folhas e raízes - resgatando a medicina tradicional tupi-guarani

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  • Resgatando a medicina tradicional Tupi-Guarani

    Luan ELsio apyk DhEvan pachEco

    Djaroypy Djiwy Nhanmo Nhanderek Tupi Guarani

  • Gwara, paj

  • Nosso professor Nhander. ndio aprende pela natureza, atravs de sonhos. Nosso sonho tem muito significado, ns sabemos se a planta vai servir ou no, se venenosa ou no, e sabemos isso atravs da fora de Nhander.Gwara, paj

    Os mais velhos no estavam interagindo na escola. Trouxemos os mais velhos para a escola para as crianas aprenderem mais. Os professores sabem at, mas os mais velhos sabem mais alm.Luan Apyk, professor

  • Comisso Pr-ndio de So Paulo - So Paulo, junho de 2014

    AutoriaA publicao uma obra conjunta dos professores da aldeia Piaaguera (Ywy Pya), Luan Elsio Apyk e Dhevan Pacheco, com o apoio de seus alunos e das pessoas mais velhas, os txeramoi e txedjaryi, que so aquelas que conhecem o uso medicinal das plantas, em especial o paj e Amncio Samuel dos Santos Rkenedju.

    ApoioAmaro dos Santos Neto Gwedjya e Fabola dos Santos Cirino Apyradj

    TraduoA traduo e adaptao dos textos para o Tupi Guarani foram realizados com o auxlio de Gwyrap Mirindju

    Organizao e EdioOtvio de Camargo Penteado

    Fotos Carlos Penteado

    IlustraesCrianas da aldeia Piaaguera (Ywy Pya)

    Projeto GrficoIrms de Criao

    Apoio Publicao

    Apoio Institucional

    A Comisso Pr-ndio de So Paulo uma organizao no governamental fundada em 1978 que atua junto com ndios e quilombolas para garantir seus direitos territoriais, culturais e polticos, procurando contribuir com o fortalecimento da democracia, o reconhecimento dos direitos das minorias tnicas e o combate discriminao racial.

    Rua Padre de Carvalho 175 - 05427-100 - So Paulo - SP - BrasilEmail: cpisp@cpisp.org.br - www.cpisp.org.br

    http://www.irmasdecriacao.com.brhttp://www.cpisp.org.br

  • ndice1. A Medicina do Mato ......................................................................... 07

    2. Utilizando nossa Farmcia Natural ........................................ 08

    3. A Terra Indgena Piaaguera ...................................................... 10

    4. Folhas e Razes - Apresentando as plantas ....................... 12

  • 6

    Tem muita importncia ensinar novamente porque esto esquecendo muitas coisas. Eu aprendi com meus avs, com meus tios, que eram grandes rezadores, conhecedores da natureza, ento eu cheguei a conhecer muitas coisas com eles, tanto na parte espiritual como tambm na parte material a medicina do mato, n. Estamos fazendo isso para deixar alguma coisa, porque no vou viver muito tempo mais. Ento antes que meu corpo v embora quero deixar alguma coisa para eles ainda.Gwara, paj

    Hoje em dia quando as pessoas tm uma dor de cabea, uma dor de barriga, no pensam nas ervas medicinais, pensam logo em um remdio. Qualquer coisa quer tomar uma qumica. Essa cartilha vai ajudar para no ir nas farmcias sendo que tem um remdio na porta de casa.Aw Tenondegu, liderana da aldeia Piaaguera

  • 7

    A medicinA do mAto

    Como colocou o paj Gwara, essa cartilha fala da medicina do mato, aquela

    que os Tupi-Guarani aprenderam com a natureza e Nhander e que vem sendo

    transmitida de gerao em gerao. Mas que nos ltimos tempos anda meio

    esquecida especialmente pela gerao mais jovem.

    A cartilha Ywyr Rogw / Ywyr Rap atende a um anseio colocado Comisso Pr-ndio de So Paulo pelos professores indgenas da aldeia

    Piaaguera (Ywy Pya), Luan Elsio Apyk e Dhevan Pacheco: publicar o resultado

    das atividades que realizaram com seus alunos com o apoio dos txeramoi e das

    txedjaryi (mais velhos).

    Os professores promoveram caminhadas pelo territrio com seus alunos e

    os txeramoi e as txedjaryi da aldeia, que apresentaram para as crianas uma

    srie de folhas e razes que curam. A iniciativa visa resgatar e valorizar esse

    conhecimento tradicional.

    E esse o sentido dessa publicao: lembrar os mais jovens dessa sabedoria

    dos Tupi-Guarani. E instig-los a procurar os txeramoi e as txedjaryi e conhecer

    mais sobre a medicina do mato. No se trata de um catlogo exaustivo das

    plantas conhecidas pelos Tupi-Guarani e, sim, uma pequena amostra desse vasto

    conhecimento, um ponto de partida para o aprendizado e a reflexo.

    O contedo da cartilha produto de um trabalho coletivo dos professores,

    seus alunos, das pessoas mais velhas da aldeia Piaaguera e da equipe da

    Comisso Pr-ndio de So Paulo. Nosso papel foi o de auxiliar na edio do

    material, promover o registro fotogrfico das plantas e viabilizar o projeto

    grfico construdo pela equipe das Irms de Criao juntamente com

    os ndios, atividades realizadas com o apoio financeiro de Christian Aid,

    DKA ustria e Size of Wales.

    Comisso Pr-ndio de So Paulo

  • 8

    Utilizando nossa farmcia natUral

    Eu pensei em as crianas terem um livrinho de ervas medicinais que estavam pedidas, resgatar esse conhecimento, sendo que a gente tem essa farmcia natural aqui na nossa terra.Dhevan Pacheco, professor

    Luan Apik e Dhevan Pacheco

    H alguns anos uma das crianas de nossa escola sentiu dor de barriga durante

    uma das aulas. No tnhamos remdios para ajud-la e ningum para ir busc-los

    na cidade. Sem saber o que fazer, lembramos que a planta nhimbogw w regw

    (marcelinha) era usada antigamente para dor de barriga. Fizemos um ch com

    ela e a criana melhorou.

    Depois disso pensamos: na nossa aldeia h uma farmcia natural, no h

    motivos para dependermos somente dos remdios dos brancos e sempre correr

    atrs da Sesai. Ainda mais que nossos pais e os mais velhos sempre usaram as

    plantas medicinais.

    Comeamos, ento, um projeto na escola durante as aulas de Tupi para que

    esse conhecimento fosse resgatado. Fizemos um convite para os mais velhos

    cada semana vir um mostrar aquilo que sabia aos alunos da escola, que no

    conheciam nada das plantas e mesmo os seus pais estavam esquecendo.

    E ao invs de levarmos as plantas para a sala de aula, organizamos para que as

    crianas acompanhassem os mais velhos at elas, assim elas saberiam onde

    esto essas plantas. Escolhemos as prximas escola, as que as crianas teriam

    acesso com facilidade. Chegando no local, os mais velhos contavam s crianas

    qual era o nome daquela planta, para que poderiam utiliz-la e como a utilizar.

    Cada criana fez seu prprio caderno, em que anotava o que era dito e tambm

    colava a folha da planta para depois saber reconhecer.

    No foram s as crianas que aprenderam durante essas atividades. O projeto foi

    abraado por todos da aldeia. As crianas comearam a se interessar e relembrar

  • 9

    os pais sobre o conhecimento das ervas medicinais. Assim, outras pessoas

    comearam a participar das atividades e ns professores tambm aprendemos

    muito de um conhecimento to importante.

    Ao longo das atividades, os mais velhos passaram a participar da vida escolar e

    se sentiram valorizados. Traz-los para a escola tambm era um dos objetivos,

    j que antes eles eram os sbios, os que ensinavam, e a escola muitas vezes os

    afasta ao tomar esse lugar. Os mais velhos no estaro aqui para sempre e ns

    professores temos conhecimentos, mas no como o deles, que aprendem atravs

    dos sonhos, de Nhander.

    O processo de traduo tambm foi especial. Com a ajuda de Gwarap Mirindju,

    um dos membros mais velhos da aldeia, adaptamos para o Tupi-Guarani diversos

    termos como lcool que antes s utilizvamos em portugus e, ainda mais

    importante, iniciamos um resgate tambm da lngua, buscando palavras que

    estavam em desuso.

    A publicao do que foi realizado durante essas atividades vai nos auxiliar

    a continuar esse trabalho e fortalec-lo, ampliando a divulgao desse

    conhecimento dentro e fora da aldeia. o primeiro material produzido por ns a

    ser publicado dessa forma. A publicao dessa cartilha foi uma solicitao nossa

    Comisso Pr-ndio de So Paulo.

  • A terrA indgenA PiAAguerA

    Yvy Ptu We o suspiro da terra. O ndio quer ficar num lugar como este aqui. Quanto mais ter contato com a natureza, quanto mais Yvyra Jaku, mais ele pede, mais ele atendido. Se viver como o branco, ele vai podar o contato com a natureza. Quem no quer uma casa bonita? Eu no, quero morar assim.Gwarap Mirindju, ancio da aldeia Piaaguera

    A Terra Indgena Piaaguera, no litoral sul de So Paulo, morada de cerca de

    250 ndios Tupi-Guarani. Distribudos em cinco aldeias, eles ocupam uma rea

    de 2.790 hectares no municpio de Perube.

    Piaaguera foi declarada como terra indgena pela Funai em 2011 (Portaria

    n 500, em 26/04/2011). Porm, at junho de 2014, o processo de demarcao

    ainda no havia sido concludo, sendo necessria ainda a retirada dos ocupantes

    no indgenas pela Funai.

    A demora na concluso da demarcao apenas um dos muitos problemas

    enfrentados pelos Tupi-Guarani em Piaaguera. A terra um territrio

    extremamente vulnervel pela proximidade da rea urbana, pela existncia de

    uma estrada de uso intenso, pelo fluxo de turistas e pelos impactos causados

    por mais de 50 anos de atividade minerria no interior de suas terras.

    Os Tupi-Guarani buscam alternativas para viver da forma que consideram

    ideal em um ambiente sujeito a muitas presses e ameaas. A produo dessa

    cartilha faz parte dessa busca. Junto aos mais velhos, os professores e seus alunos

    buscaram a sabedoria tradicional sobre a cura e como viver de um modo que

    lhes traga felicidade.

  • Terra Indgena Piaaguera

    Terras