GOVERNANÇA TERRITORIAL EM EXPERIÊNCIAS DE INDICAÇÃO ... ?· Trata-se de uma análise exploratória…

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DRd Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029)

v. 6, n. 2, ed. esp., p. 228-246, jul. 2016.

GOVERNANA TERRITORIAL EM EXPERINCIAS DE INDICAO

GEOGRFICA: ANLISES E PROSPECES1

Cilmara Correa de Lima Fante2

Valdir Roque Dallabrida3

RESUMO

O objeto de anlise a forma como esto organizadas experincias de associativismo

territorial, no caso as de Indicao Geogrfica, como uma estrutura de governana territorial.

Trata-se de redes horizontalizadas, envolvendo conjuntos de organizaes, instituies e

atores, com atuao territorial. Tomando como referncia a estrutura organizacional da

Regio do Cerrado Mineiro, fazemos anlises e inferncias sobre uma possvel estrutura de

governana para a Indicao Geogrfica da erva-mate, no Planalto Norte Catarinense e

Centro-Sul do Paran. Conclui-se que, a amplitude do territrio analisado se apresenta como

um dos maiores desafios, exigindo uma estrutura de governana multinvel, envolvendo

instncias representativas de carter local, regional, estadual e interestadual, e multiescalar,

atingindo estruturas de representao interestaduais, nacionais e at internacionais, alm de

conseguir envolver todos os elos da cadeia produtiva da erva-mate, nos dois estados, Santa

Catarina e Paran. No entanto, entendemos que este seja o avano necessrio para a

finalizao do processo de estruturao da Indicao Geogrfica da erva-mate no referido

recorte territorial.

Palavras chave: Governana Territorial. Erva-Mate. Indicao Geogrfica. Planalto Norte

Catarinense.

ABSTRACT

TERRITORIAL GOVERNANCE IN GEOGRAPHICAL INDICATION OF

EXPERIENCES: ANALYSES AND PROSPECTION

The object of analysis is the way they are organized experiences of territorial associations in

the case of the Geographical Indication as a territorial governance system. It is flatter

networks involving sets of organizations, institutions and actors with territorial action. With

reference to the structure of the organization of the Cerrado Mineiro region, make analyzes

and inferences about a possible governance structure for the Geographical Indication of yerba

mate, the North Plateau of Santa Catarina and Central-South of Paran. We conclude that the

1Uma primeira verso desta abordagem foi preparada para apresentao no 3 SEDRES - Seminrio de

Desenvolvimento Regional, Estado e Sociedade (Blumenau SC - Brasil) e V Encontro Internacional do

CONPEDI - Montevidu Uruguai (2016). 2Graduada em Direito e Mestranda em Desenvolvimento Regional na Universidade do Contestado (UnC). Santa

Catarina. Brasil. E-mail: cilmarafante@unc.br 3Gegrafo, Doutor em Desenvolvimento Regional, com atuao no Programa de Mestrado em Desenvolvimento

Regional da UnC. Santa Catarina. Brasil. E-mail: valdirdallabrida@gmail.com

mailto:cilmarafante@unc.brmailto:valdirdallabrida@gmail.com

Governana territorial em experincias de Indicao Geogrfica: anlises e prospeces

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DRd Desenvolvimento Regional em debate (ISSNe 2237-9029)

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amplitude of the analyzed territory presents itself as a major challenge facing, requiring a

multi-level governance structure, involving representative instances of local, regional, state

and interstate character, and multiscale, reaching interstate representation structures, national

and even international, plus you get involve all the productive links in the chain of yerba

mate, in both states, Santa Catarina and Paran. However, we understand it to be the

breakthrough needed for the finalization of the structuring the process of Geographical

Indication of yerba mate in said territorial clipping.

Keywords: Territorial Governance. Mate Herb. Geographical Indication. North Plateau of

Santa Catarina.

INTRODUO

Nos processos de reconhecimento de uma Indicao Geogrfica (IG) deve-se,

necessariamente, dar a importncia devida organizao dos atores envolvidos. A esses

processos de organizao que fazemos referncia como sua estrutura de governana

territorial. Trata-se de formar uma rede colaborativa horizontal com o fim de proceder a

articulao, no caso do processo em estruturao, e a gesto, quando a experincia j esteja

em funcionamento. Ao falar em Indicao Geogrfica, nos referimos a processos de

reconhecimento de produtos que se destacam pela sua especificidade territorial e notoriedade.

Como elemento de sustentao terica para a anlise de processos dessa natureza,

concebemos governana territorial como um processo de planejamento e gesto de dinmicas

territoriais, focado numa tica inovadora, partilhada e colaborativa, por meio de relaes

horizontais (DALLABRIDA, 2015).

Sobre a estrutura de governana territorial, em especfico das IG, ao analisarmos a

trajetria da experincia da Regio do Cerrado Mineiro, onde o produto reconhecido o caf,

constata-se uma forte cooperao dos atores locais para a gesto e funcionamento da mesma,

graas a uma estrutura de governana territorial que merece destaque. Assim sendo,

entendemos que tal experincia pode servir de referncia para inspirar a estrutura de

governana de experincias que apresentem semelhanas, em termos de tamanho, rea de

abrangncia e/ou tipologia do produto a ser reconhecido como IG.

em funo desse entendimento que neste texto fazemos indicativos de uma possvel

estrutura de governana territorial para a experincia da IG da erva-mate do Planalto Norte

Catarinense e Centro-Sul do Paran, que est na fase final de estruturao. Pensamos numa

estrutura de governana capaz de dar suporte e respaldo ao processo organizativo e futura

gesto, envolvendo todos os elos da cadeia produtiva da erva-mate, ou seja, os atores

territoriais. Trata-se de uma anlise exploratria sustentada em um estudo de caso, a partir do

qual fazemos prospeces que podero servir no processo organizativo da experincia

catarinense e paranaense.

O texto, alm desta introduo, compreende os aspectos metodolgicos, referenciais

tericos sobre governana e Indicao Geogrfica, a apresentao das duas experincias de

IG, finalizando com anlises e prospeces em relao ao caso da erva-mate.

Cilmara Correa de Lima Fante; Valdir Roque Dallabrida

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O CAMINHO METODOLGICO

As anlises que pretendemos fazer no presente texto, em primeiro lugar, esto

contextualizadas em estudos referentes a um projeto de pesquisa, o qual se prope analisar

vrios aspectos de experincias brasileiras e internacionais de Indicao Geogrfica. Trata-se

do Projeto de Pesquisa Signos Distintivos Territoriais e Indicao Geogrfica: um estudo

sobre os desafios e perspectivas como alternativa de Desenvolvimento Territorial, o qual

conta com a participao de pesquisadores do Brasil, Portugal, Espanha e Argentina. O foco

da anlise deste texto estar centrado exclusivamente num dos aspectos em estudo no referido

projeto: a estrutura de governana territorial.

Em termos de tipo de pesquisa da qual resultou o presente texto, trata-se de uma

anlise com carter qualitativo. No entanto, tem caracterstica tambm de estudo de caso,

pois, as anlises so feitas a partir de uma experincia, no caso a IG Regio do Cerrado

Mineiro, j em funcionamento. Prospectivamente, pretendemos utilizar a experincia mineira,

como referncia para propor indicativos quanto possvel estrutura de governana do caso da

erva-mate no Planalto Norte Catarinense e centro-sul do Paran, j na fase final de

estruturao (julho/2016).

O estudo da experincia da IG Regio do Cerrado Mineiro foi realizado a partir do

acesso aos documentos disponveis nos rgos diretivos da associao e cooperativas que

compem a estrutura de governana da IG, alm de uma visitao in loco e entrevistas com

dirigentes e produtores rurais. Nas entrevistas, o tema foco foi a consulta sobre o processo

organizativo, bem como os desafios enfrentados e ainda presentes. A visitao da experincia

mineira foi realizada em novembro de 2015.

J os dados e informaes sobre a experincia da erva-mate foram pesquisados em

documentos, atas de reunies, alm de constataes in loco, pela participao pessoal em

reunies para a estruturao da IG, nos ltimos trs anos.

A escolha dessas duas experincias para referir-se ao tema governana territorial se

deve ao fato de que, ambas, tm uma caracterstica em comum: so experincias de Indicao

Geogrfica nas quais o produto objeto de IG est distribudo em reas territoriais de grande

porte e/ou de forma descontnua territorialmente, ou seja, abrangendo vrios municpios e at

Estados da Federao, como o caso da erva-mate. Essa a razo de se utilizar a atual estrutura

de governana territorial da IG Regio do Cerrado Mineiro, para se fazer inferncias sobre a

experincia da erva-mate.

O DEBATE TERICO SOBRE GOVERNANA4

Para tratar do tema governana territorial em experincias de Indicao Geogrfica

(IG) nos deteremos na abordagem terica sobre governana e governana territorial. No final

da abordagem faremos uma reflexo terico-prtica sobre o desafio da gesto de experincias

de IG, tomando como referncia as concepes sobre governana territorial.

4Tema tratado em vrias publicaes, dentre elas, destacamos Dallabrida (2015).

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Sintetizando contribuies dos principais autores, o conceito de governana, no seu

sentido geral, refere-se s redes auto-organizadas envolvendo conjuntos complexos de

organizaes, instituies e atores provenientes dos setores pblico e privado (ROSENAU;

CZEMPIEL, 1992), como representantes do setor empresarial, dos sindicatos de

trabalhadores, da sociedade civil, dos movimentos populares e agentes estatais

(KAZANCIGIL, 2002), agindo num processo interativo (STOKER, 1998), cujas interaes

esto enraizadas e reguladas por regras do jogo negociadas e acordadas pelos seus

participantes (RHODES, 1996).

Um conjunto de obras faz referncia governana territorial. Em sntese, estes autores

definem governana territorial como: (i) processo de planejamento e gesto de dinmicas

territoriais desenvolvido numa tica inovadora, compartilhada e colaborativa por meio de

relaes voluntrias e no hierrquicas de associao entre atores pblicos, semipblicos e

privados (FERRO, 2013); (ii) novo modo de gesto e deciso dos assuntos pblicos num

territrio como modalidade reforada de bom governo fundamentada simultaneamente no

papel insubstituvel do Estado, numa concepo mais sofisticada de democracia e num maior

protagonismo da sociedade civil (FARINS, 2008; ROMERO; FARINS, 2011).

Sustentados em parte nas concepes ora explicitadas sobre governana e sua relao

com o desenvolvimento territorial, assume-se neste artigo o posicionamento referenciado em

Dallabrida (2015, p. 325).

A governana territorial corresponde a um processo de planejamento e gesto de

dinmicas territoriais que d prioridade a uma tica inovadora, partilhada e

colaborativa, por meio de relaes horizontais. No entanto, esse processo inclui lutas

de poder, discusses, negociaes e, por fim, deliberaes, entre agentes estatais,

representantes dos setores sociais e empresariais, de centros universitrios ou de

investigao. Processos desta natureza fundamentam-se num papel insubstituvel do

Estado, numa noo qualificada de democracia, e no protagonismo da sociedade

civil, objetivando harmonizar uma viso sobre o futuro e um determinado padro de

desenvolvimento territorial.

Segundo Ferro (2013), a passagem da tica de governo a uma tica de governana

no pode ser interpretada como um processo sequencial de natureza radical, em que a segunda

substitui a primeira, anulando-a. Mesmo no aparecendo explicitamente nas anlises, o que

ocorre a excessiva focalizao nas formas e estruturas de governana, no favorecendo a

anlise mais dialtica, centrada na relao que deve existir entre formas de governo e de

governana.

Autores, como Moulaert; Parra e Swyngedouw (2014), ressaltam a necessidade da

anlise interescalar, justificada no reconhecimento da quase impossibilidade que apresenta o

nvel local para dar conta por si s dos problemas que enfrenta e, por outro lado, no fato de

que as relaes entre atores em processos de associativismo territorial so cada vez mais do

tipo multiescalar, o que exige que a estrutura de governana, tambm, tenham o carter

multiescalar.

Referindo-se a experincias de associativismo em bairros, no espao urbano, afirmam

os autores que ao falarem em governana procuram atender a um objetivo:

[...] a transformao de relaes sociais e estruturas de poder, tanto dentro da

comunidade como entre grupos locais e atores externos, com o fim de transformar os

estilos de governana em prticas sociais mais inclusivas e democrticas, e criar

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sistemas de participao poltica multiescalares (MOULAERT, PARRA e

SWYNGEDOUW, 2014, p. 19).

Ressaltam, ainda, os autores que nas iniciativas socialmente inovadoras por eles

observadas, ao utilizarem proativamente estratgias sociopolticas multiescalares, foi possvel

distinguir o atendimento de um conjunto de objetivos, tais sejam: (i) difundir suas prticas

inovadoras com o fim de obter o reconhecimento; (ii) organizar mobilizaes mais amplas em

torno de questes sociais, culturais e polticas; (iii) construir sinergias entre recursos

econmicos, sociais, culturais e polticas e, (iv) mobilizar organizaes da sociedade civil

regionais e nacionais para exercer influncia ou presso sobre instituies estatais, com vistas

ao atendimento de seus pleitos (MOULAERT, PARRA e SWYNGEDOUW, 2014).

No entanto, mesmo reconhecendo a importncia da esfera pblica onde ocorrem

processos de governana, seja do tipo territorial ou multiescalar, o Estado continua

desempenhando um papel importante. So questes relativas ao papel do Estado: (i) fomentar

contratos coletivos entre organizaes da sociedade civil e rgos pblicos; (ii) concentrar

esforos em iniciativas socialmente inovadoras ativas e interescalares, no lugar de optar por

polticas tradicionais, mesmo que propostas pela ao coletiva territorial; (iii) estabelecer

redes de iniciativas de inovao social escalares - cruzad...

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