frank sinatra est resfriado0001

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  • Frank Sinatra esta resfriado

    Frank Sinatra, segurando urn copo de bourbon numa mao eurn cigarro na outra, estava num canto escuro do balcao entreduas loiras atraentes, mas ja urn tanto passadas, que esperavamouvir alguma palavra dele. Mas ele nao dizia nada; passara boaparte da noite calado; s6 que agora, naquele clube particular emBeverly Hills, parecia ainda mais distante, fitando, atraves dafumaya e da meia-luz, urn largo sahio depois do balcao, ondedezenas de jovens casais se espremiam em volta de pequenasmesas ou danyavam no meio da pista ao som trepidante do folk-rock que vinha do estereo. As duas loiras sabiam,como tambemsabiam os quatm amigos de Sinatra que estavam por perto, quenao era uma boa ideia foryar uma conversa com ele quando elemergulhava num silencio soturno, uma disposiyao nada rara emSinatra naquela primeira semana de novembro, urn mes antes deseu quinquagesimo aniversario.

    Sinatra estava fazendo urn filme que agora 0 aborrecia e naovia a hora de termina-Io; estava cansado de toda a falayao da im-prensa sobre seu namoro com Mia Farrow, entao com vinte anos,

  • que alias nao deu as caras naquela noite; estava furioso com umdocumentario da rede de televisao CIIS sobre a vida dele, que iriaao ar dentro de duas semanas e que, segundo se dizia, invadia asua privacidade e chegava a especular sobre suas liga
  • fast asleep/ you lie awake, and think about the girL". ~ Comotantos de seus classicos, uma can
  • esta entre estranhos na companhia de Sinatra, porque sabe queele faz aflorar nas pessoas 0 que elas tem de melhor e de pior _alguns homens se mostram agressivos, algumas mulheres se poema fazer charme, outros ficam na 6rbita do idolo, avaJiando-o Comceticismo. A mera presen
  • caminho ate 0 fundo do Jilly's por entre cotovelos e traseiros detres fileiras de homens bebendo no balcao, dar uma espiada e ve-la sentado lei no fundo. Era so 0 que eles queriam: ve-Io. E por ~alguns instantes fica ram olhando at raves da fumat;a. Depoisderam meia-volta, abriram caminho para fora do bar e forampara casa.

    Alguns dos amigos mais pr6ximos de Sinatra, todos conhe-cidos dos homens que guardam a porta do Jilly's, conseguem setlevados ate 0 salao dos fundos. Uma vez la, no en tanto, eles temde se virar sozinhos. Naquela noite, 0 ex-jogador de futebol ame-rica no Frank Gifford conseguiu avant;ar apenas sete jardas, emtres tentativas. Outros que, de urn modo ou de outro, conse-guiam chegar perto a bastante para apertar a mao de Sinatra,nao 0 faziam; apenas tocavam-lhe 0 ombro, ou a manga da cami-sa, ou simplesmente ficavam perto 0 bastante para que ele osvisse e, depois de receberem de Sinatra uma piscadela de reco-nhecimento, um aceno, um movimento de cabet;a, ou depois deserem chamados pelo nome (ele tem uma memoria fantasticapara nomes), davam meia-volta e iam embora. Tinham conse-guido 0 que queriam. Tinham prestado seus respeitos. Enquan-to eu olhava todo aquele ritual, tinha a impressao de que FrankSinatra habitava simultaneamente dois mundos que nao per-tencem ao mesmo tempo.

    Por um lado elc c gaiato por exemplo, quando fala ebrinca com Sammy Davis, Jr., Richard Conte, Liza Minelli, Ber-nice Massi, ou qualqucr outra pessoa do show busIness que sentaa mesa; por outro - quando balant;a a cabe

  • numa arc/em de que 0 veiculo fosse pintado agora, inJedintamen_te, ontem. Para realizar esse desejo, seria preciso contratar Ulnaequipe especial de pintores para trabalhar durante toda a noite,recebendo horas extras; isso exigia que a ordem fizesse 0 cami-nho inverso, subindo pelas diversas instancias, para ser aprova-da. Quando ela chegou a mesa de trabalho de Sinatra, ele naosabia do que estavam falando; quando entendeu do que se trata-va, confessou, com urn olhar cansado, que nao estava nem atpara quando 0 jipe ia ser pintado.

    Mas seria insensato ten tar preyer a sua rea

  • Game Warden. Por urn instante, depois de mira-las durantealgum tempo, desviou 0 olhar, mas agora as fitava de novo. 0dono das botas, que simplesmente estava cal
  • Na manha seguinte, come~ava mais urn dia tense para 0assessor de imprensa de Sinatra, Jim Mahoney. Mahoney estavacom dor de cabe~a, preocupado, mas nao com 0 incidente Sina-tra-Ellison da noite anterior. Na hora em que aconteceu, Maha-ney estava com sua mulher na outra sala, e com certeza nem sedeu conta do pequeno drama. A coisa toda nao durou mais detres minutos. E tres minutos depois que acabou, Frank Sinatracom certeza J tinha esquecido, para 0 resto de sua vida - aopasso que Ellison certamente nunca have rei de esquecer, assimcomo centenJS de outros antes dele: numa hora qualquer entre aanoitecer e 0 nascer do dia, ele tiverJ uma alterca~ao com Sinatra.

    E ainda bem que Mahoney n,io estava na sala de bilhar; elejei tinha coisas demais com que se preocupar naquele dia. Estavapreocupado com 0 resfriado de Sinatra, com 0 polemico docu-mentario da CIIS que, apesar de Sinatra ter protestado e retiradosua autorizac;ao, seria apresentado na tclevisao em menos deduas semanas. Os jornais do dia insinuavam que Sinatra ia pra-cessar a rede de tclevisao, os telefones de Mahoney tocavam semparar, e agora cle estava sondando Nova York, dizendo a KayGardella: "... certo, Kay... eles sclaram um acordo de cavalheirospara evitar certas perguntas sobre a vida particular de Frank, eai Cronkite saiu-se com esta: 'Frank, fale-me daquelas cone-xoes'. Essa pergunta, Kay - mia! Essa pergunta nunca deveriater sido feita ...".

    Enquanto Mahoney falava, recostado em sua cadeira de cou-ro preto, balanc;ava a cabec;a devagar. Ele c um homem de cons-tituic;ao vigorosa, de 37 anos; tern 0 rosto redondo e corado, ma-xilar rijo, olhos claros, miLldos, e poderia parecer agressivo ebrigao se nao falasse com tanta clareza e sinceridade, e se naofosse tao cuidadoso no vestir. Seus ternos e sapatos cram de talheperfeito, uma das primeiras coisas que Sinatra notou nelc; em seuespJ

  • da e mais franca do que antes. "Sim, Frank", disse ele. "Certo ...certo ... sim, Frank ..."

    Quando Mahoney pas 0 fone no gancho, devagar, informouque Frank Sinatra viajara em seu jato particular para passar 0fim de seman a em sua casa de Palm Springs, um vao de dezesseisminutos, partindo de sua casa de Los Angeles. Mahoney agoraestava preocupado de novo. 0 Learjet em que Sinatra iria voarera identico, segundo Mahoney, ao que havia acabado de cair emoutra regiao da California.

    Na segunda-feira seguinte, um dia nublado e excepcional-mente frio na California, mais de cern pessoas estavam reunidasnum estudio de televisao todo branco, urn salao enorme domina-do por um palco branco, paredes brancas, com dezenas de lumi-narias e lampadas penduradas no teto: 0 estudio mais pareciauma gigantesca sala de opera

  • conspiradores tentam sequestrar 0 Queen ;\!1ary,Johnny Delgadoatuou como duble dele em algumas (enas na agua; agora, naque-Ie estudio da NHC, sua t;uefa era ficar sob os quentes refletores datelevisao, fazendo a marca
  • "Voces ja pensaram em como seria 0 mundo sem uma can-
  • A primcira sra. Sinatra, uma mulher notavd que nunca vol-tou a casar ("Quando d gente ja foi casada com Frank Sinatra ...",explicou certa vez a uma amiga), mora numa casa magnifica emLos Angeles, com sua filha mais nova, Tina, de dezessete anos.Entre Sinatra e sua primeira mulher nao existe nenhum ressen-timento, apenas um grande respeito e aEcto; faz tempo que ele ebem-vindo na casa deb. Sabe-se tambem qu.e ele aparece la forade hora, acende a lareira, deita-se no sofa e cai no so no. FrankSinatra consegue dormir em qualquer lugar, coisa que aprendeuna epoca em que costumava viajar em 6nibus com sua banda,por estradas esburacadas; nessa epoca aprendeu tambem, quan-do estava de smoking, a ajeitar as calc,:as e 0 palet() de forma quenao amarrotassem enquanto de dormia. Mas agora ele nao andamais de 6nibus, e sua filha Nancy, que na inbncia se sentia rejei-tada quando de adormecia no SOf,1em vez de Ihe dar aten
  • muitos ganchos que dera com a esquerda, na epoca em que luta-va boxe na categaria peso-gala, quase cinquenta anos atds.

    Martin Sinatra, urn siciliano baixinho, tatuado, de olhinhosazuis, nascido em Catania, lutava boxe usando 0 nome "MartyO'Brien". Naquda epoca e naquelcs lugares, com os irlandesesdominando as esferas inferiores da vida da cidade, nao era inco-mum aparecerem italianos com nomes assim. A maioria dos ita-lianos e sicilianos que emigraram para a America pouco antesde 1900 era gente pobre e sem instrU

  • com as palavras: nao havia urn grande romancista entre des, ne-nhum O'Hara, nenhum Bellow, nenhum Cheever, nenhum Shaw;contudo, podiam se comunicar atraves do bel ((llltO. Tinha maisa ver com suas tradi
  • fluenciado John Kenncdy a se hospedar na casa de Bing Crosby, enao na casa de Sinatra, como fora planejado, um fiasco social queSinatra nunca havera de esquccer. Depois disso, Petcr Lawford foiexpulso do grupo de Sinatra em Las Vegas.

    "Sim, meu filho e como eu", diz Dolly, com orgulho. "Se voceo contraria, ele nunca esquece." E embora reconhe~a a for~a dofilho, apressa-se em dizer: "Ele nao consegue obrigar a pr6priamae a fazer nada que ela nao qucira". E acrcscenta: "Ainda hoje,clc usa a mesma marca de cueca que eu comprava para elc".

    Hoje Dolly Sinatra est.j com 71 anos de idade, um ou doismenos que Martin, e durante a dia todo as pessoas batem naporta dos fundos de sua ampla casa, para pedir conselhos e queela interceda por elas. Quando nao esta atendendo as pessoas outrabalhando na cozinha, cuida do marido, um homem caladomas teimoso, dizendo-lhe que mantenha 0 bra~o esquerdo naespuma sintetica que ela colocou no bra~o de uma cadeiramacia. "Oh, elc combateu terriveis incendios", disse Dolly a urnvisitante, fazendo um sinal com a cabe~

  • Frank Sinatra, Jr., que seu pai diz ter batizado em homenagem aFranklin D. Roosevelt, passa a maior