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    FRAGILIDADES DE UMA POLTICA DE GNERO TRANSVERSAL

    Edyane Silva de Lima1

    Eliane Rose Maio2

    RESUMO Atravs de pesquisa qualitativa com gestores de polticas consideradas bsicas do municpio de Toledo/PR em 2009 e das discusses provocadas no NUDISEX acerca da questo de gnero expomos reflexes acerca da gesto da poltica de gnero sob um recorte transversal, onde as polticas sociais estejam articuladas e executadas nos diversos servios pblicos desse municpio. A pesquisa teve a inteno observar o entendimento e dar visibilidade a poltica de gnero, a qual desde 2003, atravs do governo federal vem sendo focada com intuito de eliminar desigualdades entre homens e mulheres, apreendendo as particularidades destes, firmando assim pactos e deliberando recursos para esta finalidade. O municpio de Toledo conta com uma Secretaria de Atendimento Mulher, fazendo com que presumamos abrir precedente a uma reflexo de incipiente trabalho quanto a eliminao das desigualdades de gnero, mesmo que a longo prazo, podendo esta discusso estar presente nos instrumentos de gesto pblica como os PPA (Plano Plurianual), LOA (Lei Oramentria Anual) e LDO (Lei de Diretrizes Oramentrias). Permitiu-nos assinalar dificuldades como: a falta de acesso a informao, inexistncia de intersetorialidade e integrao entre alguns setores pblicos, fatores que poderiam estar sendo resolvidos desde que as polticas pblicas estivessem sendo melhor planejadas, revelando confuso e parco conhecimento da poltica de gnero e a perpetuao de caractersticas da cultura patriarcal que aliceram a submisso e o carter de subalternidade entre os sexos. Porm, so apontadas timidamente alternativas para reverso desse quadro pelas pesquisadas, as quais seguiram expostas como, por exemplo, o aprimoramento da execuo dos servios pblicos. Palavras-chaves: gnero, transversalidade e polticas pblicas.

    Introduo

    A partir da dcada de 1980, temos fortemente a discusso e

    implementao de aes oriundas das reformas administrativas do Estado,

    1 Mestranda em Educao pela UEM. Membro do Ncleo de Pesquisa e Estudos sobre Diversidade Sexual NUDISEX e do Grupo de Pesquisa Violncia e Indisciplina Escolar. Assistente social da Prefeitura Municipal de Assis Chateaubriand. Docente do curso de servio social da UNIPAR. E-mail: edyane.lima@bol.com.br 2 Orientadora, graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maring-UEM. Mestrado em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista-UNESP/Assis. Doutorado e Ps-Doutorado em Educao Escolar-UNESP/Araraquara. Professora do Mestrado em Educao PPE, UEM, Coordenadora do Grupo de Estudos Ncleo de Pesquisa e Estudos sobre Diversidade Sexual. E-mail: elianerosemaio@yahoo.com.br

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    sendo isto palpvel a partir da Constituio da Repblica de 1988, que rege

    sobre os princpios da administrao pblica transparente, aprimorando

    posteriormente instrumentos que garantam os princpios da legalidade,

    moralidade, impessoalidade, publicidade e eficincia. Junto a isso, a sociedade

    brasileira publiciza tacitamente por meio de ONGs e movimentos sociais,

    principalmente de mulheres, expresses de desigualdades de gnero,

    remetendo aos gestores pblicos incorporarem aos espaos de discusso e

    elaborarem relatrios, vindo as proposies de encontro as demandas por

    igualdades para minorias.

    Na perspectiva da racionalizao de recursos, melhor atendimento a

    populao e tendo em vista que o municpio de Toledo tem uma Secretaria de

    Atendimento a Mulher, o que pressupe certa facilidade em galgar a uma

    poltica de gnero, propomo-nos atravs deste estudo que resulta de pesquisa

    com gestores de polticas sociais municipais e das discusses do Ncleo de

    Estudos e Pesquisas em Diversidade Sexual sobre a dimenso de gnero,

    trazer elementos que possam dar visibilidade sobre a implementao e at

    mesmo abordar sobre a incipiente gesto de uma poltica de gnero no

    municpio de cunho transversal.

    Desenvolvimento

    Entende-se por gnero o conjunto de normas, valores, costumes e

    prticas atravs das quais, a diferena biolgica entre homens e mulheres

    culturalmente predominante. A categoria gnero surgiu como uma forma de

    distinguir as diferenas biolgica das desigualdades scio culturalmente

    construdas, e, procurou mudar a ateno de um olhar para mulheres e

    homens como segmentos isolados, para um olhar que se fixa nas relaes

    inter-pessoais e sociais, atravs das quais elas so mutuamente constitudas

    como categorias sociais desiguais. (SANTOS, 2005)

    Permear nossa discusso, o entendimento acerca de gnero aquele

    que indica construes sociais, isto , a criao das idias sobre os papis

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    prprios aos homens e as mulheres, que vo se desenvolvendo e que por

    vezes no condiz com sua determinao biolgica. Sendo que, se ativermos

    aos papis sexuais assegurados numa perspectiva conservadora temos a

    disseminao de uma linguagem ora masculina exclusivista [que]

    naturalizada e incorporada tambm nas estruturas scio-institucionais e

    jurdicas. (BANDEIRA, 2005, p.5) Cabendo destacar a partir disso que a

    superao das desigualdades muitas vezes pode no ser incorporadas pelos

    gestores pblicos, havendo implantao de aes voltadas ao gnero numa

    perspectiva to e somente feminina se compreendida a luz do conceito acima,

    justificando ento a adoo por uma conceituao de gnero que aborda as

    relaes e os desdobramentos dos papis sociais independentes de

    determinantes sexuais puramente biolgicos.

    Sob a perspectiva conservadora de gnero, o planejamento das polticas

    e das aes pblicas, muitas vezes distancia-se da reduo das desigualdades

    de gnero, pois com relao mulher, observamos polticas de sade ligadas a

    reproduo do feminino; em termos de gerao de renda no mbito das

    polticas sociais destacam-se cursos de croch, costura, bordados, e tambm,

    atividades ldicas e culturais, voltadas na maioria das vezes a mulher de forma

    incisiva. Entretanto, nem mesmo as aes existentes atravs das polticas

    ilustradas como exemplo, trabalham sobre o vis da transversalidade de

    gnero, sendo executadas de maneira isolada e sobre uma perspectiva

    afirmativa do papel feminino isoladamente, levando-nos a refletir sobre uma

    nfima expressividade da superao das desigualdades de gnero e

    empoderamento feminino.

    Nesse sentido, expresses das desigualdades de gnero so

    evidenciadas nos direcionamentos de servios como os citados anteriormente,

    mas tambm demandas como a desigualdade salarial e a violncia contra

    mulher, desencadeadas nos anos de 1990, mesmo que de forma incipiente,

    fizeram com que houvesse sua incorporao a agenda das polticas pblicas.

    Levando-nos a refletir enquanto hiptese acerca dessa problemtica a questo

    de uma no efetivao da transversalidade e incorporao recente do assunto

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    gnero no mbito governamental, haja vista que as polticas pblicas no Brasil,

    de maneira geral, quando so feitas e dirigidas s mulheres no contemplam

    necessariamente a perspectiva de gnero, uma vez que h a distino entre

    polticas pblicas de gnero e polticas pblicas para as mulheres.

    A primeira considera a diversidade dos processos de socializao para

    homens e para mulheres, cujas conseqncias se fazem presentes, ao longo

    da vida, nas relaes individual e coletiva. Enquanto a segunda, tm

    centralidade no feminino enquanto parte da reproduo social (Bandeira,

    2005, p.9). Implicando na centralidade da mulher na famlia, reafirmando a

    viso de que a reproduo e a sexualidade causam a diferena de gnero de

    modo inevitvel, refletindo na perpetuao de uma cultura patriarcal, a qual

    enfatiza a responsabilidade feminina pela reproduo social, pela educao

    dos filhos, pela demanda por creches, por sade e outras necessidades que

    garantam a manuteno e permanncia da famlia, e no necessariamente seu

    empoderamento, respeito as suas condies e autonomia.

    Assim, observa-se atravs das aes governamentais e dos PPA3 que

    ainda no visualizada essa dimenso como uma poltica pblica de gnero,

    mas sim polticas especficas para mulheres reforando o vis fragmentado das

    polticas sociais.

    As polticas para as mulheres no so excludentes das polticas de gnero, embora tenham uma perspectiva restrita, pontual, de menor abrangncia, atendendo a demandas das mulheres, mas sem instaurar uma possibilidade de ruptura com as vises tradicionais do feminino Bandeira (2005, p.9).

    Permitindo-nos vislumbrar a curto e mdio prazo aes governamentais

    voltadas as mulheres enquanto um processo de transio para sua maior

    completude que o gnero. Sendo que, a incorporao das polticas para

    mulheres e polticas de gnero, desencadeadas em 1980 atravs dos

    3 O Plano Plurianual (PPA) um instrumento de planejamento e uma obrigao constitucional que a Unio, os Estados e os Municpios tm que cumprir no primeiro ano de governo, com validade at o primeiro ano do prximo governo (Princpio da Continuidade).

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    movimentos feministas que no deixam de explicar a historicidade da

    caracterstica pontual dos servios pblicos direcionados a desigualdade de

    gnero, vem demarcar seu territrio com visibilidade mais profcua no pas a

    partir de 2004, por meio da I Conferncia Nacional de Polticas para Mulheres,

    que teve como resultado a elaborao do Plano Nacional de Polticas para

    Mulheres.

    Neste, foram contemplados 112 pactos, 6 com governos estaduais e 106

    com

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