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FINANCEIRIZAO E DESINDUSTRIALIZAO: uma anlise da situao brasileira a

partir da dcada de 1990

Daniele de Ftima Amorim Silva1 Talita de Sousa Nascimento2 Joo Carlos Souza Marques3

Jainne Soares Coutinho4 Gianna Beatriz Cantanhede Rocha de Lima5

RESUMO medida que o Brasil se inseria na onda global de crescimento e estabilizao, ocorreu um processo de inegvel esgotamentento da produo industrial, com encolhimento persistente do valor adicionado e do nvel de empregos nacionais. O Estado se tornou refm de um tissunami financeiro a procura de valorizao crescente, enquanto simultaneamente a necessidade financiar o dficit em conta corrente pressupunha articulao de polticas monetrias restritivas - manuteno de juros elevados; e polticas fiscais contracionistas, para fabricar um supervit primrio que remunerasse os capitais externos. Contudo, h espao para retomada da participao do Estado e do processo de industrializao no pas. Palavras-chave: Brasil; desindustrializao; financeirizao.

ABSTRACT As Brazil became part of the global wave of economic growth and stabilization, an undeniable process of industrial production exhaustion with a persistent shrinkage of additional value and national employment level occurs. The State becomes hostage of a financial tsunami with an increasing appreciation quest; while simultaneously the need to finance current account deficit, suppose an articulation of restrictive monetary policies maintain interest rate high; and contractionary fiscal policies, to build a primary surplus capable to pay the external capitals. However, there is space to retake State participation into the industrialization process of the country. Key Words: Brazil; Deindustrialization; Financialization.

1 Pesquisadora, economista e mestre em Desenvolvimento Socioeconmico da Universidade Federal do Maranho. E-mail: dfasilva89@gmail.com 2 Pesquisadora, economista, mestre em Polticas Pblicas e doutoranda em Polticas Pblicas pela Universidade Federal do Maranho. E-mail: talitadsn@yahoo.com.br 3 Graduando do dcimo perodo de Cincias Econmicas da Universidade Federal do Maranho. E-mail: joo_csm@hotmail.com 4 Graduanda do oitavo perodo de Cincias Econmicas da Universidade Federal do Maranho. E-mail: jainne_18@hotmail.com 5 Graduanda do stimo perodo de Cincias Econmicas da Universidade Federal do Maranho. E-mail: gianna_rocha@hotmail.com

1 INTRODUO

O debate sobre processo de desindustrializao no Brasil carece de qualificao

no sentido de apontar suas reais causas e possveis consequncias para a nao. Entende-

se o fenmeno da desindustrializao como um processo de mudana estrutural

caracterizado pela reduo da atividade industrial em determinado pas ou regio

(SILVESTRE; HAFFNER, 2015, p. 2), ressaltando que perda de participao da indstria e do

emprego industrial no Produo Interno Bruto a cristalizao deste processo em curso.

Dito isso, a principal hiptese deste artigo que a insero desregrada ao

arcabouo neoliberal de desregulamentao financeira e liberalizao levaram a

desarticulao progressiva das foras produtivas e sendo responsvel por destruir a indstria

nacional e criar um ambiente propcio alavancagem financeira e reprimarizao da pauta

exportadora. Nesse sentido, busca-se mensurar em que medida o processo de

financeirizao da economia brasileira impacta na industrializao conquistada em meados

do sculo passado, comandada, principalmente pelo ente estatal; e iniciar uma breve reviso

bibliogrfica da terminologia capital financeiro com as principais argumentaes utilizadas

para qualificar o processo crescente da financeirizao no mundo. Logo em seguida aborda-

se a desindustrializao brasileira via processo de financeirizao nacional, elaborando breve

resgate do perodo que o antecede o processo de industrializao. Demonstra-se que a

postura ativa do Estado brasileiro enquanto promotor do desenvolvimento por meio da

industrializao se esfacela medida que o capital financeiro inunda a economia e as

recomendaes de uma poltica fiscal mais ortodoxa se implementam no pas at o ponto em

que o Estado torna-se refm do artesanal ideolgico neoliberal, obstruindo seu ativismo e aos

poucos deteriorando a grande indstria, smbolo da sua trajetria desenvolvimentista.

2 FINANCEIRIZAO COMO PRODUTO DAS CONTRADIES DO PROCESSO DE

ACUMULAO DO CAPITAL

Em o Capital, Marx utiliza a expresso capital financeiro como uma forma

especfica de capital portador de juros, que se apresenta sob a forma dinheiro realizando a

funo de circulao para o capital industrial e comercial. Essa funo especfica do capital-

dinheiro em busca de espaos de valorizao, se d a partir do processo inerente ao

capitalismo na realizao da produo.

O dinheiro efetua alguns movimentos puramente tcnicos no processo de circulao do capital industrial e do capital comercial, como por exemplo, pagamentos, recebimentos de dinheiro, operaes de compensao, etc. quando estes movimentos se tornam funo autnoma de um capital

particular que os executa como operaes peculiares e nada alm disso, transformam esse capital em capital financeiro (MARX, 1985, p.363).

Apesar deste conceito definido por Marx se centrar no sistema de crdito, pautado

no emprstimo para investimentos em bens materiais com a garantia de pagamento de juros,

ele tambm desenvolveu o conceito de capital fictcio, desvinculado da materialidade e

capitalizado em rendimentos futuros. De forma que, essas duas categorias marxianas levam

compreenso do que outros autores viriam chamar de capital financeiro.

Hilferding (1985) foi o primeiro autor a chamar ateno para o termo capital

financeiro. Para ele, haveria uma espcie de sobreposio do capital bancrio sobre o capital

produtivo, como resultado dos investimentos crescentes do capital bancrio na indstria. O

capital financeiro significa a uniformizao do capital. Os setores do capital industrial,

comercial e bancrio antes separados encontram-se agora sob a direo comum das altas

finanas (HILFERDING, 1985, p.283).

Dessa forma, supe-se que est em curso um processo de financeirizao,

processo esse, entendido por Chesnais (1996), como fase de dominncia financeira ou

etapa particular do estgio do imperialismo compreendido como a dominao interna e

internacional do capital financeiro (CHESNAIS et al., 2003, p.46) e por Harvey (1990), como

regime de acumulao flexvel. Ambos face da mesma moeda, tentando explicar a insero

do neoliberalismo no mundo contemporneo, que por sua vez,

Envolve uma mudana nas relaes sociais internas em favor dos interesses do credor e do investidor, com a subordinao dos setores produtivos aos setores financeiros, e com uma tendncia a afastar da riqueza do poder e da segurana a maior parte da populao trabalhadora. A transformao do ambiente externo dos Estados toma o nome de globalizao: envolve a abertura da economia poltica de um pas entrada de produtos, empresas, fluxos e operadores financeiros dos pases centrais, tornando a poltica governamental dependente dos acontecimentos e decises tomadas em Washington, Nova York e outros importantes centros capitalistas (GOWAN, 2003, p.9).

O rompimento do modelo estrutural, que at o incio dos anos 80 dominava o

cenrio mundial, era um prenncio de um espao de valorizao inovador pela dimenso que

ganhava em termos mundiais. Harvey (2005) denomina o perodo como:

Uma crise de sobre acumulao do capital se origina do estado em que o reinvestimento do capital no mesmo empreendimento/setor produz lucros decrescentes devido aos limites de valorizao, ou seja, quando a mais-valia produzida, em quantidade sempre crescente, no pode mais ser reinvestida de forma lucrativa.

A crise de acumulao e os problemas estruturais enfrentados com queda nas

taxas de retorno do capital impulsionava o modo de acumulao flexvel, essa nova etapa

marcada por um confronto direto com a rigidez do fordismo (HARVEY, 2005, p.140), que

substitudo gradualmente por um modelo baseado na internacionalizao de empresas e

intensificao dos fluxos das finanas mundiais.

Para Chesnais (1998, p. 17) a gradativa reconstituio de massa de capitais

procurando valorizar-se de forma financeira, como capital de emprstimo, s pode ser

compreendida levando em conta as crescentes dificuldades de valorizao do capital

investido na produo. Dando origem, segundo Silvestre; Haffner (2015, p. 3) a trs

movimentos distintos voltados para favorecer a acumulao do capital em escala global e sob

o domnio do capital financeiro: de financeirizao, de terceirizao e de relocalizao das

atividades econmicas.

A virada neoliberal iniciada pelos Estados Unidos e Inglaterra com seus planos de

liberalizao, de desregulamentao e privatizao, reuniram as condies polticas e sociais

para a consolidao do regime financeiro. Categoricamente, Chesnais (1998) divide o

processo de mundializao financeira em trs fases distintas. A primeira fase, est ligada ao

enterro do Acordo de Bretton Woods (retirada do lastro-ouro do dlar), resultado da deciso

unilateral da economia norte-americana e sua condio geopoltica privilegiada,

desconsiderando os efeitos negativos sobre a estabilidade cambial e situao de pases

perifricos. Para Chesnais (1998, p. 25), o movimento foi uma medida dos EUA para

contornar o seu duplo dficit oramentrio e fiscal, visto que o pas foi e conti

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