Histria e memria do Movimento Constitucionalista de ? combatentes da dita Revoluo Constitucionalista

Download Histria e memria do Movimento Constitucionalista de ? combatentes da dita Revoluo Constitucionalista

Post on 07-Sep-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • 1

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 1

    Histria e memria do Movimento Constitucionalista de 1932 em So Paulo: caminhos da

    pesquisa e do ensino

    SERRAZES, Karina Elizabeth *

    Introduo

    Um olhar atento sobre as cidades do estado de So Paulo ir se deparar com diversos smbolos e lugares de

    memria que contam um pouco da sua histria e que materializam sua memria coletiva. Muitos desses smbolos e

    lugares de memria como as ruas e avenidas 9 de julho e 23 de maio, os monumentos em homenagem aos ex-

    combatentes da dita Revoluo Constitucionalista de 1932 como o Obelisco Mausolu aos Heris de 32 no

    Ibirapuera, o Memorial32, dentre outros so referncias Revoluo ou ao Movimento Constitucionalista de 1932,

    que buscam preservar uma determinada perspectiva interpretativa sobre esse acontecimento, materializando

    lembranas que no so mais espontneas e que parecem ter muito pouca correspondncia com o presente, pois parte

    da populao parece desconhecer esse acontecimento ou apresentar percepes equivocadas sobre suas causas e sobre

    o desenrolar dos fatos deste perodo.

    A memria uma reconstruo psquica e intelectual que resulta em uma representao seletiva do passado,

    um passado que nunca aquele de um indivduo apenas, mas de um indivduo inserido num determinado contexto

    histrico como afirma Russo (In AMADO; FERREIRA, 2001). Sendo que seu atributo mais imediato o fato de

    constituir-se socialmente como um lugar intersubjetivo, no qual, uma memria pessoal ganha contornos e elementos

    prprios do coletivo, isto , corresponde memria coletiva.

    A memria coletiva conforme define Halbwachs refere-se sucesso de lembranas, mesmo que pessoais, que

    se produzem em nossas relaes com os diversos meios coletivos, ou seja, cada memria individual um ponto de

    vista sobre a memria coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali se ocupa, o que este lugar

    mesmo muda segundo as relaes que mantenho com outros meios. (1990: 51).

    A memria coletiva garante a continuidade do tempo e constitui elemento essencial da identidade, da

    percepo de si e dos outros (RUSSO In AMADO; FERREIRA, 2001: 94). No caso do Movimento

    Constitucionalista de 1932 em So Paulo as lembranas deste movimento se materializam em seus diversos lugares

    de memria ou registros materiais que permitem o rememorar como museus, monumentos, arquivos e at a prpria

  • 2

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 2

    histria conforme definio de Nora (1993) e compem um trao da identidade e do patriotismo paulista, de certa

    forma definindo as fronteiras culturais que diferenciam So Paulo dos demais estados do pas.

    A quantidade e a variedade dos lugares de memria sobre o Movimento Constitucionalista de 1932 em So

    Paulo, as associaes de ex-combatentes e os eventos comemorativos que nos dias atuais ainda tentam celebrar o

    acontecimento e preservar sua memria, contrastam com a pouca relevncia atribuda ao fato e at mesmo o

    desconhecimento demonstrado por muitas pessoas, quando questionadas sobre o que significam os monumentos e a

    celebrao do feriado de 9 de julho.

    Esse descompasso mostra que memria coletiva se transforma ao longo do tempo e a evidencia dessa

    descontinuidade refora a ideia de que a memria feita de estilhaos e fragmentos e que os processos de

    enquadramento e luta pela preservao, nem sempre so capazes de conter o arbtrio do esquecimento.

    Essa perda de significado do Movimento Constitucionalista de 1932 nos coloca diante de questes como: por

    que o Movimento Constitucionalista de 1932 em So Paulo no recorrente nos dias atuais se temos tantos lugares de

    memria que buscam perpetuar suas lembranas? Quais relaes podemos estabelecer entre a memria e a histria

    desse acontecimento? Qual o papel do ensino de Histria nesse processo de transformao da memria sobre o

    Movimento Constitucionalista de 1932?

    Os indcios que respondem a algumas destas questes esto no prprio processo de construo ou de

    enquadramento dessa memria, ou seja, (...) nas operaes pelas quais o poder vigente, ao cabo de um processo de

    luta, e em condies ainda de disputa entre vencedores consegue estabelecer um fato como ampla ideia, por

    intermdio da qual tanto o exerccio do poder poltico quanto a temporalidade a caracterizar a histria se unem no

    mesmo movimento. (VESENTINI, 1997: 20)

    O processo de enquadramento da memria coletiva, segundo Pollak, envolve batalhas discursivas, estratgias

    de dominao e manipulao, mas que por si no so suficientes para instaurar a memria, pois (...) para que emerja

    nos discursos polticos um fundo comum de referncias que possam constituir uma memria nacional, um intenso

    trabalho de organizao indispensvel para superar a simples montagem ideolgica, por definio 2precria e

    frgil (POLLAK, 1989: 9)

    Dessa forma, o processo de enquadramento da memria no pode ser entendido apenas como uma

    arbitrariedade poltica ou estratgia de dominao, mas como uma construo do prprio tecido social, pois o

    enquadramento da memria necessita de mecanismos de sistematizao e transmisso de uma verso interpretativa e

    de balizamentos materiais como monumentos e rituais comemorativos que permitam a identificao e a permanncia

  • 3

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 3

    das lembranas. Sendo que, tais lembranas precisam ter correspondncia com o sentimento de coeso do grupo e ou

    de pertencimento a ele para que a memria seja efetivamente constituda e preservada.

    Assim, para compreender o processo de construo e de enquadramento da memria histrica sobre o

    Movimento Constitucionalista de 1932 em So Paulo precisamos adentrar o universo da produo memorialista e

    historiogrfica sobre o acontecimento com suas menes e silncios.

    Memria, histria e historiografia do Movimento Constitucionalista de 1932

    No caso da memria sobre o Movimento Constitucionalista de 1932 e seu processo de enquadramento, temos

    que considerar que esse acontecimento representou para seus agentes um fato memorvel na histria de So Paulo,

    demonstrvel pelas quase 250 publicaes sobre o acontecimento, sendo que, pelo menos 150 delas foram publicadas

    entre os anos de 1932 e 1937 conforme afirma Borges (1997).

    Dentre estas publicaes, A Guerra Cvica - 1932 de Paulo Nogueira Filho um exemplo marcante das

    inferncias referentes ao Movimento Constitucionalista de 1932 como uma guerra inevitvel e de ideais legtimos:

    no havia como fugir ao dilema inexorvel, ou So Paulo se defendia, indo ao supremo sacrifcio da insurreio

    armada, ou o peso do oprbrio aniquilaria a alma coletiva. No era possvel hesitar. Na salvaguarda dos mais

    altos ideais da comunidade, So Paulo recorreu, em legtima defesa, luta cruenta, carregando com altanaria

    sua cruz, no calvrio da Guerra. (NOGUEIRA FILHO, 1965: 23)

    Outro exemplo significativo dessa perspectiva interpretativa so os escritos de Aureliano Leite que analisando

    o episdio em termos de causas e objetivos sintetiza seus ideais democrticos como a Constituio, a Revoluo de

    1932, um dos mais belos movimentos armados de todos os tempos, no conseguiu alcanar uma vitria material, mas

    acabou alcanando seu fim indiretamente com a Constituio de 1934 (LEITE, 1962: 144)

    Esses exemplos de relatos dos contemporneos sobre o Movimento Constitucionalista de 1932 em So Paulo

    mostram a tnica inicial da construo da memria sobre este acontecimento, ou seja, a exaltao dos fatos e dos

    ideais democrticos que propugnavam seus lderes, que imprimiu um carter apaixonadamente militante memria,

    perdendo-se muitas vezes na encruzilhada de seus objetivos e finalizaes, mas que compem um mosaico de

    interpretaes e impresses, que precisa ser investigado e analisado pelos historiadores de modo mais consistente.

    De acordo com Abreu

    os testemunhos configuravam uma narrativa cannica do evento sustentada numa percepo comum dos fatos polticos anteriores e subsequentes ao movimento de 1932. Os autores viam a Revoluo Constitucionalista

  • 4

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 4

    como revelao de um sentido na histria brasileira: o desenvolvimento gradual dos princpios do liberalismo poltico e da democracia. Na narrativa cannica o movimento constitucionalista seria o sacrifcio de So Paulo pela democracia e autonomia estadual (...) (2008: 4)

    O autor analisa a produo memorialista sobre o Movimento Constitucionalista de 1932 e afirma que as

    publicaes tinham um ponto em comum, a condio de testemunhas dos acontecimentos narrados (ABREU,

    2008: 3) e que a reivindicao dessa condio como atributo de verdade caracterizou uma guerra literria, que

    representava tanto um apelo s lembranas quanto s expectativas de mudanas no regime poltico.

    Essa extensa produo memorialista demonstra a importncia atribuda ao movimento pelos seus

    contemporneos, porm curioso o fato de que as geraes posteriores tenham cada vez menos referncias sobre esse

    acontecimento, principalmente em relao a esses ideais democrticos destacados por seus memorialistas.

    Esse percurso da memria coletiva que parece gradativamente obscurecer o movimento apresenta suas

    nuances tambm na historiografia. Muitos trabalhos sobre a Revoluo ou o Movimento Constitucionalista de 1932

    encontram-se centrados, principalmente, na Revoluo de 30 ou na Era Vargas, constituindo, por vezes, de simples

    referncias.

    Segundo Abreu (2008) o esforo de construo da memria sobre o Movimento Constitucionalista de 1932

    passou quase desapercebido pela produo historiogrfica at a dcada de 1960. Para ele,

    o silncio dos historiadores profissionais sobre este esforo poltico e intelectual devia-se incorporao mais ou menos naturalizada da interpretao negativa do interregno liberal entre 1930 e 1937. No que se refere Revoluo Constitucionalista, a narrativa estado-novista sobre o evento como eplogo das foras disjuntivas da Repblica Velha delimitou as interpretaes posteriores sobre o acontecimento. (ABREU, 2008: 9)

    Este silncio sobre o Movimento Constitucionalista de 1932 produzido pelo Estado Novo (1937-1945) foi

    rompido por estudos que passaram a questionar a memria desse acontecimento e seus mitos oficializados e que

    segundo Abreu (2008) ampliaram o leque semntico conceitual sobre o tema como os trabalhos de Helio Silva

    (1967), Maria Helena Capelato (1981), Holien Bezerra (1988), Vavy Pacheco Borges (1997), Jeziel de Paula (1999),

    dentre outros, mas que tambm apresentam ambiguidades interpretativas que carecem de anlise mais apurada

    (RODRIGUES, 2009).

    Tais omisses e ambiguidades ocorrem porque a memria e a historiografia apresentam vicissitudes

    semelhantes na reconstituio do passado, que transitam entre o narrar e o silenciar. Conforme afirma Burke

    lembrar o passado e escrever sobre ele no mais parecem atividades inocentes que outrora se julgava que fossem. Nem as memrias nem as histrias parecem mais ser objetivas. Nos dois casos, os historiadores aprendem a levar em conta a seleo consciente ou inconsciente, a interpretao e a distoro. Nos dois casos, passam a ver o

  • 5

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 5

    processo de seleo, interpretao e distoro como condicionado, ou pelo menos influenciado, por grupos sociais. No obra de indivduos isolados. (BURKE, 2000: 69)

    Percebe-se assim, a estrita relao entre a histria e o conjunto da memria. Segundo Pollak, o trabalho de

    enquadramento da memria se alimenta do material fornecido pela histria (...) e o historiador, por sua vez, est

    reinterpretando o passado a partir de preocupaes presentes. (POLLAK, 1989: 9)

    Para Valensi preciso reduzir a oposio aceita entre histria e memria,

    (...) a histria sim atividade intelectual que organiza dados para torn-los inteligveis, quando a memria refugio da emoo. Sim, a histria se pe a distncia do passado e nele procura rupturas e descontinuidades, quando a memria supe continuidade (...) Uma espcie de clusula implcita figura no contrato que liga o historiador e seu leitor, ambos so dominados por sua comum inscrio no tempo. (VALENSI, 1994: 258)

    Essa correlao entre histria e memria constitui para Visentini o que ele denominou de memria histrica,

    ou seja, que a ideia reside no prprio interior do fato constituindo-o, ou ele no nos aparece como fato

    (VESENTINI, 1997: 85)

    E essa ideia, segundo Vesentini, pode tornar-se poderoso instrumento de controle nas mos do poder,

    instituindo uma percepo unitria, memria do vencedor, tomando esta o estilo de uma grande interpretao,

    conformadora do prprio tempo. (VESENTINI, 1997: 131)

    Assim, o autor afirma que a memria penetra na historiografia, produzindo um fato como absoluto. A

    Revoluo de 30, nesse sentido, expressa o campo de ao do poder vigente e afirma-se ao geral, nao, sendo que

    a historiografia sobre o Movimento Constitucionalista de 1932 em So Paulo absorveu muitos elementos da memria

    desse acontecimento, ocultando os conflitos difusos da dcada de 30.

    nesse campo de ao do poder que este trabalho retoma o percurso da memria coletiva sobre a Revoluo

    ou o Movimento Constitucionalista de 1932 em So Paulo e da sua memria histrica, buscando compreender os

    processos pelos quais as lembranas foram institudas e as relaes que se estabeleceram entre a histria e a memria.

    Considerando-se esse momento histrico como um perodo conturbado no qual o xtase revolucionrio era

    uma constante, cabe ressaltar que a denominao revoluo, utilizada por memorialistas e at mesmo historiadores

    para designar o Movimento Constitucionalista de 1932 compunha um mosaico de significaes, que se alimentou do

    xtase popular e em nome da ordem e da constitucionalizao do pas se estabeleceu como perspectiva interpretativa.

    Capelato (1989) em seu livro O movimento de 1932: a causa paulista, inicia sua argumentao, afirmando que

    a historiografia sobre o perodo reproduziu a memria de seus agentes e dela abstraiu a complexidade dos conflitos

  • 6

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 6

    sociais, resumindo o Movimento Constitucionalista de 1932 em So Paulo a uma luta entre dois setores da mesma

    classe, os tenentes e a oligarquia paulista, quando se constituiu em lutas sociais que ocorreram em toda sociedade.

    Essa simplificao da revoluo numa disputa entre tenentes e oligarquia obliterando a dinmica dos conflitos

    sociais um indicativo dos mecanismos de dominao presentes nesse perodo.

    De acordo com Bezerra, a Revoluo Paulista de 1932 um momento privilegiado do processo das relaes

    de classe no Brasil, onde aparecem com bastante clareza os mecanismos de dominao de uma classe sobre o

    conjunto da sociedade (BEZERRA, 1988: 26)

    Estes mecanismos de dominao so elementos que nos possibilitam especular sobre uma resposta para as

    questes anteriormente propostas, ou seja, o esvaziamento da memria do Movimento Constitucionalista de 1932 e a

    continuidade de um civismo artificial, de uma tradio inventada.

    A inveno da tradio, segundo Hobsbawn, essencialmente um processo de formalizao e ritualizao,

    caracterizado por referir-se ao passado, mesmo que apenas pela imposio da repetio (1997: 13) e que ela

    corresponde a uma reorganizao simblica com fins conservadores, ou seja, frente s novas mudanas da dcada de

    30 a tradio bandeirante, evocada durante o Movimento Constitucionalista de 1932 e reforada pelos relatos

    memorialistas, responde a uma continuidade histrica que minimiza o conflito e reabsorve-os.

    Contudo, o Movimento Constitucionalista de 1932, demonstra um agravamento das contradies sociais, ao

    mesmo tempo em que, parece ter conseguido obscurecer a dinmica dos conflitos que efervesciam o momento, ou

    melhor, a nova ordem poltica que se configurava a partir da Revoluo de 30, a crise econmica, o movimento

    grevista e o aparecimento das classes mdias reivindicando participao poltica.

    Juntamente com o acirramento dos conflitos, a represso do Estado s dissidncias polticas e as

    reivindicaes das classes populares tomaram consistncia, de modo que, segundo Paulo Srgio Pinheiro, (...) a

    revoluo constitucionalista de 1932 deixa de ser uma excentricidade ou um movimento ditado apenas pelos

    interesses da hegemonia paulista ameaados pelo novo bloco no poder (...) , pois, o que ganhamos depois de 1930

    foi a modernidade da manipulao da tutela e da ampliao do controle do Estado sobre a sociedade. (PINHEIRO,

    1991: 270), conjugando coero violenta e legitimao forjada pelo discurso.

    Dessa forma, ao analisar o percurso da memria histrica ou as relaes entre memria e histria, temos que

    considerar que a histria do mundo ocorre duas vezes a primeira vez como tragdia e a segunda como farsa

    (MARX; ENGELS, 1986: 17), assim, cabe-nos resgatar o momento de tragdia e desvendar o contedo de farsa que

    envolve as verses interpretativas do Movimento Constitucionalista de 1932 em So Paulo e as lutas discursivas que

  • 7

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 7

    engendraram suas representaes.

    Alm disso, para investigar o processo de construo e enquadramento da memria histrica deste

    acontecimento precisamos compreender a dimenso pedaggica da memria, que tem no ensino um mecanismo de

    sistematizao e transmisso.

    O Movimento Constitucionalista de 1932 e o ensino de Histria

    O governo ditatorial de Vargas (1937-1945) consolidou os programas curriculares de Histria e as orientaes

    metodolgicas em torno da ideia de construo nacional e como afirma Fonseca (2003) as noes de ptria, tradio,

    famlia e nao deveriam ser desenvolvidas com o intuito de despertar o esprito patritico na populao, que

    juntamente com as festas cvicas e o culto ao lder conjugariam um sistema de ensino voltado para a legitimao do

    regime, ou melhor, na busca da recuperao do passado e no quadro do iderio nacionalista, a nfase em grandes

    feitos e grandes heris no poderia deixar de ser considerada.

    Segundo Thais Fonseca (2003) com a Reforma Capanema, de 1942, a Histria do Brasil retornou aos

    programas oficiais como disciplina autnoma, que tinha como princpio norteador a formao moral e patritica dos

    educandos e que no ensino secundrio, de carter propedutico, deveria contribuir para a formao de uma cultura

    geral e erudita, indispensvel ao ingresso no ensino superior, demonstrando o dualismo que caracterizou a educao

    nesse perodo, ou seja, de um ensino secundrio voltado para a elite e um ensino profissionalizante voltado para as

    camadas populares.

    Nesse perodo, os livros didticos eram as ferramentas fundamentais para indicar os rumos da aula, a

    maneira correta de o professor dar aula (BITTENCOURT, 2004: 88), pois, livros didticos e comemorao cvica

    atuam como mediadores entre concepes e prticas polticas e culturais, tornando-se parte importante da

    engrenagem de manuteno de determinadas vises de mundo e de histria. (FONSECA, T., 2003: 73)

    O fim do governo ditatorial de Vargas e da Segunda Guerra Mundial trouxeram novas questes para o debate

    sobre o ensino de Histria, pois era necessrio conter a expanso de ideias racistas e preconceituosas e promover uma

    cultura da paz, de modo que os contedos dessa disciplina deveriam revestir-se de um carter mais humanstico e

    pacifista.

    De acordo com Bittencourt (2004) os debates sobre o ensino de Histria se fortaleceram nas dcadas de 50 e

    60, principalmente porque a disciplina era alvo de crticas dos prprios professores da rea, que afirmavam que o

  • 8

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 8

    ensino estava atrelado erudio histrica e que isso pouco contribua para a autonomia do pensamento e para a

    compreenso da conjuntura poltica e econmica que estavam vivenciando.

    Nos anos 50 foram realizadas alteraes nos programas para o ensino de Histria e uma redistribuio dos

    contedos por srie para os cursos ginasial e colegial e com a consolidao do currculo cientfico divulgava-se que

    o professor deveria manter uma atitude de neutralidade diante de todos os acontecimentos histricos do passado e

    do presente (BITTENCOURT, 2004: 89), o que correspondia ideia difundida na poca de que as cincias humanas

    deveriam fundamentar-se em um conhecimento neutro e objetivo. De modo que, as propostas de renovao do ensino

    de Histria se concentraram no desenvolvimento de tcnicas de ensino, orientadas para a utilizao de diferentes

    materiais e recursos didticos, mas que no promoveram a reviso de seus contedos e objetivos, mesmo porque os

    livros didticos ainda mantinham as mesmas caractersticas das dcadas anteriores, entendendo o ensino de Histria

    como instrumento de formao moral e poltica. (FONSECA, 2003)

    Nesse perodo, o Brasil estava vivenciando o populismo do governo de Juscelino Kubitschek e o crescimento

    econmico promovido pelas polticas desenvolvimentistas e era necessrio legitim-las atravs da educao. O ensino

    de Histria, nessa perspectiva, tambm se voltou para o estudo da temtica econmica, ou seja, dos ciclos

    econmicos entendidos a partir de uma sucesso linear, o que demonstra a influncia da historiografia marxista e a

    consonncia com as novas demandas da conjuntura econmica.

    O governo militar ps 1964 apesar de no ter conseguido frear essa crescente demanda escolar criou

    mecanismos de controle ideolgico para eliminar possveis resistncias ao regime autoritrio vigente. Sob a tica da

    Doutrina de Segurana Nacional e Desenvolvimento, o ensino de Histria aprofundou a concepo de histria

    tradicional, que enfatizava os fatos polticos e as biografias de personagens clebres e objetivava a formao moral e

    cvica dos educandos.

    A nfase em uma educao cvica se fortaleceu ao longo do regime militar, que a partir da lei n 5692/71

    redefiniu disciplinas como Educao Moral e Cvica e Organizao Social e Poltica Brasileira e introduziu outras

    como Estudos dos Problemas Brasileiros e os Estudos Sociais, que unia e ao mesmo tempo esvaziava os contedos de

    Histria e Geografia, dando-lhes um carter mais ideolgico, no qual prevalecia o desenvolvimento de noes de

    preservao da segurana, de manuteno dos sentimentos patriticos, do dever e da obedincia s leis

    (FONSECA, T. 2003: 57)

    No 2 grau, atual ensino mdio, a disciplina Histria subsistiu com carga horria reduzida, sendo que os

    contedos propostos nos programas curriculares foram organizados em uma perspectiva de tempo linear, utilizando a

  • 9

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 9

    periodizao eurocntrica da Histria (Idade Antiga, Mdia, Moderna e Contempornea) e da Histria do Brasil

    (Colnia, Imprio e Repblica), tendo como marcos os acontecimentos da histria poltica, demonstrando a

    prevalncia de uma concepo tradicional de Histria e de um ensino diretivo, no reflexivo. Assim, o ensino de

    Histria assumia a tarefa de formao cvica, impondo regras de conduta poltica por meio de estudos e temas que

    eram de interesse central do governo. (FONSECA, T., 2003: 25)

    Esse ensino diretivo, no reflexivo estava alicerado nos mtodos de ensino mnemnicos e na utilizao

    constante dos livros didticos, que frequentemente difundiam os ideais do governo militar e mantinham os alunos em

    uma atitude passiva e receptiva, em uma relao professor/aluno marcada pelo autoritarismo, o que naquele momento

    estava em perfeita consonncia com os princpios do regime poltico vigente.

    Nesse perodo tambm foram criados os cursos de licenciatura curta e houve um afastamento entre as

    universidades e a escola bsica, resultante da introduo de disciplinas como Estudos Sociais, que negligenciava as

    especificidades da Histria enquanto campo de estudo, o que gerou no decorrer dos anos 70 muitas crticas dos

    profissionais da rea e uma luta pelo retorno da disciplina, pela extino dos cursos de licenciatura curta e pela

    renovao dos contedos e mtodos de ensino de Histria.

    Com a redemocratizao do pas na dcada de 80 os debates sobre o ensino de Histria se acirraram e

    surgiram novas propostas metodolgicas e novos programas curriculares, que influenciados por diversas tendncias

    historiogrficas, voltaram-se para a ampliao das abordagens, problemticas e temticas, visando redimensionar a

    funo social e a poltica da disciplina e superar a abordagem histrica tradicional que marcou a trajetria da histria

    ensinada.

    Acompanhando este breve relato da trajetria da histria ensinada percebemos que:

    da formao do sdito fiel monarquia, do cidado consciente e participativo, o ensino de Histria tem caminhado em consonncia com as questes de seu tempo, mesmo que em alguns momentos particularmente os de regimes polticos autoritrios o direcionamento e o cerceamento sejam maiores e mais prejudiciais reflexo histrica. (FONSECA, T., 2003: 88)

    Dessa forma, vemos que o ensino de Histria um lugar onde as memrias dialogam e entram em conflito.

    Seu processo de constituio dinmico, pois resulta de escolhas e embates entre grupos e envolve um exerccio

    constante de esquecer e lembrar .

    Alm disso, considerando que os currculos escolares so definidos a partir da interveno do Estado e de um

    processo de seleo e organizao dos contedos e abordagens que podem contribuir para que alguns acontecimentos

    sejam lembrados e outros silenciados, podemos pensar o currculo tambm como um lugar de memria. Como

  • 10

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 10

    afirma Silva,

    o currculo tambm uma relao social, no sentido de que a produo de conhecimento que visto como coisa foi produzido atravs de relaes sociais e de relaes sociais de poder. Esquecer esse processo de produo no qual esto envolvidos relaes de poder entre grupos sociais significa reificar o conhecimento e reificar o currculo, significa destacar seus aspectos de consumo e no de produo. (2009: 194)

    Os currculos esto envoltos em conflitos, relaes de poder e disputas de memria que evidenciam as tenses

    presentes na sociedade, as formas de governo e os interesses que envolvem as polticas educacionais, que podem

    resultar no fortalecimento de uma memria dita oficial, em detrimento de outras memrias. E mais, o currculo como

    um campo de disputas polticas e culturais, que se relacionam e sem embatem em dois nveis, o prescrito e o vivido,

    envolve um processo de reconstruo, de seleo, de didatizao mediado pela subjetividade do trabalho docente e

    revela tenses, aproximaes e distanciamentos.

    Assim, preciso investigar este processo de reconstruo e didatizao dos currculos de Histria e suas

    imbricadas relaes para compreender o complexo processo de construo e enquadramento da memria histrica

    sobre o Movimento Constitucionalista de 1932 em So Paulo.

    Consideraes Finais

    Os questionamentos mencionados no incio do texto como: por que o Movimento Constitucionalista de 1932

    em So Paulo no recorrente nos dias atuais se temos tantos lugares de memria que buscam perpetuar suas

    lembranas? Quais relaes podemos estabelecer entre a memria e a histria desse acontecimento? Qual o papel do

    ensino de Histria nesse processo de transformao da memria sobre o Movimento Constitucionalista de 1932? nos

    instigam a investigar o processo de construo e enquadramento da memria histrica do referido acontecimento na

    perspectiva de compreender o papel do ensino de Histria neste processo.

    Como afirmamos anteriormente, a memria necessita de mecanismos de sistematizao e transmisso de uma

    verso interpretativa e de balizamentos materiais e o ensino de Histria um destes mecanismos, j que tambm um

    lugar onde as memrias entram em conflito e onde o narrar e esquecer esto presentes.

    A discusso sobre as relaes entre o ensino de Histria e a construo da memria histrica sobre o

    Movimento Constitucionalista de 1932 em So Paulo ainda est em fase preliminar, pois estamos realizando o

    levantamento do estado da arte sobre o tema e definindo os caminhos da pesquisa. De modo que, estamos buscando e

    selecionando possveis fontes de pesquisa como a legislao que estabeleceu o feriado de 9 de julho e a concesso de

  • 11

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 11

    medalhas comemorativas aos ex-combatentes do movimento e a atuao de instituies como o Instituto Histrico e

    Geogrfico de So Paulo e da Academia Paulista de Letras na preservao da memria sobre esse acontecimento, as

    polticas curriculares de Histria e de produo de materiais didticos e as narrativas dos textos didticos sobre o

    acontecimento.

    Alm disso, estamos analisando a possibilidade de coletar depoimentos orais de professores de Histria e

    alunos dos cursos de licenciatura em Histria por intermdio de entrevistas semiestruturadas com o objetivo de

    identificar as percepes que estes indivduos construram sobre o acontecimento histrico em questo, buscando

    indicativos das formas como o ensino de Histria atua no processo de constituio da memria histrica.

    Enfim, o que nos propomos uma remontagem do processo de constituio da memria histrica do

    Movimento Constitucionalista de 1932 em So Paulo por meio da anlise de seus vrios vestgios, escritos, orais e

    materiais objetivando esclarecer a relao entre memria e ensino de Histria, currculo e memria histrica.

    Referncias

    ABREU, Marcelo Santos de. As comemoraes da Revoluo Constitucionalista de 1932: representao do passado e construo social do espao regional (So Paulo, 1934 1955). Estudos Histricos, RJ, n 40, julho-dezembro de 2007. ABREU, Marcelo Santos de. A Revoluo Constitucionalista de 1932: historiografia e histria. Anais do XIII Encontro de Histria ANPUH Rio. 2008. Disponvel em: http://encontro2008.rj.anpuh.org/resources/content/anais/1215609388_ARQUIVO_ARevolucaoConstitucionalistade1932.pdf. Acesso em: 04/02/2013. AMADO, Janana; FERREIRA, Marieta de Moraes (coord.). Usos e abusos da histria oral. 4 ed. Rio de Janeiro: FGV, 2001. BEZERRA, Holien Gonalves. O jogo do poder: a revoluo paulista de 32. So Paulo: Moderna, 1988. BURKE, Peter. Histria com memria social. In: Variedades de Histria Cultural. Rio de Janeiro: Civilizao brasileira, 2000. BITTENCOURT, Circe M. F. Ensino de Histria: fundamentos e mtodos. So Paulo: Cortez, 2004. BORGES, Vavy Pacheco. Memria Paulista. So Paulo: Edusp, 1997 CAMARGO, ureo de Almeida. Roteiro de 1932. Revista de Histria, So Paulo, v. 45, n. 91, jul-set, 1972. p. 203-

  • 12

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 12

    260 CAPELATO, Maria Helena Rolim. O movimento de 1932: a causa paulista. So Paulo: Brasiliense, 1981. CARRETERO, M.; ROSA, A.; GONZALES, M. F. (orgs.) Ensino da histria e memria coletiva. Porto Alegre: Armed, 2007. DALSSIO, Mrcia. Memria: leituras de Halbwachs e P. Nora in Revista Brasileira de Histria. So Paulo, v. 13, n.25/26, set.92/ago.93. DE PAULA, Jeziel. 1932: Imagens Construindo a Histria. 2ed. Campinas: Unicamp, 1999. FAUSTO, Boris. A revoluo de 1930: histria e historiografia. 16 ed. So Paulo: Cia. das Letras, 1997. FONSECA, Selva Guimares. Didtica e prtica de ensino de Histria. 6 ed. Campinas: Papirus, 2003. FONSECA, Thais Nvia de Lima. Histria & ensino de Histria. Belo Horizonte: Autntica, 2003. HALBWACHS, Maurice. A memria coletiva. So Paulo: Vrtice, Editora dos Tribunais, 1990. HILTON, Stantey E. A Guerra civil brasileira: histria da Revoluo Constitucionalista de 1932. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982. HOBSBAWN, Eric; RANGER, Terence (org.). A inveno das tradies. 2 ed. So Paulo, Paz e Terra, 1997. LEITE, Aureliano. Causas e Objetivos da Revoluo de 32 in Revista de Histria. So Paulo, FFCL/USP, v. 25 publicado em 10/09/1962. LOVE, Joseph L.. A repblica brasileira: federalismo e regionalismo (1889-1937). In MOTA, Carlos Guilherme (Org). Viagem incompleta: a experincia brasileira (1500-2000) a grande transao. So Paulo: Editora SENAC So Paulo, 2000. MARX, K.; ENGELS, F. O 18 Brumrio. 5 edio RJ. Paz e Terra, 1986. MONTEIRO, Ana Maria; GASPARELLO, Arlette. M.; MAGALHES, Marcelo (orgs.). Ensino de histria: sujeitos, saberes e prticas. Rio de Janeiro: Mauad X, 2007. NOGUEIRA FILHO, Paulo. A Guerra Cvica - 1932. RJ: Editora Jos Olmpio, 1965. NORA, Pierre. Entre memria e histria: a problemtica dos lugares. Projeto Histria: Revista de Estudos Ps Graduados em Histria, So Paulo, PUC, n. 10, dez./ 1993. p. 07-28. POLLAK, Michael. Memria e identidade social. Estudos Histricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n.10, 1992, p. 200-212.

  • 13

    * Doutoranda do Programa de Educao Escolar da UNESP, campus Araraquara/SP, Mestre em Histria pela UNESP,

    campus Franca/SP e docente do Centro Universitrio Claretiano, Batatais/SP. Pgina 13

    RICOEUR, Paul. A memria, a histria, o esquecimento. Campinas-SP: Ed.Unicamp, 2007. RODRIGUES, Joo Paulo. O Levante Constitucionalista de 1932 e a Fora da Tradio: Do confronto blico batalha pela memria (1932-1934). Assis, 2009. Tese (Doutorado em Histria) Faculdade de Cincias e Letras de Assis Universidade Estadual Paulista. SERRAZES, Karina Elizabeth. As Faces da Memria: a Revoluo Constitucionalista de 1932 na cidade paulista de Batatais. Franca, 2000. Dissertao (Mestrado em Histria). FHDSS Universidade Estadual Paulista, 2000. SILVA, Tomaz Tadeu da. Currculo e identidade social: territrios contestados, In: SILVA,T. T. da (org.), Aliengenas na sala de Aula. Uma introduo ao Estudos Culturais em Educao. 8ed. Petrpolis: Vozes, 2009. SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getlio a Castelo. 8 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. VALENSI, Lucette. Fbulas da memria: a batalha de Alccer Quibir e o mito do sebastianismo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994. VESENTINI, Carlos Alberto. A teia do fato: uma proposta de estudo sobre a memria histrica. So Paulo: HUCITEC, 1997.