Grupos Vivenciais Sob Uma Perspectiva Junguiana

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Trabalho sobre grupos vivenciais sob a otica da psicologia analitica

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  • Psicologia USP, 2005, 16(3), 45-69 45

    GRUPOS VIVENCIAIS SOB UMA PERSPECTIVA JUNGUIANA

    Laura Villares de Freitas1 Instituto de Psicologia - USP

    Sociedade Brasileira de Psicologia Analtica

    Este artigo tece consideraes quanto possibilidade e ao alcance de grupos vivenciais, sob a perspectiva da Psicologia Analtica de Carl G. Jung, em nosso contexto socioeconmico atual. H uma proposta prtica de grupos de construo de mscaras e personagens, e a apresentao e comentrios das contribuies de diferentes autores que trazem conceitos junguianos clssicos para a dimenso grupal, consideram de maneira criativa o ritual, do ponto de vista psicolgico, e questionam a viabilidade de trabalhos grupais. Numa abordagem mitolgica, so considerados Grgona, Dioniso, rtemis, Eco e Narciso, com destaque deusa grega Hstia, cujas caractersticas so relacionadas a aspectos necessariamente presentes nos grupos vivenciais e possibilidade de ocorrer uma experincia psicolgica. Os grupos vivenciais so considerados favorecedores da perspectiva de alteridade, na medida em que cada participante tem neles a oportunidade de se afirmar e de ser confirmado, isto , de se expressar e de refletir, num campo interacional frtil.

    Descritores: Psicologia junguiana. Terapia de grupo de encontro. Psicologia do self. Mitologia.

    Grupos vivenciais sob uma perspectiva junguiana

    Psicologia encontra seu territrio num campo intermedirio e frontei-rio nem fsico, nem metafsico onde permitida e favorecida a

    1 Docente do Instituto de Psicologia - USP. Avenida Professor Mello Moraes, 1721 -

    CEP 05580-900, So Paulo, S. P. Telefone: (11) 3845-4526. Endereo eletrnico: lauvfrei@usp.br

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    interao entre polaridades e a criao contnua de algo que podemos cha-mar de individualidade. um local onde o uso do gerndio parece extre-mamente pertinente, pois o que psicolgico acontece acontecendo, e o que se define e se cria como produto de um processo logo passa a ser matria-prima de uma nova criao. Nesse territrio, h mais a equilibrao do que o equilbrio, mais o processo de individuao do que a aquisio da individua-lidade.

    Como fazer jus, em teoria e na prtica, a esse campo na atualidade? E como situar a Psicologia neste vertiginoso incio de milnio? Que referenci-ais podem norte-la? E que propostas de interveno comportam algum sig-nificado e encontram alcance prtico efetivo?

    Essa contribuio embasa-se na Psicologia Analtica de Carl G. Jung. Em pesquisa anterior (Freitas, 1988, 1991), caracterizei a psicoterapia como um rito atual de iniciao. Percorri seus antecedentes histricos e estabeleci tal relao a partir do fio norteador da vivncia simblica, que encontrei tanto em ritos iniciticos quanto no trabalho com sonhos em processos psi-coterpicos. Os relatos de sonhos forneceram-me exuberante material ilus-trativo, a tal ponto que sugiro denomin-los sonhos iniciticos.

    A seguir, diante da escassez de ritos significativos em nossa sociedade atual, dediquei-me a explorar e desenvolver um trabalho psicolgico grupal de construo de mscaras e personagens, tendo como conceitos centrais a persona e o processo de individuao. Conseqentemente, pude constatar a importncia e o potencial de grupos vivenciais (Freitas, 1990, 1995).

    Persona, Mscara e Grupos

    Dentre os conceitos bsicos que Jung props para compreendermos a psique, a persona foi aquele a que ele menos se dedicou. Inicialmente, Jung (1934/1977) definiu-a como um segmento, mais ou menos arbitrrio, da psique coletiva, desenvolvido com grande esforo e aparentando ser uma individualidade, mas constituindo apenas um compromisso entre o indivduo

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    e a sociedade, uma mscara superficial a ser removida para que o self, em toda sua exuberncia, pudesse se revelar e, a conscincia, se ampliar.

    No entanto, urge reconhecer o potencial criativo da persona. fato que ela pode ser rgida e impedir a vivncia de certos smbolos. Alm disso, possvel regredir a uma persona anterior em nossa vida, para evitar novos desafios. E todas as culturas possuem personas que podem colaborar mais para manter sua prpria coeso do que para promover a individuao dos membros que as adotam (ou seriam por elas adotados?), como, por exemplo, do louco e do marginal.

    Justamente por apresentar tantas possibilidades de desvio, estagnao e desperdcio de seu potencial simblico, a persona merece aprofundamento e especial considerao. Sugiro consider-la como uma estrutura da persona-lidade, cuja funo principal seja, a partir de sua expressividade, pr-nos em relacionamento, propiciar-nos o encontro de uma maneira de ser e estar com os outros, sem precisarmos, para isso, abandonar nossa individualidade ou os smbolos operantes a cada momento. Junto sombra, a persona pode propiciar a atualizao do potencial da personalidade, alm de ser confron-tada pelo ego, tornando-se mais flexvel ou mais adequada a cada situao vivida, alm de, em si, oferecer-nos cdigos culturais para a elaborao de smbolos na conduta e interao social.

    A persona sempre tem um carter mltiplo, pois necessitamos de v-rias mscaras para viver, em certo grau, e assim ela colabora para a apreen-so e expresso da multiplicidade do self.

    Ao veicular o que em ns j est pronto para assumir um canal de co-municao, ao buscar elementos no conjunto de papis sociais oferecidos pela cultura, que propiciam maneiras de interao, articulando-se com o self de modo a colaborar com seu movimento de equilibrao dinmica e cons-tante, a persona coadjuvante indispensvel no processo de individuao.

    O melhor meio que encontrei para a explorao da persona foi desen-volver um trabalho de construo de mscaras e personagens, com recursos expressivos corporais, plsticos e dramticos, no mbito de grupos vivenci-ais. O grupo define uma totalidade que sugiro chamar de self grupal, ampli-

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    ando o conceito junguiano de self individual, de maneira anloga que fez Byington (1985) quando utilizou o termo self teraputico.

    Por outro lado, a relao entre persona e mscara direta para o pr-prio Jung, podendo tambm ser identificada na linguagem coloquial e no campo das artes cnicas e das prticas ritualsticas religiosas.

    Ao pesquisar a mscara em diferentes contextos histricos, deparei-me com um fenmeno universal e de alta complexidade, encontrado em todas as pocas e continentes, e com autores (Caillois, citado por Bril, 1983) que consideram seu aparecimento anterior ao da roda. A mscara apresenta-se como maneira de auto-representao, meio de comunicao com seres de outra realidade em cerimnias religiosas ou, ainda, como manifestao arts-tica, forma de proteo, instrumento em rituais teraputicos, funerrios ou polticos. A mscara sempre um agente de transformao, seja no sentido de cura, mudana de status na comunidade, ou de comunicao, exigindo que algo essencial se manifeste.

    Ao buscar personagens da mitologia grega relacionados mscara, encontrei trs (Vernant, s.d.): em primeiro lugar, a Grgona, uma cabea-mscara, terrvel e ameaadora, potncia sobrenatural com poder de seduzir e petrificar, trazendo o sobrenatural, o pavor que evocado e a necessidade de descobrir maneiras seguras de aproximao. rtemis, a segunda divinda-de, inclui mscaras e mascaradas em seu culto. Considerada a senhora do mundo selvagem, vive em regies pantanosas e fronteirias, onde estabelece e zela por regras rgidas. Guardi do limite entre o selvagem e o civilizado, conhece e promove a passagem do primeiro para o segundo, desempenhan-do importante papel nos rituais destinados a crianas e jovens, ao prepar-los para a sexualidade e para a cidadania, protegendo-os at o momento de sua plena integrao social, sem deixar que se desarticulem o selvagem e o civi-lizado, tampouco que se invadam mutuamente. A terceira divindade grega associada mscara Dioniso, considerado o deus-mscara e o deus do teatro. Tambm associado ao vinho, s iluses e aos estados alterados de conscincia, o responsvel por trazer ao cotidiano rompantes do diferente e do inesperado, do vivenciado como catico ou de outra natureza, constituin-

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    do-se assim no deus da alteridade, e considerado estrangeiro pelos gregos. Chama ao encontro olho-no-olho, quando ocorre uma transformao. A experincia dionisaca, ao invs de nos integrar ao mundo, projeta-nos fora dele, eliminando barreiras entre o divino e o humano, o humano e o bestial, o aqum e o alm, dissolvendo fixaes e permitindo o desenrolar de pro-cessos.

    Desenvolvi uma maneira de trabalhar com grupos vivenciais que constroem mscaras e personagens, numa srie de encontros que tem como objetivo principal a explorao do potencial criativo da persona. H vrias etapas: uma etapa artesanal, em que se constri uma mscara e um persona-gem; uma etapa dramtica, em que se experimenta vivenciar e apresentar ao grupo o que foi criado, e uma etapa final, de elaborao verbal.

    As consignas, inspiradas em trabalhos com imagens, no conceito jun-guiano de imaginao ativa e em elementos encontrados nas pesquisas sobre a mscara, so feitas com o intuito de deixar brotar imagens mobilizadoras que serviro ao processo de elaborao, tanto no mbito individual quanto no grupal.

    Alguns grupos so visitados pela Grgona: a mscara criada evoca al-go pavoroso, a ser contatado e elaborado. A experincia dionisaca, por sua vez, est sempre presente, levando ao encontro do diferente, da transforma-o e a um estado de conscincia mais aberto, que incorpore o personagem. Com o toque dionisaco, a experincia da mscara deixa de ser bidimensio-nal, ganha plenitude, respirao, temperatura e movimento, permitindo a integrao de algo novo.

    E embora apie e propicie a vivncia, apenas Dioniso no basta. ne-cessrio rtemis, que contextualiza a experincia e permite as passagens, nos mbitos grupal e intra-psquico. Ela inspira consignas e favorece passa-gem extremamente difcil, de algo sombrio conscincia. Atravs das ms-caras e personagens, permitimos a aspectos da sombra experimentarem cer-tas personas, colocarem-se em comunicao e interao e serem integrados conscincia.

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    So elucidativos tambm os mitos gregos de Eco e Narciso, que foca-lizam a questo da reflexo e da expresso em diferentes nuances e possibi-lidades. Eco, a ninfa que se esvai beira do lago em que Narciso se observa fascinado, remete-nos expresso, que pode ser repetitiva, estagnada e levar ao definhamento ou, por outro lado, trazer o contexto relacional e a dimen-so ertica, de paixo, envolvimento e busca de comunicao. E Narciso, por sua vez, conduz-nos a um local onde a reflexo pode ser paralisada e paralisante ou, por outro lado, um meio de auto-conhecimento, busca de transcendncia do ego e possvel nascimento da linguagem.

    Para que a persona possa exercer seu potencial criativo, preciso co-tejar expresso e reflexo, usando todos os recursos de que dispomos: o cor-po e suas possibilidades simblicas, o convvio e a interao, a capacidade de estruturao da conscincia a partir das imagens e a possibilidade de lin-guagem oral, que inaugura um campo prprio e especialmente favorvel elaborao simblica.

    Coordenar um grupo vivencial implica encarregar-se do estabeleci-mento e manuteno de um campo interacional, no qual os smbolos possam se definir, apresentar, interagir e ser, em alguma medida, assimilados conscincia. Aspectos narcsicos da personalidade podem ter uma vivncia dionisaca, que lhes permita movimento, reconhecimento e interao. E aos aspectos ecostas dada a oportunidade de reflexo, experincia narcsica, e de conseqente busca de expresso e comunicao mais eficazes.

    Sendo a articulao entre persona e sombra constante e dinmica, a-bre-se a possibilidade de trabalhos vivenciais em contextos no estritamente teraputicos, mas pedaggicos. O trabalho em grupo permite inmeras pos-sibilidades, dependendo do objetivo proposto e do que se constele no campo interacional. H uma oportunidade, compartilhada, de ensaiar personas, de pr em movimento a totalidade psquica e, quem sabe, de criar novas perso-nas em nvel social, no mnimo, a de participante de grupos vivenciais, o que d certo suporte personalidade para que, em outros contextos, explore novos meios de reflexo e expresso de seus prprios smbolos e dos que se apresentem no mbito coletivo, em cada situao.

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    Grupos sob uma perspectiva junguiana?

    Ao percorrer as aluses de Jung ao tpico grupo, no conjunto de sua obra, somos constantemente alertados pelo autor dos perigos de regresso, contgio ou intoxicao psquica, criao de dependncia mtua, perda de autonomia, massificao e fuga do confronto consigo prprio. Jung deixa claro que seu mtodo de trabalho era a anlise individual e no estimulava trabalhos em grupos.

    No entanto, parece difcil compreender tal recusa num autor que enfa-tizou tanto a totalidade quanto a multiplicidade da vivncia psquica, a im-portncia da interao entre polaridades e props, como pilares, os conceitos de processo de individuao e de inconsciente coletivo. De alguma maneira, o individual e o coletivo encontram-se estabelecidos em seu referencial te-rico e, parece-me que, embora a individuao implique a ampliao e cons-tante estruturao dinmica da conscincia, o indivduo no sinnimo de ou equivalente conscincia, e tampouco coletividade corresponde a in-consciente.

    Whitmont (1974) estranha que Jung, com sua abrangente e complexa viso de ser humano, tenha considerado os grupos to unilateralmente, iden-tificando, muitas vezes, grupo e massa. Esse autor considera que explorar o inconsciente, em sua manifestao numa experincia grupal, to importan-te quanto experienci-lo pela introverso atravs de sonhos ou imaginao ativa, e aponta as vantagens do que denomina anlise num setting grupal: o indivduo sente que pertence a algo maior, pode experienciar tanto con-formidade quanto singularidade, buscar auto-sustentao, conviver com uma ampla gama de tipologias e pontos de vista, vivenciar situaes numa con-cretude maior e, alm disso, amplia-se o trabalho com as projees e as pos-sibilidades de um relacionamento genuno. Whitmont destaca que o arquti-po do grupo pode ser vivenciado tanto na dimenso que envolve sentir-se pertencendo, quanto na que implica valores e leis.

    Em outra obra, Whitmont (1991) defende uma nova tica para a poca atual, que valorize mais a experincia vivida do que preceitos pre-

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    estabelecidos, assim como a retirada de projees e considere tambm a perspectiva do outro. O autor defende uma aceitao acolhedora, que difere da resignao, e uma explorao ldica sustentada por uma atitude de per-manente busca, na qual a espontaneidade e a auto-disciplina coexistam, nu-ma constante autodescoberta e aperfeioamento de relacionamentos basea-dos em confiana e aceitao mtuas, tanto individual quanto coletivamente. O entendimento intelectual continua a ser importante, mas no suficiente; torna-se crucial uma av...

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