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Principios do Direito

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  • OS PRINCPIOS DO DIREITO SECURITRIO: UMA NOVA VISO SOBRE O TEMA LUZ DO NOVO CDIGO CIVIL

    FRANK LARRBIA SHIH Procurador Federal (RJ)

    Ex-Procurador da SUSEP (1994/2000) Especialista em Direito de Estado e Administrativo

    Professor de Direito da Faculdade Moraes Jnior (RJ) Professor da Ps-Graduao da Universidade Gama Filho (RJ)

    Professor da Ps-Graduao da Universidade Estcio de S (RJ) Instrutor Convidado do Centro de Estudos Jurdicos da AGU (DF) Membro do Instituto Brasileiro de Advocacia Pblica IBAP (SP)

    Sumrio: 1 O risco permeia a vida; 2 A Origem do Seguro; 3 Formao do Direito Securitrio; 4 Seguro Social e Seguro Privado; 5 Os princpios do Direito Securitrio; 6 Princpio do Mutualismo; 7- Princpio da Disperso dos Riscos; 8 Princpio do Absentesmo; 9 Princpio da Pulverizao dos Riscos; 10 Princpio da Boa-f Securitria; 11- Princpio Indenitrio; 12 Princpio da Irredutibilidade do Pretium Periculi; 13 Concluso.

    1. O RISCO PERMEIA A VIDA.

    A aventura da humanidade sempre foi marcada por infortnios de

    toda ordem. As tragdias e as desgraas que abatem os homens so uma constante, provocando perdas de vidas e de patrimnio, sendo histrica a arguta frase de Montesquieu de que a adversidade a nossa me, a prosperidade apenas nossa madrasta.

    Presos s adversidades da vida e s angstias das necessidades, os

    homens necessitam de bens materiais para a resoluo de suas vidas terrenas, o que gera um natural apego aos bens da vida uns mais, outros menos mas sempre inclinados a essa indiscutvel verdade1. Alis, no toca como exagero 1 o nosso atual estilo obssessivo de consumo, bem retratado no personagem de Tyler Durden, que em certa passagem do filme ensina: vejo aqui os homens mais fortes e inteligentes do mundo. E vejo todo esse talento sendo desperdiado.Uma gerao inteira enchendo tanques, servindo mesas ou escravos de colarinho branco. A propaganda nos faz correr atrs de coisas...trabalhos que odiamos...para acabar comprando o que no precisamos. Somos filhos do meio da histria. Homens sem lugar. No temos a Grande Guerra e nem a Grande Depresso. Nossa grande guerra espiritual. Nossa grande depresso so nossas vidas. Fomos criados para acreditar que um dia seremos ricos, estrelas de cinema e do rock...mas no seremos. E estamos aos poucos aprendendo isso. E estamos muito, muito zangados.. No intrito segue a mensagem this is your life: Voc abre a porta e entra.Est dentro do seu corao.Imagine que sua dor uma bola de neve que vai curar

  • quando se diz que os homens esquecem a morte do pai antes que a perda do patrimnio (Maquiavel).

    Desastres horrveis e cinematogrficos que vo desde o Titanic at

    ao World Trade Center revelam que absolutamente ningum escapa das contingncias da vida. uma morte, um acidente, um incndio, uma enchente, um desabamento, em qualquer momento, em qualquer lugar. Tudo isso assusta o homem e causa enorme sofrimento, perturbando o seu instinto de sobrevivncia.

    Tentando entender a vida, os homens logo percebem que a vida

    ultrapassa qualquer entendimento e o sofrimento causado pelas perdas cria um sentimento de unio, de solidariedade entre os homens, no porque ficaram bons e purificados, mas porque aquela um fator imprescindvel para superao das dificuldades, que em quantidade e qualidade, so maiores que os homens.

    E nisto tudo reside a mais antiga semente do que hoje

    denominamos seguro, um mecanismo criado pelo homem para tentar reparar ou amenizar as perdas da vida, pois, como j dizia Guimares Rosa, viver negcio muito perigoso.

    2. A ORIGEM DO SEGURO.

    Os contratos de seguros que so realizados todos os dias em nossa

    poca atual desafiam a criatividade, tamanha a diversificao que alcanou este instituto. Mas nem sempre foi assim. A prpria origem do seguro desconhecida, pois no poderia surgir, por bvio, como um produto perfeito e acabado. Decorrente de uma lenta evoluo, a maturidade do seguro seguiu a mesma sorte da maturidade do comrcio, coincidindo a intensificao do seguro com a expanso martima nos sculos XIV e XV. Alis, j na obra de Sheakspeare, O Mercador de Veneza, ato I, cena I, tem-se o registro dessas preocupaes, quando Salnio assevera:

    voc.Isso mesmo. a sua dor.A dor uma bola de neve que vai curar voc.Acho que no.Esta sua vida. a ltima gota pra voc.Melhor do que isso no pode ficar.Esta sua vida.que acaba um minuto por vez.Isto no um seminrio.Nem um retiro de fim de semana.De onde voc est no pode imaginar como ser o fundo.Somente aps uma desgraa conseguir despertar.Somente depois de perder tudo, poder fazer o que quiser.Nada esttico.Tudo movimento.E tudo esta desmoronando.Esta sua vida.Melhor do que isso no pode ficar.Esta sua vida.E ela acaba um minuto por vez.Voc no um ser bonito e admirvel.Voc igual decadncia refletida em tudo.Todos fazendo parte da mesma podrido.Somos o nico lixo que canta e dana no mundo.Voc no sua conta bancria.Nem as roupas que usa.Voc no o contedo de sua carteira.Voc no seu cncer de intestino.Voc no o carro que dirige.Voc no suas malditas "gatinhas".Voc precisa desistir.Voc precisa saber que vai morrer um dia.Antes disso voc um intil.Ser que serei completo?Ser que nunca ficarei contente?Ser que no vou me libertar de suas regras rgidas?Ser que no vou me libertar de sua arte inteligente?Ser que no vou me libertar dos pecados e do perfeccionismo?Digo: voc precisa desistir.Digo: evolua mesmo se voc desmoronar por dentro.Esta sua vida.Melhor do isso no pode ficar. Esta sua vida.E ela acaba um minuto por vez.Voc precisa desistir.Estou avisando que ter sua chance.(No filme O Clube da Luta)

  • Podeis crer-me senhor: caso eu tivesse tanta carga no mar, a maior parte de minhas afeies navegaria com minhas esperanas. A toda hora folhinhas arrancara de erva, para ver de onde sopra o vento; debruado nos mapas, sempre, procurava portos, embarcadoiros, rotas, sendo certo que me deixara louco tudo o quanto me fizesse apreensivo pela sorte do meu carregamento.

    E como as idias governam o mundo, o aprimoramento do seguro

    no tardou de acontecer, em especial na Revoluo Industrial, que inseminou o capitalismo industrial e financeiro j sob o prisma de uma economia internacional.

    No Brasil, o surgimento do seguro foi uma decorrncia da influncia

    europia e ganhou maior intensidade com a vinda da Famlia Real Portuguesa, em 1808. A partir de ento foram diversas as regulamentaes que se seguiram, encontrando pouso nos Cdigos Civil e Comercial, sendo igualmente relevante o atual Decreto-lei 73/66.

    Mas a compreenso atual do seguro exige do estudioso ultrapassar

    aqueles diplomas legais, at porque o processo de globalizao tem causado profundo impacto na produo do direito interno atravs da funo ordenadora expletiva, que conforma, legitima e hegemoniza os valores do capitalismo dentro do ordenamento jurdico. uma nova dimenso e complexidade que examinaremos adiante.

    3. A FORMAO DO DIREITO SECURITRIO.

    Se o comrcio nacional e internacional do seguro est sob os

    holofotes do requinte e da modernidade, o mesmo no se pode dizer da legislao interna que o rege. Os diplomas legais so peas de antiqurio Cdigo Comercial de 1850; O Cdigo Civil de 1916 e um Decreto-lei de 1966 que embora ainda cumpram sua importante funo, reconhecidamente esto devassados para a dinamizao atual do seguro. Est na jurisprudncia a tarefa de interpretar aquelas normas jurdicas de forma adequada nova realidade. Consequncia disto que, s vezes, publicam-se decises malfazejas em matria securitria, que no guardam nenhuma sintonia com a realidade presente.

    Com o advento do novo Cdigo Civil Lei n 10.406, de 10 de

    janeiro de 2002 uma nova roupagem jurdica foi dada matria securitria, com inovaes substanciais importantes, mas se observa em alguns dispositivos um lamentvel retrocesso, desafiando a proteo dada pela legislao consumerista ao segurado-consumidor. Polmicas surgiro.

    No direito ptrio h uma antiga tendncia em no se reconhecer a

    autonomia cientfica do direito securitrio porque o estudo do seguro sempre

  • partiu do Direito Civil, sendo aquele um ramo deste. Assim, estuda-se o contrato de seguro, ao lado dos demais contratos que so regidos pelo Cdigo Civil. Alis, no por outra razo que a maior parte das obras jurdicas disponveis atualmente e no so muitas partem sempre da noo elementar do contrato de seguro.

    Esta situao estagnada deve-se ao fato da inexistncia de um

    Cdigo de Seguros no Brasil. O estudo dos seguros no direito ptrio fica formalmente encarcerado dentro do Cdigo Civil e Comercial, sem que o estudioso perceba, s vezes, a atual existncia de princpios especficos e diferenciados que do novo contorno matria securitria, digna de mtodos prprios. Vale dizer, cientificamente autnomo em relao ao Direito Civil. claro que muitos princpios do Direito Civil so aplicveis matria securitria, at porque inexiste autonomia absoluta entre os ramos do Direito. Mas no Direito Securitrio h princpios que lhe so exclusivos.

    Situao semelhante ocorre com o as sociedades comerciais. Tm

    suas origens formais no Cdigo Comercial, mas atualmente tem autonomia cientfica dada pela legislao superveniente, com novos conceitos, princpios e mtodos prprios, configurando o chamado Direito Societrio, apesar de inexistir um Cdigo para tanto.

    Como a proposta de nosso trabalho o exame do seguro sob o

    prisma de conceitos e princpios atuais, passamos a reconhecer a autonomia cientfica do Direito Securitrio, libertando-se do regime antigo que no mais se compraz com os dias atuais.