Guia de estudo n.º3 A Europa nos séculos XIII e XIV 1516

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<ul><li><p>1</p><p>A Europa Ocidental nos sculos XIII e XIVO espao portugus Por Raul Silva</p><p>Passado o ano mil, o Ocidente conhece um perodo de acentuada prosperidade econmica. A rea cultivada expande-se, arrancando s florestas espaos at a bravios. Novas tcnicas agrcolas fazem crescer a produtividade das terras, esconjurando o fantasma da fome, sempre presente nos tempos medievais. Melhor alimentada, a populao cresce. Beneficiando do clima de paz e de abundncia, a cidade renasce. Organiza-se o mercado, circula a moeda. As vias comerciais, h muito desativadas, fervilham agora com um intenso trfego de homens e mercadorias. No sculo XIV, esta conjuntura de prosperidade chega ao fim. Rompe-se o equilbrio demogrfico, sempre frgil, sempre dependente da abundncia das colheitas. A fome instala-se e, a meio do sculo, a peste devasta a Europa, cidade aps cidade, regio aps regio. Portugal possui as mais antigas fronteiras da Europa. Independente no sculo XII (1143), fixou o seu territrio no espao de pouco mais de sculo e meio (1297). Nasceu da guerra, contra Castelhanos e Muulmanos, e cedo se apresentou dividido em senhorios e concelhos.Os senhorios tiveram como bero a regio Entre Douro e Minho, mas logo se estenderam ao Centro e Sul do pas. Neles, nobres, clrigos e at reis assumiram os poderes fundirios, controlavam uma massa diversificada de dependentes e exerciam o poder senhorial.Quanto aos concelhos, constituram um entrave expanso do senhorialismo. Nas cidades e as vilas concelhias, dotadas de autonomia administrativa, a organizao do espao refletia formas de organizao econmica e social, poderes e vivncias em tudo distintos do campo. A articular o pas de senhorios e concelhos erguia-se o Rei, chefe de todos os homens, dos senhores e vilos, dos Portugueses, dos mouros e judeus.</p><p>CADERNODIRIO</p><p>EXTERNATO LUS DE CAMES</p><p>N. 3</p><p>https://www.facebook.com/historia.externato</p><p>http://externatohistoria.blogspot.pt/</p><p>externatohistoria@gmail.com</p><p>19 d</p><p>e N</p><p>ove</p><p>mb</p><p>ro d</p><p>e 20</p><p>15</p></li><li><p>2</p><p>CA</p><p>DE</p><p>RN</p><p>ODIRIO</p><p> 19 </p><p>de </p><p>No</p><p>vem</p><p>bro</p><p> de </p><p>2015 O poder </p><p>senhoriale a sua ascenso</p><p>Os senhorios (territrios onde o senhor exercia poder sobre a terra e sobre os homens) formaram atravs da ocupao de terras pelos Cristos, terras conquistadas aos Muulmanos, logo, terras sem dono. Os senhorios distinguiam-se pela origem social do seu proprietrio: reguengos - as terras do rei, a quem </p><p>cabia as terras sem dono por direito de conquista;</p><p> honras - as terras eram honradas pela presena do senhor nobre, que nelas exercia poderes pblicos);</p><p> coutos - senhorios que pertenciam Igreja e gozavam de iseno fiscal, judicial e militar graas a terem recebido uma carta de couto.</p><p>Podemos distinguir, durante o sculo XII e primeira metade do sculo XIII, em Portugal, dois tipos de ocupao:1. No Norte Atlntico (noroeste </p><p>portugus e litoral at margem sul do Vouga) predominou o senhorialismo nobre e eclesistico: era o pas senhorial.</p><p>2. No Centro e Sul do pas abundavam os concelhos: era o pas urbano.</p><p>A formao do pas senhorial relaciona-se, por um lado, com a presena da nobreza e, por outro, com a influncia da Igreja no Norte Atntico.As terras ocupadas pela nobreza e a doao, pelo rei, s famlias da nobreza, de parcelas de territrio e de cargos polticos, deram origem s honras.Por outro lado, as doaes do rei e da nobreza Igreja deram origem aos </p><p>coutos. A Igreja Crist exercia grande influncia junto das populaes, quer no Norte atlntico (Ss de Braga e do Porto), quer no Centro e Sul do pas, devido presena de ordens religiosas militares, encarregadas da defesa da fronteira portuguesa (Templrios, Hospitalrios, Calatrava, Santiago de Espada).O senhor podia exercer dois tipos de poderes no seu senhorio: o poder senhorial, de natureza </p><p>poltica, que corresponde autoridade sobre os habitantes do senhorio;</p><p> o poder econmico sobre os seus domnios senhoriais, o qual resultava da posse e explorao de terras.</p><p>O poder do senhor exercia-se sobre as diferentes parte do seu domnio:</p><p>1. A quint (reserva do senhor) inclua a morada do senhor (o castelo), uma igreja, estbulos, celeiros, moinhos e uma poro de terra explorada diretamente pelo senhor. A quint era explorada graas ao trabalho obrigatrio e gratuito (jeiras) de escravos, servos e colonos livres.</p><p>2. Os casais eram terras arrendadas e eram exploradas atravs de contratos entre senhores e colonos ou caseiros. Estes pagavam as rendas de forma fixa ou cedendo uma parcela das colheitas. </p><p>O poder senhorialno Norte AtlnticoD. Sancho I , Carta de doao ao Mosteiro de Alcobaa (1229)</p><p>Eu, Sancho, por graa de Deus, rei de Portugal e do Algarve, e minha espsa, a rainha D. Dulce, juntamente com os nossos filhos, fazemos esta carta de doao e de perptua segurana casa de Alcobaa e a vs, D. Martinho, abade do mesmo lugar, e a todos os irmos que a vivem sobr regra, daquelle castelo (...), que para honra de Deus vos damos e concedemos, para que o possuais perpetuamente, livre de toda a ao real e pacificamente, com </p><p>todos os seus termos novos e antigos, at os limites que possam ser tidos como verdadeiros por uma investigao feita por homens dignos do maior crdito e f (...).</p><p>Responder:</p><p>a) Explique a formao do pais senhorial.</p><p>b) Relacionar o pas senhorial com a ascenso da nobreza e do clero.</p><p>Eu, D. Afonso Henriques, pela graa de Deus, rei dos Portugueses, a Deus e aos cavaleiros do Templo de Salomo, fao carta e pacto de doao e de firmeza, de toda a tera parte que possam adquirir e povoar alm do rio Tejo, mediante o favor divino, com tal condio que, enquanto durar a guerra dos Sarracenos, a utilizes em servio de Deus, de meu filho (...), com as rendas que de mim recebeis.</p><p>D. Afonso Henriques, Carta de doao aos Templrios (1169)</p><p>VassalidadeRelao hierrquica que se estabelecia entre dois indivduos de estirpe social elevada. Criava, entre eles, uma dependncia pessoal, alicerada na fidelidade, ajuda e conselho. Um dos senhores atribui um bem a outro senhor.</p></li><li><p>3</p><p>CA</p><p>DE</p><p>RN</p><p>ODIRIO</p><p> 19 </p><p>de </p><p>No</p><p>vem</p><p>bro</p><p> de </p><p>2015 O poder </p><p>senhoriale o seu exerccio</p><p>A nobreza medieval, dominante na sociedade, constituda por famlias antigas que haviam auxiliado militarmente o rei, integrava diversos graus.A nobreza senhorial de Entre Douro e Minho era constituda, desde os tempos do Condado Portucalense, em especial as famlias da Maia, de Riba Douro, de Sousa, de Baio e de Bragana, referidas no sculo XII. Os infanes habitavam no castelo, a partir do qual defendia militarmente e controlava economicamente o territrio circundante.A partir do sculo XII, os infanes ascenderam socialmente, passando, muitos deles, a integrar o grupo dos ricos-homens e, no sculo XIV, so estes quem constitui o estrato dominante da sociedade portuguesa. Os ricos-homens possuam grandes domnios territoriais, onde exerciam o poder de julgar, gozavam de isenes fiscais e comandavam os seus prprios exrcitos.Abaixo deste grupos, pertenciam nobreza os cavaleiros e os escudeiros. Os primeiros eram os guerreiros quer pertenciam ordem militar da Cavalaria. Quando os escudeiros acompanhavam e auxiliavam o seu cavaleiro, combatendo na retaguarda. Porm, nem uns nem outros ostentavam o ttulo e os privilgios dos senhores medievais.Os senhores exerciam um poder econmico e, sobretudo, poltico. Este poder fora-lhes delegado por um rei ou conde, em troca do servios militares </p><p>prestados e da administrao de terras e castelos. Com o tempo, os senhores deixaram de prestar contas sobre esses poderes, estendendo-os at propriedade livre ou de outros senhores.O senhor podia possuir armas e comandar os exrcitos;receber multas relativas ao exerccio da justia; cobrar exigncias fiscais (por exemplo, a obrigao de alimentar o senhor; pagar o uso do forno, moinho ou lagar; pagar para casar fora do domnio senhorial).Em suma, o poder senhorial abrange a administrao do senhorio, mas tambm o exerccio de poderes pblicos originariamente pertencentes ao rei. Os senhores podiam mesmo proibir a entrada de funcionrios do rei nos seus territrios.</p><p>Os dependentes englobam uma grande quantidade de homens sujeitos ao poder dos senhores, a saber: Herdadores - eram proprietrios de </p><p>terras livres. Porm, todos eram obrigados a escolher um senhor e a depender dele, tendo de prestar servios e pagar impostos.</p><p> Colonos - eram homens livres que arrendavam as terras ao senhor em contratos perptuos ou a prazo, estando sujeitos a obrigaes de tipo senhorial.</p><p> Escravos - geralmente prisioneiros mouros, eram utilizados como fora instrumental nos servios domsticos, artesanato e agricultura.</p><p> Assalariados - viviam do aluguer do seu trabalho e no dependiam de um senhor.</p><p>Os senhoriose a sociedade feudalPierre Grimal, A Civilizao Romana</p><p>Todo o nobre, em princpio, era um senhor, isto , possua um patrimnio fundirio extenso sobre o qual tinha direitos de jurisdio e de cobrana de rendas e impostos. Esse patrimnio garantia-lhe, igualmente, uma populao de dependentes.Nobres havia, ainda, que no possuam senhorio, (...) vivendo em casa dos seus senhores e deles totalmente dependentes. </p><p>Por certos bens doados, o nobre havia que prestar menagem ao rei ou a outro senhor de quem os tivesse. difcil avaliar os efetivos, mesmo aproximados da nobreza. Os clculos possveis apontam para cerca de um milhar de famlias, isto , umas 5000 pessoas, menos de 1% da populao do pas.</p><p>Responder:</p><p>a) Caraterize o poder senhorial.b) Reconhea a dependncia das </p><p>comunidades rurais.</p><p>Aquele que lavrar com um jugo d um moio. (...) Aquele que lavrar com mais de dois, d dois quarteiros, um de trigo e outro de milho. () O cavo que lavrar trigo ou milho ou centeio d a teiga do po que lavrar. O peo d a dzima do seu vinho. () Dos peixes do mar que trouxerem pelo rio Mondego, dem a dzima ao senhor da terra at ao ms de Maio. Os monteiros daquele veado que matarem daro ao mordomo o lombo.</p><p>Sancho I, Foral de Penacova (1192)</p><p>ImunidadePrivilgio que consiste em interditar aos delegados do rei a entrada nas terras de um nobre, de um bispado ou de uma abadia para a exercer o seu poder pblico.</p></li><li><p>4</p><p>CA</p><p>DE</p><p>RN</p><p>ODIRIO</p><p> 19 </p><p>de </p><p>No</p><p>vem</p><p>bro</p><p> de </p><p>2015 O poder </p><p>concelhioe a autonomia</p><p>O desenvolvimento das cidades e vilas portuguesas data do sculo XII, graas a um conjunto de fatores: o territrio portugus situava-se na </p><p>rota de peregrinao a Santiago de Compostela, o que beneficiou certos ncleos de passagem, como Porto e Guimares;</p><p> com o avano da Reconquista, Portugal herdou as marcas de urbanidade muulmanas, bem presentes no centro e sul do pas;</p><p> as cidades desenvolviam-se sempre que o seu espao era escolhido pela corte ou pelas ss episcopais para se instalar;</p><p> o ressurgimento comercial do sculo XII refletiu-se num surto urbano, com destaque para urbes que faziam trocas comerciais atravs da costa atlntica como o Porto e Lisboa, mas tambm cidades como Guimares, Coimbra, Santarm e vora. </p><p>A principal caraterstica dos concelhos residia no privilgio de disporem de autonomia administrativa. Este privilgio era expresso na carta de foral, documento outorgado por um monarca ou um senhor, que estabelecia os direitos e obrigaes dos habitantes do concelho, enquanto o selo concelhio simbolizava a autonomia jurdica das povoaes.Os concelhos perfeitos ou urbanos localizavam-se nas regies fronteirias das Beiras, na Estremadura, no Alentejo, isto , em zonas que era urgente defender e povoar. Incluam a </p><p>cidade ou vila e o seu termo (aldeias e populao em redor). Nessa rea governavam os vizinhos (homens livres, maiores de idade, habitantes ou trabalhadores na rea do concelho) reunidos em assembleia. As suas decises ficaram registadas nas posturas municipais. A autonomia dos concelhos era evidente na forma como os nobres e clrigos se tinham de submeter a esta administrao de tipo comunitrio.</p><p>Responder:</p><p>a) Reconhea a afirmao das cidades e vila concelhias no espao portugus.</p><p>b) Caraterizar a autonomia poltico-administrativa das cidades e vilas concelhias.</p><p>Os concelhose a sua administraoManuela Silva, As Cidades</p><p>Os cavaleiros-vilos eram, em quase todos os concelhos urbanos, os maiores proprietrios rurais, os detentores das maiores fortunas, aqueles de quem dependia a segurana da comunidade e aqueles que monopolizavam e perpetuavam num grupo fechado as magistraturas da administrao local. (...)O estrato social inferior aos dos cavaleiros-pees o dos peos. os peos eram gente que vivia do seu trabalho, que possua algo de seu, que tinha </p><p>direito de participar nas assembleias de vizinhos. Eram agricultores, almocreves, pequenos comerciantes, pescadores ou artfices. A restrio da administrao local apenas aos homens-bons deixou aos pees muito poucas oportunidades de colaborao com os novos rgos autrquicos. </p><p>E mando que todos aqueles que vierem a essa feira por razo de vender ou de comprar sejam seguros da ida e da vinda e no sejam penhorados na feira em esses dois dias que ela durar, salvo a dvida que for feita na dita feira. E mando e defendo que nenhum nome seja usado que faa mal nem fora nem embargo na dita feira, que aqueles que ainda o fizesse peitaria a mim.</p><p>D. Dinis, Carta da Feira de Mura (1342)</p><p>Carta de ForalDiploma emanado do rei ou de um senhor, no qual se estabeleciam as regras e os direitos que regiam a vida das populaes de uma certa localidade, denominada concelho.</p></li><li><p>5</p><p>CA</p><p>DE</p><p>RN</p><p>ODIRIO</p><p> 19 </p><p>de </p><p>No</p><p>vem</p><p>bro</p><p> de </p><p>2015 A monarquia </p><p>feudale o poder do rei</p><p>No sculo XIII, a identidade nacional ainda era uma ideia esbatida, pouco ntida, tendo em conta que o pas era composto pelo conjunto de senhorios e concelhos que beneficiavam de privilgios e especificidades prprias. A coeso interna assentava, ento, numa monarquia feudal, que obedecia aos seguintes pressupostos, vlidos para todos os habitantes:1. O rei era um senhor, o mais rico e </p><p>poderoso do territrio portugus. de acordo com esse estatuto, os nobres e clrigos eram seus vassalos, e os restantes habitantes seus sbditos.</p><p>2. Enquanto senhor feudal, o rei exigia rendas e prestaes pblicas, no s nos seus domnios, mas tambm nas terras livres e nos concelhos.</p><p>3. A relao do rei com os seus vassalos era encarada como uma relao de troca, tpica da poca feudal, segundo a qual o monarca oferece proteo e doaes e os vassalos obedecem sua autoridade e prestam-lhe apoio na governao.</p><p>4. O reino portugus era tratado, pelo rei, como se fosse um territrio privado, um patrimnio pessoal fechado, que ele podia alienar sob a forma de honras e coutos, como recompensa por servios prestados. Esse patrimnio era transmitido, por sua vez, em testamento, ao filho primognito. </p><p>Os reis de Portugal fundamentavam o seu poder, desde o incio da nao, no direito divino e assumiam como principais funes: a chefia militar; a manuteno da paz e da justia (o </p><p>rei era o juiz supremo, cabendo-lhe a funo de tribunal de apelao);</p><p> a cunhagem da moeda e a sua desvalorizao.</p><p>Desde o sculo XIII, os monarcas portugueses esforaram-se por somar s suas funes originais a supremacia sobre todas as ordens sociais. Para esse efeito, tomaram as seguintes medidas: as Leis Gerais, de 1211, impuseram a </p><p>todos a mesma legislao, colocada acima das jurisdies senhoriais e concelhias, procurando recuperar os poderes da Cor...</p></li></ul>