HISTÓRIA CRÍTICA DA FÁBULA NA LITERATURA . A inscricao da fabula na... · histÓria crÍtica da…

Download HISTÓRIA CRÍTICA DA FÁBULA NA LITERATURA . A inscricao da fabula na... · histÓria crÍtica da…

Post on 08-Aug-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • HISTRIA CRTICA DA FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA

    A Fbula na Literatura Portuguesa: Catlogo e Histria Crtica

    Projeto avaliado e financiado pela FCT PTDC/CLE-LLI/100274/2008

    CAPTULO 9

    A INSCRIO DA FBULA NA NARRATIVA PORTUGUESA CONTEMPORNEA: HERANAS E METAMORFOSES

    PAULO ALEXANDRE PEREIRA E MRCIA NEVES

  • HISTRIA CRTICA DA FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA PROJECTO PTDC/CLE-LLI/100274 A FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA:

    CATLOGO E HISTRIA CRTICA

    2

    CAPTULO 9

    A INSCRIO DA FBULA NA NARRATIVA PORTUGUESA CONTEMPORNEA: HERANAS E METAMORFOSES

    As each poem is said to have its own poetics, so has each fable its own ground of justification.

    (Blackham, 1985: 225)

    Tendo percorrido praticamente todas as culturas humanas e pocas histricas, a

    fbula constitui um gnero de origens e fronteiras incertas. A sua presena ubqua no

    imaginrio potico ocidental ajuda a compreender o emprego consensualizado do termo,

    mesmo se qualquer tentativa de circunscrio tipolgica parea esbarrar, no caso da

    fbula, com uma prtica literria esquiva a todas as categorizaes. No diagnstico

    certeiro de Hegel, La fable est comme une nigme qui serait toujours accompagne de

    sa solution (Esthtique, II).

    Com efeito, desenhando um arco diacrnico que se estende da antiguidade clssica

    at contemporaneidade, a fbula tem suscitado incontveis exegeses e classificaes,

    raramente unnimes e nunca definitivas, sobretudo em virtude das constantes mutaes

    do gnero e da abundante mas nem sempre iluminadora teorizao que em torno

    dele tem sido produzida.

    A natureza hbrida e polimrfica que, desde as suas primeiras manifestaes, o

    gnero fabulstico tornou patente repercute-se, desde logo, na ambiguidade que parece

    afetar a prpria designao de gnero na qual confluem vrias acees.

    Etimologicamente, o termo fbula deriva do substantivo latino fabula, ae (narrao,

  • CAPTULO 9 - A INSCRIO DA FBULA NA NARRATIVA PORTUGUESA CONTEMPORNEA, PAULO ALEXANDRE PEREIRA E MRCIA NEVES

    3

    histria ou conto), cuja raiz se encontra no verbo fari (falar, contar histrias, narrar)

    (Gaffiot, 1934:646), o que permite, desde logo, consider-la como une prise de parole

    (Bassy, 1994:843), isto , como uma revendication du pouvoir de la parole contre une

    situation de fait (ibid.).

    Num verbete consagrado ao gnero, Gabriella Parussa, associando a fbula a

    qualquer enunciado oral ou escrito, bem como arte de inventar histrias e a essas

    prprias histrias , atribui-lhe dois sentidos distintos: por um lado, o de esquema geral

    da narrao, ou seja, le rcit pris indpendamment de sa ralisation particulire dans

    une oeuvre (sujet ou discours) (Parussa, 2002: 213); por outro, em estreita articulao

    com o seu estatuto de vasto thesaurus de narrativas colhidas numa ancestral tradio

    oral, o de mise en scne danimaux, dtres inanims ou dhommes dans un rcit

    gnralement bref qui renferme un enseignement moral, et appel aussi apologue

    (ibid.).

    Numa primeira aceo, portanto, a fbula designa a histria ou a concatenao de

    aes que permitem conformar uma especfica dispositio narrativa. Sob a designao de

    mythos (o termo grego correspondente), Aristteles define-a, na sua Potica, como a

    composio dos actos", considerando-a um dos seis ingredientes estruturais da tragdia,

    em conjuno com o carter, a elocuo, o pensamento, o espetculo e a melopeia

    (Aristteles, 1994: 111). justamente neste sentido que os termos fabula ou mythos

    sero reclamados pelos formalistas russos para denominar o conjunto de

    acontecimentos comunicados pelo texto narrativo, representados nas suas relaes

    cronolgicas e causais (Reis, 1991: 151), por contraponto com a intriga que implica a

    representao dos mesmos acontecimentos segundo determinados processos de

    construo esttica (ibid.). Nestes termos, a fbula corresponde ao material pr-

    literrio que vai ser elaborado e transformado em intriga, estrutura compositiva j

    especificamente literria (ibid.). A fbula representa, pois, as aes da narrativa na sua

    sucessividade diacrnica, enquanto que a intriga se reporta ao domnio da histria

    artisticamente reconfigurada. luz destas premissas que deve, assim, entender-se a

    definio de fabula proposta por Umberto Eco que recupera, nos seguintes termos, a

    vieille opposition nonce par les formalistes russes entre fabula et sujet (Eco, 2010:

    130):

  • HISTRIA CRTICA DA FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA PROJECTO PTDC/CLE-LLI/100274 A FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA:

    CATLOGO E HISTRIA CRTICA

    4

    La fabula, cest le schma fondamental de la narration, la logique des actions et la syntaxe des

    personnages, le cours des vnements ordonn temporellement. Elle peut aussi ne pas tre une

    squence dactions humaines et porter sur une srie dvnements qui concernent des objets

    inanims ou mme des ides. Le sujet, cest en revanche lhistoire telle quelle est

    effectivement raconte, telle quelle apparat en surface, avec ses dcalages temporels, ses sauts

    en avant et en arrire (anticipations et flash-back), ses descriptions, ses digressions, ses

    rflexions entre parenthses. (ibid.:130-131)

    Num primeiro sentido, a fbula designa, portanto, a sequncia de aes que

    compem a diegese. Convm, contudo, reter a distino entre a fbula como

    componente estrutural da narrativa e a sua especfica codificao enquanto gnero

    autnomo. , naturalmente, esta segunda aceo a que de maior pertinncia se reveste

    no mbito deste estudo.

    na Retrica de Aristteles que ocorre a primeira definio da fbula considerada

    como gnero retrico, entendendo por retrica a capacidade de descobrir o que

    adequado a cada caso com o fim de persuadir (Aristteles, 1994: 48). Neste sentido, o

    Estagirita prope-se elencar diferentes provas, tendo em vista a persuaso de um

    auditrio, entre as quais arrola o exemplo ou induo retrica (raciocnio por induo)

    e o entimema ou silogismo retrico (raciocnio por deduo) (ibid.: 50). Como a

    designao sugere, o exemplo (do latim exemplum e do grego paradeigma) constitui um

    caso particular que o orador apresenta perante o auditrio e a partir do qual se induz

    uma verdade geral: Quando os dois termos so do mesmo gnero, mas um mais

    conhecido do que o outro, ento h um exemplo (ibid.: 54). Aristteles aponta duas

    espcies de exemplo: os reais (extrados de factos histricos ou mitolgicos) e os

    fictcios (inventados pelo orador). Nesta ltima categoria se incluem a parbola e a

    fbula:

    H duas espcies de exemplo: uma consiste em falar de factos anteriores, a outra em invent-los o prprio orador. Nesta ltima, h que distinguir a parbola e as fbulas, por exemplo, as fbulas de Esopo e as Lbicas. (ibid.: 147)

    O autor da Retrica salienta ainda o valor probatrio-demonstrativo das histrias

    inventadas (fbulas) na exemplificao da tese e na substanciao dos argumentos do

    orador, com vista a uma mais eficaz persuaso do auditrio: As fbulas so

  • CAPTULO 9 - A INSCRIO DA FBULA NA NARRATIVA PORTUGUESA CONTEMPORNEA, PAULO ALEXANDRE PEREIRA E MRCIA NEVES

    5

    apropriadas s arengas pblicas e tm esta vantagem: que sendo difcil encontrar

    factos histricos semelhantes entre si, ao invs, encontrar fbulas fcil (ibid.: 148).

    Ora, ao reconduzir o gnero ao terreno da retrica e ao relevar o seu valor

    argumentativo, bem como a sua funo perlocutria, esta definio inaugural de fbula

    cauciona a precedncia do seu ethos comunicativo e da sua vocao perlocutria sobre o

    argumento narrativo. A narrativa , deste modo, ressemantizada pela lio a comunicar

    que a condiciona e a transcende. Em sntese, la fable constitue un macro-acte de

    langage vise perlocutoire, qui peut tre dcrit comme suit: [Convaincre [Raconter]]

    (Canvat, Vandendorpe, 1996: 30).

    Por forma a precisar os contornos conceptuais do gnero, Aristteles transcreve duas

    fbulas, incluindo uma de Esopo, que, a despeito da extenso, aqui se reproduz

    integralmente, atendendo sua importncia para a discusso das origens e da indagao

    terica do gnero fabulstico:

    Esopo, por sua vez, quando falava publicamente em Samos, numa altura em que se julgava a pena capital aplicada a um demagogo, contou-lhes como que uma raposa, ao atravessar um rio, foi arrastada para um precipcio e, no podendo de l sair, aguentou durante muito tempo, alm de ser atormentada por numerosas carraas agarradas pele. Um ourio que andava por ali, ao v-la, aproximou-se compadecido e perguntou-lhe se queria que lhe tirasse as carraas: mas a raposa no lho permitiu. E como o ourio lhe perguntasse porqu, ela respondeu: porque estas j esto fartas de mim e sugam-me pouco sangue; se mas tiras, outras viro esfomeadas e sugar-me-o o sangue que me resta. Tambm no vosso caso, homens de Samos, disse Esopo, este homem no vos prejudicar mais (porque j rico), mas se o matais, outros viro, pobres, que vos ho-de roubar e esbanjaro o que vos resta. (Aristteles, 1994: 148)

    Aristteles apresenta-nos, pois, a fbula, e mais rigorosamente a fbula espica,

    como um texto bissetado: um relato breve, que consiste na micronarrativa propriamente

    dita, inscrita num plano ficcional e cujos actantes so seres humanos ou animais; e a

    lio ou ensinamento moral, concretizado na formulao tendencialmente epigramtica

    do telos da diegese, condicionando a receo e assegurando o movimento de translao

    da narrativa para o plano da enunciao gnmica ou da injuno pedaggica. A alegoria

    perspetivada duplamente como modus scribendi e modus legendi institui-se, desta

    forma, como tropo estruturante da fbula, porquanto a concretizao semntico-

    pragmtica da narrativa se encontra dependente de uma rede de significao simblico-

    figurativa, cuja decifrao supe como irrecusvel a cooperao hermenutica do

  • HISTRIA CRTICA DA FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA PROJECTO PTDC/CLE-LLI/100274 A FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA:

    CATLOGO E HISTRIA CRTICA

    6

    auditrio. Neste sentido, como j foi justamente sublinhado, a fbula produit du sens et

    consomme de limaginaire (Bassy, 1994: 843). Residir, porventura, neste aspeto o seu

    poder enigmtico.

    Tal como Aristteles a define e Esopo a compe, a fbula institui-se, deste modo,

    como um gnero alegrico com fora perlocutria, configurando um modo de

    pensamento retrico-narrativo vocacionado para ilustrar, atravs de uma esquemtica

    narrativa ficcional o exemplo e de uma concisa lio de moral, uma tese ou um

    argumento destinado a persuadir um auditrio. Como sintetiza M. Njgaard,

    Ce qui seul importe Aristote, c'est de placer la fable, qu'il trouvait applique par les orateurs et les potes de la bonne littrature, dans son systme rhtorique. On y peut voir seulement qu'il exigea deux choses de la fable: 1 qu'elle ft fictive, 2 et allgorique (ce dernier critrium ne se lit mme qu'indirectement de sa demande qu'il soit facile de voir les ressemblances dans la narration fictive avec la situation considre si on invente une fable neuve)". (Njgaard, 1964: 28)

    Neste sentido, pode argumentar-se que, ainda que a prtica narrativa do auctor

    inventus Esopo tenha contribudo para consolidar o conceito de fbula que perdurou at

    hoje no mundo ocidental, as suas fbulas parecem acercar-se mais de uma coletnea

    tematicamente organizada com finalidade retrica do que de uma obra com expressa

    intencionalidade literria. Esopo foi o inventor da matiere, determinando o escopo

    temtico do gnero fabulstico, a que Fedro, por seu turno, ir conceder cidadania

    esttico-literria, investindo-a de densidade potica. Com Fedro, as fbulas emancipam-

    se enfim do seu estatuto de ancilaridade demonstrativa e assumem uma dignidade

    esttica que culminar, no sculo XVII, com La Fontaine, em cujas Fables a ars ir

    programaticamente suplantar a utilitas. Como, a propsito deste desgnio disjuntivo,

    observa H. J. Blackham,

    Fable inhabits the ambiguous borderland of the aesthetic and the ethical in Kierkegaard's sense in Either/Or, interested in displaying what is there, leaving the issues open in as Socratic manner. There are two parties in play, author and reader. () The reader has to be left to make his own choice, or not, after the author has done his best to engage him. (Blackham, 1985: 251)

    Num artigo sintomaticamente intitulado Aesopus auctor inventus Naissance dun

    genre: la fable sopique, Jean-Marie Schaeffer faz justamente remontar a origem da

  • CAPTULO 9 - A INSCRIO DA FBULA NA NARRATIVA PORTUGUESA CONTEMPORNEA, PAULO ALEXANDRE PEREIRA E MRCIA NEVES

    7

    fbula literria obra de Fedro, por ele considerada como o lugar de nascimento da

    tradio fabulstica:

    Si sope nous apparat comme origine de la fable, ce nest pas parce quil constitue effectivement le lieu historique de la naissance de la fable, mais parce quil a t projet comme pre fondateur par la tradition gnrique de la fable, et en premier lieu par Phdre, qui cet gard peut tre considr comme le lieu de naissance rel du genre. () On peut donc dire que si Esope () est devenu lorigine de la fable, cest grce une projection dorigine qui constitue un des traits constants du genre. (Schaeffer, 1985 : 347)

    Seguindo ainda a argumentao do autor, se a figura mtica de Esopo se cristalizou

    definitivamente, no imaginrio potico ocidental, como o lugar de origem do gnero

    fabulstico, foi a projeo de origem instituda por Fedro e concretizada na referncia a

    Esopo como protos heuretes ou primus inventor da fbula que permitiu outorgar-lhe

    esse estatuto. Ora, tendo sido referendado pelos seus sucessores que dele se apropriam e

    pela tradio fabulstica em geral, este dispositivo de legitimao genrica converteu-se

    numa rgle du genre: la fable sera sopique ou ne sera pas (ibid.: 349).

    Com efeito, a autonomizao da fbula enquanto gnero torna-se inseparvel da

    atividade potica de Fedro, que abriu caminho explorao das suas possibilidades

    estilsticas e para ela reivindicou um estatuto de literariedade, alis consignado pelo

    prprio autor no prlogo ao seu primeiro livro: Esope, qui a cre la fable, en a trouv la

    matire et moi, jai poli celle-ci en vers senaires (Fedro, 1989: 1). Nas palavras de

    Schaeffer, lopposition entre prose et posie permet Phdre de constituer Esope en

    pre fondateur qui aurait invent la matire de la fable, mais non pas sa forme potique,

    et donc son statut littraire (Schaeffer, 1985: 347).

    Neste sentido, Schaeffer sustenta ainda que a complexa e ambgua teia de relaes

    entre o prototexto espico e a retextualizao fedriana se revela crucial na estabilizao

    do arqutipo da fbula espica enquanto gnero literrio, destacando duas dessas

    correspondncias matriciais:

    a) sope a invent la matire (materia), les thmes dirions-nous, de la fable, Phdre leur donne une forme littraire (). Dans cette perspective le travail gnrique exerc par Phdre sur sope est un travail hypertextuel au sens strict du terme: il part dun texte donn quil transforme. b) sope est linventeur de la manire, du style, Phdre invente de nouveaux rcits dans la mme manire (). On a en quelque sorte la situation inverse de

  • HISTRIA CRTICA DA FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA PROJECTO PTDC/CLE-LLI/100274 A FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA:

    CATLOGO E HISTRIA CRTICA

    8

    la premire: Phdre institue le moule formel des fables dsope en modle et il invente de nouvelles fables sur le mme patron. La relation hypertextuelle est ici mdiatise puisquelle passe par une phase de modlisation de lhypotexte dEsope. Il sagit dune addition gnrique et non pas dune transformation, puisque linvention de Phdre vise reproduire aussi fidlement que possible les traits des modles sopiques. (ibid. : 352-353)

    Este dilogo transtextual, alm de desempenhar funo nuclear na configurao da

    forma fabulstica, preludia j os rumos genolgicos da fbula ao longo dos sculos, na

    medida em que le genre entier (ou presque) se dfinit explicitement par rapport son

    origine sopique, ainsi que des transformations gnriques nettement dlimites qui se

    ramnent des exercices dexpansion et de contraction sur un matriau thmatique

    restant pratiquement le mme pendant plus de deux millnaires (ibid.: 345). Com

    efeito, os autores de fbulas desenvolvem, regra geral, o seu trabalho de composio a

    partir da revisitao de um repertrio temtico comum, procedendo a uma aclimatao

    criativa da tradio textual que os precede. Esta operao de reciclagem transformadora

    levou Grard Genette a considerar a fbula como "presque intgralement un genre

    hypertextuel (Genette, 1982: 79). Shaeffer ressalva, no obstante, que esta relao

    hipertextual no dimana de uma conceo evolucionista de gnero, tratando-se antes de

    uma relao hipertextual bijectiva que torna explcita uma dinmica genolgica de

    sentido duplamente progressivo e regressivo:

    En effet, cette relation hypertextuelle, est pour ainsi dire bijective: non seulement le texte antrieur possde son image dans le texte postrieur, mais celui-ci se projette aussi en arrire dans le premier. Lorsquun texte se construit par rapport un texte antrieur, le statut idal de ce dernier sera mtamorphos en retour, puisquil sera dsormais lu aussi la lumire de texte postrieur se rapportant lui. Autrement dit, la dynamique gnrique est la fois progressive et rgressive. (Schaeffer, 1985: 347)

    Ora, no merece hoje discusso o postulado de que qualquer texto literrio afirma a

    sua singularidade por referncia a um determinado horizonte de expectativas de gnero

    do qual se afasta, que rejeita ou subverte ou, pelo contrrio, que imita e reproduz, num

    jogo infinito de relaes intertextuais, apresentando-se, assim, como une entit

    collective parents multiples qui sentrecroisent de manire imprvisible, galaxie de

    formes, de thmes et de types discursifs en rorganisation perptuelle (Schaeffer, 1997:

    339).

  • CAPTULO 9 - A INSCRIO DA FBULA NA NARRATIVA PORTUGUESA CONTEMPORNEA, PAULO ALEXANDRE PEREIRA E MRCIA NEVES

    9

    Como assinala Schaeffer, estes parentescos textuais obedecem a duas lgicas de

    gnero distintas que correspondem ao que designa como convenes reguladoras (que

    regem as prescries textuais explcitas e literariamente institucionalizadas) e

    convenes de tradio (baseadas em relaes de modalizao hipertextual, expressas

    em procedimentos de imitao e transformao) (ibid. : 342). deste segundo tipo de

    convenes reguladoras do texto literrio que participa a fbula:

    La mme chose vaut pour la fable, dont lhistoire, de Phdre La Fontaine e au-del, nest quune suite de transformations opres sur la tradition sopique. Trs souvent les conventions rgulatrices ne sont en fait que la condensation de conventions traditionnelles prexistantes. (ibid.: 342)

    Na realidade, como se verifica com todos os gneros literrios, a fbula no

    constitui um conjunto esttico de possveis temticos e de cdigos compositivos, mas

    antes uma categoria sujeita a um processo de permanente modulao diacrnica.

    Facilmente se compreende, pois, que a fbula dos sculos XX e XXI se afaste

    flagrantemente das concretizaes de que o gnero foi objeto no decurso de outros

    perodos histrico-literrios, tanto no plano ideotemtico como retrico-estilstico. H. J.

    Blackham lembra, contudo, que "modern fables have to take their bearings on the

    terrain of modern fiction. But the ancient context has not lost all relevance. It was by

    differentiation from myth, legend, folk or fairy-tale, parable, allegory that fable

    established its identity, its nature and function". (Blackham, 1985: 183).

    A fbula hodierna no deixa de compaginar-se, ento, com o ethos da

    contemporaneidade literria onde, consabidamente, proliferam formas literrias

    genologicamente descentradas, hbridas ou subversivas. Se a categoria de gnero

    funciona ainda como um horizonte terico e compositivo, sobretudo em termos de

    "sabotagem criativa" desse paradigma que a fbula ter agora que ser apreciada.

    Tambm ao fabulista contemporneo se aplica, pois, a suposio de que la conception

    moderne de lcrivain serait moins celle dun respectueux observateur des formes

    consacres que celle dun dynaminateur archanglique (Stalloni, 1997: 113-114).

    precisamente esta subverso produtiva que confere fbula contempornea os

    seus contornos fluidos e impermanentes, o que ajuda a explicar o evidente desconcerto

    terico perante uma forma informe que incessantemente se metamorfoseia ou se aloja

    em gneros breves ou brevssimos de expressiva fortuna contempornea, como o conto,

  • HISTRIA CRTICA DA FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA PROJECTO PTDC/CLE-LLI/100274 A FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA:

    CATLOGO E HISTRIA CRTICA

    10

    o microconto ou o fragmento. Hoje, como ontem, parece no haver dvidas de que "the

    force of the fable is in its single-minded concentration" (Blackham, 1985: 201).

    Detenhamo-nos, por razes de economia expositiva, em apenas dois estudos

    recentes sobre o gnero fabulstico. Num ensaio intitulado La fable comme genre: essai

    de construction smiotique, Karl Canvat e Christian Vandendorpe propem uma

    anlise semitica da fbula, avanando a seguinte definio operatria do gnero:

    Dans sa forme prototypique, la fable est constitue par un rcit bref, lmentaire, comportant une seule action et un minimum de personnages. Elle est la quintessence du rcit, tel point que le terme fabula dsigne le ressort qui est la base de tout rcit, le complexe de situations et daction qui constitue la charpente de toute histoire. (Canvat, Vandendorpe, 1996 : 32)

    No deixando de acentuar a natureza compsita do gnero, irredutvel a cdigos

    semntico-formais impositivos e acusando uma acentuada heterogeneidade morfolgica,

    os autores propem uma caracterizao da especificidade da sua configurao genrica,

    a partir de trs nveis de anlise: formal, temtico e funcional.

    No domnio formal, as fbulas singularizam-se por uma sintaxe narrativa particular

    que pode obedecer a uma estrutura fundada em oposies estticas (quando se limitam

    a colocar em contraste caractersticas antagnicas: Elles ne contiennent pas daction au

    sens strict, mais prsentent un simple constat doppositions qui illustre de faon image

    une ralit physique ou psychologique, ibid.: 33); uma estrutura de inverso simples

    (presente em fables [qui] ne mettent pas simplement plat quelques oppositions mais

    les intgrent dans un rcit qui provoque une transformation entre ltat initial et ltat

    final, ibid., p. 34); ou ainda a uma estrutura de inverso dupla que se deteta em fbulas

    mais complexas que assentam numa duplicao especular de oposies entre o estado

    inicial e o estado final, ibid.: 34-36).

    No plano temtico, um dos traos distintivos da fbula reside na antropomorfizao

    das personagens animais, simultaneamente individualizadas e emblemticas de um

    determinado tipo humano.

    Finalmente, ao nvel funcional, Canvat e Vandendorpe definem a fbula pela sua

    dominante pragmtica-comunicativa que supe uma transformao do recetor,

    aproximando-a, assim, da modalidade da narrativa exemplar, tal como foi analisada por

  • CAPTULO 9 - A INSCRIO DA FBULA NA NARRATIVA PORTUGUESA CONTEMPORNEA, PAULO ALEXANDRE PEREIRA E MRCIA NEVES

    11

    Susan Suleiman1 que, a esse respeito, relembra que "() le projet de la fable, comme

    tout rcit exemplaire est un projet utopique: inflchir les actions des hommes en leur

    racontant des histoires. Dans l'univers du rcit exemplaire, les lecteurs rebelles (ou

    simplement indiffrents) n'existent pas" (Suleiman, 1977: 486).

    Os autores concluem a sua prospeo terica com uma reflexo em torno da

    omnipresena e dissoluo do gnero, salientando que, apesar de sujeita eroso

    diacrnica comum a todas as categorias literrias, a fbula est longe de se ter eclipsado.

    Tendo sido objeto de insistente reciclagem contempornea, aclimatou-se com sucesso

    aos novos imperativos contextuais e resistiu s flutuaes de gosto literrio:

    Mais la fable na pas disparu pour autant: sa survie est due son intgration dans linstitution scolaire et sa dissolution dans le discours social. Par son utilisation du symbolisme animal (les enfants aiment bien les animaux) et par sa fonction difiante, la fable a longtemps t lun des plus puissants vecteurs dacculturation des jeunes gnrations. Il semble cependant que ce ne soit plus aujourdhui. () Aujourdhui, cest par les sketches (), les rcritures ludiques (), les bandes dessines (), les dessins anims (), les publicits (), les caricatures (), les allusions: en somme, la civilisation industrielle a russi faire avec un genre ce quelle fait avec les objets matriels: elle la recycl (ibid.: 47-48).

    Num estudo mais recente, intitulado El gnero de la fbula en los noventa:

    inflexiones y propuestas, Enrique Turpin Avils procede a uma anlise das estratgias

    de renovao patenteadas pela tradio fabulstica no sculo XX, sublinhando a

    impressiva fecundidade do gnero testemunhada pela obra de inmeros escritores nas

    ltimas dcadas do sculo:

    En la ltima dcada, son muchos los autores que se han mostrado rebeldes y han optado por recurrir a los dominios de la fbula como medio de expresin, desde la perspectiva que les ofrece un territorio renovado, dirase virgen, que empez a

    1 Susan Suleiman inclui a fbula na vasta categoria arquitextual da narrativa exemplar que, segundo o modelo proposto, conglutina trs nveis de anlise hierarquizados (narrativo, interpretativo e pragmtico), com correspondncia a outros tantos nveis de discurso: chacun de ces niveaux correspond un discours spcifique: le propre du discours narratif, cest de prsenter une histoire (); le propre du discours interprtatif, cest de commenter lhistoire pour en dgager le sens (ce dernier pouvant tre rsum par une gnralisation); le propre du discours pragmatique, cest de driver du sens ainsi dgag une rgle daction, qui aura la forme dun impratif adress au destinataire (lecteur ou auditeur) du texte (Suleiman, 1983: 49-50). A autora aplica este modelo fbula e distingue as fbulas no exemplares (aquelas que no propem qualquer axiologia) das fbulas exemplares (todas as que expendem uma moralidade) (ibid.: 63-64).

  • HISTRIA CRTICA DA FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA PROJECTO PTDC/CLE-LLI/100274 A FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA:

    CATLOGO E HISTRIA CRTICA

    12

    avanzar a partir de la asuncin de postulados posmodernistas. (Avils, 2001: 737)

    Confrontando-a com o paradigma da fbula tradicional, o autor discute o alcance e

    os processos de aggiornamento da fbula moderna, elencando os seus principais traos

    inovadores. So assim destacadas as constncias temtico-processuais da fbula

    tradicional, designadas pelo autor como motivos obrigatrios do gnero. Entre eles se

    incluem a stira, a situao de conflito, a brevidade, o propsito pedaggico e/ou

    didtico, a finalidade artstica, a presena de seres, objetos e conceitos

    antropomorfizados e a doutrina moral exemplarizante.

    Argumenta o autor que a renovao do gnero fabulstico, rastrevel na produo

    literria mais recente, investe tanto na recombinao arbitrria destes motivos, como na

    obliterao de alguns deles, na introduo de inovaes, como, enfim, no exerccio

    intertextual de recuperao e reatualizao de fbulas antigas (ibid.:731).

    Partindo da codificao de uma matriz genolgica, Avils descreve detidamente

    topoi de comparncia obrigatria na gramtica narrativa da fbula contempornea,

    salientando a relao consangunea do gnero com a stira, a presena de uma atmosfera

    pardico-humorstica, o processo de alegorizao da realidade pelo recurso metfora,

    a crtica reatualizada do universo social coetneo, no mbito da qual o esprito otimista

    substitudo por uma inflexo disfrica ou decetiva que, no raras vezes, se surpreende

    na entoao do fabulista contemporneo, permitindo compreender a atitude contestatria

    ou subversiva que impulsiona a transfigurao da fbula na actualidade (ibid.: 734-735).

    Ao reconhecimento e identificao destes traos matriciais segue-se a apresentao

    do elenco dos novos motivos obrigatrios que confluem no patchwork da fbula

    contempornea. As linhas axiais de renovao so, de acordo com o autor, a eliso de

    uma moralidade explcita, a introduo frequentemente desautomatizadora e

    disruptiva da ironia, a desconstruo das formas tradicionais pela pardia, os

    processos de figurao do animal (passa-se da antropomorfizao animalizao do

    referente principal da fbula, em resposta conspcua desumanizao das sociedades

    contemporneas), a explorao dos mecanismos de dialogismo intertextual, a intruso

    intermitente do eu narrador e o relevo acordado cooperao hermenutica do recetor

    no texto. Como, a propsito da concitao interpretativa do leitor, referiu H. J.

    Blackham, "() although a fable is not a riddle, both the amusement and the message

  • CAPTULO 9 - A INSCRIO DA FBULA NA NARRATIVA PORTUGUESA CONTEMPORNEA, PAULO ALEXANDRE PEREIRA E MRCIA NEVES

    13

    are served by taxing the reader's wits. Collaboration is called for, and relied upon"

    (Blackham, 1985: 239).

    No que respeita sua inscrio sintagmtica, la fbula insiste en mantener la

    dualidad entre subordinacin e independncia que h venido caracterizandola desde

    tiempos remotos (ibid.: 735). Encontramo-la, portanto, frequentemente interpolada em

    macroestruturas superiores, como o romance ou a novela, ou ainda condensada em

    unidades mnimas, reflexo inequvoco da preferncia dos autores contemporneos pela

    fragmentao e pela descontinuidade narrativas, com o consequente agenciamento de

    procedimentos de hiperbrevidade que a fazem acercar-se do microrrelato ou do

    microconto (ibid.: 735-736).

    , pois, a partir desta moldura conceptual que nos propomos, numa verso

    expandida deste estudo, em preparao, investigar as formas e deformaes do

    imaginrio fabulstico na narrativa portuguesa contempornea, privilegiando tanto a

    relao consubstancial que o discurso da fbula nela estabelece com os registos

    alegrico e pardico, como a sua hibridao produtiva com outros gneros narrativos,

    designadamente o conto e o microconto.

    Paulo Alexandre Pereira e Mrcia Neves

    BIBLIOGRAFIA

    AVILS, Enrique Turpin (2001). El gnero de la fbula en los noventa: inflexiones y propuestas, in El cuento en la dcada de los noventa. Actas del X seminario internacional del Instituto de Semitica Literria, Teatral y Nuevas Tecnologas de la UNED, Madrid, 31 de mayo-2 de junio de 2000. Madrid: Universidad Naciobal de Educacin a Distancia, Visor Libros, 729-742.

    BAKHTIN, Mikhail (1992). Esttica da Criao Verbal. So Paulo: Martins Fontes. BASSY, A.-M. (1994). Fable, in Dictionnaire des littratures de langue franaise.

    Paris: Bordas, 843-844. BLACKHAM, H. J. (1985). The Fable as Literature. London: The Athlone Press.

    CANVAT, Karl, VANDENDORPE, Christian (1996). La fable comme genre: essai de construction smiotique. Pratiques, n 91, 27-56.

    ECO, Umberto (2010). Lector in fabula Le rle du lecteur. Paris: Editions Grasset et Fasquelle, Le Livre de Poche.

    FEDRO (1989). Fables. Paris:Les Belles Lettres.

  • HISTRIA CRTICA DA FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA PROJECTO PTDC/CLE-LLI/100274 A FBULA NA LITERATURA PORTUGUESA:

    CATLOGO E HISTRIA CRTICA

    14

    GAFFIOT, F. (1934). Dictionnaire Latin-Franais. Paris: Hachette. GENETTE, Grard (1982). Palimpsestes La littrature au second degr. Paris: ditions

    du Seuil. JAUSS, Hans Robert (1974). Histria Literria como desafio cincia literria.

    Literatura medieval e teoria dos gneros. Vila Nova de Gaia: Edio de Jos Soares Martins.

    NJGAARD, M. (1964). La Fable Antique. Tome premier: la fable grecque avant Phdre. Kbenhavn: Nyt Nordisk Forlag.

    PARUSSA, Gabrielle (2002). Fable, in Le Dictionnaire du Littraire. Paris: Presses Universitaires de France, 213-214.

    REIS, Carlos (1991). Dicionrio de narratologia. Coimbra: Almedina. __________ (2001). O conhecimento da literatura: Introduo aos Estudos Literrios.

    Coimbra: Almedina. SCHAEFFER, Jean-Marie (1985). Aesopus auctor inventus Naissance dun genre: la

    fable sopique. Potique, n 63, 345-364. ___________________ (1997). Genres littraires, in Dictionnaire des genres et

    notions littraires. Paris: Encyclopaedia Universalis et Albin Michel. SPANG, Kurt (1993). Gneros Literrios. Madrid: Editorial Sintesis.

    STALLONI, Yves (1997). Les genres littraires. Paris: Dunod. SULEIMAN, Susan (1977). "Le rcit exemplaire: Parabole, fable, roman thse".

    Potique, n 32, 468-489. ________, (1983). Le roman thse ou lautorit fictive. Paris: Presses Universitaires

    de France. TODOROV, Tzvetan (1988). El origen de los gneros, in Teora de los gneros

    literrios. Madrid: Arco/Libros, 1988, 31-48.

    PALAVRAS-CHAVE:

    fbula contempornea, gnero literrio, retrica, alegoria, pardia

Recommended

View more >