HERMENEUTICA CONSTITUCIONAL(pesquisavel)

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PETER HBERLEProfessor titular de Direito Pblico e de Filosofia do Direito da Universidade d Augsburg-RFA

HERMENUTICA CONSTITUCIONALA SOCIEDADE ABERTA DOS INTRPRETES DA CONSTITUIO: CONTRIBUIO PARA A INTERPRETAO PLURALISTA E "PROCEDIMENTAL" DA CONSTITUIO

Traduo de '` Gilmar Ferreira MendesDoutor em Direito pela Universidade de Mnster-RFA Professor da Universidade de Braslia

Sergio Antonio Fabris Editor Porto Alegre, 1997

C 'eter)Hberle Titulo do original:,

Dle offene Gesellschaft der Verfassungsintelpreien. Ein Beltrag zur plurallstischen und 'prozessualen" Verfassitngsintepprdtation Editorao eletrnica:Formato Artes Grficas Abreviaturas Apresentao

SUMRIO7 9

I. TESE FUNDAMENTAL, ESTGIO DO PROBLEMA 1. Situao atual da teoria da interpretao constitucional 2. Novo questionamento e tese 3. Esclarecimento da tese e conceito de interpretao II, OS PARTICIPANTES DO PROCESSO DE INTERPRETAO CONSTITUCIONAL 1. Consideraes preliminares sobre o mtodo 2. Catlogo sistemtico 3. Esclarecimento cio catlogo sistemtico III. APRECIAO DA ANLISE DESENVOLVIDA 1. Possveis objees e crticas 2. Legitimao cio ponto de vista da teoria cio direito, da teoria da norma e da teoria cia interpretao 3. Legitimao decorrente das reflexes teortico-constitucionais 4. Reflexes sobre a Teoria da Democracia como Legitimao IV. CONSEQNCIAS PARAA HERMENUTICA CONSTITUCIONAL JURDICA 1. Relativizao da interpretao jurdica novo entendimen41 to de suas tarefas 5 11 12 13

uNisiNop.Biblioteca Central

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As caractersticas grficas desta obra e os direitos de publicao, total ou parcial, em lngua portuguesa, pertencem ao editor SERGIO ANTONIO FABRIS EDITOR Rua Miguel Couto, 745 - CEP 90850-050 Caixa Postal 4001 - Telefone (051) 233-2681 90631-970 . - Porto Alegre - RS - Brasil

2, Dimenso e Intensidade do controle judicial Diferenciao em face da medida de participao 44 3. Conseqncias para a conformao e utilizao do direito processual constitucional 46

ABREVIATURASV. NOVAS INDAGAES PARA A TEORIA CONSTITUCIONAL 1. Sobre a existncia de diferentes objetivos e utilizao de diversos mtodos de interpretao 2. Funes da teoria constitucional 53 1 Archiv des ffentlichen Rechts AR Bad- rtt. StGHG Gesetz des Baden-wrtembergerischen Staatsgerichtshofs (Lei da Corte Constitucional do Estado de Baden-Wrttemberg) Bundesgerichtshof (Superior Tribunal de BGH Justia) Bundesrepublik Deutschiand (Repblica Fedral BRD da Alemanha) , Bundesverfassungsgerichtsentscheidungen BVerfGE (Decises da Corte Constitucional alem o primeiro nmero refere-se ao volume, o segundo s pginas) Bundesverfassungsgericht (Corte Constitucional BVerfG alem)' Die ffentliche Verwaltung DV Deutsches Verwaltungsblatt DVBI. Festschrift (Estudos em Homenagem) FS Gedchmisschrift (Egudos em Memria) GS Gesetz des Hessischen Staatsgerichtshof (lei Orgnica Hess. StGHG da Corte Constitucional do Estado de Hessen) juriscenzeitung jZ Neue juristische Wochenschrift NJ Notas do Tradutor NT Verwaltungsarchiv Verw. Arch. Vereinigung der Deutschen Staatrechtslehrer VVDStRL (Associao dos Professores alemes de Direito Pblico) 7

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APRESENTAOAcredito que em boa hora decidiu o editor Sergio Fabris publicar a traduo de um dos textos mais instigantes cio Direito Constitucional moderno, da lavra cio Professor Peter Hberle. Trata-se de "A Sociedade aberta dos Intrpretes da Constio" (Die offene Gesellschaft der Verfassungsinterpreten), que, desde sua publicao inaugural, em 1975, desperta grande interessa e discusso na literatura jurdica. Corno o leitor poder apreender, Hberle propugna peia adoo de uma hermenutica constitucional adequada sociedade pluralista ou chamada sociedade aberta. Tendo em vista o "papel fundante da Constituio para a sociedade e para o Estado, assenta Hberle que todo aquele que vive a Constituo um seu legtimo intrprete. Essa concepo exige uma radical reviso da metodologia jurdica tradicional, que, como assinala Eiiiberle, esteve muito vinculada ao modelo de uma sociedade fechada. A interpretao constitucional dos juzes, ainda que relevante, no (nem deve ser) a nica. Ao revs, cidados e grupos de interesse, rgos estatais, o sistema pblico e a opinio pblica constituiriam foras produtivas de interpretao, atuando, pelo menos, como pr-intrpretes (Vorinterpreten) do complexo normativo constitucional. Em outro trabalho, j havia anotado Hberle que no existe norma jurdica, seno norma jurdica interpretada (Es gibt keine Rechtsnormen, es gibt nur interpretierte Rechtsnormen)*, resHiiberle, Peter, Zeit unci Verfassung, in: Dreier, Italf/Schwegivinn, Friedrich, ProbTerne der Verfassungsinterpretation, p. 293 ( 313).

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saltando que interpretar um ato normativo nada mais do que coloc-lo n o tempo (Einen Rechssatz "auslegen" becleuter, ihn in clic Zeit, da in dl affentliche WirkIkhkeit stellen um seiner Wirksankeir willen)*. Assim, se se reconhece que a norma no urna deciso prvia, simples e acabada, tem-se, necessariamente, de indagar sobre os participantes no seu desenvolvimento funcional sobre as foras ativas da /avv in publIc actlon. A ampliao do crculo de intrpretes constituiria para Hberle apenas urna conseqncia da necessidade de integrao da realidade no processo de interpretao. Evidentemente, essa abordagem tem conseqncias para o prprio processo constitucional. Hberle enfatiza que os instrumentos de informao dos juzes constitucionais devem ser ampliado e aperfeioados, especialmente no referente s formas gradativas de participao e prpria possibilidade de interpretao no processo constitucional notadamente nas aujilLIse_nacLintervenes"). Impe-se, pois, para Hber e, um c lci refinamento do processo constitucional, de modo. a se estabelecer uma comunicao efetiva entre os participantes desse orocesso amplo de interpretao. Portanto, o processo constitucional torna-se parte do direito de participao democrtica. Essas breves notas servem para demonstrar o peculiar significado da proposta de Hberle para urna democratizao da interpretao constitucional, ou, se se quiser, para uma hermenutica constitucional da sociedade aberta. Esperamos que a presente obra suscite urna profcua discusso sobre a hermenutica constitucional entre ns, contribuindo tambm para urna reflexo mais aprofundada sobre o afazer dos rgos integrantes da jurisdio constitucional e sobre a necessidade de modernizao do prprio direito processual-constitucional.

I. TESE FUNDAMENTAL, ESTGIO DO PROBLEMA1. Situao atual da teloria da interpretao constitucional

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.interpretao constitucional tem cOlocado at A teoria P -, aqui das questes essenciais: a indagao sobre as tarefa4 e os objetivos da interke. tao constitucional', e a indagao sobre os mtodos' (processo da interpretaci constitucional) (regras de interpretao).No se conferiu at aqui maior significado' questo relativa ao contexto sistemtico, em que se coloca um terceiro (novo) problema relativo aos participantes da interpretao, questo Clue, cumpre ressaltar, provoca a prxis em geral. Uma anlise' genrica derrionStra que existe ,um c?rculo .muito amplo de participantes do processo 'de interpretao pluralista, processo este que se mostra muitas vezes difuso. Isto j seria, razoComo tarefas devem'ser mencionadas: justia, eqidade, equilibrio de Interesses, , s) resultadoif,zbldae(c.porxm,BVfGE34269(87 (=JZ 1973; 662, 665, ver minha nota sobre Kbler), praticabilidade, justia material (Sac.hgerechtheit), segurana jurdica, previsibilidade, transparncia, capacidade de consenso, clareza metodolgica, abertura, formaot de unidade, "harmonizao" (Scheuner VVDStRI. 20 (1963), p.125), fora normativa da Constitluio; correo funcional, proteo efetiva da liberdade, igualdade social, ordem pblica voltada para o ber comtim. Cf., a propsito, fundamentalmente, Hesse, Grundzge des Verfassungsrechts der etc. BRD, 7a. edio, 1974, p. 20 s.

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Gilmar Ferreira Mendes Braslia, fevereiro de 1997Hberle, Zeit und Verfassung, in: Dreier/Schwegmann, Probleme der Verfassungsinterpretation, cit., p. 293 (309).

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suficiente para a dotrina tratar de maneira destacada esse tema, tendo em vista, especialmente, urna concepo terica, cientfica e democrtica. A teoria da interpretao constitucional esteve muito vinculada a uni modelo de interpretao de uma "sociedade fechada'''. Ela'.'reduz, ainda, seu mbito de investigao, na medida que se concentra, primariamente, na interpretao constitucional cios juzes e nos procedimentos formalizados ;. Se se considera que uma teoria da interpretao constitucional deve encarar seriamente o tema "Constituio e realidade constitucional" aqui se pensa na exigncia de incorporao das cincias sociais' e timbm nas teorias jurdico-fUncionais s , bem como nos mtodos de interpretao voltados para atendimento do interesse pbliCo e clo bem-estar geral' , ento h de se perguntar, de forma mais decidida, sobre os agentes conformadores da "realidade constitucional".

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o constitucional pela e para uma sociedade aberta (von der gesc ossenen Gesellschaft C Cr Ver assungsintepreten zur Verfassungsinterpretation durch uncl Rir die offene Gesellschaft). Prope-se, pois, a seguinte tese: no processo de interpretao constitucional esto potencialmente vinculados tootncias pblicas, todos os dos os rgos estatais cidados e grupos, no sendo possvel estabelecer-se um elenco cerrado com numeras clausus de intr retes daInterpretao constitucional tem sido, at agora, conscientemente, coisa de urna sociedade fechada. Dela tomam parte apenas os intrpretes jurdicos "vinculados s corporaes" (znftmssige Inteipreten) e aqueles participantes formais do processo constitucional. A interpretao constitucional , em realidade, mais um elemento da sociedade aberta. Tod