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    FUNDAMENTOS ANTROPO-FILOSFICOS DA EDUCAO

    Luiz Gonzaga Gonalves1

    Apresentao

    Voc convidado(a) agora a ingressar no universo da antropologia los ca da educao. As palavras podem parecer distantes, mas quando falamos da antropologia estamos trazendo para a discusso o ser humano, sua vida e seus modos de ser, pensar e agir em seus contextos vitais. Quando falamos de antropologia los ca queremos saber como o ser humano vai construindo seus processos de compreenso de si e do mundo e em que bases encontra sustentao para se pronunciar sobre seu saber e conhecimento.

    Na longa aventura humana sobre a terra temos dado provas de que somos capazes de aprender durante toda a vida, de crescermos em diferentes nveis e em diferentes profundidades de aprendizagem. As disponibilidades abertas de nosso crebro, os domnios da linguagem e da comunicao, as habilidades de nossas mos, o andar bpede, nossa longa infncia e adolescncia, entre outras caractersticas, permitiram que crissemos formas de organizao grupal e social complexas, supondo uma aprendizagem continuamente aberta. So essas disponibilidades humanas e sociais para aprender a ser e a conviver, que nos levam, como educadores, a indagar pelas vises de mundo que se zeram hegemnicas e pelos caminhos con ituosos de recepo e de integrao ativa na sociedade de todos os seus membros.

    Como voc ver, o convite para o Curso inclui um recuo no tempo, para revermos as heranas los cas que prevaleceram com suas concepes de mundo, de ser humano, de sociedade e de natureza, capazes de orientar modos de pensar e de agir. As incurses pretendem inspirar as buscas de hoje, quando as tarefas educacionais emergem dos espaos onde nos encontramos, da direo que pretendemos seguir e dos motivos que orientam nossas decises.

    Interessa-nos, de modo especial, como latino-americanos, como brasileiros, os vnculos entre educao e poltica, que demarcam con itos, e transformam diferenas em grandes desigualdades. No comeo do sculo XX 75% da populao brasileira eram analfabetos. Vamos rejeitar os saberes de coisas da vida que temos acumulado ao longo dos sculos ou vamos incorpor-los em nossas propostas pedaggicas? As pedagogias no conformistas se erguem das inquietaes em torno dos entendimentos que construmos acerca dos processos atravs dos quais so construdas as sociedades, e com elas os conhecimentos e saberes hegemnicos. Nem por isso vamos desconsiderar as vias inteligentes de aquisio de saberes, muitas vezes desprezadas.

    Uma loso a exionada a servio da educao e da vida de se esperar que corresponda a um pensamento complexo, aberto inovao e ao dilogo frente aos domnios vrios do saber e do conhecimento. Estar na vida ter a certeza

    1 Professor, mestre e doutor em educao, com graduao em loso a e pedagogia; vinculado ao Departamento de Fundamentao da Educao, do Centro de Educao, da Universidade Federal da Paraba.

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    de poder experimentar crises, superaes e busca de alternativas para pensar um mundo onde todos os seres humanos possam encontrar uma morada digna.

    Os objetivos que pretendemos alcanar

    Vamos trabalhar a partir de trs grandes objetivos. Queremos identi car as heranas los cas que prevaleceram com suas concepes de mundo, de ser humano, de sociedade e de natureza, capazes de orientar modos de pensar e de agir. Queremos examinar as orientaes que dizem respeito aos avanos do conhecimento, predominantes na civilizao ocidental, muitas vezes postos a servio de poucos. Por m, queremos contribuir para a a rmao de uma ao pedaggica voltada para a promoo do ser humano, de modo a fortalecer as buscas e intervenes a servio de um convvio social onde todos encontrem um lugar digno de habitar.

    As unidades temticas

    Vamos trabalhar com trs unidades temticas. Na primeira vamos nos deter no universo da antropologia los ca grega, procurando identi car seus pressupostos e preocupaes. Vamos mostrar como a loso a grega vai deixando para trs os domnios da sabedoria de vida, que no oferecem bases seguras para o conhecimento. Vamos nos deparar especialmente com as contribuies de Scrates, Plato e Aristteles.

    Na segunda unidade vamos ver como a loso a na modernidade desvenda novas necessidades e horizontes para o pensamento, redimensionando a pergunta sobre a capacidade humana para conhecer. Veremos alguns aspectos da contribuio de Descartes e Bacon e de Comenius. O ltimo procura desenvolver uma pedagogia aberta s novas idias de seu tempo.

    Na terceira unidade vamos ver como Rousseau abre caminhos para uma pedagogia da existncia, rompendo com a pedagogia da essncia, descortinando novas bases para uma educabilidade aberta ao universo da criana e importncia da aprendizagem. Vamos ver como a Escola Nova no sculo XX aprofunda as idias apresentadas por Rousseau. Vamos ver tambm que o sculo XX vai aos poucos inserindo efetivamente o Brasil nos problemas polticos e pedaggicos de seu tempo. Encerramos a terceira unidade fazendo um balano das heranas educacionais que nos alcanaram durante nossa formao escolar.

    Encaminhamentos e processos de avaliao

    O processo avaliativo incluir alguns exerccios para que voc, aluno(a) possa apropriar-se dos contedos e dos problemas levantados pelos textos selecionados. Voc far textos curtos que sero pedidos ao longo do curso, com os quais voc trar sua contribuio a partir das leituras propostas. Nessas atividades teremos no seu conjunto uma das trs notas nais.

    A avaliao incluir um convite para que voc tente inventariar a sua experincia discente, desde sua iniciao escolar. Interessar neste inventrio,

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    neste memorial discente, que voc avalie o alcance daquilo que comps as dimenses fundamentais do seu processo educativo escolar. Voc pode destacar aspectos positivos ou negativos presentes. Por exemplo, inventariar o que cou de marcante dos seus contatos, do seu manuseio dos livros didticos; o que cou de marcante de sua relao com as bibliotecas das escolas; o que cou de marcante dos recursos didticos utilizados pelos professores at aquilo que hoje chamamos de ensino fundamental, de ensino mdio. Voc convidado a inventariar as opes de avaliao da aprendizagem, inventariar aspectos marcantes do contexto da poca, no qual a(as) escola(as) estava(m) inserida(s).

    Com a produo do inventrio escolar, resvalando em saudades e vivncias, a meta a de tentar desvendar, com os olhos de hoje, os ns e objetivos muitas vezes implcitos que eram atingidos, com as orientaes pedaggicas e didticas dominantes vividas por voc, at chegar universidade. A primeira parte do trabalho que corresponde ao inventrio dos aspectos relevantes de sua aprendizagem escolar equivale a segunda nota nal.

    A partir desse inventrio discente, voc convidado a fazer uma segunda parte de seu memorial adotando um conceito de educao. Com esse conceito que pode ser seu ou buscado na literatura educacional, voc convidado a identi car as direes, as concepes de mundo que orientaram as opes pedaggicas e didticas vividas por voc como aluno(a) e as que voc apontaria como vlidas hoje para as novas geraes que chegam aos espaos escolares. Com a segunda parte crtica do seu memorial completaremos as trs notas.

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    UNIDADE I

    A FILOSOFIA GREGA ANTIGA: Pressupostos e Preocupaes

    1.1 Atividades Introdutrias

    Que tal quebrarmos o gelo, comeando por concentrar nossa ateno na etimologia de algumas palavras consagradas, que retratam a vida na escola, nossas conhecidas de longa data?

    A atividade los ca desenvolve um cuidado especial com as palavras que utilizamos. Quer saber o alcance que elas tm para descrever e dar signi cado para as coisas que se desdobram no mundo onde nos movemos. As atividades da loso a da educao tambm no se descuidam das palavras que podem nos ajudar a demarcar os caminhos, a coerncia das respostas perante os desa os educacionais, de ontem e de hoje. Querem nos ajudar a ver os horizontes demarcados, as compreenses acerca do que se espera da disponibilidade do ser humano para se educar. Uma antropologia los ca a servio da educao quer saber, portanto, qual compreenso decisiva de ser humano, de sociedade, de vida orienta as buscas, faz surgir os problemas considerados relevantes. A tentativa a de caminharmos prximos das teorias e prticas, que ontem e hoje disputam o poder de dizer o que deve ser a educao, para que e para quem ela serve.

    1.2 Etimologia das Palavras no Espao da Educao Escolar1

    - Aluno alumnus,.i;criana que se alimenta no peito; aquele que se alimenta dos bocados que provm do magistrio. Em decorrncia: pupilo, discpulo.

    - Aprender a) apprehendere: agarrar, apanhar, segurar, apoderar-se de algo, porque precioso e no se deve escapar. Em decorrncia: tomar conhecimento de, reter na memria. b) discere aprender, de onde deriva a palavra discpulo.

    - Educar a) educare: criar, amamentar. Em decorrncia: instruir, preparar para a vida. b) e-ducere: e: para fora; ducere: conduzir; dar luz; fazer surgir. Em decorrncia: ajudar a conduzir de uma situao outra; ajudar a modi car.

    - Ensinar: - insignire: assinalar, distinguir, colocar um sinal, mostrar, indicar. Em decorrncia: indicar o caminho para aprender.

    - formao: fromage, em francs: provm da ao de dar forma, de con gurar, como os moldes do forma aos queijos.

    - Instruo instructio,.onis: construo, edi cao.- Mestre - magister,.tri: o que sabe mais2 (magis), o que dirige, conduz.- Pedagogo do grego paidogogs (pais, paidos: criana! E agogs: guia,

    condutor): escravo que acompanhava as crianas escola; depois: mestre, preceptor.

    1Quando os vocbulos apresentados no tm origem no latim, sero destacados de onde se originam. Ver Maria Lucia ARANHA. Filoso a da Educao. So Paulo. Moderna. 1989. p. 58. Ver Ernesto Faria. Dicionrio Escolar Latino-Portugus. Reviso de Rute J. de Faria. 6 ed. Rio de Janeiro.

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