governança, meio ambiente e transição de revisado para vii... · autocrático de gestão...

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  • Governana, Meio Ambiente e Transio de Paradigmas

    Fernando Jos Pereira da Costa1

    Manoel Gonalves Rodrigues2

    Resumo Com a crise do Estado do Bem-Estar, emerge o conceito de governana, com as suas diversas definies e concepes. No contexto da proposta de governana surge, e isto claro no caso brasileiro, a concepo participativa, que v com desconfiana o Estado enquanto formulador, gestor e executor de polticas pblicas, notadamente a nvel da esfera tcnica e planificadora. A viso participativista, ao contrrio de muitas concepes que advogam a participao pblica da sociedade civil, em interao com o poder pblico, desconsidera a funo tcnico-planejadora do Estado e de sua burocracia, enxergando, inclusive, no desmantelamento do Estado, a oportunidade de avano a nvel de suas propostas e aes. Conclui-se que somente se alcanar a governana estratgica, quando o Estado atravs do planejamento estratgico agir sinergicamente com a sociedade civil, isto interao Estado-sociedade) de modo a assegurar a transio de paradigmas a nvel energtico e ambiental. Palavras-chave: Governana Estratgica, Paradigmas, Meio Ambiente

    Introduo A governana, enquanto conceito, aplica-se no somente esfera corporativa, mas questo urbana, componente energtica e ao meio ambiente, passando a considerar novos arranjos (poltico-gerenciais) que dem suporte concretizao/viabilizao de novas prticas que considerem os riscos e oportunidades relativos a uma envolvncia externa cada vez mais voltil, em transformao acelerada e que, no que se refere, de modo mais especfico, governana urbana, pode oscilar entre a chamada democracia participativa e as inter-relaes entre o planejamento tecnocrtico e a governana comunitria (FREY, 2007, p. 136). A governana surge, ento, como forma de superar o modelo neoliberal de desenvolvimento (muito embora estejam a situadas as suas razes terico-conceituais) e de atender s crescentes demandas da sociedade civil, de forma a estimular aes direcionadas ao Desenvolvimento Sustentvel, atravs das novas tendncias da administrao pblica e da gesto das polticas pblicas, bem como ao recurso a novas formas de articulao poltico-administrativa que representem a transio do princpio

    1 Economista, doutorando em economia pela Universidade de Santiago de Compostela, Espanha (e-

    mail:fjpcosta@sapo.pt) 2 Engenheiro, doutor em engenharia mecnica com foco em energia e meio ambiente pela Unicamp,

    Brasil (e-mail:manoel.grodrigues@gmail.com)

  • da autoridade estatal para a abordagem da gesto compartilhada/interinstitucional (setor pblico, setor produtivo e terceiro setor). Pode-se considerar o governo como um entre os muito influentes atores sociais que se encontram envolvidos na formulao/implementao das polticas pblicas (FREY, 2007, pp. 137 e 138). De acordo com Gaventa (2001, pp. 2 e 3), a governana participativa pode servir como alternativa ao ataque neoliberal contra o Estado (desregulao, privatizao, reduo dos gastos sociais, corte geral dos gastos estatais), no sentido de se opor ao desmantelamento do Estado e propor uma nova forma de interveno estatal (democrtico-participativa e no liberal-econmica). Estado, Sociedade e Gesto Pblica Um novo modelo de gesto de polticas pblicas, no qual o gestor pblico supere a sua faceta meramente tcnica e assuma o seu lado poltico (processo de negociao com os diversos atores), no contexto de um planejamento estratgico de mdio/longo prazo, de modo a dotar as aes governamentais de legitimidade e a viabilizar uma boa governana, introduzindo-se aqui a proposta da democracia participativa, deve ser configurado. Na sequncia disto, apresenta-se a crtica ao Estado centralizador (superao do paradigma tecnocrtico), a proposta participativa como forma de superar o modelo autocrtico de gesto (participao popular na gesto das polticas pblicas) e o abandono dos projetos sociais a partir da hegemonia do neoliberalismo nos anos 70/80 do sculo XX. Caberia aqui apresentar a crtica essa concepo (democrtico-participativa). Antes de mais nada, no se cr que seja possvel erigir um Estado minimamente eficaz (enquanto ator) a nvel da configurao, delineamento, gesto e implementao de polticas pblicas, bem como enquanto entidade poltico-planificadora, descartando-se a tcnico-burocracia. Na verdade, se fato que o paradigma weberiano teria sido superado, o que se deveria buscar, no contexto de uma abordagem neoweberiana, seria a formao de uma neoburocracia, muito mais profissional, meritocrtica e estratgica do que a burocracia weberiana tpica. Esta tcnico-burocracia de tipo novo estaria de acordo com a busca por um Estado mais flexvel, eficiente e estratgico (e at contingencial). Por outro lado, com relao questo da crtica configurao do Estado, h que considerar que o modelo de Estado vertical no pode ser tomado como o vilo de todas as estrias, pois h que recordar que partindo da experincia prussiana, passando pelo projeto varguista e chegando, aos dias de hoje, s pujantes economias do Sudeste Asitico, a concepo vertical-estatista at que no se saiu muito mal. Na verdade, se o estado keynesiano entrou em crise na dcada de 70 do sculo XX, cedendo espao ao projeto neoliberal, o Estado tcnico-burocrtico-estratgico neoconfuciano parece se encontrar de plena sade.

  • De outro modo, abandonar o modelo vertical e caminhar em direo ao modelo horizontal constitui-se em experincia que, na viso deste trabalho, muito dificilmente se realizar por completo, pois por maior (e desejvel) que seja o nvel de interao Estado-sociedade, a componente estatal desse binmio ter sempre uma estrutura hierrquico-verticalizada (ainda que esta possa ser minimizada via interao com a sociedade). A questo, ento, passa por se estruturar um Estado moderno e modernizador, com uma neoburocracia (tcnico-burocracia neoweberiana), maiores nveis de eficcia/eficincia, uma nova interao com a sociedade, uma estrutura hierrquico-vertical mitigada e uma postura sistmico-estratgica. Portanto, a descentralizao do Estado, quer a nvel poltico-administrativo, quer em termos da gesto das polticas, quer ainda quanto ao processo de tomada de deciso, desejvel (mormente no contexto de uma maior interao Estado-sociedade), mas no se pode esquecer que o Estado necessita de um mnimo de estrutura tcnico-burocrtico-administrativa para poder delinear/implementar polticas pblicas de forma integrada, sistmica e estratgica. Na concepo deste trabalho, no se pode conceber o Estado desprovido de uma base orgnico-tcnica e de uma estrutura tcnico-burocrtica para desempenhar minimamente suas funes, mormente a nvel do planejamento. Ao se reduzir o poder de interveno/regulao do Estado e da tcnico-burocracia estatal, como pretende a vertente participativa (vis participativista), anula-se a capacidade planejadora (planejamento estratgico) do Estado. As concepes participativistas reduzem o planejamento estratgico viso de curto/mdio prazo, no considerando que um pas ou uma economia, por exemplo, devem ser pensados (estrategicamente) a longo prazo. Ao no se considerar o planejamento (planejamento estratgico) a la longue, as concepes participativistas desprezam a viso estratgica e o papel do Estado como agente sistmico-planificador e promotor/viabilizador de saltos qualitativos importantes a nvel do processo de desenvolvimento das sociedades (em termos produtivos, industriais, tecnolgicos, educacionais, culturais, etc.). Cabe registrar que as vises participativistas parecem no discordar de muitas das crticas feitas ao Estado por parte das concepes neoliberais. A crtica maior, por parte das vises participativistas, s polticas neoliberais, parece residir no abandono s polticas sociais. Os participativistas no buscam corrigir esse aspecto atravs da reconstruo/modernizao do Estado, mas antes pela intensificao da participao e da afirmao do setor pblico no-estatal (o terceiro setor), composto pelas organizaes sociais pblicas no estatais, tomando como bsico o que deveria estar na ponta do sistema social (FERRAREZI, s/data, p. 1). As vises da vertente participativa (na verdade, liberal-participativista) face ao Estado, exceo. em parte, da questo das polticas sociais, em nada diferem do iderio neoliberal. De fato, a viso liberal-participativista, ao direcionar suas baterias contra a estrutura estatal vertical-hierrquica, a tcnico-burocracia e a base tcnico-planficadora

  • do Estado, a pretexto de buscar uma maior participao da populao, est, na verdade, a questionar o papel do Estado enquanto agente interventor/regulador, poltico-administrativo e burocrtico-planejador. E, com isso, inviabiliza-se a proposta do Estado enquanto delineador/promotor de um planejamento integrado, sistmico e estratgico. . O Estado, enquanto delineador, gestor e implementador de polticas pblicas, deve promover a formao de capital humano (educao, formao, capacitao e sade), bem como investir, de forma direta/indireta, em cincia e tecnologia, que se mostram como variveis estratgicas no mbito da insero ativa dos pases no quadro da economia mundial (FERRAREZI, s/data, p.3). Para Ferrarezi (s/data, p. 10), o Estado deve ter sua ao predominantemente voltada para problemas estratgicos (equidade na aplicao de recursos, articulao do econmico com o social, definio das prioridades sociais, estabelecimento das diretrizes gerais de uma poltica de desenvolvimento, garantia de financiamento das polticas sociais e sinalizao da direo dos investimentos), de forma a promover alianas estratgicas e obter sinergias. Entretanto, na concepo deste trabalho, a postura estratgica do Estado (o principal planejador estratgico) muito mais ampla e profunda do que esses aspectos pretendem traduzir. O Estado deve ser o agente responsvel pelo delineamento/implementao do planejamento estratgico, no qual se consubstanciem todas as esferas da poltica pblica (produtiva, industrial, tecnolgica, socia