FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA EDUCAÇÃO1 ?· FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DA EDUCAÇÃO1 Paulino José Orso…

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<ul><li><p>FUNDAMENTOS FILOSFICOS DA EDUCAO1</p><p>Paulino Jos Orso </p><p>Professor Doutor - UNIOESTE </p><p>PrESSUPOSTOS FILOSFICOS </p><p>A educao se constitui num dos principais bens da humanidade. Por </p><p>ela, as geraes vo legando, umas s outras, as experincias, os </p><p>conhecimentos, a cultura acumulada ao longo da histria, permitindo tanto o </p><p>acesso ao saber sistematizado, como a produo de bens necessrios </p><p>satisfao das necessidades humanas. Contudo, por ser histrica, a educao </p><p>no se faz sempre da mesma forma em todas as pocas e em todas as </p><p>sociedades. Ela se faz de acordo com as condies possveis em cada </p><p>momento do processo de desenvolvimento social, histrico, cultural e </p><p>econmico, ou seja, fazer educao pressupe pens-la e faz-la numa </p><p>perspectiva poltico-pedaggica. Isso significa compreender que a educao </p><p>no um trabalho que se executa meramente no interior de uma sala de aula, </p><p>de uma escola, limitado relao educador-educando. O ato pedaggico no </p><p>neutro: carrega implicaes sociais, est marcado pela prtica de todos os </p><p>envolvidos no processo educativo e mediado por relaes scio-histricas. </p><p>Compreendida a educao dessa forma, essa proposta pedaggica </p><p>parte de determinados pressupostos. Baseando-se em Marx (1981), podemos </p><p>afirmar que,o primeiro o de que a realidade no esttica, pois se encontra </p><p>em constante movimento, ou seja, est em constante devir, em constante vir a </p><p>ser e que, portanto, tudo o que existe hoje no existiu, no existe e no existir </p><p>da mesma forma; o segundo que preciso estar vivo para fazer histria, e </p><p>quem faz a histria o prprio homem; o terceiro que a base da sociedade </p><p>est fundada no trabalho. Esses trs pressupostos marcam a vida do homem e </p><p>estabelecem seus limites e suas possibilidades. 1 Neste documento so apresentados os pressupostos filosficos da educao, que dizem respeito concepo de homem, de sociedade e de educao, que devem nortear toda a prtica educacional. Obs. O texto a seguir foi extrado do Currculo Bsico para as escolas pblicas municipais da Regio Oeste do Paran, publicado em Cascavel, pela ASSOESTE, em 2007. </p></li><li><p>Quando falamos que a realidade no sempre a mesma, que nada </p><p>eterno, que eterno s o movimento, referimo-nos ao fato de que o primado </p><p>encontra-se na matria e no nas idias. A matria, por sua vez, no algo </p><p>inerte, fixo e imutvel. Ela tem uma dinmica interna prpria. No seu processo </p><p>de transformao, tomando como referncia a teoria do big bang, ocorrido h </p><p>cerca de 10 a 15 bilhes de anos, devido ao e interao de suas foras </p><p>internas, a matria continua passando por um processo de diferenciao. Com </p><p>isso, ela vai transitando de algo informe para algo que assume determinadas </p><p>formas. </p><p>Dessa dinmica no se constituem apenas as coisas que vemos nossa </p><p>volta. Produz-se tambm o homem. Nessa perspectiva, o homem no se </p><p>apresenta como um ser pronto e acabado, mas como um ser que produzido </p><p>pelo meio, pela prpria natureza e que, medida que vai sendo produzido, vai </p><p>se sensibilizando em relao ao meio, vai conhecendo e adquirindo </p><p>experincias que vo sendo acumuladas e transmitidas de uns aos outros, </p><p>possibilitando a adaptao do meio s suas necessidades. Ou seja, o homem </p><p>um produto do meio que, em sendo produzido, passa a produzir o meio que o </p><p>produz e em que se produz. </p><p> medida que o homem produzido, passa a agir sobre o meio para </p><p>garantir sua sobrevivncia. O homem, porm, diferencia-se dos demais seres </p><p>vivos em funo de que, para garantir sua sobrevivncia, precisa trabalhar. O </p><p>trabalho2</p><p> 2</p><p> . O termo vem de tripalium (ou trepalium), do Latim Tardio, um instrumento romano de tortura, uma espcie de trip formado por trs </p><p>estacas cravadas no cho, onde eram supliciados os escravos. Rene o elemento " tri" (trs) e " palus" (pau) - literalmente, "trs paus". Da </p><p>derivou-se o verbo tripaliare (ou trepaliare), que significava, inicialmente, torturar algum no tripalium, o que fazia do "trabalhador" um carrasco, e </p><p>no a vtima de hoje em dia. Site Cludio Moreno - www. sua lngua.com.br, acessado em 02 de maio de 2006. </p><p> se constitui na marca do homem, de tal forma que no d para </p><p>entend-lo dissociado da noo de trabalho, bem como no possvel </p><p>compreender o trabalho sem relacion-lo ao homem. Trabalho significa </p><p>dispndio de energia, de sangue, de suor e de nervos humanos na produo </p><p>dos bens (materiais e intelectuais) necessrios sua sobrevivncia. Isso </p><p>implica pensar que trabalho no se confunde apenas com trabalho manual, </p><p>braal e fsico; significa que tambm podemos falar de trabalho imaterial ou </p><p>intelectual, como veremos adiante. Trabalho, portanto, uma condio </p><p>existencial do homem. por ele que o homem consegue produzir as coisas e </p><p>os bens necessrios sua sobrevivncia. Porm, importa superar a condio </p></li><li><p>de alienao3</p><p>Se o pressuposto fundamental de toda a matria viva, e em especial do </p><p>ser humano, estar vivo, ele precisa satisfazer algumas necessidades bsicas, </p><p>tais como comer, vestir, beber, morar e algumas (infinitas) coisas mais. </p><p>Todavia, no consegue essas coisas da mesma forma que os outros seres </p><p>vivos; o homem precisa trabalhar, e o faz sobre os meios de produo, isto , </p><p>sobre a terra, as fbricas, a escola, dentre outras. No o faz sempre da mesma </p><p>forma, mas de acordo com o estgio de desenvolvimento das foras produtivas </p><p>materiais, ou seja, de acordo com o grau de desenvolvimento cognitivo, da </p><p>cincia e da habilidade tcnica. Alm disso, a produo dos bens necessrios </p><p>sobrevivncia no ocorre de forma individual, pois no conseguimos produzir </p><p>sozinhos e isolados todos os bens de que necessitamos para viver. Fazemo-lo </p><p>socialmente. De acordo com Marx (1983), os homens se definem pelo trabalho. </p><p> qual o trabalho est submetido. </p><p>A categoria trabalho compreendida aqui, na perspectiva marxista, </p><p>como sendo a atividade consciente e planejada pela qual o ser humano, ao </p><p>mesmo tempo em que extrai da natureza os bens capazes de satisfazer as </p><p>suas necessidades de sobrevivncia, cria as bases de sua realidade </p><p>sociocultural e produz-se a si mesmo, desenvolvendo as capacidades </p><p>superiores que o diferenciam dos outros animais. </p><p>Como dissemos, o homem no nasce pronto e acabado, ou seja, no </p><p>aparece da forma como o conhecemos hoje. medida que passa a interagir </p><p>com a natureza, adquire experincias e conhecimentos, desenvolve seu </p><p>crebro que, simultaneamente, lhe permite enfrentar e resolver desafios cada </p><p>vez mais exigentes e complexos. Com isso, no apenas desenvolve sua </p><p>capacidade cognitiva, como tambm adquire a capacidade de produzir </p><p>instrumentos e bens cada vez mais aperfeioados, atendendo s crescentes e </p><p>diversificadas necessidades de cada momento. Portanto, medida que o </p><p>homem vai interagindo com o meio, tambm vai sendo transformado, vai sendo </p><p>produzido como homem, vai humanizando a natureza, acumulando </p><p>conhecimentos, produzindo novos instrumentos e transformando o meio. Isto , </p><p>o homem vai se hominizando pelo trabalho. </p><p> 3</p><p> . Com base em Marx (1963), entendemos que alienado significa ser alheio, ser de outro, pertencente a outro. Isso decorre do fato de que na produo da vida material o trabalhador tem de vender sua fora de trabalho para sobreviver, isto , ter de entregar seu controle a outro. </p><p>Em conseqncia disso, sua conscincia tambm passa a expressar os interesses e a conscincia de outro, ou seja, a ser alienada. </p></li><li><p>A caracterstica dos meios de produo tambm determina as relaes </p><p>sociais que os homens estabelecem entre si. Se os meios de produo forem </p><p>privados, teremos um determinado tipo de relaes sociais de produo, qual </p><p>seja, de dominao e de explorao; se os meios forem coletivos, no teremos </p><p>necessidade desse tipo de relao, mas sim de colaborao e de ajuda mtua. </p><p>Isso tudo determina o modo de produo da vida social, que a forma </p><p>como os homens se organizam numa determinada sociedade e numa </p><p>determinada poca, para garantir a produo dos bens necessrios </p><p>sobrevivncia. Ao longo da histria, temos os modos de produo antigo, </p><p>escravista, feudal, capitalista e algumas tentativas de se implantar o </p><p>socialismo4</p><p> 4</p><p> . Conforme Orso (2002), socialismo um processo de transio em que o Estado se apropria dos bens e os coloca a servio do </p><p>coletivo, caminhando progressivamente para a superao, tanto da propriedade como do Estado, em direo eliminao das classes e </p><p>implementao da auto-gesto do trabalho, em que os prprios produtores tomam para si a responsabilidade de gerir seus destinos, para construir </p><p>a sociedade comunista. </p><p>. Desde a Antigidade at nossos dias, como nos diz Karl Marx, a </p><p>histria tem sido a histria das lutas de classes, quer seja entre senhores e </p><p>escravos, entre servos e suseranos, entre patres e proletrios, ora aberta e </p><p>franca, ora difusa e dissimulada. </p><p>Como dissemos, desde o surgimento da propriedade privada e dos </p><p>meios de produo, at o momento atual, a organizao da sociedade </p><p>permanece fundada nas classes e nas lutas de classes. Hoje, ainda que a </p><p>sociedade tenha algumas caractersticas dos diferentes modos de produo, </p><p>apresenta-se hegemonicamente sob a forma capitalista, cujo centro o capital </p><p>e o lucro. Isso, inclusive, tem marcado o prprio conhecimento e a educao. </p><p>O conhecimento um bem necessrio e fundamental produo da </p><p>sobrevivncia, que depende deste e o produz. Contudo, ele no uma </p><p>propriedade exclusiva do homem; um atributo de toda a matria viva </p><p>organizada. Todos os seres vivos conhecem, ainda que nem todos o faam da </p><p>mesma forma, nas mesmas condies e do mesmo modo. Todavia, o homem </p><p>atinge um grau de desenvolvimento maior do conhecimento, iniciando seu </p><p>processo por meio dos sentidos e acumulando experincias, sendo capaz de </p><p>realizar abstraes e de organizar o pensamento, chegando ao nvel do </p><p>conhecimento cientfico e metdico, possibilitando utilizar esse instrumento </p><p>como ao de transformao intencional sobre o mundo. </p></li><li><p> medida que o homem vai interagindo com a natureza, ela deixa de ser </p><p>a determinante absoluta da realidade; o homem deixa de ser simplesmente </p><p>determinado, para ser tambm determinante. Assim, a natureza, ao mesmo </p><p>tempo em que agente, transforma-se em objeto. O homem passa a se </p><p>apropriar da natureza e expressa essa relao por meio da linguagem, nas </p><p>suas diversas formas. A linguagem assume o papel de mediadora da produo </p><p>e da apropriao de conhecimento; mediadora da transformao material e </p><p>social. </p><p>Mas, se dissemos que o conhecimento uma propriedade de toda </p><p>matria viva, em que consiste, afinal, o conhecimento? Conhecimento no se </p><p>confunde simplesmente com idia, pensamento e razo; a capacidade que </p><p>toda matria viva tem de se sensibilizar em relao aos estmulos do meio e de </p><p>reagir a eles dando respostas necessrias satisfao de suas necessidades, </p><p>garantindo a sobrevivncia. Cada ser o faz de acordo com suas condies e de </p><p>acordo com o nvel de seu desenvolvimento. O homem constri o </p><p>conhecimento a partir das suas condies materiais. </p><p>Como a matria se transforma o tempo todo, o conhecimento tambm </p><p>se constitui num processo contnuo e permanente de transformao. As idias, </p><p>as teorias, as respostas que o homem elabora so sempre provisrias porque </p><p>respondem aos desafios de cada momento e, portanto, revelam-se </p><p>incompletas, exigindo novas pesquisas e investigaes que permitam </p><p>responder aos novos desafios impostos pela sobrevivncia. Diferente do </p><p>conhecimento que uma propriedade de toda matria viva, a educao um </p><p>atributo exclusivo da sociedade humana. Nesse caso, no possvel pensar o </p><p>ser humano sem a educao, nem a educao sem o homem. Todavia, a </p><p>educao no se resume educao formal, escolar. A escola apenas um </p><p>dos lugares onde se educa. A rua educa, a igreja educa, a famlia educa, no </p><p>trabalho se educa, o desemprego educa. Existem muitas outras formas de </p><p>educao, as quais podemos chamar de educao no formal ou informal. </p><p>Mas, afinal de contas, em que consiste a educao? Educao a forma como </p><p>a sociedade prepara os indivduos para viverem nela mesma. Aqui tambm </p><p>podemos afirmar que a educao no ocorre sempre da mesma forma; em </p><p>cada poca e em cada sociedade os homens se educam de uma determinada </p><p>forma, mediada pelo estgio de desenvolvimento das foras produtivas, pelo </p></li><li><p>modo e pelas relaes de produo em que se insere. </p><p>A educao formal, escolar, nem sempre existiu. A escola, instituda na </p><p>sociedade de classes, carrega a marca desta sociedade. Assim, a educao </p><p>no pode ser compreendida nela e por ela mesma. Precisa ser compreendida </p><p>tomando-se em considerao o conjunto das relaes nas quais ela est </p><p>inserida. Apesar de atriburem escola a responsabilidade pela soluo de </p><p>praticamente todos os problemas sociais, e de fazerem dela a responsvel pelo </p><p>sucesso ou pelo fracasso social dos indivduos, ela mais determinada do que </p><p>determinante social; apesar de muitos problemas se fazerem sentir no interior </p><p>da escola, ela no absoluta, no autnoma, atua no campo do </p><p>conhecimento e das idias, portanto, no tem poderes materiais suficientes </p><p>para alterar o conjunto da realidade. Ela parte da sociedade e no a prpria </p><p>sociedade; insere-se como um dos espaos educativos que compem a </p><p>sociedade. Entretanto, ela se constitui num espao de contradio e atua no </p><p>mbito do trabalho no material. Mas medida que as idias e anlises </p><p>construdas no mbito das relaes sociais se difundem nas coletividades, elas </p><p>podem se transformar num poder material e transformador. </p><p>Tendo presente que a sociedade em que vivemos constitui-se, desde a </p><p>Antigidade at os dias atuais, numa sociedade fundada sobre a propriedade </p><p>privada dos meios de produo, est radicada na sociedade de classes e, em </p><p>decorrncia disso, baseia-se nas lutas de classes, na explorao, na </p><p>dominao, na competio e na concorrncia, cabe-nos, enquanto educadores, </p><p>fazer da educao um instrumento de compreenso, de interpretao e de </p><p>explicao e desvelamento da Histria; um instrumento de apropriao, de </p><p>produo e de socializao do conhecimento; um instrumento de </p><p>compreenso, apreenso e transformao da realidade. </p><p>A partir da diviso da sociedade em classes, desaparece a possibilidade </p><p>de o conhecimento e os produtos do trabalho estarem voltados para o bem-</p><p>estar e para a satisfao dos interesses universais, comuns a todos os </p><p>homens. As classes economicamente dominantes tambm se apresentam </p><p>dominantes do ponto de vista ideolgico e espiritual. Em funo disso, </p><p>escamoteiam as contradies e os antagonismos sociais, e apresentam os </p><p>seus interesses parciais e de classes, como expresso natural do interesse </p><p>universal. Alm disso, apoderam-se dos aparatos burocrticos, legais, blicos, </p></li><li><p>militares e miditicos; utilizam-se do Estado e dos aparelhos repressivos para </p><p>controlar, inibir as tentativas de mudana dessa ordem social, ou seja, para </p><p>garantir a reproduo do status quo. Diante disso, procuram deslocar os plos </p><p>de conflito e o centro das preocupaes do mbito das relaes materiais </p><p>concretas para o campo das idias e da formalidade e, ao invs de </p><p>reconhecerem o motor da histria como sendo as lutas de classes, si...</p></li></ul>

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