Fundamentos Éticos e Filosóficos da Proteção Ambiental ... ?· Fundamentos Éticos e Filosóficos…

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  • Fundamentos ticos e Filosficos da Proteo Ambiental: o Caso da Segurana Alimentar e dos Biocombustveis

    Arthur Soffiati

    Naturalismo e artificialismo

    Na maior parte da histria da humanidade, vigoraram concepes de mundo

    naturalistas, isto , aquelas que acreditam na existncia da natureza. Pode-se argir se

    alguma concepo admite a inexistncia da natureza. De acordo com o filsofo francs

    Clment Rosset, as vises de natureza se agrupam em duas grandes categorias: ou a

    natureza concebida de forma naturalista, o que equivaleria ao naturalismo, ou de forma

    artificialista, o que implica em ver a natureza como artifcio. Em suas palavras,

    ... a ideologia naturalista (...), em princpio, a doutrina segundo a qual a natureza

    existe, isto , a forma geral da crena de que alguns seres devem a realizao de sua

    existncia a um princpio alheio ao acaso (matria) e aos efeitos da vontade humana

    (artifcio). (...) A idia fundamental do naturalismo uma neutralizao da atuao do

    acaso na gnese das existncias: afirma que nada se poderia produzir sem alguma razo

    e, conseqentemente, as existncias independentes das coisas introduzidas pelo acaso

    ou pelo artifcio dos homens resultam de outra ordem de causas, a ordem das causas

    naturais.1

    Considerando-se um representante do artificialismo, Rosset prossegue:

    prprio ao pensamento de tipo artificialista pelo menos no sentido dado aqui ao

    termo artificialismo no reconhecer nenhuma natureza e julgar as caractersticas

    fundamentais das produes no-humanas idnticas s das produes humanas, tendo

    em vista que ambas participam do acaso: recusar a qualquer existncia um carter

    natural, isto , recusar a participao em qualquer sistema de princpios denominado

    natureza, cujas virtudes estariam na origem do conjunto das produes estranhas ao

    artifcio e ao acaso. O artificialismo (...) designa essencialmente uma denegao da

    natureza e uma afirmao universal do acaso; sentido que se situa nas antpodas de

    todas as formas de naturalismo antropocntrico que se manifestaram, desde Aristteles,

    na histria da filosofia e puderam, consoante assimilao mais ou menos consciente

    do trabalho da natureza arte do homem, receber o qualificativo moderno de

    artificialista.2

    Embora o naturalismo, para o autor, coincida mais com uma concepo de natureza

    que exclui o acaso e a interferncia antrpica, ele deixa bem claro que:

    ... natureza e artifcio designam antes duas formas de olhar que duas instncias

    existentes. Duas formas de olhar igualmente imperialistas e igualmente exclusivas. O

    mundo aparece ora como natureza, ora como artifcio, mas nunca como um composto

    das duas instncias. Deste modo, numa perspectiva naturalista, toda existncia pode ser

    Instituto de Cincias da Sociedade e Desenvolvimento Regional/Universidade Federal Fluminense.

    1 ROSSET, Clment. A Anti-Natureza: Elementos para uma Filosofia Trgica. Rio de Janeiro: Espao e

    Tempo, 1989. 2 Id. ibid., p. 56-7.

  • 2

    dita natural, j que a ao da arte e a do acaso aparece como acidentes situados nas

    duas extremidades da escala de valores e so secundrias com relao constituio

    natural: o acaso representa os inevitveis fracassos; o homem (a tcnica e a arte), a

    obra-prima. Da mesma maneira, numa perspectiva artificialista, qualquer existncia,

    sendo igualmente tributria do acaso, pode ser afetada por um mesmo coeficiente de

    artifcio. Toda posio mista que quisesse descrever a existncia particularmente a

    existncia humana como um composto de artifcio e natureza seria uma posio

    infalivelmente naturalista, uma vez que distingue as duas instncias ainda que se

    recuse localiz-las com bastante preciso, tanto psquica como histrica e afirma a

    emergncia da tcnica humana sobre um fundo de natureza: desse modo, permanece

    respeitado o reino das trs naturezas aristotlicas (naturezas natural, humana e fortuita).

    (...) natureza e artifcio no definem dois aspectos complementares da existncia, mas

    dois pontos de vista excludentes acerca do conjunto das existncias: dois pontos de

    vista que descreveremos como o ponto de vista da interpretao (natureza) e da recusa

    global de interpretar (artifcio).3

    interessante a posio assumida por Rosset, e, conquanto seja adotada, nesta

    reflexo, uma perspectiva naturalista, ela no significa uma discordncia com pensamento

    do intelectual francs. Apenas a realidade vista, aqui, por um ngulo diferente.

    Explicitando melhor, enxerga-se o mundo por uma tica naturalista. Rosset divisa a

    natureza como uma entidade ou como uma concepo situada entre dois plos: numa

    extremidade, o acaso, que abala a ordem da natureza; noutra, o artifcio, construo

    humana que expressa um tipo de ordem oposta natureza. Assim, salvo melhor

    interpretao, parece que o filsofo reafirma o dualismo cartesiano, separando natureza de

    cultura e introduzindo um novo elemento que no estaria inserido em nenhuma das duas

    entidades: o acaso.

    Recorrendo a Edgar Morin, transintelectual que vem procurando, desde fins dos

    anos de 1960, uma religao complexa entre natureza e cultura, a viso torna-se muito mais

    rica. Na sua linha de raciocnio, a natureza no abomina o acaso. Antes, incorpora-o como

    um dos elementos mais significativos do tetragrama:

    A ordem exclui o acaso. Da sua rigidez. A desordem o reino do acaso. Da seu

    carter catico. A organizao integra ordem e desordem de forma orgnica. Em seu

    mago, o acaso no permite a inflexibilidade aos sistemas organizados. Por outro lado, a

    ordem salvaguarda a organizao da dissipao. Assim, o acaso no est fora, mas bem

    mago da natureza.

    Outro postulado de grande alcance adotado por Morin e que ultrapassa o dualismo

    da razo clssica reata os laos entre natureza e cultura, delegando ao crebro humano o

    papel de elo de ligao entre ambas. Por este prisma:

    3 Id. ibid., p. 67-68.

    ordemdesordem interao organizao

    ________________________________

    naturezacrebro humanocultura

    __________________________

  • 3

    Desta forma, tambm a cultura humana no se ope natureza. Bem ao contrrio,

    ela pode ser entendida como produto complexo da natureza ou como a prpria natureza em

    nvel aparentemente distinto dela, mas, em ltima instncia, derivado dela. Cria-se,

    portanto, uma concepo una e nova de natureza, pois que agora fundamentada na cincia

    contempornea4.

    Organicismo e mecanicismo

    Na tica do naturalismo, podemos reunir as diversas representaes de natureza

    formuladas pelas culturas humanas da mais remota mais atual em dois grandes

    conjuntos. A primeira o organicismo revelou-se dominante em cerca de 98% da histria

    da humanidade e consiste em considerar a natureza como um organismo vivo e complexo,

    com autonomia e com uma certa sorte de vontade. Assim a concepo mgica dos povos

    arcaicos, a concepo mstico-intuitiva dos Upanishads, do budismo, do jainismo e do

    taosmo, e a concepo interrogativa e contemplativa dos pensadores fsicos gregos. Para

    fins deste escrito, organicismo no tem a acepo que lhe confere Blackburn:

    Doutrina segundo a qual as estruturas orgnicas so apenas o resultado de a matria ter

    propriedade inerente de se adaptar s circunstncias. Essa teoria teve uma vida breve

    porque se ops ao darwinismo e ao vitalismo.5

    A segunda o mecanicismo constituiu-se na Europa ocidental, no sculo XVII,

    como parte de um movimento intelectual usualmente conhecido como Revoluo

    Cientfica. O filsofo francs Ren Descartes seu mais conhecido formulador. Trata-se de

    uma concepo que reduz o universo a tomos duros e indivisveis que, combinados,

    formam mecanismos semelhantes a relgios e a autmatos, funcionando de maneira

    harmnica. Embora criado, este universo, em seu nvel macro, tem uma origem, dotado

    de movimento, mas no conhece transformao nem fim. Os seres vivos no passam de

    robs cobertos de escamas, couro, penas, plos e pele, exceto o ser humano, cuja natureza

    fsica abriga uma entidade metafsica sutilmente ligada a ele: o esprito ou a razo. Assim,

    cria-se um dualismo entre corpo e mente. Sobre esta concepo Blackburn discorre:

    Crena de que tudo pode ser explicado por teorias baseadas nas explicaes

    seiscentistas de explicao cientfica, que usaram como paradigma as leis quantitativas

    que regem a interao das partculas, em funo das quais podem ser compreendidas,

    em ltima instncia, as outras propriedades dos materiais (atomismo, concepo

    galileana de mundo, corpuscularismo). Em biologia, o mecanicismo a tese hostil s

    causas finais (causas materiais, formais, eficientes, finais) ou teleologia, segundo a

    qual os animais devem ser encarados como sistemas materiais.6

    4 Sobre MORIN, Edgar, ver principalmente O Enigma do Homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1975, e os cinco

    volumes de O Mtodo: vol. 1: A Natureza da Natureza (Mira-Sintra: Europa-Amrica, s/d); vol. 2: A Vida da

    Vida (Mira-Sintra: Europa-Amrica, s/d); vol, 3: O Conhecimento do Conhecimento (Mira-Sintra: Europa-

    Amrica, s/d); vol. 4: As Idias: a sua natureza, vida, hbitat e organizao (Mira-Sintra: Europa-Amrica,

    s/d) e vol. 5: A Humanidade da Humanidade: A Identidade Humana. Porto Alegre: Sulina, 2002. 5 BLACKBURN, Simon. Dicionrio Oxford de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

    6 Id. ibid.

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