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  • FUNDAO GETULIO VARGAS

    CENTRO DE PESQUISA E DOCUMENTAO DE

    HISTRIA CONTEMPORNEA DO BRASIL (CPDOC)

    Proibida a publicao no todo ou em parte; permitida a citao. A citao deve ser textual, com indicao de fonte conforme abaixo. ZAIDAN, Michel. Michel Zaidan (depoimento, 2014). Rio de Janeiro, CPDOC/FGV; LAU/IFCS/UFRJ; ISCTE/IUL; IIAM, 2015. 30 pp.

    MICHEL ZAIDAN (depoimento, 2014)

    Rio de Janeiro

    2015

  • Transcrio

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    Nome do entrevistado: Michel Zaidan

    Local da entrevista: Recife, PE

    Data da entrevista: 1 de setembro de 2014

    Nome do projeto: Cientistas Sociais de Pases da Lngua Portuguesa: Histrias de vida

    Entrevistadores: Celso Castro e Dirceu Marroquim

    Cmera: Priscila Bittencourt

    Transcrio: Carolina Gonalvez Alves

    Data da Transcrio: 20 de outubro de 2014

    Conferncia Fidelidade: Natlia Quinder

    Data da conferncia: 23 de janeiro de 2015 ** O texto abaixo reproduz na ntegra a entrevista concedida por Michel Zaidan em 01/09/2014. As partes destacadas em vermelho correspondem aos trechos excludos da edio disponibilizada no portal CPDOC. A consulta gravao integral da entrevista pode ser feita na sala de consulta do CPDOC. M.Z. A bom porque... Voc sabe que a gente tem que fazer um balano. Esse tal de memorial um balano [risos] que o camarada tem que fazer da prpria carreira. D.M. verdade. M.Z. , fazer um levantamento, etc. Bom, ento, acho que o momento oportuno, esse momento. [risos] C.C. Se voc quiser j aproveita a transcrio [risos]. A gente te envia, voc j tem... M.Z. Fazer a indulgncia consigo mesmo, no ? Acho que Cames que fala errei os versos da minha vida inteira, em um famoso texto. [risos] C.C. Bom, ento vamos comear? Vou fazer um cabealho s para gravar a data aqui e a gente comea. M.Z. Eu acho que Cames que fala: Errei os versos da minha vida... [inaudvel] Errei os versos da minha vida [inteira]. [risos] C.C. Bom, ento vamos comear? Eu vou s fazer um cabealho, s para gravar a data aqui e a gente comea. Hoje dia primeiro de setembro de 2014. Vamos entrevistar o professor Michel Zaidan Filho, em Recife. Celso Castro e Dirceu Marques Marroquim entrevistando. Priscila Bittencourt filmando. Bom, professor, em primeiro lugar obrigado por ter aceito o nosso convite, no , para participar desse projeto e gostaramos de comear perguntando um pouco sobre sua origem familiar. De onde o senhor , sua famlia?

  • Transcrio

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    M.Z. Eu sou por parte de pai neto de srio-libaneses. Meus avs paternos eram de Beirute, [inaudvel] de muitos e muitos anos, vieram para uma lua de mel no Rio de Janeiro e no voltaram nunca. O fato que os meus pais, sobretudo meu pai, nasceu no Maranho, em uma colnia de libaneses no Maranho, chamada... em Caxias, inclusive, [inaudvel] cheio de libaneses. Meu pai era comerciante, como todo bom rabe, no ? Ele gostava muito de ler. Tanto quanto meu av, como se afastou da terra dele, ele tinha notcias pelo rdio e jornal, pelas revistas. Sempre lia muito. Meu pai tambm herdou essa caracterstica, e eu terminei herdando deles tambm porque li muitos jornais na minha adolescncia, muitos jornais e revistas, cinema, uma grande estimulao, o cinema, televiso tambm. E terminei me tornando uma pessoa do ensino, da pesquisa. Acho que os grmios escolares ajudaram muito tambm, nessa poca. Hoje no tem mais grmios como tinha antigamente. Mas antigamente as escolas tinham muitos grmios e esses grmios estimulavam muito a participao dos alunos em jornais rurais, jris simulados, peas de teatro, etc. Isso tudo concorreu muito para que a gente terminasse enveredando por esse caminho, por essa carreira. Aos 13, 14 anos eu me lembro de uma frase [dita a uma tia] que eu nunca me esqueci. Eu queria uma carreira que eu pudesse falar para as pessoas. Eu no sabia direito bem o que seria, no ? Mas algo assim que eu pudesse falar para as pessoas e terminei me tornando um professor. Depois... Eu ia fazer uma ps-graduao em Filosofia na Blgica. Era o meu objetivo. Estudar o monismo neutro, mas fui desencaminhado, no bom sentido da palavra, por um historiador belga, padre, hoje deixou a batina, chamado Eduardo [inaudvel o sobrenome], que escreve a histria da igreja na perspectiva dos oprimidos. A perspectiva dele, no ? [inaudvel], era o grupo da [inaudvel]. E este professor nosso terminou nos encaminhando para o campo da Histria Social Brasileira, deixando a Filosofia de lado e indo para a Histria Social Brasileira. Foi a poca em que a Unicamp estava se montando. No tinha nem curso de graduao de Histria, mas eles fizeram a ps-graduao antes da graduao. Chamava-se Conjunto de Histria. Era um barraco, uma lama danada ali na Unicamp, vermelha, quando chovia era uma tragdia, a gente se sujava todo de lama. Eram uns barraces improvisados que a gente ia estudar l na Unicamp. C.C. Deixa eu s lhe perguntar, um pouco antes desse..., o seu pai que era comerciante, do Maranho? M.Z. Ele era maranhense. Ele veio de l para Pernambuco, para Garanhuns que uma cidade fria, muito fria, onde tinha uma colnia tambm de libaneses l, rabes, no , comerciantes rabes, l nessa cidade. C.C. O senhor nasceu? M.Z. Nasci em Garanhuns. C.C. Em Garanhuns. M.Z. Que aqui em Pernambuco. C.C. Sim. Em que ano o senhor nasceu? M.Z. 1951. Hoje eu tenho 63 anos completados no ms de junho. Mas ele veio de l com meus avs paternos e se instalaram nessa cidade. Era muito frio, clima de serra.

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    Tem quase mil metros acima do nvel do mar. Ento ficaram l durante muito tempo, desenvolveram a atividade comercial, meu av, meu pai e depois meus tios tambm e etc. C.C. O senhor estudava em colgio? M.Z. Estudei em vrios colgios religiosos. Minha formao muito ligada a colgios religiosos. Colgio... C.C. Catlicos. M.Z. Da diocese e presbiteriano. Tem um excelente colgio presbiteriano, e parte do secundrio e do cientfico foi feito nesse colgio presbiteriano, chamado 15 de Novembro. Foi outro ambiente tambm propcio para estudar, debater, ler, fazer essa carreira. Tambm concorreu muito. Professores livres pensadores, sobretudo no colgio evanglico, diga-se de passagem, eram livres pensadores, permitiam muito que a gente discutisse, debatesse em sala de aula. Ajudou muito essa formao, muito mesmo, porque se fosse uma formao mais dogmtica, catequtica, digamos assim, a gente sairia tudo assim, limitado. Mas no. Eles eram livres pensadores, e a gente terminou tendo a possibilidade de conhecer muitas coisas, ler muitos autores tambm, se interessar por muita coisa e isso foi vital, eu acho que na formao da minha gerao, digamos assim. C.C. Que autores o senhor lembra, ou livros? M.Z. Na adolescncia ainda cheguei a ler Sartre. As Moscas de Sartre, por exemplo, e um livro sobre Marx. No era dele, era a proposta... Marxismo e a religio. Lia muitos autores catlicos por conta da formao tambm, ligados sexualidade, famlia. E meu pai tinha uma coisa que era muito obsessiva que era ler tratados de Medicina. E eu lia tambm esses livros todos, com muita curiosidade, diga-se de passagem, tanto quanto dicionrios. Tinha uma curiosidade enorme de ler dicionrio para conhecer as palavras, sinnimos, aquelas coisas todas tambm. Foi muito interessante, no , porque dicionrio aumenta, termina aumentando seu universo vocabular, no ? Mesmo quando voc no sabe o que significam bem as palavras, mas voc termina se interessando por elas independentemente de qualquer coisa e depois usando as palavras, no ? C.C. O senhor mencionou os grmios. O senhor tinha alguma atuao nos grmios? M.Z. Participei muito, muito. Ou escrevendo, ou representando, ou fazendo jris simulados. Tive uma boa participao nesses grmios. Onde eles foram organizados, eu participei muito e credito a eles uma influncia muito grande na minha formao. Coisa que eu sinto muito que no tem nos colgios de hoje. No tem mais isso. Nem na faculdade quanto mais nos colgios. Faz muita falta essa socializao para o debate. Uma coisa muito importante para o incio dessas vocaes, dessas carreiras, digamos assim, literrias. C.C. E o senhor quando terminou o colgio, o ensino mdio, no , que seria hoje l em Garanhuns ainda? M.Z. Garanhuns.

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    C.C. E a... M.Z. Vim para fazer a faculdade. C.C. E Filosofia? O senhor j estava decidido a fazer Filosofia? M.Z. J. Porque essas crises da adolescncia terminam levando voc a perder a f, a questionar muito a f, e a, claro, que voc tem essa enorme vontade de buscar outras explicaes para a vida. A terminei desembarcando na Filosofia. Minha famlia era contra. Eu tinha um tio que era promotor e disse: Ou vai ser bomio, provavelmente, ou um filsofo e gnio. Eu no acredito que ele vai ser um filsofo e gnio, ento vai um ser bomio. Vai partir para boemia mesmo. No vai dar em nada isso a. Vai ser um prejuzo muito grande para a famlia como um todo. Mas nem uma coisa, nem outra. [risos]. Nem gnio nem bomio, no ? A Filosofia nos preparou para a Histria, a Poltica, a Histria, etc. Mas uma formao que eu nunca abandonei na minha vida. Eu sou professor de Teoria da Histria. Ento nunca abandonei a Filosofia. Nunca. Nunca, nunca, nunca. Ainda hoje leio muito Filosofia e incentivo os alunos a lerem muito Filosofia. Nietzsche, Hegel, Marx, Ludwig Feuerbach, todos eles, diga-se de passagem, mas sempre a Filosofia. Leio Benjamin, por exemplo. Sempre a Filosofia est comigo, sempre. E ainda quis voltar a ensinar Filosofia. Alis, eu cheguei a ensinar na ps-graduao de

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