de seu tempo histricos, iniciatrios ou relativos s cincias da natureza. Era conhecido por todos na

  • 176 Metodologia e pr -histria da frica

    regio que se estende de Sikasso a Bamako, isto , os antigos reinos de Kenedugu e de Beledugu.

    Seu irmo mais jovem, Latif, que havia experimentado as mesmas iniciaes, era tambm um grande Doma. Alm do mais, tinha a vantagem de ler e escrever rabe e de ter prestado o servio militar (nas foras francesas) no Chade, o que lhe permitira coletar grande quantidade de conhecimentos na savana chadiana, que se revelaram anlogos aos ensinados no Mali.

    Iwa, pertencente casta dos griots, um dos maiores tradicionalistas do Mande vivos no Mali, assim como Banzoumana, o grande msico cego.

    Neste ponto preciso esclarecer que um griot no necessariamente um tradicionalista conhecedor, mas que pode tornar -se um, se for essa sua vocao. No poder, entretanto, ter acesso iniciao do Komo, da qual os griots so excludos3.

    De maneira geral, os tradicionalistas foram postos de parte, seno perseguidos, pelo poder colonial que, naturalmente, procurava extirpar as tradies locais a fim de implantar suas prprias ideias, pois, como se diz, No se semeia nem em campo plantado nem em terra alqueivada. Por essa razo, a iniciao geralmente buscava refgio na mata e deixava as grandes cidades, chamadas de Tubabudugu, cidades de brancos (ou seja, dos colonizadores).

    No entanto, nos diversos pases da savana africana que formam o antigo Bafur e, sem dvida, outras partes tambm ainda existem Conhecedores que continuam a transmitir a herana sagrada queles que aceitam aprender e ouvir e que se mostram dignos de receber os ensinamentos por sua pacincia e discreo, regras bsicas exigidas pelos deuses.

    Dentro de 10 ou 15 anos, os ltimos grandes Doma, os ltimos ancios herdeiros dos vrios ramos da Tradio provavelmente tero desaparecido. Se no nos apressarmos em reunir seus testemunhos e ensinamentos, todo o patrimnio cultural e espiritual de um povo cair no esquecimento juntamente com eles, e uma gerao jovem sem razes ficar abandonada prpria sorte.

    Autenticidade da transmisso

    Mais do que todos os outros homens, os tradicionalistas -doma, grandes ou pequenos, obrigam -se a respeitar a verdade. Para eles, a mentira no

    3 A respeito dos griots, ver mais adiante.

  • 177A tradio viva

    simplesmente um defeito moral, mas uma interdio ritual cuja violao lhes impossibilitaria o preenchimento de sua funo.

    Um mentiroso no poderia ser um iniciador, nem um Mestre da faca, e muito menos um Doma. Se, excepcionalmente, acontecesse de um tradicionalista-doma revelar -se um mentiroso, jamais voltaria a receber a confiana de algum em qualquer domnio e sua funo desapareceria imediatamente.

    De modo geral, a tradio africana abomina a mentira. Diz -se: Cuida -te para no te separares de ti mesmo. melhor que o mundo fique separado de ti do que tu separado de ti mesmo. Mas a interdio ritual da mentira afeta, de modo particular, todos os oficiantes (ou sacrificadores ou mestres da faca, etc.)4 de todos os graus, a comear pelo pai de famlia que o sacrificador ou o oficiante de sua famlia, passando pelo ferreiro, pelo tecelo ou pelo arteso tradicional sendo a prtica de um ofcio uma atividade sagrada, como veremos adiante. A proibio atinge todos os que, tendo de exercer uma responsabilidade mgico--religiosa e de realizar os atos rituais, so, de algum modo, os intermedirios entre os mortais comuns e as foras tutelares; no topo esto o oficiante sagrado do pas (por exemplo, o Hogon, entre os Dogon) e, eventualmente, o rei.

    Essa interdio ritual existe, de meu conhecimento, em todas as tradies da savana africana.

    A proibio da mentira deve -se ao fato de que se um oficiante mentisse, estaria corrompendo os atos rituais. No mais preencheria o conjunto das condies rituais necessrias realizao do ato sagrado, sendo a principal estar ele prprio em harmonia antes de manipular as foras da vida. No nos esqueamos de que todos os sistemas mgico -religiosos africanos tendem a preservar ou restabelecer o equilbrio das foras, do qual depende a harmonia do mundo material e espiritual.

    Mais do que todos os outros, os Doma sujeitam -se a esta obrigao, pois, enquanto Mestres iniciados, so os grandes detentores da Palavra, principal agente ativo da vida humana e dos espritos. So os herdeiros das palavras sagradas e encantatrias transmitidas pela cadeia de ancestrais, palavras que podem remontar s primeiras vibraes sagradas emitidas por Maa, o primeiro homem.

    Se o tradicionalista -doma detentor da Palavra, os demais homens so os depositrios do palavrrio

    Citarei o caso de um Mestre da faca dogon, do pas de Pignari (departamento de Bandiagara) que conheci na juventude e que, certa vez, foi forado a mentir

    4 Nem todas as cerimnias rituais incluam necessariamente o sacrifcio de um animal. O sacrifcio podia consistir em uma oferenda de paino, leite ou algum outro produto natural.

  • 178 Metodologia e pr -histria da frica

    a fim de salvar a vida de uma mulher procurada que ele havia escondido em sua casa. Aps o incidente, renunciou espontaneamente ao cargo, supondo que j no mais preenchia as condies rituais para assumi -lo lidimamente.

    Quando se trata de questes religiosas e sagradas, os grandes mestres tradicionais no temem a opinio desfavorvel das massas e, se acaso cometem um engano, admitem o erro publicamente, sem desculpas calculadas ou evasivas. Para eles, reconhecer quaisquer faltas que tenham cometido uma obrigao, pois significa purificar -se da profanao.

    Se o tradicionalista ou Conhecedor to respeitado na frica, porque ele se respeita a si prprio. Disciplinado interiormente, uma vez que jamais deve mentir, um homem bem equilibrado, mestre das foras que nele habitam. Ao seu redor as coisas se ordenam e as perturbaes se aquietam.

    Independentemente da interdio da mentira, ele pratica a disciplina da palavra e no a utiliza imprudentemente. Pois se a fala, como vimos, considerada uma exteriorizao das vibraes de foras interiores, inversamente, a fora interior nasce da interiorizao da fala.

    A partir dessa ptica, pode -se compreender melhor a importncia que a educao tradicional africana atribui ao autocontrole. Falar pouco sinal de boa educao e de nobreza. Muito cedo, o jovem aprende a dominar a manifestao de suas emoes ou de seu sofrimento, aprende a conter as foras que nele existem, semelhana do Maa primordial que continha dentro de si, submissas e ordenadas, todas as foras do Cosmo.

    Dir -se - de um Conhecedor respeitado ou de um homem que mestre de si mesmo: um Maa! (ou um Neddo, em fulfulde), quer dizer, um homem completo.

    No se deve confundir os tradicionalistas -doma, que sabem ensinar enquanto divertem e se colocam ao alcance da audincia, com os trovadores, contadores de histria e animadores pblicos, que em geral pertencem casta dos Dieli (griots) ou dos Woloso (cativos de casa)5. Para estes, a disciplina da verdade no existe; e, como veremos adiante, a tradio lhes concede o direito de travesti -la ou de embelezar os fatos, mesmo que grosseiramente, contanto que consigam divertir ou interessar o pblico. O griot, como se diz, pode ter duas lnguas.

    Ao contrrio, nenhum africano de formao tradicionalista sequer sonharia em colocar em dvida a veracidade da fala de um tradicionalista -doma,

    5 Os Woloso (literalmente os nascidos na casa), ou cativos de casa, eram empregados ou famlias de empregados ligados h geraes a uma mesma famlia. A tradio concedia -lhes liberdade total de ao e expresso bem como considerveis direitos materiais sobre os bens de seus senhores.

  • 179A tradio viva

    figura 8.1 Msico tukulor tocando o ardin (Kayes, Mali, n. AO -292).

    Figura 8.2 Cantor Mvet (Documentation Franaise).

  • 180 Metodologia e pr -histria da frica

    especialmente quando se trata da transmisso dos conhecimentos herdados da cadeia dos ancestrais.

    Antes de falar, o Doma, por deferncia, dirige -se s almas dos antepassados para pedir -lhes que venham assisti -lo, a fim de evitar que a lngua troque as palavras ou que ocorra um lapso de memria, que o levaria a alguma omisso.

    Danfo Sine, o grande Doma bambara que conheci na infncia em Bougouni e que era o Chantre do Komo, antes de iniciar uma histria ou lio costumava dizer:

    Oh, Alma de meu Mestre Tiemablem Samak! Oh, Almas dos velhos ferreiros e dos velhos teceles, Primeiros ancestrais iniciadores vindos do Leste! Oh, Jigi, grande carneiro que por primeiro soprou Na trombeta do Komo, Vindo sobre o Jeliba (Nger)! Acercai -vos e escutai -me. Em concordncia com vossos dizeres Vou contar aos meus ouvintes Como as coisas aconteceram, Desde vs, no passado, at ns, no presente, Para que as palavras sejam preciosamente guardadas E fielmente transmitidas Aos homens de amanh Que sero nossos filhos E os filhos de nossos filhos. Segurai firme, ancestrais, as rdeas de minha lngua! Guiai o brotar das minhas palavras A fim de que possam seguir e respeitar Sua ordem natural.

    Em seguida, acrescentava: Eu, Danjo Sine, do cl de Samake (elefante), vou contar tal como o aprendi,

    na presena de minhas duas testemunhas Makoro e Manifin6. Os dois como eu conhecem a trama7. Eles sero a um tempo meus fiscais

    e meu apoio.

    6 Makoro e Manifin eram seus dois condiscpulos.7 Uma narrativa tradicional possui sempre uma trama ou base imutvel que no deve jamais ser modificada,

    mas a partir da qual pode -se acrescentar desenvolvimentos ou embelezamentos, segundo a inspirao ou a ateno dos ouvintes.

  • 181A tradio viva

    Se o contador de histrias cometesse um erro ou esquecesse algo, sua testemunha o interromperia: Homem! Presta ateno quando abres a boca! Ao que ele responderia: Desculpe, foi minha lngua fogosa que me traiu.

    Um tradicionalista -doma que no ferreiro de nascena, mas que conhece as cincias relacionadas forja, por exemplo, dir, antes de falar sobre ela: Devo isto a fulano, que deve a beltrano, etc.. Ele render homenagem ao ancestral dos ferreiros, curvando -se em sinal de devoo, com a ponta do cotovelo direito apoiada no cho e o antebrao erguido.

    O Doma tambm pode citar seu mestre e dizer: Rendo homenagem a todos os intermedirios at Nunfayri8, sem ser obrigado a citar todos os nomes.

    Existe sempre referncia cadeia da qual o prprio Doma apenas um elo. Em todos os ramos do conhecimento tradicional, a cadeia de transmisso se

    reveste de uma importncia primordial. No existindo transmisso regular, no existe magia, mas somente conversa ou histrias. A fala , ento, inoperante. A palavra transmitida pela cadeia deve veicular, depois da transmisso original, uma fora que a torna operante e sacramental.

    Esta noo de respeito pela cadeia ou de respeito pela transmisso determina, em geral, no africano no aculturado a tendncia a relatar uma histria reproduzindo a mesma forma em que a ouviu, ajudado pela memria prodigiosa dos iletrados. Se algum o contradiz, ele simplesmente responder: Fulano me ensinou assim!, sempre citando a fonte.

    Alm do valor moral prprio dos tradicionalistas -doma e de sua adeso a uma cadeia de transmisso, uma garantia suplementar de autenticidade fornecida pelo controle permanente de seus pares ou dos ancios que os rodeiam, que velam zelosamente pela autenticidade daquilo que transmitem e que os corrigem no menor erro, como vimos no caso de Danfo Sine.

    No curso de suas excurses rituais pelo mato, o chantre do Komo pode acrescentar as prprias meditaes ou inspiraes s palavras tradicionais que herdou da cadeia e que canta para seus companheiros. Suas palavras, novos elos, vm, ento, enriquecer as palavras dos predecessores. Mas ele previne: Isto o que estou acrescentando, isto o que estou dizendo. No sou infalvel, posso estar errado. Se estou, no se esqueam de que, como vocs, vivo de um punhado de paino, de uns goles de gua e de alguns sopros de ar. O homem no infalvel!.

    8 Ancestral dos ferreiros.

  • 182 Metodologia e pr -histria da frica

    Os iniciados e os nefitos que o acompanham aprendem essas novas palavras, de modo que todos os cantos do Komo so conhecidos e conservados na memria.

    O grau de evoluo do adepto do Komo no medido pela quantidade de palavras aprendidas, mas pela conformidade de sua vida a essas palavras. Se um homem sabe apenas dez ou quinze palavras do Komo, e, as vive, ento ele se torna um valoroso adepto do Komo dentro da associao. Para ser chantre do Komo, portanto Mestre iniciado, necessrio conhecer todas as palavras herdadas, e viv -las.

    A educao tradicional, sobretudo quando diz respeito aos conhecimentos relativos a uma iniciao, liga -se experincia e se integra vida. Por esse motivo o pesquisador europeu ou africano que deseja aproximar -se dos fatos religiosos africanos est fadado a deter -se nos limites do assunto, a menos que aceite viver a iniciao correspondente e suas regras, o que pressupe, no mnimo, um conhecimento da lngua. Pois existem coisas que no se explicam, mas que se experimentam e se vivem.

    Lembro -me de que em 1928, quando servia em Tougan, um jovem etnlogo chegara ao pas para fazer um estudo sobre a galinha sacrifical por ocasio da circunciso. O comandante francs apresentou -se ao chefe de canto indgena e pediu que tudo fosse feito para satisfazer ao etnlogo, insistindo para que lhe contassem tudo. Por sua vez, o chefe de canto reuniu os principais cidados e exps -lhes os fatos, repetindo as palavras do comandante.

    O decano da assembleia, que era o Mestre da faca local, e, portanto, o responsvel pelas cerimnias de circunciso e da iniciao correspondente, perguntou -lhe:

    Ele quer que lhe contemos tudo? Sim respondeu o chefe de canto. Mas ele veio para ser circuncidado? No, veio buscar informaes.

    O decano voltou o rosto para o outro lado e disse:

    Como podemos contar -lhe tudo se ele no quer ser circuncidado? Voc bem sabe, chefe, que isso no possvel. Ele ter de levar a vida dos circuncidados para que possamos ensinar -lhe todas as lies.

    Uma vez que por fora somos obrigados a satisfaz -lo replicou o chefe do canto , cabe a voc encontrar uma sada para essa dificuldade.

    Muito bem! disse o velho. Ns nos desembaraaremos dele sem que ele perceba, pondo -o na palha.

  • 183A tradio viva

    A frmula pr na palha, que consiste em enganar uma pessoa com alguma histria improvisada quando no se pode dizer a verdade, foi inventada a partir do momento em que o poder colonial passou a enviar seus agentes ou representantes com o propsito de fazer pesquisas etnolgicas sem aceitar viver sob as condies exigidas. Muitos etnlogos foram vtimas inconscientes desta ttica Quantos no pensavam ter compreendido completamente determinada realidade quando, sem viv -la, no poderiam verdadeiramente t -la conhecido.

    Alm do ensino esotrico ministrado nas grandes escolas de iniciao por exemplo, o Komo ou as demais j mencionadas , a educao tradicional comea, em verdade, no seio de cada famlia, onde o pai, a me ou as pessoas mais idosas so ao mesmo tempo mestres e educadores e constituem a primeira clula dos tradicionalistas. So eles que ministram as primeiras lies da vida, no somente atravs da experincia, mas tambm por meio de histrias, fbulas, lendas, mximas, adgios, etc. Os provrbios so as missivas legadas posteridade pelos ancestrais. Existe uma infinidade deles.

    Certos jogos infantis foram elaborados pelos iniciados com o fim de difundir, ao longo dos sculos, certos conhecimentos esotricos cifrados. Citemos, por exemplo, o jogo do Banangolo, no Mali, baseado em um sistema numeral relacionado com os 266 siqiba, ou signos, que correspondem aos atributos de Deus.

    Por outro lado, o ensinamento no sistemtico, mas ligado s circunstncias da vida. Este modo de proceder pode parecer catico, mas, em verdade, prtico e muito vivo. A lio dada na ocasio de certo acontecimento ou experincia fica profundamente gravada na memria da criana.

    Ao fazer uma caminhada pela mata, encontrar um formigueiro dar ao velho mestre a oportunidade de ministrar conhecimentos diversos, de acordo com a natureza dos ouvintes. Ou falar sobre o prprio animal, sobre as leis que governam sua vida e a classe de seres a que pertence, ou dar uma lio de moral s crianas, mostrando -lhes como a vida em comunidade depende da solidariedade e do esquecimento de si mesmo, ou ainda poder falar sobre conhecimentos mais elevados, se sentir que seus ouvintes podero compreend--lo. Assim, qualquer incidente da vida, qualquer acontecimento trivial pode sempre dar ocasio a mltiplos desenvolvimentos, pode induzir narrao de um mito, de uma histria ou de uma lenda. Qualquer fenmeno observado permite remontar s foras de onde se originou e evocar os mistrios da unidade da Vida, que inteiramente animada pela Se, a Fora sagrada primordial, ela mesma um aspecto do Deus Criador.

  • 184 Metodologia e pr -histria da frica

    Na frica, tudo Histria. A grande Histria da vida compreende a Histria das Terras e das guas (geografia), a Histria dos vegetais (botnica e farmacopeia), a Histria dos Filhos do seio da Terra (mineralogia, metais), a Histria dos astros (astronomia, astrologia), a Histria das guas, e assim por diante.

    Na tradio da savana, particularmente nas tradies bambara e peul, o conjunto das manifestaes da vida na terra divide -se em trs categorias ou classes de seres, cada uma delas subdividida em trs grupos:

    Na parte inferior da escala, os seres inanimados, os chamados seres mudos, cuja linguagem considerada oculta, uma vez que incompreensvel ou inaudvel para o comum dos mortais. Essa classe de seres inclui tudo o que se encontra na superfcie da terra (areia, gua, etc.) ou que habita o seu interior (minerais, metais, etc.). Dentre os inanimados mudos, encontramos os inanimados slidos, lquidos e gasosos (literalmente, fumegantes).

    No grau mdio, os animados imveis, seres vivos que no se deslocam. Essa a classe dos vegetais, que podem se estender ou se desdobrar, no espao, mas cujo p no pode mover -se. Dentre os animados imveis, encontramos as plantas rasteiras, as trepadeiras e as verticais, estas ltimas constituindo a classe superior.

    Finalmente, os animados mveis, que compreendem todos os animais, inclusive o homem. Os animados mveis incluem os animais terrestres (com e sem ossos), os animais aquticos e os animais voadores.

    Tudo o que existe pode, portanto, ser includo em uma dessas categorias9. De todas as Histrias, a maior e mais significativa a do prprio Homem,

    simbiose de todas as Histrias, uma vez que, segundo o mito, foi feito com uma parcela de tudo o que existiu antes dele. Todos os reinos da vida (mineral, vegetal e animal) encontram -se nele, conjugados a foras mltiplas e a faculdades superiores. Os ensinamentos referentes ao homem baseiam -se em mitos da cosmogonia, determinando seu lugar e papel no universo e revelando qual deve ser sua relao com O mundo dos vivos e dos mortos. Explica -se tanto o simbolismo de seu corpo quanto a complexidade de seu psiquismo: As pessoas da pessoa so numerosas no interior da pessoa, dizem as tradies bambara e peul. Ensina -se qual deve ser seu comportamento frente natureza, como respeitar -lhe o equilbrio e no perturbar as foras que a animam, das quais no mais que o aspecto visvel A iniciao o far descobrir a sua prpria relao

    9 Cf. HAMPAT B, A. 1972, p. 23 e segs.

  • 185A tradio viva

    com o mundo das foras e pouco a pouco o conduzir ao autodomnio, sendo a finalidade ltima tornar -se, tal como Maa, um homem completo, interlocutor de Maa Ngala e guardio do mundo vivo.

    Os ofcios tradicionais

    Os ofcios artesanais tradicionais so os grandes vetores da tradio oral. Na sociedade tradicional africana, as atividades humanas possuam

    frequentemente um carter sagrado ou oculto, principalmente as atividades que consistiam em agir sobre a matria e transform -la, uma vez que tudo considerado vivo.

    Toda funo artesanal estava ligada a um conhecimento esotrico transmitido de gerao a gerao e que tinha sua origem em uma revelao inicial. A obra do arteso era sagrada porque imitava a obra de Maa Ngala e completava sua criao. A tradio bambara ensina, de fato, que a criao ainda no est acabada e que Maa Ngala, ao criar nossa terra, deixou as coisas inacabadas para que Maa, seu interlocutor, as completasse ou modificasse, visando conduzir a natureza perfeio. A atividade artesanal, em sua operao, deveria repetir o mistrio da criao. Portanto, ela focalizava uma fora oculta da qual no se podia aproximar sem respeitar certas condies rituais.

    Os artesos tradicionais acompanham o trabalho com cantos rituais ou palavras rtmicas sacramentais, e seus prprios gestos so considerados uma linguagem. De fato, os gestos de cada ofcio reproduzem, no simbolismo que lhe prprio, o mistrio da criao primeira, que, como foi mostrado anteriormente, ligava -se ao poder da Palavra. Diz -se que:

    O ferreiro forja a Palavra,O tecelo a tece, O sapateiro amacia -a curtindo -a.

    Tomemos o exemplo do tecelo, cujo ofcio vincula -se ao simbolismo da Palavra criadora que se distribui no tempo e no espao.

    O tecelo de casta (um maabo, entre os Peul) o depositrio dos segredos das 33 peas que compem a base fundamental do tear, cada uma delas com um significado. A armao, por exemplo, constitui -se de oito peas principais: quatro verticais, que simbolizam no s os quatro elementos -me (terra, gua, ar e fogo), mas tambm os quatro pontos cardeais, e quatro transversais, que simbolizam os quatro pontos colaterais. O tecelo, situado no meio, representa

  • 186 Metodologia e pr -histria da frica

    o Homem primordial, Maa, no centro das oito direes do espao. Com sua presena, obtm -se nove elementos que lembram os nove estados fundamentais da existncia, as nove classes de seres, as nove aberturas do corpo (portas das foras da vida), as nove categorias de homens entre os Peul, etc.

    Antes de dar incio ao trabalho, o tecelo deve tocar cada pea do tear pronunciando palavras ou ladainhas correspondentes s foras da vida que elas encarnam.

    O vaivm dos ps, que sobem e descem para acionar os pedais, lembra o ritmo original da Palavra criadora, ligado ao dualismo de todas as coisas e lei dos ciclos. Como se os ps dissessem o seguinte:

    Fonyonko! Fonyonko! Dualismo! Dualismo! Quando um sobe, o outro desce. A morte do rei e a coroao do prncipe, A morte do av e o nascimento do neto, Brigas de divrcio misturadas ao barulho de uma festa de casamento.

    De sua parte, diz a naveta:

    Eu sou a barca do Destino. Passo por entre os recifes dos fios da trama Que representam a Vida. Passo do lado direito para o lado esquerdo, Desenrolando meu intestino (o fio) Para contribuir construo. E de novo passo do lado esquerdo para o lado direito, Desenrolando meu intestino. A vida eterno vaivm, Permanente doao de si.

    A tira de tecido que se acumula e se enrola em um basto que repousa sobre o ventre do tecelo representa o passado, enquanto o rolo do fio a ser tecido simboliza o mistrio do amanh, o desconhecido devir. O tecelo sempre dir: amanh! No me reserve uma surpresa desagradvel!.

    No total, o trabalho do tecelo representa oito movimentos de vaivm (movimentos dos ps, dos braos, da naveta e o cruzamento rtmico dos fios do tecido) que correspondem s oito peas da armao do tear e s oito patas da aranha mtica que ensinou sua cincia ao ancestral dos teceles.

    Os gestos do tecelo, ao acionar o tear, representam o ato da criao e as palavras que lhe acompanham os gestos so o prprio canto da Vida.

  • 187A tradio viva

    Quanto ao ferreiro tradicional, ele o depositrio do segredo das transmutaes. Por excelncia, o Mestre do Fogo. Sua origem mtica, e, na tradio bambara, chamam -no de Primeiro Filho da Terra. Suas habilidades remontam a Maa, o primeiro homem, a quem o criador Maa Ngala ensinou, entre outros, os segredos da forjadura. Por isso a forja chamada de Fan, o mesmo nome do Ovo primordial, de onde surgiu todo o universo e que foi a primeira forja sagrada.

    Os elementos da forja esto ligados a um simbolismo sexual, sendo esta a expresso, ou o reflexo, de um processo csmico de criao. Desse modo, os dois foles redondos, acionados pelo assistente do ferreiro, so comparados aos testculos masculinos. O ar com que so enchidos a substncia da vida enviada, atravs de uma espcie de tubo, que representa o falo, para a fornalha da forja, que representa a matriz onde age o fogo transformador.

    O ferreiro tradicional s pode entrar na forja aps um banho ritual de purificao preparado com o cozimento de certas folhas, cascas ou razes de rvores, escolhidas em funo do dia. Com efeito, as plantas (como os minerais e os animais) dividem -se em sete classes, que correspondem aos dias da semana e esto ligadas pela lei de correspondncia analgica.10 Em seguida, o ferreiro se veste de modo especial, uma vez que no pode entrar na forja vestido com roupa comum.

    Todos os dias pela manh, purifica a forja com defumaes especiais feitas com plantas que ele conhece.

    Terminadas essas operaes, lavado de todos os contatos com o exterior, o ferreiro encontra -se em estado sacramental. Voltou a ser puro e assemelha -se agora ao ferreiro primordial. S ento, semelhana de Maa Ngala, pode ele criar, modificando e moldando a matria. (Em fulfulde, ferreiro traduz -se por baylo, palavra que literalmente significa transformador).

    Antes de comear o trabalho, invoca os quatro elementos -me da criao, (terra, gua, ar e fogo), que esto obrigatoriamente representados na forja: existe sempre um receptculo com gua, o fogo da fornalha, o ar enviado pelos foles e um montculo de terra ao lado da forja.

    Durante o trabalho, o ferreiro pronuncia palavras especiais medida que vai tocando cada ferramenta. Ao tomar a bigorna, que simboliza a receptividade feminina, diz: No sou Maa Ngala, mas o representante de Maa Ngala. Ele

    10 A respeito da lei de correspondncia analgica, v. HAMPAT B, A. Aspects de la civilisation africaine, Prsence africaine, Paris, 1972, p. 120 e segs.

  • 188 Metodologia e pr -histria da frica

    quem cria, no eu. Em seguida, apanha um pouco de gua, ou um ovo, oferece -a bigorna e diz: Eis teu dote.

    Pega o martelo, que simboliza o falo, e aplica alguns golpes na bigorna para sensibiliz -la. Estabelecida a comunicao, ele pode comear a trabalhar.

    O aprendiz no deve fazer perguntas. Deve apenas observar com ateno e soprar. Esta a fase muda do aprendizado. medida que vai avanando na assimilao do conhecimento, o aprendiz sopra em ritmos cada vez mais complexos, cada um deles possuindo um significado. No decorrer da fase oral do aprendizado, o Mestre transmitir gradualmente todos os seus conhecimentos ao discpulo, treinando -o e corrigindo -o at que adquira a mestria. Aps uma cerimnia de liberao, o novo ferreiro poder deixar o mestre e instalar a sua prpria forja. Comumente, o ferreiro envia os prprios filhos para outro ferreiro a fim de iniciarem seu aprendizado. Como diz o adgio: As esposas e os filhos do Mestre no so seus melhores discpulos.

    Assim, o arteso tradicional, imitando Maa Ngala, repetindo com seus gestos a criao primordial, realizava no um trabalho no sentido puramente econmico da palavra, mas uma funo sagrada que empregava as foras fundamentais da vida e em que se aplicava todo o seu ser. Na intimidade da oficina ou da forja, participava do mistrio renovado da criao eterna.

    Os conhecimentos do ferreiro devem abranger um vasto setor da vida. Renomado ocultista, a mestria dos segredos do fogo e do ferro faz dele a nica pessoa habilitada a praticar a circunciso, e, como vimos, o grande Mestre da faca na iniciao do Komo invariavelmente um ferreiro. No apenas sabe tudo o que diz respeito aos metais, como tambm conhece perfeitamente a classificao das plantas e suas propriedades.

    O ferreiro de alto -forno, que ao mesmo tempo extrai e funde o mineral, o mais avanado em conhecimentos. cincia de ferreiro fundidor, acrescenta o conhecimento perfeito dos Filhos do seio da Terra (mineralogia) e dos segredos das plantas e da mata. De fato, ele conhece as espcies de vegetais que cobrem a terra que contm determinado metal e detecta um veio de ouro simplesmente examinando as plantas e os seixos. Conhece as encantaes da terra e as encantaes das plantas. Uma vez que se considera a natureza como viva e animada pelas foras, todo ato que a perturba deve ser acompanhado de um comportamento ritual destinado a preservar e salvaguardar o equilbrio sagrado, pois tudo se liga, tudo repercute em tudo, toda ao faz vibrar as foras da vida e desperta uma cadeia de consequncias cujos efeitos so sentidos pelo homem.

  • 189A tradio viva

    A relao do homem tradicional com o mundo era, portanto, uma relao viva de participao e no uma relao de pura utilizao. compreensvel que, nesta viso global do universo, o papel do profano seja mnimo.

    No antigo pas Bale, por exemplo, o ouro, que a terra oferecia em abundncia, era considerado metal divino e no chegou a ser explorado exaustivamente. Empregavam -no sobretudo na confeco de objetos reais ou cultuais, mas igualmente o utilizavam como moeda de cmbio e objeto de presente. Sua extrao era livre a todos, mas a ningum era permitida a apropriao de pepitas que ultrapassassem certo tamanho; toda pepita com peso superior ao padro era devolvida ao deus e se destinava a aumentar o ouro real, depsito sagrado do qual os prprios reis no tinham o direito de usufruir. Certos tesouros reais foram desta maneira transmitidos intactos at a ocupao europeia. A terra, acreditava -se, pertencia a Deus, e ao homem cabia o direito de usufruir dela, mas no o de possu -la.

    Voltando ao arteso tradicional, ele o exemplo perfeito de como o conhecimento pode se incorporar no somente aos gestos e aes, mas tambm totalidade da vida, uma vez que deve respeitar um conjunto de proibies e obrigaes ligadas sua atividade, que constitui um verdadeiro cdigo de comportamento em relao natureza e aos semelhantes.

    Existe, desse modo, o que se chama de Costume dos ferreiros (numusira ou numuya, em bambara), Costume dos agricultores, Costume dos teceles, e assim por diante, e, no plano tnico, o que se chama de Costume dos Peul (Lawol fulfulde), verdadeiros cdigos morais, sociais e jurdicos peculiares a cada grupo, transmitidos e observados fielmente pela tradio oral.

    Pode -se dizer que o ofcio, ou a atividade tradicional, esculpe o ser do homem. Toda a diferena entre a educao moderna e a tradio oral encontra -se a. Aquilo que se aprende na escola ocidental, por mais til que seja, nem sempre vivido, enquanto o conhecimento herdado da tradio oral encarna -se na totalidade do ser. Os instrumentos ou as ferramentas de um ofcio materializam as Palavras sagradas; o contato do aprendiz com o ofcio o obriga a viver a Palavra a cada gesto.

    Por essa razo a tradio oral, tomada no seu todo, no se resume transmisso de narrativas ou de determinados conhecimentos. Ela geradora e formadora de um tipo particular de homem. Pode -se afirmar que existe a civilizao dos ferreiros, a civilizao dos teceles, a civilizao dos pastores, etc.

    Limitei -me aqui a examinar os exemplos particularmente tpicos dos ferreiros e dos teceles, mas, de um modo geral, toda atividade tradicional constitui uma

  • 190 Metodologia e pr -histria da frica

    grande escola iniciatria ou mgico -religiosa, uma via de acesso Unidade, da qual, para os iniciados, um reflexo ou uma expresso peculiar.

    Geralmente, a fim de conservar restritos linhagem os conhecimentos secretos e os poderes mgicos deles decorrentes, todo grupo devia observar proibies sexuais rigorosas em relao a pessoas estranhas ao grupo e praticar a endogamia. A endogamia, portanto, no se deve ideia de intocabilidade, mas ao desejo de manter dentro do grupo os segredos rituais. Assim, podemos perceber como esses grupos, rigorosamente especializados e harmonizados com as funes sagradas, gradualmente chegaram noo de casta, tal como existe atualmente na frica da savana. A guerra e o nobre fazem o escravo diz o adgio , mas Deus quem faz o arteso (o nyamakala).

    A noo de castas superiores ou inferiores, por conseguinte, no se baseia em uma realidade sociolgica tradicional. Ela surgiu com o decorrer do tempo, apenas em determinados lugares, provavelmente como consequncia da apario de alguns imprios onde a funo de guerreiro, reservada aos nobres, lhes conferia uma espcie de supremacia. No passado distante, a noo de nobreza era sem dvida diferente, e o poder espiritual tinha precedncia sobre o poder temporal. Naquele tempo, eram os Silatigui (mestres iniciados peul), e no os Ardo (chefes, reis) que governavam as comunidades peul.

    Contrariamente ao que alguns escreveram ou supuseram, o ferreiro muito mais temido do que desprezado na frica. Primeiro filho da Terra, mestre do Fogo e manipulador de foras misteriosas, temido, acima de tudo, pelo seu poder.

    De qualquer maneira, a tradio sempre atribuiu aos nobres a obrigao de garantir a conservao das castas ou classes de nyamakala (em bambara; nyeenyo, pl. nyeeybe, em fulani). Tais classes gozam da prerrogativa de obter mercadorias (ou dinheiro) no como retribuio de um trabalho, mas como o reclamo de um privilgio que o nobre no podia recusar.

    Na tradio do Mande, cujo centro se acha no Mali, mas que cobre mais ou menos todo o territrio do antigo Bafur (isto , a antiga frica ocidental francesa, com exceo das zonas de floresta e da parte oriental da Nigria), as castas, ou nyamakala compreendem:

    os ferreiros (numu em bambara, baylo em fulfulde); os teceles (maabo em bambara e em fulfulde); os trabalhadores da madeira (tanto o lenhador como o marceneiro; saki em

    bambara, labbo em fulfulde); os trabalhadores do couro (garanke em bambara, sakke em fulfulde);

  • 191A tradio viva

    os animadores pblicos (dieli em bambara; em fulfulde, eles so designados pelo nome geral de nyamakala ou membro de uma casta, isto , nyeeybe). Mais conhecidos pelo nome francs de griot.

    Embora no exista noo de superioridade propriamente dita, as quatro classes de nyamakala -artesos tm precedncia sobre os griots, pois demandam iniciao e conhecimentos especiais. O ferreiro est no topo da hierarquia, seguido pelo tecelo, pois seu ofcio implica o mais alto grau de iniciao. Ambos podem escolher indistintamente esposas de uma ou de outra casta, pois as mulheres so oleiras tradicionais, tendo, portanto, a mesma iniciao feminina.

    Na classificao do Mande, os nyamakala artesos dividem -se em grupos de trs:

    Existem trs tipos de ferreiro (numu em bambara, baylo em fulfulde):

    o ferreiro de mina (ou de alto -forno), que extrai os minrios e funde metal. Os grandes iniciados entre eles podem, igualmente, trabalhar na forja;

    o ferreiro do ferro negro, que trabalha na forja mas no extrai minrios; o ferreiro dos metais preciosos, ou joalheiro, que geralmente corteso e,

    como tal, instala -se nos ptios externos dos palcios de um chefe ou nobre.

    Existem trs tipos de teceles (maabo):

    o tecelo de l, que possui o maior grau de iniciao. Os motivos dos cobertores so sempre simblicos e esto associados aos mistrios dos nmeros e da cosmogonia. Todo desenho tem um nome;

    o tecelo de kerka, que tece imensos cobertores, mosquiteiros e cortinas de algodo que podem ter at 6 m de comprimento com uma infinita variedade de motivos. Cheguei a examinar uma dessas cortinas com 165 motivos. Cada motivo recebe um nome e tem um significado. O prprio nome um smbolo que representa vrias realidades;

    o tecelo comum, que confecciona faixas simples de tecido branco e que no passa por uma grande iniciao.

    s vezes ocorre de a tecelagem comum ser feita por nobres. Assim, alguns Bambara confeccionam faixas de tecido branco sem serem teceles de casta. Como no so iniciados, porm, no podem tecer nem kerka, nem l, nem mosquiteiros.

    Existem trs tipos de carpinteiros (saki em bambara, labbo em fulfulde):

    aquele que faz almofarizes, piles e estatuetas sagradas. O almofariz, onde os remdios sagrados so triturados, um objeto ritual feito apenas com determinados tipos de madeira. Como na ferraria, a carpintaria simboliza

  • 192 Metodologia e pr -histria da frica

    as duas foras fundamentais: o almofariz representa, como a bigorna, o plo feminino, enquanto o pilo representa, como o martelo, o plo masculino. As estatuetas sagradas so executadas sob o comando de um iniciado doma, que as carrega de energia sagrada prevendo algum uso particular. Alm do ritual de carregamento, a escolha e o corte da madeira tambm devem ser realizados sob condies especiais, cujo segredo s o lenhador conhece.

    O prprio arteso corta a madeira de que precisa. Portanto, tambm um lenhador e sua iniciao est ligada ao conhecimento dos segredos das plantas e da mata. Sendo a rvore considerada viva e habitada por outros espritos vivos, no pode ser derrubada ou cortada sem determinadas precaues rituais conhecidas pelo lenhador;

    aquele que faz utenslios ou mveis domsticos de madeira; aquele que fabrica pirogas, devendo ser iniciado tambm nos segredos da

    gua.

    No Mali, os Somono, que se tornaram pescadores sem pertencer etnia Bozo, tambm comearam a fabricar pirogas. So eles que podemos ver trabalhando s margens do Nger entre Kulikoro e Mopti.

    Existem trs tipos de trabalhadores do couro (garanke em bambara, sakke em fulfulde):

    os que fazem sapatos; os que fazem arreios, rdeas, etc.; os seleiros ou correeiros.

    O trabalho do couro tambm envolve uma iniciao, e os garanke geralmente tm a reputao de feiticeiros.

    Os caadores, os pescadores e os agricultores no correspondem a castas, mas sim a etnias. Suas atividades esto entre as mais antigas da sociedade humana: a colheita (agricultura) e a caa (que compreende duas caas, uma na terra e outra na gua) representam tambm grandes escolas de iniciao, pois no h quem se aproxime imprudentemente das foras sagradas da Terra -Me e dos poderes da mata, onde vivem os animais. A exemplo do ferreiro de alto -forno, o caador, de modo geral, conhece todas as encantaes da mata e deve dominar a fundo a cincia do mundo animal.

    Os curandeiros (que curam por meio de plantas ou pelo dom da fala) podem pertencer a qualquer classe ou grupo tnico. Normalmente eles so Doma.

  • 193A tradio viva

    Cada povo possui como herana dons particulares, transmitidos de gerao a gerao atravs da iniciao. Assim, os Dogon do Mali tm a reputao de conhecer o segredo da lepra, que sabem curar muito rapidamente sem deixar uma nica marca, e o segredo da cura da tuberculose. Alm disso, so excelentes restauradores, pois conseguem recolocar os ossos quebrados, mesmo em caso de fraturas graves.

    Os animadores pblicos ou griots(dieli em bambara)

    Se as cincias ocultas e esotricas so privilgio dos mestres da faca e dos chantres dos deuses, a msica, a poesia lrica e os contos que animam as recreaes populares, e normalmente tambm a histria, so privilgios dos griots, espcie de trovadores ou menestris que percorrem o pas ou esto ligados a uma famlia.

    Sempre se sups erroneamente que os griots fossem os nicos tradicionalistas possveis. Mas quem so eles?

    Classificam -se em trs categorias:

    os griots msicos, que tocam qualquer instrumento (monocrdio, guitarra, cora, tant, etc.). Normalmente so excelentes cantores, preservadores, transmissores da msica antiga e, alm disso, compositores.

    os griots embaixadores e cortesos, responsveis pela mediao entre as grandes famlias em caso de desavenas. Esto sempre ligados a uma famlia nobre ou real, s vezes a uma nica pessoa.

    os griots genealogistas, historiadores ou poetas (ou os trs ao mesmo tempo), que em geral so igualmente contadores de histria e grandes viajantes, no necessariamente ligados a uma famlia.

    A tradio lhes confere um status social especial. Com efeito, contrariamente aos Horon (nobres), tm o direito de ser cnicos e gozam de grande liberdade de falar. Podem manifestar -se vontade, at mesmo impudentemente e, s vezes, chegam a troar das coisas mais srias e sagradas sem que isso acarrete graves consequncias. No tm compromisso algum que os obrigue a ser discretos ou a guardar respeito absoluto para com a verdade. Podem s vezes contar mentiras descaradas e ningum os tomar no sentido prprio. Isso o que o dieli diz! No a verdade verdadeira, mas a aceitamos assim. Essa mxima mostra muito bem de que modo a tradio aceita as invenes dos dieli, sem se deixar enganar, pois, como se diz, eles tm a boca rasgada.

  • 194 Metodologia e pr -histria da frica

    figura 8.3 Tocador de Valiha. O instrumento de madeira com cordas de ao (Foto Museu do Homem).

    Figura 8.4 Griot hutu imitando o mwami cado (Foto B. Nantet).

  • 195A tradio viva

    Em toda a tradio do Bafur, o nobre ou o chefe no s proibido de tocar msica em reunies pblicas, mas tambm deve ser moderado na expresso e na fala. Muita conversa no convm a um Horon, diz o provrbio. Assim, os griots ligados s famlias acabam por desempenhar naturalmente o papel de mediadores, ou mesmo de embaixadores, caso surjam problemas de menor ou maior importncia. Eles so a lngua de seu mestre.

    Quando ligados a uma famlia ou pessoa, geralmente ficam encarregados de alguma misso corriqueira e particularmente das negociaes matrimoniais. Para dar um exemplo, um jovem nobre no se dirigir diretamente a uma jovem para dizer -lhe de seu amor. Far do griot o porta -voz que entrar em contato com a moa ou com sua griote para falar dos sentimentos de seu mestre e louvar -lhe os mritos.

    Uma vez que a sociedade africana est fundamentalmente baseada no dilogo entre os indivduos e na comunicao entre comunidades ou grupos tnicos, os griots so os agentes ativos e naturais nessas conversaes. Autorizados a ter duas lnguas na boca, se necessrio podem se desdizer sem que causem ressentimentos. Isso jamais seria possvel para um nobre, a quem no se permite voltar atrs com a palavra ou mudar de deciso. Um griot chega at mesmo a arcar com a responsabilidade de um erro que no cometeu a fim de remediar uma situao ou de salvar a reputao dos nobres.

    aos velhos sbios da comunidade, em suas audincias secretas, que cabe o difcil dever de olhar as coisas pela janela certa; mas cabe aos griots cumprir aquilo que os sbios decidiram e ordenaram.

    Treinados para colher e fornecer informaes, eles so os grandes portadores de notcias, mas igualmente, muitas vezes, grandes difamadores.

    O nome dieli em bambara significa sangue. De fato, tal como o sangue, eles circulam pelo corpo da sociedade, que podem curar ou deixar doente, conforme atenuem ou avivem os conflitos atravs das palavras e das canes.

    necessrio acrescentar, entretanto, que se trata aqui apenas de caractersticas gerais e que nem todos os griots so necessariamente desavergonhados ou cnicos. Pelo contrrio, entre eles existem aqueles que so chamados de dieli faama, ou seja, griots -reis. De maneira nenhuma estes so inferiores aos nobres no que se refere a coragem, moralidade, virtudes e sabedoria, e jamais abusam dos direitos que lhes foram concedidos por costume.

    Os griots foram importante agente ativo do comrcio e da cultura humana. Em geral dotados de considervel inteligncia, desempenhavam um papel de

    grande importncia na sociedade tradicional do Bafur devido sua influncia sobre os nobres e os chefes. Ainda hoje, em toda oportunidade, estimulam e suscitam o orgulho do cl dos nobres com suas canes, normalmente para

  • 196 Metodologia e pr -histria da frica

    ganhar presentes, mas muitas vezes para tambm encoraj -los a enfrentar alguma situao difcil.

    Durante a noite de viglia que precede o rito da circunciso, por exemplo, eles encorajam a criana ou o jovem a mostrar -se digno de seus antepassados permanecendo impassvel. Entre os Peul, canta -se o seguinte: teu pai11, Fulano, que morreu no campo de batalha, engoliu o mingau do ferro incandescente (as balas) sem piscar. Espero que amanh tu no sintas medo da ponta da faca do ferreiro. Na cerimnia do basto, ou Soro, entre os Peul Bororo do Nger, as canes do griot animam o jovem que deve provar sua coragem e pacincia mantendo um sorriso e sem tremer as plpebras, enquanto recebe fortes golpes de basto no peito.

    Os griots tomaram parte em todas as batalhas da histria, ao lado de seus mestres, cuja coragem estimulavam relembrando -lhes a genealogia e os grandes feitos dos antepassados. Para o africano, a invocao do nome de famlia de grande poder. Ademais, pela repetio do nome da linhagem que se sada e se louva um africano.

    A influncia exercida pelos dieli, ao longo da histria, adquiria a qualificao de boa ou m, conforme suas palavras incitavam o orgulho dos lderes e os impeliam a excessos ou, como era o caso mais frequente, chamavam -nos ao respeito de seus deveres tradicionais.

    Como se v, os griots participam efetivamente da histria dos grandes imprios africanos do Bafur, e o papel desempenhado por eles merece um estudo em profundidade.

    O segredo do poder da influncia dos Dieli sobre os Horon (nobres) reside no conhecimento que tm da genealogia e da histria das famlias. Alguns deles chegaram a fazer desse conhecimento uma verdadeira especializao. Os griots dessa categoria raramente pertencem a uma famlia e viajam pelo pas em busca de informaes histricas cada vez mais extensas. Desse modo, certamente adquirem uma capacidade quase mgica de provocar o entusiasmo de um nobre ao declamar para ele a prpria genealogia, os objetos herldicos e a histria familiar, e, consequentemente, de receber dele valiosos presentes. Um nobre capaz de se despojar de tudo o que traz consigo e possui dentro de casa para presentear a um griot que conseguiu lhe mover os sentimentos. Aonde quer que vo, estes griots genealogistas tm a sobrevivncia largamente assegurada.

    11 Teu pai, em linguagem africana, pode muito bem designar um tio, um av ou um antepassado. Significa toda a linha paterna, inclusive as colaterais.

  • 197A tradio viva

    No se deve pensar, entretanto, que se trata de uma retribuio. A ideia de remunerao pelo trabalho realizado contrria noo tradicional de direito dos nyamakala sobre as classes nobres12. Qualquer que seja sua fortuna, os nobres, mesmo os mais pobres, so tradicionalmente obrigados a oferecer presentes aos dieli ou a qualquer nyamakala ou woloso13 mesmo quando o dieli infinitamente mais rico do que o nobre. De um modo geral, a casta dos Dieli a que mais reclama presentes. Quaisquer que sejam seus ganhos, porm, o dieli sempre pobre, pois gasta tudo o que tem, contando com os nobres para seu sustento. O! canta o dieli solicitante, a mo de um nobre no est grudada ao seu pescoo com avareza; ela est sempre pronta a buscar em seu bolso algo para dar quele que pede. E, se por acaso isso no ocorrer, melhor que o nobre se precavenha contra os problemas que ter com o homem da boca rasgada, cujas duas lnguas podem arruinar negcios e reputaes!

    Do ponto de vista econmico, portanto, a casta dos Dieli, como todas as classes de nyamakala e de woloso, dependente da sociedade, especialmente das classes nobres. A progressiva transformao das condies econmicas e dos costumes alterou, at certo ponto, esta situao, e antigos nobres ou griots passaram a aceitar funes remuneradas. Mas o costume no morreu, e as pessoas ainda se arrunam por ocasio de festas de batismo ou casamento para darem presentes aos griots que vm animar as festas com suas canes. Alguns governos modernos tentaram pr fim a esse costume, mas, que se saiba, ainda no conseguiram.

    Os dieli, sendo nyamakala, devem em princpio casar -se dentro das classes de nyamakala.

    fcil ver como os griots genealogistas, especializados em histrias de famlias e geralmente dotados de memria prodigiosa, tornaram -se naturalmente, por assim dizer, os arquivistas da sociedade africana e, ocasionalmente, grandes historiadores. Mas importante lembrarmos que eles no so os nicos a possuir tal conhecimento. Os griots historiadores, a rigor, podem ser chamados de tradicionalistas, mas com a ressalva de que se trata de um ramo puramente histrico da tradio, a qual possui muitos outros ramos.

    O fato de ter nascido dieli no faz do homem necessariamente um historiador, embora o incline para essa direo, e muito menos que se torne um sbio em

    12 Nobre uma traduo bastante aproximativa de Horon. Em verdade, Horon toda pessoa que no pertence nem classe dos nyamakala nem classe dos jon (cativos), sendo esta ltima constituda por descendentes de prisioneiros de guerra. O Horon tem por dever assegurar a defesa da comunidade, dar sua vida por ela, assim como garantir a conservao das outras classes.

    13 Sobre Woloso, cativo de casa, cf. n. 5.

  • 198 Metodologia e pr -histria da frica

    assuntos tradicionais, um Conhecedor. De um modo geral, a casta dos Dieli a que mais se distancia dos domnios iniciatrios, que requerem silncio, discreo e controle da fala.

    A possibilidade de se tornarem Conhecedores est ao alcance deles, tanto quanto ao de qualquer outro indivduo. Assim como um tradicionalista doma (o Conhecedor tradicional no verdadeiro sentido do termo) pode vir a ser ao mesmo tempo um grande genealogista e historiador, um griot, como todo membro de qualquer categoria social, pode tornar -se um tradicionalista -doma se suas aptides o permitirem e se ele tiver passado pelas iniciaes correspondentes (com exceo, no entanto, da iniciao do Komo, que lhe proibida).

    No desenvolvimento deste estudo, mencionamos o exemplo de dois griots Conhecedores que atualmente vivem no Mali: Iwa e Banzoumana, sendo que este ltimo ao mesmo tempo grande msico, historiador e tradicionalista -doma.

    O griot que tambm tradicionalista -doma constitui uma fonte de informaes de absoluta confiana, pois sua qualidade de iniciado lhe confere um alto valor moral e o sujeita proibio da mentira. Torna -se um outro homem. ele o griot rei do qual falamos anteriormente, a quem as pessoas consultam por sua sabedoria e seu conhecimento, e que, embora capaz de divertir, jamais abusa de seus direitos consuetudinrios.

    Quando um griot conta uma histria, geralmente lhe perguntam: uma histria de dieli ou uma histria de doma? Se for uma histria de dieli, costuma -se dizer: Isso o que o dieli diz!, e ento se pode esperar alguns embelezamentos da verdade, com a inteno de destacar o papel desta ou daquela famlia embelezamentos que no seriam feitos por um tradicionalista doma, que se interessa, acima de tudo, pela transmisso fiel.

    necessrio fazer uma distino: quando estamos na presena de um griot historiador, convm sabermos se se trata de um griot comum ou de um griotdoma. Ainda assim deve -se admitir que a base dos fatos raramente alterada; serve de trampolim inspirao potica ou panegrica, que, se no chega a falsific -la, pelo menos a ornamenta.

    Um mal -entendido que ainda tem sequela em alguns dicionrios franceses deve ser esclarecido. Os franceses tomavam os dieli, a quem chamavam de griots, por feiticeiros (sorcier), o que no corresponde realidade. Pode acontecer de um griot ser korte tigui, lanador de m sorte, assim como pode acontecer de um griot ser doma, conhecedor tradicional, no porque nasceu griot, mas porque foi iniciado e adquiriu sua proficincia, boa ou ruim, na escola de um mestre do ofcio.

  • 199A tradio viva

    O mal -entendido provavelmente advm da ambivalncia do termo francs griot, que pode designar o conjunto dos nyamakala (que incluem os dieli) e, mais frequentemente, apenas a casta dos Dieli.

    A tradio declara que os nyamakala so todos subaa, termo que designa um homem versado em conhecimentos ocultos a que s tm acesso os iniciados, uma espcie de ocultista. A tradio exclui desta designao os dieli, que no seguem uma via iniciatria prpria. Portanto, os nyamakala -artesos so subaa. Dentre estes, encontra -se o garanke, trabalhador do couro, que possui a reputao de ser um subaga, feiticeiro no mau sentido do termo.

    Quanto a mim, sou propenso a acreditar que os primeiros intrpretes europeus confundiram os dois termos subaa e subaga (semelhantes na pronncia) e que a ambivalncia do termo griot fez o resto.

    Uma vez que a tradio declara que todos os nyamakala so subaa (ocultistas), os intrpretes devem ter entendido todos os nyamakala so subaga (feiticeiros), o que, devido ao duplo uso, coletivo ou particular, da palavra griot, tornou -se todos os griots so feiticeiros. Da o mal -entendido.

    Seja como for, a importncia do dieli no se encontra nos poderes de bruxaria que ele possa ter, mas em sua arte de manejar a fala, que, alis, tambm uma forma de magia.

    Antes de deixarmos os griots, assinalemos algumas excees que podem causar confuso. Por vezes, alguns teceles deixam de exercer seu ofcio tradicional para se tornarem tocadores de guitarra. Os Peul chamam -nos de Bammbaado, literalmente aquele que carregado nas costas, porque suas despesas so sempre pagas por outrem ou pela comunidade. Os Bammbaado, que so sempre contadores de histrias, tambm podem ser poetas, genealogistas e historiadores.

    Alguns lenhadores tambm podem trocar suas ferramentas por uma guitarra e se tornar excelentes msicos e genealogistas. Bokar Ilo e Idriss Ngada, que, pelo que sei, se encontravam entre os grandes genealogistas do Alto Volta, eram lenhadores que se tornaram msicos. Mas trata -se aqui de excees.

    Do mesmo modo, alguns nobres desacreditados podem se tornar animadores pblicos, mas no msicos14, e so chamados de Tiapourta (em bambara e em fulfulde). Assim, so mais impudentes e cnicos do que o mais impudente dos griots, e ningum leva a srio seus comentrios. Pedem presentes aos griots com tal insistncia que estes ltimos chegam a fugir ao ver um Tiapourta

    14 Cabe lembrar que os Horou (nobres), peul ou bambara, jamais tocam msica, pelo menos em pblico. Os Tiapourta conservaram, em geral, esse costume.

  • 200 Metodologia e pr -histria da frica

    Se a msica , em geral, a grande especialidade dos dieli, existe tambm uma msica ritual, tocada por iniciados, que acompanha as cerimnias ou as danas rituais. Os instrumentos dessa msica sagrada so, portanto, verdadeiros objetos de culto, que tornam possvel a comunicao com as foras invisveis. Por serem instrumentos de corda, sopro ou percusso, encontram -se em conexo com os elementos: terra, ar e gua.

    A msica prpria para encantar os espritos do fogo apangio da associao dos comedores de fogo, que so chamados de Kursi kolonin ou Donnga soro.

    Como tornar se um tradicionalista

    Na frica do Bafur, como j foi dito, qualquer um podia tornar -se tradicionalista doma, isto , Conhecedor, em uma ou mais matrias tradicionais. O conhecimento estava disposio de todos (sendo a iniciao onipresente sob uma forma ou outra) e sua aquisio dependia simplesmente das aptides individuais.

    O conhecimento era to valorizado, que tinha precedncia sobre tudo e conferia nobreza. O conhecedor, em qualquer rea, podia sentar -se no Conselho dos Ancios encarregado da administrao da comunidade, a despeito de sua categoria social horon, nyamakala ou woloso. O conhecimento no distingue raa nem porta paterna (o cl). Ele enobrece o homem, diz o provrbio.

    A educao africana no tinha a sistemtica do ensino europeu, sendo dispensada durante toda a vida. A prpria vida era educao. No Bafur, at os 42 anos, um homem devia estar na escola da vida e no tinha direito a palavra em assembleias, a no ser excepcionalmente. Seu dever era ficar ouvindo e aprofundar o conhecimento que veio recebendo desde sua iniciao, aos 21 anos. A partir dos 42 anos, supunha -se que j tivesse assimilado e aprofundado os ensinamentos recebidos desde a infncia. Adquiria o direito a palavra nas assembleias e tornava -se, por sua vez, um mestre, para devolver sociedade aquilo que dela havia recebido. Mas isso no o impedia de continuar aprendendo com os mais velhos, se assim o desejasse, e de lhes pedir conselhos. Um homem idoso encontrava sempre outro mais velho ou mais sbio do que ele, a quem pudesse solicitar uma informao adicional ou uma opinio. Todos os dias, costuma -se dizer, o ouvido ouve aquilo que ainda no ouviu. Assim, a educao podia durar a vida inteira.

    Aps aprender o ofcio e seguir a iniciao correspondente, o jovem nyamakala arteso, pronto para voar com suas prprias asas, ia geralmente de cidade em

  • 201A tradio viva

    cidade, a fim de aumentar seus conhecimentos aprendendo com novos mestres. Aquele que no viajou, nada viu, diz -se. Assim, ele ia de oficina em oficina, percorrendo, o mais extensamente possvel, o pas. Os homens das montanhas desciam s plancies, os das plancies subiam s montanhas, os do Beledugu vinham ao Mande, e assim por diante.

    Com o propsito de logo se fazer reconhecer, o jovem ferreiro, em viagem, trazia sempre o fole a tiracolo; o lenhador, o machado ou a enx; o tecelo carregava s costas o tear desmontado, mas mantinha a naveta ou o carretel bem mostra, nos ombros; o trabalhador do couro levava seus pequenos potes de tinta. Quando o jovem chegava a uma cidade grande, onde os artesos viviam em corporaes agrupadas por ofcio, era automaticamente conduzido ao local dos trabalhadores do couro ou dos teceles, etc.

    No curso das viagens e investigaes, a extenso do aprendizado dependia da destreza, da memria e, sobretudo, do carter do jovem. Se era corts, simptico e servial, os velhos lhe contavam segredos que no contariam a outros, pois se diz: O segredo do velho no se compra com dinheiro, mas com boas maneiras.

    Quanto ao jovem horon, passava a infncia na corte do pai e na cidade, onde assistia a todas as reunies, ouvia as histrias que se contavam e retinha tudo o que podia. Nas sesses noturnas de sua associao de idade, cada criana contava as histrias que havia escutado, fossem elas de carter histrico ou iniciatrio neste ltimo caso, sem compreender bem todas as implicaes. A partir dos sete anos, automaticamente fazia parte da sociedade de iniciao de sua cidade e comeava a receber os ensinamentos, que, como j explicamos, abrangiam todos os aspectos da vida.

    Quando um velho conta uma histria iniciatria em uma assembleia, desenvolve -lhe o simbolismo de acordo com a natureza e capacidade de compreenso de seu auditrio. Ele pode fazer dela simples histria infantil com fundamento moral educativo ou uma fecunda lio sobre os mistrios da natureza humana e da relao do homem com os mundos invisveis. Cada um retm e compreende conforme sua capacidade.

    O mesmo ocorre com os relatos histricos que do vida s reunies, narrativas em que os grandes feitos dos antepassados, ou dos heris do pas, so evocados nos mnimos detalhes. Um estranho de passagem contar histrias de terras distantes. A criana estar imersa em um ambiente cultural particular, do qual se impregnar segundo a capacidade de sua memria. Seus dias so marcados por histrias, contos, fbulas, provrbios e mximas.

    Via de regra, o jovem horon no viaja para o exterior, uma vez que est preparado para a defesa do seu pas. Trabalha com o pai, que pode ser agricultor,

  • 202 Metodologia e pr -histria da frica

    alfaiate ou exercer qualquer outra atividade reservada classe dos horon. Se o jovem Peul, muda -se de acampamento com os pais, aprende muito cedo a cuidar sozinho do rebanho em plena mata, tanto durante o dia quanto noite, e recebe a iniciao peul relativa ao simbolismo do gado.

    De modo geral, uma pessoa no se torna tradicionalista -doma permanecendo em sua cidade. Um curandeiro que deseja aprofundar seus conhecimentos tem de viajar para conhecer as diferentes espcies de plantas e se instruir com outros Conhecedores do assunto.

    O homem que viaja descobre e vive outras iniciaes, registra diferenas e semelhanas, alarga o campo de sua compreenso. Onde quer que v, toma parte em reunies, ouve relatos histricos, demora -se com um transmissor de tradio especializado em iniciao ou em genealogia, entrando, desse modo, em contato com a histria e as tradies dos pases por onde passa.

    Pode -se dizer que o homem que se tornou tradicionalista -doma foi um pesquisador e um indagador durante toda a vida e jamais deixar de s -lo.

    O africano da savana costumava viajar muito. O resultado era a troca e a circulao de conhecimentos. por esse motivo que a memria histrica coletiva, na frica, raramente se limita a um nico territrio. Ao contrrio, est ligada a linhas de famlia ou a grupos tnicos que migraram pelo continente.

    Muitas caravanas abriam caminho pela regio servindo -se de uma rede de rotas especiais, protegidas tradicionalmente por deuses e reis e nas quais se estava livre de pilhagens e ataques. De outro modo, arriscavam -se ou a um ataque ou violao involuntria, por desconhecimento, de algum tabu local e a pagar caro pelas consequncias. Quando da chegada a um pas desconhecido, os viajantes iam confiar sua cabea a algum homem de posio que dali em diante se tornava seu garante, pois tocar o estrangeiro tocar o prprio anfitrio.

    O grande genealogista sempre um grande viajante. Enquanto um griot pode contentar -se em conhecera genealogia da famlia a que est ligado, o verdadeiro genealogista seja griot ou no , a fim de aumentar seus conhecimentos, dever necessariamente viajar pelo pas para se informar sobre as principais ramificaes de um grupo tnico, e depois viajar para o exterior para traar a histria dos ramos que emigraram.

    Assim, Molom Gaolo, o maior genealogista peul que tive o privilgio de conhecer, conhecia a genealogia de todos os Peul do Senegal. Quando a idade avanada no mais lhe permitiu que viajasse para o exterior, ele enviou o filho Mamadou Molom para continuar o levantamento junto s famlias peul que

  • 203A tradio viva

    haviam migrado pelo Sudo (Mali) com al -HadjdjUmar. Na poca em que conheci Molom Gaolo, ele havia conseguido compilar e fixar a histria passada de quase quarenta geraes.

    Ele tinha como hbito ir a todos os batizados ou funerais das principais famlias, a fim de registrar as circunstncias dos nascimentos e mortes, que acrescentava ao rol j guardado em sua memria fabulosa. Era capaz, tambm, de declamar para qualquer Peul importante: Voc o filho de Fulano, nascido de Beltrano, descendente de Sicrano, ramo de Fulano. .. que morreram em tal lugar, por tal causa, e que foram enterrados em tal local, e assim por diante. Fulano foi batizado em tal dia, a tal hora, pelo marabu tal e tal Logicamente toda essa informao era, e ainda , transmitida oralmente e registrada apenas na memria do genealogista. No se pode fazer ideia do que a memria de um iletrado pode guardar. Um relato ouvido uma vez fica gravado como em uma matriz e pode, ento, ser reproduzido intacto, da primeira ltima palavra, quando a memria o solicitar.

    Moiam Gaolo, parece -me, faleceu por volta de 1968, aos 105 anos. Seu filho, Mamadou Gaolo, agora com 50 anos, vive no Mali, onde continua

    o trabalho do pai, pelo mesmo mtodo, exclusivamente oral, sendo tambm ele iletrado.

    Wahab Gaolo, contemporneo de Mamadou Gaolo, e ainda vivo, realizou um levantamento das etnias de lngua fulfulde (povos Peul e Tukulor) no Chade, Camares, Repblica Centro -Africana e at no Zaire, para informar -se sobre a genealogia e a histria das famlias que emigraram para aqueles pases.

    Os Gaolo no so dieli, mas uma etnia de lngua fulfulde semelhante classe dos nyamakala e que desfruta das mesmas prerrogativas. Muito mais oradores e declamadores que msicos (salvo suas mulheres, que cantam com o acompanhamento de instrumentos rudimentares), podem ser contadores de histrias e animadores, existindo, entre eles, muitos genealogistas.

    Entre os Marka (etnia mande), os genealogistas tm o nome de Guessere. Dizer genealogista dizer historiador, pois um bom genealogista conhece a

    histria, as proezas e os gestos de todas as personagens que cita ou, pelo menos, das principais. Essa cincia se encontra na prpria base da histria da frica, pois o interesse pela histria est ligado no cronologia, mas genealogia, no sentido de se poder estabelecer as linhas de desenvolvimento de uma famlia, cl ou etnia no tempo e no espao.

    Assim, todo africano tem um pouco de genealogista e capaz de remontar a um passado distante em sua prpria linhagem. Do contrrio, estaria como que privado de sua carteira de identidade. No antigo Mali, no havia quem

  • 204 Metodologia e pr -histria da frica

    no conhecesse pelo menos 10 ou 12 geraes de antepassados. Dentre todos os velhos tukulor que vieram para Macina com al -HadjdjUmar no havia um que no soubesse sua genealogia no Futa Senegal (seu pas de origem) e seu parentesco com as famlias que l permaneceram. Foram eles que Mamadou Molom, filho de Molom Gaolo, consultou quando veio ao Mali para dar prosseguimento pesquisa de seu pai.

    A genealogia , desse modo, ao mesmo tempo sentimento de identidade, meio de exaltar a glria da famlia e recurso em caso de litgio. Um conflito por um pedao de terra, por exemplo, poderia ser resolvido por um genealogista, que indicaria qual ancestral havia limpado e cultivado a terra, para quem a havia dado, sob que condies, etc.

    Ainda hoje encontramos entre a populao muitos conhecedores de genealogia e histria que no pertencem nem classe dos dieli nem dos gaolo. Temos a uma importante fonte de informaes para a histria da frica, pelo menos ainda por um certo tempo. Cada patriarca um genealogista para seu prprio cl, e os dieli e gaolo vm frequentemente lhes pedir informaes com o propsito de complementar seus conhecimentos. De modo geral, todo velho na frica sempre um Conhecedor em algum assunto histrico ou tradicional.

    O conhecimento genealgico no , portanto, exclusividade dos griots e gaolo, mas so eles os nicos especialistas em declamar genealogias perante os nobres para obter presentes.

    Influncia do Isl

    As peculiaridades da memria africana e as modalidades de sua transmisso oral no foram afetadas pela islamizao, que atingiu grande parte dos pases da savana ou do antigo Bafur. De fato, por onde se espalhou, o Isl no adaptou a tradio africana a seu modo de pensar, mas, pelo contrrio, adaptou -se tradio africana quando como normalmente ocorria esta no violava seus princpios fundamentais. A simbiose assim originada foi to grande, que por vezes torna -se difcil distinguir o que pertence a uma ou a outra tradio.

    A grande famlia rabe -berbere dos Kunta islamizou a regio bem antes do sculo XI. Logo que aprenderam o rabe, os autctones passaram a se utilizar de suas tradies ancestrais para transmitir e explicar o Isl.

    Grandes escolas islmicas puramente orais ensinavam a religio nas lnguas vernculas (exceto o Coro e os textos que fazem parte da orao cannica). Podemos mencionar, entre muitas outras, a escola oral de Djelgodji (chamada Kabe), a escola

  • 205A tradio viva

    de Barani, a de Amadou Fodia em Farimak (distrito de Niafounk, no Mali), a de Mohammed Abdoulaye Souadou em Dilli (distrito de Nara, no Mali) e a do xeque Usman dan Fodio na Nigria e no Nger, onde todo o ensino era ministrado em fulfulde. Mais prximas de ns estavam a Zauia de Tierno Bokar Salif, em Bandiagara, e a escola do xeque Salah, o grande marabu dogon, ainda vivo.

    Das crianas que saam das escolas cornicas a maioria era capaz de recitar de cor o Coro inteiro, em rabe e no salmo desejado, sem entender o sentido do texto, o que demonstra a capacidade da memria africana.

    Em todas essas escolas os princpios bsicos da tradio africana no eram repudiados, mas, ao contrrio, utilizados e explicados luz da revelao cornica. Tierno Bokar, tradicionalista em assuntos africanos e islmicos, tornou -se famoso pela intensa aplicao deste mtodo educacional.

    Independentemente de uma viso sagrada comum do universo e de uma mesma concepo do homem e da famlia, encontramos, nas duas tradies, a mesma preocupao em citar as fontes (isnad, em rabe) e nunca modificar as palavras do mestre, o mesmo respeito pela cadeia de transmisso iniciatria (silsila, ou cadeia, em rabe) e o mesmo sistema de caminhos iniciatrios (no Isl, as grandes congregaes Sufi ou Tariga, plural turuq, cuja cadeia remonta ao prprio Profeta), que tornam possvel aprofundar, atravs da experincia, aquilo que se conhece pela f.

    s categorias de Conhecedores tradicionais j existentes vieram juntar -se as dos marabus (letrados em rabe ou em jurisprudncia islmica) e dos grandes xeques Sufi, embora as estruturas da sociedade (castas e ofcios tradicionais) fossem preservadas, inclusive nos meios mais islamizados, e continuassem a veicular suas iniciaes particulares. O conhecimento de assuntos islmicos constitua uma nova fonte de enobrecimento. Assim, Alfa Ali, falecido em 1958, gaolo de nascimento, foi a maior autoridade em assuntos islmicos no distrito de Bandiagara, assim como seus antepassados e seu filho15.

    Histria de uma coleta

    Para dar uma ilustrao prtica de como narrativas histricas, entre outras, vivem e so preservadas com extrema fidelidade na memria coletiva de uma sociedade de tradio oral, contarei de que maneira consegui reunir, unicamente

    15 De modo geral, a islamizao, vinda do norte e do leste, afetou mais particularmente os pases da savana, enquanto que a cristianizao, vinda por mar, tocou mais as regies de floresta da costa. No podemos falar do encontro entre a tradio e o cristianismo por no possuirmos nenhuma informao sobre o assunto.

  • 206 Metodologia e pr -histria da frica

    a partir da tradio oral, os elementos que me permitiram escrever a Histria do Imprio Peul de Macina no Sculo XVIII16.

    Pertencendo famlia de Tidjani, chefe da provncia, tive, desde a infncia, condies ideais para ouvir e reter. A casa de Tidjani, meu pai, em Bandiagara, estava sempre cheia de gente. Noite e dia havia grandes reunies onde todos falavam sobre uma grande variedade de assuntos tradicionais. Estando a famlia de meu pai muito envolvida nos acontecimentos da poca, os relatos eram normalmente sobre histria, e cada pessoa narrava um episdio bem conhecido de alguma batalha ou de outro acontecimento memorvel. Sempre presente nessas reunies, eu no perdia uma palavra sequer, e minha memria, como cera virgem, gravava tudo.

    Foi l que, ainda criana, conheci Koullel, o grande contador de histrias, genealogista e historiador de lngua fulfulde. Eu o seguia por toda parte e aprendia muitos contos e narrativas que orgulhosamente recontava aos camaradas de meu grupo de idade, a ponto de me apelidarem Amkoullel, que significa pequeno Koullel.

    Circunstncias alheias minha vontade levaram -me a viajar, seguindo minha famlia, por diversos pases onde pude sempre estar em contato com grandes tradicionalistas. Assim, quando meu pai se viu obrigado a fixar residncia em Bougouni, para onde Koullel nos havia acompanhado, travei conhecimento com o grande doma bambara, Danfo Sine, e, em seguida, com seu irmo mais novo, Latif.

    Mais tarde, em Bamaco e em Kati, a corte de meu pai foi praticamente reconstituda, e tradicionalistas chegavam de todos os pases para se reunir em sua casa, sabendo que l encontrariam outros Conhecedores em cuja companhia poderiam avaliar ou mesmo alargar seus prprios conhecimentos, pois sempre se encontra algum mais sbio.

    Foi ali que comecei a aprender muitas coisas referentes histria do Imprio peul de Macina, tanto na verso macinanke (isto , a verso do povo originrio de Macina, partidrios da famlia de Sheikou Amadou), como na verso dos Tukulor, seus antagonistas, e ainda na verso de outras etnias (Bambara, Soninke, Songhai, etc.) que haviam presenciado ou participado dos acontecimentos.

    Tendo, assim, adquirido uma formao bsica bastante slida, decidi coletar informaes sistematicamente. Meu mtodo consistia em gravar, primeiramente,

    16 HAMPAT B, A. e DAGET, J. 1962.

  • 207A tradio viva

    todas as narrativas, sem me preocupar com sua veracidade ou com uma possvel exagerao. Em seguida, comparava as narrativas dos Macinanke com as dos Tukulor ou com as de outras etnias envolvidas. Dessa maneira, sempre se pode encontrar, em qualquer regio, etnias cujas narrativas permitam controlar as declaraes dos principais interessados.

    Foi um trabalho de flego. A coleta de informaes exigiu -me mais de 15 anos de trabalho e de jornadas que me levavam do Futa Djalon (Guin) a Kano (Nigria), a fim de retraar as rotas que Sheikou Amadou e al -HadjdjUmar haviam percorrido em todas as suas viagens. Desse modo, registrei as narrativas de pelo menos mil informantes. No final, mantive apenas os relatos concordantes, os que eram conformes tanto s tradies macinanke e tukulor, como tambm s das demais etnias envolvidas (cujas fontes citei no livro).

    Constatei que, no conjunto, meus mil informantes haviam respeitado a verdade dos fatos. A trama da narrativa era sempre a mesma. As diferenas, que se encontravam apenas em detalhes sem importncia, deviam -se qualidade da memria ou da verve peculiar do narrador. Dependendo do grupo tnico a que pertencia, podia tender a minimizar certos revezes ou a tentar encontrar alguma justificativa para eles, mas no mudava os dados bsicos. Sob a influncia do acompanhamento musical, o contador de histrias podia deixar -se levar pelo entusiasmo, mas a linha geral permanecia a mesma: os lugares, as batalhas, as vitrias e as derrotas, as conferncias e dilogos mantidos, os propsitos dos personagens principiais, etc.

    Essa experincia provou -me que a tradio oral era perfeitamente vlida do ponto de vista cientfico. possvel comparar as verses de diferentes etnias, como fiz, a ttulo de controle, mas a prpria sociedade exerce um autocontrole permanente. Com efeito, nenhum narrador poderia permitir -se mudar os fatos, pois sua volta haveria sempre companheiros ou ancios que imediatamente apontariam o erro, fazendo -lhe a sria acusao de mentiroso.

    O Professor Montet certa vez referiu -se a mim como tendo relatado, no Imprio Peul de Macina, narrativas que seu pai havia coletado 50 anos antes, das quais nenhuma palavra tinha sido alterada. Isso d uma ideia da fidelidade com que os dados so preservados na tradio oral!

    Caractersticas da memria africana

    Entre todos os povos do mundo, constatou -se que os que no escreviam possuam uma memria mais desenvolvida.

  • 208 Metodologia e pr -histria da frica

    Demos o exemplo dos genealogistas que conseguem reter uma inacreditvel quantidade de elementos, mas poderamos mencionar tambm o caso de certos comerciantes iletrados (ainda conheo muitos deles) que dirigem negcios envolvendo por vezes dezenas de milhes de francos, e emprestam dinheiro a muitas pessoas no curso das suas viagens, guardando de memria a mais precisa contabilidade de todos esses movimentos de mercadorias e dinheiro, sem uma nica nota escrita e sem cometer o menor engano.

    O dado a ser retido fica imediatamente inscrito na memria do tradicionalista, como em cera virgem, e l permanece sempre disponvel, em sua totalidade17.

    Uma das peculiaridades da memria africana reconstituir o acontecimento ou a narrativa registrada em sua totalidade, tal como um filme que se desenrola do princpio ao fim, e faz -lo no presente. No se trata de recordar, mas de trazer ao presente um evento passado do qual todos participam, o narrador e a sua audincia. A reside toda a arte do contador de histrias. Ningum contador de histrias a menos que possa relatar um fato tal como aconteceu realmente, de modo que seus ouvintes, assim como ele prprio, tornem -se testemunhas vivas e ativas desse fato. Ora, todo africano , at certo ponto, um contador de histrias. Quando um estranho chega a uma cidade, faz sua saudao dizendo: Sou vosso estrangeiro. Ao que lhe respondem: Esta casa est aberta para ti. Entra em paz. E em seguida: D -nos notcias. Ele passa, ento, a relatar toda sua histria, desde quando deixou sua casa, o que viu e ouviu, o que lhe aconteceu, etc., e isso de tal modo que seus ouvintes o acompanham em suas viagens e com ele as revivem. por esse motivo que o tempo verbal da narrativa sempre o presente.

    De maneira geral, a memria africana registra toda a cena: o cenrio, os personagens, suas palavras, at mesmo os mnimos detalhes das roupas. Nos relatos de guerra dos Tukulor, sabemos qual bubu bordado o grande heri Oumarei Samba Dondo estava usando em determinada batalha, quem era seu palafreneiro e o que lhe aconteceu, qual era o nome de seu cavalo e o que lhe sucedeu, etc. Todos esses detalhes animam a narrativa, contribuindo para dar vida cena.

    17 Esse fenmeno poderia estar relacionado com o fato de as faculdades sensoriais do homem serem mais desenvolvidas onde h necessidade de se fazer grande uso delas e se atrofiarem em meio vida moderna. O caador africano tradicional, por exemplo, pode ouvir e identificar determinados sons a vrios quilmetros de distncia. Sua viso particularmente acurada. Alguns tm a capacidade de sentir a gua, como verdadeiros adivinhos. Os tuaregue do deserto possuem um senso de direo que, est prximo do miraculoso. E como esses h dezenas de exemplos. O homem moderno, imerso na multiplicidade de rudos e informaes, v suas faculdades se atrofiarem progressivamente. Est cientificamente provado que os habitantes das grandes cidades perdem cada vez mais sua capacidade auditiva.

  • 209A tradio viva

    Por essa razo o tradicionalista no consegue resumir seno dificilmente. Resumir uma cena equivale, para ele, a escamote -la. Ora, por tradio, ele no tem o direito de fazer isso. Todo detalhe possui sua importncia para a verdade do quadro. Ou narra o acontecimento em sua integridade ou no o narra. Se lhe for solicitado resumir uma passagem ele responder: Se no tens tempo para ouvir -me, contarei um outro dia.

    Do mesmo modo, o tradicionalista no tem receio de se repetir. Ningum se cansa de ouvi -lo contar a mesma histria, com as mesmas palavras, como talvez j tenha contado inmeras vezes. A cada vez, o filme inteiro se desenrola novamente. E o evento est l, restitudo. O passado se torna presente. A vida no se resume jamais. Pode -se, quando muito, reduzir uma histria para as crianas, resumindo certas passagens, mas ento no se a tomar por verdade. Em se tratando de adultos, o fato deve ser narrado na ntegra ou calado.

    Esta peculiaridade da memria africana tradicional ligada a um contexto de tradio oral em si uma garantia de autenticidade.

    Quanto memria dos tradicionalistas, em especial a dos tradicionalistasdoma ou Conhecedores, que abrange vastas reas do conhecimento tradicional, constitui uma verdadeira biblioteca onde os arquivos no esto classificados, mas totalmente inventariados.

    Tudo isso pode parecer catico para um esprito moderno, mas para os tradicionalistas, se existe caos, maneira das molculas de gua que se misturam no mar para formar um todo vivo. Nesse mar, eles se movimentam com a facilidade de um peixe.

    As fichas imateriais do catlogo da tradio oral so mximas, provrbios, contos, lendas, mitos, etc., que constituem quer um esboo a ser desenvolvido, quer um ponto de partida para narrativas didticas antigas ou improvisadas. Os contos, por exemplo, e especialmente os de iniciao, possuem uma trama bsica invarivel, qual, no entanto, o narrador pode acrescentar floreados, desenvolvimentos ou ensinamentos adequados compreenso de seus ouvintes. O mesmo ocorre com os mitos, que so conhecimentos condensados em uma forma sinttica que o iniciado pode sempre desenvolver ou aprofundar para seus alunos.

    Convm considerar com ateno o contedo dos mitos e no catalog--los muito rapidamente. Podem encobrir realidades de ordens muito diversas e mesmo, por vezes, ser entendidos em vrios nveis simultaneamente.

    Enquanto alguns mitos se referem a conhecimentos esotricos e ocultam o conhecimento ao mesmo tempo que o transmitem atravs dos sculos, outros podem ter alguma relao com acontecimentos reais. Tomemos o exemplo de

  • 210 Metodologia e pr -histria da frica

    Thianaba, a serpente mtica peul, cuja lenda narra as aventuras e a migrao pela savana africana, a partir do oceano Atlntico. Por volta de 1921, o engenheiro Belime, encarregado de construir a barragem de Sansanding, teve a curiosidade de seguir passo a passo as indicaes geogrficas da lenda, que ele havia aprendido com Hammadi Djenngoudo, grande Conhecedor peul. Para sua surpresa, descobriu o traado do antigo leito do rio Nger.

    Concluso

    Para a frica, a poca atual de complexidade e de dependncia. Os diferentes mundos, as diferentes mentalidades e os diferentes perodos sobrepem -se, interferindo uns nos outros, s vezes se influenciando mutuamente, nem sempre se compreendendo. Na frica o sculo XX encontra -se lado a lado com a Idade Mdia, o Ocidente com o Oriente, o cartesianismo, modo particular de pensar o mundo, com o animismo, modo particular de viv -lo e experiment -lo na totalidade do ser.

    Os jovens lderes modernos governam, com mentalidades e sistemas de lei, ou ideologias, diretamente herdados de modelos estrangeiros, povos e realidades sujeitos a outras leis e com outras mentalidades. Para exemplificar, na maioria dos territrios da antiga frica ocidental francesa, o cdigo legal elaborado logo aps a independncia, por nossos jovens juristas, recm -sados das universidades francesas, est pura e simplesmente calcado no Cdigo Napolenico. O resultado que a populao, at ento governada segundo costumes sagrados que, herdados de ancestrais, asseguravam a coeso social, no compreende por que est sendo julgada e condenada em nome de um costume que no o seu, que no conhece e que no corresponde s realidades profundas do pas.

    O drama todo do que chamarei de frica de base o de ser frequentemente governada por uma minoria intelectual que no a compreende mais, atravs de princpios incompatveis com a sua realidade.

    Para a nova inteligentsia africana, formada em disciplinas universitrias europeias, a Tradio muitas vezes deixou de viver. So histrias de velhos! No entanto, preciso dizer que, de um tempo para c, uma importante parcela da juventude culta vem sentindo cada vez mais a necessidade de se voltar s tradies ancestrais e de resgatar seus valores fundamentais, a fim de reencontrar suas prprias razes e o segredo de sua identidade profunda.

    Por contraste, no interior da frica de base, que em geral fica longe das grandes cidades ilhotas do Ocidente , a tradio continuou viva e, como j o

  • 211A tradio viva

    disse antes, grande nmero de seus representantes ou depositrios ainda pode ser encontrado. Mas por quanto tempo?

    O grande problema da frica tradicional , em verdade, o da ruptura da transmisso.

    Nas antigas colnias francesas, a primeira grande ruptura veio com a guerra de 1914, quando a maioria dos jovens se alistou para ir combater na Frana, de onde muitos nunca retornaram. Estes jovens deixaram o pas na idade em que deveriam estar passando pelas grandes iniciaes e aprofundando seus conhecimentos sob a direo dos mais velhos.

    O fato de que era obrigatrio para homens importantes enviarem seus filhos a escolas de brancos, de modo a separ -los da tradio, favoreceu igualmente esse processo. A maior preocupao do poder colonial era, compreensivelmente, remover as tradies autctones tanto quanto possvel para implantar no lugar suas prprias concepes. As escolas, seculares ou religiosas, constituram os instrumentos essenciais desta ceifada.

    A educao moderna recebida por nossos jovens aps o fim da ltima guerra concluiu o processo e criou um verdadeiro fenmeno de aculturao.

    A iniciao, fugindo dos grandes centros urbanos, buscou refgio na floresta, onde, devido atrao das grandes cidades e ao surgimento de novas necessidades, os ancios encontram cada vez menos ouvidos dceis a quem possam transmitir seus ensinamentos, pois, segundo uma expresso consagrada, o ensino s pode se dar de boca perfumada a ouvido dcil e limpo (ou seja, inteiramente receptivo).

    Estamos hoje, portanto, em tudo o que concerne tradio oral, diante da ltima gerao dos grandes depositrios. Justamente por esse motivo o trabalho de coleta deve ser intensificado durante os prximos 10 ou 15 anos, aps os quais os ltimos grandes monumentos vivos da cultura africana tero desaparecido e, junto com eles, os tesouros insubstituveis de uma educao peculiar, ao mesmo tempo material, psicolgica e espiritual, fundamentada no sentimento de unidade da vida e cujas fontes se perdem na noite dos tempos.

    Para que o trabalho de coleta seja bem -sucedido, o pesquisador dever se armar de muita pacincia, lembrando que deve ter o corao de uma pomba, a pele de um crocodilo e o estmago de uma avestruz. O corao de uma pomba para nunca se zangar nem se inflamar, mesmo se lhe disserem coisas desagradveis. Se algum se recusa a responder sua pergunta, intil insistir; vale mais instalar -se em outro ramo. Uma disputa aqui ter repercusses em outra parte, enquanto uma sada discreta far com que seja lembrado e, muitas vezes, chamado de volta. A pele de um crocodilo, para conseguir se deitar em qualquer

  • 212 Metodologia e pr -histria da frica

    lugar, sobre qualquer coisa, sem fazer cerimnias. Por ltimo, o estmago de uma avestruz, para conseguir comer de tudo sem adoecer ou enjoar -se.

    A condio mais importante de todas, porm, saber renunciar ao hbito de julgar tudo segundo critrios pessoais. Para descobrir um novo mundo, preciso saber esquecer seu prprio mundo, do contrrio o pesquisador estar simplesmente transportando seu mundo consigo ao invs de manter -se escuta.

    Atravs da boca de Tierno Bokar, o sbio de Bandiagara, a frica dos velhos iniciados avisa o jovem pesquisador:

    Se queres saber quem sou, Se queres que te ensine o que sei, Deixa um pouco de ser o que tu s E esquece o que sabes.

  • C A P T U L O 9

    213A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    Ao descobrir um artefato, o arquelogo geralmente comea a estud -lo atravs de meios puramente arqueolgicos, como o registro da camada em que foi encontrado, a leitura do texto que o acompanha, a descrio de sua forma, o clculo de suas dimenses, etc. Os dados assim obtidos so estudados estratigrfica, filolgica e tipologicamente, podendo resultar da importantes informaes no que diz respeito idade, s origens, etc. do artefato. Na maioria dos casos, entretanto, o arquelogo no consegue encontrar os dados capazes de fornecer uma resposta s suas perguntas ou ajud -lo a chegar a concluses satisfatrias. Quando isso acontece, ele tem de submeter sua descoberta a outras disciplinas, para completar a investigao. Essa investigao, por sua vez, deve trazer -lhe informaes sobre o material de que feito o objeto, sua origem, tcnica de fabricao, idade, o uso a que se destinava, etc. Deve -se enfatizar, no entanto, que essas pesquisas complementares constituem apenas um novo ngulo sob o qual o arquelogo vai enfocar o problema; os dados cientficos e as consideraes de ordem estilstica, filolgica e estratigrfica devem formar um todo inseparvel1.

    1 HALL, E. T. 1970, p. 135 -41.

    A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    Z. Iskander

  • 214 Metodologia e pr -histria da frica

    A superviso de stios arqueolgicos enterrados, exceo das escavaes, a conservao dos vestgios e monumentos descobertos so outros campos nos quais as tcnicas cientficas podem auxiliar a Arqueologia.

    Os mtodos cientficos utilizados pela Arqueologia tm o mrito de ser universais. Podem ser aplicados tanto na frica como na Europa, sia ou Amrica, embora a maneira de aplic -los possa variar de um lugar para outro. O assunto muito vasto; por isso, trataremos os temas seguintes de maneira ampla, sem entrar em muitos detalhes de laboratrio:

    Tcnicas analticas usadas em arqueometria Objetivos da pesquisa e da anlise arqueomtricas Tcnicas de datao Tcnicas usadas na prospeco arqueolgica Tcnicas de conservao

    Tcnicas analticas usadas em arqueometria

    As tcnicas de anlise tm -se desenvolvido tanto, que s vezes difcil decidir qual delas utilizar no exame de determinada amostra, para obter a informao desejada. Os pargrafos seguintes procuram abordar todos os aspectos do problema.

    Escolha do mtodo de anlise As amostras arqueolgicas so excepcionalmente valiosas por duas razes:

    por um lado, a quantidade de material disponvel em geral to pequena que mal e mal se presta a uma anlise completa e, no caso de ser totalmente usada, talvez no possa ser substituda. Por outro lado, pelo menos uma parte da amostra deve ser guardada para futuras referncias ou exposies. Portanto, deve -se ter muito cuidado nas anlises arqueomtricas, a fim de obter o maior nmero possvel de informaes. Os critrios que determinam a escolha do mtodo de anlise a ser adotado podem ser resumidos como segue2.

    Importncia da amostragem disponvel Se a quantidade do material disponvel suficientemente grande, procede -se,

    de preferncia, anlise qumica em meio aquoso, para determinar a porcentagem

    2 HALL, E. T. op. cit.

  • 215A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    dos principais elementos constituintes. A anlise de absoro atmica pode ser aplicada para determinar as porcentagens de metais alcalinos tais como o sdio, o potssio e o ltio. Entretanto, para elementos e compostos imponderveis (traos), as anlises por meio de fluorescncia ou difrao de raios X so preferveis, embora seus resultados comportem uma margem de erro de 10 a 20%.

    Se a quantidade de amostras disponveis mnima e vrios elementos devem ser detectados, convm recorrer espectrofotometria ou difrao de raios X. Quando o arquelogo no puder fornecer um espcime completo, por menor que seja, o material pode ser analisado por emisso espectromtrica ou fluorescncia de raios X, contanto que o tamanho e a forma do objeto permitam a utilizao desse tipo de aparelhagem.

    Tipo de material analisvel Existe uma grande variedade de materiais arqueolgicos. Alguns deles,

    como alimentos, unguentos, resinas, leos e ceras, so total ou parcialmente orgnicos. Outros, como metais, pigmentos, cermicas, vidro e gesso, so inorgnicos. Os materiais orgnicos so geralmente submetidos a combusto, saponificao, dissoluo, radiao infravermelha, anlise trmica e cromatogrfica. Os materiais inorgnicos so submetidos s anlises normais em meio aquoso, espectrometria, fluorescncia de raios X, difrao de raios X ou ativao por nutrons, conforme o tipo de informao procurada.

    Tipo de informao procurada Para economizar tempo e dinheiro, deve -se proceder anlise de acordo

    com um programa bem planejado, em cooperao com o arquelogo, para se obterem respostas a questes especficas. Por exemplo, o cobre e o bronze antigos se parecem superficialmente. Somente o estanho permite que se estabeleam diferenas entre esses metais: submete -se um pequeno pedao da amostra a uma soluo concentrada de cido ntrico; o precipitado esbranquiado de cido metastnico que se forma a seguir diludo em gua destilada. Esse teste simples est ao alcance de qualquer arquelogo. Minerais de chumbo eram utilizados antigamente no Egito para vitrificar peas de cermica. Desse modo, apenas o teste para detectar a presena de chumbo j suficiente para determinar aproximadamente a data de fabricao de um objeto vitrificado.

  • 216 Metodologia e pr -histria da frica

    Apresentao dos resultados Os arquelogos que vo estudar os resultados da investigao cientfica

    e us -los em seus relatrios e concluses raramente so cientistas. Convm, portanto, que os resultados lhes sejam apresentados de maneira acessvel. Assim, por exemplo, em vez de utilizar submltiplos do grama, numa amostra de 100 gramas, bem mais til apresentar todos os resultados em porcentagens, de forma que sejam universalmente compreendidos. Alm disso, tal procedimento facilita a comparao dos resultados entre diferentes laboratrios.

    Mtodos de exame e de anlise luz destas consideraes, podemos enumerar as tcnicas de anlise mais

    importantes usadas em arqueometria.

    Exame microscpico Um exame com uma simples lente de aumento (10X ou 20X) geralmente

    muito til para obter uma primeira impresso de um artefato ou de uma amostra antiga. Melhor ainda uma lente binocular com ampliao de 7X, 10X ou 20X e um amplo campo entre a objetiva e o plano focal. Este dispositivo permite a observao de cavidades profundas, que uma lupa normal no poderia atingir.

    Dados mais precisos so obtidos com a ajuda de um microscpio composto, com ampliao de 100, 200, 400 e 1250X e imerso em leo. O exame microscpico pode ser aplicado com os seguintes objetivos:

    identif icao: na maior parte dos casos, possvel identificar uma amostra (em estado puro ou composta de elementos heterogneos) estudando microscopicamente a textura ou as particularidades cristalinas de seus componentes;

    anlise qualitativa: as tcnicas atuais possibilitam a precipitao, a dissoluo, a observao da evoluo gasosa e outros processos que podem ser aplicados em uma parte minscula da amostra3. Por exemplo, se um fragmento de amostra for colocado numa lmina de vidro e umedecido, ocorrer ou no sua dissoluo. Se a essa soluo for adicionada uma gota de nitrato de prata e surgir, no cido ntrico, um precipitado esbranquiado, insolvel, pode -se deduzir a presena de um nion de cloreto;

    3 EWING, G. W. 1954, p. 411.

  • 217A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    figura 9.1 Microfotografia de uma seco da fateixa de cobre pertencente ao barco de Quops em Gizeh.

    Figura 9.2 Radiografia frontal do peito da Rainha Nedjemet, da 21a dinastia. Museu do Cairo.

  • 218 Metodologia e pr -histria da frica

    anlise quantitativa: os mtodos microscpicos so particularmente valiosos na anlise quantitativa de combinaes heterogneas complexas, dificilmente analisveis pelos mtodos qumicos comuns4. Entre outros resultados, permitem a determinao do nmero e do tamanho dos componentes. Se a densidade de cada componente conhecida, as porcentagens volumtricas dos componentes da mistura podem ser convertidas em porcentagens ponderveis5.

    Radiografia A radiografia muito til no exame de obras de arte, pois permite, por

    exemplo, detectar a presena de corpos estranhos no interior de uma mmia ainda enfaixada ou incrustaes decorativas escondidas sob camadas de blsamo, etc. Tais informaes ajudam a determinar a tcnica a ser adotada para retirar as bandagens das mmias; so muito valiosas tambm nos trabalhos de conservao de objetos de metal, alm de serem muito teis durante os estudos cientficos e arqueolgicos. No museu do Cairo, por exemplo, a radiografia de mmias reais revelou que mesmo aquelas das quais j se haviam retirado as bandagens ainda continham joias que haviam escapado deteco, por se encontrarem sob espessas camadas de resina6.

    Determinao do peso especfico Na Antiguidade, o ouro geralmente continha prata ou cobre. Os objetos de

    ouro so to preciosos que, na maioria dos casos, nenhum fragmento, por menor que seja, pode ser retirado para anlise. Diante disso, Caley pensou em aplicar o mtodo de determinao do peso especfico, que no traz nenhum risco de deteriorao e permite que se descubra a porcentagem de ouro dos artefatos7. Este mtodo muito fcil e baseia -se no princpio de Arquimedes. Se o peso do objeto ao ar livre de W g e na gua de X g,

    seu peso especfico ser igual a W W X

    .

    4 CHAMOT, E. M. e MASON, C. W. 1938, p. 431.5 KOLTHOFF, I. M., SANDELL, E. B., MEEHAN, E. J. e BRUCKENSTEIN, S. 1969. 6 HALPERN, J. W., HARRIS, J. E. e BARNES, C. 1971. p. 18.7 CALEY, E. R. 1949, p. 73 -82.

  • 219A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    Como o peso especfico do ouro (19,3) quase o dobro do da prata (10,5) ou do cobre (8,9), a presena de pequenas quantidades de prata ou cobre pode ser facilmente detectada. Supondo que o objeto no contenha platina, que o componente de ligao (prata ou cobre) seja conhecido e que no tenha ocorrido nenhuma contrao durante a fuso, a margem de erro previsvel no clculo do teor de ouro da ordem de 1%.

    Anlise qumica normal em meio aquoso Esta tcnica indispensvel, em Arqueologia, para o estudo do material

    de que feito um artefato, bem como para a escolha da melhor maneira de conserv -lo. usada nas anlises qualitativas e quantitativas de argamassas, gesso, vestgios corrodos de artefatos metlicos, restos de comida, cosmticos, resduos de blsamos e produtos anlogos, etc.

    A descrio das tcnicas utilizadas em tais anlises no do mbito deste captulo, pois so familiares a todos os qumicos que trabalham no campo da Arqueologia; alm disso, so descritas com detalhes em manuais de qumica analtica, como por exemplo o de Kolthoff e seus co -autores8, relativamente s matrias inorgnicas, e nos trabalhos de Iskander9 e Stross10, relativamente s matrias orgnicas e inorgnicas. Objetos de ferro descobertos em Niani (Guin), datando do sculo XIII ao sculo XV, foram submetidos a uma anlise qumica, que revelou conterem cobre, fsforo, nquel, tungstnio, titnio e molibdnio, impurezas provavelmente presentes nos minrios utilizados11.

    Espectrofotometria Esta tcnica tem sido utilizada na anlise de vestgios antigos, tais como

    bronze, cermica, argamassa, pigmentos, etc. Vrios fatores tornam a espectrofotometria particularmente vantajosa em

    relao a outros mtodos de anlise desses vestgios: apresenta sensibilidade adequada; permite detectar altas propores (at 20%) da maioria dos elementos; alm disso, todos os elementos presentes na amostra podem ser gravados em

    8 KOLTHOFF, I. M., SANDELL, E. B., MEEHAN, E. J. e BRUCKENSTEIN, S. 1969.9 FARAG, N. e ISKANDER, Z. 1971, p. 111 -15; ISKANDER, Z., p. 59 -71, Le monastre de Phoebammon

    duns la Thebaide, v. III, ed. BACHATLY, Cairo, Socit dArcheologie Copte, 1961; ISKANDER, Z. e SHAHEEN, A. E. 1964, p. 197 -208; ZAKI, A. e ISKANDER, Z. 1942, p. 295 -313.

    10 STROSS, F. H. e ODONNALL, A. E. 1972, p. 1 -16. 11 MUZUE, A. e NOSEK, E. 1974, p. 96.

  • 220 Metodologia e pr -histria da frica

    linhas espectrais numa chapa fotogrfica durante uma nica exposio, o que proporciona um registro permanente para posteriores consultas. Uma nova variante da espectrofotometria o Laser Milliprobe Spectometer12. A anlise espectrogrfica de todos os bronzes naturalistas de Ife (Nigria) mostrou que eles no so de bronze, mas de lato13.

    Anlise por absoro atmica Este mtodo perfeitamente adequado para amostras de matria inorgnica

    (metais, cimentos, soldas, vidro, esmaltes, sais, etc.). Em arqueometria, seu emprego apresenta as seguintes vantagens: elevado grau de exatido (margem de erro de 1%) com amostras de 5 a 10 mg; possibilidade de deteco, em uma mesma amostra, de elementos mais importantes, elementos menos importantes ou simplesmente traos; enfim, uma tcnica de uso corrente. Ela facilita muito tambm as comparaes entre os resultados de diferentes laboratrios, e as causas eventuais de erros experimentais so mais facilmente controlveis14.

    Fluorescncia de raios X A excitao de um espcime por meio de raios X um mtodo de anlise muito

    til. Seu princpio o seguinte: quando um tomo bombardeado com raios de alta frequncia, um eltron removido de uma rbita interior do tomo e a lacuna assim criada ser preenchida por um eltron proveniente de uma rbita externa. A variao de energia entre os nveis externo e interno provm de raios secundrios ou fluorescentes, caractersticos dos elementos que compem o espcime.15

    Como a fora de penetrao dos raios X limitada, esta tcnica s pode ser utilizada na superfcie dos objetos, sendo por isso aplicada apenas na anlise de vestgios inorgnicos, tais como o vidro, a faiana e a cermica vitrificada, a obsidiana e a maior parte das rochas. Entretanto, os objetos metlicos antigos sofreram a ao do tempo, ou os metais menos nobres que continham afloraram superfcie. Desta maneira, uma anlise restrita superfcie desses objetos atravs do mtodo da fluorescncia de raios X pode oferecer resultados diferentes daqueles obtidos por uma anlise do objeto inteiro.16

    12 HALL, E. T. 1970, p. 135 -41.13 WILLET, F. 1964, p. 81 -83. 14 WERNER, A. E. A. 1970, p. 179 -85.15 KOLTHOFF, I. M., SANDELL, E. B., MEEHAN, E. J. e BRUCKENSTEIN, S. 1969. 16 HALL, E. T. 1970, p. 135 -41.

  • 221A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    Anlise por ativao de nutrons Nesta tcnica, um grupo de amostras e de produtos qumicos standard

    colocado em um reator nuclear e submetido irradiao por nutrons lentos (ou trmicos). Alguns dos istopos resultantes tero vida suficiente para emitir raios gama. Como cada radioistopo emite raios gama com comprimentos de onda caractersticos, a anlise desses comprimentos de onda possibilita tanto a identificao dos elementos presentes no espcime como a determinao de sua concentrao, quer se trate de elementos importantes, quer de simples traos.

    Os nutrons e os raios gama tm poder de penetrao muito maior que os raios X, permitindo assim que a anlise atinja maior espessura em determinada amostra. Desse modo, o afloramento de cobre superfcie dos metais pode ser ignorado.17

    Ao realizar esse tipo de anlise, deve -se tomar o cuidado para que, se o espcime tiver de retomar ao museu, a radioatividade residual baixe a um nvel inofensivo em um lapso de tempo razovel. A ttulo de exemplo, o istopo da prata radioativa tem meia -vida de 225 dias; logo, se um objeto de prata receber uma dose muito forte de radiao, no poder ser devolvido ao museu por centenas de anos.18 Nesses casos, uma minscula poro do objeto retirada atravs da frico com um pequeno disco de quartzo rugoso. Este quartzo sofre ento irradiao no reator e analisado, do modo habitual, para a deteco de prata, ouro, cobre, antimnio e arsnico.

    Esta tcnica foi recentemente aplicada, em pesquisas arqueolgicas realizadas na frica, no estudo de contas de vidro, que foram submetidas a duas ativaes de nutrons. O primeiro bombardeamento durou pouco tempo, procedendo--se logo aps procura de istopos de vida curta nas contas. J o segundo foi intenso e contnuo, durando oito horas. As amostras foram, ento, deixadas de lado por alguns dias e depois submetidas anlise, que procurou por istopos de vida mdia. A seguir, foram guardadas novamente e mais tarde testadas em busca de istopos de vida longa.19

    Um estudo de diversas aplicaes desta tcnica em Arqueologia foi publicado por Sayre e Meyers.20

    17 Loc. cit. 18 Loc. cit.19 DAVISON, C. C. 1973, p. 73 e 74.20 SAYRE, E. V. e MEYERS, P. 1971, p. 115 -50.

  • 222 Metodologia e pr -histria da frica

    Objetivos da anlise arqueomtrica

    Os principais objetivos da investigao cientfica e da anlise em arqueometria so os seguintes:

    Identificao rigorosa dos objetos essencial que a identificao dos vestgios arqueolgicos seja efetuada

    escrupulosamente, para que o arquelogo possa descrev -los com exatido nas publicaes especializa das e nos guias de museus. A identificao precisa da substncia dos artefatos tambm muito importante, pois do conhecimento da verdadeira natureza das substncias examinadas que depende o alcance das observaes correspondentes. Infelizmente, os erros de identificao so frequentes nas publicaes arqueolgicas mais antigas e j causaram muita confuso. O cobre s vezes confundido com o bronze, embora a descoberta e o uso do bronze impliquem certa evoluo cultural. O bronze, por sua vez, confundido com o lato e isso pode acarretar uma falsa concluso quanto idade do objeto, j que as primeiras produes de lato remontam mais ou menos metade do primeiro sculo antes de nossa era, enquanto o bronze j era conhecido e utilizado uns vinte sculos antes.21

    Como a maior parte dos erros de identificao provm de apreciaes visuais incorretas, convm enfatizar que, para evitar qualquer risco de interpretao errnea, a identificao do material arqueolgico deve basear -se na anlise qumica ou por difrao de raios X.

    Traduo de palavras antigas desconhecidas s vezes, uma identificao correta permite traduzir palavras desconhecidas.

    Por exemplo, em Saqqara, Egito, foram descobertos dois recipientes de cermica na sepultura do rei Hor -Aha (Primeira Dinastia, aproximadamente -3100). Em cada um deles figuravam hierglifos correspondentes palavra seret, cujo sentido era ignorado. A anlise qumica revelou que os dois vasos continham queijo; concluiu--se ento que seret significava queijo.22 Outro exemplo a palavra bekhen, escrita em hierglifos em algumas esttuas de pedra. Como a rocha em que as esttuas foram esculpidas havia sido anteriormente identificada como grauvaca (xisto) e

    21 CALEY, E. R. 1948, p. 1 -8. 22 ZAKI, A. e ISKANDER, Z. 1942, p. 295 -313.

  • 223A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    que a palavra aparecia em textos relacionados com Uadi -el -Hammamat, concluiu--se que, provavelmente, bekhen significava o xisto de Uadi -el -Hammamat.23

    Deteco da origem dos vestgios arqueolgicos A presena em determinado stio arqueolgico de numerosos espcimes cuja

    substncia de origem estrangeira, parece ser uma indicao clara de que esse material foi importado atravs de troca ou comrcio. Uma vez localizada a fonte dessa substncia, torna -se fcil estabelecer o caminho seguido por ela. Sabe -se, por exemplo, que a obsidiana no existe no Egito; entretanto, era utilizada nessa regio desde a poca pr -dinstica (antes de -3100).

    A obsidiana de alguns objetos dessa poca foi examinada e comparada com a proveniente de pases vizinhos. Como suas caractersticas eram muito semelhantes s da obsidiana da Etipia, concluiu -se que fora importada dessa regio e que os dois pases mantinham relaes comerciais h muito tempo.24

    Na cermica, a identificao de traos por meio da ativao de nutrons ou fluorescncia de raios X permite o estudo de rotas comerciais locais e internacionais.25 Vestgios de impurezas em minrios e artefatos de bronze tambm podem ajudar a relacionar os artefatos ao tipo de material de que foram feitos.26

    A deteco de nquel em um artefato antigo de ferro permite descobrir se o ferro provm de um meteorito ou se foi manufaturado, j que o ferro de origem meteortica sempre contm de 4 a 20% de nquel.

    Recorrendo a uma emisso espectroscpica, o autor examinou o famoso punhal de Tutankhamon e constatou que o ferro de sua lmina continha uma quantidade razovel de nquel, o que provou a origem meteortica do ferro.

    Investigao do uso anterior dos objetos examinados s vezes, difcil saber com que finalidade determinado objeto era utilizado.

    A esse respeito, a anlise qumica pode ser de grande utilidade. Em 1956, por exemplo, foi descoberta, na tumba de Neferwptah (aproximadamente -1800), em Faium (Egito), uma grande jarra de alabastro contendo 2,5 kg de uma estranha substncia. A anlise qumica revelou que se tratava de um composto de

    23 LUCAS, A. 1962, p. 416, 419 -20. 24 Loc. cit.25 PERLMAN, I. e ISARO, F. 1969, p. 21 -52.26 FIELDS, P. R., MILSTED, J., HENRICKSEN, E. e RAMETTE, R. W. 1971, p. 131 -43.

  • 224 Metodologia e pr -histria da frica

    48,25% de galena (sulfeto de chumbo natural) e 51,6% de resina, na proporo 1:1, aproximadamente. Como essa composio jamais tinha sido encontrada antes, a razo pela qual estava na tumba era completamente obscura. Entretanto, o exame das prescries mdicas do papiro Ebers permitiu descobrir, sob o n. 402, um novo (remdio) para remover manchas brancas que apareceram nos dois olhos: kohl preto (galena) e khetwa (resina) finamente pulverizados e aplicados nos dois olhos. A partir desse texto e da composio qumica do material encontrado na jarra, concluiu -se que Neferwptah provavelmente sofria de leucoma em um dos olhos ou em ambos. Por isso, forneceram -lhe uma grande quantidade desse medicamento para uso na vida futura.27

    Pesquisa das antigas tcnicas de fabricao O exame metalogrfico de objetos de metal fornece informaes sobre as

    tcnicas utilizadas pelos povos antigos em suas artes e indstrias qumicas. Os exemplos seguintes so significativos a esse respeito.

    Fabricao do azul do Egito Amostras deste pigmento azul foram submetidas a exames qumicos,

    microscpicos e difrao por raios X. Chegou -se a reproduzir, experimentalmente, uma frita28 azul anloga. Esses estudos revelaram que o azul do Egito era feito, na Antiguidade, aquecendo, a 840oC, uma mistura de areia ou quartzo pulverizado, calcrio igualmente pulverizado, malaquita e sal comum ou carbonato de sdio.29

    Exame microscpico de objetos de metal O exame metalogrfico de objetos de metal pode indicar se eles foram fundidos

    ou batidos, ou se as duas tcnicas foram empregadas. O exame metalogrfico de uma fateixa de cobre que pertenceu ao barco de Quops, descoberta em 1954, atrs da grande pirmide de Gizeh, demonstrou que havia dendritos no metal; conclui -se, portanto, que o objeto tinha sido batido.30

    27 FARAG, N. e ISKANDER, Z. 1971, p. 111-15.28 Frita (fr. frite): expresso em desuso que designa a mistura de areia e soda, submetida a uma semifuso

    na fabricao do vidro, da cermica, etc. (N. T. Fr.).29 LUCAS, A. 1962, p. 416, 419 -20. 30 ISKANDER. Z. 1960, p. 29 -61. 1a parte.

  • 225A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    Exame de resduos de embalsamamento O exame de resduos de materiais para embalsamamento, descobertos em

    Saqqara, Luxor e Mataria (Egito), mostrou que continham pequena proporo de sabo de cidos graxos slidos, resultantes da saponificao das gorduras do corpo, sob a ao do carbonato de sdio, durante a mumificao. A partir disso, concluiu -se que os materiais usados serviam para preencher temporariamente as cavidades do corpo, antes que este fosse desidratado, at se tornar uma massa de natro,31 no leito de mumificao.32

    Cadinhos de frita Pesquisas empreendidas em Uadi el -Natrum, nas runas de uma vidraria,

    mostraram que o vidro foi fabricado no Egito durante o perodo romano. Essa indstria passou por duas etapas.

    Durante a primeira etapa, obtinha -se a frita de vidro num cadinho especial (cadinho de frita)33, misturando slica pura (quartzo), bicarbonato de clcio, natro ou cinza vegetal, ou ambos, e aquecendo a mistura a uma temperatura inferior a 1100oC. A argila desse cadinho continha grande proporo de areia e palha cortada em pedacinhos. Tal mistura, quando cozida, produzia uma cermica altamente porosa, qualidade essa procurada pelos vidreiros da Antiguidade, porque permitia soltar facilmente o bloco de frita quebrando o cadinho. Este, portanto, era usado s uma vez.

    Na segunda fase, os vidreiros obtinham um vidro de boa qualidade e de cores variadas. Os blocos de frita eram pulverizados at se tornarem um fino p homogneo; eram, ento, divididos em pequenas pores. A cada uma delas adicionavam -se certos xidos corantes, agentes opacificantes ou descolorantes e reaquecia -se tudo at a fuso completa, a fim de obter o tipo de vidro necessrio.34

    Testes de autenticidade Durante muito tempo, os critrios histrico e esttico eram o nico mtodo

    utilizado para a determinao da autenticidade. Nos ltimos anos, o progresso

    31 Natro: carbonato de sdio cristalizado. 32 ISKANDER, Z. e SHAHEEN, A. E. 1964, p. 197 -208. 33 Frita (fr. fritage): vitrificao preparatria destinada a eliminar os elementos volteis (N. T. Fr.).34 SALEH, S. A., GEORGE, A. W. e HELMI, F. M. 1972, p. 143 -70.

  • 226 Metodologia e pr -histria da frica

    da pesquisa cientfica possibilitou um julgamento mais seguro da autenticidade de um objeto. Os mtodos mais eficientes so os seguintes:

    Exame com raios ultravioleta Esta tcnica til principalmente no exame do marfim e do mrmore. Sob

    a luz ultravioleta, os diferentes tipos de mrmore emitem fluorescncia em diferentes cores e a superfcie dos mrmores antigos projeta uma cor caracterstica muito diferente da cor apresentada pelas pedras mais recentes. Do mesmo modo, alteraes ou retoques em objetos de mrmore ou marfim antigos, bem como em pinturas, invisveis luz comum, podem ser notados distintamente quando o objeto examinado sob luz ultravioleta. A luz infravermelha e os raios X tambm so muito teis na deteco de falsificaes.35

    Exame da corroso superficial Em geral, os metais antigos so corrodos lentamente e, com o tempo, a

    corroso provoca o surgimento de uma pelcula homognea. Nas falsificaes de objetos de metal, geralmente aplicada uma pelcula artificial superfcie do objeto, o que lhe confere uma aparncia antiga. Mas essa pelcula no adere muito bem e pode ser removida com sol ventes, tais como gua, lcool etlico, acetona ou piridina. Alm disso, nos objetos de cobre e de bronze, essa crosta artificial compe -se geralmente de uma s camada, distinguindo -se da que se formou naturalmente. Esta sempre composta de pelo menos duas camadas: a interior, de xido de cobre vermelho, e a exterior, verde de carbonato, sulfato ou cloreto do mesmo metal. muito difcil reproduzir essa disposio, a ponto de enganar um experiente qumico de museu arqueolgico.

    Anlise do material do objeto Um notvel exemplo da validade deste teste fornecido pela anlise do

    gro da antiga faiana egpcia. Enquanto o gro da antiga faiana egpcia autntica composto de quartzo vitrificado, o das falsificaes modernas geralmente constitudo de caulim, argila ou porcelana; a identificao , deste modo, bastante rpida e segura. Outro exemplo: como as tcnicas metalrgicas antigas no envolviam processos de refinamento adequados, os metais da Antiguidade contm certas impurezas, tais como arsnico, nquel, mangans, etc.

    35 CAI.EV. F. R. 1948, p. 1 -8.

  • 227A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    figura 9.3 Bloco de vitrificao mostrando a superfcie superior plana, as paredes laterais e uma parte do cadinho ainda aderente ao lado direito.

    Figura 9.4 Base de uma das colunas de arenito do templo de Buhen. Nota -se o esboroamento da camada superficial devido eflorescncia.

  • 228 Metodologia e pr -histria da frica

    Portanto, basta retirar uma pequena amostra do objeto e submet -la ativao por nutrons ou fluorescncia de raios X: a ausncia de vestgios de impurezas indicar que o objeto provavelmente falso.

    Identificao de pigmentos e corantes na pintura Os pigmentos utilizados em um quadro podem ser identificados com

    razovel preciso atravs de tcnicas microqumicas. Se o pigmento foi criado recentemente, a idade do quadro pode ser contestada. Como exemplo, citemos o exame feito por Young de um retrato em perfil atribudo a um pintor do sculo XV. A pigmentao azul do quadro se originava do azul -ultramarino, descoberto e usado como pigmento a partir do sculo XIX. Quanto ao pigmento branco, tratava -se de xido de titnio, s utilizado na pintura depois de 1920. Provou -se, portanto, que o quadro era falso.36

    Exame da ptina e do polimento superficiais A maior parte das rochas adquire, com o tempo, uma ptina na sua superfcie:

    o verniz do deserto. Este fenmeno se deve ao afloramento progressivo de sais de ferro e mangans superfcie, onde se oxidam e formam uma espcie de epiderme ou ptina. Essa ptina passa a fazer parte da prpria rocha, confundindo -se com a sua superfcie. No fcil remov -la, seja com gua ou solvente neutro, seja atravs de raspagem. Em consequncia, possvel distinguir uma superfcie autenticamente antiga de outra recente, mesmo dotada de ptina artificial.

    Alm da ptina formada naturalmente, as marcas de entalhe e polimento antigos so outro meio de provar autenticidade. Essas marcas ainda aparecem como linhas de interseco irregular sob a ptina superficial da pedra ou do metal. Elas podem ser facilmente distinguidas das linhas paralelas regulares provenientes de um polimento recente, j que os povos antigos no usavam nem limas speras para esculpir, nem limas finas ou lixas de esmeril para polir.

    Teste da termoluminescncia da cermica A cermica, assim como o solo em que foi enterrada, contm uma

    porcentagem muito pequena de elementos radioativos. A radiao desses elementos causa, ao longo de milhares de anos, um acmulo de eltrons no corpo da cermica. Elevando -a a uma temperatura acima de 500oC, os eltrons

    36 YOUNG, W. J. 1958, p. 18 -19.

  • 229A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    acumulados emitem uma termoluminescncia que varia de acordo com a idade da cermica. Esta tcnica permite aos conservadores de museus uma apreciao segura da autenticidade de um objeto de cermica. A amostra necessria pode ser conseguida fazendo um pequeno furo no objeto. O p obtido aquecido a mais de 500oC no escuro. Se houver luminescncia, a cermica genuna; se no, trata -se de falsificao.37

    Tcnicas de datao

    A cincia dispe de vrias tcnicas para determinar a idade de materiais antigos. As principais so as seguintes:

    Datao aproximativa pela anlise arqueomtrica A anlise de espcimes pertencentes ao mesmo grupo de materiais (gesso,

    vidro, faiana, metais e pigmentos), mas que remontam a pocas diferentes, pode fornecer resultados passveis de serem utilizados como pistas para a determinao da idade aproximada de outros objetos. Os exemplos seguintes confirmam essa ideia.

    Datao atravs da anlise de contas de vidro na frica ocidental As contas dicroicas akori, que parecem azuis luz refletida e verdes luz

    transmitida, foram submetidas anlise por fluorescncia de raios X, que permite classific -las em dois grupos, A e B. As contas do grupo A so mais pobres em chumbo (menos de 0,05%) e em arsnico (menos de 0,05%) que as do grupo B, nas quais a taxa de chumbo de mais ou menos 27 % e a de arsnico de 2%. A diferena em relao ao mangans menor (grupo A: 0,3 0,1% e grupo B: aproximadamente 0,05%). Outros elementos detectados: ferro, cobalto, zinco, rubdio, estrncio, estanho, antimnio e brio, em relao aos quais no foi notada nenhuma diferena significativa entre um grupo e outro. As contas do grupo A so encontradas na frica ocidental, em stios insulares relativamente antigos (430 a 1290 da Era Crist), enquanto as do grupo B s aparecem em contextos mais recentes. A descoberta dessas contas em um tmulo ou em determinado estrato permite determinar com certa preciso a idade de um ou de outro38.

    37 AITKEN, M. J. 1970, p. 77-88.38 DAVISON, C. C., GIAUQUE, R. D. e CLARK, J. D. 1971, p. 645 -49.

  • 230 Metodologia e pr -histria da frica

    Datao de pinturas rupestres pela anlise de aglutinantes albuminosos possvel avaliar a idade das pinturas determinando o nmero de aminocidos

    de seus aglutinantes albuminosos aps hidrlise. Esse mtodo foi usado para calcular a idade de 133 pinturas rupestres do sudoeste da frica, com margem de erro de 20%. A Dama Branca (The White Lady) de Brandberg tem de 1200 a 1800 anos. As pinturas de Limpopo tm de 100 a 800 anos e as amostras de Drakensberg, de 60 a 800 anos. O nmero de aminocidos idnticos diminui, com a idade da pintura, de 10 (nos aglutinantes com 5 a 10 anos de idade) para 1 (substncias com 1200 a 1800 anos de idade).39

    Datao atravs da anlise de argamassas A anlise dos diferentes tipos de argamassa utilizados no Egito mostrou que a

    argamassa de cal no aparece antes de Ptolomeu I (323 -285 antes da Era Crist).40 Qualquer monumento cujos tijolos ou pedras foram ligados com argamassa de cal pertence, portanto, a um perodo posterior a 323 antes da Era Crist.

    Datao por radiocarbono

    Princpio bsico Ao serem atingidos pelos raios csmicos, os tomos do ar das camadas superiores

    da atmosfera desintegram -se em fragmentos minsculos, dentre os quais encontram--se os nutrons. Os nutrons produzidos bombardeiam o tomo que existe em maior abundncia no ar, o nitrognio de massa 14, e o convertem em carbono de peso atmico 14. O carbono 14 assim formado radioativo; combina -se com o oxignio do ar para formar 14CO2 e se mistura com o dixido de carbono comum, que contm principalmente tomos de carbono de massas 12 (99 %) e 13 (1%). Esse carbono 14 penetra nas plantas juntamente com os istopos 12CO2 e 13CO2 formando seus tecidos pelo processo de fotossntese. Como os animais se alimentam de plantas, todo o mundo animal e vegetal deve ser ligeiramente radioativo, devido presena de uma proporo mnima de carbono 14 (aproximadamente um tomo de carbono 14 para um trilho de tomos de carbono comum). O dixido de carbono atmosfrico entra tambm na composio dos oceanos sob a forma de carbonato

    39 DENNINGER, E. 1971, p. 80 -84.40 LUCAS. A. 1962, p. 416, 419 -20.

  • 231A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    dissolvido. Portanto, provvel que a gua do mar tambm seja levemente radioativa, assim como todas as conchas e depsitos que contm.41

    No momento da morte, supe -se que a matria orgnica antiga tenha apresentado a mesma radioatividade que a matria orgnica viva atualmente. Mas, depois da morte, ocorre o isolamento, ou seja, toda aquisio ou troca de radiocarbono interrompida e o carbono 14 comea a se degradar ou, como disse o professor Libby, o relgio do radiocarbono comea a andar.42 Se a radioatividade de uma amostra antiga medida e comparada de uma amostra moderna, possvel, considerando -se o tempo de vida do carbono 1443, calcular a idade do espcime antigo a partir da equao relativa ao declnio da radioatividade.

    Materiais adequados datao radioativa Os materiais apropriados para essa tcnica so os de natureza orgnica

    (madeira, carvo, ossos, couro, tecidos, vegetais, alimentos, conchas, etc.), mas os melhores so os derivados de plantas que crescem anualmente, como junco, cereais, grama ou linho. Uma vez recolhidas, as amostras no devem ser submetidas a nenhum tratamento qumico; alm disso, devem ser colocadas em recipientes de vidro ou embalagens de nilon, a fim de evitar qualquer contato com outros materiais orgnicos. O processo se desenvolve em quatro etapas: purificao da amostra, combusto, purificao do dixido de carbono obtido e, finalmente, contagem das partculas emitidas.

    Resultados e perspectivas Para testar a preciso desse mtodo, foi feito um estudo comparativo entre

    amostras datadas com exatido, do ponto de vista histrico, e dataes efetuadas com carbono radioativo.44 Como o mtodo histrico mais antigo e mais conhecido a cronologia do Egito, decidiu -se, em mbito internacional, medir o carbono radioativo de um grande nmero de amostras egpcias datadas com preciso arqueolgica, pertencentes ao perodo que vai da primeira dinastia (aproximadamente -3100)

    41 AITKEN, M. J. 1961, p. X e 181. 42 LIBBY, W. F. 1970, p. 1-10. 43 O perodo ou longevidade do carbono 14 (durao da desintegrao de metade do corpo radioativo) foi

    avaliado em 5568 anos ou, mais precisamente, em 5730 40 anos. 44 BERGER, R. 1970, p. 23 -26; EOWAROS, L E. S. 1970, p. 11 -19; MICHAEL, H. N. e RALPH, E.

    K. 1970, p. 109 -20; RALPH, E. K., MICHAEL, H. N. e HAN, M. G. 1973, p. 1 -20.

  • 232 Metodologia e pr -histria da frica

    trigsima dinastia ( -378 a -341). Diversos laboratrios procederam datao ao mesmo tempo, usando no s meias -vidas correspondentes a 5568 anos, mas tambm o novo valor de 5730 40 anos, que permite maior preciso. Os resultados obtidos por esses testes mostraram que a datao operada atravs da meia -vida de 5730 anos corresponde cronologia histrica at o tempo do rei Senusret (ou Sesstris), ou seja, aproximadamente -1800, mas a datao das amostras anteriores suscitou numerosas controvrsias. Entretanto, a aplicao do mtodo de correo de Stuvier -Suess s amostras anteriores a -1800 permite a obteno de resultados correspondentes cronologia arqueolgica dentro de 50 a 100 anos, no mximo.45 A ttulo de exemplo: bambus retirados da mastaba (sepultura) de Qaa, primeira dinastia, em Saqqara, foram datados no laboratrio de pesquisas do British Museum. A data obtida com carbono 14, depois da correo, de -2450 65, aproximando -se bastante de sua data histrica, ou seja, 2900 antes da Era Crist.46

    Imagina -se, atualmente, que as causas dos principais desvios sejam a diminuio do campo magntico da Terra47 e as variaes de intensidade do vento solar, que tornam oblquos os raios csmicos.48 Alm disso, a meia -vida real do carbono radioativo ainda no est inteiramente estabelecida. Algumas outras causas esto sendo estudadas e muitos laboratrios trabalham nesse sentido.

    Se houvesse resposta para todas essas questes, seria possvel datar com maior preciso vestgios anteriores a 1800 antes da Era Crist. Mas, at que isso acontea, os clculos convencionais de radiocarbono para vestgios orgnicos dessa poca devem ser submetidos correo indicada acima.

    Datao com potssio argnio A limitao da datao por carbono 14 em aproximadamente -70000 anos cria

    uma grande lacuna na cronologia da evoluo biolgica e geolgica, prolongando--se dessa data at aproximadamente -10 milhes de anos. Para um perodo to, antigo, seria possvel aplicar mtodos geolgicos radioativos baseados nos ndices de transformao de substncias, como, por exemplo, na transformao do urnio 235 em chumbo 207, que tem meia -vida de 710 milhes de anos, ou do rubdio

    45 BERGER, R. 1970, p. 23 -36; MICHAEL, H. N. e RALPH, E. K. 1970, p. 109 -20; RALPH, E. K., MICHAEL, H. N. e HAN, M. G. 1973, p. 1 -20; STUVIER, M. e SUESS, H. E. 1966, p. 534 -40.

    46 EOWARDS, I. E. S. 1970, p. 11 -18. 47 BUCHA, V. 1970, p. 47 -55. 48 LEWIN, S. Z. 1968, p. 41 -50.

  • 233A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    87 em estrncio 87, que tem meia -vida de 13900 milhes de anos. Essa lacuna pode ser preenchida, at um certo ponto, pela aplicao da tcnica de datao com potssio -argnio.49 De fato, esse mtodo usado particularmente na datao de idades geolgicas muito remotas. No entanto, utilizando grandes amostras de uma substncia de textura relativamente fina (mas no inferior a 100 micra) e que contenha pouco argnio atmosfrico, possvel aplic -lo a perodos mais recentes, o que permitiria controlar os resultados obtidos graas ao carbono 14.50

    Princpio bsico O potssio, tal como encontrado na natureza, contm 93,2% de potssio 39,

    6,8% de potssio 41 e 0,0118% de potssio 40. No momento da formao da Terra, a taxa de potssio 40 era de mais ou menos 0,2%, mas ele se deteriorou em grande parte, resultando em dois derivados: o clcio 40 e o argnio 40. Mas como tem meia -vida muito longa (1330 milhes de anos), o potssio 40 ainda se encontra presente, numa taxa de 0,0118%. Em cada 100 tomos de potssio 40 que se degradam, 89 se transformam em clcio 40 pelo desaparecimento das radiaes beta; onze se transformam em argnio 40 pela captura de partculas beta. O argnio um gs que se encontra retido entre os gros do minrio51.

    A datao com argnio -potssio muito aplicada pelas razes seguintes:

    O potssio presente na crosta terrestre representa 2,8% em peso, sendo um de seus elementos mais abundantes. Alm disso, est presente em quase todos os corpos.

    A meia -vida do potssio suficientemente longa para permitir a formao de argnio 40 em certos minerais, ao longo de perodos interessantes do ponto de vista geolgico. Calculando a concentrao do argnio 40 radioativo e o contedo total de potssio de um mineral, possvel determinar a idade do mineral, por meio de uma equao relativa degradao da radioatividade.52

    Problemas a serem resolvidos pela datao com potssio argnio A datao com potssio -argnio foi aplicada recentemente no clculo da

    constante de primeira ordem in situ, para a racemizao do cido asprtico nos

    49 AITKEN, M. J. 1961. 50 GENTNER, W. e LIPPOLT, H. J. 1963, p. 72 -84.51 Loc. cit.; HAMILTON, E. I. 1965, p. 47 -79.52 GENTNER, W. e LIPPOLT, H. J. 1963, p. 72 -84.

  • 234 Metodologia e pr -histria da frica

    ossos antigos. Uma vez aferida num stio, a reao de racemizao pode ser utilizada para datar outros ossos do depsito. As idades calculadas a partir desse mtodo correspondem com exatido s idades obtidas pela datao com radiocarbono. Esses resultados provam que a reao de racemizao um instrumento cronolgico importante para a datao dos ossos muito antigos ou muito pequenos para serem datados com radiocarbono. Para exemplificar a aplicao dessa tcnica na datao dos fsseis humanos, uma parte do homem da Rodsia originrio de Broken Hill (Zmbia) foi analisada e datada provisoriamente em 110000 anos aproximadamente.53 A datao com potssio -argnio dos perodos do Plioceno e Pleistoceno dever permitir o levantamento de uma cronologia definitiva da origem do homem, da coincidncia da idade dos fsseis em diversos pontos do globo, da origem dos tektites e outros problemas geolgicos especiais.

    A datao com potssio -argnio foi usada para determinar, em Olduvai, a idade das camadas de basalto e das camadas de tufo que as revestiam, a fim de estabelecer a idade exata dos restos do Zinjanthropus, encontrados no fundo da primeira camada de tufo, na Bed I. Curtis e Evernden concluram que esses basaltos tm, pelo menos, quatro milhes de anos de idade; entretanto, no se prestariam a uma datao precisa, em consequncia de alteraes qumicas visveis nas partes finas de todos os basaltos datados de Olduvai, exceto os que esto associados antiga indstria de pebble tools. A opinio de Gentner e de Lippolt sobre os diferentes resultados obtidos a seguinte: Como no existem outras incompatibilidades entre as datas dos basaltos e do tufo que os recobre, parece possvel que a idade do Zinianthropus seja de dois milhes de anos.54

    Datao arqueomagntica Para dar uma ideia simplificada dessa tcnica, convm abordar os seguintes itens:

    Paleomagnetismo Trata -se do magnetismo remanescente nos vestgios arqueolgicos. Seu

    estudo baseia -se no fato de que o campo magntico da Terra sofre mudanas contnuas de direo e de intensidade. Observaes feitas a partir dos ltimos cinquenta anos indicam que o campo magntico se desloca para oeste numa

    53 BADA, J. L., SCHROEDER, R. A., PROTSCH, R. e BERGER, R. 1974, p. 121. 54 GENTNER. W. e LIPPOLT, H. J. 1963.

  • 235A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    mdia de 0,2o de longitude por ano.55 Pesquisas arqueomagnticas baseadas no clculo da magnetizao remanescente em cermicas arqueolgicas e em rochas mostraram que a intensidade magntica da Terra, durante os ltimos 8500 anos, atingiu seu grau mximo entre os anos 400 e 100 antes da Era Crist quando o campo alcanou 1,6 vezes sua intensidade atual, e o mnimo por volta de 4000 anos antes da Era Crist, quando o campo diminuiu para 0,6 vezes em relao intensidade de hoje.56 Esses efeitos ou variaes de direo e intensidade so chamados de variao secular. De natureza regional, a variao secular constitui a base da datao magntica, uma vez que as variaes do campo magntico terrestre deixam seu trao na cermica endurecida sob a forma de magnetismo termo -remanescente (t.r.m.).

    Aplicao do t.r.m. datao arqueolgica Antes de iniciar a datao magntica da argila cozida que permaneceu in

    situ depois do cozimento, torna -se necessrio determinar o comportamento do campo geomagntico atravs de mensuraes efetuadas nas estruturas geolgicas de idade conhecida, dentro da regio escolhida para a aplicao do mtodo. Os resultados so assinalados numa curva que mostra a variao secular naquela regio, durante um longo perodo de tempo. O conhecimento da direo do campo magntico registrado em argila cozida de idade desconhecida, nessa mesma regio, possibilita que sua data de cozimento seja determinada atravs da comparao com a curva de variao secular.

    Os espcimes mais adequados datao magntica so as argilas cozidas provenientes de fornos, foges e fornalhas que permaneceram em seus lugares de origem at hoje. Como ainda no existe um magnetmetro porttil para facilitar o clculo in situ da direo do campo geomagntico, as amostras devem ser removidas para medio em laboratrio. essencial que em cada amostra figure a marca de sua orientao original, que servir como ponto de referncia na determinao de seu magnetismo remanescente. Na prtica, a operao consiste em cobrir o objeto com gesso de Paris, cuidando para que a superfcie superior desse molde seja horizontal e que indique a direo do Norte geogrfico, antes que a amostra seja destacada. Desse modo, possvel determinar simultaneamente a antiga declinao (D) e o antigo ngulo de

    55 AITKEN. M. J. 1961; COOK, R. M. 1963, p. 59 -71.56 RUCHA. V. 1970, p. 47 -55; BUCHA, V. 1971, p. 57 -117.

  • 236 Metodologia e pr -histria da frica

    inclinao (I).57 Para compensar anomalias, seis ou mais amostras devem ser utilizadas, de preferncia retiradas de diferentes partes da estrutura, levando -se em conta uma certa simetria.58

    Resultados arqueomagnticos relativos declinao e inclinao foram obtidos para a Inglaterra, a Frana, o Japo, a Islndia e a Rssia. Pelas informaes de que dispomos, o mtodo ainda no foi testado na frica. Entretanto, como tem progredido muito nos ltimos anos, espera -se que ele possa ser logo aplicado para datao na Arqueologia da frica.

    Datao por termoluminescncia A termoluminescncia a emisso de luz produzida por uma substncia

    altamente aquecida. Difere totalmente da incandescncia (obtida aquecendo ao rubro um corpo slido) e resulta de uma liberao da energia acumulada em forma de nutrons aprisionados no material aquecido.

    Origem Toda cermica ou porcelana contm pequenas propores de componentes

    radioativos (alguns milionsimos de urnio e trio e alguns centsimos de potssio). Alm disso, o solo prximo ao lugar em que foram descobertas as cermicas pode conter impurezas radioativas; por outro lado, raios csmicos podem ter penetrado o solo, emitindo radiaes que bombardearam as matrias cristalinas da cermica, como o quartzo. A ionizao resultante produz eltrons que podem ser aprisionados dentro da estrutura cristalina. Essas armadilhas de eltrons so metastveis e, quando uma amostra de cermica aquecida, desaparecem, liberando o excesso de energia em forma de ftons. A intensidade dessa luz termoluminescncia est diretamente relacionada idade da pea. Depende tambm da natureza particular dos elementos que geram a termoluminescncia presentes na amostra e nas proximidades do local em que foi encontrada.59 Medindo a quantidade de urnio e potssio contidos no fragmento e no solo vizinho, pode -se calcular a intensidade da radiao recebida anualmente pelo fragmento. Em princpio, a idade diretamente calculada atravs da relao60:

    57 AITKEN, M. J. 1970, p. 77 -88. 58 COOK, R. M. 1963, p. 59 -71. 59 AITKEN, M. J. 1970, p. 77 -88; HALL, E. T. 1970, p. 135 -41. 60 AITKEN, M. J. 1970, p. 77 -88.

  • 237A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    Idade = intensidade de radiao acumulada intensidade anual de radiao

    Preciso dos resultados e perspectivas Atualmente, a preciso dos resultados de mais ou menos 10%, um pouco

    inferior, portanto, preciso obtida com a datao por radiocarbono. A causa dessa diferena pode ser atribuda s incertezas que surgiram, principalmente quanto s circunstncias em que o objeto foi enterrado e quanto ao grau de umidade do solo adjacente, do qual depende a intensidade de radioistopos do fragmento. Espera -se que pesquisas posteriores resolvam tais dificuldades, mas, por razes de ordem prtica, difcil que os resultados atinjam uma margem de preciso maior que 5%, aproximadamente.61

    Entretanto, apesar de no apresentar uma exatido total, essa tcnica mais vantajosa que a datao com radiocarbono, j que a cermica muito mais abundante nos stios arqueolgicos do que as matrias orgnicas; alm disso, trata -se de datar o cozimento da cermica, enquanto a datao com radiocarbono de uma amostra de madeira ou carvo tende a situar o corte da rvore e no a data de sua utilizao ulterior.

    No Egito, essa tcnica ter uma finalidade muito importante. At o momento, as culturas neolticas e pr -dinsticas no Egito tm sido datadas conforme o tipo de cermica que as caracteriza, de acordo com o Sequence Dating System, inventado por Flinders Petrie.62 Agora, graas datao por termoluminescncia, ser possvel determinar a poca exata em que se desenvolveram essas culturas.

    Tcnicas utilizadas na prospeco arqueolgica

    O objetivo bsico do emprego de tcnicas cientficas na prospeco do solo a descoberta de informaes sobre stios arqueolgicos enterrados, a fim de preparar ou substituir as escavaes. Isso pode economizar tempo; esforos e despesas. A pesquisa arqueolgica atravs dos mtodos cientficos inclui as seguintes tcnicas:

    61 Loc. cit.62 PETRIE, W. M. F. 1901.

  • 238 Metodologia e pr -histria da frica

    Fotografia area usada sobretudo no levantamento de determinada estrutura, segundo seu

    traado geomtrico. Tem duas utilizaes principais: primeiramente, permite uma viso mais distante e portanto mais clara dos pontos onde os vestgios que afloram superfcie parecem juntar -se para formar um desenho mais significativo.63 O estudo das fotografias areas possibilita, assim, a definio das reas que devem ser exploradas, tendo em vista obter uma ideia de conjunto de todo o complexo arqueolgico. No Egito, esse mtodo foi aplicado no estudo dos templos de Karnak, em Luxor; a rea do stio onde esto os templos de aproximadamente 150 hectares.

    Outra vantagem consiste em revelar a existncia de vestgios arqueolgicos recobertos por terras cultivadas, graas s marcas da vegetao. Essas marcas resultam das diferentes condies de umidade do solo. A vegetao que recobre um muro de pedra enterrado se distingue levemente por uma linha mais clara; sobre uma vala encoberta, ela mais rica, tendo aparncia mais escura. A configurao geomtrica dessas marcas permite o reconhecimento e a escavao de runas enterradas.64

    Anlise do solo Vestgios de antigas cidades e de cemitrios podem ser localizados atravs

    da anlise do solo. Como o fosfato de clcio o constituinte principal do esqueleto e dos diferentes detritos deixados pelo homem, sua porcentagem ser naturalmente mais elevada nas reas antigamente habitadas ou que serviam de cemitrio. Portanto, os limites dessas zonas arqueolgicas podem ser definidos graas medio da taxa de fosfato em amostras de solo retiradas da rea em intervalos regulares.

    Anlise do plen A polinizao das plantas com flor deve -se geralmente ao dos pssaros,

    dos insetos ou do vento. As flores polinizadas pelo vento produzem grandes quantidades de gros de plen, cuja maior parte cai no solo sem ser fertilizada. Esses gros geralmente se decompem; mas se acontece de carem em solo apropriado (como turfeiras ou barro), podem fossilizar -se e ser facilmente

    63 LININGTON, R. E. 1970, p. 89 -108. 64 AITKEN, M. J. 1961.

  • 239A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    examinados ao microscpio. A identificao e a enumerao dos vrios tipos de plen presentes numa amostra podem fornecer informaes sobre o ambiente ecolgico no qual restos humanos e artefatos esto situados; o conhecimento desse ambiente ecolgico pode, por sua vez, indicar o tipo de vida que predominava na poca.

    Entretanto, a anlise do plen s til como tcnica de datao se as amostras puderem ser relacionadas a uma cronologia baseada num mtodo de datao direta, como o do radiocarbono.

    Para maiores detalhes dessa tcnica podem ser consultados Faegri e Iversen65 e Dimbleby66.

    Estudo da resistividade eltrica Esta a primeira tcnica geofsica adaptada Arqueologia. Consiste em

    aplicar uma carga eltrica ao solo e medir a resistncia do fluxo da corrente eltrica. A resistncia depende da natureza do solo, da quantidade de gua retida nos seus poros e da quantidade de sais solveis. Rochas duras e compactas, como as de granito e diorito, apresentam alta resistividade se comparadas ao solo argiloso. Portanto, o estudo da resistividade deve ser aplicado principalmente na deteco de estruturas de pedra enterradas em solo lamacento ou de estruturas escavadas na rocha e recobertas de terra.67

    O sistema normalmente adotado por esse mtodo consiste em introduzir quatro sondas de metal no solo, fazer passar a corrente entre as duas sondas exteriores e medir a resistividade entre as outras duas. O valor da resistncia uma mdia aproximada para o material que se encontra sob as sondas interiores, at uma profundidade de aproximadamente uma vez e meia a distncia entre elas, contanto que esse material seja razoavelmente uniforme.68

    Normalmente, quase todas as aplicaes do estudo da resistividade consistem em traar linhas de medida conservando o mesmo esquema de conexo e as mesmas distncias, a fim de determinar as mudanas nos valores de resistividade. Frequentemente essas linhas so combinadas para formar, em seu conjunto, uma grade retangular de valores; a localizao de estruturas enterradas indicada pelas partes que fornecem valores anormais.

    65 FAEGRI, K. e IVERSEN, J. 1950.66 DIMBLEBY. G. W. 1963, p. 139 -49.67 AITKEN, M. J. 1961.68 LININGTON, R. E. 1970, p. 89 -108.

  • 240 Metodologia e pr -histria da frica

    Essa tcnica foi parcialmente substituda pela prospeco magntica, em funo de algumas desvantagens que apresenta, principalmente a lentido do exame e o fato de que os resultados podem ser afetados por efeitos climticos a longo prazo; alm disso, a interpretao dos resultados tende a ser difcil, com exceo dos casos mais simples.69

    Exame magntico , atualmente, a tcnica mais comum em prospeco arqueolgica. Consiste

    em medir a intensidade do campo magntico terrestre nos pontos situados acima da superfcie do stio que se vai prospectar. As variaes dessas medidas podem revelar a presena de estruturas arqueolgicas. Atravs dessa tcnica, possvel detectar restos enterrados de ferro, estruturas de terra cozida, como fornos, por exemplo, poos cavados na rocha e aterrados, ou ainda estruturas de pedra enterradas em solo argiloso.

    Os objetos de ferro enterrados provocam variaes muito grandes, enquanto que para o restante dos materiais essas variaes so muito fracas. Consequentemente, a tcnica do exame magntico no tem nenhuma utilidade a menos que o instrumento de deteco seja suficientemente sensvel para detectar variaes muito pequenas; alm disso, deve ser rpido e de fcil manejo.70 O Archaeological Research Laboratory, da Universidade de Oxford, desenvolveu com xito um magnetmetro de prton que satisfaz todas essas exigncias.71 Compe -se de duas partes: a garrafa de deteco e o contador. A garrafa de deteco montada sobre um trip de madeira e transportada por um operador de um ponto a outro da rea a ser estudada. Outro operador controla o contador e registra as medidas na forma de um plano. A interpretao desse plano identificar a situao e os esboos das estruturas arqueolgicas contidas no solo.72 Outros tipos de magnetmetros tm sido aperfeioados, como o magnetmetro diferencial de prtons, o fluxgate gradiometer,73 o magnetmetro de csio, o magnetmetro de bombeamento de ressonncia eletrnica.74 Cada um deles apresenta certas vantagens, mas o aparelho mais til em quase todos os casos o magnetmetro diferencial de prtons.

    69 Loc. cit .70 AITKEN, M. J. 1963, p. 555 -68. 71 AITKEN, M. J. 1961. 72 Loc. cit.73 HALL, E. T. 1965, p. 112.74 SCHOLLAR, I. 1970, p. 103 -19.

  • 241A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    O mtodo magntico bem mais vantajoso que o da resistividade, pois mais simples e rpido e seus resultados so mais fceis de interpretar.75

    Sondagem das pirmides do Egito atravs de raios csmicos Os raios csmicos consistem em uma corrente de partculas eletricamente

    carregadas, conhecidas como mesons - ou muons. Esses raios alcanam a Terra com igual intensidade a partir de todos os pontos do cu. Cada metro quadrado atingido por aproximadamente 10000 muons por segundo, qualquer que seja sua direo. Os raios csmicos tm um poder de penetrao extremamente grande, muito superior dos raios X, e sua velocidade quase igual velocidade da luz.

    A sondagem com auxlio desses raios se baseia no fato de que os muons perdem energia ao atravessarem a matria. A perda de energia (ou absoro de muons) proporcional densidade e espessura da matria que atravessam. A intensidade ou a quantidade de raios csmicos que penetra pode ser calculada por um aparelho conhecido como cmara de fascas. No caso das pirmides, o aparelho colocado no interior de uma cmara subterrnea. Os muons que atravessarem um espao vazio (uma cmara, uma passagem desconhecida) sofrero menor reduo de velocidade que os que atravessarem a rocha slida; assim, os raios csmicos que passarem atravs do espao vazio tero maior intensidade, fenmeno que ser registrado pela cmara de fascas. Com duas cmaras de fascas orientadas horizontalmente e distantes uma da outra cerca de 30 cm no sentido vertical, torna -se possvel no apenas detectar qualquer cmara secreta, mas tambm localiz -la no espao de alguns metros. Assim, a escavao ser orientada para a direo indicada pelos raios.

    A sondagem foi feita pela primeira vez na Pirmide do rei Qufren, da quarta dinastia ( -2600). As informaes foram analisadas atravs de um computador e os resultados anunciados no dia 30 de abril de 1969, indicando dois fatos importantes: primeiramente, a cmara morturia do rei no se situa exatamente no centro da base da pirmide, mas alguns metros para o norte. Tal descoberta coincide com os resultados obtidos atravs do estudo magntico, provando assim a validade dessa tcnica na sondagem de pirmides. Constatou -se tambm que a tera parte superior da pirmide no contm cmaras nem corredores desconhecidos.

    Repetiu -se a experincia com outro aparelho, projetado para sondar a pirmide inteira. A anlise das informaes registradas indicou que a pirmide no contm nenhuma cmara ou corredor desconhecido, o que confirmou as previses arqueolgicas.

    75 LININGTON, R. E. 1970, p. 89 -108.

  • 242 Metodologia e pr -histria da frica

    Tcnicas de conservao

    O objetivo deste trabalho no a descrio dos mtodos tcnicos utilizados na conservao de artefatos feitos de diversos materiais, como cermica, faiana, vidro, marfim, osso, madeira, couro, papiro, tecidos, metais, etc. Sua variedade tal que excederia o espao reservado a este captulo. Vrios livros76 e peridicos especializados tratam do assunto, particularmente Studies in Conservation, rgo do International Institute for Conservation of Historic and Artistic Works, de Londres.

    Entretanto, os mais srios problemas de conservao na frica esto relacionados fragilidade dos materiais e violenta deteriorao dos monumentos de pedra.

    Fragilidade dos materiais Devido ao excessivo calor e aridez de numerosos pases africanos, os artefatos

    feitos de material orgnico (pergaminho, papiro, couro, madeira, marfim, etc.) tornaram -se extremamente frgeis. Esses materiais devem ser manuseados com o mximo cuidado, para no correrem o risco de se desfazer em minsculos fragmentos. Antes de mais nada, preciso embrulh -los em panos midos, conservando -os por algum tempo em lugar fechado e mido, ou trat -los com vapor num recipiente apropriado, para restaurar, total ou parcialmente, sua maleabilidade. Ento podem ser desenrolados ou desdobrados sem risco de fragmentao.

    Aps terem readquirido sua maleabilidade, convm que esses artefatos sejam exibidos ou conservados em museus ou depsitos com ar condicionado, a uma temperatura de 17 2oC e umidade relativa de 60 a 65%, a fim de no se tornarem novamente quebradios.

    A violenta deteriorao dos monumentos de pedra Este grave problema merece ser estudado detalhadamente:

    Principais causas de deteriorao Os principais agentes de deteriorao dos monumentos de pedra na frica so:

    migrao dos sais: em presena de gua ou de umidade, os sais solveis emigram, por capilaridade, do solo salino para a pedra dos monumentos. Num clima

    76 ORGAN, R. M. 1968; PLENDERLEITH, H. J. 1962; PAYDDOKE, E. 1963; SAVAGE, G. 1967.

  • 243A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    rido, esses sais passam do interior da pedra superfcie exterior sob a forma de solues aquosas; podem cristalizar -se na prpria superfcie, provocando sua desintegrao, ou sob a superfcie, fazendo com que se rompa. Esses efeitos so mais pronunciados na base de paredes ou colunas, onde a pedra entra em contato com o solo salino, como pode ser observado em algumas colunas do templo de Buhen, no Sudo;

    intempries: na frica, a pedra muito afetada pelas excessivas variaes de temperatura e umidade, que provocam a ruptura dos elementos superficiais da maioria das rochas.

    Em muitos lugares, principalmente nas regies costeiras, os dois fatores de degradao agem conjuntamente e provocam sria deteriorao dos monumentos, como se pode notar nos templos romanos de Leptis Magna e Sabratha, na Lbia.

    Tratamento das superfcies e sua ineficcia Numerosas tentativas de consolidar as superfcies de pedra foram efetuadas,

    atravs do tratamento com produtos orgnicos de conservao ou silicatos inorgnicos. Mas esses tratamentos revelaram -se no apenas ineficazes como tambm nocivos, pois aceleram a deteriorao e as fraturas da pedra. O fracasso dessas tentativas foi enfatizado no simpsio internacional sobre a conservao de monumentos de pedra, onde se admitiu que o problema ainda est longe de ser resolvido e que necessrio abord -lo com o mximo cuidado.

    Esforos internacionais para resolver o problema As dificuldades inerentes ao problema e sua gravidade levaram o ICOM, o

    ICOMOS e o Centro Internacional para a Conservao a formar, em 1967, um comit de dez especialistas para estudar a questo. Estudos foram levados a efeito e muitos relatrios apresentados. O comit continuou suas atividades at o fim de 1975, no intuito de propor uma srie de testes -padro que permitissem avaliar o grau de deteriorao da pedra e a eventual eficcia dos tratamentos de conservao.

    Uma nova esperana O Professor Lewin desenvolveu um novo mtodo destinado a consolidar a

    superfcie do mrmore e da pedra calcria.77 Consiste em um tratamento das

    77 LEWIN, S. Z. 1968, p. 41 -50.

  • 244 Metodologia e pr -histria da frica

    partes deterioradas com uma soluo fortemente concentrada de hidrxido de brio (aproximadamente 20%), qual adicionada certa quantidade de ureia (aproximadamente 10%) e de glicerol (aproximadamente 15 %). Quimicamente falando, o mtodo baseia -se na substituio dos ons de clcio da pedra deteriorada por ons de brio. Depois do tratamento, a pedra apresenta um endurecimento evidente e oferece maior resistncia ao dos fatores de degradao. O carbonato de brio assim formado incorpora -se pedra (sem constituir um revestimento superficial com propriedades distintas das do interior). Espera -se que, com esse mtodo, as superfcies tratadas no se pulverizem e que protejam as camadas subjacentes contra o ataque das intempries.

    O tratamento foi utilizado em julho de 1973 para reforar o pescoo da esttua da Esfinge de Gizeh, em rocha calcria, que estava em vias de desintegrao. At agora, o resultado tem sido satisfatrio, mas necessrio manter o pescoo da esfinge em observao ainda por uns dez anos, pelo menos, antes de consagrar definitivamente esta tcnica de proteo e conservao de rochas calcrias.

    Paliativos Por mais confiana que depositemos na tcnica de Lewin, o problema da

    conservao dos monumentos de pedra por tratamento qumico ainda no est resolvido. Certas medidas de ordem mecnica ainda so recomendadas para garantir sua proteo contra os fatores de degradao. Podemos destacar algumas delas:

    Nenhum produto que possa vedar os poros da pedra deve ser empregado no tratamento das superfcies dos monumentos ao ar livre, diretamente expostos aos raios solares. A camada exterior da superfcie correria o risco de destacar -se em escamas.

    Convm dessalinizar regularmente o solo sobre o qual foram construdos os monumentos. A gua utilizada deve ser retirada por um sistema de drenagem adequado.

    Na medida do possvel, os monumentos de pedra devem ser isolados dos solos salinos, a fim de impedir que os sais solveis migrem do solo para a pedra. Esse isolamento pode ser efetuado com a introduo de uma folha de chumbo ou uma espessa camada de betume sob a esttua, o muro ou a coluna a ser protegida.

    Quando o monumento contm sais solveis que podem provocar eflorescncia ou criptoflorescncia, convm eliminar os sais lavando -os com

  • 245A Arqueologia da frica e suas tcnicas Processos de datao

    gua, e cobrir as partes atingidas com argila arenosa at que a pedra esteja completamente livre desses sais.

    Quando o monumento no muito grande, possvel transport -lo para um museu ou um abrigo, a fim de proteger sua superfcie dos efeitos deletrios da ao climtica. Outra soluo consiste em conserv -lo em seu lugar de origem e construir sobre ele um abrigo.

    Quando o teto estiver faltando, deve -se reconstru -lo, a fim de proteger as pinturas murais ou os baixos -relevos interiores da ao direta da luz solar e da chuva; assim, os desgastes causados pelas variaes de temperatura e umidade sero, at certo ponto, atenuados.

    Recomendaes relativas s restauraes Como um tratamento inadequado dos artefatos ou monumentos pode causar

    mais estragos ou at mesmo sua deteriorao completa, julgamos conveniente mencionar algumas regras de restaurao importantes recomendadas em conferncias internacionais:

    a) A ptina dos monumentos antigos no deve, de maneira alguma, ser lavada ou retirada para revelar a cor original da pedra. A limpeza das fachadas deve limitar -se retirada da poeira, de modo que a ptina fique intacta, pois constitui a caracterstica arqueolgica mais importante do monumento.

    b) Na restaurao de monumentos antigos, apenas as partes que esto desmoronando devem ser reconstrudas em seus lugares de origem. preciso evitar as substituies e as adies, a menos que sejam necessrias para sustentar as partes que desmoronam ou para proteger das intempries as superfcies antigas.

    c) Em todos os casos de reconstruo, deve -se intercalar argamassa entre as pedras, de modo que seu peso seja igualmente repartido sem acarretar deformaes ou fendas.

    d) A argamassa utilizada para a renovao das paredes deve ser, via de regra, idntica argamassa original, a menos que esta tenha sido gesso. O emprego de cimento no recomendado no caso de construes em rocha sedimentar, tais como calcrio ou arenito.

    e) A melhor argamassa para todos os casos de reconstruo a de cal, sem sal; razoavelmente malevel e porosa; consequentemente, no impede ligeiro deslocamento de pedras devido a mudanas de temperatura. Com seu emprego no ocorrem tenses nem fissuras.

  • 246 Metodologia e pr -histria da frica

    f ) Dentre os mtodos que permitem distinguir as superfcies das pedras adicionadas, os seguintes merecem ser mencionados:

    o novo paramento pode estar ligeiramente recuado em relao obra original;

    no proibido utilizar materiais diferentes, mas deve -se respeitar as dimenses dos blocos originais;

    pode -se tambm usar o mesmo tipo de material, mas nesse caso a forma e as dimenses dos blocos podem ser diferentes da forma e das dimenses dos elementos originais;

    as fileiras de pedras e todas as juntas podem ser alinhadas sobre as da obra original, mas os novos blocos devem ser moldados num aglomerado de pedras de tamanhos irregulares;

    marcas de identificao contendo a data da restaurao podero ser gravadas em todas as pedras novas;

    a superfcie das pedras novas pode ser completamente diferente da superfcie das antigas. Basta trat -la com um instrumento pontiagudo ou grav--la profundamente com um buril para que adquira um certo desenho geomtrico, feito, de preferncia, com linhas paralelas ou secantes.

  • C A P T U L O 1 0

    247Histria e lingustica

    Aada koy demnga woni (fulfulde) Lammii ay dekkal demb (wolof ) a fala que d forma ao passado.

    O negro africano estabelece uma ligao entre histria e lngua. Essa viso comum ao bantu, ao ioruba e ao mandinga. Mas no a que reside a originalidade. Na verdade, o rabe ou o grego anteriores a Tucdides concordaro em afirmar, com os Fulbe, que a narrativa o lugar onde se encontra o passado: Hanki koy daarol awratee.

    O que favorece a ligao entre histria e linguagem na tradio dos povos da frica negra a concepo que esta em geral conservou dos dois fenmenos. Tal concepo identifica, espontaneamente, pensamento e linguagem e encara a histria no como uma cincia, mas como um saber, uma arte de viver.

    A histria visa ao conhecimento do passado. A lingustica a cincia da linguagem e da fala. A narrativa e a obra histrica so contedos e formas de pensamento. A lngua , em si mesma, o lugar desse pensamento, o seu suporte.

    Evidentemente, a lingustica e a histria tm cada uma o seu domnio, seu objeto prprio e seus mtodos. No obstante, as duas cincias interagem, pelo menos em dois aspectos. Primeiramente, a lngua como sistema e instrumento

    PARTE I Histria e lingustica

    P. Diagne

  • 248 Metodologia e pr -histria da frica

    de comunicao um fenmeno histrico. Ela tem a sua prpria histria. Em segundo lugar, como alicerce do pensamento e, portanto, do passado e do conhecimento deste, ela o lugar e a fonte privilegiada do documento histrico. Assim, a lingustica, entendida aqui em seu sentido mais amplo, abrange um campo de pesquisa que fornece histria pelo menos dois tipos de dados: por um lado, uma informao propriamente lingustica; por outro, um documento que se poderia chamar supralingustico. Graas aos fatos de pensamento, aos elementos conceptuais utilizados numa lngua e aos textos orais e escritos, ela permite que se leia a histria dos homens e de suas civilizaes.

    Estando a problemtica assim definida, fica mais fcil perceber a rea comum ao historiador e ao linguista que trabalham com a frica.

    Cincias lingusticas e histria

    Todas as cincias que tm por objeto a lngua e o pensamento podem contribuir para a pesquisa histrica. Algumas, porm, apresentam uma conexo mais direta com a histria. Essa uma tradio muito bem estabelecida, embora possa ser contestada luz de uma reflexo mais profunda.

    Assim, comum dizer que o estudo do parentesco das lnguas situa -se no ponto de encontro entre a lingustica e a histria, mais do que na anlise da evoluo do material fornecido pelos textos escritos ou orais e pelos vocbulos de um idioma. Mas os dois tipos de pesquisa se referem a fatos de lngua ou pensamento e, portanto, de histria.

    A esse respeito, a historiografia europeia sugeriu uma separao entre cincia histrica propriamente dita e histria literria ou histria das ideias. Mas essa distino s se justifica em determinados contextos.

    Os Bakongo de civilizao bantu, os Ibo de Benin ou os Susu de cultura sudanesa deixaram poucos textos (ou mesmo nenhum) que correspondem s normas de uma cincia histrica moderna. Em contrapartida, produziram, como fonte de informao, uma abundante literatura oral com gneros distintos de modo relativamente ntido e obras que hoje seramos tentados a classificar como contos, novelas, narrativas, crnicas de epopeias histricas, lendas, mitos, obras filosficas ou cosmognicas, reflexes tcnicas, religiosas ou sagradas. Nelas se mesclam o verdadeiramente vivido e a fico, o evento que pode ser datado e o mito puramente imaginrio.

  • 249Histria e lingustica

    A reconstruo da histria dos Bakongo, dos Ibo ou dos Susu passa pela anlise crtica dessas literaturas e tradies orais. Tambm no pode negligenciar a anlise dos seus discursos, tcnicas e conhecimentos, a decifrao das linguagens, dos conceitos e do vocabulrio que tais grupos utilizaram e que continuam a revelar a histria de cada um deles.

    As cincias e os mtodos aos quais nos referimos aqui, como suscetveis de esclarecerem o historiador da frica, no esgotam a lista. Talvez isso no seja um mal, do ponto de vista da clareza. Fixando limites razoveis para suas pesquisas, o especialista em linguagem poder aprofundar melhor determinados setores. Assim, tendo em vista a dimenso lingustica de suas investigaes, deixa a outros pesquisadores, historiadores das ideias, especialistas em cincias, economia ou literatura o cuidado desses setores.

    Cincia classificatria e a histria dos povos africanos Classificar as lnguas j revelar o parentesco e a histria dos povos que as

    falam. Podem -se distinguir diversos tipos de classificao:

    Classificao gentica Estabelece o parentesco e os vnculos de filiao no interior de uma famlia

    lingustica. Em consequncia, ajuda a restabelecer, ao menos em parte, a unidade histrica de povos e culturas que utilizam lnguas da mesma origem.

    Classificao tipolgica Reagrupa as lnguas que apresentam semelhanas ou afinidades evidentes

    em suas estruturas e sistemas. Lnguas de origem idntica ou totalmente diferente podem utilizar os

    mesmos modos de formao lexical, nominal, verbal ou pronominal, ainda que sejam muito distantes umas das outras do ponto de vista gentico, histrico ou geogrfico.

    A tendncia a utilizar a mesma forma nominal e verbal encontrada tanto em wolof como em ingls:

    liggeey, trabalhar; liggeey bi, o trabalho to work, trabalhar; the work, o trabalho

    No entanto, apesar dessa semelhana tipolgica, os dois idiomas esto gentica e geograficamente muito afastados um do outro. Pode acontecer,

  • 250 Metodologia e pr -histria da frica

    por outro lado, de as lnguas pertencerem mesma famlia e serem de tipos diferentes. Seu parentesco estabelecido a partir de um vocabulrio comum convincente, mesmo que tenham evoludo em bases estruturais divergentes. s vezes, devido ao emprstimo e ao abandono de vocabulrio, a diferena pode aparecer mesmo no plano do lxico. As classificaes elaboradas para as lnguas africanas no agrupam, por exemplo, certos elementos das famlias chdica e senegals -guineense. Contudo, a considerao dos sistemas fonolgicos, da morfologia e da estrutura sinttica impe o reagrupamento tipolgico de pelo menos a maior parte dessas lnguas.

    Classificao geogrfica Reflete sobretudo uma tendncia instintiva para comparar e reagrupar lnguas

    que coexistem numa rea. Quase sempre resultado de informao insuficiente. As classificaes propostas para a frica so muito frequentemente

    geogrficas em setores essenciais. Por esse motivo, elas deixam de lado alguns fenmenos como a migrao e a imbricao dos povos. Koelle, M. Delafosse, D. Westermann e J. Greenberg fazem referncia principalmente a denominaes e agrupamentos topolgicos e geogrficos. Eles estabelecem categorias tais como oeste -atlntico, nger -congo, senegals -guineense, ngerochdico, etc.

    Uma classificao rigorosa das lnguas africanas requer procedimentos que demonstrem que as formas, o vocabulrio e as estruturas lingusticas propostas como elementos de comparao so no apenas representativos, mas fazem parte do patrimnio original das lnguas comparadas. A semelhana no deve ser, portanto, resultado de emprstimos ou de contatos antigos ou recentes.

    Sabemos que, por motivos histricos, o rabe e as lnguas semitas, como tambm o francs, o portugus, o africner e o ingls depositaram, por vrios sculos e mesmo alguns milnios, uma quantidade considervel de vocabulrio em muitas lnguas africanas. Algumas variantes do kiswahili, que uma lngua bantu, contm mais de 60% de emprstimos lexicais do rabe. Da a concluir por paixo religiosa ou falta de precauo cientfica que o kiswahili pertence ao grupo semito -rabe, h apenas um passo. Algumas vezes, chegou -se realmente a essa concluso.

    Com o tempo, as formas originalmente comuns a mais de uma lngua podem ter sofrido transformaes de ordem fontica, morfolgica ou estrutural. Essa evoluo, que obedece a certas leis, um fenmeno conhecido e analisvel. O significado dessas formas, o significado das palavras que fazem parte do vocabulrio a ser comparado, pode ter variado dentro dos limites de um campo

  • 251Histria e lingustica

    semntico passvel de ser mais ou menos apreendido. Em sua forma moderna, por exemplo, o wolof mostra um emudecimento da vogal final depois de uma consoante dupla: Bopp ou fatt em vez de Boppa ou fatta, como ainda dizem os gambianos e os Lebu. A forma neds do egpcio antigo transforrriou -se em neddo em fulfulde moderno e nit em wolof. O bantu diz mutumuntu; o haussa, mutu; o mandinga, mixi ou moxo; o fon, gbeto; o mina, agbeto, etc. A palavra egpcia kemit j significou queimado ou preto. Hoje significa cinzas, queimaduras, etc.

    A reconstruo de uma lngua A reconstruo histrica de uma lngua Como tcnica de redescoberta do vocabulrio e do patrimnio estrutural

    comum, a reconstruo histrica de uma lngua leva em conta as mudanas descritas acima. Como procedimento, permite retraar a histria de uma lngua ou de uma famlia lingustica, ajudando a estabelecer a protolinguagem original e a datar os perodos de separao dos diversos ramos. Nesse sentido, a reconstruo constitui uma ajuda valiosa para a cincia classificatria propriamente dita.

    Vrios critrios e tcnicas so utilizados para reconstruir uma lngua e reinventar seus dados originais. A correspondncia de sons desempenha papel primordial na reconstruo de uma protolinguagem ou no estabelecimento de um parentesco. Quando se diz, por exemplo, que o p se torna f numa variante e que noutra o u se transforma em o, possvel, fazendo Fa = Pa, Lu = Lo, reconstruir o sistema fontico e as formas originais.

    Reconstruo fonolgica Esta tcnica uma etapa para a reconstruo do repertrio lxico e

    do vocabulrio original. Os fonemas no so os nicos elementos a mudar: a morfologia e as estruturas tambm evoluem. A funo sujeito em latim marcada por um fonema chamado nominativo; nas lnguas de origem latina ou de influncia latina, essa funo determinada principalmente pela sintaxe de posio: Homo vidit = vidit homo = o homem viu.

    No estabelecimento das protolnguas (protobantu, protochdico, etc.), sempre se faz referncia ao vocabulrio, ao repertrio lexical comum. Podem -se assim estabelecer porcentagens de palavras comuns, elaborando quadros de contagem lexical ou lexical count. A classificao de J. H. Greenberg1 recorre

    1 GREENBERG, J. H. 1963.

  • 252 Metodologia e pr -histria da frica

    frequentemente a essa tcnica. Em seu trabalho sobre o grupo oeste -atlntico, D. Sapir tambm a utiliza2. Ele indica que o seereer e o pulaar, colocados no mesmo grupo, tm 37% de palavras em comum; o baga koba e o temne, 79%; o temne e o seereer, apenas 5%; o basari e o safeen, tambm 5%.

    Esses idiomas so todos agrupados na mesma famlia, mas o vocabulrio comum (que pode ser abundantemente emprestado) no suficiente para negar ou afirmar uma relao histrica. Tem -se recorrido tambm similaridade de traos tipolgicos ou identidade de estrutura (comparao dos sistemas pronominal, verbal ou nominal, etc.).

    O componente tipolgico, associado aos dados fornecidos pela anlise lexical e fonolgica, possibilita atingir resultados que se tornam tanto mais comprobatrios quanto forem consideradas a histria e as influncias. A reconstruo tambm visa a datar a poca em que essa herana comum foi dividida no interior de uma protolngua e depois empregada por lnguas aparentadas e que estavam diferenciando -se progressivamente. Alm disso, preocupa -se em identificar a natureza da lngua primitiva que deu origem aos vrios falares que podem ser ligados a uma mesma protolngua.

    Reconstruo e datao Permitem determinar a idade dos materiais lxicos e estruturais coligidos

    durante o estudo das lnguas, com o objetivo de, por comparao, precisar com maior ou menor certeza o nvel em que se situa o parentesco lingustico. Portanto, essas tcnicas oferecem pontos de referncia precisos histria da separao dos povos que pertenciam ao mesmo universo cultural e lingustico. Ao mesmo tempo, iluminam de forma abrangente a histria das etnias e das civilizaes multinacionais e multitnicas.

    No contexto de uma pesquisa sobre uma poca recente e a propsito de lnguas escritas, o esforo relativamente menor. Em contrapartida, a raridade dos documentos posteriores ao IV milnio antes da Era Crist geralmente dificulta a tarefa. Nesse caso, entretanto, trata -se de elucidar a histria de perodos decisivos de mutao lingustica. Os processos de mudana do vocabulrio ou das estruturas examinados com esse propsito so, como veremos mais tarde, muito lentos e difceis de determinar. Para atenuar essa escassez de informao, necessrio recorrer a tcnicas mais ou menos eficientes.

    2 SAPIR, D. 1973.

  • 253Histria e lingustica

    A glotocronologia Essa tcnica, que foi aplicada na frica, uma das mais recentes no campo

    dos estudos lingusticas. Seu princpio bsico a datao da evoluo lexical de uma lngua, tomando como referncia o ritmo das mudanas no vocabulrio: vocabulrio cultural (conceitos filosficos, tcnicos, etc.) e vocabulrio bsico (nomes das partes do corpo humano, nmeros de um a cinco, vocbulos que designam os fenmenos naturais, etc.). A glotocronologia visa, portanto, a dar informaes sobre a idade, as etapas e o estado de evoluo dos termos e das formas do lxico. A evoluo do vocabulrio fundamental ou bsico relativamente lenta nas sociedades antigas, pelo menos quando no h mudanas sbitas causadas por acontecimentos decisivos. Particularmente na frica negra, graas aos trabalhos de Delafosse, foi possvel formar uma ideia desse ritmo de evoluo, atravs do levantamento de palavras registradas por escrito desde o sculo XI. O trabalho de Delafosse trata do vocabulrio das lnguas sudanesas, recolhido nos textos rabes. Esses termos no sofreram quase nenhuma mudana depois de um milnio de histria. Mas os defensores do mtodo vo ainda mais longe: a evoluo do vocabulrio bsico no s seria lenta, mas tambm constante em todas as lnguas. Tal a opinio de E. Swadesh, que tentou aplicar essa teoria a lnguas africanas. Em alguns casos precisos, os testes efetuados parecem ser comprobatrios.

    A glotocronologia postula um ritmo de transformao dos elementos do vocabulrio bsico, que pode ser medido em porcentagem. A taxa de reteno do vocabulrio estaria entre 81 2 e 85 0,4% por um perodo de 1000 anos. Baseando -se nisso, a glotocronologia chegou a algumas concluses, reunidas na clebre frmula:

    t = log c 1,4 log r

    onde t representa a durao, e a porcentagem de termos comuns s lnguas comparadas e r a taxa de reteno.

    Diante dos resultados obtidos, pode -se considerar a glotocronologia como uma medida temporal vlida, uma espcie de relgio histrico? As descobertas ficam aqum das expectativas por uma razo simples: num contexto de imbricao lingustica e de interferncia de lxicos cuja extenso mal conhecida e sem documentos precisos, escritos ou no, no fcil, no estado atual das pesquisas, seriar os dados e distinguir, por exemplo, entre mudanas normais e mudanas causadas por emprstimo, mesmo no lxico bsico.

  • 254 Metodologia e pr -histria da frica

    No entanto, uma cincia classificatria que empregasse todas essas tcnicas forneceria a chave da relao tnica e lingustica.

    Classificaes lingusticas e parentescos etnoculturais

    Apesar de alguns trabalhos notveis, o problema do parentesco lingustico e tnico est longe de ser resolvido na frica. Em muitas reas, a intuio de que existe essa relao ainda sobrepuja a prova estabelecida cientificamente.

    A ideia e a noo de uma comunidade bantu reunindo a grande maioria dos povos da frica central e meridional nasceram no sculo XIX com os trabalhos de W. Bleek. Numa obra clebre publicada em 1862, ele estabeleceu o parentesco das lnguas e das variantes dialetais faladas numa rea muito vasta, habitada por numerosos grupos tnicos, usando falares com maior ou menor grau de intercompreenso. Evidentemente, o parentesco de lngua e de cultura muito mais perceptvel primeira vista para as etnias que vivem lado a lado. o que ocorre com os Bantu.

    Em alguns casos, a distncia no espao e no tempo cria problemas. Os Fulbe so um bom exemplo. Da bacia do Senegal bacia do Nilo, eles constituem comunidades frequentemente isoladas, em meio a reas habitadas por etnias s vezes muito diferentes.

    Os Duala do Camares falam uma lngua bantu; na prtica, o duala pode ser considerado uma variante desse grupo, da mesma natureza que o lingala, tal como os falares de Mbandaka ou Kinshasa, apesar da distncia e do isolamento relativo que existem entre os Duala e as comunidades que falam estes dois ltimos idiomas.

    O egpcio faranico, que era falado h 5000 anos, apresenta seme lhanas espantosas com o haussa, o wolof ou o songhai.3

    Ocorrem ainda fenmenos de imbricao. Grandes lnguas de unificao continuam, por motivos diversos (polticos, econmicos, culturais, etc.), a servir de suporte integrao de etnias diferentes. Elas apagam, por meio da presso social e do peso histrico, os falares e as culturas, dos quais restam frequentem ente apenas alguns vestgios.

    O lingala, o haussa, o kiswahili, o ioruba, o twi, o ibo, o bambarajula, o fulfulde, o rabe ou o wolof so falados por milhes, talvez at por dezenas

    3 A esse respeito, podemos citar os trabalhos da Srta. HOMBURGER, os captulos deste livro escritos pelos professores GREENBERG e OBENGA e o relatrio do Simpsio do Cairo (volume II).

  • 255Histria e lingustica

    de milhes de pessoas de origens diferentes. Como veculos de comunicao, ultrapassaram largamente seu contexto tnico e geogrfico original, para se tornarem lnguas de civilizao comuns a povos inicialmente muito diferentes.

    Os Peul e os Seereer constituem, no Senegal, a imensa maioria dos falantes de wolof. O wolof era originariamente a lngua de uma etnia lebu, cujos traos foram encontrados na fronteira entre o Senegal e a Mauritnia. Hoje em dia, os Lebu constituem apenas uma pequena minoria, confinada na pennsula do Cabo Verde. No entanto, com a urbanizao do Senegal, a cultura e a lngua wolof esto fazendo muitas lnguas e dialetos desaparecerem sob nossos olhos: o seereer, o lebu, o fulfulde, o diula, o noon, etc. Esses idiomas, porm, pertencentes a povos diversos, desempenharam h apenas alguns sculos importante papel na histria da regio.

    Esta evoluo geral. O kiswahili, falado por dezenas de milhes de pessoas de fala bantu, nasceu de uma variante zanzibarita usada inicialmente em algumas aldeias. Expandiu -se depois com muita facilidade por uma rea lingustica bantu relativamente homognea, para constituir hoje, juntamente com o lingala, o principal veculo de comunicao na frica central e meridional. Cinquenta ou sessenta milhes de pessoas falam uma dessas duas lnguas, ou uma variante prxima, nos seguintes pases: Zaire, Repblica Popular do Congo, Repblica Centro -Africana, Uganda, Tanznia, Qunia, Zmbia, Malavi, frica do Sul, Sudo e Etipia.

    O pensamento africano tradicional tem -se mostrado com frequncia bastante consciente, no s dessa imbricao, mas tambm do papel explicativo que o fenmeno lingustico pode representar na elucidao da histria. Nas tradies africanas, h numerosas anedotas sobre o parentesco entre as lnguas ou sobre a origem mais ou menos mtica de sua diferenciao. Frequentemente trata--se de observaes justas. o caso das aproximaes que os Peul e os Seereer fazem, afirmando quase intuitivamente seu parentesco tnico e lingustico. Os Mandinga, os Bantu, os Akan e os Peul, que. se apresentam como falantes da mesma lngua, tm s vezes, enquanto grupos e subgrupos, a intuio de formar uma grande famlia comum. Na maior parte dos casos, contudo, o parentesco afirmado nasce apenas da necessidade de integrar a histria de uma comunidade que deve aparecer de um modo ou de outro no universo de uma certa etnia, ou ainda de coexistir com ela. Para a coerncia de uma saga tradicional, indispensvel que os grupos que hoje povoam um habitat comum tenham ligaes verdadeiras ou mticas uns com os outros.

    No entanto, o saber lingustico tradicional das sociedades africanas no fornece indicaes precisas que permitam evocar a existncia de uma cincia

  • 256 Metodologia e pr -histria da frica

    antiga ou de uma reflexo sistemtica sobre tais parentescos, ao contrrio do que se pode notar em outras reas, como, por exemplo, na cincia etimolgica, na prpria anlise da lngua, ou ainda nos fenmenos lexicais. O mestre da palavra e da eloquncia peul, bantu ou wolof possui em geral um interesse muito consciente e uma boa informao sobre a origem das palavras. O historiador de Cayor, por exemplo, ter prazer em descobrir as palavras emprestadas ou decompor um vocbulo para revelar sua origem: Barjal, diz o guardio da tradio de Cayor, vem de Baar e Jall. E explica ao mesmo tempo a contrao formal sofrida pelos componentes do termo, o contexto e o sentido da palavra. Em um artigo de A. Tall 4, h alguns exemplos desse tipo de trabalho, feito por etimologistas tradicionais entre os Mossi e os Gurmanche.

    O incio da cincia classificatria em lingustica ocorre com S. Koelle, Bleek e a pesquisa europeia. Esta inaugura -a no sculo XIX com os trabalhos dos comparatistas indo -europeus de quem os pesquisadores da lingustica africana foram discpulos.

    W. H. Bleek5 foi um dos primeiros que se props a estabelecer o parentesco das lnguas bantu, precedendo nessa rea autores como Meinhof ou H. Johnston. A contribuio de Delafosse6 s lnguas africanas do oeste bem conhecida. O mesmo pode ser dito sobre os trabalhos de C. R. Lepsius7, A. N. Tucker8 e G. W. Murray9 para as lnguas nilticas e de Basset para as lnguas berberes. O estudo do egpcio antigo, essencial pesquisa negro -africana, o das lnguas semticas ou indo -europeias da frica do Norte e at mesmo o de lnguas pnicas e greco--latinas tiveram tambm notvel valor.

    Como enfatiza J. H. Greenberg10, autor da classificao das lnguas africanas mais recente e atualmente mais discutida, os trabalhos modernos de maior interesse para o continente como um todo so os de Drexel11 e Meinhof12. Mas

    4 Cf. Tradition Orale. Centre Rgional de Documentation pour la Tradition Orale de Niamey, 1972.5 BLEEK, W. H. I. 1862 -1869.6 DELAFOSSE, M. In: MEILLET, A. e COHEN. 1924; HOMBURGER, L. 1941. Dentre os autores

    que propuseram classificaes, devemos citar A. WERNER, 1925 e 1930.7 LEPSIUS, C. R. 1888.8 TUCKER, A. N. 1940.9 MURRAY, G. W. v. 44.10 GREENBERG, J. H. 1957. Principalmente a anlise crtica feita em Nilotic hamitic -semito -hamitic.

    In: Africa, 1958 e tambm The Languages of Africa, The Hague, 1963.11 Cf. GREENBERG, J. H.12 MEINHOF, C. 1904, 1906, 1912 e 1932.

  • 257Histria e lingustica

    estes no so os primeiros nem os nicos. Koelle13, a partir de 1854, e Migeod14, em 1911, propuseram mtodos e modos de classificao, enquanto Bauman e Westermann15 apresentaram, em 1940, um sistema interessante sobre o mesmo tema.

    Entretanto, esses trabalhos continuam discutveis e discutidos por muitas razes. A primeira que a lingustica da frica no escapou ideologia etnocentrista. Sob esse aspecto, as crticas recentes do prprio J. H. Greenberg concordam perfeitamente com as que Cheikh Anta Diop exprimia h 20 anos, em Nations Ngres et Cultures, e que T. Obenga retomou, acrescentando -lhes novas informaes em sua conferncia no Festival de Lagos, em 1977. A segunda razo de ordem puramente cientfica. Quase todos os linguistas consideram prematuras as tentativas de classificao. No so tomadas as precaues metodolgicas indispensveis e ainda no se reuniu material devidamente analisado e preparado para uma comparao gentica ou mesmo tipolgica das lnguas africanas.

    Insuficincia dos trabalhos At mesmo a simples enumerao das lnguas africanas encontra obstculos,

    j que o levantamento desses idiomas ainda no atingiu resultados muito precisos. Estima -se que existam no continente de 1300 a 1500 idiomas classificados como lnguas. As monografias existentes sobre tais falares resumem -se s vezes coleta de uma vintena de palavras mais ou menos bem transcritas. A ausncia de uma anlise profunda da estrutura, do lxico e da possvel intercompreenso um fato corrente no estudo da imensa maioria dos falares africanos. Assim, as classificaes propostas periodicamente tornam -se caducas muito depressa. Diversos falares classificados como lnguas so apenas variantes dialetais de um mesmo idioma. A partir de testemunhos vagos, que apiam concluses de autores ou informantes desavisados, as variantes foram rapidamente classificadas no apenas como lnguas diferentes, mas como elementos de famlias diferentes. E como afirmar que o bambara uma lngua diferente do mandinga de Casamance ou que o ioruba de Benin diferente do de Ife. Em ambos os casos, trata -se de variantes. Meinhof tornou -se conhecido pelos erros dessa gravidade que cometeu no estudo das lnguas de Kordofan.

    13 KOELLE, S. W. 1854.14 MIGEOD, F. W. 1911.15 BAUMAN. H. e WESTERMANN, D. 1962.

  • 258 Metodologia e pr -histria da frica

    certo que alguns progressos se verificaram recentemente. Contudo, no existe contexto favorvel a um trabalho de sntese rigoroso. De fato, no possvel classificar lnguas que ainda no foram identificadas com exatido e analisadas precisamente. Alguns exemplos concretos ilustram a amplido das controvrsias e o grau das incertezas. Os dois primeiros referem -se aos falares da fronteira geogrfica atual entre a famlia camito -semtica e a famlia negro -africana. O terceiro refere -se ao grupo oeste -atlntico, ou ainda senegals -guineense.

    Dos trabalhos de C. Meinhof (1912)16, M. Delafosse (1924)17, C. Meek (1931)18, J. Lukas (1936)19 e M. Cohen (1947)20 aos de J. H. Greenberg, em 1948, ou de A. Tucker e A. Bryan, em 196621, e s crticas recentes de T. Obenga22, no h perfeita concordncia sobre os dados nem sobre o mtodo, os componentes dos grupos ou a gnese e a natureza das relaes entre os falares. O contato e sobretudo a geografia realmente unem, de modo indiscutvel, as lnguas faladas do Nilo bacia do Chade. A coexistncia milenar do negro--africano e do semtico abriga a um fundo comum de emprstimo mtuo considervel. Essas contribuies recprocas dificultam a separao entre os dados originais e a aquisio exterior.

    O problema saber em que medida o vocabulrio prprio do egpcio antigo, do haussa, do copta, do baguirmiano, do sara e das lnguas chdicas, que pode ser encontrado no berbere e nas lnguas semticas tais como o rabe e o amrico, atesta parentesco entre tais idiomas ou simples influncia de uns sobre outros.

    As informaes sobre o egpcio antigo remontam a 4000 anos e sobre o semtico a 2500 anos. O chdico, o berbere e o cuxita, analisados no mesmo contexto, s fornecem informaes consistentes nos sculos XIX e XX da Era Crist.

    Em 1947, M. Cohen publica seu Essai Comparatif sur le Vocabulaire et la Phontique du Chamito Smitique, em que compara o egpcio, o berbere, o semtico, o cuxita e o haussa, que evoca esporadicamente. Desde 1949, Leslau23 e Hintze24 questionam as concluses de Cohen e at mesmo seus mtodos. J. H. Greenberg,

    16 MEINHOF, C. 1912.17 DELAFOSSE, M. 1924. 18 MEEK, C. 1931. 19 LUKAS, L. 1936.20 COHEN, M. 1947; GREENBERG, J. H. 1948. Hamito -Semitic. SJA 6.47.63. 21 TUCKER, A. e BRYAN, A. 1966. 22 OBENGA, T. 1977. Comunicao no Festival de Lagos23 LESLAU, W. 1949. 24 HINTZE, F. 1951.

  • 259Histria e lingustica

    considerando que contestado o prprio princpio de um domnio camito--semtico, aumenta os componentes do grupo, sugerindo um quinto elemento distinto, o chdico. Ele d ao grupo todo o nome de camtico e, depois, de afro--asitico. Essas concluses so objeto de controvrsia a partir de sua publicao. Polotsky25 pe em dvida que, no estgio atual, seja possvel afirmar a existncia de cinco ramificaes. Note -se que Greenberg repete, embora de modo no convincente, a tese predominantemente geogrfica a respeito do chdico e de suas ligaes contida em Languages of the World. Basta consultar as classificaes divergentes de Greenberg, Tucker e Bryan, constantemente questionadas at pelos prprios autores, para ter uma ideia do carter provisrio das concluses.

    Os trabalhos recentes j do consistncia noo de uma realidade chdica, cujas fronteiras se mostram bem mais distantes que as margens do lago. Newman e Ma26, em 1966, e Illie Svity27, em 1967, aprofundaram o conhecimento do protochadiano. Os trabalhos de Y. P. Caprille28 limitaram sua extenso ao prprio Chade. Com base em observaes sistemticas, pode -se sugerir um lao gentico entre o grupo sara, o grupo chadiano e vrias lnguas classificadas como oeste -atlnticas (seereer, pulaar, wolof, safeen, etc.)29. Em si mesmas, essas contribuies lanam dvidas sobre todos os esforos de classificao, destaca C. T. Hodge num excelente artigo30.

    O principal problema, a natureza das relaes entre as lnguas da fronteira negro -africana e indo -europeia, ainda no est resolvido. O peso dos trabalhos que assimilam o mundo cultural africano ao semtico permanece como problema.

    verdade que a questo da identidade e dos componentes do negro -africano continua a existir. Ela enfatizada no simpsio sobre Le Peuplement de l Egypte Ancienne, organizado pela Unesco em 1974, no Cairo. Nessa ocasio, S. Sauneron lembrava, para ilustrar tais incertezas, que a lngua egpcia, por exemplo, no pode ser isolada de seu contexto africano e que o semtico no pode explicar seu nascimento.

    O cuxita outro exemplo que ilustra a atual incerteza da pesquisa e das classificaes. Greenberg, Tucker e Bryan e o sovitico Dolgopoljskij propem atualmente trs classificaes diversas, se no contraditrias, para o mesmo

    25 POLOTSKY, H. 1964.26 NEWMAN, P. e MA, R. Comparative Chadic. JWAL 5.2.18.25.27 SVITYE, Illie. The History of Chadi Consonantism. Cf. HODGE, C. 1968. 28 CAPRILLE, Y. P. 1972. 29 Cf. DIAGNE, P. 1976.30 HODGE, C. T. 1968.

  • 260 Metodologia e pr -histria da frica

    complexo de lnguas chamado cuxita (somali, galla, sidamo, mbugu, etc.). A classificao de Dolgopoljskij articula -se sobre uma reconstruo de ordem fonolgica a partir de exemplos limitados. Ele compara, particularmente, as labiais (p, b, f ) e as dentais (t, d) das lnguas que analisa e classifica numa dezena de subgrupos, enquanto seus colegas identificam de trs a cinco.

    J. H. Greenberg, por sua vez, negligencia os dados fonolgicos, morfolgicos e gramaticais, concentrando -se principalmente na comparao do vocabulrio. Mas aqui os emprstimos representam um papel considervel. A classificao de A. Tucker e A. Bryan, que fazem crticas ao mtodo de Greenberg, baseia -se numa comparao do sistema pronominal e da estrutura verbal. Eles prprios consideram ambguos alguns dos idiomas que reagrupam e enfatizam que seu esforo tem o carter de pura tentativa.

    Pode -se constatar que as concluses adiantadas aqui valem principalmente por seu aspecto provisrio.

    Reencontramos as mesmas dificuldades no que diz respeito s lnguas geograficamente delimitadas pelo oeste atlntico, localizadas na costa que vai do sul da Mauritnia Serra Leoa. Em 1854, Koelle as classifica em seu Polyglotta Africana sob a rubrica oeste -atlntico e baseia sua identificao nas mudanas de prefixos ou na inflexo inicial ou final que apresentam. Esse um trao tpico do bantu, mas no suficiente para definir um grupo.

    De resto, Koelle vai considerar mais tarde o conjunto dessas lnguas como no classificadas. M. Delafosse em 192431 e D. Westermann em 1928 afirmam que se trata de um grupo gentico. Em 1963, Greenberg32 adota o mesmo ponto de vista, considerando -as o grupo mais ocidental da famlia nger -congo.

    No mesmo ano, contudo, Wilson33 e D. A. Dalby34, embora notando as semelhanas tipolgicas no interior do conjunto, negam qualquer possibilidade de o encarar como um grupo lingustico homogneo e aparentado. Em detalhes de morfologia, sintaxe e vocabulrio, escreve Wilson, o grupo oeste -atlntico ou senegals -guineense est longe de representar uma unidade. De fato, os trabalhos recentes publicados em 1974 por D. Sapir35 mostram que no h mais de 5 a 10% de vocabulrio comum entre a grande maioria dessas lnguas, parecendo ser a geografia o nico fator que as unifica na maior parte dos casos,

    31 DELAFOSSE, M. 1924.32 GREENBERG, J. H. 1963. 33 WILSON, W. 1966.34 DALBY, D. A. 1965.35 SAPIR, D. 1974.

  • 261Histria e lingustica

    como foi dito antes. O processo de migrao misturou aqui, como na rea nilo--chdica, povos de origens diferentes; o parentesco entre eles estabelecido talvez depressa demais, na ausncia de informaes mais precisas que esclaream a histria e o historiador.

    nesse plano, alis, que so amplos os atuais limites da lingustica como instrumento de investigao histrica. O pesquisador se confronta aqui com o duplo obstculo mencionado acima. A pesquisa no atingiu seus objetivos porque se conserva parcial e embrionria. Alm disso, seus resultados provisrios so frequentemente inexplorveis porque falsificados pela ideologia e por perspectivas deformantes.

    A ideologia deformante A histria por excelncia o lugar da ideologia. Os primeiros trabalhos sobre

    as lnguas e o passado da frica coincidiram com a expanso colonial europeia. Assim, foram fortemente marcados pelas vises hegemonistas da poca.

    O discurso etnocentrista exprime a preocupao instintiva de julgar valores de civilizaes com referncia a si mesmo. Ele levou apropriao dos fatos de civilizao mais marcantes para legitimar -se como pensamento e poder dominantes no mundo. As teses sobre a primazia do indo -europeu, do ariano ou do branco civilizadores testemunham um excesso cujos ecos profundos so encontrados ainda hoje em muitas obras de histria e de lingustica da frica36.

    por isso que o Egito foi por muito tempo colocado entre parnteses com relao ao resto do continente. Com base em especulaes feitas ao acaso, continua -se s vezes a atribuir -lhe menos idade, em benefcio da Mesopotmia ou de outros centros supostamente indo -europeus ou semitas. Frequentemente, foram procurados imaginrios iniciadores da arte do Benin. Montou -se uma teoria camtica37, pea por pea, com a finalidade de explicar, atravs de influncias externas, qualquer fenmeno cultural positivo na frica negra.

    36 Ver adiante J. H. GREENBERG sobre essa questo.37 As palavras camita e camtico foram largamente utilizadas no mundo ocidental durante vrios sculos,

    tanto no vocabulrio erudito como no cotidiano. Procedem de leituras deformantes e tendenciosas da Bblia, das quais se originou o mito da maldio dos descendentes negros de C. Esses termos adquiriram uma significao aparentemente menos negativa (pelo menos sem conotao religiosa) graas pesquisa de linguistas e etnlogos no sculo XIX, mas nem por isso deixaram de funcionar como critrio de discriminao entre certos negros considerados superiores e os outros. Em todo caso, o comit cientfico internacional estimula os estudos crticos em andamento, que tratam dos usos histricos desse vocabulrio que s deve ser utilizado com reservas expressas.

  • 262 Metodologia e pr -histria da frica

    Procurando promover uma metodologia rigorosa e cientfica, J. H. Greenberg cuja contribuio, embora discutvel em parte, ainda continua nova e importante torna -se algumas vezes eco desse impacto negativo da ideologia etnocentrista.

    Seligman, Meinhof e, depois deles, autores importantes como Delafosse, Bauman, Westermann ou Mller, desenvolvem argumentos de uma fragilidade cientfica consternadora, pois baseiam -se em preconceitos do tipo que Meinhof exprime na seguinte frmula: No curso da histria, repete -se constantemente o fato de que os povos camitas tm subjugado e governado os povos de pele negra.

    Essas constataes fundamentam a prudncia com que deve ser utilizado o material que os trabalhos lingusticos oferecem aos historiadores ou aos especialistas das cincias humanas em geral.

    Segundo Greenberg,

    o emprego vago do termo camita como categoria lingustica e sua utilizao na classificao das raas para designar um tipo considerado fundamentalmente cauca-side, conduziram a uma teoria racial. Ela v, na maioria das populaes originrias da frica negra, o resultado de uma mistura entre camitas e negros.

    Assim, a denominao de povos de lngua nilo -camtica refere -se obra de C. G. Seligman, Races of Africa. Esses povos so considerados racialmente meio -camitas. Os Bantu constituiriam tambm uma outra variedade de negros camitizados. E isso, comenta ainda Greenberg:

    Tomando por base as especulaes de Meinhof, para as quais, alis, ele nunca forneceu a menor prova, pela simples razo de que no h prova possvel para que o bantu, como diz Seligman, seja uma lngua mista e o homem bantu, por assim dizer, descendente de pai camita e me negra.

    De fato, conclui J. H. Greenberg, essa ideologia falseia totalmente, ainda hoje, a elaborao de uma cincia lingustica capaz de esclarecer as verdadeiras relaes entre lnguas e civilizaes na frica.

    A migrao dos povos africanos no sentido leste -oeste e norte -sul tornou confuso o quadro tnico, racial e lingustico do continente. Isso indicado, como se pode ver em muitos trabalhos, pelos nomes de pessoas e lugares e pelos fatos de lingustica pura relativos ao prprio vocabulrio essencial. As lnguas do Senegal, como o wolof, o diula, o fulfulde ou o seereer, atestam semelhanas mais profundas com as lnguas bantu da frica do Sul, da Tanznia, de Camares e do Zaire do que com as lnguas da famlia mandinga no interior das quais so geograficamente inseridas. O lxico, a estrutura e mesmo os princpios da escrita egpcia antiga, como veremos mais tarde, esto mais prximos da realidade

  • 263Histria e lingustica

    de lnguas como o wolof e o haussa ou da tradio grfica daomeana que das estruturas lingusticas semticas ou indo -europeias s quais so anexadas sem critrio.

    A antiga lngua egpcia, o haussa, as lnguas dos pastores ruandenses, dos abissnios, dos Peul e dos nbios so naturalizadas semitas ou indo -europeias sobre bases de evidente fragilidade ou a partir de uma metodologia e de uma escolha de critrios muito pouco convincentes.

    Os Peul talvez sejam mestios, do mesmo modo que os Baluba, os Susu, os Songhai e muitos povos negros que mantiveram, em seu habitat antigo ou atual, contatos com populaes brancas. Essa hiptese de mestiagem, contudo, hoje bastante questionada a partir de descobertas recentes a respeito dos processos de mutao da pigmentao.

    Por sua fonologia, seu lxico e sua estrutura, o fulfulde apresenta semelhanas com o seereer, mais do que com qualquer outra lngua conhecida, a tal ponto que os prprios Seereer e Peul sugerem haver entre eles um parentesco no apenas lingustico mas tambm tnico. Isso no impediu pesquisadores como F. Mller, W. Jeffreys, Meinhof, Delafosse e Westermann de tentar estabelecer uma origem branca para os Peul, afirmando que o fulfulde protocamtico38. W. Taylor chega mesmo a escrever: Pela riqueza de seu vocabulrio, a sonoridade de sua dico e as delicadas nuances de significao que capaz de expressar, o peul no pode pertencer famlia negra sudanesa. Todas essas observaes nos mostram at que ponto est generalizada a confuso entre categorias to diferentes como a lngua, o modo de vida e a raa, sem contar o conceito de etnia, que utilizado, conforme o caso, com referncia a uma ou vrias dessas categorias.

    Como nota J. H. Greenberg, a relao simplista estabelecida entre gado grosso, conquista e lngua camtica se mostra falsa em todo o continente africano. Escreve ele:

    No Sudo ocidental, uma ironia constatar que os agricultores de lnguas camticas esto submetidos autoridade dos pastores peul que falam uma lngua sudanesa ocidental (ou nger -congo). Teria sido outra ironia, se segussemos os clichs estabelecidos, constatar a antiguidade e a permanncia das hegemonias mandinga ou wolof, de famlia lingustica sudanesa, sobre povos to rapidamente assimilados ao camtico como os assim chamados Peul pr -camticos ou os Berberes.

    Nenhuma das classificaes estabelecidas no plano continental ou regional oferece, at agora, garantias cientficas inquestionveis. O etnocentrismo tem

    38 GREENBERG, J. H. Op. cit.

  • 264 Metodologia e pr -histria da frica

    contribudo bastante para distorcer a anlise do material. Em muitos casos, s nos restam conjecturas, peties de princpio e abordagens superficiais.

    H um certo nmero de condies necessrias para o estudo das lnguas africanas de acordo com princpios estritamente cientficos que ajudem a esclarecer a histria dos povos e civilizaes do continente. Em primeiro lugar, esse trabalho deve estar livre das obsesses de um pr -julgamento a partir do semita ou do indo -europeu, ou seja, a partir do passado histrico do homem europeu. Alm disso, para estabelecer o parentesco entre as lnguas africanas, ser necessrio fazer referncia ao material lingustico antigo e no aos dados geogrficos atuais, s influncias antigas ou tardias, aos esquemas explicativos escolhidos a priori ou aos traos lingusticos marginais em relao aos fatos dominantes dos sistemas.

    Cincias auxiliares

    A anlise aculturalista A anlise aculturalista ou topolgica39, na terminologia inglesa, releva uma

    cincia que tem por objeto o estudo da origem e dos processos de difuso dos traos culturais (ideias, tcnicas, etc.). Os pesquisadores alemes foram os primeiros a aplicar esse mtodo na prtica, com o estudo dos ciclos culturais de Frobenius, Westermann -Baumann, etc.

    Esses estudos muitas vezes tomaram por objeto a difuso das tcnicas e produes agrcolas, os mtodos pastoris, a inveno e a difuso das tcnicas de trabalho com o ferro e outros metais, o uso do cavalo e a elaborao de noes ontolgicas, do panteo dos deuses ou das formas artsticas.

    Entretanto, a topologia muitas vezes foi alm de seu domnio. Particularmente, introduziu muitos erros no mbito da cincia classificatria. Com efeito, vrios autores incautos pensaram poder inferir um parentesco lingustico a partir de uma simples constatao de traos culturais, quando esses fatos geralmente se devem a fenmenos de emprstimo, contato ou convergncia.

    A cincia onomstica Onomstica a cincia dos nomes de lugares (topnimos), de pessoas

    (antropnimos) ou de cursos de gua (hidrnimos).

    39 GUTHRIE, M. 1969.

  • 265Histria e lingustica

    A onomstica est intimamente relacionada ao lxico das lnguas. As comunidades tnicas que se tm mantido relativamente homogneas por um perodo de tempo, assim como os grupos etnolingusticos mais heterogneos mas que falam um idioma comum, criam seus nomes principalmente em referncia s realidades de suas lnguas. Eles povoam o universo territorial e geogrfico que lhes serviu ou serve de habitat com nomes que constroem nas mesmas perspectivas. Assim, seguindo a pista dos nomes de pessoas, identificam -se ao mesmo tempo os elementos tnicos que constituem uma comunidade. Em geral, os Seereer so chamados Jonn, Juuf, Seen, etc.; os Peul, Sow, Jallo, Ba, Ka, etc.; os Mandinga, Keita, Tour, Jara, etc. Os Berberes e os Bantu tm famlias de nomes que lhes so prprios.

    A antroponmia desempenha um papel importante no estudo da histria das etnias e das comunidades polticas ou culturais. O estudo dos nomes em uso entre os Tuculero do Senegal mostra, por exemplo, que estamos diante de uma comunidade etnolingustica bastante heterognea. Entretanto, do ponto de vista cultural, esse grupo de fala fulfulde que se fixou no Senegal, ao longo do rio, na fronteira entre o Mali e a Mauritnia, muito homogneo. Da um sentimento nacional bem desenvolvido. De fato, a comunidade forjou -se a partir de elementos peul (cuja lngua se imps), mandinga, seereer, lebu -wolof e berberes.

    A toponmia e a hidronmia constituem tambm cincias indispensveis ao estudo das migraes dos povos. A partir dos nomes de cidades desaparecidas ou que ainda existem, podem -se elaborar mapas precisos mostrando os movimentos dos Mandinga, cujas cidades tm nomes que foram compostos a partir de Dugu. Da mesma maneira, pode -se estabelecer o mapa toponmico dos habitat antigos ou atuais dos Peul, que usam o termo Saare para nomear seus povoados, dos Wolof, que usam o termo Kr, dos rabe -berberes, que utilizam o termo Daaru, dos Haussa, e assim por diante.

    Antropologia semntica A antropologia semntica ou etnolingustica constitui uma nova abordagem

    que tenta revelar a cultura do homem atravs de sua lngua. Baseia -se numa anlise global do conjunto de dados fornecidos pela lngua de uma etnia ou de uma comunidade heterognea que tem um falar comum, para evidenciar ao mesmo tempo sua cultura, seu pensamento e sua histria.

    O mtodo vai alm da mera coleta de tradies e literaturas escritas ou orais. Implica o recurso a uma reconstruo da totalidade das ideias que uma lngua

  • 266 Metodologia e pr -histria da frica

    traz consigo e que no depende necessariamente de uma obra ou de um discurso sistemtico. Nesse plano, a pesquisa opera nos nveis infra e supralingustico. Decifra, a partir do vocabulrio e da diviso do pensamento, os processos de formalizao, conceptualizao e estruturao de uma lngua, as diferentes formas de conhecimento dentro das quais se cristalizam a viso de mundo e a histria prpria comunidade que pratica um certo falar. A etnolingustica acaba por revelar sistemas: concepo metafsica, tica, ontologia, esttica, lgica, religio, tcnicas, etc.

    Assim, a literatura escrita ou oral sobre o passado dos Haussa, com seus documentos religiosos, fbulas e prticas jurdicas, mdicas, metalrgicas e educacionais, fornece indicaes no apenas sobre a evoluo do contedo do pensamento dos Haussa mas tambm sobre sua histria e sua cultura.

    Nas civilizaes predominantemente orais, em que os textos de referncia so raros, a interpretao diacrnica baseada na comparao de textos de pocas diferentes praticamente no existe. A lingustica torna -se, ento, um meio privilegiado de redescobrir o patrimnio intelectual, uma escala para retroceder no tempo.

    As culturas de expresso oral localizadas pela antropologia semntica apresentam no apenas obras a serem coletadas e registradas, mas tambm autores e as respectivas reas de especializao. Toda cultura africana oral ou escrita deixou, como a dos Wolof, seu filsofo, como Ndaamal Gosaas, seu politiclogo, como Saa Basi ou Koco Barma, seu mestre da palavra e da eloquncia, seu mestre da epopeia ou do conto, como Ibn Mbeng40, mas tambm seus inventores de tcnicas em matria de farmacopeia, medicina, agricultura ou astronomia41. Esses trabalhos e seus autores constituem excelentes fontes de anlise do dinamismo evolutivo da cultura numa sociedade sob suas diversas formas.

    A ontologia bantu pode ser decifrada e at mesmo interpretada e sistematizada por referncia aos vocbulos bantu sobre o estar no mundo, a partir do trabalho de elaborao e conceptualizao que, atravs das palavras e enunciados do bantu, d forma s concepes que essa lngua tem acerca de tais fenmenos.

    40 Todos clebres personagens histricos da cultura wolof.41 As obras de S. JOHNSTON sobre os Ioruba, de TEMPELS sobre os Bantu, de M. GRIAULE

    sobre os Dogon, de TRAORE sobre medicina africana, de M. GUTHRIE sobre a metalurgia, etc., constituem, com os clssicos literrios registrados importantes contribuies antropologia semntica. Cf. DIAGNE, P. 1972.

  • 267Histria e lingustica

    Como a lngua o lugar de cristalizao de todos os instrumentos mentais ou materiais construdos pelas geraes sucessivas, pode -se dizer que a experincia histrica de um povo est depositada em camadas consecutivas no prprio tecido da lngua.

    Suporte do documento e do pensamento histrico A importncia da tradio oral na histria da frica hoje aceita por todos.

    Chega -se mesmo a solicitar a presena de griots tradicionalistas nos congressos. H sugestes para que lhes sejam criadas cadeiras nas universidades e mesmo para que eles se incumbam da pesquisa e do ensino de histria.

    De modo geral, a primazia da fala sobre a escrita ainda hoje uma realidade em culturas tradicionais com predominncia rural, tanto na frica como em outros lugares.

    A oralidade como meio de elaborar e fixar os produtos do pensamento tem suas prprias tcnicas. Embora as formas de pensamento escritas ou orais abranjam a mesma rea, os meios e os mtodos de sua concepo e transmisso nem sempre so os mesmos42.

    Devemos notar simplesmente que o pensamento escrito, ou seja, a literatura no sentido etimolgico, ao se fixar tende, com mais facilidade, a cristalizar -se sob uma forma permanente. Desse modo, rompe com uma tradio verbal que oferece um campo mais vasto inveno e criao de mitos. No nvel da linguagem, a palavra falada tem tambm um potencial maior de dialetizao porque h menos controle de seu desenvolvimento. Uma lngua de expresso predominantemente oral permanece mais popular, mais sensvel s distores impostas pela prtica no plano de sua estrutura, dos sons que utiliza e at mesmo das formas que toma de emprstimo.

    Uma lngua literria, ao contrrio, mais trabalhada no sentido da unificao. Alis, apresenta maior dimenso visual e integra, como elementos expressivos, dados grficos que lhe conferem certa especificidade: ortografia em ruptura com a fonologia, pontuao, etc. J a linguagem oral utiliza mais o elemento sonoro. Transmite significao atravs da cadncia, dos ritmos, das assonncias ou dissonncias, das evidncias do discurso. A importncia do papel desempenhado pela memria, para suprir a ausncia de um suporte grfico, tambm afeta o carter da oralidade em suas formas de expresso. Chega mesmo a ser imprescindvel, com as tcnicas de memorizao, uma cincia especfica

    42 Cf. DIAGNE, P. 1972.

  • 268 Metodologia e pr -histria da frica

    para a reteno de textos. Assim, o documento escrito e a tradio oral passam a ser complementares, conjugando suas respectivas qualidades43. Alm disso, os relatos orais, uma vez transcritos, tornam -se textos literrios44.

    Tradio grfica as escritas africanas A inveno da escrita atende a necessidades cuja natureza e origem, conforme

    os contextos, nem sempre se soube evidenciar. A escrita, instrumento do comrcio e da administrao, sustenta normalmente as civilizaes urbanas; mas as motivaes iniciais podem variar notavelmente. Na frica, tanto na poca dos faras como durante o reinado dos soberanos do Daom ou dos Mansa Mandinga, o uso da escrita atendeu principalmente a necessidades de ordem no material. A escrita egpcia, a dos baixos -relevos daomeanos e ainda os ideogramas bambara ou dogon tiveram, em seu contexto original, uma dupla funo: primeiramente, materializar o pensamento e, atravs disso, realizar uma ao de carter religioso ou sagrado. A escrita egpcia, inventada segundo a lenda pelo deus Thot, ficou por muito tempo confinada sobretudo nos templos, nas mos dos sacerdotes; encerrava segredos e servia como instrumento de ao para um pensamento percebido como substncia agente e materializvel em forma de verbo ou de grafia. A segunda grande funo atribuda escrita nas civilizaes africanas coincide com a necessidade de perpetuao histrica. A escrita egpcia, como a dos palcios de Abomey, uma glorificao de soberanos e de povos preocupados em deixar atrs de si a lembrana de seus grandes feitos. Os Bambara ou os Dogon, ao inscreverem seus signos ideogrficos nas muralhas de Bandiagara, visam ao mesmo objetivo.

    Entre a Rcade do rei Gll, machado de cerimnia que traz em si uma mensagem, e a Palette de Narmer, h mais do que simples afinidades. No apenas o esprito o mesmo, mas tambm os princpios e as tcnicas de escrita45.

    A escrita egpcia atribuda ao deus Thot, que tambm o inventor da magia e das cincias, a exemplo do deus com cabea de chacal dos Dogon, ele prprio depositrio do verbo, do conhecimento e da fala eficaz.

    43 Cf. DIAGNE, P. Op. cit.44 Cf. as numerosas publicaes a esse respeito: trabalhos de A. HAMPAT B, A. Ibrahim SOW,

    MUFUTA, E. de DAMPIERRE, K. MOEENE, F. LACROIX, M. GRIAULE, G. DIETERLEN, WHITLEY, E. NORRIS, L. KESTELOOT, D. T. NIANE, M. DIABATE, J. MBITI, etc. Estes autores publicaram obras clssicas sobre o assunto nas colees de Oxford, Julliard, Gallimard, no Centro de Niamey, etc.

    45 GLL. M. 1974.

  • 269Histria e lingustica

    Os raros especialistas que se debruaram, frequentemente com notvel mincia, sobre os sistemas de escrita originrios da frica, em geral no se interessaram pelo vnculo aparentemente bvio e tecnicamente demonstrvel entre os hierglifos e as escritas mais conhecidas na frica negra. O hierglifo egpcio permaneceu fundamentalmente pictogrfico em sua funo original de instrumento dos templos e, como seu homlogo daomeano, faz referncia imagem tanto quanto possvel. Trata -se de uma escrita voluntariamente realista, preocupada em materializar os seres, os objetos e as ideias, o que faz da maneira mais concreta e substancial, em parte para restituir -lhes ou conservar suas qualidades naturais.

    No por acaso que a deformao da escrita pictogrfica pelo uso do cursivo, que altera e desfigura os elementos representados, s permitida fora dos templos. A escrita hiertica, usada sobretudo com finalidades laicas (ao contrrio do que sugere a etimologia grega da palavra), e o demtico popular, ainda mais simplificado em seu traado, so as grafias no -sagradas e utilitrias. No esprito do sacerdote egpcio, o hierglifo encerra um poder mgico de evocao, como to bem demonstra M. Cohen. Em sua opinio, isso explica o fato de que as representaes de seres nefastos so evitadas ou mutiladas. Aqui, estamos diante de uma concepo ontolgica que se enraza e mergulha profundamente na tradio negro -africana. Por milhares de anos, essa tradio no foi capaz de dessacralizar como o fizeram os indo -europeus, particularmente os gregos o pensamento e seus suportes orais e grficos. Os Bambara, os Ioruba, os Nsibidi e os sacerdotes dogon tm uma viso idntica dos sistemas grficos que utilizam em seus templos ou em suas sesses de adivinhao.

    A unidade das grafias inventadas na frica no reside apenas nos pressupostos ideolgicos que conferem a esses sistemas suas funes e sua natureza, mas tambm na prpria tcnica de transcrio. Encontra -se, na histria das escritas africanas, uma referncia constante a trs tcnicas de fixao grfica do pensamento: o recurso imagem do ser ou do objeto, copiada atravs de pictogramas; o recurso ao smbolo para representar uma realidade atravs de ideogramas, que so signos sem relao imediata de semelhana fsica com a noo que simbolizam; finalmente, o uso do fonograma para representar todos os homfonos, ou seja, todas as realidades designadas pelo mesmo som ou grupo de sons; o princpio da escrita pictofonogrfica.

    A comparao entre a Palette de Narmer e as Rcades de Gll ou de Dakodonu reveladora. Elas transcrevem o discurso segundo os mesmos princpios. Na Palette de Narmer, temos a imagem de um rei. Ele segura pelos cabelos um inimigo vencido e o golpeia, enquanto o exrcito derrotado foge, sob

  • 270 Metodologia e pr -histria da frica

    os ps do gigantesco fara. Os pictogramas so claros e eloquentes. Os outros signos so ideogramas. Distingue -se um ta oval simbolizando a terra. Em cima, h um grupo de signos e um quadrado para emoldurar o nome do fara, Horus. Um peixe e um pssaro formam o nome fara. Essas duas imagens so pictofonogramas.

    A Rcade de Gezo mostra o soberano do Daom sob a forma de um bfalo (assim como o fara simbolizado por um falco) que mostra os dentes, significando o terror que semeia entre seus inimigos. Trata -se, neste caso, de uma aproximao simblica. Mas h outros mais importantes.

    A Rcade do rei Dakodonu ou Dokodunu, mais antiga (1625 -1650) e descrita por Le Hriss, mostra com mais clareza ainda o princpio do hierglifo daomeano. O texto da lmina do machado pode ser lido da seguinte maneira: h um smbolo pictogrfico que representa um slex, da, e embaixo o desenho da terra, ko, com um furo no meio, donon. Esses signos so pictogramas, utilizados aqui como pictofonogramas. Juntando -os, como no caso do nome do fara na Palette de Narmer, pode -se ler o nome do rei daomeano, Dakodonu. A escrita daomeana assemelha -se aos hierglifos faranicos em seus prprios princpios e em seu esprito, revelando as trs tcnicas usadas pela grafia egpcia: a imagem pictogrfica, o smbolo ideogrfico e o signo pictofonogrfico46.

    Num notvel artigo de sntese o sovitico Dmitri A. Olderogge aponta, como j o tinha feito Cheikh Anta Diop, o fato de que o sistema hieroglfico sobreviveu na frica negra at uma poca tardia.

    Em sua Description Historique des Trois Royaumes du Congo, du Matamba et de l Angola, publicada em 1687, Gavassi de Motocculuo afirma que a escrita hieroglfica era utilizada nessas regies.

    Em 1896 foi descoberta uma inscrio hieroglfica nos rochedos de Tete, em Moambique, ao longo do rio Zambeze, cujo texto foi publicado na poca. Cheikh Anta Diop nota, em outro trabalho, o uso de uma grafia pictogrfica tardia no Baol, onde recentemente foram descobertos traados hieroglficos em baobs muito antigos. Os Vai da Libria utilizaram, durante muito tempo, uma escrita pictogrfica em tiras de casca de rvores.

    A escrita merotica, que nasceu na periferia meridional do Egito antigo, d continuao escrita faranica, na qual se inspirava, a menos que a tenha originado ou que partilhe com ela a mesma origem.

    46 Ver captulo 4.

  • 271Histria e lingustica

    figura 10.1 Estela do rei serpente (Foto Museu do Louvre).

  • 272 Metodologia e pr -histria da frica

    Figura 10.2 Rcade representando uma cabaa, smbolo de poder (Foto Nubia).

    Figura 10.3 Rcade dedicada a Dakodonu (Foto Nubia).

    Figura 10.4 Leo semeando o terror (Foto M. A. Gll, Nubia) .

  • 273Histria e lingustica

    Pictogramas egpcios(por volta de 4000 antes da Era Crist)

    Pictogramas nsibidi34

    A27

    F32I1I14

    N3N11

    homem correndo com um brao estendido; inw = men-sageiro.ventre de mamfero; h.t. = ven-tre, corpo.

    lagarto; s 3 = numeroso, rico.verme ou serpente (h f w); verme (d d f t).

    sol brilhando; wbn: aparecer.

    lua crescente; i h = lua

    DAYRELL107, homem cor-rendo com um brao estendido.MACGREGOR (p. 212), um mensageiro.DAYRELL127, smbolo que contm um peixe.

    TALBOT51, lagarto.

    MACGREGOR (p. 212), serpente.DAYRELL104, serpente muito longa; uruk ikot, cobra em Efik e shaw, em Uyanga.TALBOT35, sol brilhando: utinn, sol em Efik e duawng, em Uyanga.TALBOT34, lua crescente; ebi = lua, em Uyanga.

    Figura 10.5 Pictogramas egpcios e nsibidi (extrado de LAfrique dans l Antiquit: a nota 34 remete a J. K. MACGREGOR, 1909; E. DAYRELL, 1911; TALBOT, 1923).

    Figura 10.6 Palette de Narmer (extrado de C. A. DIOP, 1955).

    * Quanto aos signos nsibidi, cf. principalmente: J. K. MACGREGOR. Op. cit. p. 215, 217 e 219: os sig-nos so numerados de 1 a 98; E. DAYRELL. Op. cit., pranchas LXVLXVII: ao todo, 363 signos; P. A. TALBOT. Op. cit. Apndice G: Nsibidi signs, p. 448-61: 77 signos e 8 textos.

  • 274 Metodologia e pr -histria da frica

    Figura 10.7 Amostras de vrias escritas africanas antigas (extrado de D. DALBY. 1970, p. 110 -11).

    As escritas bagam e guro (nenhum registro disponvel), a escrita sagrada ioruba e a escrita gola (ambas indecifradas) so excludas deste quadro.

  • 275Histria e lingustica

    Figura 10.8 Primeira pgina do principal captulo do Alcoro em vai (extrado de LAfrique dans l Antiquit, OBENGA, T. Prsence Africaine. 1973).

  • 276 Metodologia e pr -histria da frica

    Figura 10.9 Sistema grfico vai (extrado de LAfrique dans lAntiquit, OBENGA, T. Prsence Africaine, 1973).

  • 277Histria e lingustica

  • 278 Metodologia e pr -histria da frica

    Palavra Mum SignificaoSigno

    coletado em 1900 (Clapot)

    Signo coletado em

    1907 (Ghring)

    P Noz de cola

    Fom rei

    Ntab casa

    Nyad boi

    Figura 10.10 Sistema grfico mum (extrado de LAfrique dans l Antiquit, OBENGA, T. Prsence Africaine. 1973).

    Figura 10.11 Sistema pictogrfico.

    Figura 10.12 Sistema ideogrfico e fontico -silbico

    = pwen ou pourin, as pessoas.

    = ngou ou ngwm, pas.

    = ndya, hoje.

    = nsy, a terra.

    = you yo, comida.

    = po, ns.

    = n, e.

    = gbt, fazer.

    = m, mim.

    = fa, dar.

    = pwam ou mbwm, admirar.

    = slaba ba, de iba, que significa: dois.

    = ben, de ben: dana (tipo de ).= b, de byt: circuncidar, ou de

    by: segurar.= cha, de ncha: peixe.

  • 279Histria e lingustica

    Os sistemas de escrita ideogrfica, contudo, parecem ter resistido melhor que os hierglifos em solo negro -africano ocidental. Na prtica, a grande maioria dos povos negros da frica est familiarizada com o ideograma, seja atravs das tcnicas divinatrias, seja pelo uso que delas fizeram os sacerdotes do culto, os gravadores de obras de arte, etc.

    A geomancia dos Gurmanche muito elaborada. O tambipwalo (geomante) desenha signos na areia e os interpreta. Depois administra uma espcie de receita, que consiste em signos gravados a faca num pedao de cabaa. Esses signos abstratos designam os altares, os lugares aos quais preciso ir para realizar os sacrifcios, o tipo de animal que deve ser imolado, quantas vezes, e assim por diante. Trata -se, de fato, de uma escrita codificada.

    A adivinhao atravs dos signos do Fa tambm apresenta uma riqueza admirvel. O adivinho joga nozes de palma de uma mo para outra oito vezes e, de acordo com o nmero de nozes que ficam em sua mo esquerda a cada vez, faz uma inscrio no solo ou numa bandeja polvilhada com areia. So assim formados os quadros (h 256 possveis), dos quais os 16 mais importantes so os du, que constituem os fios ou as palavras dos deuses governados por Fa, o destino. Todos devem cultuar o seu du mas, ao mesmo tempo, ter em conta os de seus parentes e ancestrais, os de sua regio, e assim por diante. Como existe uma quantidade enorme de arranjos, os du so combinados num tipo de estratgia mitolgica que tambm uma tcnica grafolgica. Pratica -se a adivinhao do Fa em toda a costa do Benin.

    A coleta dos sistemas ideogrficos47 foi abundante, principalmente nos pases de savana que mantiveram suas tradies e no foram muito afetados pela islamizao. No por acaso que isso ocorre. Os especialistas, dentre os quais F. W. Migeod foi um dos primeiros a revelarem alguns desses sistemas. A escrita ideogrfica dogon foi apresentada por M. Griaule e G. Dieterlen, responsveis pela anlise do sistema bambara e por uma boa sntese das grafias da regio. A ideografia nsibidi, usada entre os Ibo do sul da Nigria, foi descoberta pelos europeus no fim do sculo passado. Baseia -se em princpios de transcrio largamente difundidos em toda a costa da Guin.

    As escritas fonticas48 sistematizam o uso de fonogramas representando sons simples ou complexos atravs de signos regulares; em nossa opinio, o

    47 Cf. BOUAH, Niangoran. Recherches sur les poids peser lor chez les Akan. Tese de doutoramento PhD defendida em 1972.

    48 D. A. DALBY prope, a esse respeito, uma atualizao interessante em Language and History in Africa, Londres, 1970.

  • 280 Metodologia e pr -histria da frica

    aparecimento de tais escritas na frica resulta de uma evoluo tardia. Os hierglifos do antigo Egito, como os do Daom, representam muitos sons atravs de signos. Mas os sistemas puramente fonticos baseados na palavra, na slaba ou no fonema simples transcrio alfabtica marcam uma nova etapa49.

    A escrita berbere, usada entre os Tuaregue do Saara e conhecida tambm pelo nome de tifinar, poderia ter -se desenvolvido sob influncia pnica, pelo contato com Cartago.

    O sistema de escrita nbio formou -se no sculo X, atravs do contato com a grafia copta que, por sua vez, nasceu sob a influncia grega. A grafia etope de Tigrina e de Amhara derivada da escrita sabeana da Arbia meridional.

    As escritas silbicas e alfabticas da frica ocidental, muito difundidas desde o fim do sculo XVIlI nas costas da Guin e nas regies sudanesas, podem ter nascido de uma evoluo interna ou ter tomado sua forma definitiva sob a influncia mais ou menos distante de uma contribuio externa, de origem rabe ou europeia50.

    A escrita vai, divulgada na Europa em 1834 graas aos trabalhos do americano Eric Bates, e aos de Koelle em 1849, desenvolveu -se numa rea onde foram descobertos traados do sistema hieroglfico. Momolu Masakwa, cnsul da Libria na Inglaterra no sculo XIX, descreveu os princpios do sistema hieroglfico usado naquela poca em sua regio51.

    De acordo com os informes de Momolu, para expressar a vitria sobre o inimigo os Vai desenham, numa casca de rvore que lhes serve de papiro, a silhueta de um homem correndo com as mos na cabea. Ao lado da imagem do fugitivo junta -se um ponto, para indicar que se trata de um grande nmero de fugitivos, de um exrcito derrotado. Nessa utilizao do ponto para denotar o plural, em lugar dos traos empregados no antigo vale do Nilo, encontramos elementos da escrita faranica. Assim, os Vai conseguiram alterar seu antigo sistema no sentido de uma transcrio fontica. Hoje existem modelos anlogos escrita vai entre muitos povos da Africa ocidental: Malinke, Mande, Basa, Guerze, Kpele, Toma, etc. Os Wolof e os Seereer tambm adotaram, recentemente, uma grafia inspirada nesses princpios.

    49 HAU, E. 1959.50 As grafias sudanesas associam pictogramas (imagens realistas) a ideogramas (signos e significaes

    simblicas). Cf. GRIAULE, M. e DIETERLEN, G. A combinao desses signos permite a transcrio e a fixao de um discurso decifrvel pelo iniciado na escrita e no saber que ela contm.

    51 Cf. o excelente artigo de sntese de D. OLDEROGGE, Ecritures mconnues de lAfrique noire. In: Courrier de l Unesco, maro de 1966.

  • 281Histria e lingustica

    Ao contrrio do que em geral se acredita, a existncia da escrita um elemento permanente na histria e no pensamento africanos, da Palette de Narmer Rcade de Gll. A abundncia de sistemas grficos e de evidncias de seu uso comprova esse fato.

    Por diversas razes, as escritas africanas ps -faranicas seguiram um curso normal de evoluo. Esse curso simplesmente se adaptou ao contexto e s exigncias da histria de uma sociedade e de uma economia rurais de autossuficincia. Os membros dessa sociedade no foram impelidos a consolidar, em sua poca, suas conquistas materiais ou intelectuais, j que estas no estavam permanentemente ameaadas. Um bom equilbrio ecolgico, uma proporo adequada entre recursos e populao assegurou, durante muito tempo, maior parte das civilizaes africanas e a seus fatos culturais, o poder de ampliar--se e retrair -se formalmente no espao, conservando apenas o essencial: seus princpios. No plano do equilbrio interno, o risco no era muito grande. Mas em face do exterior e do acmulo do progresso, essa fragilidade era prejudicial.

    Concluso

    A lingustica indispensvel elaborao de uma cincia histrica africana. Contudo, s chegar a desempenhar tal papel se for empreendido um grande esforo em sua rea de pesquisa. At agora, sua contribuio foi pequena e, muitas vezes, bastante insegura no plano cientfico. Pesquisas ainda esto em andamento. Os mtodos ganharam maior preciso e o campo de investigao ampliou -se notavelmente. Nesse contexto, podemos esperar que a anlise das lnguas africanas contribua, num futuro prximo, para elucidar aspectos importantes da histria do continente.

  • C A P T U L O 1 0

    283Teorias relativas s raas e histria da frica

    O conceito de raa um dos mais difceis de definir cientificamente. Se admitirmos, como a maioria dos especialistas posteriores a Darwin, que a espcie humana pertence a um nico tronco1, a teoria das raas s pode ser desenvolvida cientificamente dentro do contexto do evolucionismo.

    Com efeito, a raciao se inscreve no processo geral da evoluo diversificadora. Como observa J. Ruffie, ela requer duas condies: em primeiro lugar, o isolamento sexual, frequentemente relativo, que provoca pouco a pouco uma paisagem gentica e morfolgica singular. A raciao, portanto, baseia -se num estoque gnico diferente, causado quer por oscilao gentica (o acaso na transmisso dos genes faz com que um deles se transmita com mais frequncia que outro, ou, ao contrrio, que seu alelo seja o mais largamente difundido), quer por seleo natural. Esta conduz a uma diversificao adaptativa, graas qual um grupo tende a conservar o equipamento gentico que o adapte melhor a um certo meio. Na frica, ambos os processos devem ter ocorrido. De fato, a oscilao gentica, que se exprime ao mximo em pequenos grupos, operou em etnias restritas, submetidas a um processo social de cissiparidade por ocasio das disputas de sucesso ou de terras e em virtude das grandes reas virgens disponveis. Esse processo marcou particularmente o patrimnio gentico das

    1 Quanto s teorias policntricas e suas variantes, ver os trabalhos de G. WEIDENREICH, COON e as refutaes de ROBERTS.

    PARTE II Teorias relativas s raas e

    histria da frica J. Ki Zerbo

  • 284 Metodologia e pr -histria da frica

    etnias endgamas ou florestais. Quanto seleo natural, ela teve a oportunidade de entrar em jogo em ecologias to contrastantes como as do deserto e da floresta densa, dos altos planaltos e das costas recobertas de mangues. Em resumo, do ponto de vista biolgico, os homens de uma raa tm em comum alguns fatores genticos que num outro grupo racial so substitudos por seus alelos; entre os mestios, coexistem os dois tipos de genes.

    Como era de esperar, a identificao das raas se fez em primeiro lugar a partir de critrios aparentes, para em seguida ir considerando, pouco a pouco, realidades mais profundas. Alis, as caractersticas exteriores e os fenmenos internos no esto absolutamente separados. Se certos genes comandam os mecanismos hereditrios que determinam cor da pele, por exemplo, esta tambm est ligada ao meio ambiente. Observou -se uma correlao positiva entre estatura e temperatura mais elevada do ms mais quente e uma correlao negativa entre estatura e umidade. Da mesma forma, um nariz fino aquece melhor o ar num clima mais frio e umidifica o ar seco inspirado. assim que o ndice nasal aumenta consideravelmente nas populaes subsaarianas, do deserto para a floresta, passando pela savana. Embora possuindo o mesmo nmero de glndulas sudorparas que os brancos os negros transpiram mais, o que mantm seu corpo e sua pele numa temperatura menos elevada.

    Existem, portanto, diversas etapas na investigao cientfica no que diz respeito s raas.

    A abordagem morfolgica

    Eickstedt, por exemplo, define as raas como agrupamentos zoolgicos naturais de formas pertencentes ao gnero dos homindeos, cujos membros apresentam o mesmo conjunto tpico de caracteres normais e hereditrios no nvel morfolgico e no nvel comportamental.

    Desde a cor da pele e a forma dos cabelos ou do sistema piloso, at os caracteres mtricos e no mtricos, a curvatura femural anterior e as coroas e os sulcos dos molares, foi construdo um verdadeiro arsenal de observaes e mensuraes. Deu -se ateno especial ao ndice ceflico, por estar relacionado parte da cabea que abriga o crebro. assim que Dixon estabelece os diversos tipos em funo de trs ndices combinados de vrios modos: o ndice ceflico horizontal, o ndice ceflico vertical e o ndice nasal. Contudo, das 27 combinaes possveis, apenas oito (as mais frequentes) foram aceitas como representativas dos tipos fundamentais, tendo sido as 19 restantes consideradas

  • 285Teorias relativas s raas e histria da frica

    misturas. No entanto, as caractersticas morfolgicas so apenas um reflexo mais ou menos deformado do estoque gnico; sua conjugao num prottipo ideal raramente se realiza com perfeio. De fato, trata -se de detalhes evidentes situados na fronteira homem/meio ambiente, mas que, justamente por isso, so muito menos inatos que adquiridos.

    Reside a uma das maiores fraquezas da abordagem morfolgica e tipolgica, na qual as excees acabam por ser mais importantes e mais numerosas que a regra. Alm disso, no se devem negligenciar as querelas acadmicas sobre as modalidades de mensurao (como, quando, etc.), que impedem as comparaes teis. As estatsticas de distncia multivariada e os coeficientes de semelhanas raciais, as estatsticas de formato e de forma, a distncia generalizada de Nahala Nobis requerem tratamento por computador. Ora, as raas so entidades biolgicas reais que devem ser examinadas como um todo e no parte por parte.

    A abordagem demogrfica ou populacional

    Este mtodo vai insistir, de imediato, sobre fatos grupais (reservatrio gnico ou genoma), mais estveis que a estrutura gentica conjuntural dos indivduos. De fato, na identificao de uma raa, mais importante a frequncia das caractersticas que ela apresenta do que as prprias caractersticas. Como o mtodo morfolgico est praticamente abandonado2, os elementos serolgicos ou genticos podem ser submetidos a regras de classificao mais objetivas. Para Landman, uma raa um grupo de seres humanos que (com raras excees) apresentam entre si mais semelhanas genotpicas e frequentemente tambm fenotpicas do que com os membros de outros grupos. Alekseiev desenvolve tambm uma concepo demogrfica das raas com denominaes puramente geogrficas (norte -europeus, sul -africanos, etc.). Schwidejzky e Boyd acentuaram a sistemtica gentica: distribuio dos grupos sanguneos A, B e O, combinaes do fator Rh, gene da secreo salivar, etc.

    O hemotipologista tambm leva em conta a anatomia, mas no nvel da molcula. No que diz respeito micromorfologia, descreve as clulas humanas cuja estrutura imunolgica e cujo equipamento enzimtico so diferenciados, sendo o tecido sanguneo o material mais prtico para isso. Os marcadores sanguneos representam um salto histrico qualitativo na identificao cientfica dos grupos humanos. Suas vantagens em relao aos critrios morfolgicos

    2 Cf. WIERCINSKY, 1965.

  • 286 Metodologia e pr -histria da frica

    so decisivas. Primeiramente, eles so quase sempre monomtricos, isto , sua presena depende de um s gene, enquanto o ndice ceflico, por exemplo, o produto de um complexo de fatores dificilmente localizveis3.

    Alm disso, enquanto os critrios morfolgicos so traduzidos em nmeros utilizados para classificaes com fronteiras arbitrrias ou mal definidas, como por exemplo entre o braquicfalo tpico e o dolicocfalo tpico, os marcadores sanguneos obedecem lei do tudo ou nada. Uma pessoa ou no do grupo A, tem fator Rh+ ou Rh - e assim por diante. Alm disso, os fatores sanguneos independem quase inteiramente da presso do meio. O hemtipo fixado para sempre, desde a formao do ovo. Eis por que os marcadores sanguneos escapam ao subjetivismo da tipologia morfolgica. Aqui, o indivduo identificado por um conjunto de fatores gnicos, e a populao por uma srie de frequncias gnicas. A grande preciso desses fatores compensa seu carter parcial em relao massa dos genes no conjunto de um genoma. Isso tornou possvel elaborar um atlas das raas tradicionais.

    Trs categorias de fatores sanguneos foram estabelecidas. Algumas, como o sistema ABO, so encontradas em todas as raas tradicionais sem exceo. Certamente elas preexistiam hominizao. Outros fatores como os do sistema Rh so onipresentes, mas com certa predominncia racial. Assim, o cromossomo r existe principalmente entre os brancos. O cromossomo Ro, conhecido como cromossomo africano, tem uma frequncia particularmente alta entre os negros ao sul do Saara. Trata -se, certamente, de sistemas que datam do momento em que a humanidade comeava a se propagar em nichos ecolgicos variados. Outra categoria de sistemas denota uma repartio racial mais marcada, como os fatores Sutter e Henshaw, encontrados quase que unicamente entre os negros, e o fator Kell, presente sobretudo entre os brancos. Embora eles nunca sejam exclusivos, foram qualificados de marcadores raciais. Enfim, alguns fatores so geograficamente muito circunscritos como, por exemplo, a hemoglobina C para as populaes do planalto voltense.

    Embora os fatores sanguneos sejam desprovidos de valor adaptativo, no escapam inteiramente ao do meio infeccioso ou parasitrio; este pode exercer sobre eles uma triagem com valor seletivo, levando, por exemplo, presena de hemoglobinas caractersticas. Isso ocorre com relao s hemoglobinoses S, ligadas existncia de clulas falciformes ou drepancitos entre as hemcias. Elas foram detectadas no sangue dos negros da frica e da sia. Perigosa

    3 Cf. RUFFIE, J. (?)

  • 287Teorias relativas s raas e histria da frica

    apenas no caso dos homozigotos, a hemoglobina S (Hb S) um elemento de adaptao presena de Plasmodium falciparum, responsvel pelo paludismo. O estudo dos hemtipos em grandes reas permite o traado de curvas isognicas que mostram a distribuio geogrfica dos fatores sanguneos por todo o mundo. Associado ao clculo das distncias genticas, ele d uma ideia de como as populaes se situam umas em relao s outras, enquanto o sentido dos fluxos gnicos permite reconstituir o processo prvio de sua evoluo.

    Apesar de seus desempenhos excepcionais, contudo, o mtodo hemotipolgico e populacional encontra dificuldades. Primeiramente, porque seus parmetros se multiplicam enormemente e j esto apresentando resultados estranhos a ponto de serem encarados por alguns como aberrantes. assim que a rvore filognica das populaes elaborada por L. L. Cavalli -Sforza difere da rvore antropomtrica. Esta coloca os Pigmeus e os San da frica no mesmo ramo antropomtrico que os negros da Nova Guin e da Austrlia; na rvore filognica, esses mesmos Pigmeus e San aproximam -se mais dos franceses e ingleses e os negros australianos dos japoneses e chineses4. Em outras palavras, os caracteres antropomtricos so mais afetados pelo clima que os genes, de modo que as afinidades morfolgicas so mais uma questo de meios similares que de hereditariedades similares. Os trabalhos de R. C. Lewontin, com base nas pesquisas dos hemotipologistas, mostram que, no mundo inteiro, mais de 85% da variabilidade situa -se no interior das naes. Somente 7% da variabilidade separa as naes que pertencem mesma raa tradicional e tambm apenas 7% separam as raas tradicionais. Em resumo, os indivduos do mesmo grupo racial diferem mais uns dos outros que as raas

    por isso que cada vez mais especialistas adotam a posio radical que consiste em negar a existncia de qualquer raa. Segundo J. Ruffie, nas origens da humanidade pequenos grupos de indivduos separados em zonas ecolgicas diversificadas e afastadas, obedecendo a presses seletivas muito fortes enquanto os meios tcnicos eram extremamente limitados , puderam se diferenciar a ponto de dar origem s variantes Homo erectus, Homo neanderthalensis e o mais antigo Homo sapiens. O bloco facial, que a parte do corpo mais exposta a meios ambientes especficos, evoluiu diferentemente; a riqueza de pigmentos melannicos na pele desenvolveu -se em zona tropical, etc. Mas essa tendncia

    4 Citado por J. RUFFIE, 1977, p. 385. Da mesma forma, com base em certos caracteres genticos (o gene Fya no sistema de DUFFY, o alelo Ro, etc.), a porcentagem de mescla branca entre os negros americanos resultante da mestiagem que se vem operando nos Estados Unidos seria de 25 a 30%. Alguns cientistas concluram, a partir disso, que se trata de um novo grupo, precipitadamente batizado como raa norte--americana de cor.

  • 288 Metodologia e pr -histria da frica

    especializante, rapidamente bloqueada, permaneceu embrionria. Em toda parte, o homem se adapta culturalmente (roupas, habitat, alimentos, etc.), e no mais morfologicamente, a seu meio. O homem nascido nos trpicos (clima quente) evoluiu por muito tempo como australopiteco, Homo habilis e at mesmo Homo erectus.

    Foi apenas durante a segunda glaciao que, graas ao controle eficaz do fogo, o Homo erectus optou por viver em climas frios. A espcie humana transforma -se de politpica em monotpica e esse processo de desraciao parece irreversvel. Hoje, a humanidade inteira deve ser considerada como um nico reservatrio de genes intercomunicantes.5

    Em 1952, Livingstone publicava seu famoso artigo Da no existncia das raas humanas. Diante da enorme complexidade e, portanto, da inconsistncia dos critrios adotados para qualificar as raas, ele recomendava a renncia ao sistema lineano de classificao, sugerindo uma rvore genealgica. De fato, nas zonas no isoladas, a frequncia de certos caracteres ou de certos genes evolui progressivamente em vrias direes e as diferenas entre duas populaes so proporcionais a seu distanciamento fsico, de acordo com uma espcie de gradiente geogrfico (cline). Relacionando cada trao distintivo aos fatores de seleo e adaptao que podem t -lo favorecido, notamos frequncias ligadas, ao que parece, muito mais a fatores tecnolgicos, culturais e outros, que no coincidem de maneira nenhuma com o mapa das raas6. Dependendo do critrio adotado (cor da pele, ndice ceflico, ndice nasal, caractersticas genticas e assim por diante), obtm -se mapas diferentes. por isso que alguns especialistas concluem, a partir da, que toda teoria das raas insuficiente e mtica. Os ltimos progressos da gentica humana so tais hoje em dia que nenhum bilogo admite a existncia de raas na espcie humana7. Biologicamente, a cor da pele um elemento negligencivel em relao ao conjunto do genoma. De acordo com Bentley Glass, no h mais de seis pares de genes pelos quais a raa branca difere da raa negra. Os brancos frequentem ente diferem entre si num grande nmero de genes, o mesmo acontecendo com os negros. por isso que a UNESCO, depois de ter organizado uma conferncia de especialistas internacionais, declarou: A raa menos um fenmeno biolgico do que um mito social.8

    5 MAYR, E. citado por RUFFIE, J. p. 115.6 Cf. MONTAGU. Le Concept de Race.7 RUFFIE, J. p. 116.8 Quatro declaraes sobre a Questo Racial, UNESCO, Paris, 1969.

  • 289Teorias relativas s raas e histria da frica

    Isso to verdadeiro que, na frica do Sul, um japons considerado como branco honorrio e um chins como homem de cor.

    Para Hiernaux, a espcie humana parece uma rede de territrios genticos, de genomas coletivos que constituem populaes mais ou menos semelhantes, cuja distncia qualitativa expressa por uma avaliao quantitativa (taxonomia numrica). As fronteiras desses territrios, definidos a partir do cline, flutuam com todas as mudanas que afetam os traos aparentes (fentipos) e os dados serolgicos (gentipos) das coletividades.

    Dessa maneira, qualquer raa, em conformidade com a brilhante intuio de Darwin, seria em suma um processo em marcha, dependendo de algum modo da dinmica dos fluidos; e os povos seriam todos mestios ou estariam em vias de s -lo. De fato, cada encontro de povos pode ser analisado como uma migrao gnica e esse fluxo gentico volta a questionar o capital biolgico de ambos.

    Porm, mesmo que essa abordagem fosse mais cientfica, mesmo que esses territrios genticos mutveis fossem realmente aceitos pelas comunidades em questo, poderamos dizer que os sentimentos de tipo racial seriam suprimidos, uma vez que conservariam sua base material visvel e tangvel, sob a forma de traos fenotpicos?

    Desde que os nazistas, a comear por Hitler, e em seguida outros pseudopensadores afirmaram que o homem mediterrneo representa um nvel intermedirio entre o ariano, Prometeu da humanidade, e o negro, que por sua origem um meio -macaco, o mito racial tem permanecido vivo. Os morfologistas impenitentes continuam a alimentar esse fogo ignbil com alguns galhos mortos9. Lineu, no sculo XVIII, dividia a espcie humana em seis raas: americana, europeia, africana, asitica, selvagem e monstruosa. Com certeza, os racistas se encontram numa ou noutra das duas ltimas categorias.

    De todas essas teses, hipteses e teorias, devemos conservar o carter dinmico dos fenmenos raciais, tendo em mente que se trata de um dinamismo lento e espesso, que se exerce sobre uma enorme quantidade de registros, nos quais a cor da pele (mesmo que ela seja medida por eletroespectrofotmetro) ou a forma do nariz constituem apenas um aspecto quase irrisrio. Nessa dinmica, devem ser levados em conta dois componentes que agem em conjunto: o patrimnio

    9 J. RUFFIE cita um dicionrio francs de medicina e biologia que, em 1972, mantm o conceito de raa segundo o qual existem trs grupos principais (brancos, negros, amarelos), baseados em critrios morfolgicos, anatmicos, sociolgicos e tambm psicolgicos No incio do sculo, C. SEIGNOBOS, em sua Histoire de la Civilisation, escrevia: Os homens que povoam a terra tambm diferem em lngua, inteligncia e sentimentos. Essas diferenas permitem dividir os habitantes da terra em vrios grupos conhecidos como raas.

  • 290 Metodologia e pr -histria da frica

    gentico, que pode ser considerado um gigantesco banco de dados biolgicos em ao, e o meio ambiente, em sentido amplo, pois comea j no meio fetal.

    As mudanas que resultam da interao desses dois fatores bsicos intervm seja sob a forma incontrolvel da seleo e da migrao gnica (mestiagem), seja sob a forma casual da oscilao gentica ou da mutao. Em resumo, toda a histria de uma populao que explica sua presente facies racial, incluindo, atravs da interpretao das representaes coletivas, as religies, os costumes alimentares, de vesturio e outros.

    Nesse contexto, o que dizer da situao racial do continente africano? A difcil conservao dos fsseis humanos devido umidade e acidez dos solos dificulta a anlise histrica sob esse ponto de vista. Contudo, pode -se dizer que, ao contrrio das teorias europeias que explicam o povoamento da frica pelas migraes vindas da sia10, as populaes desse continente so em grande parte autctones. Quanto cor da pele dos habitantes mais antigos do continente nas latitudes tropicais, vrios autores pensam que ela deveria ser escura (Brace, 1964), pois a prpria cor negra uma adaptao protetora contra os raios nocivos, principalmente os ultravioleta. A pele clara e os olhos claros dos povos do norte seriam caracteres secundrios ocasionados por mutao ou por presso seletiva (Cole, 1965).

    Hoje, embora no se possa traar uma fronteira linear, dois grandes grupos raciais so identificveis no continente africano dos dois lados do Saara: no norte, o grupo rabe -berbere, com patrimnio gentico mediterrneo (lbios, semitas, fencios, assrios, gregos, romanos, turcos, etc.); no sul, o grupo negro. Convm notar que as mudanas climticas, que s vezes anularam o deserto, provocaram durante milnios numerosas mesclas populacionais.

    A partir de vrias dezenas de marcadores sanguneos, Nei Masatoshi e A. R. Roy Coudhury estudaram as diferenas genticas inter e intragrupos em caucasoides e mongoloides11. Eles definiram coeficientes de correlao, a fim de estabelecer o perodo aproximado em que esses povos se separaram e constituram grupos distintos. Ao que tudo indica, o grupo negroide tornou -se autnomo h 120.000 anos, enquanto os mongoloides e caucasoides individualizaram -se h apenas 55.000 anos. Segundo J. Ruffie, esse esquema ajusta -se maior parte dos dados da hemotipologia fundamental12. A partir dessa poca, muitas misturas se realizaram no continente africano.

    10 A teoria camtica (SELIGMAN e outro) que se deve, por um lado, ignorncia de certos fatos e, por outro, vontade de justificar o sistema colonial a forma mais racista dessas montagens pseudocientficas.

    11 MASATOSHI, N. e ROY COUDHURY, A. R. 1974, p. 26, 421.12 RUFFIE, J. p. 399.

  • 291Teorias relativas s raas e histria da frica

    Tentou -se mesmo visualizar as distncias biolgicas das populaes graas tcnica matemtica dos componentes principais. A. Jacquard estudou 27 populaes espalhadas desde a regio do Mediterrneo at o sul do Saara13, utilizando cinco sistemas sanguneos que compreendiam 18 fatores. Ele obteve trs grupos principais repartidos em quatro agregados: um ao norte, os caucasoides, composto de europeus, Regueibat, rabes sauditas e Tuaregue Kel Kummer; um ao sul, que consistia nos grupos negros de Agads; agregados intermedirios, incluindo os Peul Bororo, os Tuaregue de Air e de Tassili, os etopes, etc.; e ainda os Harratin, tradicionalmente considerados negros. Assim, seria um engano pensar que essa subdiviso confirma a classificao tradicional em raas, uma vez que, independentemente do que foi dito acima, a forma geral da subdiviso resulta da quantidade de informaes considerada; se esta muito pequena, todos os pontos podem ser reunidos.

    Alm disso, a respeito do homem subsaariano, preciso notar que seu nome original, atribudo por Lineu, era Homo afer (africano). Depois, eles foram chamados negros e, mais tarde, pretos. O termo negroide, mais abrangente, era usado s vezes para designar todas as pessoas que, s margens do continente ou em outros continentes, se pareciam com os pretos. Hoje, apesar de algumas notas dissonantes, a grande maioria dos especialistas reconhece a unidade gentica fundamental dos povos subsaarianos. Segundo Boyd, autor da classificao gentica das raas humanas, existe apenas um grupo negroide que compreende toda a parte do continente situada ao sul do Saara e tambm a Etipia; esse grupo difere sensivelmente de todos os demais. Os trabalhos de J. Hiernaux estabeleceram essa tese com notvel clareza. Sem negar as variantes locais aparentes, ele demonstra, pela anlise de 5050 distncias entre 101 populaes, a uniformidade dos povos no hiperespao subsaariano, que engloba tanto os Sudaneses quanto os Bantu; tanto os habitantes das regies costeiras quanto os Sahelianos; tanto os Khoisan quanto os Pigmeus, os Nilotas, os Peul e outros Etipidas. Em compensao, ele mostra a grande distncia gentica que separa os negros asiticos dos negros africanos.

    Mesmo no campo da lingustica, que nada tem a ver com o fato racial mas que foi utilizada em teorias racistas para inventar uma hierarquia das lnguas que refletisse a pretensa hierarquia das raas, na qual os verdadeiros negros ocupavam o grau mais baixo da escala, as classificaes evidenciam cada vez mais a unidade fundamental das lnguas africanas. As variantes somticas podem ser explica das cientificamente pelas causas das mudanas discutidas acima, especialmente os

    13 JACQUARD, A. 1974, p. 11 -124.

  • 292 Metodologia e pr -histria da frica

    bitipos que ora do origem a agregados de populaes mais compsitas (vale do Nilo), ora a grupos populacionais isolados, que desenvolvem caractersticas mais ou menos atpicas (montanhas, florestas, pntanos, etc.). Por fim, a histria explica outras anomalias atravs das invases e migraes, sobretudo nas zonas perifricas. A influncia biolgica da pennsula Arbica no chamado Chifre da frica tambm se evidencia nos povos dessa regio, como os Somali, os Galla e os etopes, mas tambm, com certeza, nos Tubu, Peul, Tukulor, Songhai, Haussa, etc. J tivemos oportunidade de ver alguns Marka (Alto Volta) com um perfil tipicamente semita.

    Em suma, a admirvel variedade dos fentipos africanos sinal de uma evoluo particularmente longa desse continente. Os fsseis pr -histricos de que dispomos indicam uma implantao semelhante s encontradas no sul do Saara, numa rea muito vasta, que vai da frica do Sul at o norte do Saara, tendo a regio sudanesa representado, ao que parece, o papel de encruzilhada nessa difuso.

    Com certeza, a histria da frica no uma histria de raas. Contudo, para justificar uma certa histria, abusou -se demais do mito pseudocientfico da superioridade de algumas raas. Ainda hoje, o mestio considerado branco no Brasil e preto nos Estados Unidos da Amrica. A cincia antropolgica, que j demonstrou amplamente no haver nenhuma relao entre a raa e o grau de inteligncia, constata que essa conexo s vezes existe entre raa e classe social.

    A preeminncia histrica da cultura sobre a biologia evidente desde a apario do Homo no planeta. Quando ir tal evidncia impor -se aos espritos?

  • 293Teorias relativas s raas e histria da frica

    Alelo Cada um dos elementos que forma o par de genes.

    Migrao gnica Passagem de indivduos reprodutores de sua populao de origem a uma populao adotiva (mestiagem). A mestiagem, que considerada pelos racistas como uma degenerescncia para a raa superior, representa aqui, ao contrrio, um enriquecimento do fundo comum de genes da humanidade. Biologicamente positiva, ela apresenta, no entanto, problemas sociolgicos.

    Mutao Aparecimento de uma alterao numa caracterstica hereditria atravs da modificao de um ou mais genes.

    Oscilao gentica Perturbao do patrimnio gentico num grupo humano reduzido e isolado, resultante de um acidente que provoca a baixa de frequncia ou o desaparecimento de um alelo.

    Seleo Reproduo diferencial dos gentipos de uma gerao a outra.

    GLOSSRIO

    N.B. Estudos sobre esta questo encomendados pela UNESCO, como parte do projeto da Histria Geral da frica:

    HIERNAUX, J. Rapport sur Le Concept de Race. Paris, 1974.RIGHTMIRE, G.P. Comments on Race and Population History in Africa. Nova

    Iorque, 1974.STROUHAL, E. Problems of Study of Human Races. Praga, 1976.

  • C A P T U L O 1 1

    295Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas

    Durante muito tempo, os historiadores acreditaram que os povos da frica no haviam desenvolvido uma histria autnoma, no quadro de uma evoluo que lhes fosse peculiar. Tudo o que representava uma aquisio cultural parecia ter sido levado at eles do exterior por vagas migratrias vindas da sia. Essas teses so encontradas com frequncia nos trabalhos de muitos pesquisadores europeus do sculo XIX. Elas sero sistematizadas e cristalizadas sob forma de doutrina por estudiosos alemes, etngrafos e linguistas, nos primeiros decnios do sculo XIX. Nessa poca, a Alemanha era o principal centro de estudos africanos. Aps a partilha do continente africano entre potncias imperialistas, comearam a aparecer em profuso na Inglaterra, Frana e Alemanha trabalhos que descreviam a vida e os costumes dos povos colonizados. Foi sobretudo na Alemanha que se reconheceu a importncia de um estudo cientfico das lnguas africanas. O ano de 1907 viu o estabelecimento, em Hamburgo, do Instituto Colonial, que depois se tornou um grande centro de pesquisa cientfica, onde foram elaborados os mais importantes trabalhos tericos da escola alem de estudos africanos. A Alemanha estava muito avanada nessa rea, em relao s outras potncias colonizadoras: na Inglaterra, o ensino de lnguas africanas s se iniciou em 1917, na Escola de Estudos Orientais, enquanto, na Frana, nessa poca, a Escola de Lnguas Vivas Orientais no mantinha nenhum curso nessa rea. Foi somente em 1947 que a Escola de Estudos Orientais de Londres

    Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas

    D. Olderogge

  • 296 Metodologia e pr -histria da frica

    passou a se chamar Escola de Estudos Orientais e Africanos. Tambm na Frana, o ensino sistemtico dessas lnguas s foi introduzido um pouco mais tarde.

    As teorias da escola alem e as descobertas recentes

    A Alemanha ocupava, portanto, um lugar de destaque nos estudos histricos, etnogrficos e lingusticos africanos, no perodo que precedeu imediatamente a Primeira Guerra Mundial; os trabalhos publicados na Inglaterra, Frana e Blgica baseavam -se nas teorias dos estudiosos alemes. Assim, os etngrafos da Europa ocidental, no incio do sculo XX, permaneceram apegados ideia difundida pelos alemes de que os povos da frica nunca tinham tido histria prpria. Com base nesse ponto de vista, os linguistas formularam a teoria conhecida como Camtica, segundo a qual o desenvolvimento da civilizao na frica foi devido influncia de povos camticos provenientes da sia, Um estudo dessas ideias mostra uma forte influncia de Hegel, que dividiu os povos do mundo em dois tipos: povos histricos, que contriburam para o desenvolvimento da humanidade, e povos no -histricos,que se colocam margem do desenvolvimento espiritual universal.

    Segundo Hegel, no h evoluo histrica na frica propriamente dita. Os destinos da costa setentrional do continente estariam ligados aos da Europa. Enquanto colnia fencia, Cartago no passava de um apndice da sia, e o Egito era alheio ao esprito africano. As ideias de Hegel exerceram considervel influncia em quase toda pesquisa cientfica relativa frica no sculo XIX; tal influncia marcante na obra de H. Schrz, o primeiro pesquisador a tentar um esboo da histria da frica. Esse autor compara a histria das raas da Europa vitalidade de um belo dia de sol, e a das raas da frica a um pesadelo que logo se esquece, ao acordar.

    Para Hegel, foi na sia que a luz do esprito despertou e que a histria da humanidade teve seu incio. Os estudiosos europeus tinham por indiscutvel a ideia de que a sia, bero da humanidade, foi lugar de origem de todos os povos que invadiram a Europa e a frica. Assim, parecia evidente para o etngrafo ingls Stow que os mais antigos habitantes da frica os San tivessem vindo da sia em duas vagas migratrias distintas, os San pintores e os San gravadores; esses dois grupos teriam seguido trajetrias diferentes, cruzando o mar Vermelho pelo estreito de Bab el -Mandeb. Aps terem atravessado as florestas equatoriais, os dois grupos reencontraram -se no extremo sul do continente africano. Encontra--se nas obras de F. Stuhmann, gegrafo e viajante alemo, a mais completa

  • 297Migraes e diferenciaes tnicas e lingusticas

    aplicao das teses propostas pela escola germnica, construdas sobre sua base histrico -cultural e tendo por objeto o processo de povoamento do continente africano atravs de sucessivas vagas migratrias. De fato, no fim do sculo XIX e incio do XX, foi lanada uma vigorosa ofensiva contra a doutrina evolucionista, que constituiu a base terica dos trabalhos de R. Taylor, L. H. Morgan, Lubbock e outros. A escola de orientao histrico -cultural repudiou a teoria de um desenvolvimento uniforme e integral da humanidade, apresentando uma teoria diametralmente oposta, que postulava a existncia de crculos de civilizao diferenciados, identificveis por critrios intrnsecos derivados principalmente das culturas materiais. Segundo esses autores, a difuso de aquisies culturais deveu -se principalmente s migraes. O estudioso alemo Leo Frobenius foi o primeiro a enunciar essa ideia; depois, Ankermann descreveu a difuso dos crculos de civilizao atravs da frica. Mas foi Stuhlmann quem elaborou o quadro mais detalhado do desenvolvimento das culturas africanas. Afirmou que a populao autctone da frica era constituda de povos de baixa estatura os Pigmeus e os San , que virtualmente no possuam quaisquer elementos culturais. Depois, povos negros de pele escura e cabelos crespos chegaram em vagas migratrias originrias do sudeste da sia. Espalhando -se por toda a savana sudanesa, penetraram na floresta equatorial, introduzindo uma agricultura rudimentar, o cultivo de bananas e de colocsias, o uso de arco e flecha e de utenslios de madeira e a construo de cabanas circulares ou quadradas. Esses povos falavam lnguas de tipo isolante. A eles se teriam seguido vagas de proto camitas, tambm provenientes da sia, mas de regies situadas ao norte das terras de origem dos negros. Os recm -chegados falavam lnguas aglutinantes com classes nominais. Teriam ensinado aos povos autctones o uso da enxada na agricultura, o cultivo do sorgo e de outras gramneas, a criao de gado corngero de pequeno porte, etc. O cruzamento dos proto -camitas com os povos negros teria originado os povos bantu. Seguiram -se invases de camitas de pele clara, que chegaram frica seja atravs do istmo de Suez seja pelo estreito de Bab el -Mandeb. Esses povos seriam os ancestrais dos Peul, Masai, Bari, Galla, Somali e Khoi -Khoi. Teriam introduzido novos elementos culturais, como o gado corngero de grande porte, a lana, os mltiplos usos do couro, o escudo, etc. Segundo Stuhlmann, esses camitas de pele clara so originrios das estepes da sia ocidental. A vaga seguinte seria constituda por povos semitas, que teriam lanado os fundamentos da civilizao do Egito antigo. Teriam introduzido o cultivo de cereais, o uso do arado e do bronze. Depois, chegaram ao Egito os Hicsos e Hebreus, enquanto os Habashat e os Mehri fixavam -se nas terras altas da Etipia. Por ltimo, vieram os rabes, no sculo VII. Todos esses

  • 298 Metodologia e pr -histria da frica

    povos trouxeram para a frica novos elementos de civilizao, absolutamente desconhecidos das populaes anteriores. O trabalho de Stuhlmann foi publicado em Hambu