folhetim um ultimo pulsar

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  • 1. Era noite na tribo Ariqum. Todos os indgenas repousavam em suas redes dentro de suas malocas,que,especialmente naquela noite,estavam frescas e bem arejadas.A Lua brilhava bem alto no cu,e as estrelas da meia-noite tremeluziam,pequenas,porm com uma luz intensa. Araras azuis soavam seus cantos doces pela copa das rvores.Os micos dormiam apoiados pelos rabos,e relaxavam recostados sobre o colo uns dos outros.Pirarucus e Tambaquis enormes repousavam bem ao fundo da grande lagoa de guas cristalinas ao lado da aldeia. Uma doce ndia Ariqum sara de sua maloca para tomar um pouco de ar fresco sob o orvalho que caa sobre as folhas de uma seringueira.Estava um clima muito agradvel ,prprio para um passeio noturno pela aldeia. Essa ndia chamava-se Jandira.Ela caminhou por entre as ocas,passou pela imensa oca do cacique,que dormia com suas duas esposas no centro da construo,e por fim chegou bem prximo ao rio,que ali formava um enorme lago. A doce ndia atentou-se uma linda e cheirosa orqudea que crescia em uma rvore prxima.Ela foi at mais perto da rvore para colher uma flor.Ao tocar as ptalas dessa flor,sentiu uma estranha sensao nos ps e se abaixou para verificar o que era.Instantaneamente,uma flecha zuniu sobre seus ouvidos. Jandira era uma ndia guerreira,acostumada com batalhas e combates,por isso percebeu que aquilo no era um simples acidente.Esgueirou-se para a moita mais prxima,e tentou espiar o que a atacara.Porm,ela

2. somente conseguiu ver algo vermelho,uma espcie de glbulos flutuantes,que emitiam uma luz bruxuleante e estavam repletos de raiva.Esses estranhos crculos foram focados mais atenciosamente por Jandira,que se espremia entre os ramos daquela planta. Ela percebeu que aqueles crculos fantasmagricos eram na verdade olhos,que a focavam a todo momento.Os olhos estavam vidrados nela,e se aproximavam cada vez mais.A ndia ficou abismada com aquela situao.No havia escapatria.Possuda pelo medo e pelo estresse daquele momento,Jandira tentou alongar-se para a rvore ao lado,onde talvez teria uma chance.Tentou. Uma outra flecha zuniu no ar,porm desta vez a atingiu no brao direito,e imediatamente comeou a sangrar.A lmina super afiada transpassou sua carne e atingiu diretamente um nervo de seu brao,irrompendo uma molstia insuportvel em seu cerne.Doeu em sua alma.Conhecia aquele veneno,pois ela mesma o fabricara vrias vezes para us-lo em combate.Ela sempre colhia uma espcie de lrio prpura que nascia em um local especfico da floresta,e o tratava com todo o carinho para produzir um nctar negro e letal,em que ela embebia sua lana com esse mais mortfero veneno.Somente restava Jandira um grito;que saiu de seus lbios mais fino do que o pio de um Bugio,porm com a fora do mais firme Pau- Brasil. Adiantara em algo.Os ndios acenderam suas tochas e saram de suas malocas em busca do local do grito. Aquipati,o cacique da tribo,foi quem encontrou Jandira,cada abaixo de uma grande seringueira s margens do lago.Porm,esforando-se muito,Jandira conseguiu sussurrar alguns resqucios de palavras,ouvidas 3. com ateno pelo cacique:"Cuidado com os olhos vermelhos vindos das matas de Jati". Ento,a doce ndia desfaleceu nos braos do cacique,soltou seu ltimo pulsar,sua ltima lgrima caiu,e toda a sua alma abandonou aquele corpo.Taicanam,a deusa das estrelas,abraava Jandira no cu,e a tornara mais uma de suas filhas.Iniciara-se naquele momento o perodo mais triste da histria daquela tribo,onde muitos mistrios assolariam os Ariquns por muitos tempos. Durante muitos dias,a tribo Ariqum chorou a morte de Jandira.Todos os ndios reuniram-se ao redor de uma grande fogueira no centro da tribo,cantavam lindas e tristes canes ,oravam com todo o corao. Guanani,o paj,decorou toda a mortalha da ndia Jandira com ervas medicinais frescas que ele mesmo colheu ;acomodou levemente inmeras flores,retiradas do interior das floresta.Orqudeas,lavandas,lrios selvagens,begnias e lindas margaridas esculpiam as curvas frgeis do corpo da ndia;que fora colocado especialmente abaixo da grande seringueira,de onde acreditava-se ser solo sagrado. 4. Irrompia daquele lugar uma intensa magia,completada por todas as splicas Tambataj,o deus de amor.Naquele dia,a Lua brilhava mais forte,e sua luz exibia um tom azulado que entristecia ainda mais o momento,mas nada traduzia o medo que se abatia sobre os indgenas. Acabados os ritos,poucos dias depois,vrios ariquns comearam a buscar pistas e rastros de quem poderia ser o assassino de Jandira.Dividiram-se em trios e adentraram fundo nas matas,esperando encontrar algo ou algum til. O prprio Aquipati,o cacique,resolveu ajudar.Junto com ele foram seus dois filhos: Manauana,sua filha mais velha,bonita como a ona pintada e feroz como a mesma,e melhor amiga de Jandira;e Cati,seu filho caula,rpido como um jaguar e arisco como um sagui.O trio embrenhou-se pelas matas e poucas horas depois encontrou algo estranho em uma clareira. Haviam,escondidas no cho,algumas flores prpuras,despedaadas e secas.Estavam ali,aparentemente,a alguns dias. sua volta,um pilo,uma cuia,e uma pasta negra,grudenta,que Aquipati julgou como um veneno e resolveu colher cuidadosamente um pouco para levar ao paj. Pouco mais frente,o trio viu algumas marcas de ps,que os indgenas no reconheceram como da tribo ariqum. Resolveram seguir as pegadas marcadas na lama e durante uma hora elas os levariam mata adentro em uma caminhada maante seguindo o rastro. 5. Chegaram a uma caverna,escondida sob inmeros ramos e cips,com fungos enormes agarrados rochedos imensos,que pareciam rachaduras na vegetao densa. O cacique e seus filhos resolveram entrar.Removeram alguns cips verdes que impediam a passagem e passaram por um vo que daria na boca da caverna.Pularam um riacho que corria tranquilo e manso por ali.Diante das luzes do crepsculo que se formavam,acharam melhor acender as tochas,friccionando dois gravetos que acharam por ali, com pedaos de peles embebidas com leos naturais incinerantes que os prprios ariquns produziam. O fogo iluminava o lugar,que,agora, aparecia claramente sua frente.O trio ficou perplexo perante as minuciosidades que se encontravam ali:Reconheceram inmeros insetos que se abrigavam no solo e se escondiam entre as rochas encharcadas e, temendo as chamas, fugiam de sua viso. Viram trilhas de formigas e cupins que se formavam em vrias paredes,alm de inmeros morcegos barulhentos e aranhas penduradas em suas teias.Agradeceram a Tup por tudo aquilo que viram. Foi Cati quem percebeu uma faca bem afiada cada no cho,rente s pegadas;e,avisando seu pai,recolheu-a e a guardou em uma bolsa que trazia consigo no peito. 6. Pingava sucessivamente uma gua cristalina que,ao escorrer do teto,formava estranhas formaes rochosas, as chamadas estalactites e estalagmites,que cresciam de cor vermelha e azul diante do pretume da caverna.Nas paredes,ao aproximar-se da rocha,viam-se inmeros pontos dourados tremeluzindo cravados nas paredes.Eram pepitas de ouro.Por outro lado,diamantes e rubis tambm estavam nas paredes do local,e a sala estava toda decorada com eles.Observando mais de perto,Cati reparou que havia ali uma flor de beleza singular,mpar,que parecia crescer sozinha em meio todas aquelas rochas.Ele pretendia lev- la para Manauana,e se aproximou para colh-la.Ao toc- la,ouviu um barulho muito estranho vindo da outra sala,e resolveu se certificar que no havia acontecido nada. Em um movimento incrivelmente rpido,o ndio acabou por desviar de um golpe desferido com uma faca,que viera da escurido atrs de seu corpo.Aquelas lminas lancinantes quase mataram Cati,e no mesmo instante ele percebeu que aquilo que havia acontecido com Jandira estava prestes a acontecer com ele.Esguio como um sagui,o ndio conseguiu se esgueirar por entre duas formaes rochosas e esconder-se, por alguns segundos, atrs delas. Cati j conseguia ver o outro lado da caverna,onde estavam seu pai e sua irm,porm,ao cruzar com uma poa d'gua no cho,o ndio viu refletido pela gua(agora iluminada pela luz de sua tocha) um rosto medonho,feminino,e com feies indgenas.Entretanto,aquele rosto no pertencia um ndio de sua tribo,e seus olhos...Oh!Estavam brilhando vermelhos como sangue!Aquela criatura estava sedenta por morte,via-se isso em seu rosto; desfigurado pela gua,que se mexia com cada gota que caa. 7. O ndio ariqum virou-se para ver melhor aquele rosto.Era a assassina de Jandira. Cati estarreceu-se de medo.Ficou estonteado,paralisado.Apesar de estar com sua vtima nas mos,a assassina ficou imvel,chocada por ter sido descoberta.Agora,os dois se olhavam,cara-a-cara,e no desviavam o olhar por nada.Queriam estar preparados para tudo. A goteira principal,bem prxima a Cati,parecia contar todo aquele tempo de combate visual em que permaneciam os dois.O ndio esperava pela ajuda de seu pai,e a ndia calculava qual seria seu prximo movimento,mas no esperou muito mais.Avanou com tudo para cima de Cati,sempre com os olhos brilhantes,cor de sangue. O guerreiro desviou-se agilmente dos primeiros golpes,mas a fria de sua adversria desconcertou-o por vrias vezes.Tudo o que mais queria era vingar a morte de Jandira,a mais bela das ndias ariquns. 8. Nada se comparava tcnica de Cati,porm nem todo o seu treinamento foi suficiente.Em um movimento preciso,a ndia assassina acabou por derrub-lo,que caiu com tudo em uma rocha. O barulho fenomenal chegou aos ouvidos do cacique,que foi correndo ver seu filho.Mas j era tarde.Chegando outra sala da caverna,Aquipati deparou-se com uma cena de um combate:As poas d'gua misturavam-se com algumas gotas de sangue de Cati,que no se encontrava mais ali. Manauana desabou em lgrimas.Algum havia levado seu irmo,e provavelmente seria o assassino de Jandira.Estava tudo perdido.Agora,ela calculou que ele seria morto e devorado em um ritual antropofgico.Sua fora seria absorvida junto com sua vida,e ela nunca o veria mais. Desolada,ela procurou consolo com seu pai,que a acolheu com um carinhoso abrao.Via-se o sofrimento em seu rosto.Os dois resolveram voltar para tribo em busca de