futurismo-ruptura e experimentacao

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  • Juliana Demarque Machado Siqueira

    FUTURISMO: RUPTURA E EXPERIMENTAO

    Trabalho de concluso de curso apresentado ao Centro Universitrio Senac Campus Santo Amaro, como exigncia para obteno do grau de Bacharel em Design com habilitao em comunicao visual.

    Orientadores: Prof. Nikolas Lorencini e Prof. Guilherme Ranoya

    So Paulo2013

  • S618f Siqueira, Juliana Demarque Machado

    Futurismo: ruptura e experimentao / Juliana Demarque Machado Siqueira So Paulo, 2013.98 p. : il. color.Inclui 01 CD de udio.

    Orientadores: Prof. Nikolas Lorencini e Prof. Guilherme Ranoya.Trabalho de Concluso de Curso (Bacharel em Design Habilitao em Comunicao Visual) Centro Universitrio Senac, So Paulo, 2013.

    1. Futurismo 2. Tipogra a 3. Expresso Visual I. Lorencini, Nikolas (Orient.) II. Ranoya, Guilherme (Orient.) III. Ttulo

    CDD 741

  • THE PASSION FOR DESTRUCTION IS ALSO A CREATIVE PASSION Mikahil Bakunin, 1842

  • RESUMO

    Uma re exo sobre os processos e propsitos com que imagens e textos so criados pretende fornecer bases para a compreenso de suas possilibilidades e limitaes comunicacionais conforme agem na veiculao de mensagens, ora em conjunto, ora individualmente. Partindo da premissa que ambos podem se intensi car mutuamente e comporem, assim, resultados mais expressivos e ricos em signi cado, so analisadas obras dos poetas futuristas italianos, do incio do sculo XX, que se destacaram pelo uso experimental da tipogra a como alicerce da comunicao. proposto ento um exerccio de transposio da misso futurista para a atualidade, a m de se explorar como novos processos e tecnologias no disponveis na poca da Parole in Libert poderiam ser usados para criar mensagens nas quais a tipogra a utilizada como protagonista na expresso visual.

    Palavras-chave: Futurismo, Tipogra a, Expresso visual

  • ABSTRACT

    A re ection on the process and purpose with which pictures and texts are created aims to provide a background for understanding their possibilities and limitations in communication as they deliver messages, sometimes together, sometimes individually. Assuming that both can intensify each other and thus compose more expressive and meaningful results, the works of italian futurist poets, in the early twentieth century, which stood out for their experimental use of typography as the foundation of communication are analyzed. It is then proposed an exercise in order to translate the futuristic agenda to the present, exploring how new process and technologies not available back at the time of Parole in Libert could be used to convey messages in which typography plays the main role in visual expression.

    Keywords: Futurism, Typography, Visual expression

  • SUMRIO

    INTRODUO 12

    1 IMAGEM E ESCRITA 151.1 Imaginao e registro 181.2 Cdigo 231.3 Leitura 261.4 Tipogra a e expresso visual 28

    2 FUTURISMO 332.1 Contexto histrico 362.2 Arte em movimento 392.3 Palavras em liberdade 49

    3 EXPERIMENTAES 633.1 Einstrzende Neubauten 673.2 NNNAAAMMM 703.3 Formato 713.4 Processos investigados 723.5 Resultados 84

    CONCLUSO 90

  • 12

    INTRODUO

    Diante da profuso de recursos e tcnicas mo dos designers e da propagao e consagrao de modismos gr cos, surgem inquietaes quanto a criatividade e originalidade presentes nas solues de comunicao visual contemporneas.

    Tais inquietaes culminaram na busca pelo diferente, pela exceo, pelo subversivo. E, assim, somadas busca por uma compreenso mais slida das possibilidades comunicacionais no design gr co, relacionando texto e imagem, conduziram s vanguardas europeias do incio do sculo XX, mais especi camente o Futurismo italiano.

    A m de se compreender como textos e imagens podem ser usados para a produo de signi cados na comunicao visual, algumas de suas caractersticas foram analisadas. O primeiro captulo apresenta os conceitos de imagem tradicional e imagem tcnica, desenvolvidos pelo lsofo Vilm Flusser, bem como os conceitos de cdigo e escrita e sua ligao com as imagens. Aspectos da tipogra a, segundo o designer e tipgrafo Erik Spiekermann, foram levantados para evidenciar as distines presentes no seu uso em textos literrios e outras formas de comunicao escrita.

    Em um segundo momento, procura-se ilustrar os conceitos observados atravs da anlise da produo gr ca e potica do Futurismo - expresso artstica que surge na Itlia no incio do sculo XX. O movimento futurista propunha a revoluo total da sociedade atravs da arte. Diversos manifestos foram escritos, abrangendo pintura, escultura, teatro, arquitetura, poesia e msica. Sua forma de poesia foi reconhecida pioneira no uso da tipogra a como manipuladora do contedo alm da mera materializao do enunciado verbal. A proposta do Futurismo era enrgica, at mesmo violenta, exaltando a ruptura total com as convenes do passado.

  • 13

    Admitindo-se, entretanto, que as inovaes e tendncias contemporneas tm razes - rasas ou profundas - em modelos do passado, o vanguardismo dos futuristas serviu como ponto de partida para a experimentao com processos e linguagens buscando novas formas de expresso atravs da tipogra a como modo de interpretao da comunicao visual.

    Os exerccios propostos tiveram como nalidade traduzir gra camente a msica NNNAAAMMM, do grupo Einstrzende Neubauten, seu contedo e sua estrutura. O conjunto alemo tambm reconhecido por seu som experimental, cuja temtica por vezes se aproxima dos ideais futuristas.

    Fotocopiadoras e mesas digitalizadoras foram utilizadas de maneira no usual a m de evidenciar a subjetividade do agente operador e investigar os efeitos visuais que podem ser obtidos atravs de diferentes con guraes desses equipamentos. Carimbos foram confeccionados para tentar interpretar de maneira ldica o ritmo e a velocidade da msica. Alm disso, diferentes tcnicas de databending foram exploradas com a inteno de averiguar as consequncias da introduo do rudo na criao de imagens.

    Espera-se, atravs desse percurso, exercer os conhecimentos obtidos ao longo do curso e aprimorar a capacidade de re exo crtica frente a avaliao de escolhas estilsticas e no desenvolvimento de uma linguagem e expresso pessoais.

  • IMAGEM E ESCRITA

    IMA

    GEM

    EES

    CR

    ITA

  • 17

    A palavra imagem metamr ca, mltipla. Em cada campo no qual empregada ela adquire diferentes signi cados e, consequentemente, constitui diferentes formas, como constata Costa (2008, p. 18):

    Habitualmente, o designer gr co cria e manipula imagens medida que intermedeia a comunicao entre emissor e receptor de mensagens, as mais variadas. A m de esclarecer como essas imagens comunicam e signi cam, este captulo discorre sobre o que so imagens segundo o olhar do lsofo Vilm Flusser.

    Os neuro siologistas falam de imagens retinianas; os crticos literrios, de imagens poticas; os artistas visuais, de imagens plsticas; os tecnocratas, de imagens analgicas e digitais; e cada tcnica d nome s imagens que produz: fotogr cas, flmicas, videogr cas, hologr cas, termogr cas, infogr cas etc. Os psiclogos falam das imagens onricas - as dos sonhos e de imagens mentais - produto da imaginao.{

  • Fig. 1 Bises representados em

    pintura rupestre na

    caverna de Altamira

    18

    Em sua obra Filoso a da caixa preta, Flusser (2011, p. 21) de ne as imagens como sendo superfcies que pretendem representar algo. Estas tm a funo de representar o mundo ao homem, de lhe servir como um mapa, provendo orientaes para a compreenso e signi cao do mundo (Idem) tal como as imagens encontradas em cavernas, cujo objetivo era perpetuar os fenmenos conforme o homem os observava e vivenciava. As geraes seguintes encontrariam naquelas representaes instrues para seus rituais, para a caa e outras atividades. Analogamente, os vitrais em igrejas instruam a populao iletrada sobre os dogmas da instituio.

    Antes das superfcies os homens comunicavam-se diretamente com e pelos objetos - coisas - fsicos, reais. Estas primeiras representaes so, segundo Flusser (2011, p. 21), imagens tradicionais. So resultado do esforo de se abstrair duas das quatro dimenses espcio-temporais, para que se conservem apenas as dimenses dos plano (Idem).

    O ato de representar estabelece, portanto, uma relao momentnea entre aquilo que se deseja representar e a representao em si. A interpretao desta requer o esforo inverso - a reconstituio mental das dimenses abstradas - a fim de compreender aquilo que est sendo representado.

    1.1 IMAGINAO E REGISTRO

  • 19

    Com o passar do tempo, no entanto, possvel que a referncia da coisa representada se perca, de modo que o signi cado obtido na interpretao - imaginao (FLUSSER, 2011) - se distancia daquele inicialmente proposto. Isso se deve ao carter subjetivo das imagens tradicionais. Para conservar o sentido original da representao, seria necessria uma maneira de comunicar mais precisa e objetiva, de tal forma que as imagens tradicionais alcanariam um novo nvel de abstrao, tornando-se smbolos convencionados que possibilitariam o armazenamento das mensagens como informao.

    Segundo Flusser (Ibid., pp. 13-14), a inveno da escrita uma das duas revolues fundamentais na estrutura cultural, tal como se apresenta, de sua origem at hoje. A escrita teria ento surgido da necessidade de resgatar a funo original das imagens tradicionais enquanto fenmeno representativo. Os fenmenos observados passaram a ser descritos como processos, eventos em sucesso. Os signi cados das imagens tradicionais foram traduzidos em conceitos e seriam comunicados em forma textual. A conceituao , portanto, a linearizao de superfcies.

    Dizemos que com esse acontecimento se encerrou a pr-histria e comeou a histria no sentido verdadeiro (), no porque a escrita grava os processos, mas porque ela transforma cenas em processos: ela produz cons