gancho introd poesia corrigido

Download GANCHO Introd Poesia Corrigido

Post on 08-Jul-2015

858 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

GANCHO, Candida Vilares. Introduo poesia. So Paulo, Atual, 1989.CANDIDA VILARES GANCHO: INTRODUO POESIA. SUMRIO PARTE I A ABORDAGEM DA POESIA 1. INTRODUO Gneros literrios O gnero lrico Terminologia potica 2. CARACTERSTICAS DA POESIA Subjetividade Estrutura em versos Ritmo Exerccios 3. A LINGUAGEM DA POESIA Lngua e linguagem Linguagem conotativa e linguagem denotativa Caractersticas da linguagem da poesia Exerccios 4. A IMAGEM POTICA Caractersticas da imagem Analogia Mltipla significao Exerccios 5. FORMA E CONTEDO DO POEMA O contedo do poema Tema e assunto A forma do poema Mtrica Metro: definio e tipos Rima: definio e tipos Outros recursos sonoros Estrutura em versos e estrofes 6. TIPOS DE POEMA QUANTO FORMA Quanto mtrica Poemas metrificados Poema em versos livres Quanto rima Poemas rimados Poemas em versos livres Quanto rima Poemas rimados Poemas em versos brancos O soneto Exerccios PARTE II POESIA: OUTRAS QUESTES 1. O POETA Poeta ou poetiza? O eu potico Exerccios 2. Exerccios POESIA E METALINGUAGEM

1

GANCHO, Candida Vilares. Introduo poesia. So Paulo, Atual, 1989.3. POESIA E MODERNIDADE Modernidade Temas modernos Estrutura e estilo modernos Caractersticas formais e estilsticas da poesia moderna Exerccios 4. MISTURA DE GNEROS Poema narrativo Poema descritivo Poema teatral Poema dissertativo PARTE III COMO ANALISAR UM POEMA ANLISE E INTERPRETAO Modelo de anlise Primeiro contato com o texto Tpicos para anlise Exemplo de anlise Exerccios PARTE IV EXERCCIOS POTICOS BIBLIOGRAFIA COMENTADA

2

GANCHO, Candida Vilares. Introduo poesia. So Paulo, Atual, 1989.Parte I A ABORDAGEM DE POESIA. 1. INTRODUO

3

De modo geral a poesia e seu estudo so considerados pela maioria dos alunos como algo difcil, chato, enfim, sem sentido. Tal preconceito pode ser reforado por um ensino inbil, preocupado somente com transmitir uma srie de conceitos dos quais voc j deve ao menos ter ouvido falar: rima, mtrica, verso, estrofe, etc. Neste livro, pretende-se levar o leitor a se familiarizar com o texto potico e reconhecer o, digamos assim, esprito potico. Vamos procurar nos aproximar dele sem ideias preconcebidas para que possamos compreend-lo melhor. A poesia est mais prxima de ns do que imaginamos. H poesia nas letras de msica: No posso ficar nem mais um minuto sem voc Sinto muito, amor, mas no pode ser Moro em Jaan. Se eu perder esse trem Que sai agora s onze horas S amanh de manh [...] nas brincadeiras infantis A vaca amarela Fez aquilo na panela Quem falar primeiro Come toda a cada dela. nas pginas da Bblia: Tudo tem seu tempo Todas as coisas tm seu tempo e todas elas passam debaixo do cu segundo o tempo que a cada uma foi prescrito. H tempo de nascer e tempo de morrer H tempo de plantar de tempo de se arrancar o que se plantou H tempo de matar e tempo de sarar H tempo de destruir e tempo de edificar [...] H tempo de calar e tempo de falar H tempo de amor e tempo de dio H tampo de guerra e tempo de paz. (Livro do Eclesiastes 3) Poderamos concluir que a poesia tem participao ativa em nossa vida e est dentro de cada um. Todos ns, em algum momento de nossas vidas, experimentamos algo que poderamos chamar de sentimento potico. Voc j se sentiu muito emocionado e teve vontade de desabafar por escrito? Essa manifestao escrita de um sentimento no constitui ainda a poesia propriamente dita, mas seu pondo de partida. GNEROS LITERRIOS Desde Plato e Aristteles (filsofos da Grcia Antiga), considera-se importante classificar os textos literrios em gneros, para o estudo da literatura. Vamos definio de gnero: Gnero uma categoria de texto, caracterizada por seu estilo (linguagem) e por sua estrutura.

GANCHO, Candida Vilares. Introduo poesia. So Paulo, Atual, 1989.

4

Mas, apesar dessa concordncia geral entre os estudiosos de literatura, h muitas divergncias quanto classificao e definio dos gneros. Neste livro, adotamos uma das classificaes mais usuais:

Gnero pico: o gnero narrativo, isto , de fico (inveno). O termo pico vem de epopeia, poema que narra aventuras hericas; porm, modernamente, o gnero pico restringe-se prosa: conto, crnica, romance. Gnero dramtico: o gnero ao qual pertence o teatro, enquanto texto (e no enquanto espetculo). Gnero lrico: o gnero da poesia por excelncia.

O GNERO LRICO A poesia pertence principalmente ao gnero lrico, embora existam a poesia narrativa, a poesia dramtica e ainda outros tipos de poesia no-lrica. Neste livro trataremos sobretudo da poesia lrica. Poesia lrica aquela que essencialmente expressa sentimentos. Vamos observar dois exemplos de textos poticos que expressam o mesmo sentimento amor , mas que so de pocas diferentes. 1 [Sem ttulo] Amor fogo que arde sem se ver; ferida que di e no se sente; um contentamento descontente; dor que desatina sem doer; um no querer mais que bem querer; solitrio andar por entre a gente; um nunca contentar-se de contente; cuidar que se ganha em se perder. querer estar preso por vontade; servir a quem vence, o vencedor; ter com quem nos mata lealdade. Mas como causar pode o seu favor Nos coraes humanos amizade, Se to contrrio a si o mesmo amor? (Lus de Cames. Lrica. 3. Ed. So Paulo, Cultrix, 1968. p. 123.) Corridinho O amor quer abraar e no pode. A multido em volta, Com seus olhos cedios, pe caco de vidro no muro para o amor desistir. O amor usa o correio, o correio trapaceia, a carta no chega, o amor fica sem saber se ou no . O amor pega o cavalo, desembarca do trem, chega na porta cansado de tanto caminhar a p. Fala a palavra aucena,

GANCHO, Candida Vilares. Introduo poesia. So Paulo, Atual, 1989.

5

pede gua, bebe caf, dorme na sua presena, chupa bala de hortel. Tudo manha, truque, engenho: descuidar, o amor te pega, te come, te molha todo. Mas gua o amor no . (Adlia Prado. O corao disparado. 2. ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1977. p. 59.) Embora de pocas diferentes (o primeiro texto do sculo XVI e o segundo bem atual), percebe-se que esses dois textos tentam definir o amor. O amor mudou? Quase nada. Continua contraditrio, um sentimento difcil de definir, prximo e distante ao mesmo tempo, que domina o ser humano e o faz sofrer, mas que tambm d muito prazer. O que distingue os dois poemas no o contedo, mas a forma e o estilo. Em outras palavras, h diferena no modo de escrever os dois textos, bem como uso distinto dos elementos formais que os constituem: o primeiro texto tem rima (coincidncia de sons no final dos versos), o segundo no. O texto de Cames tem linguagem mais formal, enquanto o de Adlia Prado utiliza uma linguagem mais prxima da fala cotidiana. De qual deles voc gostou mais? Antes de responder, note que gosto no apenas uma questo pessoal, mas tambm uma questo de poca: cada poca tem sua maneira de expresso literria. Voc ver nesse livro muitos textos de poesia que lhe parecero um pouco distantes, por serem de outra poca, mas na verdade o que os distingue so apenas alguns aspectos formais ou estilsticos e um modo peculiar de ver o mundo. Ser possvel perceber neles, bem como nos textos mais atuais, o mesmo carter subjetivo que a poesia lrica tem expressado atravs dos sculos: os sentimentos do indivduo em relao ao amor, a Deus, natureza, etc. TERMINOLOGIA POTICA Antes de passarmos s caractersticas da poesia, vamos estabelecer uma terminologia potica comum que ser empregada no decorrer deste livro: Poesia: Nome genrico que se d ao gnero lrico: pode ser usado tambm para designar a produo potica inteira de um poeta. Poema: Nome que se d a um texto de poesia em particular. Verso: Nome que se d a cada linha de um poema. Estrofe: Conjunto de versos de nmero varivel: tanto pode ter um verso como dez ou vinte. Mtrica: Nome que se d tcnica de compor versos segundo determinado metro ou tamanho; o nome que se d tambm ao nmero de slabas poticas em cada verso. Metro. Medida determinada de verso, que pode variar de duas slabas poticas at doze, de modo geral. Rima: Nome que se d coincidncia de sons que ocorre em especial ao final dos versos.

GANCHO, Candida Vilares. Introduo poesia. So Paulo, Atual, 1989.2 CARACTERSTICAS DA POESIAA poesia se caracteriza por trs elementos associados: Subjetividade Estrutura em versos Ritmo

6

SUBJETIVIDADE Subjetividade a caracterstica de um texto (ou de outra obra qualquer) de estar voltado sobretudo para o autor (= eu) e no tanto para a realidade objetiva, exterior ao eu. Todo texto literrio subjetivo se expressa uma viso particular do mundo, porm na poesia que a subjetividade se manifesta de modo mais direto, isto , sem que seja necessrio criar personagens, ambientes, dilogos para expressar as emoes do autor. Para distinguir um texto subjetivo de outro objetivo, deve-se no apenas detectar a inteno do texto (Retrata a realidade? Enfatiza as emoes do autor?), mas tambm a linguagem utilizada em cada caso. A linguagem formal, mais tcnica, usada geralmente nos textos objetivos. Os textos objetivos mais conhecidos dos alunos so: Cientficos: livros didticos, revistas especializadas em cincias; Jornalsticos: jornais e revistas de atualidades; Dissertativos: textos que defendem uma tese (ideia), comprovando-a com argumentos baseados em fatos reais. A linguagem conotativa ou figurada mais adequada ao texto subjetivo, porque, para expressar emoes e seu ponto de vista particular, o autor recria a linguagem, isto , utiliza-a de modo original. Isso ocorre principalmente nos textos literrios: conto, romance, poema, etc. Observe essa distino nos dois textos que seguem:1. Democracia urbana A nenhum urbanide brasileiro passa despercebida a pssima qualidade de vida existente nos mdios e grandes centros urbanos: transporte coletivo precrio, trnsito insuportvel, habitao cara e inacessvel, ausncia de espaos de lazer e de reas verdes, poluio atmosfrica, sonora e visual. [...] (Fbio Feldman Folha de S. Paulo, 29/7/87.) 2 Trastevere A cidade moderna dizia o cego a seu filho os olho