fundamentos Ético-políticos da educação 289coord .2013-01-25 · fundamentos Ético-políticos

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Fundamentos tico-Polticos da Educao 289

8. FUNDAMENTOS TICO-POLTICOS DA EDUCAO NO

BRASIL DE HOJE

Antnio Joaquim Severino

A educao processo inerente vida dos seres humanos, intrnseco condio da espcie, uma vez que a reproduo dos seus integrantes noenvolve apenas uma memria gentica mas, com igual intensidade, pressupeuma memria cultural, em decorrncia do que cada novo membro do grupoprecisa recuper-la, inserindo-se no fluxo de sua cultura. Ao longo da consti-tuio histrico-antropolgica da espcie, esse processo de insero foi sedando, inicialmente, de forma quase que instintiva, prevalecendo o processode imitao dos indivduos adultos pelos indivduos jovens, nos mais diferen-tes contextos pessoais e grupais que tecem a malha da existncia humana.Porm, com a complexificao da vida social, foram implementadas prti-cas sistemticas e intencionais destinadas a cuidar especificamente desse pro-cesso, instaurando-se ento instituies especializadas encarregadas de atuarde modo formal e explcito na insero dos novos membros no tecidosociocultural. Nasceram ento as escolas.

Sem prejuzo dos esforos e investimentos sistemticos que ocorremno seio de suas prticas formais, o processo abrangente de educao infor-mal continua presente e atuante no mbito da vida social em geral, graas satividades interativas da convivncia humana. Mas a formalizao cada vezmaior da interao educativa decorre da prpria natureza da atividade huma-na, que sempre intencionalmente planejada, sempre vinculada a um tlos quea direciona. Desse modo, todos os agrupamentos sociais, quanto mais se tor-naram complexos, mais desenvolveram prticas formais de educao,institucionalizando-as sistematicamente.

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Desde sua gnese mais arcaica, essa insero sociocultural envolve sem-pre uma significao valorativa, ainda que o mais das vezes implcita nos pa-dres comportamentais do grupo e inconsciente para os indivduos envolvidos,pois se trata de um compartilhamento subjetivamente vivenciado de sentidos evalores. A cultura, como conjunto de signos objetivados, s apropriada medi-ante um intenso processo de subjetivao.

O existir histrico dos homens realiza-se objetivamente nas circunstn-cias dadas pelo mundo material (a natureza fsica) e pelo mundo social (a soci-edade e a cultura) como referncias externas de sua vida. No entanto, essa con-dio objetiva de seu existir concreto est intimamente articulada vivnciasubjetiva, esfera constituda de diferentes e complexas expresses de seus senti-mentos, sensibilidades, conscincia, memria, imaginao. Esses processos pemem cena a interveno subjetiva dos homens no fluxo de suas prticas reais,marcando-as intensamente. Mas, ao mesmo tempo, as referncias objetivascondicionantes da existncia atuam fortemente na gestao, na formao e naconfigurao dessa vivncia. Da falar-se do processo de subjetivao, modopelo qual as pessoas constituem e vivenciam sua prpria subjetividade. A per-cepo dos valores integra esse processo tanto quanto a inteleco lgica dosconceitos. Esse processo de subjetivao que permite aos homens atribuirsignificaes aos dados e situaes de sua experincia do real, o que eles fazemsempre de forma plurivalente, pois essa atribuio de significaes no leva asentidos unvocos, porm, o mais das vezes, plurais e mesmo equvocos.

A discusso dos fundamentos tico-polticos da educao, objeto destareflexo, envolve necessariamente a esfera da subjetivao, uma vez que implicareferncia a valores. Para conduzir essa discusso, o presente ensaio, elaboradode uma perspectiva filosfico-educacional, foi desenvolvido em trs movimen-tos, cada um deles se desdobrando em dois percursos. O primeiro movimento,de carter antropolgico, procura, no primeiro percurso, situar a educao comoprtica humana, mediada e mediadora do agir histrico dos homens; e, nosegundo, fundamentar teoricamente a necessria intencionalidade tico-polticadessa prtica, explicitando a sua relao com o processo de subjetivao. Nosegundo movimento, de cunho histrico, busca-se no primeiro momento mos-trar como a experincia socioeducacional brasileira marcou-se por diversassubjetivaes ideolgicas, enquanto no segundo so destacados, por sua rele-vncia, os desafios e dilemas da educao brasileira atual no contexto da socia-bilidade neoliberal. No terceiro movimento, que tem uma perspectiva poltico-

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pedaggica, ressalta-se, inicialmente, o compromisso tico-poltico da educa-o como mediao da cidadania, para enfatizar, em seguida, a importncia quea escola pblica ainda tem como espao pblico privilegiado para um projetode educao emancipatria.

A EDUCAO COMO PRTICA HISTRICO-SOCIAL

Falar de fundamentos ticos e polticos da educao pressupe assumi-la na sua condio de prtica humana de carter interventivo, ou seja, prticamarcada por uma inteno interventiva, intencionando mudar situaes indi-viduais ou sociais previamente dadas. Implica uma eficcia construtiva e reali-za-se numa necessria historicidade e num contexto social. Tal prtica cons-tituda de aes mediante as quais os agentes pretendem atingir determinadosfins relacionados com eles prprios, aes que visam provocar transforma-es nas pessoas e na sociedade, aes marcadas por finalidades buscadasintencionalmente. Pouco importa que essas finalidades sejam eivadas de ilu-ses, de ideologias ou de alienaes de todo tipo: de qualquer maneira soaes intencionalizadas das quais a mera descrio objetivada obtida medianteos mtodos positivos de pesquisa no consegue dar conta da integralidade desua significao. O lado visvel do agir educacional dos homens fica profun-damente marcado por essa construtividade e historicidade da prtica humanae, como tal, escapa da normatividade nomottica e de qualquer outra formade necessidade, seja ela lgica, seja biolgica, fsica ou mesmo social, se toma-do este ltimo aspecto como elemento de pura objetividade. Os fenmenosde natureza poltica e educacional no se determinam por pura mecanicidade,ou melhor, s a posteriori ganham objetividade mecnica, transitiva, mas, a essaaltura, j perderam sua significao especificamente humana. que eles sedo num fluxo de construtividade histrica, construo esta referenciada aintenes e finalidades que comprometem toda a logicidade nomottica deseu eventual conhecimento.

O carter prxico da educao, ou seja, sua condio de prticaintencionalizada, faz com que ela fique vinculada a significaes que no so daordem da fenomenalidade emprica dessa existncia e que devem ser levadasem conta em qualquer anlise que se pretenda fazer dela, exigindo diferencia-es epistemolgicas que interferem em seu perfil cognoscitivo. Educao prtica histrico-social, cujo norteamento no se far de maneira tcnica, con-

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forme ocorre nas esferas da manipulao do mundo natural, como, por exem-plo, naquelas da engenharia e da medicina.

No seu relacionamento com o universo simblico da existncia humana,a prtica educativa revela-se, em sua essencialidade, como modalidade tcnica epoltica de expresso desse universo, e como investimento formativo em todasas outras modalidades de prticas. Como modalidade de trabalho, atividadetcnica, essa prtica estritamente cultural, uma vez que se realiza mediante ouso de ferramentas simblicas. Desse modo, como prtica cultural que a edu-cao se faz mediadora da prtica produtiva e da prtica poltica, ao mesmotempo que responde tambm pela produo cultural. servindo-se de seuselementos de subjetividade que a prtica educativa prepara para o mundo dotrabalho e para a vida social (Severino, 2001). Os recursos simblicos de que seserve, em sua condio de prtica cultural, so aqueles constitudos pelo pr-prio exerccio da subjetividade, em seu sentido mais abrangente, sob duas mo-dalidades mais destacadas: a produo de conceitos e a vivncia de valores.Conceitos e valores so as referncias bsicas para a intencionalizao do agirhumano, em toda a sua abrangncia. O conhecimento a ferramenta funda-mental de que o homem dispe para dar referncias conduo de sua existn-cia histrica. Tais referncias se fazem necessrias para a prtica produtiva, paraa poltica e mesmo para a prtica cultural.

Ser eminentemente prtico, o homem tem sua existncia definida comoum contnuo devir histrico, ao longo do qual vai construindo seu modo de ser,mediante sua prtica. Essa prtica coloca-o em relao com a natureza, median-te as atividades do trabalho; em relao com seus semelhantes, mediante osprocessos de sociabilidade; em relao com sua prpria subjetividade, median-te sua vivncia da cultura simblica. Mas a prtica dos homens no umaprtica mecnica, transitiva, como o a dos demais seres naturais; ela umaprtica intencionalizada, marcada que por um sentido, vinculado a objetivos efins, historicamente apresentados.

Alm disso, a intencionalizao de suas prticas tambm se faz pela sen-sibilidade valorativa da subjetividade. O agir humano implica, alm de sua refe-rncia cognoscitiva, uma referncia valorativa. Com efeito, a intencionalizaoda prtica histrica dos homens depende de um processo de significao simul-taneamente epistmico e axiolgico. Da a imprescindibilidade das refernciasticas do agir e da explicitao do relacionamento entre tica e educao.

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A PRTICA EDUCACIONAL COMO PRTICATICO-POLTICA

Na esfera da subjetividade, a vivncia moral uma experincia comum atodos ns. Pelo que cada um pode observar em si mesmo e pelo que se podeconstatar pelas mais diversificadas formas de pesquisas cientficas e de observa-es culturais, todos os homens dispem de uma sensibilidade moral, mediantea qual avaliam suas aes, caracterizando-as por um ndice valorativo, o que seexpressa comumente ao serem consideradas como boas ou ms, lcitas ou ilci-tas, corretas ou incorretas. Hoje se sabe, graas s contribuies das divers