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Augusto Jos dos Santos Fitas

(Professor Associado com Agregao da Universidade de vora)

Histria e Filosofia da Cincia

(colectnea de textos)

(Textos para uso dos estudantes do Doutoramento em Histria e Filosofia da

Cincia, da disciplina de Histria e Filosofia da Cincia do mestrado em Qumica, da Histria

das Ideias em Fsica das Licenciaturas em Fsica e em Ensino de Fsica e Qumica da

Universidade de vora)

UNIVERSIDADE DE VORA

2014

Histria e Filosofia da Cincia (colectnea de textos)

[1]

Contedo

1. A Histria da histria das cincias percursos, ideias, actores, querelas1

2. A Cincia e a Filosofia da Cincia na transio para o sculo XX2

3. Uma Controvrsia na Histria da Fsica3

4. A Cincia em Portugal no sculo XX: a Fsica no perodo entre guerras4

5. Os Principia de Newton5

6. O Princpio da Menor Aco: uma resenha histrica breve e incompleta6

7. Notas em Construo: Os Gregos

8. Notas em Construo: - Notas sobre a Vida e Obra de Galileu

1 Verso maior de um texto j publicada: Fitas, A.J.Santos (2009). Histria das Cincias: das Muitas memrias necessidade da histria. In II Jornadas de memria Militar Os militares a cincia e as artes. Lisboa: Academia Internacional da Cultura Portuguesa. 17-39. 2 Fitas, A.J., Marcial. E. Rodrigues, M. Ftima Nunes, 2008,Filosofia e Histria da Cincia em Portugal no sculo XX, Lisboa, Caleidoscpio (Captulo 1). 3 Fitas, Augusto J. Santos (1993). Uma Controvrsia na Histria da Fsica, VRTICE, 56: 49-71. 4 Fitas, Augusto J. S., e Antnio A. P. Videira (org.), 2004, Cartas entre Guido Beck e Cientistas Portugueses, Lisboa, Instituto Piaget (Captulos 3 e 4) 5 Parte deste texto baseia-se em dois artigos j publicados: Fitas, Augusto J. Santos, 1996, Os Princpios de Newton,alguns comentrios (Primeira parte, a Axiomtica), Vrtice,72, 61-68; Fitas, Augusto J.Santos,1996, Os Principia de Newton, alguns comentrios (Segunda parte, a Gravitao), Vrtice, 73, 97-102 6 Este texto corresponde a um resumo do livro publicado posteriormente: Fitas, Augusto J. Santos (212), 1996O Princpio da Menor Aco: uma histria de Fermat a Lagrange. Lisboa: Caleidoscpio.

Histria e Filosofia da Cincia (colectnea de textos)

[2]

A Histria da histria das cincias percursos, ideias, actores, querelas7

Foi s nos finais do sculo XIX, ou nos incios do sculo XX, que a Histria das

Cincias se definiu como disciplina: delimitaram-se os seus contedos, entendeu-se a sua

especificidade, iniciou-se a sua afirmao institucional quer atravs do ensino superior quer

pelo aparecimento de revistas que lhe foram consagradas, quer, ainda, pela sua introduo

como tema em seces dos congressos internacionais de cincias (de histria?) e de

filosofia. Foi j em pleno sculo XX, no perodo entre guerras, que a disciplina de Histria

das Cincias se institucionalizou no seio da comunidade cientfica internacional (cientistas,

historiadores e filsofos) atravs dos seus Congressos Internacionais de Histria das

Cincias de onde emergiram algumas figuras determinantes na afirmao desta rea do

conhecimento. Foi tambm neste perodo que se lanaram as bases conceptuais que ho-de

permitir o desenvolvimento terico desta rea do conhecimento no ps segunda guerra

mundial, ultrapassando-se as muitas memrias para passar a desenhar a sua prpria histria.

No sentido de melhor explicitar o contedo do que a seguir se expe, socorremo-

nos de uma citao:

[A Histria] tanto pode significar a realidade vivida num tempo e num espao prprios, como o conhecimento dessa realidade ou das suas representaes () por sua vez, o conhecimento histrico pode ter tambm vrios significados ou graus, isto , pode ser entendido como conhecimento cientfico (se aceitarmos que a histria uma cincia), resultante do trabalho de pesquisa do historiador para o narrar, interpretar (ou simplesmente compreender) e apresentar, geralmente de forma escrita () e pode ainda ter a forma de conhecimento, a que chamaremos memria, que existe (embora nem sempre, dado que se verifica tambm a ignorncia histrica, que afinal uma forma de memria ou de no-memria) em cada indivduo, em cada grupo social, em cada grau etrio8.

Est dada assim a chave para se entender a diferena de acepes atribudas a

estes dois vocbulos, histria e memria, muitas vezes tomados como sinnimos, mas aqui

momentanemente separados, acima de tudo, pelo esforo do conhecimento ou pela

necessidade da interpretao e compreenso. Posto isto, talvez se possa dizer que tudo

comeou numa ampla coleco de memrias

7 NOTAS em construo do seminrio de doutoramento em HFC e do qual se publicou uma verso mais curta: FITAS, A.J.Santos (2009). Histria das Cincias: das Muitas memrias necessidade da histria. In II Jornadas de memria Militar Os militares a cincia e as artes. Lisboa: Academia Internacional da Cultura Portuguesa. 17-39. 8 (TORGAL et al., 1998:14).

Histria e Filosofia da Cincia (colectnea de textos)

[3]

1. Dos primrdios at ao sculo XIX das muitas memrias ao incio da

histria

J na Antiguidade Clssica surgiu um primeiro texto, compilando os

conhecimentos em Matemtica, escrito por Eudemo (350-290AC)9, tabalho que pode ser

considerado como uma das primeiras obras em histria das cincias. As obras dos filsofos

da Antiguidade10 e do perodo medieval preocupavam-se sempre em descrever uma

determinada genealogia de conhecimentos, apresentando assim uma histria das ideias do

tema em causa, onde se incluam amplas referncias aos seus antecessores e se integravam

extensos comentrios sobre as teorias destes:

No conhecemos directamente as obras de numerosos sbios da Antiguidade, [mas apenas atravs dos escritos dos compiladores (....) a sua [dos compiladores] actividade foi muito considervel desde a Antiguidade romana, a partir do sculo III DC (...) estes autores no faziam obra de historiadores mas de escritores didcticos, pois o contedo das suas obras era constitudo por noes cientficas ainda em curso. No entanto, foram os compiladores do perodo helenstico e, depois, os seus continuadores bizantinos, judeus, rabes, enfim da Idade Mdia Ocidental, que conservaram e transmitiram as primeiras noes histricas sobre a cincia da Antiguidade11.

A ttulo de exemplo, nunca demais relembrar que na Fsica de Aristteles que

se descrevem os paradoxos de Zeno no em qualquer obra ou fragmento escrito pelo

prprio12.

A grande figura de Francis Bacon (1561-1626) afirmava que a verdade filha do

tempo, assumindo aqui a importncia do valor da histria no desenvolvimento do

conhecimento. Na sua obra Of the Proficience and Advancement of Learning, Divine and Human

escreveu,

posso afirmar, com toda a verdade, que temos necessidade de uma histria exacta do saber, contendo a antiguidade e a origem das cincias ()13.

Para Bacon, este conhecimento do passado de cada uma das cincias era um instrumento

pedaggico fundamental para conseguir a aprendizagem cientfica e passava

obrigatoriamente pela compreenso da experincia adquirida pelas geraes anteriores.

9 Matemtico grego nascido em Rodes, do qual se conhecem trs obras sobre histria da matemtica: Histria da Aritmtica, Histria da Geometria (geometria pr-euclideana) e Histria da Astronomia. 10 Os historiadores que, de uma forma sistemtica, se aplicaram a recolher e classificar, ordenadamente, as opinies dos filsofos antigos, so os doxgrafos. 11 (DAUMAS, 1966: 13). 12 Tambm aparece referido no clebre dilogo de Plato, Parmnides. 13 In (GUSDORF, 1988: 48).

Histria e Filosofia da Cincia (colectnea de textos)

[4]

Ao surgir a cincia moderna, sobretudo no seio das novas instituies que eram as

Academias (os novos centros de discusso e difuso dos conhecimentos em alternativa s

velhas universidades medievais), estas instituies trataram logo de cuidar da sua prpria

memria, velando ciosamente pelo relato oficial das suas crnicas. As academias zelavam

para que a personagem de cada sbio conservasse o seu lugar na memria colectiva dos

eruditos, passando a responsabilzar-se pela prosopografia referente aos seus membros.

A Royal Society of London, criada em 1660, assistiu, uma escassa meia dzia de

anos depois, em 1667, a que um dos seus fundadores, o futuro bispo de Rochester,

Thomas Sprat (1635-1713), publicasse a sua histria The Royal Society of London for improving

natural knowledge, da qual aparece a traduo francesa em Genebra dois anos mais tarde, em

1669. A Academia Real das Cincias de Paris, que aparecer seis anos aps a sua congnere

inglesa, tambm no vai demorar muito a ter a sua histria. Fontenelle (1657-1747), a

partir de 1699, foi o seu secretrio vitalcio, passou, nesta qualidade, a ocupar-se, sobretudo

e tambm, da histria da instituio. Se, por um lado, foi o animador da grande publicao,

principiada em 1720, Histoire de l' Acadmie Royale des Sciences, por outro, preocupou-se em

reunir os trabalhos da Academia e preservar a memria dos seus membros desaparecid