Histria do Brasil - Pr-Vestibular - 1708 - Guerra dos Emboabas

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Conflitos na Histria do Brasil - Perodo Colonial Guerra dos Emboabas: 1708-1709A Guerra dos Emboabas foi um conflito ocorrido na regio das Minas Gerais de 1707 a 1709. Emboaba era o nome dado aos portugueses ou reinis e aos baianos que chegavam s Minas Gerais para catar ouro. Em novembro de 1708 Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto, foi palco de um sangrento conflito envolvendo os direitos de explorao das Minas Gerais. Os bandeirantes paulistas, na qualidade de descobridores das minas, reivindicavam para si o direito exclusivo de explorao do ouro. Os que discordavam deste intento, em sua maioria portugueses e baianos, ficaram conhecidos como Emboabas (do tupi, aves pernaltas, referncia ao hbito de os forasteiros usarem botas). Estes ltimos eram liderados por Manuel Nunes Viana. Os colonos da Bahia e de Pernambuco estavam muito mais ligados aos portugueses que aos paulistas. Estes na maioria eram mestios e falavam na lngua geral, a lngua tupi-guarani. Os nomes que trocaram entre si mostravam suas diferenas. Os da terra eram chamados de nmades, ou bandoleiros sem lei, apelidaram os estrangeiros de emboabas. Emboabas no eram s os portugueses mas sim todos os outros que tambm vinham de outra colnia. Na guerra que ocorreu, os baianos e pernambucanos e os outros considerados estrangeiros ficaram do lado dos portugueses. Para os paulistas, aqueles que no participaram dos esforos na procura de ouro no deveriam ter os mesmos direitos na explorao. A tenso entre os paulistas (tambm chamados de vicentinos) e os demais exploradores crescia, motivada pela prpria insistncia dos paulistas em controlar a regio e pela resistncia dos emboabas diante desse domnio. Apesar de se misturarem pelas regies povoadas das minas, no se uniam, ao contrrio, se juntavam cada grupo com um representante. O ex-bandeirante Manuel de Borba Gato era o lder dos paulistas, enquanto os emboabas eram liderados por Manuel Nunes Viana, portugus que veio para Bahia jovem, e era conhecido por atos de coragem que o trouxeram para a regio onde era proprietrio de lucrativas minas. Outra causa da guerra seria o alto preo dos mantimentos. Os comentrios de Antonil em 1709 o provam e se tornou clssico o trecho em que relata a abundncia de mantimentos e de todo o usual que hoje h nas Minas e do pouco caso que se faz dos preos extraoridnariamente altos: um alqueire de farinha em So Paulo custava 640 rs, mas em Minas 43.000 rs! E assim por diante, uma libra de acar 120 ris em So Paulo e 1200 nas Minas, uma galinha de 160 para 4.000 rs, etc. Eliane Teixeira Lopes cita em sua obra um ensaio de Eduardo Frieiro, Feijo, angu e couve de 1966 que corroboba os acontacimentos. E J. Soares de Mello, em seu livro Emboabas, de 1979, pgina 48, comenta: Foi na poca da fome como medida de prudncia que Artur de S concedeu a Amaral Gurgel o estanco ou monoplio dos aougues. No tardaram nada os abusos. O povo foi esmagado. E quando o monoplio chegou aos seus anos derradeiros e veladamente comearam as transaes para o prorrogar, os Paulistas se levantaram. Por carta, o Rei, para suprir a falta de gado, ordenara a D. lvaro conceder a maior parte possvel das terras entre o Rio de Janeiro e a serra dos rgos com a obrigao de cada um dos donatrios de pr um curral de gado dentro de dois e at trs anos no sitio que se lhes der, por se entender que com a fertilidade destas terras abundaro as capitanias em gado. Mas nada era assim to simples... Em 1702 o governador D. lvaro da Silveira e Albuquerque fizera doao, aumentando o domnio de Muribeca, no Esprito Santo, propriedade do colgio dos jesutas do Rio de Janeiro, fundado no sculo XVII em terras doadas pelo Conde de Castelo Melhor, e que em 1701 possuia apenas 1.630 cabeas de gado enquanto isso suas fazendas no Rio e em Santa Cruz, Campos dos Goitacs e Campos Novos de So Joo em 1701 teriam 20 mil. Foram baldadas, de 1702 a 1705, as providncias do governador da Bahia, D. Rodrigo da Costa, para obstar a emigrao que das provncias beira-mar se estava dando para as minas descobertas no atual Estado de Minas, principalmente vinda da Bahia, donde se transportavam muitas pessoas com seus escravos. D. Rodrigo estabeleceu diversos presdios no interior para apreenso de escravos que fossem conduzidos para as minas. O ouro foi a pedra iman, uma veemente atrao: e formaram-se dois partidos, o dos Paulistas e o dos Forasteiros ou emboabas. O historiador Diogo de Vasconcelos comenta: Paulistas e taubateanos teriam declarado

talvez guerra pela posse de terrenos em Minas se no surgissem os forasteiros, inimigo comum que os amedrontou e uniu. Do reino, vinha o exemplo - formado de senhorios e conselhos autnomos, fabricado aos poucos e aos pedaos, federao de distritos fundidos pela poltica e nacionalizados pela Histria. Quando no Brasil as capitanias passaram a ser incorporadas Coroa, ao Governo direto do Reino, o fizeram na forma por que de antes existiam, no se tinha concebido a idia abstrata e consolidaria da ptria: forasteiro, para a gente Paulista, ou quase inimigo, era o natural de outras provncias, porque entendiam pertencer-lhes dominio exclusivo das minas por eles descobertas e povoadas no serto.

O conflitoDatam de 1706 as primeiras dissenses no arraial da Ponta do Morro, depois do Rio das Mortes, pela "morte injusta e tirnica que fez um paulista de um humilde forasteiro que vivia de uma pobre agncia". Outro cronista diz por haverem alguns ndios carijs embriagados matado um portugus. Diogo de Vasconcelos, por sua vez, descreve: "Viajando por ali uns carijs para So Paulo, entraram a beber na venda de um novato reinol; rivalidade era tema assentado de todas as conversas; os carijs comeam a falar de reinis, defendidos pelo novato, pouco experiente, eentre a bebiba, houve altercao, e no ardor da discusso, foi morto o portugus pelos carijs. Fugiram estes, e houve dois dias de batida para os descobrir - voltaram os do arraial, os moradores tinham-se reunido e determinado enviar ao Rio uma comisso de procuradores pedir a D. Fernando Martins Mascarenhas Lencastre compadecer-se da situao e lhes mandar autoridade para reprimir malfeitores e bandidos." Em 1707, no Arraial Novo, dois chefes importantes dos paulistas foram linchados pelo emboabas. Com medo de uma vingana, fugiram para a mata, ficando apenas um pequeno grupo na resistncia. Os paulistas, apesar de terem motivos para agir, limitaram-se a enterrar seus chefes, e no enfrentaram os emboabas. Isso encorajou os emboabas que haviam fugido para a mata a voltar e a no mais se aterrorizarem com os paulistas. No se deve pensar, segundo os historiadores, que estava em jogo apenas o ouro: Intervieram tambm criadores de gado e no apenas mineradores emigrados de So Vicente. Os criadores reagiram ao sistema de contratos com o objetivo de assegurar, com exclusividade, o fornecimento a aougues de animais para o abate e de arbitrar a venda da carne ao consumidor. Em 1708, um choque inevitvel aconteceu, e os dois lados voltaram a guerrear. Manuel de Borba Gato interveio, banindo Nunes Viana do distrito do Rio das Velhas, porm, sem sucesso. Vrias tentativas de acordo foram feitas, todas infrutferas. Os emboabas tomaram a iniciativa de desarmar todos os paulistas que encontravam, com o pensamento que estes preparavam um grande ataque contra eles. Houve pouca resistncia, e ao fim de 1708 os emboabas j tinham o controle de duas das trs reas de minerao mais importantes. Os paulistas refugiaram-se no distrito de Rio das Mortes. Os emboabas reuniram-se e proclamaram Nunes Viana governador da regio mineradora. Depois de garantirem sua supremacia na regio, os emboabas encarregaram Bento de Amaral de Coutinho da expulso dos paulistas restantes. Os paulistas no opuseram resistncia, e recuaram mais uma vez, desta vez para Parati e So Paulo.

Capo de TraioO mais trgico e emblemtico episdio da Guerra dos Emboabas ficou perpetuado na histria como Capo da Traio. Aps a derrota dos paulistas na batalha campal de Cachoeira do Campo, estes se renderam e foram anistiados com a pena de se retirarem da regio das Minas Gerais. Mas seu nterim foi o de reorganizar a sua tropa e marchar novamente contra os Emboabas, agora em guerra de cerco, ou guerra de tocaia. Eis que os paulistas encontravam-se em um capo (palavra indgena que quer falar mata baixa cercada de floresta) prximo a atual cidade de Tiradentes e o exercito Emboaba encontrava-se tambm nas imediaes. Os paulistas enviaram ento alguns ndios cativos para averiguar a posio dos Emboabas e atra-los para uma emboscada no capo. A estratgia funcionou e o exercito dos Emboabas marchou em direo da armadilha paulista, sendo recebido a tiros e muitos de seus caindo vitimados de disparos vindo de cima do arvoredo. Mas a tcnica de guerra do comandante Emboaba Bento do Amaral foi de uma inteligncia astuta. Aps ver tombar

seu negro de confiana, Bento reorganizou seu exercito em linha e marchando para traz todo o destacamento Emboaba ficou fora da ala de mira dos paulistas. Estes por sua vez viram-se cercados e resistiram bravamente por dois dias, at solicitarem a trgua e a rendio a Bento do Amaral. Este chefe Emboaba chegou a jurar pela Santssima Trindade que aps a rendio e deposio das armas dos paulistas, no os mataria e expediria livre conduto para estes seguirem para fora da regio das minas. Mas, aps a rendio e entrega das armas, Bento decretou o massacre de todos os cerce de 300 paulistas capturados. Agindo como um traidor, e perpetuando a derrota final aos paulistas no Capo da Traio.

Derrota dos paulistasO confronto terminou por volta de 1709, graas interveno do governador do Rio de Janeiro, Antnio de Albuquerque Coelho de Carvalho. Sem os privilgios desejados e sem foras para guerrear, os paulistas retiraram-se da regio. Muitos deles foram para o oeste, onde mais tarde descobriram novas jazidas de ouro, nos atuais estados do Mato Grosso e Gois.

Carta de Borba Gato ao GovernadorO melhor relato sobre os acontecimentos saiu da pena do Superintendente Borba Gato, que escreveu longamente ao Governador D. Fernando Martins Mascarenhas Lencastre em 29 de novembro de 1708, das minas do Rio das Velhas: Muito tempo h que em profecia escrevia a Vossa Senhoria que se no podia tratar nestas Minas do bem comum, menos da arrecadao da Fazenda de Sua Majestade, que Deus guarde, nem da dos defuntos e ausentes, sem que houvesse nelas Infantaria. Agora posso afirmar que para se poder tratar destes (Ilegvel) no se necessita menos que um exrcito, porque se foram os homens que entraram pela estrada proibida da Bahia desaforando de sorte que j cada vez que querem fazer um motim ou levantamento, para isso tem eligido cabos neste distrito e dado senhas, que no h mais que d-la um para todos estarem juntos. Isto tem dobrado trs vezes depois que saiu desta terra Cristvo Correia Leito. Foi a primeira vez que um bahiense que meteu um comboio em sua casa to pblicamente, em to claro dia, que parece o acusava a sua conscincia em que eu lho havia de ir confiscar, porm mal o podia fazer se nem por pensamentos tive notcia disso. Tratou de juntar gente, prevenir armas e no devia ser para me entregar o comboio. incrivel que seria para me descompor ou para me matar. Como no fui a sua casa, desvaneceu-se desse levantamento de que no tive notcia seno depois de se terem passado muitos dias. E prossegue: Depois disto tive notcia certa que de umas razes que teve Jernimo Pedroso de Barros com Manuel Nunes Viana se originaria uma runa muito grande, porque para que sucedesse assim tinha aquele convidado no s os parentes que tinha no distrito mas ainda a seu irmo Valentim Pedroso de Barros nas Minas Gerais e tinham passado palavra que em uma segunda-feira se haviam de achar todos no Caet. Deu-me esta notcia em que cuidar pelo primeiro do bem comum e inquietao de um povo que alvoroado sempre traz consigo estragos que do que sentir, resolvi-me a fazer os editais que envio a Vossa Senhoria para que, ausentando-se Manuel Nunes Viana com um pretexto to honrado se evitassem as ruinas que podiam suceder. Tambm com a considerao de que ste homem e a sua vinda a estas Minas era to prejudicial Fazenda de Sua Majestade que Deus guarde, porque no tem mais exercicio no Rio de So Francisco que esperar comboios da Bahia de uma grossa sociedade que tem naquela cidade, e tanto que lhe chegam, no se contenta com marchar com stes para as Minas, seno convir servindo de capitania aos mais comboios, para que nenhum seja tomado do inimigo que nesta conta tem a quem trata da arrecadao da Fazenda de Sua Majestade, que Deus guarde. Tanto que tem feito o seu negcio nestas Minas, passa palavra a todos os que aqui se acham com ouro para ir por aquela estrada proibida sem pagar quintos que se aparelhem para tal dia; juntam-se todos e se vo com le, reconhecendo-o por seu General, querendo disfarar tudo isto que to pblico com vir dar o ano

passado entrada a 47 cabeas de gado, como Vossa Senhoria se pode informar de Cristvo Correia Leito, e este ano de 46, que nem se cansou em a vir dar a esta oficina seno mandar. Postos os editais, foi le logo ao arraial do Caet donde estavam a tir-los, como Vossa Senhoria ver da carta a qual lhe mandei esta resposta, mas no deixei de ficar considerando o que poderia obrar, porque se tomava aquela resoluo em virtude do Captulo 17 que Sua Majestade foi servido dar no Regimento para o Governo destas Minas e por ver quo prejudicial era este homem nelas Fazenda do dito Senhor; lembrando-me tambm do Captulo 1 em que tanto recomenda Sua Majestade que Deus guarde o cuidado que se h de por em atalhar as discrdias que houver no s entre Mineiros, mas ainda entre outras quaisquer pessoas que se achem nestas Minas, sa de minha casa para o Caet para que, quando no pudesse dar a execuo o captulo 17, tratar de usar do primeiro. Chegando quela parte antes do dia que se tinha destinado, j achei algumas ruinas que faziam as tropas que se ajuntavam. Tinham morto dois negros do dito Manuel Nunes Viana e feito outras hostilidades. Tratei de aquietar tudo, fazendo amigo a Jernimo Pedroso de Barros com Manuel Nunes Viana quando para este efeito fui a sua casa achei nela toda a gente que tinha deixado neste Rio das Velhas e Saberabusu. Composto tudo, fiz jornada para minha casa donde vim saber como c se tinha feito um levantamento ou motim, sendo cabeas dele certos homens que tenho em lembrana, entrando pelas casas dentro as pessoas que achavam os acompanhavam seno os haviam de matar, com o que no ia por vontade faziam ir fora, ficando tudo isto despejado, metendo-se tudo em casa de Manoel Nunes (Viana) sem se lhe dar do Edital que tinha posto para que o no fizessem. Como ns no podemos ter maior fiscal das nossas culpas que as nossas conscincias, estas cabeas de Motim parece que considerando no mal que tinham obrado em andar obrigando a fora os homens para serem contra os Paulistas, sucedendo uma noite vir um cunhado de Jernimo Pedroso de sua casa a Saberabuu, que no longe, dizem que a procurar um pouco d ouro que de certa cincia sei havia mister para pagar a outro Paulista que ia para povoado, que lhe tinha emprestado, e pelo no achar mandou dizer pessoa que lhe vinham uns barris de aguardente, lhos vendesse logo por qualquer preo que fosse; comearam disto a formar argumento, porque se achavam na consulta frades e clrigos, e diz que colheram de concluso por consequncia certa que aquilo era para matarem aqueles que publicamente foram cabeas do motim, e irem-se embora que por isso que passaram de noite e mandavam pela manh vender a fazenda fsse pelo que fsse. Com ste pretexto fizeram outro levantamento, e o que no acudia a ste motim o iam tirar a sua casa, e faziam assistir nele, e houve uns que tiveram sentena de morte. Chegado Manuel Nunes Viana do Caet, no deixando bahiense nem outro homem algum dos que no eram Paulistas, diz que resolveram matarem alguns Paulistas nomeados e os mais faz-los despejar sem que ficasse nenhum, e o que repugnasse matarem-no tambm. Esta desordem diz que a mexeram frades e clrigos, tambm dizem que houve outros que sem dvida deviam de ser mais bem intencionados que rebatendo esta furia, vieram em que se moderasse a sentena que foi ficarem os Paulistas sujeitos a leis que queriam estabelecer os Bahienses: que so de que nenhum Paulista nem negro seu entre de noite em arraial de homem da Bahia, e que fazendo-o sero mortos sem que por isso sejam obrigados a pagarem os escravos; que de dia no pudessem trazer mais que dois pagens; e outras proposies semelhantes que em se dando a imprensa se se venderem enviarei a Vossa Senhoria. Que isto seja castigo de Deus com evidncia se mostra, porque qual havia de ser o bahiense por mais poderoso que fsse que entrasse c nestas Minas se no fora o amparo que tinham nos Paulistas, que eu com o meu pagem o no confiscasse, nem qual era o pobre que chegava aqui para poder estar com sossego se no fsse valer do arraial de algum Paulista. No sinto eu que os Bahienses faam isto aos Paulistas, para que eles abram os olhos e reparem que so justos juizos de Deus que para se porem e oporem contra as ordens de seu Rei a quem tanto amor devem, diziam que os Bahienses no eram s seus amparados seno seus filhos. O de que me fico lastimando o que tenha de seguir daqui as ruinas que isto h de causar, e o prejuizo que h de resultar Fazenda de Sua Majestade que Deus guarde. Estes dois (ilegvel), Senhor, deve Vossa Merc ponderar muito, como to amante do servio de Sua Majestade, que Deus guarde, para que

lhe possa dar o remdio que parecer mais conveniente, que aqui, da sorte que isto est, no se pode devassar e menos proceder contra ningum de que resulte utilidade Fazenda de Dua Majestade dando cumprimento s suas reais ordens. (....) A pessoa de Vossa Senhoria Deus guarde muitos anos com os aumentos e Estado que est merecendo. Minas do Rio das Velhas, Manuel de Borba Gato. Este documento est na Biblioteca Nacional de Lisboa, Arquivo de Marinha e do Ultramar, docs 3212 a 3225 do Rio de Janeiro. Borba Gato assim o primeiro historiador dos emboabas. Tumultos e dissenses paralizaram as Minas, extinguiram trabalho e anularam colheitas. S se cuidava da guerra e os moradores estavam reduzidos misria. No era entretanto chegado o momento de descerrar ao Governador quanto sabia. Escreveu no para acusar mas para apurar responsabilidades.

Outro testemunho sobre os distrbiosJoo da Veiga da Costa, que era mestre de campo do Tero dos auxiliares das Capitanias da vila de Nossa Senhora da Conceio de Itanham, escreveria em 19 de abril de 1719: Certifico que havendo despejado destas Minas a maior parte dos nativos da vila de So Paulo e suas anexas, pela alterao do povo, ficamos assistentes nelas cento e tantos mineiros e lavradores e por uma voz falsa de que vagavam nos matos da Itatiaia 600 homens de armas dos nossos naturais para fazerem guerra aos frausteiros, nos ameaavam estes, de sorte que suposto tnhamos sujeitado nossas armas em nome de Sua Majestade debaixo de cuja tutela supunhamo-nos seguros, era tal o temor com que nos atemorizavam que determinadamente desertamos tambm as ditas Minas, deixando ao desamparo nossas fazendas de plantas, instrumentos de minas e terras minerais, e tendo notcia deste fato Rafael da Silva e Souza, a quem os ditos frausteiros tinham obrigado que por servio de Sua Majestade exercesse posto de capito, no podendo capacit-los a que no ocasionasse a nossa total saida destas ditas Minas, mandou logo alguns prprios a Manuel Nunes Viana, a quem os frausteiros tinham feito seu capito-regente, protestando pela grande perda que receberia Sua Majestade nos seus reais quintos, com a retirada de tantos mineiros e povoadores e advertindo-lhe os melhores meios para evitar perda to consideravel, com cujo parecer ordenou o dito Manuel Nunes Viana a todos os cabos dos ditos frausteiros que impedissem com gravssimas penas a que se no molestassem os homenss da Serra Acima que nestas Minas assistiam na obedincia em que estvamos pelo zelo e inteligncia e capacidade que reconheceu no dito Rafael da Silva e Souza lhe ordenou que por nossos stios e Fazendas nos visitasse e capacitasse com a segurana de proteo em nome deua Majestade que se deixassem ficar quietos e sossegados em seus sitios e Fazemdas, tratando de todas as suas convenincias pois lhes prometia toda a segurana de suas vidas e Fazends, o que logo fez assim o dito Rafael da Silva e Souza com muito grande zelo e cristandade, discmodos de sua pessoa e Fazenda, em cujo respeito e conhecida lealdade no servio de Sua Majestade ns resolvemos a ficar em nossos sitios e moradas, e foi este um dos servios pelo qual merece que Sua Majestade o honre e premeie por ser o mais til que se fez convenincia dos seus Reais Quintos. Passa o referido na verdade pelo juramento dos Santos Evangelhos e por me ser pedida esta, lhe mandei passar por mim assinada, em Minas Gerais.

A verso de um emboabaDatada de 16 de janeiro de 1709 temos uma carta, escrita do arraial de Ouro Preto por Bento do Amaral Coutinho e enviada a D. Fernando Martins Marcarenhas Lencastre - e por tal carta demonstra que no seria facinoroso como a histria quer, porque o governador no se corresponderia amistosamente com um fora da lei. Diz nela: Sem embargo que aos ps de Vossa Senhoria em toda a ocasio s desejo ser anunciador de paz, nesta forosamente o hei de ser de Guerra, para dar parte a Vossa Senhoria do levantamento que agora sucedeu em 20 de dezembro nestas Minas Gerais, tomando armas todos os moradores destes arraiais e do campo contra os naturais da vila de So Paulo e serra acima. Poucos dias antes deste, havia sucedido o primeiro, nos arraiais do Caet e Sabar das Minas do Rio das Velhas, causado de uma avanada que ao capito

maior Manuel Nunes Viana fora dar a Valentim Pedroso, para recuperar um desaire da espada em que seu irmo Jernimo Pedroso havia ficado de pior com o dito Capito-Maior, para o que foi incorporado de um tumulto de 600 armas, acompanhado do mesmo irmo, de Jos Pompeu, de Leo Leite e de outros muitos parentes e amigos como alm disso guarnecido de mais armas, que chegando ao Caet lhe foi levar em socorro o Tenente Manuel de Borba Gato seu tio, administrador daquelas Minas que, devendo como mineiro usar dos meios mais equivalentes para evitar a ruina e atalhar a desordem que sucedeu, o fez pelo contrrio, excitando o incndio at chegar a mandar fixar editais nas portas das Intendncias, feitos em seu nome e firmados por sua mo, que nenhum morador ou forasteiro desse favor ou ajutorio ao dito capito-maior com pena de proceder contra les e lhe serem confiscados os bens, s para que ficasse vencedor seu sobrinho. Mas como durante esta preveno fosse to consideravel a perda e o saque se dece (?) aos moradores que se avirigua no se restituir com cinco arrobas d ouro. Condoidos estes tanto da perda como da sem razo que viam se queria usar com o Capito-Maior, conspiraram no levantam/ com dois mil armas, despejando violentamente aos agressores, matando a um Jos Pardo, Paulista, por insolncias que fez, e ultimamente, tirando as armas a todos os Paulistas, como instrumentos de suas desordens e mau viver, alm de outras capitulaes que assentaram, fazendo corpo de Milicia, at recorrem a Vossa Senhoria e a Sua Majestade considero fariam j. Com este repente despejados Jernimo Pedroso das Minas do rio das Velhas e outros mais que l eram moradores, apostaram a estas Gerais, e logo de caminho deram um tiro a um dos moos moradores do campo, irmo do Padre Manuel Pires, por sair ao caminho a livrar a uma vaca sua dos cais, e fazendo da passo para o sitio de Pascoal da Silva, lhe disseram era mui acomodado aquele campo para uma couteda ou marca, e recolhidos a Joatiaia, em poucos dias houve notcia que juravam os Paulistas passar a ferro frio todos os Emboabas, que assim chamam aos nossos portugueses assistentes por aqui, estilo entre les na conquista do gentio mui antigo. Mas no parando aqui a coisa e comeando a fazer varias preparaes de armas cada dia, em um foram vistas na Joatiaia 400, em outro grande nmero que se no pode contar no Rio das Pedras, todos Paulistas, e havia vrios dizeres sobre o caso, at que se rompeu uma voz que os Paulistas, vendo o desigual partido que tinham no Rio das Velhas com os nossos, por serem muitos e viverem j guarnecidos de Milicia e acautelados, conspiravam dar uma noite a saquear e destruir stes arraiais do Ouro Preto e Antnio Dias, matando tudo o que pudessem matar por serem mais importantes e estarem desprevenidos de liga e de Milicia; e nestas consideraes do que se dizia viviam j muitos com seu receio. Alguns do povo em praticas particulares j capitulavam mas debaixo disso havia parecer de maduro conselho que os divertia por ser infausto o motim, de que se no serve Deus nem El-Rei, e comumente parto de muitas desgraas, parecendo melhor acerto ir vendo ainda com o tempo os sinais e indicios mais eficazes, at que, fazendo-se exatas diligncias para se alcanar daqui a verdade, constou por cartas que se apanharam fazerem-se certas todas as demonstraes passadas, e ultimamente um homem de serra acima, bem poderoso e apotentado, falando em particular com certa pessoa, lhe disse que fra convidado para o mesmo efeito, porm se no queria meter nessas alhadas. E com o ltimo desengano que neste particular se colheu das ditas cartas, se levantou este povo do Ouro Preto e logo a uma fala o arraial de Antonio Dias, e dai a poucas horas o campo, com que se elegeu neste Ouro Preto um capito que governasse de Armas e Guerra que se esperava: e como na noite seguinte ao dia do levantamento se mandou pr fogo a ste arraial pelas duas (horas) depois da meia noite por dois bastardos e um negro fora da parede de um rancho junto ao punho de uma rede que estava armada daquela parte de que ardeu grande parte, queimando-se nove ranchos de mercadores que se avaliou em grande perda. E fora se se queimaram 16 arrobas de polvora que estavam neles. Se coligiu que de respirador da preveno do levantamento, antes que tivesse o intento efeito, mandaram fazer a queima sendo publico haver sido o agressor um Fernando Pais, paulista, que logo se foi retirando e pondo de largo, mandando depois dizer Valentim Pedroso que se no queixassem dele seno de Pais, que era o que mandara pr fogo ao arraial. E para confirmao de tudo por outra carta que se alcanou alguns dias depois e aberta se viu que dizia por formais palavras "Vossas Senhoria stiveram a culpa em no fazer-se o efeito a seu tempo, que j agora tarde...

Junta no Rio de JaneiroEm 16 de janeiro de 1709 houve Junta no Rio: "Aos 16 dias do ms de Janeiro de 1709 nesta cidade de S.Sebastio do Rio de Janeiro, nas casas de Sua Majestade que Deus guarde onde assiste D. Fernando Martins Mascarenhas de Lancastro, governador e capito geral destas Capitanias, estando em Junta com o Ilustrissimo Bispo D. Francisco de So Jernimo, o Mestre de Campo Francisco Ribeiro, o Desembargador Antnio Lus Peleja, o doutor juiz de fora Hiplito Guido, o provedor da Fazenda Real Lus de Almeida Correia e Albuquerque, o procurador da Coroa Joo Mendes da Silva, o doutor Manoel Correia Vasques, juiz e ouvidor da Alfndega, e o capito Marcos da Costa da Fonseca Castelo Branco, almoxarife da Fazenda Realito governador foi apresentada carta do Tenente General Manuel de Borba Gato de 29 de novembro de 1708 em que lhe d conta do estado em que esto as Minas, onde esto como em guerra viva os Paulistas com armas uns e outros nas mos, acometendo-se com grande nmero de armas de parte a parte, havendo levantamentos, runas e inquietaes de sorte que se seguir uma total runa no s de uns e outros assistentes das Minas mas tambm uma gravissima perda Fazenda de Sua Majestade, que Deus guarde, no so para o seu reino mas tambm para os moradores desta cidade, pois com esta inquietao e tumulto tem estado e est impedido todo o negcio das Minas. Para evitar to grandes perdas e ruinas pedia ao dito Governador lhe pusesse o remdio de sorte que se aplace esta furia e atual estrago que necessita do maior respeito e do maior poder, pois de outra sorte nao se conseguiria o sossego daquele Povo amotinado; e vendo o dito governador que Sua Majestade que Deus guarde por carta de 31 de janeiro de 1702 lhe ordena que no v s Minas nenhum governador desta Praa sem ordem especial sua, o que s limita havendo algum acidente em que se no possa esperar ordem; e que da omisso em acudir-lhe com remdio prontamente se lhe daria culpa: props se este servio atual das Minas se complicaria no caso do acidente de que fala a dita carta de Sua Majestade, e assim se devia nesta ocasio o dito governador ir pessoalmente s Minas para atalhar, sossegar e remediar to iminente ruina de que se seguem mui prejudiciais consequncias ao Reino, Fazenda e vassalos de Sua Majestade e por todos uniformemente foi dito que, visto o trabalhoso estado das Minas, a carta e ordem de Sua Majestade se compreende o caso dela o presente sucesso das Minas e que era conveniente passar a elas o dito Governador para com sua presena, respeito e podia atalhar tanta ruina, sossegar aquele levantamento e motim para que todos os assistentes das Minas vivam em quietao e sossego e se continue o negcio que por este acidente tem cessado e est impedido, o que, visto pelo dito Governador, abraando o voto e parecer de todos, se resolveu e assentou passar s Minas com brevidade para os efeitos referidos e pelas razes ponderadas; de que mandou o dito Governador fazer este Termo que todos assinaram. O Secretrio Bartolomeu de Siqueira Cordovil o fez. O Governador decidiu portanto partir a 2 de maro, pois precisou de um ms para os preparativos de uma jornada que imagina penosissima - tempo de chuvas, caminhos intransitveis, colheita longe, gastos excessivos.

ConseqnciasComo conseqncias da Guerra dos Emboabas podem-se apontar:

Regulamentao da distribuio de lavras entre emboabas e paulistas. Regulamentao da cobrana do quinto. So Paulo e as Minas de Ouro se transformaram em capitanias, ligadas diretamente Coroa, tirando autoridade do governo do Rio de Janeiro (3 de Novembro de 1709). So Paulo deixa de ser vila tornando-se cidade Acabam as guerras na regio das minas, com a metrpole assumindo o controle administrativo da regio. A derrota dos paulistas fez com que alguns deles fossem para o oeste onde, anos mais tarde, descobririam novas jazidas de ouro nos atuais estados do Mato Grosso e Gois.