história da música ocidental beta02 - cap1_1.3 antiga roma

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28 A MSICA NA ANTIGA ROMA No sabemos se os Romanos tero sido responsveis por alguma contribuio importante, quer para a teoria, quer para a prtica musical. Roma foi buscar a sua msica erudita Grcia, especialmente depois de esta regio se tornar uma provncia romana, em 146 a. C., e possvel que esta cultura importada tenha substitudo uma msica indgena, etrusca ou italiana, da qual nada sabemos. A verso romana do aulo, a tbia, e os seus tocadores, os tibicinos, desempenhavam um papel importante nos ritos religiosos, na msica militar e no teatro. Destacavamse ainda vrios outros instrumentos de sopro. A tuba, uma trombeta comprida, direita, era tambm utilizada em cerimnias religiosas, estatais e militares. Os instrumentos mais caractersticos eram uma grande trompa circular, em forma de G, chamada corno, e a sua verso de menores dimenses, a buzina. A msica deve ter estado presente em quase todas as manifestaes pblicas. Mas desempenhava tambm um papel nas diverses particulares e na educao. Muitas passagens das obras de Ccero, Quintiliano e outros autores revelam que a familiaridade com a msica, ou pelo menos com os termos musicais, era considerada como fazendo parte da educao do indivduo culto, tal como se esperava que tal indivduo soubesse falar e escrever o grego. Nos tempos ureos do Imprio Romano (os dois primeiros sculos da era crist) foram importadas do mundo helenstico obras de arte, arquitectura, msica, filosofia, novos ritos religiosos e muitos outros bens culturais. Numerosos textos documentam a popularidade de virtuosos clebres, a existncia de grandes coros e orquestras, bem como de grandiosos festivais e concursos de msica. Muitos imperadores foram patronos da msica. Nero aspirou at a alcanar fama pessoal como msico. Com o declnio econmico do imprio, nos sculos III e IV, a produo musical em grande escala, naturalmente dispendiosa, do perodo anterior acabou por desaparecer. Resumindo: embora haja uma grande incerteza quanto as questes de pormenor, sabemos que o mundo antigo legou a Idade Mdia algumas ideias fundamentais no domnio da msica: (1) uma concepo da msica como consistindo essencialmente numa linha meldica pura e despojada; (2) a ideia da melodia intimamente ligada as palavras, especialmente no tocante ao ritmo e a mtrica; (3) uma tradio de interpretao musical baseada essencialmente na improvisao, sem notao fixa, em que o intrprete como que criava a msica de novo a cada execuo, embora segundo convenes comummente aceites e servindo-se das frmulas musicais tradicionais; (4) uma filosofia da msica que concebia esta arte, no como uma combinao de belos sons no vcuo espiritual e social da arte pela arte, mas antes como um sistema bem ordenado, indissocivel do sistema da Natureza, e como uma fora capaz de afectar o pensamento e a conduta do homem; (5) uma teoria acstica cientificamente fundamentada; (6) um sistema de formao de escalas com base nos tetracordes; (7) uma terminologia musical. Parte desta herana (n.os 5, 6 e 7) era especificamente grega; o resto era comum a maior parte, se no a totalidade, do mundo antigo. Os conhecimentos e as ideias no domnio da msica foram transmitidos, embora de maneira incompleta e imperfeita, ao Ocidente por diversas vias: a igreja crist, cujos ritos e msica derivaram inicialmente, em grande medida, de fontes judaicas, se bem que despojados dos instrumentos e danas que os acompanhavam no templo, os escritos dos Padres da Igreja e os tratados enciclopdicos do princpio da Idade Mdia, que abordavam a msica juntamente com uma quantidade de outros temas.

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Cortejo fnebre romano num relevo de um sarcfago de Amiternum, final do sculo I a. C. Na fila de cima vem-se dois tocadores de corno e um de ltuo, ambos instrumentos de sopro metlicos etrusco-romanos. Abaixo destes vemos quatro tocadores de tbia, que era semelhante ao aulo grego (quila, Museo Cvico)[fonte: http://media.wiley.com/product_data/excerpt/65/14051752/1405175265.pdf]

Os primeiros sculos da igreja crist Algumas caractersticas da msica da Grcia e das sociedades mistas orientais-helensticas do Mediterrneo oriental foram seguramente absorvidas pela igreja crist nos seus dois ou trs primeiros sculos de existncia. Mas certos aspectos da vida musical antiga foram liminarmente rejeitados. Um desses aspectos foi a ideia de cultivar a msica apenas pelo prazer que tal arte proporciona. E, acima de tudo, as formas e tipos de msica associados aos grandes espectculos pblicos, tais como festivais, concursos e representaes teatrais, alm da msica executada em situaes de convvio mais ntimo, foram por muitos considerados imprprios para a Igreja, no porque lhes desagradasse a msica propriamente dita, mas porque sentiam a necessidade de desviarem o nmero crescente dos convertidos de tudo o que os ligava ao seu passado pago. Esta atitude chegou mesmo a suscitar, de incio, uma grande desconfiana em relao a toda a msica instrumental. A HERANA JUDAICA Durante muito tempo os historiadores da msica pensaram que os primeiros cristos tinham copiado os servios religiosos pelos da sinagoga judaica. Os especialistas mostram-se hoje mais cpticos em relao a esta teoria, dado que no h provas documentais que a confirmem. Julga-se at que os primeiros cristos tero evitado copiar os servios judaicos por forma a sublinharem o carcter distinto das suas crenas e rituais. necessrio estabelecer uma distino entre as funes religiosas do templo e da sinagoga. O templo ou seja, o segundo templo de Jerusalm, que existiu no mesmo lugar do primeiro templo de Salomo de 539 a. C. at a sua destruio pelos Romanos em 70 d. C. era um local de culto

30 pblico. Esse culto consistia principalmente num sacrifcio, em geral de um cordeiro, realizado por sacerdotes, assistidos por levistas, entre os quais se contavam vrios msicos, e na presena de leigos israelistas. Umas vezes o sacerdote e outras tambm o crente leigo comiam parte do animal "assado". Estes sacrifcios realizavam-se diariamente, de manh e de tarde; no sabbath e nas festas havia sacrifcios pblicos suplementares. Enquanto decorria o sacrifcio, um coro de levitas com doze elementos, pelo menos cantava um salmo, diferente para cada dia da semana, acompanhado por instrumentos de cordas. Nas festas mais importantes, como a vspera da Pscoa, cantavam-se os salmos 113 a 118, que tm refres em aleluia, enquanto os crentes faziam os sacrifcios pessoais, e em seguida um instrumento de sopro semelhante ao aulo vinha associar-se ao acompanhamento de cordas. Os crentes tambm rezavam no templo ou voltados para o templo, mas a maior parte das oraes fazia-se em casa ou na rua. H um paralelismo evidente entre o sacrifcio no templo e a missa crist, que era um sacrifcio simblico, em que o sacerdote partilhava do sangue sob forma de vinho e os crentes se associavam a partilha do corpo de Cristo sob forma de po. Todavia, sendo a missa igualmente uma comemorao da ltima ceia, imita tambm a refeio judaica dos dias de festa, como a refeio ritual da Pscoa, que era acompanhada por msica cantada. A sinagoga era um centro de leituras e homilias, bem mais do que de sacrifcios ou oraes. A, em assembleias ou servios, as Escrituras eram lidas e comentadas. Determinadas leituras eram feitas nas manhs normais do sabbath e nos dias de mercado, segundas-feiras e quartas-feiras, enquanto havia leituras especiais para as festividades das peregrinaes, para as festividades menores, para os dias de jejum e para os dias de lua nova. Aps a destruio do templo, o servio da sinagoga incorporou elementos que substituam os sacrifcios do templo, mas esta evoluo deu-se j, provavelmente, demasiado tarde no final do sculo I ou no sculo II para servir de modelo aos cristos. Segundo parece, o canto quotidiano dos salmos s comeou a realizar-se bastante depois de iniciada a era crist. O que a liturgia crist ficou a dever a sinagoga foi principalmente a prtica das leituras associadas a um calendrio e o seu comentrio pblico num local de reunio dos crentes. medida que a igreja crist primitiva se expandia de Jerusalm para a sia Menor e para o Ocidente, chegando a frica e a Europa, ia acumulando elementos musicais provenientes de diversas zonas. Os mosteiros e igrejas da Sria tiveram um papel importante no desenvolvimento do canto dos salmos e dos hinos. Estes dois tipos de canto religioso parecem ter-se difundido a partir da Sria, via Bizncio, at Milo e outros centros ocidentais. O canto dos hinos a primeira actividade musical documentada da igreja crist (Mat., 26, 30; Mar., 14, 26). Por volta do ano 112 Plnio, o Jovem, faz referncia ao costume cristo de cantar "uma cano a Cristo como se ele fosse um deus" na provncia de que era governador, a Bitnia, na sia Menor18. O canto dos cristos era associado ao acto de se comprometerem atravs de um juramento. BIZNCIO As igrejas orientais, na ausncia de um autoridade central forte, desenvolveram liturgias diferentes nas vrias regies. Embora no subsistam manuscritos anteriores ao sculo IX com a msica usada nestes ritos orientais, algumas inferncias podem ser feitas quanto aos primrdios da msica religiosa no Oriente. A cidade de Bizncio (ou Constantinopla, hoje Istambul) foi reconstruda por Constantino e designada em 330 como capital do seu imprio reunificado. A partir de 395, data em que foi instaurada a diviso permanente entre Imprio do Oriente e do Ocidente, at a sua conquista pelos Turcos, em 1453, ou seja, por um perodo de mais de mil anos, esta cidade permaneceu como capital do Imprio do Oriente. Durante boa parte deste lapso de tempo Bizncio foi a sede do governo mais poderoso da Europa e o centro de uma cultura florescente, onde se combinavam elementos helensticos e orientais. A prtica musical bizantina deixou marcas no cantocho ocidental, particularmente na classificao do repertrio em oito modos e num certo nmero de cnticos importados pelo Ocidente em momentos diversos entre o sculo VI e o sculo IX.18

Plnio, Cartas, 10, 96.

31 As peas mais perfeitas e mais caracter