folha 19-04-2015

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  • FOLHA 19-04-2015

    HLIO SCHWARTSMAN

    Problema difcil?

    SO PAULO - Tom Stoppard, um dos principais dramaturgos britnicos vivos, conhecido por levar aos palcos temas filosficos e cientficos, resolveu pegar pesado em sua ltima pea. O assunto de "The Hard Problem" (problema difcil), disponvel em e-book, no nada menos que a conscincia humana.

    Os elementos para uma obra-prima esto ali. Hilary uma jovem psicloga que acredita em realismo moral e reza para Deus antes de dormir. Convicta de que h mais do que apenas neurnios no fenmeno da conscincia, ela se candidata a um emprego num importante instituto de neurocincia. A herona tem um relacionamento mais fsico que romntico com seu tutor Spike, um materialista empedernido que descreve a "Madona com o Menino" de Rafael como "mulher maximizando a sobrevivncia dos genes". Entram na trama ainda altrusmo, adoo, crise financeira, bilionrios com seus modelos matemticos de reduo de risco, fraude cientfica e at amor lsbico.

    No d para dizer que a pea seja ruim, mas, desta vez, Stoppard no comps uma obra magistral. Tudo maantemente escolar. Os personagens despejam de forma robtica a minuciosa pesquisa do autor. Mesmo a disputa sobre a natureza da conscincia no fica bem resolvida, nem em termos dramticos, nem cientficos. Stoppard no esconde sua simpatia para com o dualismo de Hilary, mas no o assume integralmente.

    O interessante aqui que, por algumas das vises antagnicas de Stoppard, nem haveria um "problema difcil" a resolver. Para os eliminativistas, estados mentais, isto , o que h de subjetivo na experincia da conscincia, so uma categoria inexistente e que no deveria fazer parte de nenhum programa cientfico. As ideias sobre psicologia que nos fazem ter a iluso da conscincia so to absurdas que um dia sero eliminadas do horizonte da cincia, assim como a astrologia o foi. Radical, mas ser que est errado?

    CARLOS HEITOR CONY

    Impeachment

    RIO DE JANEIRO - Pouco a pouco, a palavra vem sendo escrita e falada em todos os cantos onde se fala e escreve. Comeou veladamente, em algum artigo ou comentrio na mdia. Hoje, repetindo Nelson Rodrigues, ela assunto em todas as partes, nos botecos e velrios. No incio, parecia uma alucinao dos opositores do atual governo, ou de adversrios histricos do PT.

  • Agora, ela frequenta todos os veculos das mdias existentes. E citando o meu amigo Merval Pereira, at o Lula, discreto quando lhe interessa, no bota a boca no trombone, mas avalia os estragos que um impeachment da presidente Dilma pode trazer para seu partido e para seu projeto pessoal de volta ao poder.

    Tudo bem (ou tudo mal). H elementos bastantes para isso, mas h tambm a necessidade moral, poltica e jurdica de uma investigao isenta para a punio que, aparentemente, ela est merecendo. No apenas pelos escndalos do mensalo e do petrolo, dos quais a presidente Dilma foi de certo modo a grande beneficiria.

    Vamos com calma. No caso do impedimento de Collor, no havia o discutvel preceito da delao premiada. Quem delatou o ex-presidente foi o prprio irmo, que no recebeu prmio algum, a no ser um cncer que o matou logo aps a delao.

    Alm do escndalo que me parece o maior de nossa histria republicana, e talvez de todo o Imprio, a presidente est sendo justamente cobrada pelas retumbantes promessas da campanha eleitoral que a elegeu pela segunda vez. Em alguns pontos, no em todos, ela mentiu e enganou o eleitorado.

    E uma vez eleita e empossada, est cometendo tudo o que condenou em seus antecessores, exceto o ex-presidente Lula, que est necessitado de um grande gesto que o absolva de alguns erros de seu passado. Afinal, quem nunca errou que atire a primeira pedra.

    ELIO GASPARI

    A Petrobras blindou a roubalheira da SBM

    estatal ainda falta limpar o acobertamento de suas tenebrosas transaes com a companhia holandesa

    A doutora Dilma disse que a Petrobras "j limpou o que tinha que limpar". Falso. Falta limpar o acobertamento das suas tenebrosas transaes com a companhia holandesa SBM, a maior operadora de sondas flutuantes do mundo. Com sede em Mnaco, a maior empregadora do principado, perde s para o cassino. Faturou 4,2 bilhes de euros em 2012 e 60% de seus negcios davam-se com a Petrobras. Desde 2012 a diretoria da empresa sabia que distribura US$ 139 milhes no Brasil, onde seu representante era Julio Faerman, um ex-funcionrio da Petrobras que teve US$ 21 milhes numa conta do HSBC suo e hoje vive em Londres. Homem discreto, s se conhece dele uma fotografia, com uma mscara veneziana cobrindo-lhe os olhos. O contrato de venda da plataforma P-57 (US$ 1,2 bilho), por exemplo, gerou uma comisso de US$ 36 milhes.

  • A essa altura, comisses pagas por Faerman ao "amigo Paulinho" e a Pedro Barusco j esto na papelada de Curitiba. Falta limpar a maneira como a Petrobras e a Controladoria-Geral da Unio lidaram com o caso. A Lava Jato comeou em 2014, mas a faxina interna da SBM comeou em 2012. Existe uma gravao de um encontro de seus diretores no aeroporto de Amsterdam lidando com o caso. Nela, a Petrobras mencionada. O grampo partiu de Jonathan Taylor, um advogado da SBM que est em litgio com a empresa, que o acusa de chantagem.

    Em outubro de 2013 apareceu na Wikipedia um texto (provalmente de Taylor) denunciando a rede internacional de propinas da SBM e dando nome a bois da Petrobras. Dias depois, sumiu, at que o assunto reapareceu em fevereiro de 2014 na revista holandesa Quote. A Petrobras abriu uma auditoria para examinar seus negcios com a SBM e mandou funcionrios Holanda, sem dizer o que fariam. Num comunicado oficial, informou que eles no encontraram anormalidades. A SBM, por sua vez dizia que pagara US$ 139 milhes em comisses por servios legtimos e a petroleira fingiu que acreditou. Segundo Taylor, estava em movimento uma operao para abafar as propinas brasileiras. Ele parece ter razo, pois em novembro Graa Foster revelou que soubera das propinas em maio. E no contou ao mercado.

    A conexo brasileira foi varrida para depois do segundo turno. Dezessete dias depois da reeleio da doutora a SBM fez um acordo na Holanda e pagou uma multa de US$ 240 milhes. Em seguida a Controladoria-Geral da Unio abriu um processo contra a SBM e Graa Foster fez sua revelao tardia.

    Taylor contou ao reprter Leandro Colon que em agosto mandou CGU um lote de documentos. No dia 3 de outubro ele se encontrou na Inglaterra com trs funcionrios da Controladoria. Essa reunio foi gravada, com consentimento mtuo. A conexo SBM-Petrobras ficou blindada de maio, quando a campanha eleitoral mal comeava, at novembro, quando a doutora estava reeleita.

    A CGU diz hoje que abriu o processo em novembro porque s ento encontrou "indcios mnimos de autoria e materialidade". A ver. Isso poder ser esclarecido se forem mostrados os documentos recebidos pela CGU em agosto e o que foi dito no encontro de outubro.

    H uma velha lenda segundo a qual o Brasil seria outro se os holandeses tivessem colonizado o Nordeste. Darcy Ribeiro matou essa charada respondendo: "Seria um Suriname". Talvez seja um exagero, mas em novembro do ano passado, quando a SBM e o governo holands se entenderam, Robson Andrade, presidente da Confederao Nacional da Indstria, resumiu o que acontecera em Amsterdam e o que estava acontecendo no Brasil, onde as empresas apanhadas na Lava Jato negociavam acordos de lenincia:

    "Eu acho que o Brasil est amadurecido o suficiente para que no coloque essas empresas com esse selo (de inidneas). Ns vemos, por exemplo, que aconteceu a mesma coisa com a empresa da Holanda, a SBM Offshore. Ser que a Holanda vai colocar essa empresa como inidnea e no vai poder participar de mais nada no mundo?"

  • O governo holands e a SBM se entenderam e a Lava Jato est cuidando das propinas pagas a funcionrios da Petrobras, que ficou com toda a conta. Falta limpar o silncio da Petrobras a partir de maio e entender a rotina da CGU de agosto a novembro, depois da reeleio da doutora.

    Servio: Quem quiser, pode pegar na rede uma magnfica narrativa do caso na revista holandesa Vrij Nederland, intitulada "The Cover-Up at Dutch Multinational SBM", dos reprteres Ham Ede Botje, James Exelby e Eduard Padberg. Num sinal dos tempos, o trabalho da trinca foi amparado por uma fundao de estmulo investigao jornalstica.

    VACCARI E O PT SABIAM QUE ELE IRIA PRESO

    Joo Vaccari Neto sabia h mais de seis meses que seria preso. Desde janeiro a cpula do PT sabia que sua situao era desesperadora. Um dia o comissariado aprender a lidar com a proteo que d aos seus quadros acusados de corrupo. At l, arrastar as correntes do assassinato de Celso Daniel, do mensalo e do que se v por a. Pelas condies de hoje, mesmo que comece a fazer isso amanh, ainda assim ser tarde.

    Aldeia em RR sediar o primeiro jri composto s por indgenas

    Acusados respondero com base na legislao penal do Brasil

    Normalmente, crimes que acontecem dentro dos territrios indgenas so decididos pelas lideranas locais

    DE BELM

    Uma aldeia no norte de Roraima sediar, na quinta (23), um jri popular integrado s por indgenas, o primeiro do Brasil. Com dois rus macuxis acusados de tentativa de homicdio, o caso ser decidido segundo a legislao penal.

    A novidade elogiada pelo Judicirio, mas antroplogos afirmam que os ndios esto apreensivos. O caso envolve um tabu nas comunidades: a entidade maligna Canaim.

    A tentativa de homicdio em um bar ocorreu porque os acusados desconfiaram que a vtima havia assassinado outros dois ndios de forma brutal, crime atribudo a Canaim. Ao tentar cortar o pescoo da vtima, foram presos.

    Teme-se que a vtima seja jurada de morte ficar estigmatizada como Canaim.

    "Quando voc mata um Canaim, no vai a julgamento, porque est livrando a comunidade de um mal", explica a antroploga Lda Martins.

  • Pode tambm haver conflitos entre lideranas