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  • Financeirizao, globalizao e Imperialismo no sculo XXI

    - apontamentos sobre o atual padro de reproduo de capital* -

    Marina Machado Gouva**

    Eje Temtico: Consecuencias de la Crisis Mundial (EJE 1)

    ResumenCom a acentuao da transnacionalizao e financeirizao de capitais privados nacionais, difundiu-se a ideia de que o sistema financeiro teria se descolado completamente do processo de valorizao do capital, dissociando-se do mesmo. Pretende-se apontar a relao intrnseca entre ambos e sua origem nas contradies inerentes reproduo ampliada de capital. Do ponto de vista econmico, o artigo identifica como traos fundamentais da acumulao capitalista nos ltimos trinta anos a prevalncia do capital fictcio e o aumento das taxas de mais-valia que a sustenta concretamente. Defende-se que tais caractersticas no conformam uma nova fase capitalista que supere o Imperialismo nas distintas acepes de Luxemburgo e Lnin e que, por sua historicidade, as mesmas s podem ser plenamente analisadas como traos do imperialismo contemporneo, em seus aspectos econmico, poltico, ideolgico e militar. Neste sentido, busca-se investigar o desenrolar da financeirizao entre 1971-2008, sob a gide da hegemonia dos EUA e do dlar flexvel como padro monetrio internacional, bem como elencar possveis desdobramentos polticos e geopolticos da crise precipitada em 2008.

    Palavras-clave: Financeirizao. Imperialismo. Capital financeiro. Capital fictcio. Padro de reproduo do capital.

    I. Apresentao e principais hipteses

    Que tempos so essesem que falar de rvores quase um crime

    pois implica silenciar sobre tantas injustias?(Bertold Brecht)

    A elevao dos EUA condio de superpotncia mundial com a vitria sobre a Unio das

    Repblicas Socialistas Soviticas e o fim da guerra fria no significou como muito pretendeu-se

    afirmar a conquista da estabilidade econmica permanente, baseada na desregulamentao e na

    suposta tendncia autorregulao neoclssica do mercado no nvel de equilbrio com pleno

    emprego. Tampouco significou a conquista da paz mundial via ultraimperialismos de distintos

    tipos1 apesar da supremacia militar estadunidense frente s demais potncias capitalistas, ainda

    que contestada pelo malsucedido enfrentamento a tticas de guerrilha e/ou de guerra de todo o povo

    * O presente trabalho fruto de pesquisa de doutoramento recm-iniciada e tem carter formativo, exploratrio e incipiente. Seu principal objetivo delinear o potencial das categorias imperialismo e capital financeiro no debate terico e poltico do assim chamado processo de financeirizao. Foi apresentado anteriormente nas V Jornadas de Economa Crtica, em Buenos Aires.** Doutoranda em Economia Poltica Internacional (PEPI / IE-CCJE / UFRJ) - marinagouvea@gmail.com1 Cf. Kautsky (1914), Hardt & Negri (2000) e, respectivamente, as crticas de Lenin ([1916] 1985) e Boron (2006).

    1

  • como as empregadas no Iraque e no Afeganisto. No significou, ainda, o fim da competio entre

    distintas potncias capitalistas por zonas de influncia econmica e poltica necessrias

    reproduo social dos capitais pertencentes aos grupos, fraes de classe e classes sociais com

    maior poder sobre seus respectivos Estados nacionais. E, certamente, no significou o triunfo final

    do capitalismo ou mesmo do neoliberalismo e a derrota fatal do proletariado nas lutas de classe,

    em teses fatalistas la Fukuyama.

    Pelo contrrio. Por um lado, os ltimos trinta anos foram marcados por crises precipitadas

    no sistema monetrio e financeiro e, desde 2008, assiste-se pior crise financeira da histria das

    formaes econmico-sociais capitalistas, ainda em desdobramento, e at o presente momento

    segunda pior recesso mundial nas entranhas do sistema capitalista, precipitada justamente em seu

    epicentro, os EUA. Por outro, lado, a elevao deste pas condio de superpotncia capitalista, ao

    invs de diminuir o nmero de conflitos armados, aumentou-o2.

    Nesse contexto, pairam perguntas como: O que caracteriza o capitalismo contemporneo?;

    Quais so as dimenses da atual crise econmica?; Poderia se tratar da crise final do paradigma

    neoliberal?; Poderia se tratar da crise terminal do sistema capitalista como um todo?. As

    respostas s viro com o tempo e com o desenrolar inexorvel da histria, sempre em movimento.

    Alguns elementos centrais, entretanto, vem sendo apontados pela extensa bibliografia preocupada

    em entender o momento atual e nesta bibliografia que apoiamos os apontamentos aqui realizados

    em carter exploratrio.

    Se, por um lado, h elementos para acreditar que os EUA conseguiram reafirmar seu papel

    no sistema capitalista mundial apesar da profundidade da crise atual (em especial pelo fato de que

    as foras contrrias a esta hegemonia, dentro e fora dos marcos do capitalismo, no tm se

    demonstrado suficientemente organizadas para enfrent-la), em qualquer um dos cenrios de

    disputa que podem ser traados dinamicamente mesmo a partir do dia a dia dos jornais, uma

    potencial generalizao de distintos conflitos para alm das fronteiras regionais pode ver-se

    aumentada na medida em que as possibilidades dos EUA garantirem sua hegemonia no apenas

    pela via da capacidade militar crvel, mas pela via da reproduo social de um consenso

    ideolgico, cultural e normativo sejam diminudas, por exemplo, pelo aprofundamento da crise

    econmica na Europa e no mundo. No existem, entretanto, vcuos de poder e uma transio

    hegemnica s poderia se dar mediante a existncia de candidatos ao papel de novo centro

    hegemnico. Lembremos, ainda, que a emergncia e/ou o fortalecimento de novas e velhas

    2 Sobre as intervenes militares perpetradas pelos EUA, ver Blum (2005a, 2005b) Matos (2005) e Fiori (2004). As guerras do Afeganisto (constituindo-se a queda das torres gmeas do World Trade Center como ponto de viragem), do Golfo e do Iraque (lideradas respectivamente por George H. W. Bush e por seu filho, George W. Bush) e as respectivas doutrinas de segurana a elas associadas marcam uma mudana na balana de poder do sistema interestatal capitalista, mas no na direo da paz mundial.

    2

  • potncias capitalistas pode levar guerra por uma nova repartio geopoltica e geoeconmica do

    mundo, com implicaes imprevisveis, dentre elas um possvel acirramento das lutas de classe ao

    redor do mundo, fazendo valer, na prtica, a mxima da guerra guerra parcialmente

    responsvel, por exemplo, pela Revoluo Russa.

    Ambas crise e guerra esto estreitamente associadas contnua reproduo social e ao

    aprofundamento do padro de acumulao de capital desenvolvido na esteira das crises da dcada

    de 1970 e para o qual estas configuraram-se como ponto de inflexo. A queda da taxa mdia de

    lucros3 nessa dcada e as crises associadas a polticas econmicas de corte keynesiano refletiam e

    impunham a necessidade de uma reconfigurao da acumulao de capital (ao passo em que o

    questionamento da hegemonia estadunidense a partir do aumento da dvida, da derrota no Vietn

    e da emergncia de governos socialistas e no alinhados impunha a necessidade de uma retomada

    e aprofundamento desta hegemonia, no sentido da disputa e manuteno de relaes de poder).

    Por outro lado, a revoluo cientfico-tcnica nas tecnologias de informao (que

    possibilitou a virtual integrao dos mercados), a retomada da hegemonia do dlar sobre as demais

    divisas (com a alta da taxa bsica de juros deste pas e a prevalncia da remunerao do capital no

    associado diretamente ao setor produtivo sobre aquela do capital associado a este) e a vitria na

    Guerra Fria (com o fim aparente ainda que potencialmente momentneo da ameaa premente de

    uma alternativa concreta sociedade capitalista, aps um sculo no qual foram dados muitos anis

    para manter gordos dedos) refletiram e configuraram a possibilidade desta reconfigurao, com a

    destruio dos aparelhos de corte keynesiano e a imposio da ordem neoliberal sob a hegemonia,

    retomada e aprofundada, dos EUA, possibilitando o aumento das taxas de explorao dos

    trabalhadores e o impulso participao do capital fictcio no processo de reproduo social

    capitalista. A nova ordem social que emerge por volta da dcada de 1980 e aprofunda-se na dcada

    de 1990 baseou-se, portanto, no duplo pilar das assim chamadas globalizao neoliberal e

    financeirizao especulativa que, de mos dadas, impuseram nos planos econmico, poltico,

    ideolgico e militar a lgica dos novos padres de acumulao ao redor do mundo.

    Assim, do ponto de vista econmico, parte das estratgias necessrias reconfigurao do

    capital sob a gide dos EUA corresponderam s velhas formas assimtricas de internacionalizao

    do capital financeiro em roupas novas (roupas neoliberais e desregulamentadoras). Os EUA e os

    demais pases capitalistas, de acordo com as relaes de explorao e subordinao protagonizadas,

    no sistema interestatal, pelas fraes dominantes internamente tm de garantir, para o conjunto de

    seus monoplios a transnacionalizar-se: a) acesso a todos os insumos necessrios produo (sejam 3 Note-se que aqui nos referimos queda conjuntural da taxa de lucros especificamente na dcada de 1970, no tendncia de longo prazo queda da taxa de lucros enunciada por Marx no livro III de O Capital, ainda que ambas no sejam de nenhuma maneira excludentes.

    3

  • mercadorias tangveis ou intangveis), inclusive o petrleo, cuj