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FRAUDE DE EXECUO E OS CRDITOS DAFAZENDA PBLICA

Cledi de Ftima Manica MosconAuditora Fiscal Previdenciria

Mestranda em Direito

INTRODUO

O presente estudo, parte integrante de dissertao de Mestrado que versa sobre oInstituto da Fraude de Execuo, do Direito processual civil brasileiro, o qual disciplina osefeitos dos atos de disposio patrimonial realizados pelo devedor insolvente, na constnciade demanda. A caracterstica da fraude de execuo, seu suporte basilar e as mincias daprtica jurdica so abordados no presente trabalho. So tambm analisados o alcance e oslimites na aplicao da norma no que pertine aos critrios objetivos a configurar a fraude, bemcomo a possibilidade de se admitir o exame da subjetividade quando se tratar de direitos doterceiro. Boa parte do estudo dirige-se a analisar as questes da ineficcia suficiente execuo dos atos de disposio realizados pelo devedor. Discorre-se procurando demonstraro alcance do Instituto da Fraude de Execuo, como norma necessria proteo executiva,no que se refere alienao dos bens penhorados. Ao dissertar sobre a fraude de execuo ,com freqncia, traado um paralelo com outros sistemas legais do Direito aliengena, cujosobjetivos finalsticos encontram identidade ou alguma semelhana com aqueles previstos nanorma brasileira. Referida comparao feita visando a pragmtica jurdica, s exignciaslegais de registro para publicidade dos atos e aos efeitos produzidos pela publicidade. Altima parte dedicada ao estudo da capacidade probante dos registros dos atos judiciais,seguido da anlise da defesa dos direitos do adquirente, atravs dos embargos de terceiro. Odestaque que se faz aqui, dirigido divulgao pela ANFIP, diz respeito ao captulo que tratada fraude de execuo e a execuo dos crditos pela fazenda Pblica.

1.1 Noes gerais

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1.1.1 Etimologia e significados

A palavra fraude deriva do latim fraus, fraudis. Seu sentido originrio quersignificar m-f, engano, embuste, cilada, armadilha,1 todos fundados na inteno de trazerum prejuzo, com o qual se locupletar o fraudulento.2

O termo fraude usado como artifcio malicioso, com a inteno de prejudicar odireito ou os interesses de terceiro. Esse termo usado com algumas variaes, mas estsempre ligado idia de comportamento tendente a enganar, seja com embustes, mentiras, oucom artimanhas,3 de forma a causar um prejuzo a algum em proveito do fraudador. Nessalinha, Eduardo Contoure: Es el que realiza el deudor mediante um acto de disposicin, parasustraer dolosamente determinados bienes a los procedimientos de ejecucin, con perjuzo desus acreedores.4 Por essas razes, quando se pensa em fraude, se faz no sentido de condutamaliciosa, tendente a prejudicar algum. O elemento volitivo no essencial ao ato na fraudede execuo. O Direito processual, como se ver adiante, atribui significado especfico aoinstituto da fraude de execuo, nem sempre coincidindo com a semntica original do termo.

Entretanto, informa Contoure,5 o sentido etimolgico era o de dano causado aalgum, apenas mais tarde foi introduzido o sentido de engano. A fraude, segundo o citadoautor, trata de una maquinacin o subterfugio insidioso tendiente a la obtencin de umprovecho ilicito. A propsito afirma Orosimbo Nonato, citando Rodondi e de Brejon, noDireito Romano mais antigo fraude significava antes prejuzo ou dano do que engano ouardil.6 A fraude de execuo est no proveito ilcito, em prejuzo do credor, embora o ato emsi negcio jurdico seja vlido. Modernamente, no se perquire da existncia do dolo naconfigurao da fraude, embora esse possa estar presente. O elemento subjetivo, na fraude,estaria, no no fim subjetivo existente no ntimo do fraudador, mas, sim, na inteno reveladapelo ato praticado. A fraude um engano malicioso ou a ao astuciosa para promover aocultao da verdade ou fuga ao cumprimento do dever.7 Na fraude, evidencia-se a aoastuciosa do devedor, o qual, para fugir do cumprimento ao dever, aliena ou onera o 1 Conf. Antnio Gomes Ferreira. Dicionrio latim-portugus. Portugal: Ed.Porto, 1987. p. 1240.2 Plcido Silva. Vocabulrio Jurdico. v. I. 3. ed. So Paulo: Forense,1973. p. 719.3 Joo Melo Franco ett alli. Dicionrio de Conceitos e Princpios Jurdicos.3. ed. reimpresso. Coimbra: Liv. Almedina, 1995. p. 458.4 Vocabulrio Jurdico. verbete fraude.5 Eduardo J. Contoure. Vocabulrio Jurdico. Buenos Aires: Depalma, 1976. p.295.6 Orosimbo Nonato. Fraude contra credores. Rio de Janeiro: Ed. Jurdica eUniversitria, 1969. p. 8.7 Conf. Plcido Silva. Vocabulrio Jurdico. v. I. p. 720.

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patrimnio, subtraindo os bens da execuo, causando prejuzo ao credor. por isso que sediz que o dolo est na astcia do ato empregado por quem devedor, quando age em fraude.Fraude um engano feito com astcia em prejuzo de terceiro.8

A fraude, na acepo de Nelson Nery Jnior9 e Orlando Gomes,10 vcio social, noatinge a vontade na sua formao ou na sua motivao, mas torna o ato defeituoso, porqueconstitui uma insubordinao da vontade s exigncias legais, no que diz respeito ao resultadopretendido. Para Pontes de Miranda,11 trata-se de defeito do ato jurdico. Entende o autor queo vcio da vontade revelado no querer, pelo devedor, do estado de insolvncia, por isso fazdefeituosa a vontade do devedor.12

1.2 A sano e a sujeio na execuo

Sano vem do latim sancire, significa consagrar, santificar, respeitar a lei (sanctiolegis).13 um vocbulo polissmico, isto , dotado de um significante e de vrios significados.Assim, pode ser tido como conseqncia favorvel ou desfavorvel. Interessa para o presenteestudo a conseqncia desfavorvel ou a sano negativa que a regra prev para o caso deviolao e para a qual refora a sua imperatividade. Toda norma jurdica pressupe umaconseqncia, um efeito, pelo seu no cumprimento. A sano jurdica sempre disciplinadapelo direito. Destarte, tem-se que a sano jurdica, como conseqncia desfavorvel, umefeito jurdico (no um fato), contedo de uma regra jurdica que prev a violao de umaregra de conduta. Podem ser: compensatrias, compulsrias, preventivas, punitivas,reconstitutivas.14 As sanes civis objetivam inutilizar o ato quanto s suas vantagensjurdicas, como ocorre na nulidade ou ineficcia. Visam fazer cumprir, especificamente, odever que foi violado ou restituir as coisas ao estado anterior. o caso da fraude de execuo,a qual tem o objetivo de inutilizar o ato somente quanto s vantagens obtidas pelo alienante,tendo por ineficazes os atos fraudulentos.

A sano, no Direito processual, distingue-se da sano do Direito material. Neste a

8 Conf.Joaquim Jos Caetano Pereira e Sousa. Esboo de um DicionrioJurdico. Teortico e Prtico. v. II. Lisboa: Tipografia Rollandiana, 1827.9 Nelson Nery Jnior. Vcios do Ato Jurdico e Reserva Mental. So Paulo:Rev. dos Tribunais,1983. p. 28.10 Orlando Gomes. Introduo ao Direito Civil. p 414. 13. ed. atual. Rio deJaneiro: Forense, 1998.11Pontes de Miranda. Tratado de Direito Privado. 4. ed. T. IV. So Paulo:Rev. dos Tribunais, 1974. p. 420.12 Tratado de Direito Privado. T. IV. p. 422.13 Conf. Joo de Melo Franco ett alli. Dicionrio de Conceitos e PrincpiosJurdicos. p. 73814 Conf. Joo Melo Franco ett alli. ob.cit. p. 779.

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sano consiste em aplicao ou modificao de penalidades pecunirias ou no. Porexemplo: instituio de multas, agravamento das mesmas; perdas e danos; modificao doobjeto, visando efetivar a execuo. Na obrigao de fazer, alm da multa, pode serdeterminado que outro cumpra a obrigao s expensas do demandado, que se nega a cumpri-la. Ocorre que s as normas sancionatrias do direito substancial no se mostram suficientespara garantir o adimplemento da obrigao. A simples elevao das penalidades, por vezes,inviabiliza, ainda mais, a efetividade da prestao jurisdicional.

Como bem assevera Enrico Tullio Liebman, nem sempre os homens cumprem suasobrigaes e obedecem aos imperativos decorrentes do direito, de maneira que a ordemjurdica no seria completa, nem eficaz, se no contivesse, em si prpria, aparelhamentodestinado a obter coativamente a obedincia a seus preceitos.15 A reside a razo dainstituio das sanes no Direito. Representam estas meios de presso tendentes areestabelecer o equilbrio perturbado pelo comportamento da pessoa obrigada, bem como,para induzir as pessoas obrigadas a cumprir espontaneamente suas obrigaes.16

Outro campo de atuao da norma jurdica, no mais destinada a dirigir sanesmateriais parte que resiste em no cumprir com o devido, consiste em usar meios queindependam da vontade humana, para atingir os resultados pretendidos. Nesse caso, a sanovisa obter, por outros meios, o mesmo resultado. Resultado esse que deve ser igual ou, o maisaproximado possvel do que seria obtido com o cumprimento espontneo pelo obrigado. Afinalidade reparatria, satisfativa, prope-se restabelecer e satisfazer custa do responsvel,o direito subjetivo que o ato ilcito violou.17 A sano medida de ordem jurdica que atingea pessoa na sua liberdade ou no seu patrimnio; ou um ato em sua eficcia, que o juiz ordenapara restabelecer o equilbrio de uma situao jurdica.18

No Direito antigo, o descumprimento da obrigao gerava sanes que adentravam naseara pessoal do obrigado, iam muito alm da busca da satisfao da dvida pelo credor. que o inadimplemento era tido como uma ofensa pessoal ao credor, por isso eram usadosmeios drsticos para buscar a compensao que, no caso, era pecuniria e pessoal.Modernamente, a civilizao no consegue sustentar a idia de ofensa e compensao pessoal,nem aceita, pacificamente, o uso de meios vingativos ou penais para cumprimento deobrigao, especialmente de cunho pecunirio.19 A apropriada busca da satisfao da

15 Enrico Tullio Liebman. Processo de Execuo. 3. ed. So Paulo: Saraiva,1968. p. 02.16 Enri