Guerra do Paraguai: histria e polmica

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  • Guerra do Paraguai:histria e polmica

  • Histria de um silncio:a guerra contra o Paraguai (1864-1870)130 anos depoisCARLOS GUILHERME MOTA

    "A malquerena antiga da Amrica chamada espanhola contra os descen-dentes de portugueses, agravadas pelas prevenes que sugeriam suas

    instituies caractersticas - a monarquia e o trabalho escravo - poderiater conseqncias imprevisveis. A hostilidade contra o Brasil, manifesta-

    da desde a ltima interveno no Uruguai, e agravada, principalmentenos Estados do Pacfico, ao serem divulgados os termos do Tratado da

    Trplice Aliana, no poderia seno diluir-se e amenizar-se com o fato deno se achar ele s na campanha contra o ditador de Assuno".

    Srgio Buarque de Holanda, em Do Imprio Repblica, 1972

    E M NOVEMBRO DE 1864 o Paraguai declarou guerra ao Brasil, invadindo aregio de Mato Grosso, zona de disputa entre colonos e seus respectivosgovernos h mais de 200 anos. Portanto, o tema deste colquio envolvemais de trs sculos de Histria e solicita a discusso de modelos de colonizao,de reflexes sobre o colonialismo e o neocolonialismo na Amrica Latina, sobreregimes de governo, sobre "civilizao e barbrie" (Sarmiento) e sobre as ques-tes geopolticas que marcaram a poca.

    A rigor, no seria permitido pensar que foi nessa conjuntura que a idia deAmrica Latina se adensou? Afinal, contemporneos da Guerra da Trplice Alian-a tambm foram o fuzilamento do arquiduque Maximiliano de ustria, no M-xico, em 1867, e a posse do ditador-presidente Juarez. No Peru, a tomada depoder pelo general Prado, em 1865, contra a Espanha (depois fazendo a Guerrado Pacfico, ou Salitrera, contra o Chile e a Bolvia). Foi nessa mesma altura quecomeou a ao de Jos Marti, em Cuba, desdobrando-se nos anos 70 em Cuba,Espanha, Cuba novamente, Estados Unidos e Cuba outra vez...

    Ampliemos o foco: aquela foi tambm uma poca de consolidaes, comoa da Repblica dos Estados Unidos da Venezuela em 1864. No ano seguinte,1865, as Cortes Espanholas so obrigadas a reconhecer a independncia de SantoDomingo e o governo de Jos Maria Cabral. Fato contemporneo ainda o gritode independncia de Lares, em Porto Rico, quando se constitui um governorepublicano presidido por Francisco Ramirez. Nesse tempo Santo Domingo, Porto

  • Rico, Panam e Haiti comeam a entrar na esfera de ao direta dos EstadosUnidos.

    Esse foi ainda o perodo em que ocorreram pesados investimentos de capi-tais estrangeiros na Amrica Latina, sobretudo em infra-estrutura, como estradasde ferro, portos e servios pblicos. Tem incio a imigrao europia em massa,direcionada Cuba, ao Brasil e, sobretudo, regio de clima temperado do es-turio do rio da Prata. Os nmeros so altos: entre 1855 e 1874 cerca de 250 mileuropeus ao Brasil e de 800 mil Argentina e ao Uruguai.

    * * *

    A guerra do Paraguai, ou a Guerra da Trplice Aliana, ou mais propria-mente a Guerra contra o Paraguai marca indelevelmente a Histria contempor-nea da Amrica Latina. Foi a maior guerra da Histria da Amrica do Sul. Podeser comparada - em violncia, em extenso, mas no em seus resultados - Guer-ra Civil que mesma poca viveram os Estados Unidos da Amrica do Norte,com seus nmeros assustadores: a Guerra Civil mobilizou cerca de 2,5 milhesde homens numa populao de 33 milhes de habitantes. Todavia, "os mortosque importam tm que reunir certos requisitos", como escreveu o editor italianoFranco Maria Ricci, na apresentao de uma belssima obra sobre as pinturas deCndido Lpez, o principal documentarista da guerra contra o Paraguai. Comefeito, nem todos os mortos so iguais.

    Conversando com Jorge Luiz Borges, Ricci descobriu a sanguinolnciadessa guerra. A mais sangrenta do sculo XIX. E que, como sabem os leitores dedirios, os mortos que importam verdadeiramente tm que reunir certos requisi-tos: "Os mortos do hemisfrio sul importam certamente menos que os do hemis-frio norte"(l).

    A dramaticidade do conflito, em que se envolveram povos e regimes extre-mamente diversos, marca - inclusive pelo silncio a que as historiografas ofi-ciais, sobretudo a brasileira, o condenaram - a nossa difcil insero na HistriaContempornea. Qualquer que seja a perspectiva, a guerra da Trplice Aliana foium marco. Um acontecimento histrico de pesadas conseqncias, que darianova dimenso histria desta parte do planeta. Para sugerir a necessidade deuma urgente rotao de perspectivas, ainda aqui utilizo-me da aguda percepodo editor italiano: "O fim do tirano Solano Lpez, a defesa extremada dosparaguaios e seu extermnio teriam merecido, sem dvida, as cores de um Plutarcoe de um Tito Lvio: a periferia em que viveram, em troca, lhes valeu nosso esque-cimento absoluto"(2).

  • Reavaliao da Guerra Grande

    Com efeito, uma reavaliao merece lugar passados 130 anos do incio daGuerra Grande (como tambm ela conhecida e como a denomina um dos per-sonagens do notvel escritor paraguaio Augusto Roa Basto). Revisit-la sobretu-do neste contexto em que novas Formas de integrao e identidade - termosambguos e batidos - desta regio das Amricas parecem querer emergir. Dentreelas, o Mercosul, para cuja implantao no se pode dispensar o conhecimentodas historicidades dos quadros mentais e dos padres civilizatrios dominantes naregio. Mas para dobrar esta pgina da Histria, torna-se necessrio conhec-la.Revisit-la.

    A historiografia mais recente j consolidou a idia de que a Guerra marcaum momento de integrao da bacia do rio da Prata na economia mundial sob apreeminncia inglesa. A Argentina, o Brasil e o Uruguai opuseram-se auto-suficincia do Paraguai. Como analisou Hobsbawn, o Paraguai foi a nica rea daAmrica Latina onde os ndios resistiram ao estabelecimento dos brancos de for-ma efetiva, em larga medida graas organizao jesuta anterior (3).

    Com efeito, as naes da regio organizaram-se dentro de parmetros daspotncias hegemnicas. No se pode saber o que teria acontecido por seus meiosprprios, mas o fato que, ainda quem nota Hobsbawn, o Paraguai, quandopor uma vez tentou cair fora da esfera do mercado foi massacrado e obrigado anele reingressar (4).

    Ao examinarmos - ainda que por alto - a Guerra em suas repercussespoltico-culturais, scio-econmicas e diplomticas para a regio e para as naesenvolvidas, faamos notar primeiramente que, para o Brasil, ela produziu fortesefeitos. A nica monarquia americana mergulharia depois no processo que de-sembocar na abolio da escravatura (1888) e na instalao da Repblica (1889).Mas tambm transformou a Argentina, que finalmente se unificou sob o generalBartolom Mitre, o primeiro presidente (1862-68) e pai da Argentina moderna,em cuja obra de historiador a Nao - la Nacin Argentina - elevada a protago-nista nica do processo histrico (5). Mas tambm de se notar, em contrapartida,que a impopularidade da guerra foi alta na Argentina: as simpatias das provnciasestavam com os paraguaios. O recrutamento das tropas foi difcil, quando seconstatava que se combateria a favor do Brasil. Alm disso, os federalistas sempreesperaram que o brigadeiro Jos Urquiza, primeiro presidente constitucional daConfederao Argentina (1854-1860), se sublevasse contra Mitre, o que noocorreu. A impopularidade da guerra tambm provocou levantes no interior,como o de Felipe Varela, e deseres pesadas, como a do Exrcito de Vanguarda,de soldados de Entre Rios, aulados por inimigos de Mitre. A guerra teve seu fimdurante a presidncia de Domingo Faustino Sarmiento, sucessor de Mitre.

  • O Brasil, como a Argentina apressou-se na disputa pela posse dos territ-rios dos vencidos, invocando o artigo 16 do Tratado da Trplice Aliana. Comose sabe, o ministro Mariano Varela, da Argentina, reagiu advertindo que a vitriano dava o direito s naes aliadas para declararem sozinhas as novas fronteiras.Define-se ento, ante o perigo de novos rompimentos, um sistema de consultas.Mitre, favorvel posio brasileira, vai ao Rio de Janeiro em busca de entendi-mento. A Argentina submete a questo dos territrios em disputa arbitragemdos Estados Unidos: em 1878, o presidente Hayer arbitra a favor do Paraguai.Afinal, a Argentina sempre pendeu mais para a Inglaterra...

    Para o Uruguai, a Guerra trouxe um fato novo, para alm das incursesriograndenses e dos levantes colorados que tanto marcaram o campo antes dacrise econmica de 1873. Surge a figura de um militar profissional, LorenzoLatorre, que governa em nome do Exrcito, o que na Argentina corresponderia aRosas e Roca. No era mais um caudilho rural, porm tinha o apoio dos hacendados,dos comerciantes exportadores e oferecia a fora do Estado para vencer a resistn-cia da populao camponesa, ou seja, monta um sistema de trabalho forado nasestncias. Paralelamente, o ensino elementar foi implantado, ultrapassando a Igrejae a velha tradio liberal. A exportao de couro e ls crescia vertiginosamente.Sob Latorre, o Uruguai tinha sido disciplinado para "novos governos militares,que dominariam de fato na etapa seguinte; essa terra da liberdade indmita pare-cia momentaneamente convertida a uma verso peculiar do novo credo a um stempo autoritrio e progressista" (6).

    Para o Paraguai (e contra o Paraguai), a guerra articulou as foras do Imp-rio brasileiro, da Argentina e do Uruguai. Um acordo secreto entre o Brasil e aArgentina previa a distribuio de territrios em litgio que correspondiam amais da metade do Paraguai. O surpreendente foi a reao herica da populaoparaguaia. Em cinco anos de guerra, perdeu-se quase todo seu contingente mas-culino.

    Mas no se atribua tudo apenas resistncia paraguaia. Tambm devem serconsideradas a fraqueza e a desorganizao das tropas inimigas. Alm disso, aunidade interna argentina devida a Mitre era mais aparente do que efetiva (olevante federalista de 1866-67 abalou o interior). O Imprio brasileiro, com suamquina pesada e custosa, agia lenta e prudentemente. Os paraguaios, em com-pensao, tinham sido expulsos na primeira fase da guerra das terras conquistadasna Argentina e no Rio Grande do Sul: defenderiam na segunda fase, com todovigor, Humait, a fortaleza construda por Lpez no rio Paraguai. De derrota emderrota, e at mesmo aps o final da guerra, os paraguaios conseguiram lidar comas contradies e divises entre seus vencedores.

    Creio que uma das melhores snteses sobre o desfecho foi realizada pelo

  • argentino Tulio Halpern Donghi: "A Argentina protegia no Paraguai os antigosdesterrados; o Brasil, alm de fazer-se ceder os territrios em disputa, avalizavaum governo dominado por antigos generais de Lpez, que mantinha suas posi-es contra as exigncias territoriais argentinas. Assim se afirmou a hegemoniabrasileira, enquanto os novos governantes presidiam uma alegre liquidao deterras do Estado; a reconstruo do Paraguai se fez sob o signo da grande pro-priedade privada, e de maneira muito lenta; o pas fica assim destinado a mantersua principal vinculao econmica com a Argentina, para onde se dirige a maiorparte de suas exportaes, e de cujo sistema de navegao fluvial depende em suacomunicao com o ultramar" (7).

    Da a oportunidade do encontro no Rio de Janeiro com especialistas dospases e culturas envolvidas.

    Dimenses da Guerra

    Comecemos pelo comeo. Os lugares da memria so bem-delineados, esugerem que na histria dos vencedores, nas ruas de suas cidades, s h espao paranomes como Cerro Cora, Paisandu, Humait, Riachuelo e os nem sempre bem-preparados Voluntrios da Ptria. Nomes sonoros, muitos indgenas, mas que cu-riosamente no permitem enxergar o substrato guarani que animava um exrcitode 64.000 homens. A histria desses silncios precisa ser escrita, e revisitada ahistoriografia oficial que inundou os manuais do imprio e tambm os republica-nos. De Taunay a Srgio Buarque de Holanda h um abismo: a anlise da crise doregime imperial efetuada por este ltimo, em seu notvel captulo Poltica e guerra,sugere o quanto ainda temos que caminhar para a construo dessa outra memria (8).

    Por outro lado, como deixar de indicar, do ngulo da Histria e dahistoriografia brasileiras, a Guerra do Paraguai como um trauma, uma chacinaem larga escala, uma hecatombe demogrfica, um genocdio, inclusive no final,com o que restou do exrcito paraguaio cheio de crianas, um cataclisma que dese-quilibrou o Imprio? Certamente a reside uma das chaves para o estudo do movi-mento republicano e abolicionista no Brasil: em perspectiva ampla, a Guerra, aAbolio, a proclamao da Repblica e a implantao da ordem neocolonial defi-nem uma nova configurao histrica.

    Os nmeros elevados de mortos (9), em escala nunca antes imaginada, odespreparo das foras da Trplice Aliana, os conflitos de poder militar no bojo doImprio, uma nova expresso da opinio popular, tudo sugere a mudana do teor davida, um abalo nos quadros mentais que transbordou e se traduziu nas obras dosprincipais intelectuais e artistas do perodo, de Machado de Assis e Juan BautistaAlberdi a Domingo Faustino Sarmiento e Cndido Lpez.

  • A guerra obrigou a uma reconsiderao do tempo e do espao. Grandesdeslocamentos de tropas avultadas, toda a estratgia de ataques e retiradas, aguerra fluvial, abriram nova pgina da polemologia latino-americana. O reforoda idia de Estado-Nao abre caminho para uma nova concepo do papel dasforas armadas na vida nacional. A criao da Escola Superior de Guerra, pelotenente-general Lus Maria Campos, um dos frutos; a disseminao das teoriaspositivistas, que colaboraram na destruio do sistema escravagista, outro.

    As vrias dimenses da guerra, abordadas pelos historiadores, professores,diplomatas e estudiosos convidados, sugerem a complexidade daqueles momen-tos em que interesses estrangeiros - ingleses, principalmente, fortalecendo suamalha imperial - se entrelaavam com formas de expansionismo e de conflitoslocais. Pode-se falar tambm, quero crer, de um subimperialismo brasileiro comrelao nao paraguaia.

    O problema mesmo da origem da guerra e da natureza dos expansionismosregionais tambm deve ser posto desde logo. Por outro lado, em que pese ocarter de genocdio brbaro, de hecatombe demogrfica, que a guerra assumiucontra o Paraguai, impe-se sejam reestudados os componentes e a histria danao paraguaia em sua devida dimenso. Tal abordagem nos conduz desde logopara a anlise da insero das naes envolvidas - Argentina, Brasil, Uruguai eParaguai - no quadro dos imperialismos europeus da segunda metade do sculopassado.

    A Argentina e o Brasil vinculavam-se intensamente Europa, em particular Inglaterra. O Paraguai, por seu lado, manteve-se isolado. A longa ditadura dodoutor Francia (1814-1840) isolou aquele pas, ao cortar relaes diplomticas ecomerciais com os outros, exceo feita ao Brasil. Proibiu a imigrao e a emigra-o, tentou certa auto-suficincia baseada na agricultura e na indstria artesanal.Os dois ditadores que lhe sucederam no poder, Carlos Antonio Lpez (1840-1862) e seu filho, Francisco Solano Lpez (1862-1870), abriram o pas ao co-mrcio exterior e trouxeram imigrantes e tcnicos estrangeiros. Aqui temos umadas origens da grande conflagrao. Quando o Paraguai ensaiou uma aberturapara sua integrao no comrcio mundial, o ditador argentino Juan Manuel Ro-sas imps o bloqueio econmico ao pas vizinho. Os problemas de fronteira sesucedem e Carlos Lpez dedica-se criao de um bem-adestrado exrcito, pre-parado por oficiais alemes e equipado com armamentos europeus.

    A Argentina, por seu lado, cindia-se at 1853 em duas tendncias polticasbsicas, ou se se quiser, em duas correntes histricas de opinio: centralistas efederalistas. A Inglaterra pressionava os cientistas, em busca de segurana para omercado de seus produtos. Os federalistas lutavam pela produo de seus tecidos- de algodo, de linho e de l - e tambm de acar e vinho, ameaados pela

  • concorrncia inglesa. Aqui se estabeleceu uma aliana dos federalistas com osparaguaios, contra o perigo de absoro pelo imperialismo ingls.

    O Brasil, como se sabe, estava vinculado historicamente Inglaterra, so-bretudo aps os Tratados de 1810. Os setores exportadores e os segmentos inter-medirios beneficiavam-se daquilo que Graham denominou, em anlise clssica,"the onset of modernization in Brazil" (10). E o historiador carioca Jos HonrioRodrigues chegou a afirmar que o Brasil era um autntico protetorado ingls.Alguns de nossos notveis advogados da segunda metade do XIX, como RuiBarbosa e o senador Dantas eram, em sua poca, denominados, com um gro deironia, os nossos ingleses...

    Importa pois situar a guerra em seu quadro prprio e num longo processohistrico de definies e redefinies da geografia poltica e econmica sul-ame-ricana. Est-se ento em face de uma somatria de interesses novos, nascidosaps o perodo de consolidao das Independncias com relao s metrpolesibricas dos anos 1820. Inmeras questes de fronteira, problemas de navegaonos dois grandes rios da regio (Paran e Paraguai), abertura ao comrcio exterior,migraes, caudilhismo e coronelismo, regimes escravagistas (aberto no Brasil;semi-escravagista nos outros pases), confrontos tnicos e culturais, tudo se mis-turava nesse meado de sculo, naquela regio.

    Do ponto de vista (por assim dizer) do Paraguai, o choque agravava-se pelacrena generalizada de que as naes vizinhas seriam responsveis pela estagna-o do pas, condenado a viver dentro de fronteiras mal delimitadas, sem sadapara o mar (um problema, alis, atual, tambm para a Bolvia). No de seestranhar nessa perspectiva que as lutas na regio do Prata tenham sido contnuasdurante o sculo XIX. Vale lembrar que, j em 1825, o Brasil entrara em guerracom a Argentina pela questo da Banda Oriental (regio aproximadamente cor-respondente ao atual Uruguai). A paz, efetivada em 1828, com a mediao daInglaterra, resultou nessa nova nao, o Uruguai, livre e por assim dizer autnomo.

    Quanto ao ponto de vista da Argentina, o ditador Rosas negava-se a reco-nhecer a independncia do Paraguai, visando a fazer daquele pas uma provnciaargentina. De 1845 a 1852, Carlos Antonio Lpez resistiu. Finalmente, declarouguerra Argentina e penetrou em Comentes, fazendo recuar as tropas de Rosas.

    Com a queda de Rosas, toma o poder o general Urquiza (1800-1870), daprovncia de Corrientes, que tinha por desafio a reincorporao da provncia deBuenos Aires Confederao Argentina. Urquiza, simpatizante da causa paraguaia,reconhece a independncia do Paraguai em 1852 e assina um tratado de navega-o e limites. A guerra poderia ter a terminado, e no teramos talvez necessida-de deste colquio...

  • Mas, a essa altura, entra em cena novamente o Brasil. Tambm por ques-tes de fronteiras, o Paraguai j se vira forado a expulsar brasileiros: o presidenteda provncia do Mato Grosso j invadira terras paraguaias e se recusara a abando-nar suas posies. Mais: o Paraguai tentava estabelecer uma coligao com oUruguai e com as provncias de Comentes e Entre-Rios.

    A ecloso da guerra. O problema das origens.

    H certo consenso: uma das causas prximas da ecloso da guerra foi ainterveno poltico-militar do Brasil no Uruguai em 1864, h cento e trintaanos, no momento em que o Paraguai tentava articular uma nova configuraogeopoltica na Amrica do Sul.

    O Uruguai, governado por Atanasio Aguirre (1804-1875), do partidoblanco, era hostilizado pelo governo imperial brasileiro, sob o argumento de queos blancos no tomavam providncias em favor dos brasileiros ali residentes, ale-gando que estes sofriam prejuzos e eram despojados de seus bens.

    A Argentina no logrou ser intermediria no conflito e o governo brasilei-ro anunciou que suas tropas, estacionadas na fronteira, agiram em represlia con-tra os uruguaios. O presidente paraguaio Francisco Solano Lpez protestou con-tra a interveno brasileira, qualificando-a como "atentatria ao equilbrio dosEstados do Prata, que interessa Repblica do Paraguai como garantia de suasegurana, paz e prosperidade". A se localiza o estopim da guerra.

    Em sntese, e no plano dos acontecimentos, pode-se dizer que a conflagra-o se deve inicialmente firme determinao do presidente paraguaio SolanoLpez de "bloquear o esforo expansionista brasileiro". De fato, desde 1855 oImprio do Brasil vinha pressionando o Paraguai a assinar tratados de limites e denavegao, os quais nem Carlos A. Lpez nem seu filho Solano Lpez estavamdispostos a firmar.

    Enfatize-se mais uma vez, finalmente, o interesse da Inglaterra em obter aabertura de seu comrcio ao Paraguai.

    A guerra: um n histrico, poltico e ideolgico

    Os leitores naturalmente iro analisar, em ngulos diversos, a problemticado processo, seus desdobramentos e suas implicaes para a Histria e para ofuturo da sub-regio. Pode-se dizer que nesse processo houve a consolidao daordem neocolonial. Desde as Independncias, no processo das afirmaes nacio-nais e regionais, as lideranas sempre tiveram que se definir em suas associaes

  • ou contraposies com relao aos interesses das potncias em fase de desenvolvi-mento.

    A guerra marca uma inflexo, em que os Estados Unidos passam a comporo leque de interesses e foras externas atuando na regio. Na nova organizao deps-guerra, nos anos 80 do sculo passado - perodo que denominamos da passa-gem da, descolonizao ao imperialismo (11) -, assiste-se a novo impacto europeu-ocidental, seguido da presena norte-americana.

    No plano mais geral da Amrica Latina, a conscincia-limite foi dada pelopensamento de Jos Mart, com suas teorias sobre nuestra America. um novomomento de inverses de capitais, com expanso das economias de exportao ecom a europeizao das elites. Como observou Lus A. Romero, o positivismochegou a constituir uma verdadeira ideologia transnacional. Apesar de tudo, naAmrica Latina acentuavam-se as diferenas regionais: na Argentina, por exem-plo, afirmava-se a presena de uma oligarquia capaz de controlar as atividadesprodutivas dinmicas, ao contrrio das repblicas centro-americanas. A imigra-o massiva de mo-de-obra europia para o Cone Sul e para o Brasil, estimuladaou, quando menos, aceita por essas oligarquias, mudariam tal panorama.

    Em suma, a guerra contra o Paraguai sinaliza nesta regio do planeta o"casamento de uma descolonizao prolongada, seletiva e parcial com a dominaoimperialista", para utilizarmos a concisa formulao de Florestan Fernandes (12).

    O Paraguai termina a guerra exaurido. O comando aliado ocupou o gover-no e incumbiu o ministro das Relaes Exteriores, visconde do Rio Branco, dereorganizar o pas. O governo provisrio instalado em Assuno decreta a aboli-o dos escravos, a pedido do conde d'Eu. Grande parte da populao masculinaperecera durante a guerra. Com a economia devastada - sem emprstimos parareequipamento durante todo o perodo - e com subnutrio e epidemias de todasorte, o Paraguai tornara-se um pas de sobreviventes.

    Mas o Brasil tambm sofreu os efeitos da guerra, e a inflao foi um deles.Emprstimos da Inglaterra e emisso de papel-moeda elevaram o custo de vida,com descontentamento popular que, alis, j fora observado durante a luta custo-sa no territrio paraguaio (para muitos, a simples expulso dos paraguaios jteria bastado). Contra a Trplice Aliana tambm manifestaram-se outros pasesda Amrica Latina, como o Peru, a Colmbia e o Chile.

    Finalmente, no Brasil, ocorreu uma profunda mudana no Estado, com aemergncia ulterior do Exrcito como fora organizada e ideologicamente marcadapor idias republicanas. Nascia ento um novo tipo de oficial militar caracteriza-do por um autoritarismo progressista, defensor da abolio da escravido.

  • Na perspectiva de uma Histria contempornea da Amrica Latina quecontemple a historicidade especfica do subcontinente em sua longa durao, arevista a esse momento-chave de nossas histrias torna-se fundamental. Consoli-da-se ento a prpria idia de Amrica Latina.

    Nessa encruzilhada reside o n histrico de nosso passado comum e traum-tico que espera por mais estudos e reflexes. Um n histrico-ideolgico que,uma vez desatado, permitir talvez o arranque para um futuro crtico e democr-tico, no qual as disputas sejam equacionadas em fruns internacionais legtimos,abertos e modernos. No por acaso os Estados de Seguridad Nacional proibiamque se tocasse em certos temas-tabus, dentre eles a Guerra do Paraguai ou que seexaminassem figuras como Caxias ou Tamandar fora da tica oficial, sobretudoem momentos de construo de hidreltricas como Itaipu, em que a mo-de-obraparaguaia - e tambm brasileira - foi mais uma vez utilizada a preo vil.

    Notas

    1 Franco Maria Ricci, Cndido Lpez. Imgenes de la Guerra del Paraguay, con un textode Augusto Roa Basto. Introduccin crtica de Marta Dujovne, 1984. Contm aindaum catlogo geral com notas de Cndido Lpez a seus quadros, As cartas de umvoluntrio (Pio Correa da Rocha, nascido no serto de Araraquara e morto no Paraguai)apresentadas por Antnio Cndido e uma cronologia da Guerra do Paraguai.

    2 Ricci completa: "Somente nos ficam os quadros de Cndido Lpez, pintor-soldadoque se obstinou em pintar com a mo esquerda uma guerra em que perdera a direita"(ibidem).

    3 Hobsbawn diz ainda: "O restante dos ndios que resistiram conquista branca foramempurrados para a fronteira desta conquista. Apenas no norte da bacia do Prata ospovoados indgenas permaneceram slidos, e o guarani, ao invs de portugus ouespanhol, permaneceu como o idioma de facto para comunicao entre nativos ecolonos", em A Era do Capital, 1848-1875. Rio de Janeiro, 1979, p. 96.

    4 Cf. The Age of Empire, 1875-1914. New. York, Pantheon Books, 1987.

    5 Remeto brilhante anlise desse perodo - quando nasce a Argentina moderna e umahistoriografia no mais apenas baseada na memria coletiva do patriciado portenhocomo fonte histrica privilegiada - realizada por Tlio Halpern Donghi, Mitre e aformulao de uma histria nacional para a Argentina, publicada em Estudos Avanados,v. 8, n.20, 1994, Universidade de So Paulo.

    6 Idem, ibidem, p. 252.

    7 Idem, ibidem, p. 248.

    8 Srgio Buarque de Holanda, O Brasil monrquico. Do Imprio Repblica, v. 7 daHistria Gemida Civilizao Brasileira. So Paulo, Difuso Europia do Livro, 1972.

  • 9 Na batalha de Tuiuty, em 24 de maio de 1865, eram 35.000 aliados contra 23.000homens de Lpez: as baixas foram de 12.000 paraguaios (morreram cerca de 6.000paraguaios) e 3.000 brasileiros. Em setembro do mesmo ano, Mitre tentou tomarde assalto a fortaleza de Curupaity, sem sucesso, o maior desastre de toda a campa-nha aliada, quando perderam as esperanas de tomar a capital em curto prazo: mor-reram apenas 100 paraguaios contra 9.000 dos aliados. S em 1868 os paraguaioscomeam a ceder, aps cair Curupaity e Humait. Em conjunto, embora variemmuito as estimativas, pode-se dizer que o Paraguai tinha no incio da Guerra quase800 mil habitantes. Morreram cerca de 600 mil, restando uma populao de menosde 200 mil pessoas, das quais apenas cerca de 15.000 era do sexo masculino e,destes, cerca de 2/3 tinham menos de 10 anos de idade. Do lado dos aliados, tam-bm registram-se tragdias: a Coluna dos Voluntrios da Ptria que partiu do Riode Janeiro em abril de 1865, com cerca de 3.000 homens, levou dois anos parapercorrer 2.112 quilmetros. No trajeto, 1/3 do contingente se perdeu devido afebres e fome. No final, aps Laguna, foi ainda atacado por uma epidemia de clera.Na campanha das cordilheiras morreram 5.000 soldados paraguaios, o que muitose nos lembrarmos que o exrcito reorganizado pelo conde d'Eu, o genro de PedroII, era de 31.000 homens.

    10 Cf. Britain and the onset of modernization in Brazil, 1850-1914. Cambridge at theUniversity Press, 1968. O livro de Graham complementa em certo sentido a obrafamosa do professor Alan K. Manchester, British preeminence in Brazil; its rise anddecline; a study in European expansion. Chapel Hill, North Caroline University Press,1933, reeditada em 1968 pela Octagon Books. Importante tambm o livro doprofessor Leslie Bethell, A abolio do trfico de escravos no Brasil. A Gr-Bretanha, oBrasil e a questo do trfico de escravos 1807-1869. Rio de Janeiro, Ed. Expresso eCultura/Editora da Universidade de So Paulo, 1976.

    11 As Cincias Sociais na Amrica Latina: proposta de periodizao: 1945-1983, emInteligncia brasileira, (orgs.) Reginaldo Moraes, R. Antunes e Vera Ferrante. SoPaulo, Brasiliense, 1986.

    12 Florestan Fernandes, Poder e contrapoder na Amrica Latina, So Paulo, Zahar, 1981,p. 19.

    Carlos Guilherme Mota, historiador, professor de Historia Contempornea e de Hist-ria Social das Idias no Brasil da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas daUSP. Foi diretor-fundador do IEA-USP e da Ctedra Jaime Corteso. autor de vriasobras, entre elas Ideologia da cultura brasileira.

    Texto apresentado no colquio Guerra do Paraguai -130 anos depois, realizado em 24 denovembro de 1994, no Rio de Janeiro. O evento foi promovido pela Biblioteca Nacio-nal, com o apoio da Fundao Roberto Marinho e do Banco Real.

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