gravura - cadeno2

Click here to load reader

Post on 04-Aug-2015

47 views

Category:

Documents

1 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

ISSN 1679-4214 CPGravura IA / Unicamp novembro 2003

nmero 2

Artigos Henrique M-S Luise Weiss Ensaio de imagens Amir Brito Cador Andr de Miranda Lygia Arcuri Eluf Marcio Prigo Entrevista Armando Sobral, por Roberto Shwafaty

Documentos e Bibliografia Seleo Bibliogrfica

cadernos de [gravura]ISSN 1679-4214 o n 2, novembro de 2003www.iar.unicamp.br/cpgravura/cadernosdegravura Centro de Pesquisa em Gravura (CPGravura), Instituto de Artes, UNICAMP, 2003

Editora responsvel: Paula Almozara Secretria: Valria de Souza Cruz Reviso: Maria Alice da Cruz Paula (Monotipias: algumas consideraes, Luise Weiss). Demais textos sob responsabilidade dos autores Layout: Paula Almozara Conselho Cientfico: Luise Weiss Lygia Arcuri Eluf Mrcio Prigo Marco Francesco Buti Paulo Mugayar Khl Universidade Estadual de Campinas Prof. Dr. Carlos Henrique de Brito Cruz Reitor Instituto de Artes Prof. Dr. Jos Roberto Zan Diretor CPGravura Centro de Pesquisa em Gravura Profa. Dra. Lygia Arcuri Eluf Coordenadora Artigos, imagens, textos (com fontes e documentos) e resenhas para publicao devem ser enviados ao CPGravura e sero submetidos ao Conselho Cientfico; se aceitos, sero publicados nos prximos nmeros. Endereo para correspondncia: CPGravura Instituto de Artes Departamento de Artes Plsticas Cidade Universitria Zeferino Vaz C.P. 6159 CEP 13083-970 Campinas - SP - Brasil fax: (19) 3788-7827 e-mail: cpgravura@iar.unicamp.br IMPORTANTE O material aqui publicado de propriedade intelectual de seus autores. A impresso da revista e sua distribuio, para fins acadmicos, esto autorizadas e devem ser gratuitas; citaes para fins acadmicos esto autorizadas, desde que mencionada a fonte. As opinies emitidas pelos autores so de sua exclusiva responsabilidade, no expressando necessariamente a opinio do Centro de Pesquisa em Gravura do Instituto de Artes da Unicamp.

cadernos de [gravura] n 2, novembro de 2003

o

2

[editorial]

No segundo nmero dos cadernos de [gravura] apresentamos trabalhos dos artistas e professores responsveis pelas disciplinas de gravura do Departamento de Artes Plsticas do Instituto de Artes da Unicamp e do Centro de Pesquisa em Gravura da Unicamp: Luise Weiss, Marcio Prigo e Lygia Eluf. Tambm neste caderno encontramos os trabalhos de dois jovens pesquisadores e artistas: Amir Brito Cador e Henrique Marques-Samn. Andr de Miranda mostra imagens de seu trabalho com linleo com um texto de apresentao da gravadora Anna Carolina Albernaz. Na seo de documentos e bibliografia realizamos uma primeira e pequena seleo bibliogrfica, com referncias sobre: ilustrao, tcnicas de gravura, histria do livro, artistas gravadores etc.

Paula Almozara

cadernos de [gravura] n 2, novembro de 2003

o

3

cadernos de [gravura], n 2, novembro de 2003

o

[sumrio]

artigosHENRIQUE MARQUES-SAMN. A Modernidade na Pedra: representaes do Fin-de-Sicle em litografias francesas do fim do sculo XIX LUISE WEISS. Monotipias: algumas consideraes 5

19

ensaio de imagensAMIR BRITO CADOR. Mutus Liber ANDR DE MIRANDA. Reino misterioso do inconsciente LYGIA ARCURI ELUF. Terra vista MARCIO PRIGO. Vigilar e ter uma leve esperana de idias tangentes 24 28 36 44

entrevistaARMANDO SOBRAL por Roberto Shwafaty 48

documentos e bibliografiaSELEO BIBLIOGRFICA 1 51

cadernos de [gravura] n 2, novembro de 2003

o

4

[artigo]

A Modernidade na Pedra: representaes do Fin-deSicle em litografias francesas do fim do sculo XIXHenrique Marques-Samn

Bacharel em Filosofia, ps-graduando em Filosofia da Arte e Psicologia Social. Ensasta, tem textos publicados sobre arte e cultura em vrias revistas e peridicos. Colunista de fotografia nas revistas Fotosite e Moda Almanaque; editor, com a jornalista Laura Cnepa, da revista Anfiguri.

Resumo O presente artigo um ensaio sobre representaes de aspectos sociais e culturais do perodo histrico conhecido como fin de sicle (ou seja: o fim do sculo XIX) em litografias francesas do sculo XIX. Apresenta-se uma contextualizao histrica do perodo mencionado, bem como anlises sobre litografias de Eugne Grasset, Toulouse-Lautrec, Guydo e Honor Daumier. Abstract This article is an essay on representations of the historical period known as fin de sicle in french lithographs of the 19th. Century. Are analised some graphics of artists as Eugne Grasset, Toulouse-Lautrec and Honor Daumier.

I. IntroduoGlorificar a vagabundagem e o que se pode chamar o boemismo. Charles Baudelaire, Meu corao desnudado

Este artigo pretende analisar algumas litografias francesas do fim do sculo XIX, a fim de expor como nelas encontravam-se presentes representaes de aspectos scio-culturais caractersticos do Fin-de-Sicle. Comeo com uma contextualizao histrica do momento aqui abordado, concedendo especial ateno idia de decadncia ento em voga. A seguir, mostro as diferentes formas como os artistas reagiram ao ambiente niilista: alguns, criando uma arte inspirada em outros tempos, portadora de franco idealismo, como como os medievalistas ou os adeptos do japonesismo; outros, mergulhando no hedonismo e na decadnce, criando uma arte expressiva destas formas de vida. Analiso obras de Eugne Grasset, que curiosamente desenvolveu gravuras portadoras de referncias para as duas citadas vertentes; Toulouse-Lautrec, Honor Daumier e Guydo.

II. Fin de Sicle e DecadnceEm seu estudo sobre a Frana da virada do sculo XIX para o XX, o historiador Eugen Weber dedica, sintomaticamente, vrias das pginas iniciais ao estudo da noo de decadncia. Embora seja esta uma idia h muito conhecida pela humanidade, neste perodo ela adquire facetas muito peculiares e particularmente prximas da vida cotidiana. J desde a poca da Revoluo Francesa, era comum a crena de que vivia-se em uma poca de decadncia: preguia, falta de bom gosto e excesso de capricho eram vistos como sintomas de uma sociedade que seguia o caminho para baixo sem sequer olhar para trs.

cadernos de [gravura] n 2, novembro de 2003

o

5

Como bem percebeu contemporaneamente o socilogo Emile Durkheim, a sociedade francesa vivia uma profunda crise moral. As geraes francesas mais antigas haviam vivido nada menos que duas significativas derrotas militares, em 1814-5 e 1870-1; vrias formas de solidariedade haviam rudo junto com os valores que haviam sido abandonados notavelmente, os valores religiosos. Ademais, houve o sbito crescimento das cidades: no incio do sculo, Paris era a nica cidade com mais de cem mil habitantes; em 1911, quinze cidades atingem este patamar, alm de emergir um novo tipo de aglomerao urbana a periferia. Este crescimento urbano foi acompanhado por toda a srie de problemas decorrentes da industrializao: a diviso de trabalho industrial e os conflitos entre o empresariado e a classe operria. Por isso o termo Belle poque utilizado como referncia a esta poca traz em si, como nota o socilogo Renato Ortiz, um 1 sentido nostlgico, algo como um passado ureo perdido para sempre . Tudo isso ajudou a disseminar a crena de que a poca vivia uma franca decadncia. Duas matrizes amplificaram esta percepo: de um lado, a vulgarizao da teoria de Darwin, que concedeu um certo sentido hereditrio ao elitismo social no se tratava simplesmente de os homens no serem iguais, mas de as desigualdades serem hereditrias. No era o mrito, mas um elitismo predeterminado que traava os destinos dos homens e das sociedades. Ento 2 para que se esforar? ; de outro, a popularizao, a partir da dcada de 1840, de estudos sociais que documentavam e dramatizavam a misria e suas causas patolgicas: a doena e o crime. A vida moderna, nas cidades, era responsabilizada pela deteriorao fsica e psquica. Em 1908, em um debate na Cmara, Louis Grard-Varet falou em uma espcie de neurastenia coletiva, um desarranjo da conscincia coletiva que o novo ritmo urbano suscitava em seus 3 cidados . No entanto, os efeitos que esta sensao de inevitvel decadncia tiveram nos cidados mostraram-se diversos. Para alguns, tratava-se de uma falncia social completa: o aumento da criminalidade, com o requinte do surgimento de novas modalidades de crime, como os ataques com cido; a multiplicao de bares, com o conseqente aumento do consumo de lcool; a impotncia da fora policial que, no bastasse sua incompetncia, ainda era mal vista pela populao. Alguns buscaram outras formas alternativas de lidar com esta atualidade que parecia caminhar para o vazio: muitos encontraram sadas na idealizao medievalista ou orientalista. Outros decidiram render-se sensao de inevitabilidade, o que teve como efeito uma aceitao de tal destino. Para estes, a vida transformou-se em uma espcie de afirmao da decadncia: o vcio tornou-se objeto de glorificao; o desregrado hedonismo, forma inevitvel de existncia. A inverso de valores a tal ponto chegou que, como nota Weber, a corrupo foi expurgada de todo o seu sentido negativo ou destrutivo; transfigurou-se em vivncia redentora, caminho para a transcendncia da 4 mediocridade sufocante das convenes de todos os dias . Estas duas sadas, como logo veremos, s variaes artsticas presentes na Art Nouveau: de um lado, o chamado Japonesismo (ou Japonismo) e o Medievalismo, em verdade herdado da tendncia Pr-Rafaelita; de outro, a exaltao da transgresso e do decadentismo. No entanto, antes de mergulharmos neste exame mais detido destas tendncias, cabe compreender mais detidamente o papel da arte na modernidade precisamente o momento histrico acerca do qual trata este ensaio.

1 2

Cf. Ortiz 1991: 52. Weber 1988: 32. 3 Apud id. 4 Cf. ibid.: 26.

cadernos de [gravura] n 2, novembro de 2003

o

6

III. Arte e modernidadeO conceito de modernidade modernit foi introduzido por Charles Baudelaire em sua obra O pintor da vida moderna. A modernit caracterizada tanto como uma qualidade da vida moderna