Historia de Mato Grosso

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Materias jornalisticas narram a histria de Mato Grosso

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    FUNDAO Anterior | ndice | Prxima Bandeirante lavra certido fundando Arraial de Cuiab ( FORMAO DE MATO GROSSO) Pascoal Moreira Cabral Leme , desde ontem, o detentor dos direitos de explorao das minas de ouro ORLANDO MORAIS Da Reportagem

    Cuiab, 9 de abril de 1719 - Depois de errar por mais de um ano na caa ao ndio da regio do Cuiab, o bandeirante paulista Pascoal Moreira Cabral Leme resolveu enfim levantar acampamento definitivo e se apossar, perante a Coroa Portuguesa, do imenso territrio hoje ocupado em sua maior parte pelos Bororos. Ainda ontem, em So Gonalo Velho, pouco abaixo da foz do rio Coxip no Cuiab, o bandeirante determinou que se lavrasse um Termo de Certido, com o qual visa assegurar os seus direitos de descobridor e, principalmente, de explorador das minas de ouro encontradas na regio por seus homens. Ao territrio dentro do qual se diz agora Capito-Mor, Pascoal Moreira Cabral deu o nome fundador de Arraial de Cuiab. O Termo que foi escrito por outra alheia mo, posto que Pascoal Moreira Cabral, apesar de exmio caador de ndios e conhecedor de ouro experiente, no l ou escreve palavra , foi despachado ontem mesmo para o Conde de Assumar e Capito General Governador da Capitania de So Paulo, D. Pedro de Almeida Portugal. O encarregado de levar o Termo o Capito Antnio Antunes Maciel, que ainda leva consigo boas amostras do ouro encontrado. O que os bandeirantes esperam que da Vila de So Paulo, sede da Capitania desde 1711, sejam enviadas tropas regulares, tanto para lhes ajudar na cata do ouro, quanto para lhes proteger dos ndios, j que estes no se conformam com a presena de gente estranha em suas terras. De acordo com Pascoal Moreira Cabral, sua bandeira est a correr grandes riscos na regio. Em servio de sua Real Majestade, j perdemos at agora oito homens brancos, fora negros, disse ele. De fato, no de boa memria para o bandeirante o combate que travou contra os invencveis guerreiros Bororo, assim que chegou s margens do rio Coxip. Pascoal Moreira Cabral s no voltou fugido para o Planalto do Piratininga porque encontrou, no caminho, Antnio Pires de Campos, chefe de outra e melhor-sucedida bandeira. No ano passado, depois de intensa luta contra uma tribo ainda no identificada, na confluncia entre o Coxip e o Cuiab, Antnio Pires de Campos conseguiu capturar dezenas de ndios para trabalhar como escravos nas lavouras do litoral. Pires de Campos mostrou o caminho a Moreira Cabral que, se no deu sorte na captura de ndios, ao menos encontrou o metal to apreciado mundo afora. Curiosamente, o local onde os rios Coxip e Cuiab se encontram j havia sido visitado por Pires de Campos ainda quando menino. Entre 1673 e 1680 (no se sabe ao certo), ele esteve l com o seu pai, o bandeirante Manoel de Campos Bicudo, considerado o primeiro homem branco a pisar nestas bandas ocidentais da Colnia. Neste momento, Pires de campos - tambm conhecido como PayPir est acampado no trecho do rio Cuiab denominado Bananal. Ali, seus homens, incluindo os ndios prisioneiros, cultivam roas para se reabastecerem antes seguir a longa viagem rumo ao Planalto do Piratininga. TENTATIVA DE ACORDO - Depois de quase uma vida inteira a guerrear contra os ndios, Pascoal Moreira Cabral tenta agora fazer um acordo com os Bororos, a quem os paulistas chamam de Coxipons. O bandeirante sabe que a regio onde ele est a pisar alvo de disputas constantes entre as mais diversas tribos indgenas: Bororos, Caiaps, Guaicurus, Xavantes, Parecis, Bakairis, etc. Ora as tribos se ajuntam, ora se separam nas lutas por territrios, por rios mais piscosos e por terras mais frteis. Como nenhuma guerra interessa a quem vai se dedicar agora paciente cata do ouro, Moreira Cabral pretende convencer os Bororos a ajuda-lo em troca de no mais importuna-los. No ser nada fcil (veja reportagem nesta pgina). O bandeirante quer que os ndios o ajude a coletar o ouro, a remar as canoas e a carregar as bagagens. Ao mesmo tempo, ele sabe que ningum melhor do que o ndio pode lhe dizer onde esto as melhores caas, frutas e ervas medicinais e lhe avisar sobre os perigos da mata. O Planalto do Piratininga foi a principal regio agrcola da Capitania de So Paulo. Para l era levada a maioria dos ndios escravizados. onde fica hoje o ABC Paulista. Fontes: Histria Geral de Mato Grosso (vol.I), de Lenine Povoas; O Processo Histrico de Mato Grosso. Cuiab: Guaicurus e Revivendo Mato Grosso, de Elizabeth Madureira Siqueira; Cidades de Mato Grosso, de Joo Carlos Vicente Ferreira e Pe. Jos de Moura e Silva * Historiador consultado: Gilberto Brizola UFMT Regio do Cuiab abriga mais de 10 mil ndios Bororos ( FORMAO DE MATO GROSSO) Da Reportagem

    H mais de 10 mil ndios Bororos hoje, espalhados pela regio do Cuiab. Os que vivem longe, bem a ocidente do recm-fundado Arraial, so, dizem, muito amigveis. Servem de guia aos homens brancos dentro da mata, trabalham nas fazendas da regio e so aliados dos bandeirantes. No por outro motivo que os jesutas espanhis esto a fundar diversas misses religiosas nas aldeias daquelas regies. , portanto, de outra estirpe os Bororos habitantes das margens do Coxip e do Cuiab. Tal como os outros, tambm so caadores e coletores. Mas os daqui no aceitam sem uma boa briga ter o seu territrio invadido ou a sua liberdade cerceada. So, por natureza, muito mais afeitos guerra do que ao acordo desvantajoso. J se espalhou por toda a Capitania a notcia de que os Bororo Coxipons so nmades bravios e guerreiros indomveis. Por causa disso, j foram organizadas vrias expedies na tentativa de extermin-los. A do prprio Pascoal Moreira Cabral teria sido, a princpio, uma delas. Para os Bororo Coxipons, inimigo todo aquele que queira lhe submeter a vontade ou que no queira se submeter a sua vontade. Para vencer uma guerra, eles so capazes de ficar durante dias a observar os passos do inimigo. Tm uma habilidade incomum para se mover dentro da mata. E para estudar o adversrio sem serem vistos, pintam-se e se cobrem com folhas e galhos. claro que eles tambm fazem acordos pacficos com outras tribos, mas quase sempre com o objetivo de aumentar o seu poderio de guerra. Apesar de no dar muita importncia ao metal cobiado pelos bandeirantes, os Bororos Coxipons andam enfeitados com brincos de ouro. Sua cultura est baseada em cantos danas, caadas e pescarias coletivas realizados, principalmente, por ocasio da morte de um membro da tribo. Assim, atravs da guerra e da cultura que os Bororos Coxipons vo resistindo e se afirmando como um povo diferenciado. Eles mesmos se autodenominam boe, termo que significa gente, pessoa humana.

    Fontes: Instituto Scio Ambiental (www.socioambiental.org.br); Gilberto Brizola Historiador (OM) Exploradores usam rio Tiet para desbravar o continente (MONES) Da Reportagem

    Pelas guas do rio Tiet so cada vez mais freqentes as descidas das bandeiras cativadoras de ndios e prospectoras de ouro em direo ao interior do continente. Do mesmo modo, tambm no so poucas as incurses jesuticas com vistas a cristianizar os ndios e assegurar a colonizao do Vice-Reinado do Prata. No de hoje, porm, que os ricos, os administradores coloniais, enfim, os fazendeiros, esto a precisar de mo-de-obra escrava para trabalhar em suas lavouras. Desde a primeira metade do sculo 17, por exemplo, os fazendeiros paulistas j haviam descoberto que mais barato do que comprar escravos negros provindos da frica, era aproveitar a mo-de-obra indgena, disponvel bem abaixo de suas barbas, por assim dizer. Sempre atravs da fora ou do acordo desleal, em primeiro lugar os paulistas aproveitaram a mo-de-obra dos ndios Caiaps, viventes margem do rio Tiet. Exterminados os Caiaps do Tiet ou porque fugiram ou porque se casaram com brancos os bandeirantes paulistas foram colocados no encalo dos Guaranis, ndios eminentemente agricultores habitantes da regio do Guara, no sul da Colnia. Foram 50 anos de intenso trfico de Guaranis do Guara ao Planalto do Piratininga. Muitas vezes, para os bandeirantes, era mais fcil matar os padres jesutas e roubar deles os ndios, j amansados. A propsito, um dos mais renomados bandeirantes paulistas, Raposo Tavares, ficou conhecido por usar com maestria tal estratgia. Do mesmo modo que os Caiaps do Tiet, era de esperar que os Guaranis tambm sumissem do Guara. A partir do sculo 18, no restou aos bandeirantes outra alternativa seno adentrar o continente rumo ao oeste. O Vice-Reinado do Prata era o domnio espanhol consignado pelo Tratado de Tordesilhas. Compreendia a regio onde hoje esto os pases da Argentina, Uruguai e Paraguai. Fonte: Gilberto Brizola Historiador da UFMT (OM)

    MOACYR FREITAS

    A regio agora chamada Arraial de Cuiab , desde os tempos remotos, povoadas pelos invencveis ndios Bororos

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    POLCIA Anterior | ndice | Prxima Auto-sumrio vai apurar matana de estrangeiros(RUSGA) Acusados de comandar a rebelio armada, em 31 de maio, j esto detidos por ordem do presidente RODRIGO VARGAS Da Reportagem

    Cuiab, 4 de novembro de 1834 Atendendo representao do Promotor Pblico Joaquim Fernandes Coelho, o Juzo de Paz do 1 Distrito iniciou ontem o Auto-sumrio Crime para apurar as circunstncias da rebelio armada que, na madrugada do dia 31 de maio, tomou de assalto prdios pblicos, arrombou e saqueou casas comerciais e matou pelo menos 40 estrangeiros em Cuiab.

    Antes mesmo da sentena, j esto presos no calabouo do Quartel da Guarda Municipal os cinco acusados pela Promotoria de liderar o movimento. So eles o fazendeiro Jos Alves Ribeiro, o capito da Guarda Nacional Jos Jacinto de Carvalho, o bacharel Pascoal Domingues de Miranda, o professor de filosofia Braz Pereira Mendes e o vereador Bento Franco de Camargo.

    As prises teriam sido feitas ordem da regncia e pelo povo em massa, conforme justificou o novo Presidente da Provncia, Antnio Pedro de Alencastro. Os cinco cabeas do movimento, como diz a denncia da Promotoria Pblica, sero encaminhados para o Rio de Janeiro e julgados pelo Superior Tribunal de Justia.

    As vinte e quatro testemunhas arroladas pela acusao devem ser ouvidas nos prximos dias pelo juiz de Paz, Antnio Rodrigues do Prado. O juzo tambm designou dois peritos carpinteiros para que seja feito o exame de corpo de delito direto nas portas e janelas das doze casas que teriam sido arrombadas pelos revoltosos, para avaliar os prejuzos causados naquela noite. Segundo estimativas extra-oficiais, o valor dos estragos supera os 100 contos.

    desconhecido na histria dos povos civilizados o vandalismo que os habitantes desta cidade chegaram a ver na noite do dia 30 de maio do corrente ano. Dia em que todos os princpios subversivos e medidas tirnicas deram a luz danadas intenes de homicdios, saques, roubos, cortamento de membros do corpo, devastando uma poro de habitantes, diz um trecho de uma das duas representaes populares que moveu a promotoria a agir.

    As representaes acusam ainda o poder judicirio de omisso e conivncia para com os envolvidos. As pessoas que so abrigadas pela Lei a vigiar e promover a boa ordem, quando no aplicam os meios possveis para prevenir o crime, o seu delito muito mais grave, diz um trecho. A firmeza que deveria apresentar o Promotor Pblico Jos Jacinto de Carvalho, ficou degenerada em fraqueza e comiserao com os facinorosos at agora, deixando os cidados expostos a todos os males.

    Entre as assinaturas que acompanham ambos os documentos, figura em primeiro lugar a de Joo Poupino Caldas, 46 anos, que subiu Presidncia da Provncia dois dias antes da rebelio, e um dos membros fundadores da Sociedade dos Zelosos da Independncia, bero ideolgico da rusga que chocou a cidade (ver matria).

    Para justificar sua posio, Poupino Caldas alega que o cnone liberal sobre o qual a Zelosos da Independncia foi erguida no trazia nenhum elemento que pudesse ser relacionado violncia que explodiu em maio (ver matria). Os cinco acusados, diz, que o teriam interpretado conforme suas tendncias radicais e conspiradoras.

    Assim como no corpo humano se devem cortar os membros podres para no infeccionarem o indivduo, da mesma sorte necessrio lanar para fora da Provncia aqueles membros, cabeas de toda a desordem.

    O Auto-sumrio Crime puniu apenas soldados e populares que participaram dos arrombamentos e saques. Dos cinco lderes presos e enviados ao Rio de Janeiro, Jos lvaro Ribeiro e Jos Jacinto, retornaram inocentados a Mato Grosso. Os outros trs foram soltos, sendo que Pascoal Domingues de Miranda ficou na cidade carioca. Fontes: Elizabeth Madureira Siqueira, A Rusga em Mato Grosso e O Processo Histrico de Mato Grosso; Valmir Batista Corra, Mato Grosso: 1817-1840 e o papel da violncia no processo de formao e desenvolvimento da Provncia.

    Histria Geral de Mato Grosso

    O Quartel da Guarda Municipal, onde esto presos os cinco acusados de comandar o levante que culminou na morte de dezenas de pessoas

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    Episdio ops grupos rivais(RUSGA) Da Reportagem

    A rebelio de maio pintou com sangue o quadro de uma disputa poltica que remonta Independncia do Brasil, j provocou a abdicao de Dom Pedro I e poder impedir que Pedro Alcntara, seu filho, assuma o trono quando completar a maioridade. Tambm revelou que, por entre as hostes conservadora e liberal, no existem apenas duas vertentes de pensamento e concepo do futuro. Os conservadores, chamados caramurus, representam a elite portuguesa que, desde a chegada das primeiras caravelas, detm os todos meios para obteno do poder poltico e, por conseqncia, econmico no pas. Defendem a permanncia dos Bragana e, de quebra, dos privilgios de que sempre gozaram. Os liberais ou nativistas, como so chamados, querem que o pas seja comandado por e para brasileiros, seja l o que isso for. Tambm representam uma elite, posto que ocupam cargos de mediano prestgio na sociedade, mas almejam o espao ocupado h tempos pelos brasileiros adotivos. Entre estes h os moderados e os radicais. Os primeiros querem apenas o poder poltico, confiantes que, mais cedo ou mais tarde, isso lhes traga o domnio econmico. Os demais defendem a necessidade de expulsar ou matar, se for preciso - todos os caramurus.

    Sucursais mato-grossenses das duas faces nacionais, e subdivises, as sociedades Filantrpica e Zelosos da Independncia conservadora e liberal, respectivamente - que protagonizaram as cenas de violncia da noite de 31 de maio ltimo, dos quais seriam vtimas os integrantes da primeira - em sua maioria, grandes comerciantes portugueses, do ramo de importao e exportao.

    O racha na faco liberal ficou claro no dia da rebelio armada, quando Joo Poupino Caldas, fundador da Zelosos da Independncia e recm-empossado presidente da Provncia, na tentativa de impedir a matana, acabou ameaado por um de seus companheiros de agremiao. Vais nos trair?, teria perguntado, arma em punho, um nativista radical. A rusga comeou ali. (RV) Da Bella do Juiz ao Largo da S(RUSGA) Da Reportagem

    Rua Bella do Juiz, Campo do Ourique. Foi exatamente desse local que partiram os rebeldes na noite do dia 30 de maio, em duas colunas com cerca de 40 homens cada, em direo ao Largo da S. Abaixo a regncia! Morte aos bicudos!, gritavam, sob o comando do tenente Sebastio Rodrigues da Costa, da Guarda Nacional, e o ajudante Eusbio Lus de Brito. Passava das nove da noite quando o grupo tomou de assalto o Quartel dos Municipais Permanentes. Alm de ser uma base segura de operaes, o quartel interessava, principalmente, por ser tambm o depsito oficial de armas e munio da cidade. Trs peas de artilharia pesada foram postas na entrada do quartel. O armamento leve foi ento distribudo entre as escoltas, que partiram em silncio para ocupar pontos chave do ataque, localizados no permetro compreendido pelas ruas de Baixo, do Meio e de Cima onde morava a maioria dos Bicudos. Bastava apenas esperar o sinal combinado, a badalada da meia noite. No tardaria a iniciar a matana, aberta a gritos de ordem, toques de corneta e sinais de fogo. A cavalo ou a p, os rebeldes arrombaram as portas de casas e estabelecimentos comerciais procura dos que haviam sido condenados, previamente, morte.

    Como prova da misso cumprida, tinham a incumbncia de trazer uma orelha de cada bicuco morto, ao comando da rebelio, no quartel. E assim o fizeram. A outro grupo, acrescido de indigentes e populares sem a menor idia do que motivava tanta selvageria, interessava somente saquear as casas, repletas de artigos de luxo trazidos da Europa. No dia seguinte, ainda com corpos mutilados nas ruas, o grupo rebelde, protegido em sua fortaleza, instaurou um governo paralelo, cuja primeira medida coroaria todo o plano: em 24 horas, todos os nascidos em Portugal, menores de 60 anos, teriam que deixar a provncia. (RV) A rua Bella do Juiz hoje a Baro de Melgao. As ruas de Cima, de Baixo e do Meio correspondem, respectivamente, s ruas Pedro celestino, Galdino Pimentel e Ricardo Franco. Acusados so membros da elite cuiabana(RUSGA) Da Reportagem

    Acusados de liderar a rebelio, os cinco presos em 31 de outubro ocupam cargos importantes na sociedade cuiabana, inclusive entre o Legislativo e o Judicirio. Conforme adiantou o Presidente da Provncia, o julgamento do grupo ser no Superior Tribunal de Justia, no Rio de Janeiro. Todos so membros fundadores da Sociedade Zelosos da Independncia, criada em 24 de agosto de 1833, e ligada por princpios Sociedade Defensora da Liberdade e da Independncia Nacional (RJ), de orientao tambm nativista, mas moderada. Talvez por isso tenham sido os prprios companheiros de agremiao os signatrios das duas representaes que os levariam ao calabouo do quartel da Guarda Municipal. So eles:

    Jos Jacinto de Carvalho Membro do Conselho do Governo Provincial e Promotor Pblico em Cuiab, Secretrio Geral e membro da Junta de Fazenda, comandante da 2 Companhia da Guarda Nacional.

    Jos Alves Ribeiro fazendeiro. Pascoal Domingues de Miranda Juiz de fora Braz Pereira Mendes Professor de lgica, comerciante, magistrado e presidente da Cmara Municipal de Cuiab.

    Posio de Poupino contraditria (RUSGA) Da Reportagem

    contraditria a posio do ex-presidente da provncia, Joo Poupino Caldas, ao exigir da justia a punio exemplar dos responsveis pela rebelio de Maio. Relembrando os pormenores do ocorrido, o Tenente da 6 Cia. poder estar atirando no prprio p. Isto porque Poupino foi membro ativo das discusses que antecederam o massacre promovido pelos Zelosos da Independncia, mais e mais acaloradas a partir do pedido de afastamento do ento presidente Antnio Corra da Costa, e a entrada de Andr Gaudie Ley, um bicudo, em seu lugar. Quando a rebelio j se mostrava inevitvel, seria Poupino quem, dois dias antes, assumiria o cargo em questo, numa clara tentativa de acalmar os nimos radicais. de se duvidar que, quele momento, o astuto Zeloso ignorasse o que estava por vir. Finda a matana, Poupino permitiu que o governo paralelo, entrincheirado no quartel da Guarda Municipal continuasse ditando sua Lei por trs meses, de maio a setembro, at que as circunstncias o impelissem a comunicar a situao Regncia a notcia chegou Provncia de Gois. Se for mesmo srio, o processo judicial ter de incluir mais tarde o ex-presidente, no mais no rol de testemunhas. (RV) nto Franco de Camargo Vereador em Cuiab. (RV)

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    Presidente da Provncia assina lei que transforma Cuiab em capital (Transferncia da Capital para Cuiab) Rotina dos moradores no deve se alterar, j que a cidade era de fato o principal centro urbano CARLA PIMENTEL Da Reportagem

    Cuiab, 29 de agosto de 1835 - Cuiab , desde ontem, a capital de Mato Grosso. Foi assinada pelo presidente da Provncia, Antnio Pedro de Alencastro, lei que transfere, oficialmente, o centro do poder de Vila Bela da Santssima Trindade estabelecendo, no papel, uma situao que vinha ocorrendo na prtica desde os anos 20.

    A Lei Provincial n 19 invalida legislao anterior, que definia Vila Bela como capital desde sua fundao, em 1752. Mando a todas as autoridades, a quem a Lei pertencer, que a cumpram, e faam cumprir inteiramente, como nela se contm, aponta o documento. Ficam revogadas as Cartas Rgias e mais disposies em contrrio, determina o Artigo 2 da Lei.

    Cabe agora Secretaria da Provncia divulgar a novidade atravs da imprensa oficial. A proposta foi apresentada, discutida e aprovada na primeira reunio da Assemblia Legislativa Provincial. O Projeto de Lei foi encaminhado na ltima quinta-feira (27) pelo Legislativo ao Palcio do Governo, e sancionado em seguida.

    A rotina da cidade no mudou muito com o novo posto. Cuiab j era capital de fato faltava apenas ser, de direito, sede do Governo Provincial. A disputa pelo poder entre Cuiab e Vila Bela da Santssima Trindade arrasta-se h cerca de 15 anos. A partir de 1816, com a decadncia do ouro na regio do Vale do Guapor e o fim das disputas de fronteira do sculo XVIII, elites das duas cidades entraram em ritmo de competio pelo poder poltico.

    A antiga capital colecionava desvantagens, como a proliferao de epidemias. A fama de insalubre acirrou-se com o falecimento de dois capites-generais: Joo de Albuquerque de Melo Pereira e Cceres e Manoel Carlos de Abreu e Menezes alm de vrios funcionrios pblicos.

    J nos anos 20, o penltimo capito-general, Joo Carlos Augusto dOeynhaunsen Gravenburg, passou mais tempo em Cuiab do que em Vila Bela. O ltimo capito-general, Francisco de Paula Magessi, simplesmente recusou-se a ir para a antiga capital.

    Vila Bela foi construda em 1751, logo aps a criao da Capitania de Mato Grosso ainda nos tempos do Brasil Colnia. A cidade teve uma caracterstica mpar: a planta da cidade foi trazida na bagagem do primeiro capito-general, D. Antnio Rolim de Moura, diretamente de Portugal.

    Palcios suntuosos e grandes igrejas foram levantados s margens do rio Guapor, com a misso de resguardar as fronteiras do pas (ver matria nesta pgina). Mas, enquanto as pedras e colunas eram erguidas em Vila Bela, Cuiab j era um importante centro urbano.

    Vtima de seguidas mazelas como dificuldades de comunicao e doenas que se espalhavam constantemente Vila Bela foi perdendo o poder para a rival Cuiab. A decadncia acirrou-se na medida em que o resguardo da fronteira entre o domnio portugus e espanhol perdeu o sentido. Cumprindo Ato Adicional, o Conselho Geral at ento existente foi substitudo pela Assemblia Legislativa Provincial.

    Fontes de pesquisa para essa matria: Arquivo Pblico do Estado de Mato Grosso, Revivendo Mato Grosso, de Elizabeth Madureira, Territrio Negro em Espao Branco, de Maria de Lourdes Bandeira, Sntese da Histria de Mato Grosso, de Lenini Pvoas e historiadores Cludio Conte e Jos Tadeu Jlio da Silva Disputa entre as cidades arrasta-se h anos (Decadncia de Vila Bela ) Da Reportagem

    Uma disputa ferrenha entre Cuiab e Vila Bela da Santssima Trindade arrasta-se h anos. A situao para a regio do Guapor agravou-se quando o penltimo capito-general, Joo Carlos Oeynhausen de Gravenburgo, fixou residncia em Cuiab. Foi uma poca em que a atual capital vivia em festa: msicas, peas teatrais e comemoraes que duravam meses eram rotina e, nesse caso, no apenas para a elite. Nos tempos de Francisco de Paula Magessi, as coisas ficaram diferentes. Nos seus 19 meses de governo 18 deles passados em Cuiab adotou medidas drsticas de conteno dos gastos pblicos. possvel recordar as quadrinhas annimas que espalharam-se pela atual capital, ironizando a situao: Ai, Jesus! Que vou morrer! Quanto servio, to pouco comer.

    Foi no governo de contenes de despesas de Magessi que vrios rgos pblicos - a Junta de Justia, o Desembargo do Pao, a Casa do Tesouro e a Casa de Fundio - foram transferidos para Cuiab. Mas, no 18 ms de governo, Magessi mudou-se para Vila Bela. Foi quando a elite cuiabana, incomodada com sua forma de governar e sentindo no bolso o aumento das taxas - planejou sua deposio. As lideranas polticas cuiabanas elegeram ento, por conta prpria, uma Junta Governativa, presidida pelo bispo Lus de Castro Pereira.

    Criou-se, ento, uma encruzilhada. A elite de Vila Bela formou, por sua vez, outra Junta Governativa, cujo presidente era o vigrio Jos Antnio de Assuno Batista. Mas, na disputa entre os governos Paralelos, Cuiab ganhou sua primeira grande vitria: em 1822, D. Pedro I reconheceu como vlida a Junta Governativa cuiabana. Logo em seguida, o Brasil tornava-se independente de Portugal o que sepultaria de vez a funo de Vila Bela como protetora da fronteira.

    Depois dos tempos dos capites-generais, a liderana do Executivo ficaria a cargo dos presidentes de Provncia, que hoje corresponderiam aos governadores de Estado.

    Fontes de pesquisa para esta matria: Revivendo Mato Grosso, de Elizabeth Madureira; Sntese da Histria de Mato Grosso, de Lenine Pvoas, Por uma Potica da Arquitetura, de Jlio De Lamnica Freire e entrevistas com Maria de Lourdes Bandeira e Jos Tadeu Jlio da Silva. (CP) Governo esteve s voltas com preocupaes distintas (Decadncia de Vila Bela ) Da Reportagem

    Outras preocupaes bem distintas da disputa poltica das elites foram alvo de discusso em Cuiab nos ltimos dias. O presidente Antnio Pedro de Alencastro respondeu ontem a ofcio enviado no ltimo dia 26 pela Assemblia Legislativa, que cobrava medidas preventivas contra os anarquistas desta Provncia, que de novo pretendem levantar o seu hediondo clo. A resposta do presidente Alencastro foi clara: o governo no tem qualquer responsabilidade sobre a ao dos arruaceiros.

    Segundo o documento, os deputados querem esclarecimentos do presidente da provncia com relao ao de um grupo de negros na cidade. Em resposta, Alencastro afirmou que este governo no tem coisa alguma relativamente a africanos, acrescentando que uma discusso extraordinria sobre o assunto ser feita desde que as circunstncias impressionantemente assim o exigirem. O ofcio, assinado pelo presidente, foi encaminhado ontem Assemblia pelo secretrio Joaquim de Almeida Falco.

    Fonte de pesquisa para esta matria: Arquivo Pblico do Estado de Mato Grosso. (CP)

    Arquivo Pblico

    Vista parcial da nova capital, Cuiab, que desde o incio do sculo exerce um importante papel na regio

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    Comrcio e produo de ouro em Vila Bela eram decadentes (Decadncia de Vila Bela ) Da Reportagem

    Na virada deste sculo, j havia diminudo consideravelmente a produo de ouro e o movimento comercial na regio de Vila Bela da Santssima Trindade. Em 1816, a preferncia por Cuiab como residncia permanente do Presidente da Provncia j havia imposto, definitivamente, o movimento de mudana da capital que foi ontem oficializado.

    No mesmo ano, a populao de Vila Bela da Santssima Trindade e distritos somava um total de 5.822 habitantes uma queda de quase 20% em relao virada do sculo. Em 1819 s vsperas da mudana da elite de Vila Bela para Cuiab a populao urbana no passava de 2.045. Nos trs anos seguintes, a reduo populacional somou 13%.

    Atualmente, Vila Bela uma cidade formada basicamente por negros. A grande fatia da populao que antes vivia na escravido ganhou a liberdade, passando a assumir espaos antes ocupados pela aristocracia. Prdios suntuosos, construdos para impor respeito contra possveis invases espanholas, comeam a apresentar seus primeiros sinais de deteriorao. A destruio atinge quadros, mveis e prdios deixados pelos brancos. Resta imaginar como

    estar, no futuro, a populao s margens do Guapor, atualmente em processo de isolamento pela vitria definitiva e hoje oficializada - da elite cuiabana.

    Fontes de pesquisa: Territrio Negro em Espao Branco, de Maria de Lourdes Bandeira.(CP) Comitiva era sinal da decadncia (Decadncia de Vila Bela ) Da Reportagem

    A cena chamou a ateno pelas ruas de Cuiab: uma comitiva, formada por membros da aristocracia de Vila Bela da Santssima Trindade, chegou na cidade em 1821. Nesse tempo, 15 anos antes da atual oficializao da transferncia da capital, o presidente da provncia j no percorria as margens do rio Guapor. Com bas, mveis e escravos domsticos, os membros da caravana chegaram para ficar - causando estranhamento de uns e satisfao de outros.

    A cidade inchou com a repentina mudana. Para a elite cuiabana, significou um atestado da prevalncia de Cuiab sobre a ento capital da Provncia um reconhecimento da decadncia de Vila Bela, fortalecendo a rival na disputa pelo poder. Por outro lado, o acontecimento no deixou de gerar um certo desconforto entre as classes dominantes de ambos os lados, que h muito haviam estabelecido um verdadeiro cabo de guerra. Agora, as duas correntes compartilhavam o mesmo espao.

    Em Vila Bela, no havia como estancar as perdas demogrficas. Segundo o engenheiro Luiz DAlincourt, responsvel por uma srie de trabalhos estatsticos e topogrficos na regio, o mapa geral da populao da cidade de Mato Grosso e mais lugares anexos totalizava 5.316 almas em 1828. Ele observa que, em nove anos entre 1819 e 1828 a populao de Vila Bela diminuiu 22%. Nessa poca, a cidade contava com apenas 1.595 habitantes, e pouco restava do comrcio e movimento local. Segundo ele, havia somente nove lojas de fazendas secas, e molhados, e 17 tabernas.

    Nessa poca, de acordo com os levantamentos de DAlincourt, a minoria branca que ainda permanecia em Vila Bela a migrao continuou nos ltimos anos representava 8% do total de habitantes, enquanto pardos, negros e ndios somavam os outros 92% da populao. Mas o processo migratrio da aristocracia branca no foi desencadeado em 21. A viagem da comitiva acompanhando os cofres pblicos, conforme apontava a populao local foi considerada um marco histrico, mas o esvaziamento da cidade vinha de outros tempos. Dados do Censo de 1800 revelam que Vila Bela abrigava, no perodo, 7.105 pessoas sendo cerca de 93% negras, ndias ou mulatas. Mais da metade do total de habitantes era escrava.

    O sargento-mor Luiz DAlincourt realizou, na primeira metade do sculo XIX, amplos levantamentos na Provncia de Mato Grosso. Os resultados dos seus trabalhos foram publicados pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em 1880, com informaes referentes aos estudos de 1828. Entende-se por cidade de Mato Grosso e mais lugares anexos a regio de Vila Bela da Santssima Trindade, incluindo seus distritos.

    Fontes de pesquisa para esta matria: Territrio Negro em Espao Branco, de Maria de Lourdes Bandeira e entrevista com a autora; Revivendo Mato Grosso, de Elizabeth Madureira. (CP)

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    SADE Anterior | ndice | Prxima Doena da bexiga matou mais de 3 mil pessoas nos ltimos 4 meses (Epidemia de Varola em Cuiab ao final da Guerra do Paraguai) Autoridades temem pelo aumento no nmero de mortes, em razo do fim dos estoques de soro imunolgico RODRIGO VARGAS Da Reportagem

    Cuiab, 01 de outubro de 1867 Passam de trs mil os mortos pela epidemia da bexiga em Cuiab. Na ltima semana, as equipes do exrcito enterraram 263 novas vtimas no cemitrio especial de Nossa Senhora do Carmo, na regio do Porto. Os hospitais militar e dos indigentes, superlotados, necessitam urgentemente de voluntrios para obter novos estoques do soro imunolgico.

    Dos indigentes aos mais abastados, a cidade toda conta seus mortos. Em algumas casas, onde a epidemia no poupou a ningum, foi preciso arrombar portas para recolher as vtimas. Desde 8 de agosto, data da inaugurao do cemitrio, os encarregados de recolher, queimar e enterrar os corpos soldados j imunizados e prisioneiros paraguaios no tiveram sequer uma noite de folga.

    O controle precrio e a doena j ultrapassa os limites da capital. Foram registrados casos nas localidades de Diamantino, Guia, Brotas, Rosrio e Rio Abaixo. Em Serra Acima, conforme estimativa da parquia local, 124 pessoas teriam morrido infectadas.

    J esto no fim os estoques de soro imunolgico, importado do Rio de Janeiro e Buenos Aires. Uma alternativa seria reproduzi-lo diretamente na capital, mas, segundo os mdicos do Hospital Militar, no h voluntrios dispostos a receber a aplicao.

    Para dificultar o trabalho dos mdicos, comeou a florescer a crena, entre setores da populao, de que a Provncia estaria sofrendo um castigo divino, indiferente a qualquer profilaxia (ver matria). A estes s resta o auxlio da igreja, que vem realizando sesses extras de preces e celebraes litrgicas, na tentativa de acalmar o anjo da morte. A preocupao maior em relao aos bairros do Mundu e do Porto, onde a condio de vida dos moradores ainda mais precria que no resto da cidade. EPIDEMIA - Transmitida pelas vias respiratrias, a bexiga tem duas formas distintas. Na maioria dos casos, as mortes esto sendo causadas por sua variedade mais agressiva, a chamada confluente, que, por conta do aspecto das infeces cutneas que provoca, conhecida como pele de lixa - a outra forma, mais branda, chamada benigna.

    O primeiro infectado da capital foi o soldado do Batalho de Voluntrios, Antnio Flix, que, retornando da campanha militar que expulsou os paraguaios de Corumb, inauguraria a contagem oficial das vtimas (ver matria). Outras 71 viriam, exclusivamente entre os militares, at que morresse o primeiro civil, a 23 daquele ms. No incio de agosto, com o nmero de mortos chegando a duas centenas, a epidemia j se configurava. Em carter emergencial, o presidente da Provncia, Jos Vieira Couto Magalhes, mandou erguer um hospital provisrio nas proximidades do Acampamento Militar, destinado ao atendimento de pobres e indigentes. Tambm indicou a abertura do cemitrio especial, na rea conhecida como Cai-Cai, e o incio das campanhas de preveno ao contgio. No ms passado a infestao parece ter atingido seu ponto mais crtico, tendo os enterros no Cai-cai alcanado a razo de 50 por dia, com picos de at 100 entre os dias 5 e 6. Segundo acreditam as autoridades sanitrias, e a julgar pelas caractersticas da doena (no se contrai duas vezes), provvel que a epidemia continue fazendo vtimas, mas em ritmo reduzido a partir de meados de outubro. (RV) Bexiga era o nome que se dava varola. Em Cuiab, a epidemia s seria controlada a partir de dezembro de 1867. O nmero exato de mortos ainda hoje uma incgnita, tendo sido utilizado nesta reportagem a estimativa referente Freguesia da S, onde estava o maior contingente da populao. Fontes: Arquivo Pblico de Mato Grosso; Virglio Corra Filho, Histria de Mato Grosso; Luza Rios Ricci Volpato, Cativos do Serto; Rubens de Mendona, Histria do Poder Legislativo em Mato Grosso. E a professora Marlene Vilela, do Departamento de Histria da UFMT. Tragdia fez cuiabano esquecer a guerra (Epidemia de Varola em Cuiab ao final da Guerra do Paraguai) Da Reportagem

    A tragdia colocou em segundo plano o desenrolar da guerra com o vizinho Paraguai, que ainda ameaa o territrio da Provncia. Ao conflito, muitos cuiabanos s se referem quando tm de lidar com a escassez e a conseqente carestia de gneros alimentcios e produtos manufaturados, reflexo do fechamento da navegao pelo Prata. Outra lembrana remonta a 29 de junho, data da chegada dos primeiros integrantes da guarnio militar que reconquistou a cidade de Corumb - em mos paraguaias desde 1864. Junto com as boas novas, os soldados trouxeram a doena.

    No fosse a fatalidade e a retomada das terras ao Sul da provncia seria o momento mais importante do ano, por se tratar da primeira participao efetiva de tropas cuiabanas na guerra. Em 1865, verdade, houve o episdio da fortificao da colina de Melgao, onde o comandante das armas, Augusto Leverger, manteve tropas de prontido, durante o perodo de cheias, protegendo a cidade de uma provvel invaso paraguaia. Mas, na ocasio, o inimigo nunca veio. Quando a assumiu a presidncia da provncia, em 1866, Jos Vieira Couto Magalhes no escondeu que seus objetivos seriam retomar Corumb e viabilizar a navegao pelo rio Araguaia, como forma de fugir ao bloqueio imposto pela guerra rota do Prata.

    A 15 de maio, sob suas ordens, a tropa cuiabana cerca de 2000 homens iniciou a contra-ofensiva, sob o comando do Tenente-Coronel Antnio Maria Coelho. Chegando ao destino, o grupo desviou-se do curso principal do rio, onde a esquadra naval paraguaia fazia guarda, e conseguiu aportar na cidade, no dia 13 de junho, sem encontrar grande resistncia. Tanto que, em menos de uma hora de combate, as tropas de Antnio Maria j dominavam a cidade 29 soldados cuiabanos morreram, contra 115 paraguaios. Quando chegou o segundo grupo de soldados, sob o comando de Couto Magalhes, no havia mais sinal dos invasores. A no ser nos registros secretos das tropas paraguaias, onde o grupo soube que estaria a caminho um considervel reforo da artilharia naval, vindo de Assuno. Temeroso, ele reuniu a todos os soldados, e alguns moradores corumbaenses que quiseram fugir da cidade, e em 24 de junho de 1867, partiu rumo a Cuiab. No sabia que, naquele momento, j havia infectados no grupo. DESESPERO Se a inteno fosse colaborar com a atual mstica em torno da doena, poderia-se dizer que a viagem de volta, de to malsinada, foi um pressgio. Os sintomas s foram se manifestar durante o trajeto, quando todos j vinham respirando juntos nas embarcaes os vapores Antnio Joo, Jauru, Corumb, Paran e Cuiab - e compartilhando a doena. O grupo que se adiantou para dar a notcia da vitria chegou capital em 29 de junho, j trazendo o primeiro infectado. Bem atrs vinham os outros, espalhados por todo o trecho, em completo desespero, muitos j perdidos por entre os corixos do pantanal. A 11 de julho, na desembocadura do rio Alegre, os batalhes comandados por Antnio Maria e Antnio Jos da Costa foram alcanados pelos paraguaios e uma nova e desesperada batalha comeou, obrigando os cuiabanos a organizar outro contra-golpe, com o apoio de tropas que estavam em terra. Venceram novamente os paraguaios, mas j perdiam a guerra contra a doena. A epidemia, que para a Cuiab seria flagelo maior do que a guerra, era apenas questo de tempo. (RV) Mesmo com a controvertida retomada de Corumb, o forte de Coimbra permaneceu sob o comando dos Paraguaios. A Guerra terminaria oficialmente a 1 de maro de 1870, com a morte de Francisco Solano Lpez, governador da repblica inimiga. Aps o conflito, a navegao pelo Prata seria franqueada.

    Album Graphico do Estado de Matto-Grosso

    A Santa Casa de Misericrdia de Cuiab: estrutura no suficiente para atender os novos casos da doena

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    Mdico pede que a populao se conscientize sobre o mal (Epidemia de Varola em Cuiab ao final da Guerra do Paraguai) Da Reportagem

    grande o nmero de cuiabanos que, na tentativa de explicar, ou entender, o que est acontecendo na capital, apelam para misticismos, semelhantes queles surgidos nas epidemias do sculo passado em 1758, por exemplo, uma molstia pulmonar foi atribuda passagem de um cometa. Para o castigo, como se referem bexiga, no haveria remdio. Mas ele existe e preciso que a populao de conscientize disso, para que seja possvel enfrent-lo a tempo. o que defende o mdico Dormevil Jos dos Santos Malhado, autor de um guia sobre os sintomas e o tratamento da doena, distribudo em julho populao.

    Segundo ele, quando os sintomas tradicionais da bexiga perda do apetite, vermelhido nas bordas da lngua e as erupes na pele, entre outros - se manifestam de forma branda, na variedade benigna, o tratamento pode ser considerado simples. Devemos tomar bebidas ligeiramente sudorficas, assim como ch de folhas de sabugueiro, de borragem, de casquinha de limo, de folha de laranja, de flores de tlia ou malvas com oito a vinte gotas de tintura de aconito, diz o mdico, recomendando ainda cuidados especiais com a assepsia do doente.

    Mesmo nos casos graves da bexiga, a chamada confluente ou pele de lixa, os sintomas podem ser atenuados com o acompanhamento dirio da famlia e o uso de remdios. Segundo Malhado, a reao deve ser imediata ao surgimento de novas complicaes. Havendo inflamao intensa da pele, desconfiando-se que se torne interna e que ataque rgos importantes vida, tendo o doente um pulso cheio e duro, no se deve temer fazer uma sangria no brao, e esta uma das primeiras indicaes, relata o mdico. Se o doente manifestar sono intenso, febre e dores na nuca, diz Malhado, deve-se fazer uso de supositrios ou buchas feitos com o sumo de laranja azeda, plvora e suco de gengibre. Se for o caso, o mesmo sumo de laranja azeda pode ser complementado com sabo preto, raspas de pinho, cachaa e duas ou trs pimentas malaguetas. No perodo de inflamao intensa da pele, sanguessugas devem ser aplicadas atrs das orelhas e no pescoo. O mdico tambm recomenda que se unte a poro infeccionada com nata de leite e leo de amndoas doces, friccionando as pstulas at a queda das crostas.

    No convm de forma alguma que os doentes as arranquem antes de secarem completamente, pois ficariam na face cicatrizes profundas que a desfigurariam, alerta Malhado. (RV) Liturgia da morte est fora de uso (Epidemia de Varola em Cuiab ao final da Guerra do Paraguai) Da Reportagem

    No momento em que se agrava a epidemia, a tradicional liturgia da morte encontra-se abandonada. No se escuta o dobrar dos sinos, o corpo das vtimas no velado, nem h cortejo acompanhando sua jornada ao cemitrio. O rito agora outro, para desgosto da religiosa populao local: noite quando, acredita-se, a doena no se propaga com tanta intensidade os encarregados do servio conduzem uma carroa pelas ruas, recolhendo os mortos. No cemitrio Nossa Senhora do Carmo, local onde poucos se atrevem a entrar, os corpos so depositados em valas comuns e, depois de queimados, recebem uma camada de cal, para desinfeco. O local j considerado de mau-agouro. (RV)

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    POLTICA Anterior | ndice | Prxima Proclamao da Repblica surpreende classe poltica ( Primeiro Governador de Mato Grosso) Ontem mesmo, o primeiro governador do Estado, Antnio Maria Coelho, assumiu seu novo posto RODRIGO VARGAS] Da Reportagem

    Cuiab, 10 de Dezembro de 1889 A notcia da Proclamao da Repblica, ocorrida a 15 de novembro no Rio de Janeiro, chegou na madrugada de ontem a bordo do paquete Coxip, sacudindo a cama de liberais e conservadores como se fora um terremoto. Ao amanhecer, Mato Grosso - no mais provncia monrquica e, sim, Estado da Federao j tinha seu cenrio poltico todo redesenhado. O coronel Ernesto Augusto da Cunha Matos renunciou presidncia da Provncia. Em seu lugar, aclamado em sesso extraordinria pela Assemblia Legislativa, foi empossado o general Antnio Maria Coelho, o comandante da retomada de Corumb (ver matria), como o primeiro governador da histria. Mato-grossenses, enfim livre a terra de Colombo. A planta extica que ainda existia feneceu no glorioso dia 15 de novembro, disse Maria Coelho, em proclamao redigida logo aps a posse. Aclamado hoje, pelo povo desta capital e pela Assemblia, em nome do mesmo povo, governador do Estado de Mato-Grosso, que assim confirmou a nomeao do governo provisrio dos Estados Unidos do Brasil, assumi as rdeas do governo.

    Segundo os neo-republicanos presentes, a posse por aclamao se tornou necessria para garantir a ordem institucional no Estado, j que, at o fechamento desta edio, no havia um documento oficial dando conta das medidas tomadas pelo governo provisrio do Presidente da Repblica, o General Manoel Deodoro da Fonseca. O motivo de tanta certeza e da renncia prematura de Cunha Matos seria uma carta escrita pelo doutor Jos Maria de Metelo ao coronel Antnio Manoel da Silva Fontes. Nela consta que Deodoro da Fonseca teria forte inteno de nomear o general Maria Coelho para o cargo. A carta foi escrita por Metelo s pressas, pouco aps uma parada do paquete Coxip em sua propriedade ribeirinha, na regio do rio abaixo. Conversando com os viajantes, a maioria vinda do Rio de Janeiro, ele soube das novidades em primeira mo e, aproveitando-se do fato de a viagem fluvial a Cuiab se tornar mais lenta a partir daquele ponto, colocou tudo o que ouviu em um papel e ordenou que o trouxessem a Cuiab por via terrestre, a cavalo. Como Metelo imaginou, a carta chegou antes que o navio e seus correligionrios, os lderes republicanos Jos Marques Fontes, Ernesto Frederico de Oliveira, Andr Virglio Pereira de Albuquerque e Vital de Arajo - todos da oposio conservadora - foram os que primeiro souberam de seu contedo explosivo. Imediatamente, o grupo tratou de esquadrinhar o plano que permitiria a Maria Coelho, um liberal descontente com os ditames situacionistas, assumir o cargo o quanto antes e, por consequncia, garantir-lhes algum retorno poltico.

    Hospedado em Cuiab somente para fazer a inspeo dos cargos de infantaria, o general foi acordado no meio da noite pelo grupo afoito que, com a tal carta em mos, o convenceu no apenas da iminncia de sua nomeao, mas da necessidade de uma posse imediata, logo ao amanhecer, antes mesmo que se confirmasse o convite oficial. E assim foi feito. Com a renncia do presidente da provncia, ao novo governador s restou esperar a reao do grupo da situao, o Liberal, do qual muitos de seus integrantes, at o incio daquela madrugada, haviam participado de animado baile em homenagem ao presidente da Assemblia Provincial e do partido, o Capito Generoso Paes Leme de Souza Ponce, e ao Imperador Dom Pedro II quele momento, ningum poderia saber, j deposto e a caminho da Europa (ver matria). Porm, ao saber que Maria Coelho j recebia apoio na Cmara Municipal e que havia inimigos planejando ficar debaixo de suas asas -, Ponce convocou s pressas a Assemblia Provincial e, por meio de uma comisso de deputados, comunicou-lhe de sua posse como governador do Estado seria s 10 horas da manh.

    Com isso, e pela primeira vez em dcadas de embates, um governante consegue a proeza de unir foras polticas aparentemente inconciliveis. Conservadores e liberais, cujos partidos tambm foram extintos com a monarquia, aplaudiram de p a posse do novo governante e, juntos, gritaram palavras de ordem saudando a Repblica. O que resta saber, depois de tamanha reviravolta, : at quando dura a trgua? Quando deu posse a Maria Coelho, a Assemblia Provincial j estava oficialmente extinta (Decreto n7, de 20/11/1889). O general governou por 1 ano e dois meses, at ser exonerado do cargo, em 13/01/1891. A trgua entre as elites, de fato, nunca existiu.

    Fontes: Arquivo Pblico de Mato Grosso; Virglio Corra Filho, Histria de Mato Grosso; Lenine C. Pvoas, Histria Geral de Mato Grosso; Rubens de Mendona, Histria do Poder Legislativo em Mato Grosso. E a professora Lylia da Silva Guedes Galetti, do Departamento de Histria da UFMT Cargo de governador modifica trajetria de Antnio Maria ( Primeiro Governador de Mato Grosso) Da Reportagem

    Cuiabano, filho do brasileiro adotivo Vicente Coelho, o novo governador de Mato Grosso, Antnio Maria Coelho, 62 anos, vivia at a madrugada de ontem um momento de ostracismo na poltica local, mais de duas dcadas aps o sucesso obtido no comando da retomada de Corumb, durante a Guerra do Paraguai, em 1867.

    No ano passado, tentou eleger-se por conta prpria a uma cadeira no Senado, aps ter tido sua candidatura preterida pela direo de seu partido, o Liberal, em favor de Joaquim Murtinho. Mas sua iniciativa fracassou nas urnas. Tambm at a madrugada de ontem, andava ele contrariado com o presidente da Assemblia Provincial, Generoso Ponce, a quem atribua a escolha da candidatura de Murtinho. Pois nesta noite, metido em roupas de dormir, ele recebeu a notcia de sua nomeao. E da boca da oposio conservadora. A Capital e Corumb j aderiram ao movimento proclamando a Repblica; o mesmo, espero, faro todas as cidades e localidades do Estado, disse, em proclamao escrita aps sua posse. O fato grandioso realizou-se com aplauso geral, sem sangue, sem protesto, porque significa liberdade fraternidade e justia.

    O que pode surgir desta confusa situao? Por enquanto, que ambos os lados parecem caminhar de mos dadas, nada. Mas pouco provvel que o governador deixe de lado as humilhaes que lhe foram impostas pelo grupo que julgava ser aliado. Se ainda conservar o mesmo esprito combativo que, em quarenta anos de servio militar o fez passar de Alferes a Brigadeiro, Ponce e os neo-republicanos do extinto partido liberal podem esperar breve vingana.

    Histria Geral de Mato Grosso

    O general Antnio Maria Coelho, desde ontem o primeiro governador do Estado de Mato Grosso

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    NAVEGAES Anterior | ndice | Prxima Comrcio pelo rio Cuiab cada vez mais intenso (COMRCIO E DIVERSIFICAO DA ECONOMIA MATO GROSSENSE NO SC. XIX E XX) Volume de produtos comercializados cresceu mais de 40% em dois anos CARLA PIMENTEL Da Reportagem

    Cuiab, 1 de janeiro de 1906 - Sedas, veludo, tapetes, chapus, louas, cerveja, cigarreiras, querosene, porta-moedas chegando. De sada, erva-mate, borracha, couro bovino, entre outros. Um balano das importaes e exportaes realizadas no ano passado revela que o Porto de Corumb embarcou mercadorias correspondentes a um total de 3.739 contos e 753 ris e desembarcou um volume de 2.621 contos e 986 ris em produtos. A partir de Corumb, esses produtos chegam a Cuiab atravs de vapores e chatas, abastecendo o mercado local.

    O contrabando uma das caractersticas do escoamento da produo local. No balano de 1905, o volume total de exportaes de borracha em Mato Grosso ignorado. No h fiscalizao para a exportao do produto no Norte do Estado. Quase toda a produo , portanto, comercializada como se pertencesse ao Amazonas e Par. Ainda que sem muito controle, a exportao da borracha um elemento expressivo da economia local mas o mesmo j no se pode mais dizer das riquezas minerais.

    Nmeros oficiais apontam que, atravs de Corumb por onde tambm segue a produo levada atravs dos portos de Cuiab e Corumb escoaram 544,9 toneladas. Esse volume cerca de 40% superior ao registrado em 1904, quando 307,7 saram de Mato Grosso a partir do terminal porturio. A erva-mate foi o produto mais exportado em Mato Grosso no ano passado, atingindo o patamar de 4,3 toneladas. Ela seguida pelo couro bovino, que ultrapassou os 700 mil quilos.

    Desse vaivm de mercadorias atravs dos portos, novos negcios vm surgindo em Cuiab, Corumb e Cceres. Nas trs cidades, o movimento de embarcaes gerou a multiplicao de casas comerciais, como a Orlando Irmos & Cia, na capital. A abertura da navegao pelo rio Paraguai tambm favoreceu o nascimento das primeiras indstrias instaladas no Estado, como de acar (ver matria nesta pgina). As vias de comunicao usadas no sculo XVIII mones do Tiet e Guapor foram desativadas no sculo passado. Mas, em 1856, a partir das negociaes com a Repblica do Paraguai, a navegao voltou ativa. O trnsito foi novamente interrompido durante a guerra do Paraguai, e novamente reativado aps o conflito. Dos trs rios mais importantes da bacia do Prata Paran, Paraguai e Uruguai os dois primeiros nascem em territrio que, nos tempos do Brasil-colnia, pertenceu capitania de Mato Grosso. Uma das conseqncias disso a ligao cultural entre o Estado e os pases da Bacia do Prata ao longo de sua histria. Em Cuiab, no foram raros os casos de paraguaios que se estabeleceram na regio. Sestas depois do almoo e conversas porta de casa depois do jantar, por exemplo, so costumes tpicos dos vizinhos de lngua espanhola. Moedas desses pases chegaram a circular por Cuiab no sculo passado.

    O intenso intercmbio comercial determinou tambm a chegada de espanhis e italianos - industriais, comerciantes, armadores, operrios etc que respondiam pelo sobrenome de Fragelli, Vasques, Candia, Bonilha, Ricci e tantos outros. H tempos, notcias da Corte chegam a Cuiab atravs do lento caminho das guas. A libertao dos escravos, por exemplo, aportou mais tarde em Mato Grosso. Informaes sobre a Lei urea, assinada pela princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888, s chegou em Cuiab em 6 de junho. A notcia de que o Brasil tinha proclamado sua Independncia tambm chegou em atraso - ela foi divulgada quatro meses depois do Grito do Ipiranga. Devido s dificuldades de comunicao, a novidade s foi divulgada em Cuiab no dia 5 de janeiro de 1823. Fontes de pesquisa para esta matria: Influncias do Rio da Prata em Mato Grosso, de Lenine Pvoas; Arquivo Pblico do Estado de Mato Grosso; Revivendo Mato Grosso, de Elizabeth Madureira e Album Graphico do Estado de Mato Grosso. Rio traz influncias externas Da Reportagem

    Nem s de chapus e sedas so carregadas as embarcaes. Influncias do exterior tambm enchem os olhos da elite cuiabana, atravs de livros, jornais e revistas. O comportamento das camadas mais abastadas vem mudando a partir desse contato, desde o reincio da navegao. O contato com idias do Velho Mundo chegou pelos rios. Foi a partir da abertura da navegao que Mato Grosso estreitou laos com pensamentos, costumes e produtos vindos de longe especialmente da Europa e Estados Unidos. Essas influncias externas eram, antes, difundidas de forma ainda mais restrita pelos filhos da aristocracia, que estudavam na Corte ou nas escolas europias. Mas o interesse por outras culturas no uma via de mo nica. Assim como o rio viabiliza o transporte das novidades de fora, a navegao tambm j estimulou a vinda, para Mato Grosso, de cientistas de outras regies e do exterior para expedies e pesquisas.

    Em Cuiab, e chega e sai de vapores que servem de mecanismo de trocas entre a Europa e a elite cuiabana testemunhado pela populao do Beco Quente. E as novidades europias no chegam a alterar o ritmo de vida local. As embarcaes que aportam constantemente no Porto so recebidos por um cenrio que inclui marinheiros nas inmeras tavernas instaladas na regio e mulheres vestidas com roupas de xita verde e xales geralmente de cores bem fortes. (CP) O Beco Quente corresponde hoje regio do Museu do Rio. Fontes de pesquisa para esta matria: Influncias do Rio da Prata em Mato Grosso, de Lenine Pvoas; Arquivo Pblico do Estado de Mato Grosso; Revivendo Mato Grosso, de Elizabeth Madureira e Album Graphico do Estado de Mato Grosso.

    ALBUM GRAPHICO DE MATTO-GROSSO

    Os vapores e as chatas vindas de Corumb trazem toneladas de produtos para o consumo dos moradores

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    BRIGA POLTICA Anterior | ndice | Prxima

    Foras de Generoso matam Tot Paes no Coxip (O massacre da baa dos Garcez) JOANICE PIERINI LOUREIRO Da Reportagem

    Cuiab, 7 de julho de 1906 Foi executado ontem na Fbrica de Plvora, regio do Coxip do Ouro, o presidente de Mato Grosso, Coronel Antnio Paes de Barros, mais conhecido por Tot Paes. Fundador e proprietrio da Usina de Acar Itaicy, Tot estava refugiado de Cuiab desde o ltimo dia 30, quando tropas oposicionistas a seu governo, lideradas pelo senador Generoso Paes Leme de Souza, invadiram a capital.

    Tot Paes foi morto com dois tiros, um no trax e outro no ouvido esquerdo. As foras revolucionrias que o executaram foram comandadas pelo Coronel Joaquim Sulpcio de Cerqueira Caldas, tambm conhecido por Quinco Caldas. O corpo do presidente foi encontrado por um tenente do Exrcito. Tambm ontem, na Praa do Arsenal de Guerra, o senador Generoso Ponce realizou a parada da vitria, com a presena de centenas de pessoas. Com a morte de Tot Paes, assume a administrao de Mato Grosso o 1 vice-presidente Pedro Leito Osrio, com apoio de Generoso Ponce. A morte de Tot Paes coloca fim a um das disputas mais ferrenhas j vistas na histria poltica da capital. O episdio j comentado pela populao como a Revoluo de 1906. Tot Paes estava na presidncia de Mato Grosso desde 15 de agosto de 1903, quando venceu as eleies concorrendo com Manoel Esperidio da Costa Marques. O governo de Tot foi marcado pela tentativa de reorganizar o Estado, mas tambm por muitos fatos violentos.

    Desde 1904, quando Generoso Ponce retornou de Assuno para Corumb, o ambiente poltico na Capital se tornou mais tenso. Este clima enfatizou-se no ano passado, quando os irmos Murtinho reataram foras com Ponce, formando juntos a Coligao Mato-Grossense a partir do antigo Partido Republicano - da qual Ponce fazia parte e da Dissidncia , ala dos murtinhistas. A impopularidade de Tot Paes ficou mais evidente em 1 de novembro de 1905, quando nas eleies para Assemblia Legislativa e Cmaras Municipais a Coligao fez maioria. Maioria que se repetiu em 30 de janeiro deste ano, quando a Coligao tambm elegeu a maior parte para o Senado e a Cmara Federal. Foi neste clima tenso, que Generoso Ponce resolveu reunir foras militares para, em 17 de maio deste ano, partir rumo a Cuiab a fim de tomar a capital. As foras militares reunidas por Generoso Ponce em Corumb estavam compostas por 10 vapores e 20 chatas trazendo 500 homens, nmero que foi aumentando no decorrer da viagem at chegar a 2000 j em Cuiab. A este movimento, tambm chamado de Diviso Sul, foi somada a Diviso Norte, composta por 1,2 mil homens e liderada pelo Coronel Pedro Celestino, tambm sob a coordenao de Generoso Ponce. Foi a Diviso Sul que ocupou a Usina Itaicy, de Tot Paes, e a Fazenda Pindaival, do irmo do presidente, Henrique Paes de Barros, golpes considerados fatais para Tot. J com cerca de quatro mil homens, no final do ms passado Generoso Ponce mandou um ultimato a Tot Paes, que no respondeu ao chamado e fugiu de Cuiab. Tot acionou o governo federal e aguardava, na Fbrica de Plvora, a chegada do socorro da Expedio Dantas Barreto. At ontem, no entanto, tal expedio no havia chegado a Cuiab. Ao contrrio do que acontece hoje, no incio do sculo passado era chamado presidente a autoridade mxima do Estado, e governador da autoridade mxima da Repblica. As tropas de Dantas Barreto, que eram aguardadas por Tot Paes em Cuiab no incio de julho de 1906, s chegaram na capital dia 17 de julho de 1906. Fontes: O Ciclo do Acar e a Poltica de Mato Grosso, de Lenine Pvoas e A Viso dos Vencidos: Tot Paes Cem Anos Depois, de Paulo Pitaluga Costa e Silva.

    Imprio das usinas reina (O massacre da baa dos Garcez ) Da Reportagem

    Com a morte de Tot Paes ontem, surgem dvidas sobre para quem ir a administrao da Usina Itaicy, quarta maior usina de cana-de-acar do Brasil. A maior probabilidade de que o empreendimento passe para as mos do grupo Almeida & Cia. Inaugurada em 1 de setembro de 1897, a usina tornou-se nestes nove anos uma referncia econmica para Cuiab. Todo seu maquinrio foi importado por Tot Paes da Alemanha. Itaicy possui moedas prprias, que os trabalhadores trocam por produtos diversos.

    Entre as usinas de Mato Grosso, outras so tambm as que se destacam, como a Usina Conceio, a Usina Flexas, a Usina Aric, a Usina Tamandar e a Usina Ressaca. Mas nem tudo s glamour nas usinas de Cuiab. Trabalhadores denunciam, com frequncia, trabalho escravo e jornadas excessivas, que muitas vezes chegam a mais de 15 horas nas lavouras. Ns pobre, sem nada pra viv, cala com as morte. Trabalha, no tem voz naquele sileno que defende ns. Delegado de polcia nem pens. afilhado ou coron, e ns trabalha quieto, come quieto, morre quieto, denuncia Bento Rafael, trabalhador da Aric.(JPL) Fontes: O Ciclo do Acar e a Poltica de Mato Grosso, de Lenine Pvoas e Vozes do Silncio, de Lcia Helena Gaeta Aleixo. Fontes: Histria Geral de Mato Grosso (vol.II), de Lenine Pvoas; e Arquivo do Dirio de Cuiab.

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    IMIGRAO Anterior | ndice | Prxima Crescimento de 7,76% ao ano um dos maiores do pas ( Mato Grosso Atual) ORLANDO MORAIS Da Reportagem

    Cuiab, 8 de abril de 1975 Cuiab completa hoje 256 anos e bem poderia acontecer que, aps as merecidas festas, a cidade comeasse a se perguntar: o que que vamos fazer com tanta gente? Nesta dcada, o ndice mdio de crescimento da populao tem sido, de acordo com o IBGE, de 7,76% ao ano. Trata-se de um dos maiores ndices entre as cidades brasileiras e um recorde para a prpria Cuiab. Para se ter uma idia do que isso representa em sua histria, basta verificar que, h quinze anos, em 1960, a populao da cidade no passava dos 58 mil habitantes. E hoje, j bate na casa dos 150 mil.

    So quase trs vezes mais pessoas convivendo em uma cidade que, h dcadas, no obtinha ndices de crescimento populacional superiores a 0,33%. Isso significa tambm que, hoje, quase dois teros da populao so de imigrantes. A cidade hospitaleira? No h quem no confirme. Mas o que tem acontecido que, por maior que seja a boa vontade do dono da casa, o nmero de hspedes tal que pelo menos algum ter que ir dormir na casa do cachorro. Em outras palavras: a cidade no estava e nem est preparada, sob nenhum aspecto, para absorver a enorme onda de imigrao que teve incio a partir da construo de Braslia (leia reportagem nesta pgina). E pior: a cada dia vo chegando mais hspedes. Em sua maioria, so pessoas provindas do sul do pas, em especial do Paran. Mas tambm h um grande nmero de paulistas, nordestinos, mineiros... Muitos apenas passam por Cuiab e vo desbravar o Norte de Mato grosso e a regio Amaznica. Por l, levantam acampamento, renem-se em vilas, fundam novos municpios. Recebem todo o apoio dos que ficaram em Cuiab. na capital do Estado que esto os bancos, as escolas, os hospitais, os hotis, os escritrios das empresas de colonizao, as lojas de roupa, comida e autopeas, enfim, os servios em geral. Todos esses servios, entretanto, ainda so muito precrios. Sobretudo os de natureza pblica. Faltam gua, luz, moradia, escola, estrada e saneamento. A Prefeitura diz ser inadministrveis taxas to altas de crescimento para uma cidade histrica, nascida no sculo 18. O governo do Estado, por sua vez, est terminando a construo da cohab Morada da Serra, ou CPA, com capacidade para 60 mil pessoas, j prevendo um crescimento ainda maior da populao, e mesmo sob as crticas dos que dizem que nem no ano 2000 o CPA chegar a ter 60 mil habitantes. DE SITIANTE A FAZENDEIRO - O paranaense Antnio Linhares da Silva, de 31 anos, o tpico imigrante destes tempos. Ele tinha um pequeno stio numa cidadezinha do norte do Paran, onde plantava milho e caf. Sua vida era a mesma h anos e ele s ouviu falar de Mato Grosso na propaganda de uma empresa de colonizao. No acreditei na hora que ouvi o preo das terras daqui, diz ele. Se eu vendesse o meu pequeno lote no Paran, poderia comprar uma rea dez vezes maior no Mato Grosso e ainda sobrava dinheiro para investir. E exatamente isso o que ele est fazendo agora. Por enquanto, Antnio est vivendo, com a mulher e um casal de filhos, na casa alugada por seu cunhado, que por sua vez j havia sado do Paran h trs anos. Antnio no sabe ainda se vai levar os filhos, que esto em idade escolar, para sua nova fazenda. No estou encontrando vaga para eles na escola, afirma. Mas se no conseguir, pacincia, eles s vo estudar no ano que vem. Melhor para mim, que ganho uma ajuda extra na lida com o gado. Dizem que as terras daqui so boas para criar gado. Fontes: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE); Prefeitura de Cuiab (IPDU); Arquivo do Dirio de Cuiab; Um Histrico dos Usos da Biodiversidade em Mato Grosso, de Lylia Guedes Galetti e Maria Ins Malta Castro. * Especialista consultado: Jos Antnio Lemos Secretrio Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano Construo de Braslia mostrou desejo de desenvolver a regio (MATO GROSSO ATUAL) Da Reportagem

    Cuiab, 8 de abril de 1975 A implantao da Capital Federal no Centro Oeste brasileiro, em 1960, foi um sinal claro, para aqueles que estavam s espera de uma oportunidade, de que o Governo Federal queria mesmo desenvolver a regio da noroeste do Brasil. De fato, a dcada de 60 marcou o incio da expanso do capitalismo na Amaznia, que vem a desencadear um rpido processo de transformao espacial. E Cuiab, por ser a capital do Estado e principal centro urbano da regio, est a sofrer o maior impacto dessas transformaes. Na poltica de ocupao e valorizao da Amaznia implementada pelo governo militar, com o propsito de promover a integrao nacional, Cuiab tem sido um ponto de apoio, um posto avanado da nova expanso agrcola. A cidade est, por assim dizer, na vanguarda da ocupao. Da o fato de estar sendo chamada de Portal da Amaznia. At agora, diversos mecanismos econmicos, polticos e ideolgicos foram acionados com a finalidade de garantir a expanso do capital e de assegurar a sua necessria reproduo. Primeiro vieram as estradas. So, at agora, nada menos que seis rodovias federais as BR-070, BR-163, BR-262, BR-364, BR-376 e BR-463 , para as quais convergem toda a rede estadual e que interligam Mato Grosso a todas demais unidades da Federao. Paralelo a isso, tm sido criados diversos projetos e programas federais de desenvolvimento regional.

    Em 66, foi criada a Superintendncia de Desenvolvimento da Amaznia (SUDAM) e reestruturado o Banco de Crdito da Amaznia, sob controle do governo federal, cuja idia bsica a de que a superao das desigualdades econmicas e sociais entre as regies brasileiras essencial para o desenvolvimento e a modernizao do pas. Em 67, foi criado a Superintendncia de Desenvolvimento do Centro Oeste e, na sua esteira, foram criados, em 1971, programas tais como o de Redistribuio de Terras e Estmulo Agroindstria (Proterra) e o Programa de Desenvolvimento do Centro Oeste (Prodoeste).

    E s no ano passado, j foram criados os programas: de Plos Agropecurios e Agrominerais da Amaznia (Polamaznia), de Desenvolvimento dos Cerrados (Polocentro) e o de Desenvolvimento do Pantanal (Prodepan). S o Polocentro prev, para os prximos dois anos, investimentos da ordem de 10 bilhes de cruzeiros para o incentivo explorao agrcola nas reas de cerrado. E Cuiab no meio de tudo isso. Fontes: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE); Prefeitura de Cuiab (IPDU); Arquivo do Dirio de Cuiab; Um Histrico dos Usos da Biodiversidade em Mato Grosso, de Lylia Guedes Galetti e Maria Ins Malta Castro. Especialista consultado: Jos Antnio Lemos Secretrio Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano

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