FONTES DE CONTAMINAÇÃO PELO CHUMBO (Pb) Fábio Sidonio

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<ul><li><p>FONTES DE CONTAMINAO PELO CHUMBO (Pb) </p><p>Fbio Sidonio de Barros Evangelista1 </p><p>Izabel Cristina Rodrigues da Silva2 </p><p>1 Bilogo. Aluno da Ps-Graduao em Vigilncia Sanitria pela Universidade Catlica de Gois/IFAR. </p><p>2 Biomdica. Doutora em Patologia Molecular pela Universidade de Braslia (UnB). E-mail: </p><p>belbiomedica@uol.com.br </p><p>Resumo O chumbo (Pb) um metal txico que pode provocar srios danos sade. Seus compostos atualmente tm um </p><p>largo uso industrial como em baterias, munies, tintas, equipamentos mdicos, ligas metlicas e cermicas. O </p><p>conhecimento sobre as fontes de contaminao pelo chumbo pode fornecer aos rgos de controle e fiscalizao </p><p>subsdios no momento da investigao sobre a contaminao. Este trabalho tem por objetivo apresentar uma </p><p>reviso atualizada sobre as fontes de contaminao por chumbo, visando fornecer informaes para fortalecer a </p><p>fiscalizao da qualidade pelos rgos de fiscalizao e controle. </p><p>Palavras chave: chumbo, contaminao, fontes </p></li><li><p>1 INTRODUO </p><p>A contaminao por metais vem crescendo nos ltimos anos criando problemas a </p><p>sade humana e conseqncias econmicas (SMITH; VAN RAVENSWAAY; THOMPSON, </p><p>1998). A concentrao de chumbo (Pb) em diferentes tipos de alimentos, como leite e arroz, </p><p>tem sido relatada em vrios pases (CAGGIANO ET AL., 2005). </p><p>Lansdown e Yule (1986) mencionam alguns usos do chumbo como cosmtico, tais </p><p>como o p de Galena (sulfeto de chumbo, de cor acinzentada) utilizado como pintura para os </p><p>olhos no antigo Egito, e tambm a Cerusa (pigmento branco de carbonato de chumbo), </p><p>utilizada como uma espcie de maquiagem para clarear a face, na Grcia e na China. O uso de </p><p>compostos inorgnicos de chumbo como pigmentos de tintas para diversos usos e superfcies </p><p>era, inclusive, muito comum. </p><p>Alm disto, a morte por envenenamento por chumbo no era fato aleatrio entre </p><p>pintores. Francisco de Goya (sc. XVIII), Mariano Fortuny e Vincent Van Gogh (XIX), alm </p><p>do brasileiro Cndido Portinari (XX), que tinha o hbito de limpar os pincis com a boca, so </p><p>exemplos de pintores famosos cuja causa da morte suspeita-se fortemente estar relacionada ao </p><p>envenenamento por chumbo (FITCH, 2004; MONTES SANTIAGO, 2006). Na verdade, at o </p><p>advento da qumica orgnica utilizando compostos de origem petrolfera, na dcada de 1850, </p><p>praticamente no havia substitutos satisfatrios para esses pigmentos a base de chumbo </p><p>(FITCH, 2004). </p><p>O chumbo metlico foi muito utilizado na Roma antiga na forma de encanamentos </p><p>devido sua durabilidade, maleabilidade e resistncia oxidao. Ainda hoje possvel </p><p>encontrar nas runas da cidade de Pompia exemplares bem conservados desses </p><p>encanamentos, que chegavam a formar extensas redes de distribuio de gua. No Imprio </p><p>Romano o chumbo tambm era utilizado na confeco de outros objetos, como as fichas </p><p>usadas como passe de entrada para o Coliseu, alm de molduras para espelhos, esculturas e </p><p>utenslios de cozinha, como as panelas que eram utilizadas para ferver vinho e torn-lo mais </p><p>doce. Muito provavelmente, a substncia formada nesse processo de fervura o acetato de </p><p>chumbo, Pb(CH3CO2)2, que possui um sabor adocicado (FITCH, 2004). Muitos dos usos do </p><p>chumbo da antiguidade perduraram por sculos, at aos tempos modernos. Um exemplo disso </p><p> que em todo o mundo documentada a presena de encanamentos de chumbo ou mesmo o </p><p>uso de soldas e peas a base desse metal nas redes de abastecimento pblico e em residncias, </p><p>especialmente as construdas at a dcada de 70 (WHO, 2008). </p></li><li><p>As concentraes de chumbo atmosfrico aumentaram exponencialmente a partir de </p><p>1923, ano em que passou-se a usar o chumbo tetraetila como agente antidetonante na gasolina </p><p>para melhora de desempenho do motor, passando a ser um problema de sade pblica em </p><p>muitas cidades cosmopolitas de pases desenvolvidos, especialmente para pessoas que </p><p>residiam prximas a estradas e rodovias. Com a retirada de chumbo da gasolina, a </p><p>contaminao atmosfrica por chumbo no Canad passou de 0,74 g/m3 </p><p>em 1973 para menos </p><p>de 0,10 g/m3 em 1991 (ENVIRONMENT CANADA, 1991). </p><p>No Brasil, com o incio do programa Prlcool (anos 70) houve uma gradativa </p><p>substituio do chumbo tetraetila por etanol anidro, minimizando, portanto, os problemas de </p><p>sade decorrentes. Para se ter uma idia do impacto positivo na qualidade da atmosfera do </p><p>pas, a regio metropolitana de So Paulo passou de uma concentrao mxima de chumbo de </p><p>1,6 g/m3 em 1978 para 0,4 g/m</p><p>3 em 1983. Em 2003, os mximos no ultrapassaram 0,3 </p><p>g/m3, e a mdia do mesmo ano foi de 0,08 g/m</p><p>3 (CETESB, 2009). Entretanto, como a </p><p>atmosfera um compartimento muito dinmico do sistema Terra, o chumbo atmosfrico </p><p>proveniente da queima da gasolina tetraetilada espalhou-se rapidamente por todo o planeta, </p><p>depositando-se sobre solos, oceanos e rios, promovendo uma contaminao global. </p><p>Alimentos podem conter pequenas, porm significantes, quantidades de chumbo, o que </p><p>depender da gua usada no cozimento ou dos utenslios utilizados para cozinhar, ou ainda de </p><p>onde foi armazenado o alimento, especialmente se a comida tiver propriedades cidas (WHO, </p><p>2008). Muitas espcies de vegetais para consumo humano ou animal que crescem sobre solos </p><p>poludos com metais como o chumbo no so capazes de evitar a absoro dos mesmos. </p><p>Assim, animais que se alimentam de pastagens de solos contaminados ou bebem gua </p><p>contaminada com chumbo, tornar-se-o tambm potenciais fontes de exposio humana ao </p><p>chumbo via alimentar. Seus compostos atualmente tm um largo uso industrial como em </p><p>baterias, munies, tintas, equipamentos mdicos, ligas metlicas e cermicas (NRIAGU </p><p>1983). Os primeiros casos de contaminao pelo Pb foram observados em 1920 na Austrlia e </p><p>EUA, causado pela ingesto de tintas contendo Pb por crianas. (HEATH ET AL, 2003). A </p><p>contaminao pelo Pb resultante direta da atividade humana diria e da confluncia de </p><p>diversos fatores (PAOLIELLO ET AL, 2005). A exposio ao Pb representa um exemplo de </p><p>injustia ambiental que afeta a sade humana, mas particularmente os grupos mais </p><p>vulnerveis, que pode influenciar na apario de patologias (ROJAS, et al 2003). </p><p>As principais vias de exposio so a oral, inalatria e cutnea. Os adultos so </p><p>expostos principalmente ocupacionalmente por inalao e crianas so expostas </p><p>principalmente pela ingesto e absorvido pelo trato intestinal. (ALVES E TERRA, 1983). </p></li><li><p>Uma vez absorvido, o chumbo pode ser armazenado no tecido mineralizado (ossos e dentes) </p><p>por longos perodos. Quando h necessidades de clcio esse chumbo pode ser novamente </p><p>libertado na corrente sangunea; isto acontece sobretudo na gravidez, lactao e osteoporose e </p><p> especialmente perigoso para o feto em desenvolvimento. </p><p>A sua toxicidade, no entanto, depender do modo de entrada e da sua forma qumica e </p><p>fsica, o que determinar tambm o modo de transferncia entre as fases aquosa, orgnica </p><p>(membrana celular) e slida (ossos) do corpo. Outros fatores determinantes na toxicidade do </p><p>chumbo ao indivduo so a idade, sexo e condio nutricional (FITCH, 2004). </p><p>Nos adultos os sintomas no so especficos (fatiga, depresso, distrbios do sono, dor </p><p>abdominal, nuseas). Segundo alguns pesquisadores podem ser observados efeitos da </p><p>contaminao pelo Pb com concentraes de 30 g/dL PbB (Chumbo no sangue). Nveis </p><p>entre 30-50 g/dL de PbB podem provocar problemas relacionados com a coordenao </p><p>motora. Porm, recentes evidencias tem mostrado que nveis abaixo de 10 g/dL no sangue, </p><p>est associado com problemas renais (CDC, 2003). </p><p>Alimentos podem conter pequenas, porm significantes, quantidades de chumbo, o </p><p>que depender da gua usada no cozimento ou dos utenslios utilizados para cozinhar, ou </p><p>ainda de onde foi armazenado o alimento, especialmente se a comida tiver propriedades </p><p>cidas (WHO, 2008). Muitas espcies de vegetais para consumo humano ou animal que </p><p>crescem sobre solos poludos com metais como o chumbo no so capazes de evitar a </p><p>absoro dos mesmos. Assim, animais que se alimentam de pastagens de solos contaminados </p><p>ou bebem gua contaminada com chumbo, tornar-se-o tambm potenciais fontes de </p><p>exposio humana ao chumbo via alimentar. </p><p> Com isto, este trabalho tem por objetivo apresentar uma reviso atualizada sobre as </p><p>fontes de contaminao por chumbo, suas conseqncias para a sade pblica brasileira e a </p><p>legislao sobre o tema, visando fornecer informaes para fortalecer a fiscalizao da </p><p>qualidade pelos rgos de fiscalizao e controle. </p><p>2 METODOLOGIA </p></li><li><p>Para a elaborao deste trabalho de reviso, foram utilizados artigos publicados entre </p><p>2000 e 2011. Foram selecionadas legislaes, teses e publicaes relacionadas </p><p>contaminao pelo chumbo. </p><p>Os instrumentos de pesquisa utilizados foram: Scielo Brasil, Peridicos Capes, Visa </p><p>Legis (disponvel no portal da ANVISA) e o Google Scholar (Google Acadmico). </p><p>3 DISCUSSO </p><p>3.1 O metal chumbo </p><p>O chumbo um metal branco azulado, com nmero atmico 82, pertencente ao 5 </p><p>perodo da tabela peridica e ao grupo do carbono (Grupo 14). As caractersticas deste fazem </p><p>com que ele seja um dos mais importantes metais desde a revoluo industrial (ATKINS, </p><p>2006). </p><p>Este metal pode ser obtido em seu estado natural, no entanto, sua abundncia baixa </p><p>em comparao a outros minerais. Os ons derivados de chumbo podem estar associados a </p><p>mais de 60 tipos distintos de minerais. </p><p>A obteno de chumbo feita principalmente a partir do mineral Galena, por </p><p>apresentar maior concentrao do elemento, por volta de 87%. Na sua obteno utilizado o </p><p>mtodo de ustulao. Neste mtodo, inicialmente se aquece o mineral com fluxo de oxignio </p><p>obtendo xido de chumbo como segue a reao (ROCHA, 1973) </p><p>Aps a obteno do xido de chumbo (PbO), um dos mtodos utilizados para a </p><p>formao do chumbo metlico adicionar o xido de chumbo em um alto forno juntamente </p><p>com agentes redutores. O chumbo obtido separado por flotao e purificado por destilao, </p><p>o chumbo nesta etapa apresenta pureza de 99,99% (ROCHA, 1973). </p><p>Devido as suas caractersticas, o chumbo, apresenta uma diversidade de potenciais de </p><p>aplicao, dentre estas, pode-se destacar a utilizao como protetor radiolgico, pois, </p><p>apresenta uma alta densidade, absorvendo desta maneira radiao ionizante; na indstria de </p><p>automvel, onde aplicado na confeco de baterias automotivas e tambm no </p><p>balanceamento dos pneus (BOCCHI ET AL., 2000). </p><p>Uma aplicao que vem sendo motivo de preocupao na sociedade moderna a sua </p><p>utilizao na indstria de eletrnicos, onde empregado em soldas e em tubos de raios </p><p>catdicos, pois o descarte destes materiais muitas vezes realizado de maneira inadequada. </p></li><li><p>Estima-se que e se estima que 40% da massa dos equipamentos eletroeletrnicos so </p><p>constitudas por chumbo (OLIVEIRA ET AL., 2010). </p><p>O alto emprego industrial deste metal se deve a resistncia corroso. Quando recm </p><p>cortado apresenta um brilho metlico que desaparece em contato com o ar. Isso se deve a </p><p>formao do xido de chumbo, formando assim um revestimento inerte que o protege </p><p>(ROCHA, 1973). </p><p>Esta caracterstica faz com que este metal seja empregado no revestimento de cabos, </p><p>tubulao em indstrias, transporte de reagentes oxidantes, na fabricao de vidros dentre </p><p>outros (MARDONES, 2007). </p><p>O chumbo considerado um metal pesado indiferente das definies utilizadas para </p><p>esta designao, dentre as principais definies tem-se a classificao de metal pesado apenas </p><p>para elementos que apresentam massa especfica acima de 3,5 g.cm-3, sendo o chumbo um </p><p>metal com massa especfica maior que 10,0 g.cm-3. Outras definies de metal pesado </p><p>consideram a massa atmica, sendo o sdio (massa atmica 23) dado como referncia, ou </p><p>consideram o nmero atmico, sendo o clcio (nmero atmico 20) como referncia (LIMA E </p><p>MERON, 2011). </p><p>3.2 Tipos de fontes de exposio </p><p>O chumbo um dos metais txicos conhecidos pelo homem com o qual ele mais tem </p><p>contato no dia-a-dia. As fontes antrpicas so a maior contribuio na entrada de chumbo no </p><p>meio ambiente que as fontes naturais. amplamente encontrado no ambiente inerte ou em </p><p>sistemas biolgicos, sendo absorvido por plantas e animais. A exposio humana ao chumbo </p><p>e, conseqentemente, seus efeitos sobre a sade, podem ser de forma mais ou menos intensa, </p><p>dependendo das circunstncias de trabalho, moradia e consumo do indivduo (DE </p><p>CAPITANI, 2009). </p><p>Embora alguns processos naturais, como emisses vulcnicas e intemperismo </p><p>qumico, liberem chumbo no ambiente, a ao antropognica a maior responsvel pela sua </p><p>liberao, sendo as mais comuns, as atividades de minerao, indstrias metalrgicas, adubos </p><p>na agricultura e queima de combustveis fsseis (DE CAPITANI, 2009). At a dcada de 70, </p><p>a maior parte do chumbo emitido para a atmosfera provinha da combusto de gasolina com </p><p>chumbo, contudo seu uso foi proibido em muitos pases, tornando as atividades industriais as </p><p>maiores responsveis pela sua emisso. </p></li><li><p>Na atmosfera, o chumbo encontrado sob a forma de particulado podendo ser </p><p>transferido para a superfcie atravs da deposio seca ou mida (precipitao mida) e pode </p><p>ser transportado a longas distncias. O chumbo ao ser depositado na gua, sofre influncia do </p><p>pH, sais dissolvidos e agentes complexantes orgnicos, que definem sua permanncia na fase </p><p>aquosa ou como precipitado. A presena de Pb 2+ em guas tambm limitada pela presena </p><p>de sulfatos e carbonatos, uma vez que formam compostos poucos solveis. </p><p>Em guas superficiais, o chumbo pode ser encontrado complexado com compostos </p><p>orgnicos naturais (cido hmicos) ou antropognicos. A presena desses agentes na gua </p><p>pode aumentar em at 60 vezes os nveis de compostos de chumbo em soluo (PAOLIELLO, </p><p>2001). A presena de chumbo no solo varia de acordo com a fonte de emisso, por exemplo, </p><p>atividades metalrgicas que o liberam de minrios (PbS, PbO, PbSO4 e PbO, PbSO4); j a </p><p>queima de combustveis o emitem nas formas PbBr, PbBrCl, Pb(OH)Br e (PbO)2PbBr2 </p><p>(KABATA-PENDIAS, 2001). Vrios fatores como pH, composio mineralgica, matria </p><p>orgnica, substncias coloidais, oxi-hidrxidos e concentrao do elemento influenciam seu </p><p>transporte e disponibilidade (PAOLIELLO, 2001). Por ser fortemente adsorvido matria </p><p>orgnica, o chumbo encontrado nas partes mais superficiais do solo, por ser convertido em </p><p>sulfato, forma mais insolvel quando comparada ao carbonato ou fosfato (KABATA-</p><p>PENDIAS, 2001). </p><p>O metal pode ser imobilizado pela complexao com cidos hmicos ou flvicos dos </p><p>solos ou pela troca inica com xidos hidratados ou argila e podem apresentar maior </p><p>afinidade para sorver Pb que outros argilo-minerais, O Pb altamente dependente do tipo de </p><p>ligante envolvido na formao de hidrxido de chumbo. </p><p>A liberao do chumbo de complexos orgnicos para formas solveis est </p><p>intimamente relacionada com o pH. Solos com pH 5 e pelo menos 5% de matria orgnica </p><p>retm o chumbo atmosfrico na camada superior (entre 2 e 5 cm); em solos com pH entre 6 e </p><p>8 e alto teor de matria orgnica, o chumbo pode formar compostos insolveis, no entanto, </p><p>para os mesmo valores de pH, mas menor teor de matria orgnica pode haver formao de </p><p>xidos - hidrxidos de chumbo hidratados e precipitao na forma de carbonatos ou fosfatos; </p><p>nos solos com pH entre 4 e 6 os complexos orgnicos do chumbo tornam-se solveis e sofrem </p><p>lixiviao ou so absorvidos pelas plantas (KABATA-PENDIAS, 2001). </p><p>Como exemplo, os valores de inter...</p></li></ul>