fraude à execução trabalhista e fraude à execução fiscal

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    Execuo Efetiva: fraude execuo trabalhista e fraude execuo fiscal - a interpretao sistemtica como ponte hermenutica assimilao produtiva execuo trabalhista do regime jurdico especial da fraude execuo prevista no art. 185 do CTN Ben-Hur Silveira Claus1 Jlio Csar Bebber2

    As concluses por analogia no tm apenas cabimento dentro do mesmo ramo do Direito, nem to-pouco dentro de cada Cdigo, mas verificam-se tambm de um para outro Cdigo e de um ramo do Direito para outro.

    Karl Engisch

    [...] o raciocnio jurdico ser sempre analgico, por isso que as hipteses singulares nunca sero entre si idnticas, mas apenas afins na essncia.

    Ovdio Baptista da Silva

    Resumo: O presente artigo estuda a juridicidade da aplicao do regime jurdico especial da fraude execuo fiscal execuo trabalhista, com vistas a promover a efetividade da jurisdio na Justia do Trabalho. Para tanto, articula-se a proposta de interpretao extensiva do art. 889 da CLT interpretao sistemtica do art. 186 do Cdigo Tributrio Nacional, com vistas assimilao produtiva da modalidade de fraude execuo prevista no art. 185 do CTN execuo trabalhista, que se revela mais favorvel ao credor do que o regime jurdico geral de fraude execuo previsto no art. 593, II, do CPC.

    Smario: Introduo. 1. As modalidades de fraude execuo no direito positivo. 2. Fraude execuo fiscal: a presuno de fraude absoluta; no se admite prova em contrrio. 3. A histrica opo da teoria jurdica brasileira de conferir ao crdito trabalhista privilgio legal superior quele reconhecido ao crdito fiscal. 4. Hermenutica e mtodo sistemtico de interpretao: do postulado da unidade do sistema jurdico compatibilizao dos arts. 29 da Lei n 6.830/80 e 186 do CTN. 5. A aplicao do sistema legal dos executivos fiscais execuo trabalhista: efetividade do direito material do credor trabalhista corresponde interpretao extensiva do art. 889 da CLT. 6. A jurisprudncia do STJ acerca da aplicao da Smula 375: fraude execuo fiscal x fraude execuo civil. A questo da aplicao do regime jurdico especial da fraude execuo fiscal previsto no art. 185 do CTN execuo trabalhista. 7. A fraude execuo no novo CPC (e a necessidade de reviso da S-375-STJ). 8. O marco temporal a partir do qual a alienao faz presumir fraude absoluta execuo trabalhista: ajuizamento x citao. Concluso.

    Palavras-chave: Fraude execuo. Execuo fiscal. Execuo trabalhista. Efetividade da jurisdio. Crdito trabalhista. Smula 375 do STJ.

    Introduo

    O Direito pressupe a boa-f das pessoas na vida de relao. a boa-f que fundamenta o princpio da responsabilidade patrimonial. De acordo com esse

    1 Juiz do Trabalho e Mestre em Direito.

    2 Juiz do Trabalho e Doutor em Direito do Trabalho.

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    princpio, o patrimnio do contratante responde por suas obrigaes: o patrimnio do sujeito obrigado expropriado pelo Estado, para satisfazer coercitivamente a obrigao no adimplida espontaneamente, restabelecendo-se o equilbrio da relao contratual e a integridade da ordem jurdica.

    Esse princpio encontra expresso literal no art. 591 do CPC, preceito que estabelece que o devedor responde, para o cumprimento de suas obrigaes, com todos os seus bens presentes e futuros, salvo as restries estabelecidas em lei. Trata-se de preceito localizado no ttulo em que o Cdigo de Processo Civil trata da execuo forada das obrigaes no cumpridas espontaneamente. Na Lei n 6.830/80, o princpio da responsabilidade patrimonial tem expresso nos arts. 10 e 30.

    Para coarctar condutas de m-f do devedor, a teoria jurdica extraiu do princpio de responsabilidade patrimonial dois institutos jurdicos destinados a combater fraude patrimonial praticada pelo sujeito passivo da obrigao a fraude contra credores (CC, arts. 158 e 159) e a fraude execuo (CPC, art. 593). O fato de no haver processo contra o obrigado quando da alienao do bem revela que a fraude contra credores ato ilcito menos grave do que o ato ilcito de fraude execuo3, modalidade de fraude patrimonial na qual j h processo contra o obrigado4 quando da alienao do bem que torna o obrigado insolvente para responder pela obrigao.

    No presente artigo, estuda-se a juridicidade da aplicao do regime jurdico especial da fraude execuo fiscal execuo trabalhista, com vistas a promover a efetividade da jurisdio na Justia do Trabalho (CF, art. 5, XXXV; CLT, art. 765). Para tanto, articula-se a proposta de interpretao extensiva do art. 889 da CLT interpretao sistemtica do art. 186 do Cdigo Tributrio Nacional, com vistas assimilao produtiva da modalidade de fraude execuo prevista no art. 185 do CTN execuo trabalhista, uma das diversas modalidades de fraude execuo previstas no direito positivo.

    1. As modalidades de fraude execuo no direito positivo

    Ao lado da modalidade geral de fraude execuo prevista no inciso II do art. 593 do CPC, o sistema legal prev uma modalidade especfica de fraude execuo no inciso I do art. 593 do CPC e abrange as demais modalidades de

    3 A fraude execuo tipifica, alm de ilcito processual civil, o ilcito penal de fraude execuo capitulado no

    art. 179 do Cdigo Penal. Outrossim, configura ato atentatrio dignidade da justia (CPC, art. 600, I) sancionado com a multa do art. 601 do CPC. A ordem jurdica atua contra a fraude execuo mediante a declarao de ineficcia do ato fraudulento (CPC, art. 592, V), autorizando a penhora do bem alienado em fraude como se permanecesse no patrimnio do executado. Para facilitar o combate essa espcie de fraude patrimonial, a declarao de ineficcia da alienao pronunciada nos prprios autos em que flagrada a fraude, de ofcio. Concluso ainda mais evidente na execuo trabalhista, por fora da previso dos arts. 765 e 878, caput, da CLT.

    4 A hiptese de fraude execuo fiscal prevista no art. 185, caput, do Cdigo Tributrio Nacional constitui

    exceo regra. Introduzida pela Lei Complementar n 118, de 09-06-2005, a atual redao do art. 185, caput, do CTN radicalizou a figura da fraude execuo fiscal, estabelecendo que a fraude execuo fiscal caracteriza-se quando a obrigao tributria j estiver inscrita em dvida ativa poca da alienao do bem. Na redao anterior do art. 185, caput, do CTN, a disciplina da fraude execuo era mais favorvel ao devedor tributrio: somente se caracterizava a fraude se j estivesse em curso a execuo fiscal poca da alienao do bem. Exigia-se a litispendncia da execuo fiscal. Essa exigncia foi suprimida pela Lei Complementar n 118, de 09-06-2005.

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    fraude execuo previstas em diversas leis na genrica hiptese do inciso III do art. 593 do CPC5 (inciso V do art. 792 do NCPC).

    A fraude execuo prevista no inciso II do art. 593 do CPC tem sido considerada a modalidade geral de fraude execuo por se tratar do tipo de fraude execuo que ocorre com maior frequncia. Caracteriza-se quando, ao tempo da alienao do bem, j corria demanda capaz de reduzir o demandado insolvncia.

    Menos frequente a modalidade de fraude execuo prevista no inciso I do art. 593 do CPC, que se caracteriza quando o devedor aliena determinado bem sobre o qual h ao judicial fundada em direito real. Essa modalidade de fraude execuo decorre do direito de sequela prprio ao direito real. Nesse caso, a configurao da fraude execuo independe do estado de insolvncia do devedor.

    Entretanto, as modalidades de fraude execuo so mais numerosas do que normalmente se percebe, sobretudo quando se atenta para as diversas modalidades de fraude execuo previstas em distintos diplomas legais. Nada obstante passem despercebidas algumas vezes, as demais modalidades de fraude execuo previstas em distintos diplomas legais foram consideradas pelo legislador na abrangente previso do inciso III do art. 593 do CPC, preceito que faz remisso a outras modalidades de fraude execuo, assim consideradas aquelas previstas nos demais casos expressos em lei.

    Ao legislador dado estabelecer, para a tutela do princpio da responsabilidade patrimonial, hipteses outras em que a conduta do devedor caracterize fraude patrimonial a ser rejeitada pelo sistema normativo, tipificando novas modalidades de fraude execuo com o objetivo ltimo de assegurar a integridade da ordem jurdica. Entre as demais modalidades de fraude execuo tipificadas em distintos diplomas legais, a teoria jurdica tem identificado sem prejuzo de outras modalidades dessa espcie de ato ilcito6 as seguintes hipteses:

    a) h fraude execuo quando, na penhora de crdito, o terceiro deixa de depositar em juzo a importncia por ele devida ao executado, nada obstante intimado pelo juzo para assim proceder (CPC, art. 672, 2 e 37);

    5 CPC: Art. 593. Considera-se em fraude execuo a alienao ou onerao de bens:

    I quando sobre eles pender ao fundada em direito real; II quando, ao tempo de alienao ou onerao, corria contra o devedor demanda.capaz de reduzi-lo insolvncia; III - nos demais casos expressos em lei.

    6 Araken de Assis relaciona outras hipteses de fraude execuo, que costumam passar despercebidas: Alm

    disso, atos de ndole diversa, como a dao em pagamento, a renncia herana, a interrupo da prescrio e, conforme caso julgado pela 3 Cmara Cvel do extinto TARS, a partilha de bens em separao consensual, igualmente representam fraude contra a execuo (Manual da Execuo. 14 ed. So Paulo: RT, 2012. p. 303).

    7 CPC: Art. 672. A penhora de crdito, representada por letra de cmbio, nota promissria, duplicata, cheque ou

    outros ttulos, far-se- pela apreenso do documento, esteja ou no em poder do devedor. ... 2. O terceiro s se exonerar da obrigao, depositando em juzo a importncia d

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