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Alfabetizao no Brasil: conjecturas sobre as relaes entre polticas pblicas e seus sujeitos privadosMaria do Rosrio Longo MortattiUniversidade Estadual Paulista - Campus de Marlia, Programa de Ps-Graduao em Educao

Para J. F. Nash Jr. e G. Perelman

Alfabetizao e poltica A alfabetizao escolar entendida como processo de ensino e aprendizagem da leitura e escrita em lngua materna, na fase inicial de escolarizao de crianas um processo complexo e multifacetado que envolve aes especificamente humanas e, portanto, polticas, caracterizando-se como dever do Estado e direito constitucional do cidado. Em sociedades letradas contemporneas, essa relao tanto impe a necessidade de insero/incluso dos no alfabetizados no mundo pblico da cultura escrita e nas instncias pblicas de uso da linguagem, quanto demanda a formulao de meios e modos mais eficientes e eficazes para implementar aes, visando concretizar essa insero/incluso, a servio de determinadas urgncias polticas, sociais e educacionais. Embora possa parecer um trusmo, a caracterstica complexa e multifacetada desse processo parece no ter sido sempre to evidente por si no mbito de polticas pblicas1 para a alfabetizao, formuladas,1

implementadas e avaliadas em nveis local, estadual ou federal nas ltimas dcadas em nosso pas. Esse fenmeno, porm, no exclusivo de nossos dias e pode ser observado desde o final do sculo XIX. Ao longo desses aproximadamente 130 anos de histria da alfabetizao, em decorrncia do que se considerou a nova e a definitiva verdade cientfica sobre esse processo, pode-se constatar, em determinados momentos, a centralidade atribuda, no mbito do que hoje denominamos polticas pblicas, a um ou a alguns dos aspectos especficos da alfabetizao, tendendo-se a reduzir esse processo a aspectos neutros e meramente tcnicos, porque considerados correspondentes verdade cientfica comprovada e inquestionvel. Desconsidera-se, assim, que decorrem de opes e decises relacionadas a determinada(s) teoria(s) educacional(is), fundamentada(s) em determinada(s) teoria(s) do conhecimento e integrantes de determinado(s) projeto(s) poltico(s) que lheconfigurando um compromisso pblico que visa dar conta de determinada demanda, em diversas reas. Expressa a transformao daquilo que do mbito privado em aes coletivas no espao pblico (Guareschi et al., 2004, p. 180).329

Utilizo a expresso polticas pblicas no sentido de conjun-

to de aes coletivas voltadas para a garantia dos direitos sociais,Revista Brasileira de Educao v. 15 n. 44 maio/ago. 2010

Maria do Rosrio Longo Mortatti

d(do) sustentao e motivao em determinado momento histrico. Nas dcadas que antecederam a Proclamao da Repblica brasileira, o ensino e a aprendizagem iniciais da leitura e escrita comearam a se tornar objeto de preocupao de administradores pblicos e intelectuais da Corte e de algumas provncias brasileiras, especialmente So Paulo. Entretanto, foi somente a partir da primeira dcada republicana, com as reformas da instruo pblica, especialmente a paulista, que as prticas sociais de leitura e a escrita se tornaram prticas escolarizadas, ou seja, ensinadas e aprendidas em espao pblico e submetidas organizao metdica, sistemtica e intencional, porque consideradas estratgicas para a formao do cidado e para o desenvolvimento poltico e social do pas, de acordo com os ideais do regime republicano. A partir dos anos de 1930, com o processo de unificao, em nvel federal, de iniciativas polticas em todas as esferas da vida social, a educao e, em particular, a alfabetizao passaram a integrar polticas e aes dos governos estaduais como reas estratgicas para a promoo e sustentao do desejado desenvolvimento nacional. De l para c, saber ler e escrever se tornou o principal ndice de medida e testagem da eficincia da escola pblica, laica e gratuita. E com diferentes finalidades, de diferentes formas e com diferentes contedos, visando a enfrentar as dificuldades das crianas em aprender a ler e escrever, para assim responder mais adequadamente a certas urgncias polticas, sociais e educacionais do pas, diferentes sujeitos foram atribuindo diferentes sentidos a esse ensino inicial da leitura e escrita. Como resultado de disputas polticas que tm sua face mais visvel na querela dos mtodos, ou seja, na disputa em torno do mtodo de ensino inicial da leitura (e escrita),2 considerado novo e melhor em

relao ao antigo e tradicional, seja para enfatizar um desses mtodos, seja para neg-los em bloco, em cada momento histrico, cada novo sentido da alfabetizao se tornou hegemnico, porque oficial, mas no nico nem homogneo, tampouco isento de resistncias, mediadas especialmente pela velada utilizao de antigos mtodos e prticas alfabetizadoras. Decorrente da complexidade e multifacetao do processo escolar envolvido, a histria da alfabetizao no Brasil se caracteriza, portanto, como um movimento tambm complexo, marcado pela recorrncia discursiva da mudana, indicativa da tenso constante entre permanncias e rupturas, diretamente relacionadas a disputas pela hegemonia de projetos polticos e educacionais e de um sentido moderno para a alfabetizao.3 Como resultado dessas disputas, em cadada alfabetizao no Brasil foi-se sedimentando a seguinte subdiviso classificatria desses mtodos: mtodos sintticos (de marcha sinttica): alfabtico, fnico, silbico; e mtodos analticos (de marcha analtica): da palavrao, da sentenciao, da historieta, do conto.3

Em Mortatti (2000), abordo a histria do ensino da leitura e

escrita na fase inicial de escolarizao de crianas no Brasil desde o final do sculo XIX at os dias atuais, com nfase na situao paulista, e proponho a diviso desse movimento histrico em quatro momentos que considero cruciais, cada um deles marcado por um novo sentido atribudo alfabetizao: o primeiro momento (1876 a 1890) se caracteriza pela disputa entre os partidrios do novo mtodo da palavrao e os dos antigos mtodos sintticos (alfabtico, fnico, silbico); o segundo momento (1890 a meados dos anos de 1920) marcado pela disputa entre os defensores do novo mtodo analtico e os dos antigos mtodos sintticos; o terceiro momento (meados dos anos de 1920 a final dos anos de 1970) notvel pelas disputas entre defensores dos antigos mtodos de alfabetizao e os dos novos testes ABC para verificao da maturidade necessria ao aprendizado da leitura e escrita, do que decorre a introduo dos novos mtodos mistos; o quarto momento (meados de 1980 a 1994) marca-se pelas disputas entre os defensores da nova perspectiva construtivista e os dos antigos testes de maturidade e dos antigos mtodos de alfabetizao. Como o ano de 1994 indica apenas o encerramento daquela pesquisa, uma vez que esse quarto momento da histria da alfabetizao no Brasil se encontra ainda em curso, em livro e em artigos posteriores

2

Os mtodos de alfabetizao podem ser classificados em

dois tipos bsicos: sinttico (da parte para o todo) e analtico (do todo para a parte). Dependendo do que foi considerada a unidade lingustica a partir da qual se deveria iniciar o ensino da leitura e escrita e do que se considerou todo ou parte, ao longo da histria

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maio/ago. 2010

Alfabetizao no Brasil

momento histrico fundou-se uma (nova) tradio que, comportando temporalidades mltiplas, era (), ao mesmo tempo, velha, porque constituda da que a antecedeu, e nova, porque diferente daquela e constitutiva da que a sucedeu (suceder), mesmo quando os defensores da (nova) tradio sustentam ter rompido definitivamente com a (velha) tradio, pois:O vigor da tradio, seu peso no pensamento do homem [...] nunca dependeram da conscincia que este teve dela. [...] O fim de uma tradio no significa necessariamente que os conceitos tradicionais tenham perdido seu poder sobre as mentes dos homens. Pelo contrrio, s vezes parece que esse poder das noes e categoria cedias e pudas torna-se mais tirnico medida que a tradio perde sua fora viva e se distancia a memria de seu incio; ela pode mesmo revelar toda sua fora coerciva somente depois de vindo seu fim, quando os homens nem mesmo se rebelam contra ela. (Arendt, 1979, p. 52-53)

atendimento s necessidades bsicas sociais, como direitos dos cidados. Aquelas constataes relativas ao movimento complexo da histria da alfabetizao no Brasil indicam ainda a necessidade de tambm se considerar que a face mais visvel do processo de ensino e aprendizagem iniciais da leitura e escrita (e seu calcanhar de Aquiles) se manifesta na relao especfica de ensinoaprendizagem que se estabelece entre professor e alunos na sala de aula. no nvel didtico-pedaggico que se podem melhor apreender e compreender as concretizaes de determinados projetos polticos em disputa, configurados por meio de polticas pblicas em determinado momento histrico, considerando que o princpio inspirador torna-se plenamente manifesto somente no prprio ator realizador (Arendt, 1979, p. 199). Polticas de alfabetizao no quarto momento: modelos tericos e propostas didticopedaggicas Especialmente a partir do final da dcada de 1970, com o fim do regime ditatorial imposto pelo golpe militar de 1964 e com a intensificao da luta pela liberdade poltica e social do pas, a luta pela democratizao da educao centrou-se na defesa do direito escolarizao para todos, da universalizao do ensino e da maior participao da comunidade na gesto da escola. A partir de ento, especialmente do incio da dcada de 1980, no mbito do que denomino quarto momento crucial da histria da alfabetizao no Brasil, passou-se a questionar, sistemtica e oficialmente, o ensino e a aprendizagem iniciais da leitura e escrita, j que nessa etapa de escolarizao se concentra(va) a maioria da populao brasileira pobre, que fracassa(va) na escola pblica e em relao qual se deveriam focalizar aes pblicas. A fim de buscar respostas a essas necessidades e questionamentos, a partir de ento foram engendrados e/ou adotados por