história da conjuração mineira

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  • MINISTRIO DA CULTURAFundao Biblioteca NacionalDepartamento Nacional do Livro

    HISTRIA DA CONJURAO MINEIRA

    Advertncia

    A presente monografia vem satisfazer uma falta sensvel na histria nacional, tornando conhecidos todos os fatos e

    personagens da conjurao mineira de 1789.

    Comeada a ler no Instituto Histrico nos ltimos meses do ano de 1860, parou o seu autor,

    no s espera de novos documentos que pediu ou que lhe foram prometidos para complemento de

    to rduo trabalho, como tambm distrado por outras ocupaes, que o desviaram de seu propsito,

    ou por outras composies de menos peso e mais fcil cometimento.

    Estando porm o trabalho feito, fcil era rev-lo e entreg-lo luz da imprensa; a nossas

    instncias decidiu-se o seu autor a complet-lo, pois pena era que ficasse adiada a sua concluso por

    tempo indeterminado sendo sua publicao to geral e ansiosamente esperada.

    Acerca do mrito e importncia deste trabalho histrico, feito debaixo das mais escrupulosas

    indagaes, o que se comprova com as numerosas notas e documentos em que se baseava o autor,

    citaremos aqui as opinies que emitiram dois ilustrados secretrios do Instituto Histrico em seus

    relatrios anuais.

    Disse o sr. cnego J. C. Fernandes Pinheiro em 1859:

    Prestou o Instituto a sua adeso a sete propostas do nosso infatigvel e prestimoso conscio o

    sr. Joaquim Norberto de Sousa e Silva a fim de obterem-se das autoridades competentes vrios

    documentos de que necessita para a sua Histria da Conjurao Mineira de 1789. Tomando sobre si

    o nobre encargo de reabilitar a memria desses homens, cuja idia por prematura se malograra, quis

    o sr. Norberto render sincera homenagem ao excelso prncipe em cujo reinado pode fulgir a verdade

    em todo o seu esplendor, e tributando a mesmo tempo a sua gratido pelos meios que lhe facultou de

    prosseguir em seus laboriosos estudos, com proveito seu, honra nossa, e utilidade para o pas.

  • Disse o sr. dr. Caetano Alves de Sousa Filgueiras, em 1860:

    Apesar de magnificamente enriquecida a galeria das leituras do corrente ano, o Instituto

    esperava ansioso o fruto dos conscienciosos trabalhos que um dos seus ilustrados vice-presidentes

    preparava sobre o drama imponente da conjurao mineira do alferes Tiradentes. Sua expectativa foi

    satisfeita com a leitura da primeira parte e da magistral memria do sr. Joaquim Norberto de Sousa e

    Silva.

    O nosso profundo conscio no quis que se encerrassem os nossos trabalhos sociais sem nos

    dar uma prova de que a lmpada de suas lucubraes fulgura sempre no seu gabinete de estudo, e

    que o seu gnio, como a vestal desse fogo sagrado, vela ante ela, inspirado pelo amor da ptria, e

    abrasado pelo ardor da glria; pagou pois o tributo a que se obrigara para com o Instituto, quando

    inscreveu-se nas leituras que deveriam ter lugar no ano social, cujas sesses relaciono. Era j tarde, e

    apenas ouvimos a parte introdutiva da Conjurao Mineira, estudos histricos sobre as primeiras

    tentativas para a Independncia Nacional.

    O trabalho do distinto vice-presidente tomou propores gigantescas vista dos documentos

    oficiais, e da maior importncia que encontrou no arquivo da Secretaria de Estado dos Negcios do

    Imprio, e at mesmo no arquivo do nosso Instituto Histrico.

    Felizmente para ns j a luz, que faltou a esses tempos tenebrosos, pode fulgir em todo o seu

    esplendor ante o trono diamantino, e por isso o nosso conscio tratou da reabilitao da memria

    desses nossos compatriotas, que expiaram no patbulo e nas praias do exlio a idia grandiosa da

    independncia da nossa ptria.

    O ilustre finado Carlos Rybeirolles dava-se os parabns de poder publicar, no obstante sua

    qualidade de estrangeiro, essas pginas de dramas sinistros, mais ou menos desconhecidos dos

    contemporneos: Rybeirolles, porm, s teve notcia da famosa sentena da alada que julgou e

    puniu os rus do patriotismo.

    Havia, diz o sr. Joaquim Norberto, uma falta sensvel; os fatos no estavam dilucidados;

    julgava-se com os juzes; jurava-se em suas palavras, sem ouvirem-se os implicados, sem ligar-se

    uma data a outra data, sem dar-se a esse drama os seus diversos atos, indicando-se o lugar de sua

    ao e tempo; sem dar-se a cada cena seus pormenores, as suas peripcias, os atores com seus

    caracteres e fisionomias, com seus pensamentos e palavras, e afinal achava-se a histria enredada

    nesse labirinto, que se chamou sentena, com suas aluses a duas devassas, com as citaes dos seus

    numerosos apensos, sem que se pudesse saber o que eram elas, sem que se pudesse dizer o que

    continham de verdadeiro.

    Os severos juzes tinham julgado os conjurados, e a histria no podia julgar a conjurao,

    porque a conjurao os conjurados com as suas idias, com os seus esforos, com a sua trama, com

    a sua revolta; o governo colonial com as suas prises, com as suas masmorras secretas; os juzes

  • com suas devassas longas e enfadonhas, com os seus interrogatrios cheios de argcia e de artifcios,

    com a sua sentena conspurcada de insultos e de injrias; com as suas execues ludibriadas pela

    mutilao dos cadveres e pelo azorrague dos algozes; com os seus desterros para as solides da

    morte, com suas infmias pstumas, com seus seqestros brbaros, com seus arrasamentos salgados

    ou seus monumentos infamantes.

    Absorto ante o tesouro de to preciosssimos documentos, escritos todos com a tinta do

    tempo, o nosso laborioso conscio entregou-se com ardor ao seu minucioso estudo; examinou-os

    acuradamente; compulsou-os pgina por pgina, confrontou-os com todo o esmero, e, sempre de

    pena em punho, colimando confeccionar uma histria conscienciosa baseada nos preciosos

    monumentos que tinha sua disposio, no esqueceu nota, no verificou dvida, no assegurou

    data que no fosse necessria para dar sua magnfica lucubrao o carter solene debaixo do qual

    ele passa a fazer parte do arquivo da nossa associao.

    Larga, fastidiosa, acabrunhadora foi por sem dvida a empresa que cometeu; mas por

    luminosa experincia sabemos que no nosso digno conscio do-se as mos o trabalho e a dedicao.

    No ser este por certo o primeiro exemplo desta unio, e quando o pblico vir a Histria da

    Conjurao Mineira, o fruto suado de um profundo e pertinaz estudo, reconhecer nele o infatigvel

    e ilustrado autor das monografias sobre o descobrimento do Brasil, sobre o aldeamento dos ndios do

    Rio de Janeiro, sobre Hans Staden, o prisioneiro dos tamoios, sobre as brasileiras clebres e sobre a

    histria da literatura brasileira, onde cada assero tem por base uma nota histrica ou uma

    autoridade incontestvel.

    Contraria-me sinceramente no sobrar-me espao para citar-vos mais alguns trechos de to

    transcendente escrito.

    AO INSTITUTO HISTRICO BRASILEIRO

    Pensou-se por muito tempo no s na Europa como entre ns, que a malograda conjurao deMinas Gerais do ano de 1789 no passara de uma inveno do governo colonial, que tinha por fimderribar a influncia de alguns brasileiros distintos por seus conhecimentos, afamados por seustalentos, conhecidos por suas obras e respeitveis por suas riquezas. Nesses tempos coloniais tudo seignorava que tudo se escondia; a divulgao e a publicidade eram crimes. Falava-se numa ou outracircunstncia da vida dos implicados; contava-se uma ou outra das privaes durante as longas epenosas peregrinaes dos presos escoltados e trazidos de Vila Rica ao Rio de Janeiro; sabia-se deum ou outro dos padecimentos que eles tiveram nos segredos, praticados pressa nos edifciospblicos, onde ficaram isolados por longos meses sem ouvir outras vozes, sem ver outros semblantesmais do que os de seus estpidos carcereiros, seus rspidos juzes, seus hipcritas confessores;narrava-se com espanto e a medo um ou outro fato da execuo e mutilao legal exercida contra apessoa, e exercitada depois sobre o cadver do infeliz que sonhara com idias de independncia, queadotara o projeto de liberdade para a sua ptria, e com ele o do engrandecimento de seu pas. Tudo omais eram trevas! Espessa sombra cobria essa pgina negra de nossa histria, e ainda h pouco dizia

  • o distinto Carlos Ribeyrolles: Conhece-se apenas a verso dos juzes, pois a publicidade erainterdita, por isso que avaliava-se a fora desse poderoso registro; o processo tinha sido secreto earbitrrio, e o tribunal supremo gozava nesse caso das prerrogativas absolutas da coroa.

    Pouco e pouco, porm, foram-se desassombrando os nimos da funesta e brbara impressodas cenas de sangue dessa tragdia representada pelo governo colonial com suas peripciascalculadas de antemo; veio depois a publicao das liras de Gonzaga; to suaves, to ternas e toharmoniosas, falando a linguagem familiar sem degenerar em trivial, recordar os padecimentos doseu autor; trazer lembrana o seu nome, e os de seus amigos, e despertar as simpatias no s peloinfortnio do poeta encarcerado, carpindo suas saudosas endechas ao tinir de seus grilhes, comopela paixo do infeliz e desgraado amante arremessado s praias inspitas do desterro. Desde entodesejaram todos quantos o liam saber notcias suas, inteirar-se da histria de suas desgraas e apenasa tradio incerta hesitante referia um ou outro acontecimento vago perdido sem data!...

    Entretanto o traidor, o Iscariota poltico, com a mesma pena com que lavrara a delao de seusantigos cmplices, tinha pedido a certido da sentena para reclamar documentadamente o prmio desua traio ou, segundo a verso dos juzes, de sua obrigao de catlico e de vassalo emdesempenhar a fidelidade e a honra de portugus, e da a sua divulgao entre os espritos curiosose investigadores das coisas ptrias.

    Com a vinda da famlia real para o Brasil avultou na Europa o nome do