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Revista de D i v u l g a o Cient f ica do Mestrado e Doutorado em E d u c a o Fs ica

H E G E M O N I A E L E G I T I M I D A D E NAS CINCIAS DOS ESPORTES 1

Hugo Lovisolo2

INTRODUO

Dois campos de problemas estruturam as discusses , por vezes altamente apaixonadas, sobre as c incias da Educao Fsica e dos esportes entre ds especialistas no B ra s i l 3 .

O p r i m e i r o problema, que chamaremos de q u e s t o da hegemonia ou ques to paradigmt ica , remete s dificuldades, talvez mesmo imposs ib i l idade , de c o n s t r u o de uma identidade disciplinar. Dificuldade de estabelecer acordos, portanto, sobre o objeto ter ico prpr io e um consenso m n i m o sobre as metodologias apropriadas para seu desenvolvimento. Em outros termos, a ques to sobre a hegemonia, ou paradigma, expressa as dificuldades, e talvez a impossibilidade, de cons t ruo de uma t radio ou rea disciplinar, em sentido estrito, que ocupe o lugar da multiplicidade dos enfoques disciplinares atuantes no campo das cincias que estudam os esportes, a atividade corporal e a Educao F s i c a 4 .

O segundo problema, o da legitimidade, implica o conjunto das ques tes derivadas e vinculadas com a regu lamen tao legal da vida profissional e com o reconhecimento social e cultural das profisses que envolvem o estudo e a or ientao da prt ica esportiva e corporal 5 . Os formados em Educao Fsica ou em cincias dos esportes manifestam, repetida e insistentemente, que es to sendo pouco reconhecidos socialmente e que no contam com suficiente proteo legal para realizar suas atividades. Assim, pessoas leigas, e t ambm especialistas de outras reas , podem realizar programas de

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Universidade Gama Filho

i n t e r v e n o que " d e v e r i a m " estar legalmente reservados, e socialmente reconhecidos, como sendo de competncia exclusiva dos formados em Educao Fsica e esporte 6 . A legitimidade, portanto, envia-nos para o campo da interveno profissional, para os problemas do reconhecimento social e legal dos profissionais atuantes na rea.

Os dois problemas em pauta exis tem em v r i a s r e a s profissionais (servio social, pedagogia, comunicao e administrao de empresas, apenas para c i t a r a lgumas) , e embora sejam recorrentemente confundidos, so produto de foras passadas e presentes diferenciadas. O problema da hegemonia resulta da vontade, por incidncias da cultura universi tr ia e da valor izao da cincia no presente, de querer converter uma r e a or ig inalmente de in terveno profissional em uma rea de pesquisa disciplinar. Essa vontade j resultou em vr ias propostas ideais que no conseguiro concretizar-se, tornar-se portanto t radio ou rea disciplinar (por exemplo , c i n c i a da m o t r i c i d a d e humana) . O problema da legitimidade, por sua parte, resulta da vontade de se pretender construir uma imagem profissional diante da sociedade e de se conseguirem regulamentaes legais que protejam o exerc c io da profisso. A confuso num mesmo saco dos dois problemas provoca, por si mesma, efeitos negativos cons ide r ve i s , embora por momentos existam interessados em sua manu teno .

Esses dois principais problemas englobam e se desdobram em um conjunto de questes , no menos problemt icas , porm derivadas ou de menor hierarquia. Trataremos de ambos os problemas de forma suficiente para obtermos alguns esclarecimentos, sem pretendermos ser exaustivos e conclusivos. Para efetivar o dilogo faz-se necessrio produzir um determinado rodeio que, acreditamos, permitir esclarecer e si tuar as q u e s t e s e p ropor c o n c l u s e s melhor fundadas. Contextualizaremos, os problemas em pauta, na dinmica institucional da universidade e nas representaes culturais.

T E N S E S U N I V E R S I T R I A S Q U E A Q U I I N T E R E S S A M

O primeiro rodeio prope-se partir da pr-compreenso de serem os problemas em debate apenas inteligveis se partirmos do marco da universidade e de seus dilemas gerados na interao com a

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Revista dc D i v u l g a o Cientifica do Mestrado e Doutorado em E d u c a o Fs ica

sociedade. A primeira hiptese de leitura afirma que a universidade atual configurou-se a partir de contingncias que estruturaram dilemas, criando, como produto, uma estrutura tensa e contraditria j no nvel dos objetivos que a definem como ins t i tu io 1 . De suas tenses deriva-se tanto sua d inmica quanto algumas das dificuldades de reas especf icas de formao e pesquisa.

A universidade foi tradicionalmente uma instituio que operou guiada pelo ideal de desenvolver o saber e formar pessoas sbias. Sbios so os que a lcanam as verdades, embora as mesmas no sejam necessariamente produto da atividade que hoje entendemos por pesquisa 8 . Vives e Erasmo, por exemplo, foram pessoas sbias , embora no realizassem as atividades englobadas pelo conceito de pesquisa. Ambas funes ou objetivos, desenvolver o saber e formar pessoas sbias , so, ou deveriam ser, em termos ideais, d imenses de um mesmo processo. As pessoas tornar-se-iam sbias na procura intencional e intensiva da sabedoria e a esta resultaria das vontades de procura dos sb ios . As pessoas, tanto alunos como docentes, estariam portanto na universidade para desenvolver o saber e tornar-se mais sbias no processo de desenvolvimento do saber 9. A funo do docente, a lgum um pouco mais sbio, seria a de guiar e ajudar os menos sb ios a acelerarem seus processos de aprendizado e de desenvolvimento do saber. No contexto de funcionamento medieval os livros e os laboratr ios so muito escassos, assim a expos io , o d i logo e a reflexo so os principais caminhos para se atingirem os objetivos.

Nesse ideal de universidade, as d i fe renas entre cursos e disciplinas, entre pesquisa e ensino, entre os objetivos de se obter um diploma e o saber no fazem muito sentido. Tampouco fazem sentido a s e l e o para a universidade, suas grandes estruturas administrativas, os sistemas de aval iao e tantos outros dispositivos da universidade do presente. A universidade seria centralmente formada por bibliotecas, laboratrios e grupos de docentes e alunos que se juntam por compartilharem interesses de conhecimentos, que conversam e pesquisam, falam e escrevem. O vetor estruturante estaria formado por um conjunto de valores que obrigam a procurar a verdade segundo determinados padres ou t radies , a estabelecer portanto acordos sobre o valor relativo da verdade e os caminhos vl idos para a sua cons t ruo . A auto-aval iao , sobre a capacidade de produzir

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Universidade Gama Fi lho

saber e de tornar-se sbio, seria suficiente para produzir incluses e exc luses da vida universi tr ia . Sobretudo se, como nas origens, os alunos pagassem os gastos da universidade e contratassem aqueles que lhes ensinam. De tempos em tempos, haveriam rituais nos quais alguns passariam da categoria de aprendiz de sbio, de aprender o saber em dependnc ia para a posio do sbio que aprende o saber ensinando a outros. Temos, assim, um modelo simples e ideal de universidade, sem compl i caes burocr t icas nem administrativas, sem organogramas de i m p o s s v e l m e m o r i z a o , sem n m e r o s crescentes de cursos e disciplinas, sem problemas de reconhecimento de diplomas nem de legitimidade de profisses. A universidade teria apenas que divulgar os saberes e seria responsabilidade das pessoas e de outras inst i tuies seu aproveitamento. Temos assim um ideal de universidade que no gera tenses . Temos en to o tipo ideal de uma universidade ar is tocrt ica dedicada a desenvolver o saber ou cultura erudita.

Na universidade que nos toca viver as coisas so bem diferentes. A universidade passou a ter que atingir objetivos variados, no entanto conservando os tradicionais. Entre os objetivos da universidade na modernidade podemos destacar: p r o d u o de conhecimentos privilegiando a pesquisa, fo rmao de pesquisadores, formao das elites pol t icas, empresariais e culturais; igualao de oportunidades sociais; fo rmao profissional; cont r ibu io para o desenvolvimento e c o n m i c o e social, p roduo , conse rvao e d is t r ibuio de cultura e p roduo e dis t r ibuio de tecnologias entre outros. O tipo ideal de universidade moderna e democr t i ca passa en to a estar a servio das demandas do Estado e do mercado. Embora esses objetivos variados fossem respostas e ofertas para conjunturas h i s t r icas especf icas , a d inmica universi tr ia parece acumul - los , superp-los, sem eliminar definitivamente nenhum deles. Estamos distante do ideal de apenas pesquisa e ensino que Humboldt propunha, no c o m e o do sculo X I X , para as universidades a l ems e mesmo do elaborado por Nietsche, que retoma o ideal ar is tocrt ico da formao c u l t u r a l , j Bem a v a n a d o o s c u l o X I X , c o m o r e a o prof iss ional izao e s funes da Universidade para com o Estado e o mercado.

Numerosos, dispersos e mal definidos, a multiplicidade de objetivos forma uma salada de difcil digesto e coloca a universidade

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moderna em tenso permanente. Da dupla tenso , entre os prpr ios objetivos, e da derivada das dificuldades ou impossibilidades de sua real izao, emerge a ideia de crise da universidade. As lutas pol t icas multiplicam-se, quer para impor a hegemonia de alguns dos objetivos, quer para propor modelos de c o m p a t i b i l i z a o ou c o n c i l i a o t empor r i a dos mesmos. De fato, quando se constata a crise, os salvadores se mult ipl icam.

H, contudo, tendncias mais ou men

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