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  • FOLHA (especial): Lula acata conselho e no entrar nas guas do So Francisco em evento neste domingo Publicado em 18/03/2017 16:19 e atualizado em 20/03/2017 07:48 A seco -- A comitiva que ir com Lula transposio do So Francisco, neste domingo (19), respirou aliviada ao saber que ele acatou conselho para no entrar nas guas, como pretendia fazer. Havia temor do gesto ser visto como mau exemplo. (Na coluna PAINEL da FOLHA DE S. PAULO deste domingo) Anunciada com estardalhao nos ltimos dias nas redes sociais, a visita do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva a Monteiro (PB) e Sertnia (PB) neste domingo (19) correu de boca em boca nessas cidades como fato consumado antes mesmo de o petista confirm-la.

    Quando o presidente Michel Temer (PMDB) esteve na regio no ltimo dia 10 para inaugurar o eixo leste da transposio num evento fechado para convidados, entrecortado por gritos de manifestantes do lado de fora, os sertanejos ouvidos pela Folha j faziam planos para receber Lula. No semirido nordestino, a imagem do petista tem contornos quase mticos. A despeito da campanha publicitria macia do governo federal sobre a chegada das guas da transposio, entre as dezenas de entrevistados feitas em uma semana (de 10 a 15/3), preponderou a opinio de que Lula o responsvel pela obra.

    Da mesma forma, quase todos afirmaram que votariam no petista se a eleio fosse hoje. Na zona rural, no houve entre os entrevistados uma nica voz dissonante. Nas reas urbanas da regio por que passa a transposio, ainda que Lula tambm seja majoritrio, a reportagem ouviu vozes crticas corrupo nas gestes petistas e eleitores desiludidos com a poltica.

    A transposio contribuiu para a popularidade de Lula, mas listada, como justificativa de apoio, ao lado de outras polticas que beneficiaram maciamente os nordestinos, como o Bolsa Famlia, o aumento do salrio mnimo, a gerao de empregos e medidas menos vistosas contra a seca, como distribuio de cisternas.

    H quem nem saiba o nome do atual presidente, como o sapateiro aposentado Joo Soares de Souza, 76, de Monteiro. "Estamos esperando vantagem [com a transposio]. Se no tiver, desvantagem no vai ter. A seca est malvada, os invernos meio

  • poucos, com uma chuvinha de no fazer gua. O povo sempre tem f no Lula, foi ele quem comeou a enfrentar isso, depois ele botou a Dilma. Diziam que ela fazia melhor do que o que entrou...". Mas quem entrou no lugar dela? "E eu sei l. No sei no."

    A 65 quilmetros dali, num aglomerado de casas de uma mesma famlia chamado Cancelas, zona rural de Sertnia (PE), o lavrador Marcos Antnio de Siqueira, 46, e todos os seus parentes so lulistas.

    um local de aridez extrema, onde dificilmente a gua da transposio chegar (os canais e barragens mais prximos esto 30 quilmetros alm), e o rio Moxot, distante 2 quilmetros, est seco.

    Os Siqueira tm cisternas, mas pegam gua emprestada de vizinhos, pois no esto cadastrados no programa municipal que s vezes abastece a regio com carros-pipa o terreno onde vivem ngreme e acidentado, o caminho no chega.

    "O canal [da transposio] est cheio, mas a gente s v gua se for l de moto. Para a gente, no vai servir de nada, muito longe", afirma Marcos.

    Sem chuva nem gua para plantar, ele e os parentes sobrevivem da criao de cabras, de dois bois (comprados com um salrio-maternidade) e do Bolsa Famlia R$ 230 no caso de Marcos e sua mulher, que tm um filho de 9 anos, Joran, na escola. "Foi Lula quem deu esse comer a gente", ele diz.

    Em Salgueiro (PE), por onde passam canais do eixo norte, a agricultora aposentada Judite Epifnia de Jesus, 78, recorda que, antes de Lula, "ningum tinha uma cachorra para andar". Ao seu lado, o neto Reginaldo, 25, explica que "cachorra" moto, to comum no serto moderno quanto mandacaru.

    Ela semianalfabeta, ele tem ensino mdio completo, mas est desempregado. "Ruim ou bom, quem tirou nossa barriga da misria foi Lula. Quando era ele, havia emprego", diz Judite, para quem a corrupo um problema sem partido. "E os que no eram ladres? Esto presos ou ainda vo ser. Pelo menos Lula lembrou da gente, os outros nem isso."

  • A advogada Larissa Lopes, 25, de Cabrob (PE), votaria nulo ou em branco. "Todos tm problemas, perdi a esperana com a poltica. Lula fez muitos projetos, mas muitos deles so a causa do afundamento do Brasil hoje."

    O ento presidente Lula (de chapu) ao lado de Dilma (no microfone) em obras no eixo norte da transposio BOLSONARO Na cidade de Brejo Santo (CE), os namorados Riviele Teles, 19, estudante de educao fsica, e Vtor Macedo, 20, dono de lanchonete, se dividem. Ele Lula: "Roubou muito, mas fez muito. Tirou de quem tem, os outros tiram de quem no tem". Ela concorda, mas, logo hesita. Gosta tambm de Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

    Entre um e outro, votaria em quem? "Em Bolsonaro. Tem que ser uma coisa radical, para mudar logo", diz Riviele. Mudar logo o qu? "A criminalidade."

    Em Sertnia (PE), quatro rapazes que mergulhavam na barragem Campos da transposio no sbado retrasado se declararam eleitores de Lula. Questionados sobre que outros polticos so citados como opo entre os jovens da cidade, respondem: Bolsonaro. Alm de Temer e Lula, o tucano Geraldo Alckmin, governador de So Paulo com pretenso de concorrer Presidncia, tambm buscou se associar transposio, ao emprestar bombas da Sabesp para serem usadas num reservatrio da transposio.

  • Alckmin fez um evento para anunciar o emprstimo e depois foi ao Nordeste e sobrevoou a barragem onde foram instaladas as bombas. Os apoios dos Estados transposio tambm se guiaram pela bssola da poltica.

    "Bahia e Sergipe foram contra at que o PT conquistasse o poder nesse Estados. Voc tem dvidas de que o lobby da transposio ajudou nas eleies de Jaques Wagner [na Bahia] e Marcelo Dda [em Sergipe]? No podemos desconsiderar a vinculao poltica dessa obra com o projeto de poder do PT", observa o hidrlogo Joo Abner, professor titular aposentado da UFRN.

    Em meio a maior seca, transposio do rio So Francisco divide nordestinos (por FABIO VICTOR e EDUARDO KNAPP, ENVIADOS ESPECIAIS DA FOLHA AO NORDESTE) Onde o rio So Francisco desgua no primeiro canal da transposio, o pescador Jos Alton da Silva, 22, acampou h 15 dias com a mulher, Ana Paula da Silva, 31, e o filho Ulison Caio, de 2 anos. Moradores de Petrolndia (PE), foram em busca de comida, pescada das guas em uma entrada do rio antes conhecida como gua Branca.

    Com a chegada da transposio, o lugar, ponto de partida do eixo leste do projeto, passou a ser chamado pelos locais de Paredo. A trs quilmetros dali est a Estao de Bombeamento de Floresta (PE), que lana as guas do rio at Monteiro (PB), um percurso de 217 quilmetros cuja concluso foi inaugurada com festa pelo presidente Michel Temer no ltimo dia 10. A obra monumental j custou R$ 9,6 bilhes Unio e tem sua paternidade reivindicada pelo ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, que em 2007 tirou do papel uma ideia que circulava no pas havia anos. Em paralelo disputa poltica que marca a chegada das guas do rio aos canais e barragens da transposio, desenrola-se outra menos visvel, entre as populaes ao longo do trajeto da obra, atingidas pela seca mais severa em pelo menos 50 anos no Nordeste, que dura pelo menos cinco anos. Na ponta que comea a receber a gua, o que se encontra so euforia e esperana. medida que se desce no mapa em direo bacia do So Francisco, a maior parte dos moradores relata apreenso ou oposio ao projeto.

  • Neste segundo grupo est o casal Silva. "A transposio est prejudicando o rio. A bomba est ligada o tempo todo puxando gua, o nvel baixo e j est baixando mais", disse Jos Alton. "Entendo a alegria deles [moradores beneficiados], porque viviam de caminho-pipa, mas tem de ver o sofrimento que agora est causando aqui", emendou Ana Paula. Ao verem o rio baixo, ambos relatam receio de que a gua passar a custar mais caro e faltar para a agricultura na regio, outro sustento do casal.

    "Eles" a quem se refere Ana Paula so principalmente sertanejos de Paraba e Pernambuco. Gente como o pedreiro Sebastio Gomes Cazuza, 58, que trabalhou por trs anos na obra da transposio (ganhava R$ 6,64 por hora, conseguindo, com horas extras, tirar R$ 2.460 por ms) e no ltimo dia 11, um sbado, apreciava a gua do canal encher a barragem de Campos, em Sertnia (PE).

    Morador de uma rua sem abastecimento, acostumado a comprar gua de caminho-pipa 3.000 litros por R$ 45, Cazuza estava duplamente feliz, pelo saldo de seu trabalho e por vislumbrar uma vida menos seca. " suave e gostoso [ver a gua jorrar na barragem], bom, bonito, me sinto aliviado. Vai ser uma riqueza para c", afirmou.

    Na paraibana Monteiro, o clima semelhante. "A festa grande. Quem critica [a transposio] no conhece a situao de quem vive sem gua", observou o agricultor Fernando Gomes dos Santos, 26.

    CINZA E OCRE Ver a gua doce singrar o serto , para os que vivem no semirido, um alento amplificado pela circunstncia. Dados compilados pelo Cptec/Inpe (Centro de Previso de Tempo e Estudos Climticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) a pedido da Folha mostram que a atual seca na regio, ininterrupta desde 2012, no tem precedente desde pelo menos 1961. Os trs anos com menor volume acumulado de chuva desde ento foram 2015, 2012 e 2016. Considerando s a estao de pluviometria de Quixeramobim (CE), que tem dados desde 1896, o perodo mais seco em mais de um sculo.

    Segundo a ANA (Agncia Nacional de guas), os reservatrios do Nordeste esto com 13,8% de sua capacidade, ndice mais baixo

  • desde 2012. De acordo com o Ministrio da Integrao Nacional, 835 municpios da regio esto em estado de emergncia.

    Nestes dias, a paisagem dominante do serto nordestino a dos cinzas e ocres da seca, dos xique-xiques, mandacarus e algarobeiras entre dezenas de leitos de rios esturricados, conforme visto pela reportagem em 1.900 quilmetros pe