francis soares_a invenção do Índio

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Antropologa Poltica

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  • ROSA, Francis Mary Soares Correia da. A inveno do ndio. Espao Amerndio, Porto Alegre, v. 9, n. 3, p. 257-277, jul./dez. 2015.

    A INVENO DO NDIO

    FRANCIS MARY SOARES CORREIA DA ROSA1

    UEFS

    RESUMO: Esta trabalho trata-se de uma investigao sobre os procedimentos histricos que

    essencializaram e normatizaram categorias sgnicas, notadamente inventadas dentro de um

    discurso colonial, forjando identidades tnicas sobre os povos amerndios. Por meio de uma

    reviso terico-conceitual crtica, busca-se reconhecer a historicidade dos processos de

    classificao, bem como revisar a viso eurocntrica sobre o processo de conhecimento. Espera-

    se contribuir para o debate crtico sobre os processos de nomeao, assim como para a

    descolonizao das subjetividades por meio do processo de etnogneses dos povos amerndios.

    PALAVRAS-CHAVE: indgenas; etnognese; crtica cultural.

    ABSTRACT: This paper aims at investigating the historical procedures that worked to

    standardize and essentialize sign categories, which were notably invented within a colonial

    discourse that imposed ethnic identities on Amerindian peoples. By means of a critical theoretical

    review of concepts it shows the historicity of the classification processes, thus rejecting a

    Eurocentric vision of the knowledge process. In that way, I hope to contribute for the theoretical

    debate on the naming process, as well as for the decolonization of subjectivities through the

    ethnogenetic process of Amerindian peoples.

    KEYWORDS: indigenous; ethnogenesis; critical studies.

    Parece-me gente de tal inocncia que,

    se ns entendssemos a sua fala e eles a nossa, eles se tornariam logo cristos, visto que no

    aparentam ter nem conhecer crena alguma Pero Vaz de Caminha (1999, p. 12).

    1 Mestranda em Crtica Cultural Universidade Estadual da Bahia-UNEB; professora do Departamento de Cincias Humanas e Filosofia da Universidade Estadual de Feira de Santana-UEFS; ps-Graduada em

    Filosofia Contempornea - UEFS e Ensino de Filosofia -UFBA; Graduada em Histria-UNEB e graduanda

    em Filosofia - CEUCLAR; membro do grupo de pesquisa Lingua(gem) e Crtica Cultural na linha

    Literatura, subalternidade e micropoltica (UNEB). E-mail: francismrosa@hotmail.com .

  • 258 Espao Amerndio

    ROSA, Francis Mary Soares Correia da. A inveno do ndio. Espao Amerndio, Porto Alegre, v. 9, n. 3, p. 257-277, jul./dez. 2015.

    O termo ndio2 apresenta-se na historiografia brasileira como

    uma espcie de eco que ressoa por mais de 500 anos, desde que aqui se

    iniciou um determinado processo de colonizao e constituio histrica

    de identidades sociais. ndios e negros so classificaes inventadas,

    forjadas em meio a uma estrutura sgnica, e essencializadas para que

    resguardassem distintas categorias de tipificao baseadas no

    pressuposto da raa e em uma determinada forma de escrita das

    outridades.

    Para o historiador Leandro Karnal (2004), os europeus construram

    uma representao do termo ndio por meio do equvoco geogrfico de

    Colombo, que registrou erroneamente a sua chegada s ndias. Esse

    equvoco, como adverte Karnal, foi normatizado no seio de um discurso

    sobre raa que se formava e imbricado a uma construo hierrquica de

    valores que, por sua vez, foram respaldados em uma dada suposio de

    diferenas biolgicas, psquicas e intelectuais entre os indivduos. Para

    Quijano (2005), a ideia de raa, oriunda dessas novas identidades sociais,

    estabeleceu-se em concomitncia com o modelo de dominao

    econmica que se fortalecia com o andamento do projeto colonial, ao

    mesmo tempo que lhe garantia legitimao.

    Segundo Quijano (2005), nesse contexto, nomes como Europa e

    Amrica, que diziam muito mais sobre a posio geogrfica (e mesmo

    sob este prisma, o conceito relativo), tiveram incrementados aos seus

    valores sgnicos o status relacional de subalternizao presentes na

    conquista e naturalizao da ideia de superioridade por meio dos

    embates de dominao ocorridas entre europeus e no europeus. Tal

    perspectiva, aliada aos avanos e expanso da colonizao europeia

    sobre o mundo, conduziram o fortalecimento de uma viso eurocntrica

    sobre o processo de conhecimento, assim como a colocao da Europa e

    toda sua produo intelectual, poltica, esttica, etc. como eixo do globo.

    De acordo com Quijano:

    [...] os povos conquistados e dominados foram postos

    numa situao natural de inferioridade, e consequentemente (sic) tambm seus traos

    2 Notadamente, segundo Carneiro da Cunha (2009, p. 183), a palavra ndio comea a ser empregada em meados do sculo XVI para designar os indgenas submetidos em contraposio ao termo mais geral,

    gentio, que designa os indgenas independentes. Pela metade do sculo, segundo a autora, usa-se concomitantemente a expresso negro da terra.

  • 259 Espao Amerndio

    ROSA, Francis Mary Soares Correia da. A inveno do ndio. Espao Amerndio, Porto Alegre, v. 9, n. 3, p. 257-277, jul./dez. 2015.

    fenotpicos, bem como suas descobertas mentais e culturais. Desse modo, raa converteu-se no primeiro

    critrio fundamental para a distribuio da populao mundial nos nveis, lugares e papis na estrutura de poder da nova sociedade. Em outras palavras, no modo

    bsico de classificao social universal da populao mundial (QUIJANO, 2005, p. 229).

    Essas consequncias repercutiram na formao do imaginrio no

    somente daqueles que eram lidos como conquistadores/dominadores,

    como tambm na prpria configurao e na formao da identidade das

    populaes tidas como conquistadas/dominadas. O termo imaginrio, ao

    qual fao referncia, deve ser entendido na perspectiva de Glissant (2005,

    p. 21-27), que entende que o imaginrio diz respeito ao processo pelo

    qual ocorre a percepo e a formao da totalidade das relaes humanas

    no que tange literatura, poltica, cultura, histria e a tantos outros

    campos e enunciados discursivos sobre o conhecimento e formao das

    identidades, promovendo variaes, microclimas e macroclimas

    (GLISSANT, 2005, p. 21) que respondem por constituir. em momentos

    distintos da histria, ora unicidades, ora variaes e/ou relaes.

    Assim, no perodo histrico em que ocorreram o processo de

    colonizao e suas etapas subsequentes no territrio que os europeus

    nomearam de Brasil, uma ideia de raa atrelada a um discurso racista e

    eurocntrico - que no se restringe ao mundo colonial - forjou um certo

    imaginrio identitrio sobre os povos nativos da Amrica e outras

    identidades diaspricas.

    Ser nomeado de ndio, negro, asitico etc. se constitua como

    categorias raciais que naturalizavam valores historicamente constitudos

    que tinham como base um regime de verdade que reservava Europa um

    certo olhar que lhe garantia uma dada superioridade ontolgica e

    universal sobre os valores polticos, morais, culturais, econmicos, etc.

    dos outros povos. Para Shohat e Stam:

    As categorias raciais no so naturais ou absolutas: so

    construes relativas e especficas, categorias narrativas engendradas por processos histricos de diferenciao.

    A categorizao de uma mesma pessoa pode variar com o tempo, o local e o contexto. Tambm a autodefinio subjetiva e a mobilizao poltica podem sabotar

    definies. Os africanos, antes da colonizao, no pensavam em si mesmos como negros, mas como

  • 260 Espao Amerndio

    ROSA, Francis Mary Soares Correia da. A inveno do ndio. Espao Amerndio, Porto Alegre, v. 9, n. 3, p. 257-277, jul./dez. 2015.

    membros de grupos especficos bantu, fon, haug, ibo assim como os europeus, antes da inveno do branco, consideravam-se irlandeses, sicilianos e assim por diante (SHOHAT e STAM, 2006, p. 46).

    Por mais que um historicismo sobre as categorias de raa se

    desdobre em tempos posteriores ao incio do projeto colonizador e

    incorra em variaes de acordo com a regio colonizada, como destaca

    Walter Mignolo (2005), o que se torna evidente e aproxima histrica e

    discursivamente todo o universo nativo a situao de inferioridade com

    que tais grupos foram tratados em relao aos colonizadores:

    A mediados del siglo XVI, Las Casas proporcion una

    clasificacin racial aunque no tuviese en cuenta el color de la piel. Era racial porque clasificaba a los seres humanos en una escala descendente que tomaba ideal

    es occidentales cristianos como criterio para la clasificacin. La categorizacin racial no consiste

    simplemente en decir eres negro o indio, por tanto, eres inferior, sino en decir no eres como yo, por tanto eres inferior (MIGNOLO, 2005, p. 43 - grifos no original).

    Essa perspectiva nos coloca diante de um revisionismo em relao

    ao termo ndio que foi amplamente naturalizado nos discursos oficiais

    e que, equivocadamente, foi atribudo s mais de mil naes3 que

    existiam no territrio nomeado de Brasil. Segundo Almeida (2010), a

    nomeao da extensa diversidade de povos que habitavam o territrio

    ocorreu por critrios europeus e atendia aos objetivos e funcionalidades

    do projeto colonizador. As classificaes que eventualmente fugiam do

    monmio ndio recaam, por sua vez, no binmio tupi/tapuia, que dizia

    respeito ao sistema de alianas que ocorria entre portugueses e os aliados

    nativos, tradicionalmente descritos e referenciados como tupi, ao passo

    que todos aqueles que no eram tupi, se tornavam tapuia, que, na

    lngua tupi, quer dizer brbaro.