haiti o passado presente

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Reportagem Especial METRÔ NEWS

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  • Segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA), uma em cada cinco crianas haitianas sofre de desnutrio crnica

    HAITIwww.metronews.com.br Distribuio Gratuita nas Estaes do Metr

    No fim de dezembro, a Otan anunciou oficialmente o fim da misso militar no Afeganisto, iniciada como uma resposta aos atentados s torres gmeas de Nova Iorque, em 2001. Uma cerimnia meio enver-gonhada colocou fim saga de 13 anos, 3,5 mil soldados mortos e um resultado duvidoso, j que insurgncias do Taleban continuam agindo.

    Em que pese os conflitos no Oriente Mdio terem realidade totalmen-te diversa, a Organizao das Naes Unidas (ONU) vive dilema parecido com sua Misso para a Estabilizao do Haiti, a Minustah. Liderada mi-litarmente pelo Brasil, ela completou dez anos em 2014. O brao militar da misso suprimiu a guerra civil h tempos, mas estabilidade poltica e social que garanta um Haiti caminhando com as prprias pernas ainda uma realidade distante. A ONU trabalha com prioridade e oramento.

    H futuro para o pasmais pobre das Amricas?

    O passado presente

    Ns no podemos ficar no Haiti para sempre, disse, com sensatez, o force commander da Minustah, general brasileiro Jos Luiz Jaborandy Jr.

    Entre 30/11 e 6/12, os jornalistas Paulo Manso e Alexandre de Paulo, do Metr News, passaram uma semana no pas caribenho. Buscaram resposta para a pergunta que abre esse texto e perceberam logo que o di-lema vivido pela ONU faz todo sentido. Viram de perto a misria, a vio-lncia e o sofrimento pelos quais passam o povo haitiano, que no tem saneamento bsico, energia eltrica, gua potvel e nem o que comer.

    Os ndices econmicos pfios, aliados instabilidade social que marcou praticamente toda a histria republicana do pas e s tra-gdias naturais, contrapem a inexplicvel esperana no olhar e o fcil sorriso de seu povo.

    alexandre de paulo

    So Paulo, segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

  • reportagem especialSo Paulo, segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

    2

    Pallemberg e Alssio, nossos primeiros cicerones no quente Haiti

    Paulo Manso - O calor era intenso na tarde de domingo, 30 de no-vembro, no aeroporto internacio-nal Toussaint Louverture, em Por-to Prncipe. Eu e meu parceiro de misso, Alexandre de Paulo, de-sembarcamos na capital do Haiti para uma semana que se revelaria intensa. Logo de cara, uma aula de histria. Chefe da Comunicao Social do Batalho de Infantaria de Fora de Paz (Brabat), o coronel Alssio Silva nos municiou com todas as informaes possveis so-bre o pas caribenho.

    O trajeto at a Base General Bacellar, no bairro Tabarre (den-tro do chamado Campo Charlie), foi feito a bordo de uma picape apertada, por conta dos equipa-mentos de uso militar, mas extre-mamente confortvel, tomando como referncia os outros vecu-los que nos esperavam para as incurses pelo Haiti.

    Acostumado completa fal-ta de regras do trnsito de Porto Prncipe, o tenente Pallemberg Aquino guiava enquanto eu tenta-va entender como nenhum aciden-te acontecia no meio de tamanha

    O Haiti aquiO passado presente

    balbrdia: buzinas, caminhes MAC (aqueles robustos america-nos que aparentam pesar 100 to-neladas), motociclistas sem capa-cete e com mais de um passageiro, nenhum semforo, carros caindo aos pedaos (literalmente) e pedes-tres. Tudo ao mesmo tempo e com todos disputando o mesmo espa-o. Ruas predominantemente sem asfalto e uma poeira permanente.

    A viso era de uma aridez as-sustadora. Com exceo das fa-chadas dos precrios comrcios (donos de cores carregadas e le-treiros enfeitados), Porto Prnci-pe uma cidade cinza. Haitianos com quem conversamos disse-ram que moradores evitam rebo-car as fachadas ou pint-las para fugir da cobrana de impostos.

    O idioma oficial o francs, mas a maioria da populao fala creoule (uma mistura de francs com dialetos africanos)

    Fotos: AlexAndre de PAulo

    Haitianos chamam brasileiros de bon bagay, expresso que significa gente boa

  • So Paulo, segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

    3reportagem especial

    Ruas sujas, com esgoto a cu aberto e cheiro forte: rotina dos moradores de Porto Prncipe

    Garota bombeia gua imprpria para consumo: lenol fretico

    est poludo

    80 %

    Outro contraste fica por con-ta dos tap taps. Perfeitos paus de arara, as caminhonetes com grandes gaiolas na caamba so extremamente enfeitadas com pinturas que vo de craques do futebol brasileiro a menes reli-giosas, e do raro colorido cida-de. Passam apinhados de gente, carregada como gado. Passagei-ros ficam nas quentes gaiolas ou pendurados do lado de fora, sem qualquer preocupao com a pr-pria segurana.

    Ao deixar o aeroporto, a im-presso que tivemos foi a de en-trarmos no set de algum docu-mentrio. Nada parecia real, mas cenas de um filme triste. Alm da aridez e do trnsito catico, as ruas de Porto Prncipe mostravam pessoas miserveis, bombeando os escassos poos artesianos, que trazem gua no potvel (o lenol fretico todo contaminado por conta da falta total de saneamento bsico). Casas destrudas pelo ter-

    da populao haitiana vive abaixo da linha da misria (com menos de US$ 1,11 por dia)

    Fonte: Actionaid.org.br

    Transporte pblico singular e trnsito catico remoto, muitas com telhados de zinco (o que transforma tais abri-gos em verdadeiras saunas dado o intenso calor do Caribe). Pessoas fazendo necessidades fisiolgicas nas ruas, sem a menor cerimnia.

    Nosso abrigo na capital, o Cam-po Charlie abriga batalhes de v-rios pases, entre eles, o maior da fora de paz da ONU: o Brabat. O alojamento um verdadeiro o-sis no deserto. Nosso container, na Companhia de Engenharia do Exrcito, a Braengcoy, tinha ar con-dicionado, dois beliches, armrio, TV, frigobar e uma mesinha de es-critrio. Sem luxo, mas com tudo do que precisvamos.

    Paulo Manso Paulo Manso

    Tap taps so principal meio de transporte no Haiti: exagero nos enfeites e na precariedade; direita, vista da Base Militar General Bacellar, onde ficamos hospedados em Porto Prncipe

    Nas janelas ou nos veculos, haitianos tentam esconder o cinza com muitas cores

  • reportagem especialSo Paulo, segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

    4

    De sorriso fcil e com bom vigor fsico, jovem haitiano sofre com a falta de emprego, que chega a 60% Comrcio ambulante e precrio intenso durante todos os dias Artesanato enaltece a cultura local e lembra terremoto e revoluo

    Sol escaldante j nas primeiras horas da manh; nas esburacadas ruas de terra, sob intensa poeira, ambiente fica insalubre para pedestres e soldados durante as patrulhas

    Balbrdia nas ruas. Sorriso nos lbios

    O passado presente

    paulo manso - No h como pisar no Haiti e deixar de reparar nos seus contrastes. A beleza do Mar do Caribe e a feiura da misria de homens, mulheres e crianas. As cores dos tap taps e das fachadas do precrio comrcio, e o cinza da poeira e dos escombros. A pobreza extrema no litoral e a riqueza concentrada no alto dos morros.

    Mas h algo que chama ainda mais ateno do olhar estrangeiro: a esperana no olhar do povo. Nada parece importar: as armas, a poluio, a fome ou o desemprego. Eles sorriem!

    fotos: alexandre de paulo

  • So Paulo, segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

    5reportagem especial

    Artesanato enaltece a cultura local e lembra terremoto e revoluo Bons de papo, ambulantes vendem de tudo em suas barracas Trnsito maluco prova de fogo para motoristas estrangeiros

    Improvisado, sistema de transporte bastante perigoso

    Haitianos parecem acostumados com soldados armados nas ruas

    Sol escaldante j nas primeiras horas da manh; nas esburacadas ruas de terra, sob intensa poeira, ambiente fica insalubre para pedestres e soldados durante as patrulhas

  • reportagem especialSo Paulo, segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

    6

    Jovem haitiano exibe as cores do Brasil Garoto joga bola nas ruas sujas

    Do orgulho

    O passado presente

    ao caos

    Alagoas

    A extenso territorial de Alagoas de 27.767Km2

    A extenso territorial do Haiti de 27.750 Km2

    Haiti

    RepblicaDominicana

    paulo manso - A primeira repblica negra do mun-do. disso que os haitianos mais se orgulham: de ter sido o primeiro pas a se libertar da opressora co-lonizao europeia pelos braos do povo, numa das mais legtimas revolues que a histria conheceu.

    O fato, porm, antecedeu uma srie de gol-pes, guerras civis e ditaduras aliadas aos de-sastres naturais que marcaram boa parte da vida republicana no Haiti, fazendo com que a histrica libertao reine praticamente solitria no corao e na mente dos haitianos.

    A Ilha Hispaniola, a maior do Arquiplago das Antilhas, no Mar do Caribe, foi descober-ta por Cristvo Colombo em 1492. Em 1697, o tero oeste da ilha (27.750 km2, do tamanho de Alagoas, aproximadamente) foi cedido Frana e virou o Haiti. Com a populao nati-va praticamente dizimada tanto por espanhis quanto por franceses, o pas se tornou a mais prspera colnia das Amricas, s custas da de-gradao ambiental e da mo de obra escrava, vinda da frica. Os escravos produziam muita cana-de-acar (principalmente), cacau e caf. Em 1750, para se ter ideia, metade do Produto Nacional Bruto da Frana era oriundo do Haiti.

    Em 1794, escravos se rebelaram e aboliram o regime, colocando Toussaint Loverture no co-mando do pas. Loverture foi morto pelos fran-ceses, mas a guerra da libertao duraria dez anos, perodo que marcou a chegada ao poder na Frana de Napoleo Bonaparte. Em 1804, liderados por Jacques Dessalines, os haitianos declararam independncia, causando uma onda de temor nos colonizadores.

    O vodu (prtica religiosa de origem africana parecida com o candombl brasileiro e que se espalhou pelo mundo principalmente nos lo-cais para onde foram levados os escravos) levou boa parte da culpa. Dizimados pelos negros durante a revoluo, brancos colonizadores es-palharam a ideia de que