fisiologia da videira

Download Fisiologia da videira

Post on 08-Jan-2017

228 views

Category:

Documents

2 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • FISIOLOGIA DA VIDEIRA

    Joston Simo de Assis Jos Moacir P. Lima Filho Maria Auxiliadora Coelho de Lima

    INTRODUO Neste trabalho sero discutidas as influncias de diferentes fatores fisiolgicos e ambientais sobre o desenvolvimento e a produo da videira cultivada em reas irrigadas do nordeste brasileiro. Entretanto, para que estes fatos sejam entendidos torna-se necessrio o conhecimento de alguns aspectos do processo fotossinttico, e, conseqentemente, da produo de aucares solveis e do amido, da distribuio dos produtos fotossintetizados, da fenologia e dos processos que levam a formao das gemas reprodutivas da videira.

    FOTOSSNTESE

    Todas as formas de produtos da videira (uvas, passas, sucos, vinho e lcool destilado de vinho) tm origem nos acares produzidos nas folhas por um processo conhecido como fotossntese. Atravs da fotossntese, as folhas transformam a energia do sol (luz) em energia qumica (ATP) que utilizada para promover a reao de gua da gua retirada do solo com o gs carbnico absorvido do ar para produzir carbohidratos (glicose, sacarose, amido, etc.). Esse processo ocorre em estruturas microscpicas, localizadas dentro das clulas das folhas, denominadas cloroplastos.

    Os cloroplastos contm os pigmentos verdes conhecidos como clorofila, os quais capturam a luz solar, emitindo eltrons carregados de energia os quais doam esta energia para a reao da gua com o gs carbnico.

    Em uma maneira muito simples e resumida est reao assim representada:

    6 CO2 + 6H2O C6H12O6 + 6O2 acar

    Esse acar, formado

    atmosfrico na forma de catodas as partes da planta fotossinttica total de uma vClorofilaLuz Solara partir nas folhas da videira, representa a fixao do CO2 rboidrato e est, agora, disponvel para o crescimento de e para a produo dos frutos. Uma vez que a atividade ideira determina, em grande parte, a sua produtividade, h

  • interesse em saber como os fatores ambientais, principalmente o clima, podem limitar esta atividade.

    Fatores externos como luz, temperatura e umidade do solo, estresse hdrico e fatores internos como patrimnio gentico, idade e nmero de folhas afetem a atividade fotossinttica e, conseqentemente, a fisiologia da planta, a produo e a qualidade dos frutos da videira. FATORES EXTERNOS Luz Solar

    A luz solar pode ser utilizada pelos viticultores para manejar a produtividade da cultura. Manipulando a largura e a altura da videira, atravs de alterao dos sistemas de conduo, direo das fileiras e do espaamento, o viticultor pode aumentar a quantidade total de luz interceptada pela folhagem, elevando desta forma a capacidade fatossinttica do cultivo.

    A intensidade de luz requerida para a mxima fotossntese, em condies ambientais adequadas, varia de 3.000 a 4.000 velas ou 150 a 200 watts por metro quadrado. Em termos mais facilmente compreensveis, essa quantidade de luminosidade igual a cerca de 1/3 a da luz solar total em um dia de cu limpo, ao redor do meio-dia, para uma folha disposta em ngulo reto em relao aos raios solares (Figura 1).

    Figura 1. Intensidade de luz sobre a fotossntese em folhas de videira

    Thompson Seedless e SyRah. (Kriedemann; Smart, 1971).

  • A intensidade de luz sob a qual a fotossntese atinge sua taxa mxima, tambm chamada de ponto de saturao de luz, fortemente influenciada pela condio ambiental sob a qual as folhas crescem, sendo menor para aquelas sob condies de sombra e maior para as folhas diretamente expostas a luz. A luz solar plena no totalmente aproveitada pela videira. Um tpico dossel de videira conduzida em latada, representa algumas camadas de folhas e apenas aquelas da camada superior esto diretamente expostas luz total durante o dia. Uma nica folha de videira, chega a absorver 90 a 95% da radiao solar em comprimento de onda efetivo para a fotossntese (400 a 700nm), mas o nvel de intensidade de luz que alcana as folhas sob a camada superior do dossel menor do que a requerida para a fotossntese mxima (Figura 2).

    Luz Solar Direta

    Primeira Camada de folhas Acima da saturao de luz

    Fotossntese no mximo

    Segunda Camada de folhas 1/3 da saturao de luz

    Fotossntese em do mximo

    Terceira Camada de folhas Ponto de compensao

    Figura 2. Quantidade relativa de luz absorvida por diferentes camadas de folhas em um dossel denso de videira. (Adaptado de Pommer e Passos, 1990) No h Fotossntese Lquida

  • De fato, se a luz deve passar atravs de duas camadas de folhas, a intensidade que alcanar a terceira camada estar teoricamente prxima do ponto de compensao de luz (100 a 125 velas ou 5 a 6,2 watts por metro quadrado), ou da intensidade onde a taxa de fotossntese apenas iguala a de respirao. Nesta condio, uma folha no ganhar nem perder peso.

    Dois outros fenmenos ajudam a aliviar a baixa luminosidade que normalmente prevalece no interior da folhagem: A luz difusa, isto , a luz refletida pelas nuvens, superfcie do solo, impurezas no ar ou de qualquer outro objeto. A maior proporo da luz que atinge essas folhas interiores a luz difusa e os flashes de luz, que so raios luminosos que penetram no dossel em conseqncia do movimento das folhas causado pelo vento.

    Foi demonstrado experimentalmente que a videira tem um mecanismo muito eficiente para utilizar os flashes de luz e que somente 1% da sua rea da folha necessita ser iluminada para compensar as perdas respiratrias. Todavia, mesmo com luz difusa e com os flashes de luz, existem folhas no interior de vinhedos que se encontram abaixo do ponto de compensao de luz. Estas folhas geralmente se tornam amareladas e eventualmente caem, o que uma maneira natural de eliminar folhas improdutivas, evitando que se tornem consumidoras. Essa condio pode ser minimizada, usando-se um sistema de conduo com menos camadas de folhas, permitindo que a maioria da rea foliar de um vinhedo receba radiao solar direta.

    Temperatura

    A temperatura determina a forma da curva de resposta luz, uma vez que a fotossntese envolve reaes bioqumicas catalisadas por enzimas. A curva de resposta da atividade fotossinttica temperatura pode ser dividida em trs categorias: insuficiente, tima e excessiva. A taxa de fotossntese insuficiente ocorre em temperaturas abaixo de 20oC, devido baixa atividade das enzimas que promovem a reao do dixido de carbono com a gua (enzimas carboxilativas).

    A curva de resposta tima para fotossntese em folhas da videira ocorre em temperaturas entre 25 a 30oC (Figura 3). Esta temperatura no necessariamente a tima para desenvolvimento de todas as partes da planta, uma vez que a translocao de carboidratos e o subseqente metabolismo das razes, pontos de crescimento e frutos, podem processar-se melhor em diferentes temperaturas. Sabe-se, por exemplo, que a sntese de pigmentos vermelhos (antocinicos) na pelcula das uvas maior em temperaturas entre 15 e 20oC do que entre 25 e 30oC.

    Em temperaturas superiores de 30oC a curva de resposta para a fotossntese passa a ser excessiva, reduzindo a atividade fotossinttica a praticamente zero quando a temperatura ultrapassa os 45oC. Altas temperaturas reduzem a atividade fotossinttica, pela inativao trmica de enzimas, dissecao de tecido e fechamento dos poros dos estmatos das folhas. Por outro lado, acima de 30oC, a respirao celular aumenta numa taxa mais rpida do que a fotossntese. Temperaturas de folhas diretamente expostas radiao solar em ngulo reto, ao meio-dia, podem exceder a temperatura do ar at em 10oC. Mas, geralmente, a temperatura das folhas expostas ao sol, durante o dia, est entre 0,5 a 5oC acima da temperatura do ar. O dficit de umidade tambm pode contribuir para aumentar a temperatura das folhas acima da temperatura ambiente.

  • Figura 3. Efeito da temperatura da folha da videira Thompson Seedless, mantidas sob luz solar (crculos cheios) e em casa de vegetao (crculos vazios) sobre a taxa de fotossntese lquida. (Kriedermann, 1980). Umidade do Solo

    A gua de considervel importncia na fotossntese, no apenas como um constituinte de reaes qumicas, mas, tambm, atravs de sua ao sobre o controle da abertura estomtica, seu efeito no murchamento das folhas e na manuteno da temperatura dos tecidos.

    A gua que combinada bioquimicamente com o CO2 da atmosfera para formar os acares, representa menos que 1% da gua absorvida pelas razes da videira, sendo o restante perdido por transpirao. Quando a demanda evaporativa causa transpirao da folha superior ao seu suprimento de gua, desenvolve-se dentro da folhagem uma presso negativa de gua. Quando esta presso negativa, que geralmente expressa como potencial de gua da folha, excede -13 atmosferas, os estmatos se fecham e a fotossntese para (Figura 4).

  • Figura 4. Efeito do stress na taxa de fotossntese de folhas de Syrah, onde 100 = 17,5mg CO2/dm-2.h-1. (Kriedermann e Smart, 1971).

    Se houver gua disponvel suficiente, o suprimento de gua da folha geralmente recupera-se, particularmente norte, quando a demanda evaporativa baixa. Se o suprimento de gua permanece inadequado, a videira eventualmente murcha. Quando isso ocorre, a funo estomtica temporariamente prejudicada, porque os estmatos deixam de reabrir, a despeito da restaurao do potencial de gua da folha.

    Cerca de uma semana pode decorrer antes que a funo estomtica e a fotossntese sejam totalmente restauradas (Figura 5). A demora em recobrar a performance fotossinttica devida ao do cido abscsico (ABA), um hormnio inibidor que acorre naturalmente nas plantas. Quando h estresse de gua numa videira, aumentam os nveis de cido abscsico. Este hormnio conhecido como indutor do fechamento do estmato, de forma que uma acumulao excessiva de hormnio nas folhas pode prolongar os efeitos de estresse de gua na funo estomtica e, assim, contribuir para a recuperao vagarosa da atividade fotossinttica