Histria do sbio fechado na sua Biblioteca / Manuel Antnio Pina

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  • [E-F@BULATIONS / E-F@BULAES] 3/ DEZ 2008

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    Histria do Sbio Fechado na sua Biblioteca

    Manuel Antnio Pina

    Ilustraes de Guilherme Castro

    NARRADOR Era uma vez um velho Sbio que tinha lido todos os livros e sabia tudo. Nada do que existia, e mesmo do que no existia, tinha para si segredos. Sabia quantas estrelas h no cu e quantos dias tem o mundo. Conversava com os animais e com as plantas e conhecia o passado, o presente e o futuro. At sabia que um dia, hoje, a esta hora (Para o pblico, interrompendo a narrao: ) Quantas horas so?

    Os espectadores dizem-lhe que horas so. O Narrador consulta tambm o seu relgio.

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    NARRADOR Deixem l, so as horas que forem Dizia eu que o Sbio at sabia que um dia, hoje, a esta hora (sejam l que horas forem), eu estaria aqui a contar-vos esta histria.

    Como sabia todas as coisas e no tinha nada de novo para saber e

    conhecer, a sua vida era muito triste e desinteressante. Era uma vida sem espanto, onde nada de novo e surpreendente acontecia e todos os dias eram iguais a todos os dias. Mesmo coisas to estranhas e misteriosas, como, por exemplo, os cortinados do quarto agitando-se, noite, ou os mveis rangendo como se falassem uns com os outros, no tinham para ele qualquer mistrio.

    s vezes apetecia ao Sbio no saber qualquer coisa, poder perguntar a algum qualquer coisa que no soubesse. Por exemplo, poder perguntar as horas; ou Que dia hoje?; ou Tem passado bem? a algum. Mas vivia fechado na sua Biblioteca e no tinha ningum a quem perguntar nada. E, mesmo se tivesse, mal acabava de pensar numa pergunta, j sabia a resposta antes que lhe respondessem.

    At que, um dia, bateu porta da Biblioteca um Estrangeiro. O Sbio abriu-lhe a porta e o Estrangeiro disse: ESTRANGEIRO Venho buscar-te. SBIO Eu sei. s a Morte. ESTRANGEIRO No sou nada a Morte, sou um Estrangeiro. SBIO Eu sei tudo, e sei que s a Morte. ESTRANGEIRO Enganas-te. Venho da parte do Imperador que quer falar contigo porque est a morrer e ouviu dizer que s tu sabes como so os lugares para onde se vai quando se morre. SBIO No me iludes, Morte. Vieste buscar-me para me levar ao Reino das Sombras e no ao Palcio do Imperador. ESTRANGEIRO Se no acreditas em mim, vou-me embora. O Mensageiro sai. O Narrador tira a mscara e, sob ela, revela-se a mscara da Morte. NARRADOR A Morte ficou zangadssima por ter sido reconhecida, pois tinha tido um trabalho a disfarar-se de Estrangeiro. Mas, como a Morte muito

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    teimosa, passados alguns dias, disfarou-se de novo e voltou a bater porta da Biblioteca. O Narrador coloca uma mscara de Palhao sobre a mscara da Morte e bate porta da Biblioteca.

    PALHAO Venho buscar-te. SBIO Eu sei. s outra vez a Morte. PALHAO Ests enganado, venho buscar-te para te levar a uma festa. A cidade tem muito orgulho em ter um homem to sbio e to ilustre entre os seus habitantes e o Governador decidiu organizar uma grande festa em tua honra. SBIO No, Morte, no me enganas Eu sei que vieste buscar-me para me levar ao Reino das Sombras e no Festa do Governador.

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    PALHAO Se no acreditas em mim, vou-me embora. Mas o Governador vai ficar muito aborrecido com a tua recusa O Narrador tira a mscara de Palhao e fica de novo com a da Morte posta. NARRADOR A Morte estava cada vez mais zangada, porque estava escrito algures (no stio onde essas coisas esto escritas) que o Sbio deveria morrer sem reconhecer a Morte e sem saber que morria.

    Por isso, alguns meses depois, voltou a aparecer-lhe, desta vez disfarada de uma linda Rapariga. A Morte pe a mscara de Rapariga e bate porta da Biblioteca.

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    RAPARIGA Venho pedir-te em casamento. Vem comigo, os convidados j chegaram, a boda j est servida SBIO Aceito o teu noivado, Morte, e irei contigo. RAPARIGA Enganas-te. Eu no sou a Morte, sou aquela que h muitos anos amaste, lembras-te? SBIO Sim. Como poderia esquecer-me de ti? H quanto tempo te esperava, Morte! RAPARIGA Tambm eu, durante todos estes anos no te esqueci. Por isso venho agora buscar-te para te levar comigo e sermos felizes para sempre. SBIO No, Morte. Eu sei tudo e sei que, sob essa mscara, se esconde o rosto da Morte. Vens buscar-me porque queres levar-me contigo para o Reino das Sombras. E eu irei contigo de bom grado porque j aprendi tudo o que h para aprender e a vida, para mim, j no tem interesse algum. RAPARIGA (Tristemente) Vejo que esqueceste de mim. E que ests to velho que confundes o Amor e a Morte. NARRADOR (Tirando a mscara de Rapariga e, sob ela, tirando tambm a da Morte, e atirando com ambas ao cho) A Morte ficou muito contrariada por ter sido de novo descoberta e, por isso, no poder levar consigo o Sbio. Mas, como tem muito tempo, continuou durante muitos e muitos anos a tentar apanh-lo desprevenido. Ele, porm, reconhecia-a sempre, apesar de a Morte ser muito imaginosa e de usar muitos disfarces. Ora, ao fim de tantos anos de vida, a verdade que o Sbio estava cansado de viver. Ainda por cima uma vida to triste e to aborrecida, sem nada dela que no soubesse, fechado na Biblioteca rodeado de livros que j lera mil vezes. Como sabia tudo, sabia que s poderia morrer se no reconhecesse a Morte quando ela chegasse, mas sabia tambm que a reconheceria de todas as vezes que ela lhe batesse porta. SBIO Ai de mim! Estou to velho e to cansado! Li todos os livros do Mundo, aprendi todas as coisas que possvel aprender, conheo todos os mistrios da vida e da morte. Mas tudo o que sei intil e silencioso, sem amigos e sem ningum com quem conversar, porque as pessoas tm medo de mim e no se aproximam, temendo que eu conhea os seus segredos e no

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    podendo suportar isso. At morrer me est vedado, porque nem mesmo a Morte, com os seus mil disfarces, me pode surpreender!

    Ai de mim, ao fim de tantos anos e de tantos livros, que posso ainda desejar se no a Morte? Oh, quanto gostaria de a conhecer por fim! Mas vivo enclausurado, sou prisioneiro do que sei e do que aprendi. O meu corpo est seco e gasto como um velho pergaminho, o meu corao no se alvoroa nem bate mais depressa com coisas inesperadas e novas, porque para mim nada novo e tudo se repete. Cada um dos meus dias igual ao outro dia, cada hora igual hora anterior. Como eu gostaria de sair da minha Biblioteca, mas, para isso, teria que sair de mim, porque eu prprio sou a Biblioteca. Como ela, no estou vivo nem estou morto, estou fechado dentro de mim como num labirinto ou como se fosse um livro antigo escrito numa lngua desconhecida, que ningum, nem mesmo a Morte, capaz de ler. NARRADOR Ento o Sbio, como a Morte no podia alcan-lo, e porque estava cansado de viver e de saber tudo, decidiu ir ele procura o Reino das Sombras. Durante meses e meses fez clculos matemticos, estudou mapas, traou rotas. At que acabou por descobrir o lugar exacto onde era o tal Reino das Sombras. E, um dia, depois de ter posto as suas melhores vestes, para l partiu. Viajou durante muito, muito tempo. Cruzou rios e florestas, subiu montanhas, atravessou desertos. E, quando passava nas aldeias, as pessoas curvavam-se respeitosamente diante dele e afastavam-se logo, murmurando: o Sbio. Diz-se que conhece o passado, o presente e o futuro At que um dia, numa vereda, se lhe dirigiu um velho coberto de andrajos.

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    MENDIGO Tenho fome. D-me, por Deus, alguma coisa de comer.

    O Sbio estremeceu. Nos seus livros, fechado na sua Biblioteca, tinha muitas vezes lido coisas sobre a fome. Mas nunca tinha tido fome. E agora, de repente, tudo o que aprendera nos livros parecia-lhe pouco. Meteu a mo na bolsa procurando algo que dar ao Mendigo, mas na bolsa trazia apenas livros e tratados. SBIO Desculpa, bom homem, mas comigo s trago livros.

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    MENDIGO Aceito os teus livros. Talvez algum me d qualquer coisa por eles e eu possa comprar que comer. NARRADOR O Sbio tirou da sua bolsa todos os livros que levava e entregou-os ao Mendigo. Sentou-se numa pedra beira da estrada. Sentia-se fraco, as pernas pareciam no ser capazes de suportar o peso do seu corpo, e o Sbio lembrou-se ento de que no comia h muitos dias.

    O Mendigo aproximou-se dele e disse: MENDIGO Vejo que tambm tens fome. Vou aldeia vender os teus livros e voltarei com alguma coisa para comermos ambos. NARRADOR - O Mendigo partiu em direco aldeia e o Sbio ficou a pensar: SBIO ento isto a fome Que coisa estranha, no nada parecido com o que vem nos livros NARRADOR O Sbio sentiu uma estranha alegria apossar-se dele e, quando o Mendigo regressou com alguns bocados de po, comeram ambos sofregamente. No fim, o Sbio levantou-se, abraou o Mendigo e disse: SBIO Obrigado, bom homem. Ensinaste-me hoje algo que no se aprende em livro nenhum. NARRADOR O Sbio prosseguiu a sua longa viagem em direco ao Reino das Sombras, feliz por saber que, afinal, havia alguma coisa que no sabia. Embora, na verdade, naquela altura tivesse ficado tambm a sab-la Mais adiante encontrou, deitado sob uma rvore, um homem que gritava cheio de dores. O Sbio aproximou-se e perguntou: SBIO Porque gritas?

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    DOENTE Porque estou doente. No vs como sofro? NARRADOR O Sbio pegou-lhe na mo. A mo estava hmida e febril e o Sbio sentiu-se subitamente inquieto. Nunca antes tinha tocado a mo de outro homem. A mo do homem apertou a mo do Sbio com toda a fora, e o Sbio sentiu uma impresso estranha no corao, como se o seu corao tivesse ficado de repente mais pequeno. E ento recordou que lera h muito tempo, num velho livro, algo sobre um sentimento confuso e angustiante, chamado compaixo, e percebeu que o seu corao estava cheio de compaixo. Apertou tambm ele a mo do homem e disse-lhe: SBIO Tem coragem. Conheo todos os segredos da Medicina e tentarei minorar o teu sofrimento.

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    NARRADOR O Sbio colheu umas ervas e fez com elas um ch que deu a beber ao doente e este sentiu-se logo melhor. O doente beijou ento as mos do Sbio, dizendo: DOENTE Obrigado, obrigado. Agora j no tenho dores. Que posso fazer para te agradecer? NARRADOR O Sbio sentiu uma felicidade que nunca tinha sentido. Ajudou o Doente a levantar-se e respondeu: SBIO No tens que fazer nada para me agradecer. Eu que te estou muito agradecido porque me fizeste aprender uma coisa que nenhum livro antes me ensinara. NARRADOR O Sbio despediu-se do doente, abraando-o, e partiu de novo. Sentia-se misteriosamente leve e tranquilo como se, em vez de andar, flutuasse. O sangue corria-lhe nas veias com fora e o dia parecia-lhe mais transparente e luminoso, os sons da floresta mais ntidos, o cu mais alto e mais limpo. Encheu os pulmes de ar fresco e pensou: Deve ser isto a alegria. Que estranho sentimento! De repente, fiquei de bem comigo mesmo, como se estivesse zangado e tivesse feito as pazes comigo. E recordou-se ento de quando era criana, e a me, noite, antes de adormecer, lhe aconchegava os lenis e se debruava sobre ele para lhe dar um beijo. H quanto tempo no me lembrava de minha me!, murmurou. E, sem saber porqu (que bem que se sentia por no saber finalmente qualquer coisa!), tudo sua volta, o mundo, a vida, ele prprio, lhe pareceu ento fazer sentido, um sentido claro e misterioso que ele, que sabia tudo, no conseguia entender, mas sentia dentro de si como se tivesse encontrado uma coisa que h muito perdera e de que j se esquecera. Por um momento, pensou em desistir de continuar o seu caminho ao encontro do Reino das Sombras. Mas a ideia de regressar Biblioteca era-lhe agora mais insuportvel que nunca e logo retomou a viagem. Continuou a andar durante muitos dias e muitas noites at que, fatigado, se sentou numa pedra beira da estrada e adormeceu de cansao. Ento, em sonhos, apareceu-lhe de novo a Rapariga.

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    (A Rapariga agora no uma mscara, uma personagem real) RAPARIGA Lembras-te de mim? SBIO Lembro, meu amor. E tu, lembras-te de mim? RAPARIGA Como te podia esquecer? Lembras-te de quando passevamos de mos dadas junto ao rio?

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    SBIO Fugamos escola e amos nadar. Lembras-te daquele dia em que saltei o muro de um pomar e roubei uma rom para ti? RAPARIGA Oh, j foi h tanto tempo! Sabes que ainda guardo essa rom? Est seca e mirrada, tenho-a guardada na gaveta da mesinha de cabeceira e, s vezes, noite, quando estou triste ou quando acordo cheia de medo, pego nela e fico durante horas a olh-la. (A Rapariga pega nas mos do Sbio) RAPARIGA - Tambm as tuas mos esto agora secas e mirradas como a rom que um dia me deste. (O Sbio aperta com fora as mos da Rapariga) SBIO As tuas no, as tuas continuam aveludadas e suaves. (Acariciando-lhe o rosto:) E o teu rosto ainda belo como era. E os teus olhos doces. E o teu cabelo liso e macio. RAPARIGA No, meu amor. Tambm eu envelheci. Passaram muitos anos, casei, tive filhos e netos, e agora, lembrando-me de mim e de ns, tambm eu me sinto como se fosse uma recordao guardada numa gaveta. SBIO Procurei-te durante tanto tempo! RAPARIGA E eu a ti. E s te encontrava nos meus sonhos. SBIO Sabes que h muitos anos que eu no sonhava? Na verdade, nem sequer dormia, fechava os olhos mas tinha medo do sono e de tudo o que se esconde atrs das suas portas. Sobretudo dos sonhos. Temia sonhar contigo e acordar e tu no estares ao meu lado. RAPARIGA Mas agora estou aqui e nunca mais te deixarei. No acordes, no acordes SBIO No, no quero acordar. RAPARIGA (Dando-lhe a mo) Anda, vem comigo. Vamos de novo passear beira-rio. Agora nada nem ningum poder separar-nos. (Partem ambos, de mos dadas, e desaparecem no Reino das Sombras).

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    NARRADOR O Sbio abriu os olhos e verificou ento, surpreendido, que estava no meio da sua Biblioteca, sentado, como sempre, sua mesa de trabalho. Como era muito sbio, depressa concluiu que tinha morrido. Tinha morrido precisamente no momento em que soube a ltima coisa de todas as coisas que havia para saber e, desde a, no mais vivera. Apenas sonhara, sem saber que tinha morrido. At a sua viagem ao Reino das Sombras tinha sido, tambm ela, um sonho. Sem saber que tinha morrido Afinal sempre tinha morrido sem saber que morria como estava escrito no Livro onde esto escritas, diz-se, todas as coisas da Vida e da Morte. Pano