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  • FREI CANECA, O TYPHIS PERNAMBUCANO E A EDUCAO

    Maria Madalena Sorato Gulla Marclia Rosa Periotto

    Universidade Estadual de Maring

    Este um estudo preliminar sobre o pensamento de Frei Joaquim do Amor Divino

    Caneca e de seu jornal Typhis Pernambucano (dezembro de 1823 - agosto de 1824), mais

    precisamente do texto Bases para a formao do pacto social redigidas por uma

    sociedade de homens de letras. De carter liberal, o texto apresenta 32 itens nos quais

    esto dispostos os eixos poltico e filosfico que guiariam a nova Repblica e

    expressavam, por sua vez, uma enrgica oposio ao governo de D. Joo VI e depois de

    Pedro I. Esses princpios, inspirados nas idias francesas, motivaram Frei Caneca a lutar

    para impregn-los na conscincia dos nordestinos, na tentativa de educ-los para uma

    realidade diferente da vivida at ento. O conflito entre revoltosos e governo no resultou

    apenas de atitudes espontneas do povo reclamante por liberdade, mas teve no Typhis um

    instrumento da maior importncia para levar a massa popular ao enfrentamento armado. O

    objetivo do estudo demonstrar esse carter educativo, conscientemente impregnado nas

    idias propaladas pelo referido jornal quando da contestao dos novos rumos polticos

    trazidos pela independncia brasileira.

    Em Pernambuco, na periferia do Recife em 1779, nasceu Frei Caneca, assim

    conhecido por ser filho de um tanoeiro. Seu pai, Domingos da Silva Rabelo, portugus,

    construa e consertava barris, tinas, barricas e canecas. Sua me, Francisca Alexandrina de

    Siqueira, era filha e neta de portugueses. Caneca trazia em seu sangue a mestiagem da

    provncia, pois seu bisav materno havia se casado com uma mestia brasileira.

    Ingressou nos estudos religiosos no convento do Carmo, no Recife, onde se ordenou

    frade aos 22 anos de idade, provavelmente por opo da famlia, pois, alm de um tio de

    sua me ser carmelita, a ordenao religiosa era uma das atividades que ofereciam aos

    menos abastados a possibilidade de uma sobrevivncia segura e de certa promoo social.

    Em suas atividades de religioso, depois como professor de geometria e gramtica, de

    escritor e de jornalista, procurou defender e propagar um iderio poltico de cunho liberal

    avanado para a poca no Brasil.

  • 2

    Frei Caneca freqentou a Academia Literria do Paraso, uma associao de

    ilustrados em que se lia e discutia obras cientficas, polticas e filosficas, algumas

    proibidas pela Coroa. Ganhava destaque tambm nesse momento em Pernambuco as lojas

    manicas que se tornaram ponto de reunio de interessados em tomar conhecimento e em

    discutir aquelas idias liberais propagadas pela Revoluo Francesa.

    As primeiras lojas manicas no Brasil tiveram como ncleo importante a cidade de

    Recife devido influncia econmica que Pernambuco exercia como tradicional produtor

    de cana-de-acar. Nessa cidade fundou-se a loja manica Arepago de Itamb, da qual

    participavam, entre outros, os irmos Cavalcanti, o padre Cmara, Miguelinho, Joo

    Ribeiro e Frei Caneca.

    Viana Filho elucidou, em parte, o mistrio de como chegaram ao Brasil s

    proclamaes revolucionrias. Afirma o historiador baiano:

    Que em 1796, o governo de Lisboa alertou o de Salvador, na Bahia, que a espionagem lusa detectara a informao de que o Clube Cercles Social, de Paris, enviara uma expedio por mar no sentido de que seus propagandistas viessem a introduzir nas colnias estrangeiras, o mesmo esprito de liberdade que reinava neste pas (Frana) e dividir as foras dos soberanos do Novo Mundo. (ANDRADE: FERNADES, 1992, p.92).

    Manuel Arruda Cmara se encontrava estudando medicina em Montpellier, na

    Frana, quando ocorreu a Grande Revoluo. Ele foi discpulo, dentre outros, de

    Lavoiser, que teve a cabea cortada por causa de suas implicaes com a corte de Luis

    XVI, e Condorcet, notvel filsofo, outro que acabou engolido pelo Saturnismo da

    Revoluo que ele prprio, com suas idias avanadas, ajudou a desencadear na Frana.

    Retornando a Pernambuco, pelos idos de1798, Manoel Arruda Cmara comeou a

    pregar no Nordeste brasileiro os ideais da Revoluo Francesa. Para isso fundou na cidade

    de Itamb, na divisa de Pernambuco com a Paraba, uma sociedade secreta manica que

    teve o significativo nome de Arepago, que, maneira dos clubes franceses do sculo

    XVIII, reunia os patriotas do Nordeste, principalmente os de Pernambuco. Sociedade

    poltica, secreta, uma espcie de magistrio que instrua e despertava entusiasmo pela

    democracia republicana, cujo objetivo era doutrinar a populao para a independncia.

    Suas idias de repblica e federalismo eram mostradas atravs do Typhis Pernambucano,

    jornal dirigido por Frei Caneca e o Sentinela da Liberdade, dirigido por Cipriano Barata.

    Alm da contribuio de Manoel de Arruda Cmara, o notvel surto literrio do

    sculo XVIII no Brasil introduziu na colnia portuguesa as idias novas que circulavam na

  • 3

    Europa. Estudantes brasileiros que cursavam faculdade em Coimbra, Montpellier e em

    outros centros culturais europeus interessavam-se entusiasticamente pelo pensamento

    ocidental num sculo de intensa produo literria e de agitao de idias.

    Participando da vida universitria portuguesa ou francesa, os brasileiros iriam trazer,

    ou j estavam trazendo para o Brasil, as doutrinas do pensamento europeu. Identificados

    com o meio onde estavam estudando ou do qual participavam, os letrados brasileiros

    teriam de imbuir-se do esprito do tempo e translad-lo para o Brasil, onde o queriam vivo

    e atuante como na Europa. Joo de Scantimburgo (1989) afirma que a ilustrao

    conquistou os brasileiros, como em geral a toda a intelectualidade do Ocidente europeu,

    estendendo a sua influncia at as remotas paragens da Amrica espanhola e lusitana.

    De fato j no era possvel conter a onda revolucionria da Revoluo Francesa, a

    qual mudou completamente a ordem das coisas na sociedade contempornea ao sculo

    XVIII, assentando um golpe destruidor no regime feudal e absolutista, no s na Frana,

    como na Europa inteira. A Revoluo Francesa acabou decididamente com a dependncia

    feudal dos camponeses que ainda persistia em vrios pases europeus, fortalecendo no

    campo a pequena propriedade livre, extinguindo as corporaes de oficio sufocadas pela

    manufatura e liquidando com os entraves ao comrcio. Poder-se-ia acrescentar mais: abriu

    caminho expanso da manufatura e do artesanato capitalista possibilitando o

    desenvolvimento da produo fabril na Europa continental.

    No mbito do poder poltico houve profundas transformaes, passando esse das

    mos da nobreza agrria urbana, qual reformou juridicamente as instituies, criando

    um Estado Moderno segundo a concepo tripartite anunciada por Montesquieu com

    Executivo, um Judicirio e um Legislativo -, poderes harmnicos entre si e autnomos,

    proclamando os Direitos Humanos, dotando os cidados de prerrogativas contidas em suas

    Constituies democrticas, elaborando os Cdigos Civil, Comercial e Penal. Enfim,

    contribuiu para modernizar toda uma estrutura arcaica, vista como injusta e cruel, e tornou

    o povo uma entidade poltica, cujas aspiraes j no podiam ser ignoradas pelas

    autoridades do Estado. De acordo com Jos Roberto Martins Ferreira:

    A Revoluo Francesa foi um dos grandes eventos histricos, que no apenas alterou abruptamente a forma como a Frana era governada, mas gerou mudanas no prprio modo de ser da sociedade francesa. A Europa, como todo o Ocidente, teria sua histria afetada pelos acontecimentos que se iniciavam em Paris. A Revoluo Francesa foi uma revoluo poltica e social de propores gigantesca para o destino de todo o mundo. (1997, p. 11).

  • 4

    Aps a Revoluo Francesa o absolutismo monrquico ainda persistente passou a ser

    ameaado pelos ideais de liberdade pregado mundo afora, o que obrigou os reis a se

    juntarem em aliana para combater a perniciosa divulgao de tais conceitos. Com a

    represso a tais idias subversivas ordem vigente, os propagandistas dos ideais

    revolucionrios comearam a se reunir em sociedades secretas, como a maonaria que no

    Brasil tiveram papel ativo no s na organizao de movimentos como na participao dos

    governos. Foi uma das alavancas que impulsionou a Independncia e um dos pivs da crise

    que levou mais tarde Proclamao da Repblica.

    Nesse ambiente de rebeldia contra a ordem que Frei Caneca aos poucos se formou

    intelectualmente. Chegou a tentar matricular-se na Universidade de Coimbra, mas foi

    impedido por dificuldades financeiras uma vez que a permanncia nessa universidade era

    mantida pelos pais e o seu, como sabido, no era membro da camada abastada da

    sociedade de ento. Poderia ter se acomodado, porm no o fez: religioso contemplativo e

    erudito se disps a mergulhar fundo nos mistrios humanos e divinos. Anos de estudos o

    habilitaram nos mais altos conhecimentos cientficos da poca, tanto nas cincias exatas

    quanto nas humanas. Na quietude do convento estudou incansavelmente, a ponto de ser

    considerado um dos maiores letrados daquele tempo. Como professor seu forte era

    Teologia, Geometria e Retrica. Lia de tudo, incluindo Rousseau, Montesquieu; no perdia

    as descobertas naturalistas, nem descuidava de exercitar a lgica matemtica e no campo

    da fsica e da astronomia exaltava a obra de Galileu e sua concepo de universo.

    Frei Caneca encotrava-se entre aqueles que apreciavam as novas descobertas, estava

    sempre atento a tudo aquilo que